Adeus, 2009!

Eu não ia postar nada. Só ia colocar um benvindo 2010. Talvez porque eu ainda não esteja em clima de ano novo. 2009 foi um ano de desafios e difícil em muitos sentidos. Eu sei que foram períodos de plantio para coisas melhores e que quando as coisas estão para se resolver parece que o tempo passa devagar. Mesmo assim, não posso dizer que sentirei saudades.

Que 2010 venha forte, decidido, de caminhos abertos e muito positivo para todos nós!

Anúncios

Limpeza ritualística de final de ano

Posso dar a desculpa do feng-shui, mas o que me levou a cultivar o hábito da limpeza de final de ano foi o fato de ter morado num apartamento pequeno. Não é bobagem. O Luiz foi criado numa casa e cada vez que precisavam guardar mais coisas, eles construiam mais um armário ou um puxadinho. Resultado: quando meus sogros se mudaram, até coleção de latinhas de cerveja vazias do ex-cunhado tinha. Em compensação, no apartamento da minha mãe, se a gente não jogasse algumas coisas fora todo ano, em pouco tempo não tinha mais como dormir lá dentro.

É muito difícil estabelecer as prioridades, saber o que jogar fora ou não. Centenas de xerox de sociologia que não sei se usarei, CDs LG que meu aparelho de som não lê, uma quantidade invencível de papel de rascunho, roupas que não-servem-mas-hão-de-voltar-a-servir, milhares de lembretes espalhadados perto do computador, brinquedos inuteis e fofinhos, projetos artesanais inacabados, etc. Isso porque não entrei no item Plastimodelismo, que tem sucata e pecinhas minúsculas pela casa inteira e que eu não posso jogar NADA fora. Encontros com aranhas marrons de todas as idades e tamanhos faz parte do processo.

Mas esse ano não tem como evitar. Meu diploma de sociologia por aí, em algum lugar, há mais de um ano.

Bichos escrotos, FIQUEM nos esgotos

Nesse delicioso ano de 2009, aqui em Curitiba, tivemos frio e/ou chuva e/ou dia cinzento durante uns 298 dias. Como pessoa normal, achei tudo isso detestável. Comecei a pensar seriamente no que pensei a minha vida inteira: sair daqui. Pra ir pra algum lugar mais pra cima – mas não tão pra cima quanto o nordeste. Algum cidade com boa conexão para minha internet, para que eu possa chamá-la de lar.

Aí finalmente esquentou. Além das habitués aranhas marrons, minha casa tem aranhas peludas, aranhas de pernas compridas, pequenas, médias e grandes. Pernilongos famintos não me deixam nem sentar na privada direito. Já matei uma BARATINHA. A Dúnia se diverte imensamente com um besourão que insiste em entrar na garagem.

Não existe meio termo? Ou o tempo nos induz ao suicídio ou cria hordas de insetos?

Dia sim, dia não

Acredito que todos os blogueiros possuam uma numerologia de posts, como a Queroul diz. Apesar deste blog já existir há alguns anos, somente no início do ano me propous a escrever com o intervalo de um dia. Antes, eu escrevia uma ou duas vezes por semana. O primeiro motivo foi a surpresa que me causou instalar o Analytics (sim, sou meio lenta com essas coisas) e perceber que a maior parte dos leitores é silenciosa. Em teoria a gente sabe que pessoas vem parar aqui por mecanismos de buscas, mas apenas o Google me convenceu disso. Para mim, vocês eram meia dúzia e pronto.

