Curtas sem black-friday

Não sei se as compras online me estragaram, ou se faz parte de ter vivido muitas coleções primavera-verão, mas o fato é que não gosto mais de araras cheias de roupas. Tudo me parece igual, me dá preguiça de explorar, as sutilezas entre as diversas opções me parecem mais do mesmo. Me pego tendo que ir na loja virtual da loja física pra encontrar lá e, quem sabe, conferir no shopping…

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Decidi revolucionar e dizer Não para todas as confraternizações de fim de ano. Ainda faltam algumas, mas o saldo é positivo. Quando as pessoas percebem que não estou indo para nenhuma, decidem que sou uma pessoa dura de dinheiro e antissocial (verdade e verdade) e não que eu não gosto daquele grupo em particular. Ou seja, muito mais impessoal, ninguém fica ofendido.

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Meu prazer de pequeníssima autoridade tem sido verificar o perfil de gente que pede para entrar em alguns grupos de Facebook que eu herdei. Votou verde e amarelo misógino? Não entra. Eu não recuso, apenas não aprovo, que é pra pessoa não ter certeza de ter sido barrada e ficar alimentando esperança.

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Como disse um amigo meu, passei incólume durante décadas a todos os modismos de brinquedos, aos super heróis, às febres das marcas que exploram a nostalgia dessa nova geração adultecente. Passei, não passarei mais. Estou completamente apaixonada pelo bebê Yoda. Gastar dinheiros em Yodinha eu vou.

 YODINHA

Alguém comenta

codigo de barras

Já me falaram várias vezes, com diversos argumentos e por motivos diferentes, para compartilhar algum conteúdo por vídeo. E eu até tentei, pensava um pouco, e no fim acabava não fazendo. Gosto do anonimato da escrita, me sinto mais protegida. Sempre reconhecia a importância de usar outros veículos, mas fundamentalmente a minha resistência é geracional: sou velha, não sou da geração que gosta que nasceu se registrando por imagem o tempo todo. Aí estávamos numa roda e uma amiga me falou algo que eu já havia compartilhado no meu Facebook: tanta gente postando informações ruins, por ignorância ou interesse, e pessoas que poderiam ter algo a dizer não dizem nada, “precisamos ocupar esse espaço”. Eu compartilhei, achei lindo, e pensei nos muitos amigos professores, pesquisadores, escritores. Não pensei em mim. Lembro ainda que o texto que eu compartilhei dizia: tudo bem que você não tenha uma grande audiência e o seu post/vídeo seja visto pela sua meia dúzia de amigos, já é mais do que se ele estivesse apenas numa revista científica ou numa banca, já é mais do que guardar pra si. Nisso ela me fisgou.

Coloquei um vídeo na página At., Caminhante do Facebook. Não sei se tenho fôlego pra muitos. Não pretendo falar de mim e sim recomendar o que me chamou atenção. Não dá pra colocar vídeo aqui, nem pra dar um gostinho, porque a plataforma não oferece isso para quem não paga pelo domínio. Ou seja, vão ter que passar lá e seguir a página pra ver…

Curtas de conclusões totalmente científicas

super placebo

A Dúnia passou um tempão de cone. O cone e impede de entrar na casinha com teto, então eu tiro. Por causa da largura do cone, entrar na casinha era meio enroscado, ela precisava erguer um pouco a cabeça, esbarrava, era triste. Aí, finalmente ela ficou sem cone e estava com tudo novo e limpinho. Passaram-se dois dias inteiros sem que ela pusesse os pés lá. Tive que mandar entrar, dar osso. Percebi que ela ficou com aquela imagem de que era difícil e resistia passar por aquilo de novo. Descobri que até cachorro desenvolve neurose.

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É mais do que sabido que se o Facebook nos oferece muito uma pessoa pra ser nosso amigo é porque a dita nos estalkeia, né?

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Os hindus são fogo. A explicação pra astrologia deles ser tão mais completa do que a nossa é que ela tem milênios de anotações e observações, ao contrário da nossa que vai e volta. Descobri que eles têm casas e aspectos que dizem se a pessoa é boa ou ruim de cama. Agora, como viver sem pedir pra ver o mapa do pretendente antes mesmo de começar? (e não adianta vir me perguntar inbox, tem que saber meia dúzia de princípios pra entender)

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O único momento da vida que é melhor ser mulher do que ser homem são as roupas de verão. A gente tem diversos comprimentos de calças, saias, bermudas, decotes que contemplam várias partes do corpo, opções de sapatos e onde começa o braço. Eles, de bermuda já ficam informais e de regata receberão olhares. Mas, ao mesmo tempo, a arma mais poderosamente indestrutível da espécie humana é o ego masculino. Coloque-o na posição mais desfavorável, pense que ele foi soterrado pelos fatos e reduzido à sua insignificância, que ele ressurgirá assim mesmo, quem sabe até mais forte, igual vilão de filme de terror.

