Amor (ou pelo menos tolerância) no coletivo

i created it myself

Eu passei dias pensando no tema, mas achei que vocês iam me matar se eu viesse aqui dizer que o segredo da popularidade é gostar das pessoas. Cheguei nisso assim: eu li o Como Fazer Amigos e Influenciar as Pessoas na adolescência. Lembro até hoje do olhar de pena da funcionária da biblioteca. Mas o meu interesse foi muito menos puro do que o de ser popular e sim de entender o mecanismo. Só lembro agora da regra que dizia que é muito importante lembrar do nome das pessoas, porque para elas é a palavra mais bonita do idioma. Ele é cheio de regras que fazem muito sentido quando as lemos, mas lembro que minha popularidade continuou a mesma na época que tentei aplicar. Acho que eu não soava sincera.

Com o tempo, meu relacionamento com as pessoas foi melhorando e acho que aplico ainda menos as regras do que antes. Eu levo muito tempo para aprender nomes e os desaprendo num instante. O que eu acho que aconteceu é que passei a gostar mais das pessoas – desde aqueles com quem tenho afinidade ao fulano que nem olha pra minha cara. Eu tento entendê-las nas suas razões. O segredo dessa mudança em mim, acho, foi começar a olhar para as pessoas como parte de gerações – graças à sociologia e ao meu próprio envelhecimento. O que individualmente pode ser difícil de engolir às vezes faz todo sentido no contexto. Por exemplo, o imenso apelo que o candidato de direita teve sobre a geração que tem pra lá de seus sessenta anos. A pauta moral os conquistou, ponto. Faz sentido se pensarmos nas mudanças radicais eles presenciaram, tanta liberdade e quebra de paradigmas no espaço de poucos anos, as certezas que eles têm e que talvez ninguém mais daqui pra frente tenha. Enfim, raciocínios desse tipo me fazem ser menos difícil de conviver com escolhas que eu abomino. Sou boazinha? De modo bem prático e egoísta: viver sem odiar o entorno é mais leve.

Zen p*** nenhuma

O A arte cavalheiresca do arqueiro zen é um dos livros da minha vida. Eu cresci querendo viver uma experiência daquelas, queria encontrar um mestre oriental e me embrenhar uma arte que me ajudasse a superar o ego. Agora, em recente surtada flamenca, estava me perguntava que diabos eu estou fazendo lá, eu seria tão mais feliz se lidasse com o meu terror de me expor no palco da mesma forma que lido com outros terrores – não me coloco na situação. Pergunta se eu tento saltar de paraquedas. Ele fica lá e eu aqui, tudo bem.

Tal como o autor do livro, me vejo levando anos pra aprender o básico do básico, uma simples respiração. Aí entra o inconformismo de quem sempre se saiu muito bem em outros assuntos que exigem leitura e perfeccionismo, conquistava os professores pelo seu empenho, e agora se vê reduzida à condição de aluna com quem se precisa ter paciência. Enquanto outros mais jovens disparam felizes e cheios de ritmo, eu me vejo atacada de todos os espíritos malignos do meu inconsciente e começo a errar o que fazia até agora pouco, mas de forma anônima. Olhou pra mim, puf: coração disparado, bloqueio, derrota antecipada. Como é horrível sentir ódio de si mesmo, de sentir que ser tímido é uma condição problemática de ser sem nenhuma vantagem.

O corpo leva muito tempo. O corpo resiste ao QI e cultura, às leituras e estratégias, aos insights reveladores. Ele não se deixa dobrar às terapias milagrosas e nem a conclusões muito bonitas com o objetivo de mudar de rumo repentinamente. O corpo leva anos pra fazer um luto, por mais que a gente queira se encher de remédios e substituir o que foi perdido pelo modelo mais recente. O corpo leva anos pra adotar um gesto. O corpo não está nem aí se a condescendência das pessoas te incomoda, se você acha que merece mais, se você é o fodão em outra atividade. Assim como ele não está nem aí se você é um fracasso em tudo e gostaria que, naquele espaço, a história não se repetisse. O corpo leva anos para aprender uma simples respiração. Quem sabe o corpo do outro não, quem sabe o corpo do outro conquiste em três anos mais do que você conquistou em nove. Conquista sim que eu vi, com estes mesmos olhos do meu corpo. Mas acha que o corpo se importa? Ele vai continuar no ritmo dele. Lento, muuuuuito lento.