Aí decidi tentar escrever mais, por quanto eu conseguisse. Fiquei pensando em pessoas que vivem da escrita e que elas dispoem dos mesmos elementos que eu. Achei que a minha inspiração se esgotaria em um mês e tem funcionado até agora. Foi um desafio pessoal que causou mudanças no perfil deste blog. Alguns dias sento aqui e saem três textos de uma vez, que armazeno. Outras vezes, passo o dia inteiro à caça de um tema. Nos dois casos, tenho lapidado mais e me sentido mais feliz com os resultados. Ao mesmo tempo, me sinto meio personagem de mim mesma – mas isso fica pra outro post…

Outro motivo muito importante é que eu descobri o quanto a popularidade do que escrevo é meio imprevisivel para mim. Publiquei aqui algumas coisas tão idiossincráticas ou banais que eu jurava que ninguém gostaria. E algumas delas foram consideradas os meus melhores textos, Temas que há muito tempo não sabia como tratar ou histórias que necessitavam de um tratamento especial finalmente conseguiram sair. Me sinto como um artesão com maior domínio da técnica.

Esse texto pode ser lido como uma experiência pessoal, mas também como exemplo ou apelo: gostaria que vocês, meus talentosos amigos blogueiros, acreditassem que a fonte não seca e postassem mais.

Feliz natal!

Pra entrar numa clima de Feliz, coloco o video de um dos espetáculos mais incríveis que eu vi na minha vida: Encartes, da Téssera. Esse é o fim do espetáculo. Dava vontade de pular no palco e dançar com eles. A alma da gente saía flutuando:
Não, eles não eram patrocinados pela Coca-cola. É que o espetáculo foi todo montado em cima de jingles, o que trazia a tona muitas lembranças de quem estava na platéia. Destaque para o solista que abre essa parte, o Israel. Além de um doce de pessoa, ele é um bailarino completo, daquele que ocupa o palco inteiro quando dança.

Tem outras partes também: Donde estavas tu, Futebol, Caldo Maggi, Balas Kids. Mesmo com uma gravação ruim, acho que vocês se encantarão.

Presentes

Desde criança eu gosto de fazer embalagens para presentes. Já fiz algumas que ficaram tão bonitas que valia mais a pena a pessoa deixar daquele jeito do olhar o que tinha dentro. Gosto de guardar fitinhas e diferentes papéis pra ter material pra trabalhar. Mesmo quando é só um embrulho, eu faço bem caprichado. Gosto de deixar o papel bem preso sem estragar a embalagem original, e deixar o durex bem discreto. Essa época do ano é especialmente divertida pra mim. Algumas vezes mantenho a embalagem da loja, porque eu sei que as pessoas gostam; quando são feias, refaço. Antigamente, quando a gente pedia embalagem para presente, o funcionário fazia na hora. Se ia ficar bom ou não, dependia só do talento dele. Agora, é tudo padronizado ou eles simplesmente nos dão o papel (adoro!). Eu sempre disse que se tivesse contratação especial para fazedora de presentes, poderia trabalhar no supermercado…

Desde que eu casei, em todos os natais ganho da minha mãe algum presente embalado de uma maneira bem troncha. Eu sorrio por dentro e penso “eu faço falta, né?”

Tendências opostas

Já fui acusada de ler demais pra viver de menos. O que está muito longe da verdade, pelo menos no meu caso. Para ler, eu preciso estar bem e interiorizada – as duas coisas são quase sinônimos pra mim. Idem para ouvir música erudita. Senão, as letras do livro vão sumindo na minha frente e saio pra fazer outra coisa. Com a música, é como se eu estivesse com amusia e ela não faz sentido ou me incomoda. Se estou sempre ocupada, os pedidos da Dúnia para prolongar os carinhos me impacientam, e dou logo um ossinho pra ela me deixar ir. Não sei como algumas pessoas conseguem cultivar a popularidade: quando estou ocupada e amigos querem me ver, a coisa me soa como um problema. Me identifiquei muito o dia em que soube que Guimarães Rosa se dizia um usurário (que sofre de usura) do tempo.

Por outro lado, tantas coisas na vida me atraem que me pego fazendo cada vez mais planos, abraçando o mundo em várias atividades. Não consigo ser especialista, porque não consigo achar nenhum assunto interessante o suficiente. Gosto do desafio, de olhar uma atividade e ela me parecer impossível; ser olhada como sumidade num assunto não me interessa. Design, corte e costura, decoração, megulho, cinema, viagens, livros, artes marciais… são poucos os assuntos que não me dão vontade de fazer um curso, de experimentar, de fazer parte daquilo. Eu não estava mentindo quando disse que não escolho. Não apenas faço coisas que não parecem ter relação, como sou meio Zelig.

