Curtas do urso inconformado

urso inconformado

Mania de marcar pra cortar o cabelo cedo. Não quis acordar tão cedo assim e pra chegar lá às 9h, ou eu tomava café correndo ou deixava pra depois. “Tem padaria boa aqui perto?”. Aí minha cabeleireira falou – “Sobe a Blablablá, cruzando a com Blublublu, sabe? Daí volta meia quadra e tem uma ótima”. Adivinha se não fiquei andando feito uma tonta em ruas aleatórias.

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Aí, na padaria que eu achei. Pedi um café com leite e um pão com queijo. O menino anotou um valor só, seis e pouco. Demoram pra atender, me trazem um pão quente – “Era frio, mas vá lá, me dá esse troço”. Nada do meu leite com café. Quando já comi metade, chamo a atendente, mostro a ficha: “O rapaz marcou isso aqui e só trouxeram o meu pão. E o leite, tá aqui ou não tá?”. “Ah” – ela diz num tom pouco convincente – “ele só marcou o pão. Deixa que eu te trago o leite e faço outra ficha”. Valor da outra ficha – pão quatro reais e pouco, café dois reais e pouco. Olha, até eu que sou lesa em matemática percebi.

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“Que delícia esse bolo!”, eu elogio. “É muito fácil de fazer, você pega…”- à exceção de uma única amiga, que (talvez por ter mais idade) simplesmente não é capaz de acreditar que alguém não saiba se virar na cozinha, eu já interrompo: “Não adianta me dizer como é que se faz que eu não vou lembrar e nem fazer. Se eu quiser comer de novo, vou ter que passar na tua casa e você fazer pra mim”. E não é que tem gente que faz mesmo?

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Fui contar vantagem da minha bota peludinha e deu no que deu, até hoje não veio a dita cuja. Mas como vou comprar quase com 50% de desconto direto do fabricante (uma vez na vida tô me sentindo bem relacionada?) não dá pra reclamar. Me vejo quase torcendo pra voltar a esfriar absurdamente de novo.

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O brilho secreto

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Quando aquele cara que eu considerava meio louco – e não no bom sentido – me falou com muita seriedade que disseram que ele tinha um tipo de mediunidade especial, que ele não é qualquer um, não pude deixar de sorrir por dentro. Acho que todo mundo já ouviu, de alguma fonte fidedigna, que somos especiais. Não digo aquele amplo, no sentido que todo mundo é filho de Deus, e sim um “VOCÊ, apenas você é assim”. Num caso muito angustiante que eu conheço, Ela desde sempre foi criada numa redoma, com mimos fora da  sua realidade e que claramente terminariam no início da vida adulta. Todo mundo tentou fazer alguma coisa, alertaram e ofereceram caminhos, mas ela nunca aceitou. Minha teoria é que, no fundo, Ela achou que seria salva – tudo aquilo era ela, lhe pertencia por direito, jamais lhe seria tirado. De uma maneira ou de outra, daria certo. Quem sabe um dia, andando por aí, ela conhecesse um homem rico e… Acho que é a união da crença do brilho secreto com a cultura do casamento que que torna as mulheres tão vulneráveis aos cafas: quando um homem no primeiro encontro já declara amor eterno, um lado diz que é impossível, rápido demais – mas o outro lado pensa: “quem disse que não é possível? Não é possível para os outros. Ele está dizendo isso porque me olhou por dentro, como ninguém nunca olhou, e o que tem lá é único e especial mesmo”. No início do documentário sobre Vivien Mayer, surge a pergunta: por que uma fotógrafa tão talentosa não correu atrás e não mostrou seu trabalho ao mundo? Eu acho que justamente por se saber tão boa é que ela não correu tanto atrás. O trabalho dela falaria por si. Eu tive essa ilusão quando esculpia. Todo mundo crê no brilho secreto, uns mais, outros menos – e talvez seja melhor fazer parte do time do menos, porque eles ficam inseguros e se mexem. Senão, ficamos na esperança de que um dia seremos descobertos e essa outra alma sensível vai nos tirar daqui – através de casamento, emprego ou galeria -, no meio desse lugar medíocre onde estamos por puro acidente.