E ainda estou de mal com o fato de ser tão tímida.

falta muito

Três de tecnologia

Estou por aí igual uma pregadora recomendando a pequena série de três documentários Netflix sobre o Bill Gates. Uma das diferenças culturais que noto entre nós e os norte-americanos é que nós brasileiros temos uma antipatia – inveja ou esquerdismo? – à figura de empresários bem sucedidos. Então, nada mais natural que eles façam um documentário, assim como nada mais natural que ninguém queira seguir a minha recomendação. Eu mesma não teria clicado se não tivesse visto a entrevista que a mulher do Bill Gates, Melinda Gates, deu ao Letterman no Meu Próximo Convidado (também Netflix). Vi e pensei – que mulher! Terminei bem fã dele. Não é só que eles doam dinheiro para a caridade, é um colocar seus recursos, acesso e inteligência para tentar ajudar o mundo. A gente não apenas fica fã do casal como sai até convencido de que energia nuclear é possível.

As outras duas recomendações são meio juntas. No 21 Lições para o século XXI, Harari faz algumas “previsões” baseadas no que há de mais atual em pesquisas. Lá ele fala de fim de profissões, não apenas aquelas que já estamos acostumados a pensar porque são repetitivas, mas também algumas que consideramos nobres, como médicos e advogados. Também saí falando do livro do Harari, mas sem a menor credibilidade pra falar de fim de advogados por aí, sabe como é a repetição da repetição. Neste vídeo o Maurício Ricardo me ajuda, ele fala da mesma sensação quando tenta alertas as pessoas e lê um texto sobre alguém velha guarda descobrindo o futuro que se desenha. Eu reconheci muito umas pessoas que eu conheço naquele texto. Acho que você também vai reconhecer (ou se reconhecer). Se gostar do vídeo, aproveita e engata também no Bill Gates e quem sabe até o Harari?

 

As ilusões armadas

elio gaspari

Eu nunca fui do time que achou que não existiu ditadura, eu fui criada numa casa onde se ouvia Chico Buarque e se explicava que eram músicas de uma época que não se podia falar abertamente, que notícias eram substituídas por receitas de bolo, que pessoas sumiam e reapareciam “suicidadas”. Por isso, nunca senti necessidade de ler sobre a ditadura. Mas estou sempre lendo alguma coisa, e passo por períodos maníacos que leio, vejo e pesquiso tudo possível sobre o mesmo assunto. Meus interesses me levaram sem querer à década de 50, e me vi fã de toda aquela época. O Brasil bombava como destino turístico chique, bombava com bossa nova, mandava Carmen Miranda pra fora, descobria o samba da melhor qualidade dentro, construía Brasília, recebia grandes pesquisadores. Era tudo tão legal que eu quis saber porquê deixou de ser tão legal, o contraste entre aquele Brasil de 50 e o Brasil que eu nasci que sempre se odiou era muito grande. Fui pela lógica: se era assim em 50, a resposta está em 60. Foi aí que eu caí no período militar. Escrevi no FB: amigos, o que devo ler para entender o golpe de 64? Foi assim que cheguei ao As Ilusões Armadas, a série de 5 livros de Élio Gáspari. Achei os 4 primeiros na Biblioteca e o último volume teve que esperar pela compra do Kindle.

Os livros são interessantes, bem escritos, consistentes; a série é um clássico, basta ver as críticas. Durante a leitura me aconteceu algo que jamais havia me acontecido na vida: eu passei a ter pesadelos, como se eu visitasse os locais. Lembro do pior deles, logo depois de ter lido sobre o Araguaia. Havia uma pessoa que iam matar, mas saiu uma ordem que cancelava. Acho que ele era enfermeiro. Lembrem-se que na época não existia celular, se a pessoa não estava do lado de um telefone, não tinha como avisar. Era uma questão de tempo – haviam saído atrás dele, outro saiu para tentar avisar que não era mais pra matar. Nos pesadelos, eu sempre chegava no local e não havia ninguém lá, a violência já havia acontecido e as pessoas foram embora. Mas o chão estava cheio de sangue. Poça no lugar onde a pessoa morreu, marcas do corpo que foi arrastado. A dor, os gritos, a violência. As paredes se lembravam e eu sentia tudo mesmo sem ver.