Delay

dr assis

Ele posta raramente, e eu curto. Mora em outra cidade, me adicionou por amigos em comum. Apareceu uma foto minha bem no dia que eu o adicionei e ele me mandou uma mensagem dizendo que se unia a fila de admiradores que eu certamente tinha, por ser inteligente, ter excelente senso de humor e ainda por cima bonita. Eu agradeci e tal, mas nunca passou disso.

Lembro que naquela noite estava chateada, precisando de um afago e apareceu um post dele. Curti. Aí ele me mandou uma mensagem privada.

-Fico sempre lisonjeado e surpreso quando você curte alguma postagem minha.

Já estava quase indo dormir e de repente acordei. Dormir todas as oito horas todas as noites pra quê, e o espírito de aventura?

-Eu sempre presto atenção nas tuas postagens, mesmo que raras.

Eu acho que ele não esperava que eu estivesse online. Apareceu visualizado e só. As bolinhas não mostravam atividade nenhuma. Escovei os dentes, coloquei pijama, deixei tudo preparado e nada. Chamei de idiota que perdeu sua chance e fui dormir.

Na manhã seguinte vi que ele havia respondido, às 3h. Sei lá se saiu e voltou àquela hora, se tomou um monte de cerveja, se acorda de madrugada pra fazer ritual de magia negra. Agora quem deixou no visualizado sem resposta fui eu, para sempre. Idiota que perdeu sua chance.

Vida SIMs

the sims

Há trocentos anos, pouco tempo depois de entrar no FB, eu fiz uma The Sims. Meus amigos tinham, parecia divertido e não resisti. Há mais tempo ainda, muito antes das redes sociais, eu tinha lido um artigo na revista VIP de um sujeito que transformou o seu perfil SIM numa novela, como se fosse um diário. Eu lembro que enquanto o personagem dele dormia, a vizinha lavou a louça e foi embora: “foi naquele instante que eu decidi que me casaria com ela”. Decidi fazer a mesma coisa e, pro bem ou pro mal, fiz algumas pessoas aderirem ao jogo porque eu fazia ele parecer muito mais interessante do que realmente era.

Eu me surpreendi quando entrei em perceber que as pessoas faziam do jogo uma versão mais ambiciosa do que queriam da própria vida. Escolhiam os corpos mais bonitos, os vestiam com as roupas mais atraentes, usavam todo tempo para fazer as pontuações que enriquecessem seus SIMs para eles comprarem os objetos mais caros. Eu virei o mundo SIM de pernas pro ar. Fiz todas as interações negativas e muito engraçadas que ninguém havia testado: dar um tapa da cara de alguém, rir na cara de alguém, mijar no quintal do vizinho, roubar. Eu testei todos os botões, pouco importava que a pontuação caísse. Havia um comando constrangedor que o SIM acenava e fazia todo mundo olhar pra ele pra avisar que havia feito sexo. Num instante, meus amigos aderiram também e foi um festival de quintais mijados, ficou muito mais divertido. Sempre que eu ia comprar roupa, aparecia um botão no topo da tela, que ninguém jamais havia usado, que fazia o SIM mudar de sexo. Eu juntei meu dinheiro e fiz a Lola virar Lolo. Mas ela ainda era apaixonada pelo namorado, e eu ia atrás dele até arrancar um beijo e eles reatavam o namoro. Mas assim que voltava a acessar, o Rafa – dono do perfil do meu namorado – desfazia a relação. Aí eu ia no FB e contava: “ele ainda me ama, mas tem vergonha, a sociedade não aceita…” Um dia fiz um projeto muito arrojado de casa, levei horas, e o Lolo ficava se batendo, não sabia se mover, ignorava as portas, era um saco. Aí decretei que ele ficou louco e parei de jogar. Estava viciada demais.

