Pudor

troche

Não gosto de falar de mim. De vez em quando alguém se propõe a me conhecer, senta numa cadeira na minha frente, olha nos meus olhos e me faz uma pergunta pessoal direta. Não uma brincadeira ou uma opinião, coisa que ofereço com muito prazer, e sim um fato biográfico – o que você faz, em que colégio estudou, qual o seu plano? Invariavelmente fico muito sem graça, respondo com outra pergunta, tento desviar o assunto, dou uma resposta evasiva. Soa estranho eu dizer isso, eu sei. Estou aqui o tempo todo falando eueueu, me expondo e expondo também aqueles que um dia fizeram parte da minha vida. Numa ordem de importância, eu diria que a biografia é muito menos do que o expor, e anterior a isso é o escrever, o comunicar. O que eu tento fazer, na verdade, é usar a minha biografia como meio. Sabe quando você está com quem ama e conversa sobre o tempo, a meia furada, o que o cachorro aprontou, o que pensou enquanto mastigava o pão ou andava até ali e coisas incrivelmente banais, cada vez mais irrelevantes, porque na verdade o importante é estar lá? Estar lá, mostrar que você se importa e manter um vínculo. Falo eueueu porque é o que tenho. Se tivesse acesso a outra biografia para isso, pode ter certeza de que a usaria no lugar da minha.

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rs rs rs rs

Revi a exposição Gênesis, do Sebastião Salgado, e toda minha paciência e boa vontade foram postos à prova com dois (suponho) americanos que estavam lá. Eles ficavam rindo o tempo todo. A primeira vez que eu vi a exposição foi num sábado. Museu lotado, pessoas de tudo quanto é tipo e atitude. Pra cada foto você nunca estava sozinho, sempre tinha mais alguém olhando. Tenho um talento especial de fazer as coisas ao contrário, e vi a exposição de trás para frente. Então, ao invés de acompanhar as pessoas, fazíamos um rodízio. Naquele dia, não me irritei. Pelo contrário, achei muito engraçado passar pelas pessoas e cada hora ouvir algo diferente. Muitos risos diante do tronco usado no pinto. A moça fazendo cara de “que fofo” na frente da foca. Diante da foto da tartaruga de um metro e meio uma moça com dois amigos disse: “olha, exatamente do meu tamanho”, o que me permitiu ter dimensão exata do tamanho da tartaruga. Um sujeito de rastafari até a cintura e bata colorida, comentou com a namorada que achava o Sebastião bom, mas que pro gosto dele algumas fotos era muito exageradas, over mesmo. Como exemplo, mostrou a foto de uma nativa trabalhando. As plantas ao lado dela “sujavam” a foto. Devia ter mandado ela ter trabalhado mais pra lá, claro! Fiquei com vontade de pedir o número do cara e passar pro Sebastião – pra consultoria.

Como eu ia dizendo, naquele dia não me irritei. Com o museu mais vazio, o perfil dos frequentadores era mais de famílias. Os adolescentes alternavam entre um ou outro fascinado, com aquele jeito de quem quer seguir esse caminho, e as caras de tédio de sempre. As crianças corriam livremente pelos corredores e quando paravam recebiam explicações dos pais. Achei engraçadíssimo diante da foto do leopardo dizerem que aquela “foi a última foto do Sebastião”. Ou seja, sou muito à favor de rir, de curtir, não acho que a pessoa tenha que ter uma atitude contemplativa. O que me incomodava naqueles americanos rindo, é que eles davam dois passos e riam. A cada foto um dele dizia alguma coisa e ria. Pense, são 245 fotos. Ninguém tem tanta coisa pra falar assim, ninguém é tão espirituoso assim. Eram risos forçados, quase uma competição. Aqueles dois, diante de um trabalho tão lindo, uma oportunidade de viver uma experiência de beleza tão grande – porque é isso o que esta exposição é – e ficavam com risinhos forçados. Vão fazer isso numa balada, num churrasco, sei lá. Idiotas.

Fila

Quando dizem que o brasileiro adora uma fila não é brincadeira. Comprovei isso ontem, sem querer. Início de tarde, feriadão frio e com sol, fomos passear no Museu do Olho logo depois do almoço. Depois de olharmos os cachorros no parcão, resolvemos ir ao banheiro e havia uma fila enorme saindo das bilheterias. A maior fila que eu já vi no museu, ela ia para fora da parte envidraçada, quase alcançava a parede que fica no meio no pavilhão. Enfim, era uma fila grande, fila de show. Ela nem se movia, acho que a bilheteria estava fechada. O que seria aquilo, começamos a nos questionar. As filas do museu costumam ser grandes quando tem ingresso grátis, mas isso acontece no primeiro fim de semana do mês e não era o caso. Será que teria show do Roberto Carlos no Olho e eu não estava sabendo? Só algo muito interessante poderia explicar aquele furor expositivo em pleno feriado frio. Rimos da situação, daquela persistência. “Vamos entrar na fila também, vamos garantir o nosso lugar. Não sabemos o que é, mas só pode ser bom”. Seja lá o que fosse, na nossa opinião, não valeria uma visita naquele momento só por estar tão cheio. Nenhum restaurante, por exemplo, me parece bom o suficiente pra me fazer enfrentar fila de espera. Se eu morasse em São Paulo morreria de fome com esse raciocínio, mas eu moro em Curitiba e alguma vantagem tem que ter.

