Três lembranças diferentes

parábola

Eu fazia estágio numa clínica psiquiátrica, na parte de internamento breve. Assim como tem gente que uma vez na vida tem um surto e se recupera, tem aqueles que voltam sempre, todos já conhecem. O Fulano era um deles. Já tinha uns sessenta anos e era um sujeito muito chato. Diziam que a família devia mandar pra lá por isso. Tinha alguns CID-10. Lembro dele abordar qualquer um pela manhã e mostrar os comprimidos que tinha: “Olha só, dez comprimidos, só pela manhã. Imagina como deve ser meu estômago”. E reclamava, reclamava, reclamava. Internar uma pessoa é uma nota. De um lado, a família não devia mesmo gostar da companhia dele. Por outro, eles pagavam. Quanta gente por muito menos é abandonada pela família ou trancada num quarto.

Há poucos dias eu fiquei louca da vida de uma pessoa mais jovem, mais endinheirada, mais amada, mais cheia de oportunidades vir choramingar pra mim, de novo. “Mas é que você é tão madura, tão forte, você lida com os seus problemas tão bem que me sinto muito à vontade de achar pouco de ter de sobra o que tem te faltado”.

Os dois casos me lembram uma história budista que ouvi na minha infância, de uma mulher que perdeu alguém na família e foi pedir para Buda trazer a tal pessoa de volta. Ele disse que a mulher lhe trouxesse uma semente de mostarda de uma família que nunca havia perdido alguém, ele atenderia o pedido. A mulher bateu de porta em porta e cada família tinha uma história de perda pra contar.

Às vezes me parece que egoísmo, maldade e doença são uma coisa só.

Anúncios

Curtas sobre c e r t a s p e s s o a s

suave na nave

Meio o de sempre: feliz, fotos sorrindo. Terminou com o namorado: indiretas motivacionais. “Dê a volta por cima”, “não fica do meu lado quem não me merece”, “eu sou como a ventania que não pode ser contida”, etc. Até que eu entendi que é uma tentativa de convencer a si mesma. Força aí.

.oOo.

Eu adoro vídeos de cachorros e a progressão geométrica das redes sociais faz com que eles apareçam no meu facebook, no meu whatsapp, que eu seja marcada por amigos. Mas tem uma pessoa que me manda vídeos de cachorro que não apenas me desagradam como me irritam. Num deles, um cachorro pedalava uma mini-bicicleta. Tentei avisar que amo cachorros sendo cachorros e detesto quando os obrigam a comportamento de circo. A pessoa não entendeu, atribuiu minha queixa a um dia de mau humor e continuou a me mandar.

.oOo.

Sem dúvida, não é uma pessoa egoísta. É até uma pessoa do bem. Mas eu me perguntava o que havia de errado, havia algo de irritante. Seria a riqueza, seria achar que sua família é melhor do que as outras? Não era explicação o suficiente. Até que, na roda, uma comentou que havia feito vários exames, porque vinha sentindo dores. Aí a pessoa emendou: “eu fiz todos os exames recentemente, fiz ressonância, fiz contagem de células, eu estou ótima, super saudável!”. Ou seja, é a versão contrária da pessoa que compete em desgraça.

.oOo.

Eu não consigo ver encontro com pessoas do passado, tipo reunião da turma de 1900, que a gente não vê há anos, como desprovida de competição. Não consigo, lamento. Se fossem pessoas afins, o contato não teria se desfeito. Tive uma prova dessa teoria quando estava me preparando para cumprir a obrigação de falar com uma pessoa que eu sei que não está bem. Quando chegou o momento, recebi uma mensagem curta e política, um “obrigado, beijos”. Não adianta, a pior coisa do mundo é responder “e aí, como estão as coisas” quando algumas delas simplesmente não têm solução.