Menos impacto

Olho para trás e vejo que os documentários que mais me marcaram ultimamente – Muito além do peso, Escolarizando o mundo e agora The true cost – têm a ver com as mudanças radicais no nosso modo de vida causadas pelo capitalismo. E eu nada posso contra o capitalismo. Depois de ver The true cost, tive que passar no shopping porque tem um caixa eletrônico lá, e ver aquelas lojas, as roupas (52 coleções por ano!) e ter noção do que está acontecendo a todas as pessoas aqui (“Estamos cada vez mais pobres, mas não sentimos isso porque agora podemos comprar mais camisas”) e do outro lado do mundo (além da nada básica exploração financeira, temos degradação ambiental, epidemia de suicídio, gerações de crianças com problemas mentais e motores pela contaminação) é demais. Dá vontade de parar as pessoas na rua, gritar, quebrar uma vitrine, sei lá. Mas a gente não apenas não pode fazer isso como também não tem nem como evitar comprar numa dessas lojas. Eu lembro que quando saiu o anúncio de trabalho escravo na Zara, muitas pessoas (eu inclusive) se propuseram a não comprar mais lá. Algumas mantiveram a determinação mais tempo, outras menos, mas no fim todo mundo viu que se não for a Zara é outra loja de departamentos, ou até mesmo o camelô da esquina, porque não há mais roupas feitas sem algum tipo de exploração.

Os especialistas apontam que o problema é mudar todo sistema, e eu nada posso no sentido de mudar o sistema. Mas, ao mesmo tempo, acho que não podemos assumir a luta como perdida e não fazer nada. Eu tento aderir a umas causas, pra pelo menos não chafurdar alegre e cegamente em tudo o que me é oferecido. Idealmente, bom seria não ter que fazer nada que gere lucro, nada que contribua com algum tipo de destruição – mas aí eu seria reduzida à mendicância. Não sou ninguém, pro sistema me cuspir é muito fácil. Quando escrevi meu post sobre andar a pé, uma celebridade de internet me acusou de ser ecochata, que nem todo mundo pode viver uma vida sem carro. Eu concordo totalmente, nem todo mundo pode. Hoje eu não preciso, amanhã posso ter um emprego ou uma outra necessidade que me obrigue. Se viver sem carro começar a ficar prejudicial demais, fora de mão demais, terei. Então eu entro nas causas que eu posso, nas que eu consigo levar adiante. Outros pessoas, outras causas – o que é bom, porque se todos adotassem as mesmas duas ou três, como ficaria o resto? Andar a pé eu consigo, comida mais natural e orgânica não, porque sou lamentável na cozinha. Acho triste demais a obrigação que pesa sobre as mulheres de serem sempre jovens e magras, por isso escrevo sobre o assunto, replico links, vigio meus conceitos e minhas atitudes. O que me parece importante é tentar, nem que seja por pura obrigação moral com a outra ponta do nosso consumo.

Meu pé meu querido pé

Não quero nem saber dos cartazes “Eu já sabia” que vocês vão erguer, pra mim foi uma grande descoberta pessoal reconhecer a importância do pé nas condições climáticas. Chuvas tenebrosas se tornaram quase nada pra mim depois que comprei galochas. Bolsa de água quente no pé em dias frios é tão bom que olha, não encontro nem metáforas para comparar. Agora me aguardem quando eu colocar as minhas mãos, ou melhor, os meus pés na bota peluda que encomendei. Minha vida vai mudar. Serei feliz, andarei pelos campos floridos aos pulos e conhecerei meu príncipe. Quiçá pare de reclamar do frio. Tudo porque meus pés, meus queridos pés, estarão quentes.

Pudor

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Não gosto de falar de mim. De vez em quando alguém se propõe a me conhecer, senta numa cadeira na minha frente, olha nos meus olhos e me faz uma pergunta pessoal direta. Não uma brincadeira ou uma opinião, coisa que ofereço com muito prazer, e sim um fato biográfico – o que você faz, em que colégio estudou, qual o seu plano? Invariavelmente fico muito sem graça, respondo com outra pergunta, tento desviar o assunto, dou uma resposta evasiva. Soa estranho eu dizer isso, eu sei. Estou aqui o tempo todo falando eueueu, me expondo e expondo também aqueles que um dia fizeram parte da minha vida. Numa ordem de importância, eu diria que a biografia é muito menos do que o expor, e anterior a isso é o escrever, o comunicar. O que eu tento fazer, na verdade, é usar a minha biografia como meio. Sabe quando você está com quem ama e conversa sobre o tempo, a meia furada, o que o cachorro aprontou, o que pensou enquanto mastigava o pão ou andava até ali e coisas incrivelmente banais, cada vez mais irrelevantes, porque na verdade o importante é estar lá? Estar lá, mostrar que você se importa e manter um vínculo. Falo eueueu porque é o que tenho. Se tivesse acesso a outra biografia para isso, pode ter certeza de que a usaria no lugar da minha.