Xixi feito, desisti de tomar um café porque estava tudo cheio, passeamos pela lojinha do museu e fomos dar uma volta. Quando já estamos bem longe, surge a sobrinha do Luiz toda esbaforida. É a sobrinha única dele, de quatorze anos, xodó da família. Nas poucas vezes que nós e a família dele nos cruzamos sem querer, há sempre um certo soltar de fogos, um fascínio pela imensa e feliz coincidência. Para uma relação de pais-filhas-avós que se vêem e se falam todos os dias e moram em prédios que se olham, nós somos figuras raras. A sobrinha abraçou seu tio com a felicidade de sempre e me cumprimentou com cara de entojo como sempre. Ela nos levou para onde estavam… um doce para quem adivinhar! Sim, na fila. Lá no meio, garantindo seu lugar, estava a minha cunhada. Pra quê, descobriríamos em breve. Confesso que é meio desconcertante cumprimentar uma pessoa fazendo algo tão contra a sua natureza, algo que você jamais faria e da qual acabou de falar mal. É como se tivesse escrito na testa. A gente fica meio sem palavras.

– Então… vocês estão na fila.
– É, não tem nada pra fazer, e daí? A gente está na fila e vocês andando.
– Pois é… O que vocês vão ver?
– Uma exposição.
– Qual exposição?
– Uma exposição aí. Não lembro o nome do cara. Dizem que é boa.

A exposição é sobre Escher. Pela fila, acho que é boa.

Série Carne – Exposição Prorrogada

Boas notícias! A exposição da série Carne foi prorrogada por até o fim dessa semana. Quem foi gostou. Olha o comentário que a Teca colocou aqui no blog:

Agora entendi o tema dessa série..fui visitar a sua exposição hoje, na hora do almoço…

corpos humanos, belos, masculinos e femininos, mas…MUTILADOS!!! faltam cabeças, faltam braços, mas ainda assim, humanos. Amei a escultura, a primeira à direita de quem entra (q está no banner). Tenho q admitir q akela peça sem cabeça me desconcertou. Primeiro, pela posição sentada, meio desprentensiosa, como se estivesse a admirar uma paisagem, se não fosse pelo detalhe de não ter cabeça….afe….
Ainda q os detalhes das mutilações sejam os que mais chamem a atenção, não pude deixar de reparar na preocupação q vc teve com detalhes da anatomia humana, músculos, detalhes de coluna vertebral e pés…senti seu lado bailarina aí..tô certa??

beijocas e parábens pelas peças!

Que tal passar lá e julgar por si mesmo?

Local: 2º andar da Biblioteca Pública do Paraná
Rua Cândido Lopes, 133
Horário: de 8 às 20 horas
Entrada: franca

Exposição da série Carne

Começa amanhã, dia 18, a minha primeria exposição individual do ano. Talvez seja a última das últimas de obras inéditas, já que há 2 anos eu não esculpo mais. Essa série, chamada de Carne, é constituída de 5 esculturas vermelho-sangue. Quase todas mostram o corpo humano em pedaços, como carne mesmo. Nem belo e nem feio, o corpo humano como uma coisa orgânica. Quem estive for de Curitiba ou estiver em Curitiba e quiser dar uma passada lá, deixará uma artista-blogueira muito feliz!

Por falar em artista blogueira, lá do lado tem o link do meu site de esculturas. Quem não conhece, acessa aí o Fernanda Guo. Além de lindão, foi a Flávia que fez!

Data: 18 a 31 de março
Local: 2º andar da Biblioteca Pública do Paraná
Rua Cândido Lopes, 133
Horário: de 8 às 20 horas
Entrada: franca

Exposição da série Mocinhas

Começa amanhã minha exposição individual na Biblioteca Pública do Paraná. É a série Mocinhas – 4 peças que fiz com o objetivo de serem graciosas, mas sem apelar pra idealização do corpo feminino. Quem quiser e puder ir, considere-se mais do que convidado.

(Particularmente, eu adoro expor lá. Eles tratam a gente com muito carinho, profissionalismo, capricham na organização do espaço… além de ser um lugar muito movimentado e com horários muito bons!)