Sala de exame

p_painel-de-senha-sequencial-e-aleatoria-2

Acho sempre muito estranho quando eu saio do elevador e me vejo de uma vez no ambiente, acho que foram anos de condicionamento entrando em corredores. É como nos filmes de ficção científica que a pessoa salta em outra dimensão. Mais surpreendente ainda porque fui parar numa sala de exames lotada e na última vez que tinha feito ele, um exame totalmente feminino, não foi daquele jeito. Esperei minha senha, meio ansiosa porque cheguei nos dez minutos antes que manda o protocolo mas até me chamarem já daria o horário. Aí vi que a sala estava lotada daquele jeito por causa dos acompanhantes. Saia gente de lá com o andar típico de quem tinha tido AVC e não conseguia mover direito um lado do corpo. Pessoas que torceram o pé. Idosos que mal se moviam. Dois entraram homens na sala, ignoraram a senha e se desentenderam entre eles e com uma das atendentes, justamente a que eu tinha achado antipática. Um queria fazer um exame que fica em outra unidade, praticamente do outro lado da cidade. Aí ele virou pro outro e era daquelas pessoas que fala sem mover a boca, o movimento acontece todo por detrás dos lábios imóveis. Ele hesitava em deixar o outro – provavelmente haitiano – lá, achava que não saberia voltar sozinho. Mas deixou. O haitiano trouxe o resultado de uma colonoscopia, não sabia dizer onde estava a guia, se tinha guia, a atendente que eu achava que era antipática pegou a carteirinha e não pediu para ele ir para a fila. Não havia nenhum registro no número e ele disse que precisava fazer outro exame. Ela quis saber quem, como, onde e ele não sabia responder. Eu fui chamada antes da história terminar. Fiz meu exame, esperei o resultado com a bolsa no colo e sem ânimo de pegar o Kindle. Depois de longos minutos, a assistente foi até a impressora que fica atrás das atendentes e pegou folhas que estavam espalhadas lá faz tempo, ou seja. Peguei o exame, agradeci, fui a passos largos até o elevador. Meus passos eram largos, bem informados, saudáveis.

Disfuncional

the_hunchback_of_notre_dame_profilelarge

Ele foi uma das pessoas mais disfuncionais que eu conheci. Tão disfuncional, com o mundo e com ele mesmo, que se matou. Deixou tudo organizado e se atirou debaixo de um ônibus. Ele conseguia ser feio, ter cheiro desagradável, falar cuspindo e sem noção ao mesmo tempo. Era uma pessoa tão difícil que eu um dia o encontrei na rua e ele estava todo feliz, porque trabalhava num órgão público, desses que pagam uma fortuna, e deram para ele uma função que o permitia passar o dia inteiro fora. Pros teus colegas de trabalho preferirem que você ganhe praticamente sem aparecer é porque a coisa é feia. Eu o encontrava em dois ambientes de aula ao mesmo tempo e nos dois as pessoas se afastavam assim que ele chegava. Arranjava confusão, se achava mais qualificado do que gente quilômetros de distância melhor que ele. Do tipo que vira pra uma mulher e reclama: um bando de mulher de TPM! Só que no meio de tantas manias irritantes, de chegar perto demais, dos assuntos que não despertavam interesse, ele virava pra você e dizia coisas gentilíssimas. Do nada, ele percebia que te notou, valorizava quem você era e fazia, te fazia ganhar a semana. Nenhuma mentira, ele apenas pegava o que via de bom e devolvia, transformava em palavras o que estava no ar e presenteava. Essa estratégia me fazia pensar que, ao contrário do que parecia, ele percebia os efeitos que causava. Era disfuncional, consigo e com o mundo, pouca gente gostava dele, mas havia ali a capacidade de oferecer calor.