Como viver para dentro e para fora? Me condeno por me envolver com tantas coisas, por ficar mais longe do meu lar do que deveria. Se fico demais no mundo, sofro por me sentir fora de mim, tudo me parece cansativo e sem sentido. Ao mesmo tempo, sem me envolver em múltiplas atividades, a interiorização se transforma em tédio e o tédio em depressão. Eu gostaria muito de ter um oitavo dia na semana, só para mim, que não pudesse jamais ser invadido… por mim.

Tenho 21 e quero fazer ballet. É possível?

Muita gente acessa meus posts sobre ballet. Hoje recebi uma pergunta no formspring e acho que é uma dúvida meio comum. Por uma questão de utilidade pública, taí a dúvida e minha opinião:
Queria fazer ballet, só que também já tenho vinte e um ano, logo estou velha demais. Já não dá para prestar pois não? Fleurs

Depende.

1. De você em sala de aula: por começar tarde, é melhor que você tenha facilidade pra dança. Um bom indício é se você tem facilidade para outras atividades físicas. E por melhor que você seja, no início tudo será muito difícil.

2. Do seu corpo: o ballet tem muitas exigências físicas, muitas delas genéticas. Quanto mais elástica e magra você for, melhor. Mas tem coisas que só numa aula você vai descobrir que fará falta.

3. Da sua disponibilidade de tempo, dinheiro e empenho: no geral, uma bailarina tem aula todos os dias e até nos finais de semana. Dói, cansa, gasta dinheiro. Exige compreensão da família e faz abrir mão de programas com os amigos. Esse é o preço.

4. O principal: dos teus objetivos. Pra virar uma grande bailarina clássica, 21 anos é tarde mesmo. Mas dançar ballet não é sinônimo de virar bailarina clássica. Você pode fazer como exercício, porque é divertido, para desenvolver noção de ritmo e consciência corporal, pra se sair melhor em outras danças. Pra todos essas coisas que eu listei, não tem problema nenhum ter 21. Eu comecei muito mais tarde e estou aí, na batalha 😉

Meu conselho é você procurar uma escola que aceite alunos mais velhos e mandar bala. Depois você descobre se leva jeito ou não, se quer virar bailarina clássica ou não. Vale a pena.

Duas rapinhas

Brincando de celebridade, algo meio Barbara Gancia. É assim que eu vejo o Formspring.

A reflexão da semana fica por conta de Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

Mas, na ocasião, me lembrei de um conselho que Zé Bebelo, na Nhanva, um dia tinha me dado. Que era: que a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesma nunca que se deve de tolerar de ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa pessoa passe durante o tempo governando a idéia e o sentir da gente; o que isso era falta de soberania, e farta bobice, e fato é.
p. 237

Respondendo pela tangente

Desde meus 21 anos, detesto a pergunta sobre o que faço na vida. Entendo que para os outros seja uma pergunta tão banal quanto perguntar o nome, que é apenas uma forma de conhecer o outro e saber do que falar. Para mim é um eterno tormento. Pergunte-me qualquer coisa, pergunte qual o sentido da vida, mas não me venha com essa de profissão! Porque eu me sinto uma mentirosa com qualquer resposta que eu dê. Cada fase, cada dia, eu respondo alguma coisa. E todas as respostas são verdadeiras e incompletas, todas são meias verdades. Ou quase mentiras.

