Pobre de estimação

pet

Eu já usei o termo “pobre de estimação” algumas vezes com os amigos, mas tem “gay de estimação” também. É um termo facilmente compreendido para quem está do lado pet da história. Uma amiga, lésbica assumida, trabalha numa empresa diretamente com a dona. Elas se conhecem há anos, conhecem as famílias, se frequentam. Aí começaram as eleições e minha amiga – que, diga-se de passagem, sempre detestou o PT – começou a não gostar do discurso de Vocês-Sabem-Quem. Como quase todos os gays que eu conheço, ela começou a temer pela sua integridade física. Enquanto isso, sua chefe e seus colegas bastante entusiasmados com a possibilidade de ter arma, exército no comando, minorias se curvando à maioria. Ela começou a debater com os colegas, mostrou os trechos homofóbicos, mostrou reportagens, argumentou. Eles tiveram que concordar que sim, ele foi homofóbico, sim, aquele discurso poderia levar a um aumento da violência, sim, ela como lésbica poderia sofrer riscos. “Mas qualquer coisa, é só você ligar pra mim. Eu te protejo”.

Você é de estimação quando podem explorar ou exterminar todo grupo a qual você pertence – gays, negros, pobres, pouco escolarizados, feministas, esquerdistas, nordestinos, etc. Mas você a gente quer vivo, afinal, você é gente boa – você é frango da Sadia, o frango da propaganda e não o frango do forno. Quase da família, desde que não tente nenhum contato não solicitado. Outra história: uma família super tradicional. Faz caridade, tem um discurso igualitário, viaja para África pra ajudar a Anistia Internacional. Provavelmente por ter levado à sério o discurso, um membro da família começou a namorar alguém da área de educação física. A pessoa, além de formada, tinha emprego, pós na Europa, pele branca, quem sabe um sangue italiano. Ficaram tão furiosos que chegou até mim, que nem tenho intimidade. Só acalmaram quando o namoro com “o pobre” terminou.

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O desespero alegre

ta tudo bem

Talvez seja uma variante do “continue a nadar”. Ou a constatação adulta de que jogar as coisas para o alto é pior, porque depois só dá mais trabalho. Meu amigo Luís já me falou algumas vezes do quanto me acha uma pessoa otimista. Às vezes me acho insanamente otimista. Eu acredito em movimento, talvez como a história do ratinho que foi jogado no leite e se debateu tanto que transformou em queijo e conseguiu fugir. Mesmo quando não há perspectiva de nada bom, a louça ainda suja, o almoço precisa ser feito, o sovaco cheira mal. De alguma forma, eu acho que é a rotina chata que nos salva. A rotina ocupa as horas que a gente só quer que passem. Então eu cuido: falo com as pessoas quando tem que falar, faço minhas obrigações. Você está sempre bem, sabe para onde ir? Não, às vezes eu estou bem desesperada, me sentindo andando na prancha do navio pirata pra ser jogada no mar. Mas se eu fizer direitinho, deixar em ordem, manter um sorriso no rosto, vai que alguém simpatiza comigo, joga uma escada do céu ou aparece com um bote e me tira daqui?

O inconsciente tem seus truques. Eu estava indo ao supermercado,

porquinho com robozinho

…passei pelo mesmo lugar de sempre, ninguém no meu caminho e me veio uma lembrança totalmente esquecida há mais de vinte anos. Um sujeito que eu vi algumas vezes pelo corredor, durante a faculdade. Eu tinha um amigo carioca, que tinha sido do exército, era mais velho, ele era o safo da turma. O tal cara era amigo dele, mais safo ainda. O carioca tinha entrado comigo e reprovou uma matéria importante e ficou para trás. Por algum motivo que eu não lembro, fui fazer um trabalho com ele e outras pessoas da turma com que ele estava. Eu me senti naqueles filmes americanos de adolescente. Ficamos juntos umas dez horas no sábado, mais umas tantas no domingo. Conversamos, trabalhamos, comemos pizza, passamos no supermercado, ligamos para casa, rachamos táxi, trocamos confidências, aconteceu um monte de coisas e me diverti muito. No meio de tudo isso estava o tal cara e ele passou o fim de semana me dando indiretas e o carioca disse que o amigo dele queria me dar uns pegas. Eu fiquei lisonjeada, guardei no coração e não quis. Fui bem trágica nas minhas conclusões: eu não conseguiria dizer não, ficaria apaixonada, ele me maltrataria, dia seguinte o curso inteiro saberia o que eu topo ou não na cama. Na época, não pensei em nenhum momento que poderia ser diferente, que eu poderia não ir até o fim ou que ele pudesse não ser um canalha. Mesmo hoje, ainda acho que ele seria um canalha – mas que talvez se eu tivesse sofrido na mão dele, pelo menos teria sofrido na época certa. Pensei no quanto eu fui desproporcional e ao mesmo tempo tão tipicamente eu. Não é o conselho que eu daria pra alguém, mas mesmo hoje teria meus receios. Pensei na continuidade de quem somos, sempre, mesmo vinte anos depois. Ao mesmo tempo, antes eu sofria e agora tenho uma aceitação tão grande do meu ritmo e minha incapacidade de adaptação. Dei um abraço em mim mesma.