Pomada

131754615_k5a

Ela atendia os pacientes em casa. Uma moça chegou por indicação, parente de uma cliente assídua. A moça precisava de ajuda porque estressada, em fase de mudanças. O atendimento acontecia na sala de estar mesmo, já organizada para esse fim. O banheiro disponível era o seu banheiro mesmo, o único do pequeno apartamento. Na pia, apenas um sabonete líquido para os clientes. No armário apertado atrás do espelho, pasta de dentes, escova, fio dental e uma pomada que ela passava toda noite. Era uma pomada de tuia, feita em farmácia de manipulação, uma embalagem de 5g dentro de uma caixinha. Ela tinha umas pequenas verrugas no rosto que queria tratar sem fazer cicatriz, então passava a pomada todas as noites para ver se as verrugas regrediam (regrediram). Como o combinado, a moça chegou, foi atendida, tudo transcorreu normalmente. No fim do atendimento, a moça pediu para usar o banheiro. Ficou poucos minutos lá dentro e foi embora. Naquela mesma noite, antes de dormir, ela foi passar a pomada no rosto e a caixinha estava vazia. Depois a parente da moça ficou sem graça com a descontinuidade do tratamento – a moça ficava de ligar e não ligava, sempre sem tempo e estressada. Os atendimentos eram justamente para ajudá-la nisso.

Teve outra que deixou de vir para não devolver uma sombrinha.

O Popular

people

Tem uma crônica do Veríssimo com esse nome, que não quer dizer um sujeito muito amado e sim o cidadão que sai nas notícias, “populares cercaram o local”, etc. Aí Veríssimo vai indo, diz que o sujeito está segurando um pacote, que aparece no canto das fotos, que se um dia tentam pegar o popular ele escapa, o verdadeiro Popular é o outro que está assistindo o primeiro ser preso. É uma crítica, na verdade, da multidão passiva que não se posiciona. Independente da crítica, talvez por ter lido a crônica muito jovem, sempre mantive a figura do Popular com seu pacote na minha cabeça e enxergo procuro por ele no plano de fundo dos entrevistados na rua.

Tempos desses assisti sem querer um ritual importante, e quando fui parabenizar a pessoa que, digamos assim, ganhou o cargo, ela me perguntou quando é que eu me juntaria a eles. Eu sorri e disse que não me juntaria. No post retrasado lembrei do meu histórico de visitante de igrejas. Fui à várias, na esperança de ver coisas diferentes, e quando me convenci que era tudo meio igual perdeu a graça. Ganhava livro sagrado, me punham em listas, me chamavam pra festas, grupos de jovens, todo tipo de pressão sutil ou não sutil e jamais conseguiram. Sorria, desconversava, fingia que não percebia. Mais antigo ainda, lembro quando minha vizinha tinha com mais duas amigas um grupo que ensaiava coreografia da Xuxa para apresentar nas festas da família. Os ensaios eram secretos, para manter o suspense. A única exceção era eu, que podia assistir todos.

Cara, eu sou O Popular.

Borboletas e baratas

vocc3aa-vc3aa-borboletas

Li em algum lugar que o número de estudos sobre as borboletas é muitíssimo maior do que os sobre baratas. Seria pela importância delas para o meio ambiente, ou para a polinização das flores, ou devido à grande variedade da espécie e o papel das borboletas na mitologia de diversas civilizações? Apenas imagine que você é um pesquisador e precisa escolher aquele assunto para o qual se debruçará e olhará com atenção pelos próximos anos, quem sabe o resto da sua vida…

As teorias que comparam o comportamento humano com animal, ou a nossa relação do mundo como metáfora de como éramos com nosso xixi e cocô ou que dizem que tudo se resume a sexo, nos soam primárias e ridículas, mas a verdade é que somos sempre muito mais simples do que nossas racionalizações.