O Luiz resolve essa questão dizendo que eu sou escultora. Durante muito tempo eu me sentia confortável com essa resposta, mas deve fazer mais de dois anos que eu não uso argila pra outra coisa que não seja compressa (é um santo remédio, testado e aprovado), ela parou de ser tão verdadeira. Tenho preenchido fichas dizendo que sou socióloga, porque tenho mestrado e até livro saindo sobre o assunto. Mas e o fato de nunca ter atuado na área e ter esquecido o assunto desde que me formei, desde que comecei a dançar? Dizer que sou bailarina eu até digo, porque tenho respirado isso todos os dias desde o ano passado… Mas respondo meio baixinho, meio querendo mudar de assunto. Comecei ballet na idade que as bailarinas se aposentam; nunca vesti e provavelmente nunca vestirei um tutu. Dizer que sou Do Lar deixa o Luiz indignado, mas acho que tem a ver porque é ele quem me sustenta.

Poucas semanas atrás, encontramos uma casal amigo dele, da época de faculdade. Quando eles perguntaram o que eu fazia, fiz um muxoxo, pensando no que dizer. O Luiz se adiantou e listou tudo o que já fiz nessa vida. Também não me senti bem; sabe quando a pessoa faz cena porque sabe que vai ser elogiada? Ficou parecendo isso. Também por causa disso, olha o que eu respondi pra dona da banquinha onde eu compro piauí:

(dona da banquinha)- Você trabalha?
(eu)- Sim, eu vou entrar em férias na semana que vem.
(ddb)- É duro trabalhar em agência, o trabalho do seu marido deve ser bem melhor que o nosso, né?
(eu)- É, trabalhar com o público não é fácil…
(ddb) – Eu digo que me estresso mais na agência do que aqui. É diferente lidar com o dinheiro das pessoas. Você também é engenheira?
(eu) – Não, eu não.
(ddb) – Eu estava de folga essas duas semanas, agora vou voltar a trabalhar. É duro. (suspiro) Você trabalha em banco também?
(eu) – Não, deuzulivre. Já basta um em casa.
Chega um cliente. Aproveito pra me mandar

Eu deveria ter dito que era dona de casa de uma vez.

A bailarina que odiava ballet

Confesso que se não tivesse ganhado ingresso, eu não teria ido ver Quebra Nozes. Isso porque vi o Dom Quixote que a Escola do Bolshoi apresentou e achei um tédio. Fui, por mesquinharia e um certo senso de dever. Pra minha surpresa, eu gostei. E mais: fui capaz de ver tecnicamente, criticar solistas, identificar erros. Talvez eu esteja deixando de ser a única bailarina que não gosta de ballet clássico. Porque hoje eu ser bailarina é de uma irônia tão grande, que isso só comprova que o divino tem senso de humor.

Minha rejeição ao ballet começou cedo, fazendo ballet. Meus pais tinham acabado de se separar, eu tinha acabado de vir pra Curitiba e tudo era novo na 1º série. Na minha nova escola, os meninos faziam judô e as meninas faziam ballet. Eu olhava com inveja meu irmão na roupa de judoca, mas não tinha coragem de pedir pra mudar porque isso era muito raro e mal visto. Por isso, sofri durante quase quatro anos. A professora tinha uma cisma especial comigo. Talvez todas as crianças a adorassem menos eu; acho que ela encarava meu jeito calado como uma muda resistência a ela. Lembro claramente dela gritando comigo, me olhando com impaciência, não dando o menor valor às coisas que eu fazia. Se hoje sou flexível, imagino como era naquela época em que eu fechava uma quinta direitinho. Tanto que a cada semestre eu nem precisava olhar no boletim para saber que eu tinha tirado B (bom). A nota R (regular) nunca era usada e o O (ótimo) estava vetado pra mim.

Um dia, já na 4º série, ela perdeu a paciência e me segurou com força no braço, enquanto gritava na minha orelha. Não suportei mais tanta pressão e chorei em casa. Minha mãe – que havia sofrido o mesmo tipo de assédio de uma professora de educação física quando era criança – disse que eu não precisaria mais fazer ballet se quisesse. Seria possível tamanha felicidade? Estava com medo, mas aceitei. Cheguei com um bilhete na escola e permaneci na sala enquanto todas foram pro ballet. Tremi de medo quando uma menina disse que a professora estava mandando me buscar. Fiquei firme e não fui. As outras crianças ficaram contra mim, mas qualquer coisa era melhor do que voltar a pisar naquela sala.