Nunca quis ser “especialista” em ditadura, li o livro pra mim, gosto da dura verdade. Existem muitos motivos que levam as pessoas a negar que tenha havido ditadura, ou que foi um preço necessário, ou que não foi tão violenta assim, ou que só foi violenta com uns poucos ou que mereciam. Acho que o que há de pior ao estudar este período é olhar o mal tal como ele é – o mal não precisa de Diabo, ele é humano e pode foi institucionalizado com cartilhas, especialistas e contracheques.

 

Trazer alegria

marie kondo

Começou uma onda Marie Kondo quando apareceram os episódios na Netflix e, como sempre parece acontecer na internet, depois das reações iniciais boa, a moda virou e o bacana é detestar a Marie Kondo. Mas mesmo entre aqueles que disseram que não têm paciência com o jeitinho dela, acabam repetindo um conceito fundamental do seu método: trazer alegria. Além de ver os episódios, li o livro, e achei que ele realmente dá dicas valiosas. Percebi que eu me desfaço com facilidade de roupas, mas me dói muito lembranças e presentes. Coisas que nem ao menos gostei quando ganhei, atulham minha vida, e não acho correto me livrar. Ela dá alguns conselhos práticos a respeito e recomendo a leitura – só procurar pelo nome dela no LeLivros, caso você queira baixar.

Conversando com amigas sobre a Marie Kondo interior, eu percebi que consigo me desfazer com facilidade porque minha mãe me fez associar esse descarte com alegria. Limpávamos meus brinquedos periodicamente, e ela sempre destacou que aquele brinquedo que eu nem lembrava mais que eu tinha faria uma outra criança desconhecida feliz. Sempre acabo imaginando que, em algum lugar da cidade, tem uma pessoa com a roupa que não me caía bem ou o bibelô que eu não gostei, e feliz da vida.

O gramado

grama-esmeralda

Nunca mais olhei grama da mesma forma depois que Harari – posso quase jurar que foi no Homo Deus – contou brevemente a história dela. Grama é um símbolo de status. Lembre-se que antigamente quase a única profissão possível era trabalhar com a terra e a maior riqueza era ter terra. Imagine que alguém era tão rico, mas tão rico, que podia se dar ao luxo de ter um monte de terra inútil. Terra coberta de um verde que não serve pra nada. E que pra ficar bonito precisa de manutenção constante. E manutenção de gramado não é só cortar, precisa ver o mato. Antes de mudar pra casa, eu achava um crime que as pessoas tampassem a parte com terra, achava que se fosse eu, manteria tudo o que pudesse com grama e plantas. Aí você coloca a grama e com o tempo, por mais que você cuide, o mato se prolifera de um jeito que a grama original já não existe mais, você precisa arrancar tudo e trocar por uma grama virgem. Lembrei disso porque choveu e corri pra arrancar os matos que crescem na minha calçada. Mandei cimentar pra não ter trabalho e praticamente nasce uma forragem nova de mato todo mês. Corri porque finalmente choveu bem é quase impossível arrancar mato quando a terra está seca, de modo que esperei, vingativa e rancorosa, enquanto o sol castigava e eles se fortaleciam. E lá, acocorada e estragando minha coluna, me dei conta de que quem inventou a grama não arrancava mato.

A guerra sem vencedores

krishna-e-arjuna

“Que valor pode ter conquistar um reino e pra isso matar quase toda sua família?” – essa é a pergunta que Arjuna num dos clássicos fundadores do hinduísmo. Ela é a essência da essência. É assim: tem um livro grande, uma cosmologia, chamado Mahabharata. Conta a história da família Bharatha, que num certo momento começa a ter uma confusa sucessão ao trono e dois clãs declaram guerra: os Pandavas e os Kuravas. Arjuna é Pandava, o lado bonzinho. No meio do livro, quando os exércitos estão perfilados, ele pede a Krishna – que seria uma encarnação de Deus – levar a quadriga dele para frente, para observar a formação dos exércitos. Quando ele vê o lado oponente e reconhece lá seus primos, mestres e amigos, Arjuna se entristece e diz não estar mais disposto a lutar. Que aquela guerra não seria vitoriosa nem pra quem ganhar e nem pra quem perder, porque quem ganhasse não ia realmente ganhar e quem perder… (/Dilma). Além do desgosto, ele se pergunta qual o dever dele naquele momento: guerrear, porque era um guerreiro e o outro lado havia declarado guerra e criado aquela situação, ou respeitar o sangue familiar e abrir mão do que lhe era direito em benefício da continuidade do seu clã. Esta conversa, em que Krishna explica a Arjuna o conceito de Dharma, é o Bhagavad Gita.