100%

grafico

Eu achava muito interessante uma tática que conheci de um violinista, que já chegava nos ambientes e perguntava: Fora as coisas ruins, tudo bem? Se não ganhava um Tudo Bem imediato, pelo menos era “é, fora as coisas ruins…” daqueles que normalmente passariam horas se queixando. Também acho cafona a moda de falar “gratidão” pra tudo, mas talvez seja realmente o melhor princípio contra o mimimi. Me pego cada dia mais impaciente com os que tem o hábito de reclamar. Tenho amiga desempregada há um tempão que provavelmente leu isso e pensou: “poxa, mas você não sabe o que estou passando, foda ficar desempregada”. E digo: não é de você que estou falando. Já perceberam que as pessoas que mais reclamam nunca são as que estão realmente mais ferradas? Aí que entra o conceito de gratidão: se você vira para elas e fala que, apesar de X, ela tá saudável, bonitona, namorado apaixonado e fazendo o que gosta, a resposta será um “É..” bem muxoxo. Para esse tipo de pessoa, o que falta lhe dói muito; já o que ela tem é tão básico, tão obrigação do universo, que nem conta. Nem se você não apenas também esteja passando por X como ele ainda é multiplicado por y², a outra se sente menos coitada. O que eu posso afirmar, do que sei da vida e das pessoas (imagens projetadas em redes sociais não contam) é que ninguém tem 100% da vida maravilhosa e bem resolvida. Todo mundo tem um lado mais difícil: a de carreira ótima não tem sorte no amor, o de vida mansa tem saúde ruim, o cônjuge maravilhoso vem com ex chata no pacote, por aí vai. Do mesmo modo, apesar dos mimizentos profissionais, também nunca vi alguém 100% ferrado, com tudo ruim ao mesmo tempo, sem absolutamente nenhuma fonte de felicidade. Tem felicidade sim, a pessoa que faz questão de ignorar pra poder reclamar melhor. Então, vai se vitimizar pra lá e fora as coisas ruins tudo bem, ok?

Descrição

coração e cérebro

Uma amiga, nesses meios ultrasensíveis de entender as pessoas, me definiu como alguém que tem por objetivo estar cercada de afeto. Eu jamais teria pensado em mim mesma nesses termos ou de descrever isso como um objetivo mas, de fato, já deixei de lado situações que me dariam status, dinheiro, etc, porque estar naquele meio não me agradava. Não agradava também os outros, mas eles se mantinham lá em vista do que aquele contato podia render, nem que fosse apenas no Lattes. Sempre preferi posições menos vantajosas com pessoas que me faziam bem. Quem diria que sou carpe diem – expressão que eu sempre associei a festas e putaria.

Curtas de duas

galos do futebol

Uma amiga também divorciada, ao contrário de mim, é baladeira. Ela me contou que em show sertanejo quase só tem mulher e elas se acabam com as letras de traição. “Tá difícil, tá muito difícil”. Abre tinder, vai no sambão, balada, bar de motoqueiro, tudo gente sozinha, divorciadas “na luta”, tão difícil arrumar alguém. Tenho vontade de falar alguma coisa, mas minha fama de encalhada que não se esforça é tal que ninguém me pergunta.

Me lembrei muito de uma outra amiga, que estava com o casamento meio em crise e se apegou aos amigos gays. Virou assídua frequentadora de baladas gays, ótimas pra dançar e cheia de homens lindos e indiferentes. Aí veio se queixar pra mim que o mundo inteiro era gay.

.oOo.

Quando conheci meu ex, ele era de direita e pró-israel. Bastava mostrar palestino morrendo que eu apontava pra TV: Olhaí, alá vocês, como é que você me explica isso? Tínhamos altas conversas discussões sobre política, mercado, capitalismo, direitos humanos. Agora, tantos anos depois, adivinhem? Ele continua de direita e pró-israel. E vocês achando que se convence alguém com textão no facebook. (E eu ainda o procuro quando quero ouvir alguém sensato de direita.)

 

Curtas de objection your honor

objection-your-honor

Digitadores ficam com LER nos pulsos e o elenco de The Good Wife deve desenvolver lesões relativas a levantar abruptamente dizendo: objection, your honor!

.oOo.

Primeiro contato e eu não foi polida – não fui grossa, mas não foi bacana. A resposta foi no mesmo tom. Já tinha decidido nunca mais comentar nada, deixar de ler, aí recebo uma mensagem privada gentil, fazendo referência ao meu comentário e me convidando a ler um outro texto. Fiquei muito sem graça, pedi desculpas, disse que havia me arrependido do meu primeiro comentário, agradeci. Aí lembrei porque tenho a política de ser gentil sempre que possível:

  1. A gentileza desarma.
  2. A gentileza nos faz passar menos vergonha.

 

.oOo.