Pouco tempo depois ela saiu da escola e desconfio que tenha sido por minha causa. Espero que aquela bruxa nunca mais tenha dado aula para crianças.

Linha turismo

Há vinte anos, o único ponto turístico de Curitiba era o relógio das flores, que hoje em dia muita gente nem lembra que existe. Isso porque Curitiba é uma cidade ótima de viver e tudo mais, mas não é uma cidade turística. Quando as pessoas me dizem que morrem de vontade de conhecer a cidade, eu pergunto “tem certeza!?” Por mais que os curitibanos quase nos matem quando a gente diga isso, o legal dessa cidade é pra morar e não para ver. Lindo mesmo é o Rio, praias do nordeste, etc.

Sabendo que aqui não tem belezas naturais, nossos governantes foram inteligentes e construiram várias coisinhas para sanar essa falta. E essas coisinhas todas estão reunidas no mesmo trajeto de ônibus, a Linha Turismo. É um ônibus adaptado, cheio de bancos na parte de cima, que percorre todos os pontos turísticos da cidade. Ele funciona de terça à domingo, das 9 às 17h. Atualmente, a passagem custa 20 reais, e dá direito à 4 paradas. Eles dão pra gente um folheto com todas as informações turísticas e os horários do ônibus, que passa de meia em meia hora. É um programa imperdível pros loucos que querem passear por Curitiba.

Peguei esse ônibus terça passada. O clima estava tipicamente curitibano: menos de 20 graus, céu cinzento, uma garoa fina. Estava determinada a ficar lá em cima, mesmo com os bancos molhados. Quando entrei no ônibus, descobri que decidir fazer esse passeio em dia de chuva é impraticável. São pouquíssimos lugares lá dentro. Se todos descerem lá de cima, não tem espaço. Isso sem falar que quase todos os pontos turísticos de Curitiba são parques e lugares abertos. Não é à toa que curitibano é doido por shopping.

Como era de se esperar, lá faz um ventão e fiquei com frio. É legal passar perto das placas e achar que vai bater a cabeça se levantar dentro de um túnel. Nem é tão alto assim, mas já dá pra ter orgulho do quanto essa cidade é arborizada. Sobrou uma passagem das cinco descidas que eu tinha direito; estou pensando em fazer o trajeto todo, só pra olhar a cidade. A única coisa chata é a angústia daquele vento todo no cabelo. Quando descia, e meu primeiro desejo era ver meu reflexo em algum lugar para me ajeitar…

Conselho de amiga: nem todos os pontos valem a pena mais do que uma olhada pelo ônibus. Pra render, eles encheram de pontos em lugares próximos e transformaram construções tolas em pontos turísticos. Aí vai minha sugestão de roteiro:

Faça em uma parada só:

setor histórico + Praça Tiradentes + rua das flores + Paço da liberdade + Teatro Guaíra/ Universidade Federal do Paraná
Centro Cívico + Museu Oscar Niemeyer + Bosque do Papa
Parque São Lourenço + Ópera de arame + Pedreira Paulo Leminski

Não desça do ônibus, nem por decreto:

Teatro Paiol, Universidade Livre do Meio Ambiente, Portal Italiano.

Não vale muito a pena descer do ônibus:

Ópera de Arame, Parque Tinguí, Memorial Ucraniano, Museu Ferroviário (é no shopping Estação, você quer ver shopping?).

Vá, se estiver a fim de andar:

Parque Barigüí, Passeio Público/ Memorial Árabe, Parque São Lourenço

Recomendo fortemente:

os roteiros que fiz acima + Parque Tangüá, Santa Felicidade, Torre Panorâmica e Mercado Municipal

Prazo expirado

Quem não têm traumas de infância? O poder enorme que nossos pais têm sobre nós faz com que eles nos façam coisas terríveis. Coisas terríveis pequenas, como mesquinharias, vinganças, omissões, preferências, olhares atravessados. E coisas realmente terríveis, como grandes violências, injustiças, comportamentos pensados, reprováveis, repetitivos. Infelizmente, não existe psicotécnico pra ser pai. Algumas vezes, nascemos na época errada, pra compensar falhas no casamento, agravamos problemas financeiros, somos doentes ou barulhentos. Nossos pais podem não se reconhecer no nosso jeito e isso virar uma guerra. Outras vezes eles nos prejudicam porque escolheram um modo de viver incompatível com o papel que eles deveriam exercer. O fato é que ninguém parece estar a altura dessa responsabilidade.