Os períodos de crise são reveladores. Eu imagino que é a diferença entre ter muito dinheiro e se ver com pouco, e com esse pouco todos os gastos desnecessários são cortados e se parte pro básico. E assim descobrimos: qual o básico? Sem ter energia para tudo, tendo que escolher muito bem o que fazer e como fazer, para que direção corremos? De tanto me preocupar com o que tem acontecido e não saber o que fazer, me vi pensando de novo no Gita, livro que eu consultava na adolescência e mantive na biblioteca quase que apenas por motivos emocionais. Como Arjuna, no que vivemos agora, me parece que a vitória perdeu o sabor e minha vontade é me abster porque sou pequena demais diante dos fatos. Para quem quiser spoiler sobre a resposta de Krishna, ela é: aja e abstenha-se do resultado da ação, a ação deve ser um fim em si mesma. O dever é tentar agir de forma justa, honesta, correta e se vai dar certo ou não, se seremos aplaudidos ou ignorados, aí não é mais problema nosso. Se você não age buscando resultados, a linha de conduta deixa de estar fora e passa ser o que está dentro, agir da melhor forma em consonância com quem você é. Isso combina com uma citação de Shakespeare que eu adoro:

Se fôsseis tratar todas as pessoas de acordo com o merecimento de cada uma, quem escaparia da chibata? Tratai deles de acordo com vossa honra e dignidade.

Hamlet/ ato II cena II

Ou, dito ainda numa terceira forma: não se torne mau porque o mundo é mau.

Sem merecer

harari

É difícil demais ver alguém conquistar algo que não conseguimos. Falando sinceramente, nem precisa ser alguém conquistar aquilo que sonhamos; às vezes a gente nem sabe que aquela possibilidade existia, aí a pessoa ao nosso lado alcança e pronto, nos dói muito não ter o que até então ignorávamos. Nos últimos dias os assuntos de bolsas e cotas estão muito presentes, por motivos óbvios. Até que ponto existe dívida histórica, até que ponto alguém deve ser favorecido com dinheiro ou reserva de vaga? Como fazer isso sem colocar no lugar alguém que não merecia, retirar o mérito do esforço, não deixar sem lugar um que também quis muito e lutou para chegar até ali, embora sua luta seja menos visível?

Hoje eu olho para trás e vejo o quanto fui competitiva sem me assumir como competitiva. A competição se manifesta nessa régua que nos faz constantemente medir o dos outros, em comparação com até onde achamos que eles merecem chegar e até quanto nós merecemos. Quero deixar claro aqui que o que direi também me soa bem difícil. Harari, um escritor que lançou seu terceiro livro agora, da série Sapiens, faz algumas previsões no livro Homo deus, que nada mais são do que conclusões lógicas baseadas no que estamos vivendo hoje. Ele diz que as massas, de uma maneira ou outra, eram úteis para gerar capital, mas que no futuro o nosso desenvolvimento técnico vai superar isso. No lugar de muitas formiguinhas, um técnico e muitas máquinas. Então, milhares de pessoas vão deixar de ter função econômica. Teremos uma riqueza gigantesca concentrada numa minoria totalmente independente de outras milhares de pessoas. O que fazer com isso, como não deixar essas pessoas inúteis à míngua? A conclusão lógica, se você tem uma visão um pouco mais humanitária, é que essas pessoas devem receber o suficiente para existir, mesmo inúteis. Ou seja, um futuro mais justo para a humanidade passa pela capacidade de superar esse sentimento tão difícil e doloroso que é ver o outro receber sem ter feito por merecer.