Curtas sobre profissionalização

profissionalizacao-01-760x400Já entrei na fase de ter que fazer vários exames chatos todo ano. “Você já fez antes?”, perguntam cheios de dedos. Aí a gente se pega já tirando a roupa, colocando os peitos pra fora pra moça, abrindo as pernas, olhando pro lado. Faz aí.

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Eu estava sentada no banco do ônibus ajeitando meus pacotes de compras e um sujeito me estendeu um papel. Nem olhei, fiz um gesto de recusa com a mão. Depois o vi recolhendo o papel e ninguém tinha dado nada. Método errado. Tem dias que ouço histórias comoventes de superação após largar as drogas, gente puxando oração, brindes dados de coração, artigos que custariam o dobro na loja e nem salvam vidas, gente que toma fitoterápico pro joelho que o SUS não cobre, piadistas. Vê se alguém que só distribui papel tem chance hoje em dia.

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Dois tuites meus viralizaram de maneira assustadora. Um deles falava de veneno de rato e o outro de classe média. O segundo foi parar em pelo menos duas páginas do Facebook. Não queria ver a repercussão, mas me mostraram. Como vocês podem imaginar, não tem limites. Teve até gente que copiou como se fosse a sua experiência pessoal. Também disseram que eu criei o tuíte apenas para ganhar likes. Que sonho seria se eu tivesse essa capacidade de adivinhar o que as pessoas querem ler.

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Séries Netflix: só com indicação. Os trailers das de humor são assustadores.

 

Curtas de duas

galos do futebol

Uma amiga também divorciada, ao contrário de mim, é baladeira. Ela me contou que em show sertanejo quase só tem mulher e elas se acabam com as letras de traição. “Tá difícil, tá muito difícil”. Abre tinder, vai no sambão, balada, bar de motoqueiro, tudo gente sozinha, divorciadas “na luta”, tão difícil arrumar alguém. Tenho vontade de falar alguma coisa, mas minha fama de encalhada que não se esforça é tal que ninguém me pergunta.

Me lembrei muito de uma outra amiga, que estava com o casamento meio em crise e se apegou aos amigos gays. Virou assídua frequentadora de baladas gays, ótimas pra dançar e cheia de homens lindos e indiferentes. Aí veio se queixar pra mim que o mundo inteiro era gay.

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Quando conheci meu ex, ele era de direita e pró-israel. Bastava mostrar palestino morrendo que eu apontava pra TV: Olhaí, alá vocês, como é que você me explica isso? Tínhamos altas conversas discussões sobre política, mercado, capitalismo, direitos humanos. Agora, tantos anos depois, adivinhem? Ele continua de direita e pró-israel. E vocês achando que se convence alguém com textão no facebook. (E eu ainda o procuro quando quero ouvir alguém sensato de direita.)

 

Palhaçona

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Eu não sei quando eu deixei de acreditar que qualquer um que se tornasse meu amigo de facebook descobriria que eu sou uma pessoa muito legal. Não, não foi por causa do crush que nunca passou disso, eu já sei que ele gosta de mulher musculosa. Talvez tenha sido o amigo do amigo que jamais curtiu nada; eu já tinha “roubado” muitos amigos desse amigo, mas esse realmente parece nunca ter lido nada, adicionou por pura educação. Esses dias me vi querendo ser amiga de um aí cujas publicações eu leio faz um tempo e me vi incapaz de adicionar. Porque é uma pessoa séria. Aí descubro uma coisa curiosa a meu respeito: não suporto falar sério, quase nunca na vida e nunca pela internet. O problema não é nem discordarem de mim, não gosto até quando concordo. Não gosto de achismo, tanto meu quanto dos outros; quando perguntam muito minha opinião, minha voz me cansa, acho que estou demais, quem se importa? Então o que busco no facebook são motivos para rir e para fazer os meus amigos rirem. E cada vez que eles me mandam coisas engraçadas, fico lisonjeada de ser assim que eles lembram de mim. A coisa estranha é perceber que embora não faça nada para ser séria, tenho a mágoa de não ser levada à sério. Do bestão que arrota compra de livros ou tira foto na frente de estantes ter mais respeito do que eu, que leio e não me preocupo em acumular livros e nem de listar tudo o que passou pelas mãos. Que não percebam que não opinar sobre tudo é uma forma de respeito à realidade. Sempre procurei seguir a máxima que com a modéstia sempre se ganha: se você se diz grande coisa e não é, quem é o tal percebe e você fica ridículo; se você não se diz grande coisa e é, as pessoas vão acabar percebendo e você vai ficar parecendo ainda maior. Pois bem, amiguinhos, não tem funcionado. Tenho olhado o Círculos de Intelectuais debatendo com muita seriedade, elegância, garbo e blefe enquanto olho por debaixo da minha roupa de palhaço.