A exposição é no 2º andar, logo em frente à escada. A Biblioteca fica aberta de segunda à sabado, das 8 às 20 h.

Diferenças

Exposição minha, aberta das 8 às 20h, de segunda a sábado durante mais de um mês, ninguém podia ir porque não tinha tempo. Agora o outro faz uma vernissage num hotel chique, e neguinho se desdobra em três pra sair do trabalho correndo, tomar banho, chamar o conjuge e o que for preciso, porque é preciso prestigiar.

Essa doeu, de verdade. Mas Deus é pai e um dia terá volta.

Amigos e exposições

Antes eu era meio tímida na hora de anunciar que eu estava com uma nova exposição; hoje, saio falando pra todo mundo porque sei que é uma das minhas poucas chances de mostrar que eu não faço fontes ou velas. Depois de verem meus trabalhos, ao invés das fontes, as pessoas passam a me pedir cópias do Pensador de Rodin (humpf). Saio por aí convidando todo mundo que eu conheço, mas minha experiência já mostrou que quem realmente vai é aquele amigo do amigo que você convida só por educação. É uma sessão convidar os amigos, vou mostrar o por quê:

Eu já fiz exposição de 2 meses e meio e essa minha última foi prorrogada por 15 dias, mas nada disso importa: independente de quanto tempo dure a exposição, dali 2 semanas do término, as pessoas me procuram – ” Eu me programei pra ir lá nessa quarta, qual é mesmo o horário?”. Este ano eu bati o meu recorde, pois teve um que apareceu lá imediatamente no primeiro dia após a desmontagem. O item horário é outra coisa séria: não importa fazer em um local que fica aberto de segunda à sábado durante 12 horas – as pessoas vão querer passar lá no domingo.

E por falar em local, o melhor é fazer num bem central. Porque se o amigo mora lá perto, passa por lá todo dia ou almoça do lado, existe uma pequena possibilidade dele ir. Digo isso porque sei que se a exposição fica num lugar muito longe (algo acima de duas quadras), eu posso ter absoluta certeza de que ele não vai. Têm aqueles que só querem ir se eu for junto – e é uma verdadeira tortura pra um artista estar do lado de um conhecido olhando suas obras. Ou pior: querem que eu fique o dia inteiro lá, parada, pra quando ele passar – uma tortura pra qualquer pessoa que respire. Com todos esses percalços, ainda tem gente que não sabe porque eu não faço vernissage! Veja bem: aquele maravilhoso comes e bebes com garçom é pago pelo próprio artista.

Depois de tudo acabado, têm aqueles que (provavelmente pra compensar que não foram) ficam perguntando a cada mês – ” E aí, quando vai ser a próxima exposição?”, como se exposição fosse feira livre, algo que tem toda hora…

Alívio

Hoje terminou a exposição no SESC. Falando sério, cada vez que lembrava do SESC, começava a sentir um certo nervosismo. Tudo errado, do início ao fim: modificação da data de entrega, atraso na montagem, atraso no material de divulgação, material de divulgação que não constava o meu nome e mal feito… Isso sem falar nos amigos que chegaram lá e simplesmente o local de exposição estava fechado!

Como não é prudente abandonar as peças num local desses, eu ia quase semanalmente visitar minha própria exposição. E cada descoberta dessas era uma ida ao andar de cima, me queixar com os (ir)responsáveis. Cada vez que eu chegava lá em cima, todos tremiam nas bases. As circunstâncias me obrigaram a virar aquela chata, que está sempre pronta pra reclamar, pra cobrar, pra fazer escândalo. O término dessa exposição foi um alívio pra eles também, tenho certeza.

Metendo os cascos

Há duas semanas a exposição no SESC tem me atormentado. O cronograma exigiu as fotos e descrição das peças com mais de um mês de antecedência; a entrega das peças, 4 dias antes da abertura. Pois bem: a data da abertura foi transferida duas vezes, e dois dias depois da abertura “oficial” as peças estavam largadas, sem qualquer tipo de identificação, livro de visitas, nome da exposição, nome da artista e nada. Sem dizer que o material de divulgação não tinha ficado pronto.

E eu, todos esses dias batendo ponto, perguntando, saindo da aula pra passar lá. Sexta, quando vi tudo naquele estado, estressei de vez e ameacei tirar as peças de lá se até segunda as coisas não estivessem em ordem. Quando o fulaninho responsável pela exposição ligou no meu celular duas vezes às 17h e completou com um “desculpe qualquer coisa”, vi que estava lidando com gente muito burra.