As pessoas. Elas têm o péssimo hábito de terem defeitos. Alguns nos são insuportáveis e deixamos de falar com elas. Quando não são, a melhor política é escapar, nunca tocar no assunto e fingir que não viu. Por incrível que pareça, o caminho do meio – analisar, jogar na cara, exigir justificativas e pedidos de desculpas – é muito pior.

Todo mundo não existe

meeting_13

Aprendi isso em terapia: todo mundo não existe. A não ser que você tenha tido um vídeo íntimo vazado e esteja sofrendo de bullying em cadeia nacional, não existe o “todo mundo” que pensa ou sente algo a teu respeito. Os funcionários da padaria, o pessoal do ponto de ônibus, o motorista do carro ao lado, ou seja, pra maioria da população você nem ao menos existe. Aí você diminui para as poucas pessoas com quem convive, elimina as que não estão envolvidas na situação, coloca também aquelas que te amam e estão do seu lado, corta de um lado e corta de outro e acaba descobrindo que o tal “todo mundo” se reduz a um círculo muito pequeno de pessoas, às vezes nem isso. Pode ser que seja apenas uma pessoa e ela seja tão poderosa que o seu juízo pese mais do que “todo mundo”. Um conselho fácil de dar e às vezes difícil de aplicar: não dê poder a quem te fere.

Originalidade

Tem uma frase que eu li em algum lugar que me ajuda muito e não sei direito como dizer isso sem querer parecer uma pregadora religiosa. É assim: “Através de você, Deus está vivendo uma experiência que ele nunca viveu antes.” Para mim, essa frase é um apelo máximo à originalidade. Ela me faz pensar o quanto regras de conduta são perigosas e até inválidas, porque o que rege a minha vida pode ser um estrago na vida do outro. Eu ia escrever “o que equilibra a minha vida” mas já está aí, pode ser que tudo o que o outro menos precise seja equilíbrio. Eu penso também numa conhecida minha, que nunca sonhou em viajar, mas colocou o nome num projeto e os frutos dele estão levando-a a viver em outras partes do mundo, de Inglaterra à Nova Zelândia. Eu mal e mal vou até Campo Largo; se fosse tentar ser uma pessoa viajada, teria que fazer imensos esforços. Ou seja, pra ela vem fácil e pra mim seria uma luta, uma tentativa de cópia, a vontade de ter o que não é a minha realidade. Me faz pensar também no escrever, nessa crise imensa que todos que escrevemos temos, ao olhar para o lado e achar tão lindo, genial e disse tudo – e nessa de achar o outro tão maravilhoso, dá a impressão de que tudo está tão dito e muito melhor dito que não tem porque euzinha escrever. E realmente já está dito e não vale a pena, se eu virar uma cópia mal feita de Paulo Coelho ou Borges. Mas valerá a pena, será único e original se eu disser o que apenas eu posso dizer – mesmo sem viagens internacionais.