Entre quatro opções e paredes

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Tem esses testes do Facebook – quem você foi na vida passada? Que palavra melhor te descreve? Que amigo é o seu anjo do mal? Chamam de teste e geralmente nem são, você entra e o site sorteia uma resposta aleatória. Mas, no caso, era um teste mesmo. Era pra gente clicar em uma série de imagens e informações a nosso respeito, pra isso gerar um teste personalizado. Respondi o de uma amiga e estava fazendo o meu. Coloquei que entre praia, cama, nos braços de alguém ou balada eu preferia estar na praia, numa sequencia de foto com vários esportes, respondi que o que eu mais gostava era natação… aí apareceu pra eu escolher minha posição sexual preferida, com quatro desenhos de opções. Fechei a janela.

Eu que sou pudica ou é realmente too much information? “Eu errei o teste, porque achei que você gostava de ladinho e…” Não.

Curtas pra reclamar

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Existem duas etapas sobre decidir escrever, uma fácil e a outra difícil. A fácil é “Vou escrever um livro sobre X”. A difícil é tudo o que vem em seguida.

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Um lado meu gosta de flamenco mas outro… pelamordedeus, vocês sabiam que existem outras formas de cultura?

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Existe um caso de amor entre grãos de arroz e aparelho.

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Em algum lugar das regras de etiqueta internéticas facebookianas, deveria estar escrito que não se atualizam eventos do facebook diariamente. Pra isso existe blog.

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Baladas perdem a graça para comprometidos. E festas de casamento – descubro agora – perdem a graça para solteiras quando não há perspectiva de homens interessantes. Crente comigo não dá, MESMO. Sorry.

Por ti minha alma sofre

 

Comecei a stalkear meio por brincadeira, como é pra todo mundo. Aí comecei a achar o Fulano tão legal. Quando dei por mim, estava batendo ponto no Facebook do sujeito. Percebi que a coisa estava feia no dia que fiquei reprisando um vídeo, pois a maneira dele sorrir meio sem graça é tão fofa. Coisa de mulher trouxa apaixonada. E o dia que ele postou trecho de livro e eu vi quase imediatamente, e quase fui lá comentar porque eu estava online, e ele certamente estava online também, e que coisa bonita nós dois online juntinhos e separados? Foi por muito pouco que a louca aqui não comentou, na maior, como se fosse íntima. Stalkear dá essa ilusão, que de certa forma nem é ilusão, uma intimidade unilateral. É uma espécie de namoro em que uma das partes não sabe que está namorando. Ele até sabe que eu, enquanto ser humano, existo, mas nem desconfia do meu interesse. O que eu acho grave, doutor, é perceber que por mim vai continuar no interesse, no platônico, na stalkeação, para sempre. Morro de medo, simplesmente não conseguiria me aproximar. É muita areia pro meu caminhãozinho. Mesmo.

Leitora em multidões

Escrevi a um amigo pedindo que, por favor, fizéssemos alguma coisa juntos no fim de semana. Eu acho que ele não notou que quando escrevo assim, querendo para já qualquer programa junto com ele, é porque costumo estar meio desesperada, mas tudo bem – quem é que vai adivinhar que uma pessoa que mal pediu ajuda quando tudo explodiu, está tendo crises depressivas um ano depois? Mesmo problema que eu digo para as pessoas que querem fazer a dieta Dukan: enquanto você está emagrecendo, as pessoas dão o maior apoio que você tenha cardápios restritivos. Mas quando você está na fase de manutenção, meses depois e magra, ninguém aceita que você abra mão de uma batata frita. Eu também acho que não tenho nada que me deprimir um ano depois, que merda. Mas diz isso pro meu organismo. Ao meu apelo, meu amigo me respondeu enviando um evento do Facebook, uma festa julina que aconteceria numa igreja ortodoxa nas Mercês.