Self

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Soa bastante místico, mas não precisa ser. Para mim é perfeitamente explicável se pensamos que o nosso consciente é uma parte muito pequena, justamente a menor de quem somos. Enquanto o consciente – aquela pequena ponta do iceberg – está preocupado com seus pequenos discursos, o inconsciente está registrando e reagindo a tudo. A cada dia que passa, me convenço mais de que, num primeiro contato, sabemos tudo o que queremos de alguém. As palavras que trocamos tocam apenas um nível muito superficial; antes mesmo das coisas serem ditas, as energias foram trocadas e cada um já sabe o que precisa. Isso explica o porque de às vezes alguém nos dizer tudo certo, recitar a nossa cartilha de gostos e lugares preferidos direitinho, e mesmo assim não acontecer nada. Outros, ao contrário, podem enunciar os gostos e opiniões mais estranhos e mesmo assim dali sai um afeto. E quando olhamos para trás, nos nossos relacionamentos errados, os encaixes neuróticos, as pessoas que amamos e nos feriram – não se pode alegar inocência em nenhum deles. Apenas o consciente comprou as mentiras e as explicações fraudulentas. Em algum lugar, a gente sabia. Sabia que não era amor, que iria nos fazer mal, sabia que ia quebrar a cara. A gente sabia e viveu o que queria viver.

Modelar um livro

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Se fosse pra falar bem tecnicamente, eu deveria dizer que modelava e não que esculpia. Esculpir é quando você apenas retira do material, como uma pedra ou madeira. Quando você lida com um material flexível – argila, massinha, etc.- que permita que se faça retiradas e acréscimos, o nome disso é modelagem. Esculpir é infinitamente mais difícil, exige um outro tipo de raciocínio e não permite erros. A pessoa precisa ver no bloco exatamente o que vai fazer. O que foi modelado pode ir pra um molde e aí adquirir resistência e ficar como uma pedra. Por isso que o esculpido comum é reto, carranca, sem detalhes, tende ao imóvel. O modelado permite mais ousadia. Mas isso quando pensamos em feirinha; quando a referência é o melhor, os clássicos, os mármores gregos, vemos textura de pele, veias pulsando, lágrimas.

Escrever é como modelar e nisso está o nosso grau supremo de nudez. Quando Gregório Duvivier lançou seu livro de poesias, ele disse que se sentia mais exposto do que qualquer outra coisa que tinha feito, muito mais do que vestir uma roupa verde apertada que lhe adivinhava as partes íntimas. Sou uma artista de feirinha expondo meu trabalho no mesmo mundo de Bernini. Se eu tive o tempo que quisesse e podia colocar na história o que quisesse, não tenho desculpas quando um leitor crítico me diz: isso daqui está confuso, mal escrito, que pieguice. Eu não tenho como dizer que foi sem querer, ou que já estava lá quando eu cheguei, naquela hora eu não estava olhando. Pior ainda se é um arquivo com 38 páginas exaustivamente trabalhadas durante mais de dois anos. Se toda minha imaginação, leitura e capacidade de revisão conseguiram isso, apenas isso, não há onde me esconder, de mim e dos outros. Essa é a nudez extrema de que o Gregório falou.

Há autores que se internam durante quinze dias e de lá saem com um livro, assim como há aqueles que passam dez anos com um manuscrito sebento debaixo do braço e não terminam nunca. Sou mais desse time. Também já li que o livro termina não quando a gente para de mexer e sim quando nos arrancam e nos impedem de modificar mais. As minhas 38 páginas são uma história triste, onde aproveitei para repensar muitas dores dos últimos anos. As partes mais verossímeis são as mais mentirosas, e vice-versa. Não faço a menor ideia se está bom, o que sei é que estou cansada. Nessa última revisão já foi difícil segurar o tom, porque estou em outra fase, feliz e a fim de pensar em coisas mais felizes. Como parecia que este dia não chegaria nunca, estou sem planos. Olho para listas de editoras, a dificuldade generalizada de publicar e me arrepio. Não vou me preocupar com isso agora. Terminar de escrever é ufa, férias!