No piano

Oliver Sacks, de tanto citar música no Alucinações Musicais, me deixou com vontade de ouvir música clássica. E com a mente vagando durante um concerto, eu me lembrei de já ter tocado piano. De manhã cedo fui atrás da prova, quase como se eu mesma duvidasse que foi possível.

pianista

Eu toquei piano por quase seis anos e havia apagado. Quem conviveu comigo na época da faculdade sem dúvida não esqueceu, porque eu amava muito tocar piano. A escola ficava do lado, atravessando a rua, e eu vivia lá. Às vezes eu pegava as partituras no meio da aula, estudava, depois voltava na maior cara de pau. Comecei a pensar se não lembrava disso por bloqueio, porque lembro que encarar os fatos – sem dinheiro, sem escola e sem piano atravessando a rua – e deixar de fazer aulas foi uma das minhas primeiras decisões dolorosamente adultas. Mas não foi isso. Como vocês podem imaginar, a foto me deixou bem nostálgica. Lembro de quem eu era na época, dos meus planos, das minhas prioridades. Pensei no quanto tudo mudou, nos caminhos que segui e que nunca imaginava, nas reviravoltas. Fiquei com aquela certeza de que a vida bem vivida passa muito mais pela variedade de experiências do que qualquer noção burguesa de sucesso. E vi que daquela dor de não tocar piano não ficou nada, porque não foi uma porta que eu fechei ou algo que morreu dentro de mim – tenho vivido intensamente aquela mesma necessidade artística, ao longo da vida ela encontrou outras vias de expressão. Há caminhos, há esperança, as coisas não serão necessariamente como estamos vendo. A vida é muito maior do que a gente.

A moça que não calculava

homem que calculava

Meu irmão estava com um livro no quarto dele, O Homem que Calculava. Ele me disse que era um livro muito difícil, não tinha conseguido passar do terceiro capítulo. Fiquei curiosa e peguei pra ler.

-Então, gostando do livro?

-Ah, meio chatinho.

-Até onde você foi?

-Humm… capítulo 14.

-Tudo isso!? Eu não consegui passar dos primeiros problemas, são cálculos muito difíceis!

-Ah, mas tem que calcular? Eu estou lendo e olho a resposta no final. Impossível aquilo, nem tentei.

O que toca

despedida

Não gosto de ler sobre guerra no geral e comecei a ler o A guerra não tem rosto de mulher, da Svetlana Aleksiévitch, porque uma amiga jurou que é um livro essencial e que se devora em poucos dias. Como qualquer livro de guerra, a lista de barbaridades e situações horríveis é abundante – estupros, mutilações, canibalismo, etc. Tudo lá, se for levar a sério, é de chorar. Mas eu fui lendo – estou lendo – meio incólume, passando pelo horror com o olhar de quem já esperava aquilo. Aí, num certo momento, percebo que uma coisa vai subindo, subindo, e tenho que me interromper. As mães não choravam, elas uivavam de dor ao se despedir dos filhos. Uivar de dor. Eu que nem tenho filhos me vi transportada a estações de trem e mães entregando sua própria carne para ser esmagada, perder toda inocência, quem sabe nunca mais voltar.

Em breve, crítica no Caminhando por Fora.

Um sonho muito simples

una vida chiquitita y normal

Eu estava conversando com um amigo e ele me contou que tinha uma vontade muito grande de andar naqueles carrinhos com motor no supermercado. Aqueles exclusivos para pessoas muito idosas e/ou com problemas de locomoção. Era mais do que uma vontade qualquer, era um sonho. Mas com seus vinte e poucos, alto, forte e super saudável, jamais iriam deixá-lo fazer isso. “Você quer mesmo andar naquele carrinho, muito, é importante pra você?” Sim, ele respondeu. Eu me senti dentro de um livro do Sidney Sheldon. Como a história do carrinho é pequena, vou contar do livro: a personagem era uma mulher ambiciosa e sedutora, e pretendia ajudar um homem a fugir do país. Acho que era judeu, na época da guerra. Mas ela não sabia como fazer. Aí, numa festa, encontrou um escritor e disse que estava escrevendo um livro e empacou, não sabia como salvar o personagem. Ela contou para ele a sua situação como se fosse um livro. O escritor inventou na hora a saída: colocar o judeu no porta-malas enquanto a mocinha fazia um figurão nazista levá-la para um passeio, atravessando a fronteira. Assim ela fez e salvou o judeu.