 

Entendi e fui, sozinha. Esses eventos de Facebook nunca nos fazem ter muita noção do que é. No cartaz dizia que era uma festa tradicional, de muitos anos, então já imaginei multidões, música junina por toda quadra, pessoas com roupa de prenda e dentes pintados (coisa que não tem no nordeste e muito me surpreendeu). Chegando lá, oh não! Era uma festa pequena, bem família. Foi colocar os pés pra entender que todo mundo lá era da paróquia e se conhecia. E todo mundo com biotipo árabe. As músicas também eram árabes. Desculpem a ignorância, mas nunca pensei que veria pessoas com aquele biotipo numa igreja católica ortodoxa. Levantaram a hipótese de serem gregos, mas devo confessar que não conheço o biotipo grego, então será que eram? Enfim, era um pessoal bonito, morenos de olhos claros e narizes grandes. Deu vontade de sair correndo. Comprei um doce de amêndoas (enjoativo) e mandei mensagem pro meu amigo, na esperança de que ele me encontrasse lá. Por hábito, estava com um livro na bolsa. Deixei o celular à mostra e saquei meu livro, no maior clima de “não sou uma louca que veio sozinha, daqui há pouco meus amigos chegam”. Ele não veio, mas foi gostoso pra caramba ler ali. Lia um pouquinho, olhava as pessoas, lia mais um pouquinho. Depois conheci a igreja. Foi um bom passeio, fez o meu dia. Se estivesse em casa, provavelmente estaria muito mal e isso me impediria de ler. Minhas crises fazem com que o estar sozinha seja ruim, mas elas já não são estão intensas a ponto de precisar que as pessoas me deem atenção. Estar entre seres humanos parece que já é suficiente. O que é ótimo, e dá mais independência e não preciso tanto da boa vontade dos amigos – todo mundo tem suas vidas pra cuidar.

 

Eu me lembrei da moça do quadro de Renoir, aquela que discutem no filme Amelie Poulain. Eu me tornei ela, só que com um livro na mão. Eu diria: A moça do copo d´água não suporta estar fisicamente só. Ela fica no meio dos outros para ficar em paz.

 

Amélie – Sabe a garota do copo de água?
Pintor – Sei.
Amélie – Se ela parece distante, talvez seja porque está pensando em alguém.
Pintor – Em alguém do quadro?
Amélie – Não, um garoto com quem cruzou em algum lugar e sentiu que eram parecidos.
Pintor – Em outros termos, ela prefere imaginar uma relação com alguém ausente que criar laços com os que estão presentes.
Amélie – Ao contrário, talvez tente arrumar a bagunça da vida dos outros.
Pintor – E ela? E a bagunça na vida dela? Quem vai pôr ordem?

Dois poemas lidos por Marco D’ Almeida ou Eu mudei

Teve um “sarau poético” no Facebook, em que a gente devia publicar poesias durante quatro dias e indicar quatro amigos. Iniciativa simpática, que faz a gente conhecer poemas novos e reler alguns para postar pros amigos. Com isso, relembrei o Cântico Negro, da qual já falei aqui algumas vezes. O Alessandro foi o primeiro que me mostrou, e conhecia a versão da minha orixá preferida, Bethânia. Depois conheci a versão também muito boa de um ator português, Marco D´Almeida.
Não quis postar, achei que não combinava com meu humor em nenhum dos quatro dias. Me toca pensar que um tal de José Régio, de quem nada sei e me parece que seja português, tenha sentido com intensidade algo tão meu. Ou que me parecia tão meu. Ao rever o vídeo, me dei conta do quanto ele me lembrava uma amiga, e quis presenteá-la com ele – porque foi assim que me senti, quando o vi pela primeira vez. Ela gostou, ficou emocionada e, naquele instante, eu senti como se tivesse dado a ela o “meu” poema.

 

Hoje me vejo menos Cântico Negro. Talvez por ter me afastado ou perdoado muita coisa, não sei. Meu momento hoje é muito Mário Cesariny, que postei no terceiro dia do sarau poético:

Curtas feicibuquianos

Com essa de amassar o cabelo pra fazer cachinhos, ele tem ficado todo pra cima e me sinto um pouco este cara. Quem já viu History Channel sabe que ele não é lá muito normal. Como minha amiga Tere disse que eu também não sou…

 

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Se tem uma coisa que eu não entendo é ter coragem pra tatuagem e ser medroso nas roupas. Se a tatuagem é algo temporário – porque, em última instância, somos – a roupa é muito mais!