Hoje cheguei lá disposta a levar tudo embora. Atormentada pelo meu próprio inconsciente (que me fez ter sonhos horríveis com a exposição) e com raiva de me sentir uma otária, fui falar com o fulano. Ele me disse que o material de divulgação só ficaria pronto daqui há DUAS semanas – porque materiais são impressos a cada 2 meses e eles haviam perdido o prazo. Além disso, TODOS os responsáveis pela exposição são ESTAGIÁRIOS que entraram no SESC este ano.

Quem nunca viu não imagina, mas sou das pessoas mais brabas que eu conheço. Não fiz escândalo – disse que lamentava o SESC confiar as exposições a estagiários que não entendem nada, que não são profissionais e que desconhecem as rotinas do local onde trabalham. Nisso, apareceu uma personagem desconhecida, mais velha, e que deve ser a incompetente que cuida dos estagiários incompetentes.

Resultado: o meu material será impresso amanhã de manhã e com a data de abertura de exposição de amanhã, como pedi – não posso receber o material com uma data que não foi cumprida. A moral desta linda história é que meter os cascos despenteia e é preciso. Isso sem falar na cartinha que os espera quando a exposição terminar…

Nunca esquecer – negras memórias, memórias de negros

Havia lá, no seio do navio balouçado pelo mar, lutas ferozes, uivos de cólera e desespero. Os que a sorte favorecia nesse ondear de carne viva e negra, aferravam-se à luz e olhavam a estreita nesga do céu. Na obscuridade do antro, os infelizes promiscuamente arrumados à monte, caíam inanimes num torpor letal, ou mordiam-se desesperados e cheios de fúria, estrangulavam-se; a uns saiam-lhe dos ventres as entranhas, outros quebravam-se-lhe os membros no choque dessas obscuras batalhas.

Quando o navio chegava ao porto de destino, uma praia deserta e afastada, o carregamento desembarcava. E à luz do sol dos trópicos aparecia uma coluna de esqueletos cheios de pústulas, com o ventre protuberante, as rótulas chagadas, a pele rasgada, comidos de bichos com ar parvo esgazeado dos idiotas. Muitos não se tinham em pé; tropeçavam, caíam, e eram levados aos ombros como fardos. O capitao voltando a bordo, a limpar o porão, achava os restos, a quebra da carga que trouxera: havia por vezes cinqüenta ou mais cadáveres sobre quatrocentos escravos.

Oliveira Martins
historiador português, séc. XIX

Toda primeira sexta-feira do mês, no museu do olho, a entrada é grátis. Fui lá encontrar um amigo, nos desencontramos, fui para a exposição. O museu é enorme, e sempre tem umas 3 exposições ao mesmo tempo. Optei por ignorar as outras e ver somente a Negras Memórias. Excelente, ambiciosa, uma verdadeira aula de história.

Mapas e um pouco de história da chegada dos negros e sua influência no Brasil Colônia

Pinturas de negros e por negros. A arte plástica negra nunca deslanchou, apesar do talento de seus representantes.

Interessantíssima essa mesa enraizada. Não guardei o nome de quem fez.

Esculturas em madeira de artistas negros contemporâneos.

Essas são do Expedito Rocha, escultor paranaense que – assim como eu – estudou com o Elvo. Ele trata a madeira como se fosse uma renda, é incrível!

Eu junto do painel com capas de discos dos negros na MPB. De Pixinguinha a Pelé.

Ah, exposição!

Expor o trabalho é tudo para o artista; conta pontos no currículo, atrai possíveis compradores, dá visibilidade. Para mim, a grande vantagem está em atingir o público. E não estou falando de público em sentido abstrato – o meu público, as pessoas que eu conheço. Uma exposição é a oportunidade de fazer com que as pessoas saibam que eu sou escultora. Afinal, meu marketing pessoal sempre foi uma bosta.

A primeira reação quando digo que sou artista plástica é Oh!. Acho que por detrás deste Oh há muito de não saber o que dizer mesmo. Porque pouco tempo depois do Oh descubro que ninguém sabe ao certo o que eu faço. Para me agradar e mostrar que me valorizam como artista, as pessoas fazem coisas como apontar de mim um São Francisco feito de palha (como seu eu tivesse algo haver com esse tipo de trabalho) ou me perguntarem quanto custa uma fonte. Convidá-las para ver uma exposição é tentar me poupar desse tipo de coisa.

De cada exposição que faço, devo conseguir que meia dúzia realmente veja. Tenho 2 que realmente vão, e um deles é o meu ortodontista. As outras pessoas se dizem emocionadas, juram que vão e depois de tudo terminado se desculpam, dizem que perderam o prazo. Também tem aqueles improváveis, que você convida por tabela e esquece. Um dia ele passa ao lado ou é uma pessoa adora ver exposições e eu nem sabia. Quando reencontro, ele realmente foi. É uma surpresa, nunca dá pra adivinhar quem vai.