Voltando ao caso do supermercado. Eu sugeri ao meu amigo chegar no supermercado mancando, dizer pro funcionário que havia acabado de se machucar no caminho e se poderia, se não fosse muito incômodo, fazer suas compras com um daqueles carrinhos elétricos. Deu certo.

Mente de pobre

cigarro

Eu falei, no outro blog, que o livro do Mo Yan é como um Casos de Família por escrito. O livro é muito legal, como um todo, mas tem uns casos específicos de rolar de rir, não tem como descrever. O protagonista é camponês na sua origem e o contexto social o permitiu subir de vida. Conto porque não é realmente importante. Eu ri muito do trecho que coloquei a seguir porque me identifiquei muito com ele. Conheci ao longo da minha vida pessoas realmente ricas, e não essa classe média com o nariz pra cima. Pessoas que acham que economizar é gastar menos na balada pra gastar mais na viagem, isso se precisarem um dia economizar. Que acham que só mendigos contam moedas, que toda escola pública dá comida, e outras visões tão distantes da realidade que é difícil até falar. Essas pessoas se vêm diferentes, elas têm certeza de merecer onde estão. Se é lindo e lhes agrada, é quase uma lei da natureza que deve ser delas. Quem não tem é porque não é lindo o suficiente. Já quem nasceu comum, mesmo que um dia ganhe muito dinheiro, sempre vai pensar:

Professor, tenho o vício de fumar. É um vício que já encontra várias restrições na Europa, nos Estados Unidos e até no Japão. Por toda parte, o fumante é lembrado de sua vulgaridade e de sua falta de educação. Mas aqui em nossa terra, por enquanto, ainda não existem tais restrições. Peguei o maço, tirei um cigarro e acendi com um fósforo. Gosto muito do leve cheiro de enxofre que se espalha no instante em que se acende o fósforo. Professor, eu estava fumando um cigarro Jin Ge, literalmente “pavilhão dourado”, uma marca local de preço bem elevado. Dizem que cada maço custa duzentos iuanes, ou seja, cada cigarro custa dez iuanes. Um libra, cerca de meio quilo, de trigo sai por oitenta centavos, ou seja, seria preciso vender doze libras e meia de trigo para poder comprar um cigarro dessa marca. Doze libras e meia de trigo poderiam virar quinze libras de pão e alimentar uma pessoa por pelo menos dez dias. Mas um cigarro da marca Jin Ge acaba em algumas baforadas. A embalagem era realmente magnífica, me lembrava o Pavilhão Dourado de Kyoto, em seu estimado país. Não sei dizer se aquele pavilhão realmente inspirou os designers da embalagem. Sei que o meu pai odeia que eu fume esse cigarro, mas só fez um comentário simples: “Carma ruim!”. Expliquei a ele, apressado, que não fui eu que comprei, ganhei de outra pessoa. A resposta dele foi mais simples: “Pior ainda”.

Mo Yan/ As Rãs, parte IV, 8.

Cores do mundo

vincent

Do filme “Com amor, Vincent”.

Já é sabido que a depressão atua de uma forma específica nos neurotransmissores responsáveis pelos sentimentos positivos, e nesse estado o mundo parece cinza e sem gosto. Se é fato para a depressão, podemos extrapolar esse raciocínio e concluir que também há aqueles que sentem mais prazer e vivem num mundo mais colorido. Quando lemos Cartas a Theo, concluímos que a pintura de Van Gogh mostra exatamente como o mundo era aos seus olhos, que ele via e sentia com mais intensidade do que nós. Sempre pensei nisso nos ônibus lotados de manhã, as pessoas espremidas na porta, sem conseguir nem se segurar, caindo umas por cima das outras cada vez que o ônibus partia pra outro ponto, e algumas pessoas começam a gargalhar do seu próprio ridículo. Ou a amiga de anos, cuja vida já mudou tanto desde que a conheci e sempre que eu pergunto como ela está sua resposta é um “é…” desanimado. Às vezes as coisas estão bem enroscadas, assim como às vezes seguem a rotina ou aparecem surpresas boas. Mas ela tem o dom de encarar com normalidade qualquer prêmio de loteria e ver na unha encravada a prova de que a vida não a deixa em paz e nada melhora para ela. Por isso que o “oh, vida, oh azar” é irritante, porque dá pra perceber que ele não é uma consequência direta da realidade.