otro dia más

O brilho secreto

vivian-maier-self-portrait-with-rolleiflex-camera-1024-postbit-2259

Quando aquele cara que eu considerava meio louco – e não no bom sentido – me falou com muita seriedade que disseram que ele tinha um tipo de mediunidade especial, que ele não é qualquer um, não pude deixar de sorrir por dentro. Acho que todo mundo já ouviu, de alguma fonte fidedigna, que somos especiais. Não digo aquele amplo, no sentido que todo mundo é filho de Deus, e sim um “VOCÊ, apenas você é assim”. Num caso muito angustiante que eu conheço, Ela desde sempre foi criada numa redoma, com mimos fora da  sua realidade e que claramente terminariam no início da vida adulta. Todo mundo tentou fazer alguma coisa, alertaram e ofereceram caminhos, mas ela nunca aceitou. Minha teoria é que, no fundo, Ela achou que seria salva – tudo aquilo era ela, lhe pertencia por direito, jamais lhe seria tirado. De uma maneira ou de outra, daria certo. Quem sabe um dia, andando por aí, ela conhecesse um homem rico e… Acho que é a união da crença do brilho secreto com a cultura do casamento que que torna as mulheres tão vulneráveis aos cafas: quando um homem no primeiro encontro já declara amor eterno, um lado diz que é impossível, rápido demais – mas o outro lado pensa: “quem disse que não é possível? Não é possível para os outros. Ele está dizendo isso porque me olhou por dentro, como ninguém nunca olhou, e o que tem lá é único e especial mesmo”. No início do documentário sobre Vivien Mayer, surge a pergunta: por que uma fotógrafa tão talentosa não correu atrás e não mostrou seu trabalho ao mundo? Eu acho que justamente por se saber tão boa é que ela não correu tanto atrás. O trabalho dela falaria por si. Eu tive essa ilusão quando esculpia. Todo mundo crê no brilho secreto, uns mais, outros menos – e talvez seja melhor fazer parte do time do menos, porque eles ficam inseguros e se mexem. Senão, ficamos na esperança de que um dia seremos descobertos e essa outra alma sensível vai nos tirar daqui – através de casamento, emprego ou galeria -, no meio desse lugar medíocre onde estamos por puro acidente.

Formigas

Estou vendo um longo documentário sobre o Darcy Ribeiro e estudar a história desse homem é estudar a história do Brasil. São cinco episódios e estou no quarto. Agora, ele está com Salvador Allende. Antes disso ele já foi discípulo do Rondon junto com os índios, lutou com Anísio Teixeira pela escola pública, fundou a UNB, foi ministro da casa civil do Jango, estava lá quando ocorreu o golpe de 64 (offtopic: bastante angustiante acompanhar o golpe de 64 e relacionar ao que vivemos hoje. Nas semelhanças e nas diferenças), foi preso, exilado no Uruguai, na Venezuela, Chile e fez contribuições para a antropologia de todos esses países… Onde o homem punha o pé criava um agito, revolucionava, produzia. Vejo que ele foi um péssimo aluno de medicina, pois gostava muito mais do social do que da sala de aula e dou risada de mim mesma. Rio porque toda vida sempre fui CDF mas, ao mesmo tempo, eu achava que pertencia à mesma categoria de pessoas que o Darcy. Acho que todo xóvem se vê assim, ai de quem nos contrarie. Mesmo entre aquelas que ocupam cargos importantes e entram para a história, me parece que existem dois tipos de pessoas: as que se destacam e realizam um trabalho apenas por serem a pessoa certa na hora certa. Sua presença é circunstancial. Darcy é o outro grupo, muito mais raro do que se faz crer, de gente que você pode colocar em qualquer canto e vai se destacar, vai revolucionar e subir. É provável que eu e você nunca tenhamos conhecido alguém assim. Adivinho que tem que ser inquieto, extrovertido e definitivamente bom de papo. Novamente rio: tenho uma necessidade aguda – característica dos introvertidos – de sentir o ambiente, saber onde estou pisando; alguém com tanto cuidado com os sentimentos alheios e senso de adequação jamais seria um tipo desses. Claro que cada Darcy precisa de várias formigas para não deixar que seus planos se desvaneçam, tudo tem seu lugar no mundo. Apenas que a maturidade é assim: a gente não investe mais naquilo que não somos.

Uns mais iguais

1429297162_shopping-mall2

-… maldita Bolsa Família. Ninguém mais quer trabalhar, pra quê trabalhar? Está muito difícil arranjar funcionário hoje em dia, não compensa mais.

– Eu tenho uma amiga que tem loja em shopping e ela disse que está muito difícil. Você contrata uma pessoa, treina, aí depois de um tempo aparece uma oportunidade em que ela vai ganhar pouca coisa a mais, e ela vai, só pra não ter que trabalhar no fim de semana.

Aí eu não aguentei:

– Eu também trocaria de emprego por um que não precisasse trabalhar nos fins de semana…

– Ahhhhh, mas é diferente! Você é diferente, estamos falando deles.