 

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A Igreja diz: o corpo é uma culpa.
A Ciência diz: o corpo é uma máquina.
A publicidade diz: o corpo é um negócio.
E o corpo diz: eu sou uma festa.
– Eduardo Galeano (1940 – 2015)

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O melhor argumento que eu ouvi até hoje contra o frio foi o do Chicuta: a gente não consegue uma textura decente pra comer a manteiga.

Na minha idade

Uma vez me disseram que eu tenho Complexo de Peter Pan. Fiquei chocada e concordei. Nunca pensei em mim mesma como alguém que faz um esforço deliberado para não crescer. Ao contrário, em certas coisas me sinto uma verdadeira sexagenária. Mas tenho que reconhecer que pra outras ainda estou no jardim de infância. O argumento que a pessoa usou foi o que meu problema em seguir uma carreira é justamente o complexo. Começo, mudo de área, recomeço, nunca me firmo, porque se firmar numa profissão é uma coisa bem adulta.

 

Várias vezes achei que me tornaria professora universitária, e várias vezes investi em roupas mais sérias pensando nas minhas futuras aulas. E, invariavelmente, essas roupas ficavam paradas no guarda-roupa sem uso, até serem doadas. Calças sociais, blazers, sedas. Há poucos dias desabafei no meu facebook sobre o assunto:

 

Às vezes eu penso se não deveria me vestir de forma mais compatível com a minha idade. Mas, afinal, o que as mulheres da minha idade usam?

 

Os amigos vieram em meu socorro, dizer que uma mulher deve vestir o que quiser, o que for adequado ao seu estado de espírito. Há os que perguntaram afinal como é que eu me visto, e eu acho que me visto igual a uma universitária – coisa que não sou há mais de dez anos! Claro que, sendo meus amigos, apareceu conselhos de que o que me falta é um xale. Pra combinar com a cadeira de balanço.

Eis que de manhãzinha estava saindo cedo de casa, com a minha bike, e encontrei a vizinha. Ela tem mais ou menos a minha idade e é psicóloga. Olhei para ela e descobri o que uma mulher com meu físico na minha faixa etária usa: camisa branca, calça social bege, salto agulha e yorkshire.

Essa geração sempre online mimimi

Quando eu fui visitar o Milton, deixei uma excelente impressão no sobrinho dele, que disse que nunca tinha conhecido “uma adulta que sabe quem é Felipe Neto e PC Siqueira”. Dá pra dizer que eu sou de uma geração que ficou bem no meio da revolução da internet. Sabe aquelas piadas sobre Graham Bell ter inventado o telefone e não ter para quem ligar? Era mais ou menos assim quando a gente fazia e-mail. Eu conheço muita gente da minha idade que trabalha com internet ou que passa muito tempo online, mas isso é apenas porque eu tenho esse perfil. A grande maioria só usa e-mail e tem conta no facebook “pra achar uns amigos de infância”. Então eu ouço, à sério, as pessoas reclamarem do quanto esses xóvens ficam muito tempo na internet, cada um com seus telefones, sem conversar, sem olhar para os lados, onde é que esse mundo vai parar.

 

Eu acho sim que há um exagero e é preciso estar mais no mundo, mas também não me sinto confortável em condenar ninguém. Se eu já ficava na internet na época que gastava pulso telefônico, imagina no mundo de hoje. Lembro claramente de um sentimento que me perseguiu durante boa parte da minha vida: inadequação. Eu queria estar num outro lugar, num outro mundo, que eu não sabia como era, só sabia que não era o que eu tinha acesso. Eu não queria estar no meio das pessoas que estava. Quando digo isso, não estou apenas falando de família, falo também das pessoas do prédio, da escola, os que tinham a minha idade. Todos me pareciam um bando de idiotas, não dava pra ter uma conversa que prestasse. Depois a gente cresce e coloca essas coisas em perspectiva, mas estou falando aqui de como eu sentia. Então, eu tenho certeza de que ficaria muito feliz em conhecer pessoas de outros lugares, com os mesmos gostos que eu, e me sentiria mais à vontade com elas do que com aquele povo que vive lá em casa. O que me estava acessível era ler, andar no parque, me trancar no quarto, e fiz todas essas coisas intensamente. Podemos dizer que saí ganhando, que os livros que eu li hoje fazem parte da minha cultura e trocar mensagens com meus amigos não me levaria a nada. Mas isso é atribuir um cálculo de futuro que eu não tinha. Eu teria preferido o whatsapp mesmo.