E muito pior do que os queixosos, essa onda de ódio. Indignação no café, medo no almoço, ódio no jantar. Touros furiosos à procura de vermelho para ficarem mais furiosos ainda. É como andar o dia inteiro no esgoto e reclamar que só vê ratos. Há certas escolhas que escapam à minha compreensão.

Carta de amor

grão comercial

Ainda escreverei sobre Mo Yan no outro blog. Por enquanto, neste mundo cheio de desamor, deixo uma carta de um camponês apaixonado em plena Revolução Cultural chinesa. Uma explicação prévia: como era uma região agrícola, todo mundo produzia o que comia, ou trocava com os vizinhos. As pessoas das poucas profissões que não eram ligadas a terra, compravam sua comida com cupons. Não ser responsável pela sua própria comida era visto como sinal de status. Isto que é “comer grão comercial”.

Minha amada, sou filho de camponês, nascido em berço humilde, tu, por outro lado, és uma ginecologista que consome grão comercial, a diferença social entre nós é enorme, talvez me desprezes e, ao terminar de ler minha carta, deixarás escapar um riso de desdém da tua delicada boquinha antes de rasgar esta carta em pedaços; ou ainda, quem sabe, nem te dês ao trabalho de ler minha carta: vais mandá-la para o lixo tão logo a recebas. Mesmo assim, quero te dizer, minha amada, minha adorada, que se aceitares o meu amor, serei como um tigre alado, um corcel ajaezado, encontrarei uma força inesgotável, estarei revigorado, lépido como se tivesse tomado uma injeção de sangue de galo novo, não te há de faltar pão, nem leite, acredito que, com teu incentivo, poderei mudar de posição social e me tornar alguém que consome grão comercial, para poder ficar do teu lado…

Se não me responderes, minha adorada, não vou recuar, não vou desistir, vou seguir-te em silêncio. Aonde fores, irei também, vou me ajoelhar no chão para beijar tuas pegadas, e ficarei em pé diante da tua janela fitando a luz de dentro do quarto, do momento em que ela se acende até o momento em que se apaga, quero ser uma vela e queimar por ti, queimar até o fim. Minha adorada, se eu morrer por ti cuspindo sangue e me concederes a graça de lançar um olhar à minha sepultura, já estarei realizado. Se derramares por mim uma lágrima que seja, já não terei morrido em vão, tua lágrima, minha adorada, há de ser o elixir milagroso que me devolverá à vida.

Mo Yan/ As rãs, 5. posição 1800 de 6018

Mais de 10000 saltos horríveis

Não cheguei a comentar sobre isso nos posts que escrevi sobre o livro Outliniers (um post aqui e outro aqui). Não deve ser novidade pra quem é da área de educação. Lá fala que tem um estudo que diz que, por algum motivo, alguma questão estrutural do cérebro, são necessárias pelo menos dez mil horas de prática em qualquer para um ser expert. Aí o livro examina histórias de talentos que nos parecem precoces, como Bill Gates e Mozart, e mostra o que os tornou precoces aos nossos olhos foi o fato de terem juntado dez mil horas mais cedo do que os demais. Sobre Mozart, o autor até mesmo diz que as tais primeiras composições que ele fez quando era criança não passavam de colagens de músicas da época, provavelmente feitas com o auxílio do pai. Que as primeiras composições revelantes de Mozart são quando ele já tinha seus vinte anos, o que o torna até um músico de amadurecimento tardio (!!!).

Essa teoria me estimulou a tentar algo meio inédito: tentar fazer uma saída (aquele salto maledeto pra entrar na água) decente. Quem nada desde criança salta lindamente na água, parecem uns peixinhos voltando pro aquário. Quem começa a nadar depois de adulto dá vergonhosas barrigadas e/ou um salto sem impulsão. Como é frustrante, todo mundo deixa por isso mesmo. Eu me impus o desafio de fazer pelo menos uma saída por aula, geralmente faço mais. Será que um dia, na terceira idade, vou conseguir enganar os olhos mais treinados e parecer que aprendi a saltar desde criança? Aguardemos.

É só posicionar os pés, as mãos, a cabeça e sair. Valeu, Gustavo!