Preta-velha

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Eu via que a linha que mais fazia sucesso era da esquerda, com os Exus e Pombas-Giras. Tudo muito prático, muito claro – quero mais dinheiro, quero aquele homem pra mim. Como eu não ia atrás de nenhuma das duas coisas, eles não me davam muita bola e nem eu a eles. Já os Pretos-Velhos me tocavam bastante. As coisas que eles falavam soavam vagas, sempre em metáforas, e à primeira vista davam a impressão de ser uma pregação impessoal. Depois eu vi que não, que as palavras deles têm longo alcance.

Foi na época que eu estava brigando com a história da máquina de costura, um problema que durou meses. Eu ajoelhei na frente da Preta, fui benzida, ela me perguntou se eu estava bem. Eu disse que sim – meu humor sempre melhorava só de estar lá – e ela me olhou. Disse que feliz de quem no dia chuvoso adivinha o sol que tem atrás, de quem é capaz de olhar o céu cheio de nuvens e não esquecer das estrelas. E completou: “Isso tudo vai passar, mizinfia, só mais um pouco de paciência. Já está acabando”. Na hora eu achei que ela estava falando da minha máquina de costura – depois eu vi que era mais do que isso, era todo um ciclo doloroso que estava se encerrando. E se encerrou.

Três curtas, três problemas

metamorfose

Eu sempre achei exagerado quando as pessoas se queixavam dos pés gelados que nada resolve. Nos dias muito frios as minhas duas meias também ficavam meio inúteis, mas e daí? Não sei se é o frio recorde, a idade ou o quê, mas eu viciei em colocar bolsa de água quente nos pés. Meu receio é nunca mais voltar a ser uma pessoa normal.

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Outra: aqueles filmes que tem escritores, e eles se isolam dizendo que vão escrever, e não escrevem, a editora manda cartinha, eles inventam uma desculpa, mandam mais, mandam gente e o cara nada. “Nossa, que exagerado”. Então.

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Privadas com caixa acoplada são ecologicamente mais corretas, mas tenho vontade de jogar as minhas pela janela. A mais recente questão – se for contar tudo o que já passei dava um livro, etc. – é que uma delas precisa que eu dê uma leve ajeitada na tampa para não ficar vazando água por dentro. Mas não vaza sempre e nem é imediatamente. Então me pego como marido traído, abrindo a porta do banheiro de repente pra ver se flagro algum barulho.

Nós onze

como hacemos

Das pessoas que eu conheço, eu sou aquela cuja morte menos impactaria o mundo. Não tenho filhos, marido, namorado, alunos, empregados, nada. Ninguém está sob minha responsabilidade. Eu nem ao menos sou parte importante da rotina de alguém. Mas não se preocupe, isso não é nenhuma carta de despedida.

Eu não sei o que traz vocês aqui. Pra começar, nem sei quantos vocês são. Ao longo dos anos, fui perdendo meu contadores de visitas, e a proporção entre o número de acessos que eles informavam era assim:

Google analytics > Blogger > Facebook > WordPress

Como tenho preferido jogar meus acessos pro WordPress, de acordo com os número que tenho hoje, este blog tem uns dez leitores. Sério. Me parece que tenho um pouco mais do que isso, mas sejamos realistas: o WordPress não está me roubando umas dez mil pessoas. Tem mais gente aí mas não são tantos assim. Outro ponto é que nunca entendo muito a lógica dos posts. Algumas coisas que me deram o maior orgulho de escrever tiveram reações pífias, enquanto outras que fiz meio que só pra constar tocaram pessoas. Então sempre abro o computador sem saber o que me espera.

Eu não sei o que os traz aqui, mas eu sei o que me traz aqui. Pode ser muito lógico para quem está do outro lado, mas não faz muito tempo que me dei conta de que acabei criando uma auto-biografia online. Que a qualquer momento qualquer pessoa tem acesso a anos da minha vida. Esse olhar nem sempre será bondoso, nem sempre colocará as coisas em perspectiva ou vai entender o que eu disse. Basta ter interesse e se dar ao trabalho de ler. Não foi a minha intenção ter uma biografia online, eu jamais teria tido uma ideia tão narcisista, mas aceito. Fico imaginando uma futura sogra, sabe? Minha ex-sogra levou muitos anos pra gostar de mim – ela viu uma moça, indícios de comportamentos, tirou conclusões. Não tinha como ser muito diferente. Quando a gente é jovem, somos muito intenções e possibilidades. São os anos que nos dão trajetória. Então minha futura sogra, depois de me ler, pode gostar ou não de mim, mas jamais poderá alegar ignorância.