Seja boa ou ruim, a infância é nosso ponto de partida. Meio aos trancos e barrancos, crescemos e os diversos crimes que nossos pais cometeram conosco expiram. Pra começar, crescer e sair de casa melhora imensamente nossa relação com eles. A passagem dos anos os transforma em velhos e mais frágeis, e nós passamos a ser adultos mais adultos. E a vida adulta nunca é linear como gostaríamos; os mais admiráveis princípios às vezes se desfazem à luz do dia. Cometemos erros e isso nos aproxima cada vez mais da humanidade, dos falíveis, dos nossos pais. Quem nunca erra perde a chave do sentimento de irmandade.

Este post tem uma razão muito importante: depois de uma vida inteira de luta, eu finalmente entendi e aceitei – no fundo do meu coração – a pessoa que meu pai é e as escolhas que ele fez. E descobri que o admiro.

Do Autoliniers.

Dezembro

Minha mãe sempre mantinha um preguinho na parede da cozinha, onde colocava um calendário grande de papel para marcar. Isso para olhar os meses riscados e dizer que “a gente já passou por tudo isso, agora só faltam esses daqui”. Era uma época em que parecíamos viver uma queda de braço com o tempo. Esse mesmo tempo parece congelar ou até mesmo recuar no fim de ano. Achei que essa sensação estava ligada apenas à vida escolar, mas parece que é assim com todo mundo. Vivemos um tempo cíclico, como se fosse preciso sofrer no fim pra gerar algo novo quando o ano muda.

Pra variar, termino o ano sem fazer a mínima idéia do que farei no ano seguinte. Tenho alguns planos e isso não quer dizer muita coisa. Cada vez que leio no mapa astral que eu estou “numa fase de rever conceitos, mudar de trajetória”, digo “DE NOVO!?” Já mudei tanto que desisti de achar que controlo alguma coisa. Me conformei em mudar, morrendo de inveja de quem fica. Como pode alguém que nunca tomou um porre lembrar um pouco Satisfaction? Isso me lembra um diálogo que tive em terapia, há mais de dez anos:

(Terapeuta) Você tem dificuldade de fazer escolhas?

(Eu) Claro que não. Eu opto por fazer tudo.

Meu problema não é a falta de satisfação, e sim encontrá-la em toda parte.

Fim de caso

Pessoas próximas a mim nunca gostaram de música erudita. Não estou falando em achar culto, interessante e necessário, porque isso todo mundo acha; estou falando em sentir necessidade de ouvir, em fazer parte da sua história. Por isso, foi meio como quem fala de uma extravagância que o Luiz falou pra um dos seus amigos – um arquiteto solteirão – que eu gosto de ouvir Maria Callas. E tivemos uma dupla surpresa quando ele nos disse que já terminou um namoro por causa dela.

Ele estava sozinho em casa, não esperava ninguém. Estava à vontade e ouvindo Maria Callas. Sua namorada resolveu lhe fazer uma visita surpresa e quando ouviu o que estava tocando, se queixou daquela gritaria.
– Não é gritaria. É a Maria Callas.

Ela reafirmou que para os ouvidos dela aquilo era só gritaria, que ele deveria colocar algo melhor pra ouvir. O tom dele já era outro quando perguntou:
– E o que eu supostamente deveria estar ouvindo, minha querida?

Ele era tão bonita, ele nos disse. E aquela beleza toda se desmanchou no instante em que ela respondeu:
– Você não tem aí o último CD do Daniel?