Estou lendo sobre o Jango e recebendo o material do Murilo Gun e os dois me fizeram constatar o quão pequeno é o meu alcance. É difícil calcular o impacto que a gente tem; na matemática dá pra confrontar centenas ganhando indevidamente os 77 reais do Bolsa Família ao lado de um desvio de verba de milhões. Na vida real, horas de falação podem ser menos importantes do que um único encontro. Quando e como conseguimos realmente dizer algo relevante, deixar alguma marca no coração de alguém?

Eu não sei o que os traz aqui e nem quantos vocês são. Eu também gostaria de fazer bem ao mundo, de ter um grande projeto, de ser uma influenciadora, gente do mesmo naipe do Darcy Ribeiro. Se fosse apontar duas características de um grande projeto (estou sendo o pai da Little Miss Sunshine agora), eu diria que ele tem que envolver muitas pessoas e ser generoso. E taí meu calcanhar de Aquiles, sempre tive problemas com esse lance de muitas pessoas. Muito por timidez natural, um pouco por acreditar que não precisaria delas. Por isso minha programação de aniversário inclui computador e bolsa de água quente nos pés, igual estou agora. Cada um tem suas facilidades e desafios, lidar com pessoas pra mim sempre foi segundo item.

Não serei mãe, por consequência não serei avó. Não serei professora, então não terei alunos. Que não serei presidente não é preciso dizer, mas eu nem ao menos serei celebridade de internet. Somos só eu e vocês, nós onze. Eu não sei o que os traz aqui, sei apenas o que me traz: a necessidade.

Mortalidade

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Era de noite, eu estava no ônibus e me sentia miserável. É que estar miserável era meu estado normal aqueles dias. Aí meu ônibus parou no sinal na frente de outro, e naquela outro havia adolescentes rindo e uma moça com saia curta e uma meia calça de bolinhas. Por algum motivo eu achei que valia a pena estar ali, vê-los rindo, ver a meia calça de bolinhas.

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Eu me pegava muito pensando Nela. Quando as coisas estavam ruins, quando minha mente me torturava pelo fim, pela minha burrice, pelos meus erros, por tudo. Acho que o masoquismo era demais e chega uma hora que o organismo reage. Ele me dizia: “Ok, você está sofrendo muito por ter se separado. Mas o que seria melhor, ser Ela?” Não, eu tinha que reconhecer que não. Ela, naquele momento, não sofria pelo fim de nada porque jamais começou.

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Na noite anterior eu já sentia sinais. Uma contagem regressiva. Eu jamais havia entendido gente que comemora data de morte e coisas tristes, achei que era apenas desligar. Aí descobri que não é assim. Dormi pensando no assunto e já não acordei bem. Tentei várias coisas e nada me animava, até que antes das 10h eu sentei no sofá disposta a chorar todas as lágrimas, o dia inteiro. Foi naquele exato momento que Ele me convidou para almoçar, e quando soube como eu estava, para passarmos o dia juntos.

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Foi a minha dentista que, sem querer, me mostrou que eu era normal. Fomos da mesma turma de pilates durante alguns anos e eu a conheci pouco antes de se separar. “Nos fins de semana eu ia pra casa do meu ex, pra fazer faxina. Imagina só. É que você ainda está tão ligado que não sabe ficar sem o outro, aquela rotina. Com o tempo foi passando”.

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À caminho de casa eu estava pensando em publicar no meu facebook que o meu aniversário está chegando, pros amigos já ficarem sabendo e se esmerarem nos votos de felicidade e memes. Lembrei do Anderson, dos votos lindos que ele fez naquele aniversário, dizendo que eu era uma luz para os meus amigos. Só de lembrar eu me emociono, foi tão importante naquele momento. Quando eu chego em casa, o mesmo Ânderson publicou uma notícia tão triste, da filha que ele desejou tanto.

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O tempo, esse devorador de coisas.

 

Curtas com só duas ou três vergonhas

hoje o dia foi bom

Se em algum momento, antes de fazer algo, nem que seja muito rapidamente, a pergunta “e a minha lombar?” passar pela sua mente, você está velho. Alias, só saber onde é a lombar…

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Quando você se pega torcendo pra pessoa quebrar a cara, o namoro não dar certo, o site não funfar, a vida ficar toda esquisita, porque quem sabe assim, só assim, você tenha como se aproximar.

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Fui num evento cheio de veganos, todos jovens, de cabelo colorido e roupas pretas. Eu só parei de comer carne, isso não era um movimento. “Quem sabe, se tivesse isso naquela época, eu também teria tido uma turma”. “Ah, não” – me corrigi depois – “certeza que não”. Eu os acharia chatos, que os hábitos alimentares não revelam caráter e muito menos definem comportamentos fora da mesa.

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Sempre fui assim, vou morrer assim, Gabrie-ela!

Jango e Tereza

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A biografia de Jango fala principalmente da política, mas em uns pedaços o autor fala da Maria Tereza, do que ela testemunhou e como foi o casamento dos dois. Não foi nada conto de fadas. Jango era famoso mulherengo, tanto que ficou com problema no joelho por causa da sífilis. Quando eles se conheceram ela tinha treze anos e ele aparecia pra vê-la quando ia pro Rio Grande visitar a família. O pedido de casamento veio por parte de um assessor, uma coisa bem “o Jango precisa casar porque é candidato”. Ela, com dezessete, disse que não queria. Nem os pais estavam a fim, mas meio que teve que ser. Aí rolou aposta na cidade – Jango era rico, de família rica, ministro e ela uma pobretona. Acharam que ele não apareceria. Choveu pra caramba naqueles dias, Jango não conseguiu teto pra desembarcar e ele mandou uma procuração. Só puderam se encontrar dias depois. Tereza nunca soube como é que eles fizeram com as apostas, porque ele não apareceu e ao mesmo tempo se casou.

Cantadas

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Sou muito paciente e bem pouco bélica nas minhas interações. No que depender de barracos virtuais, nunca me tornarei famosa por aqui. Já tentaram puxar briga comigo diversas vezes e vou te dizer que é difícil se manter agressivo quando o outro lado é gentil. Então estava analisando a minha atitude praticamente contrária quando sou cantada. Quando recebo uma cantada, eu me torno o próprio Seu Saraiva. Fico com sangue nozóio. E não estou falando de cantada de rua, que nem merece esse nome, estou falando daquele cara que se aproxima quando você está de saia curta e drink colorido na mão, sentada numa banqueta alta ao lado do bar. (Já me adianto em dizer que não fico nessa posição há anos, justamente porque me conheço.)

ACHO que o problema é o seguinte: boa parte das nossas interações sociais é apenas a repetição de fórmulas vazias. Dizemos bom dia, boa tarde, boa noite, perguntamos como está o neto, dizemos que o cabelo ficou ótimo e nada do que é dito realmente importa. O importante é a intenção subjacente de ser educado e querer demonstrar que reconhecemos o outro como indivíduo. Mas, ao mesmo tempo, se uso só fórmulas, é porque estou num terreno seguro e não vejo quem está por detrás. Meu tipo preferido de gente é aquele que em poucos minutos consegue economizar todas essas palavras vazias e ir direto para a essência. Mas eu reconheço que isso é muito mas uma característica de personalidade do que da interação. Tem quem faça isso em poucos minutos, tem quem possa viver ao teu lado a vida inteira e não enxergar nada.

Eu aceito isso no dia a dia. Uma pessoa chega perto de mim com uma fórmula, finjo que não sei que é uma fórmula e aplico outra. E assim fingimos que nos vemos e nos importamos. Mas daí – agora entra a cantada – um sujeito se aproximar de mim com uma fórmula barata, que ele joga pra cima de todas as fêmeas e com isso achar que eu vou me encantar e deixar ele partilhar da minha intimidade é demais pra mim. É um atentado à minha inteligência.

-A gente vai pra sua casa ou pra minha?

-Os dois. Você vai pra sua casa e eu vou pra minha.

“Mas é um elogio, tem que ficar feliz, desse jeito você nunca vai desencalhar”. Ok.

Entre quatro opções e paredes

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Tem esses testes do Facebook – quem você foi na vida passada? Que palavra melhor te descreve? Que amigo é o seu anjo do mal? Chamam de teste e geralmente nem são, você entra e o site sorteia uma resposta aleatória. Mas, no caso, era um teste mesmo. Era pra gente clicar em uma série de imagens e informações a nosso respeito, pra isso gerar um teste personalizado. Respondi o de uma amiga e estava fazendo o meu. Coloquei que entre praia, cama, nos braços de alguém ou balada eu preferia estar na praia, numa sequencia de foto com vários esportes, respondi que o que eu mais gostava era natação… aí apareceu pra eu escolher minha posição sexual preferida, com quatro desenhos de opções. Fechei a janela.

Eu que sou pudica ou é realmente too much information? “Eu errei o teste, porque achei que você gostava de ladinho e…” Não.