Curtas de três senhoras no ônibus

lugar preferencial

Esta foi desagradável: eu estava de pé e vi quando entrou a senhora cutucou o ombro de uma moça que estava sentada com fones de ouvido. Nem era lugar preferencial. A moça provavelmente pensou que a mulher havia apenas esbarrado e nem olhou. Aí a senhora colocou a cara bem na frente da moça e arrancou o fone de ouvido da orelha e ordenou que ela saísse dali, porque ela era de idade, estava de pé à seis horas e muito cansada. A moça respondeu a grosseira com grosseira também, a senhora ameaçou bater nela, a moça bateu palmas ironicamente. Que clima logo de manhã.

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Cada dia mais normal pessoas olhando no celular dentro do ônibus, até as de pé. Uma senhora estava olhando seu whatsapp. Baixinha, óculos, cabelo branco, expressão tranquila, bem o tipo que dá vontade de chamar de tia. Aí eu tive que me aproximar porque ia descer em pouco tempo e ela estava assistindo, como descreverei… uma cena de grande intimidade entre homem e mulher.

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Eu só pude olhar para a senhora de costas, quando saí do ônibus. Ela me surpreendeu por estar com um cabelo branco lambido até os ombros, sem corte e talvez sem lavar. Uma camiseta folgada pra fora da calça também desajeitada. Estava sentada quando ela entrou no ônibus e passou o trajeto inteiro exortando as pessoas à felicidade. “Amar é tão bom, amar é a melhor coisa da vida. Amem muito, não importa se é homem ou mulher, namorado, amante, o que for, o importante é ser feliz. Eu nos meus sessenta anos estou amando, sou muito amada, a melhor coisa do mundo é amar”.

As intoleráveis baratas

barata

Percebam a ilustração mal feita escolhida à dedo. Ninguém merece ficar olhando foto de barata.

Eu nem posso me queixar, como aqui é frio, só tenho problemas com baratas quando esquenta. Uma noite dessas, passei na cozinha com preguiça de acender a luz, pouco antes de dormir, e tinha alguma coisa ao lado do chinelo. Quase chutei. Acendi a luz e era uma barata agonizante. Ela poderia ter comido veneno fora da cozinha, numa armadilha perto do botijão, ou a que está junto do fogão, ou se andou mais a que fica no canto da cozinha. Mesmo assim, peguei o spray de veneno que fica embaixo e atirei nela, que fugiu se arrastando. Na manhã seguinte, estava de patinhas viradas para cima, ainda agonizante, perto do botijão. Tive que esperar um dia inteiro pra ela morrer pra valer, vai que eu punha do lixo e quando abrisse de novo a barata saísse correndo? As armadilhas de barata dizem na embalagem que elas comem o veneno e morrem dentro do ninho, e antes transmitem o veneno para outras baratas – ou seja, aquela havia descumprido a parte no acordo. Na noite seguinte, também antes de dormir, vi uma coisa preta no forro do lado de fora. Era outra barata, desta vez forte e saudável. Só tive tempo de gritar e fechar todas as janelas. Numa atitude emergencial, fui no supermercado na manhã seguinte comprar mais armadilhas de baratas. A primeira barata havia comido numa das armadilhas, mas veja a minha dúvida: será que tem comida para várias refeições de baratas ou aquela havia comido tudo e não sobrou para a segunda barata? Sem dizer que eu lembro de ter comprado quando esquentou, e depois esfriou de novo, o que me faz pensar (na época) que eu gastei dinheiro à toa. Como depois esquentou pra valer, e como esquentou, acho que comprei as armadilhas em outubro. A validade diz três meses, então pode ser que as armadilhas estejam no fim do prazo. O que não pode ser é conviver com barata. Solução: comprei armadilhas novas, agora de outra marca pra saber qual é qual. Coloquei as novas nos lugares das antigas e coloquei todas as antigas perto do lugar onde as baratas apareceram. Ou seja, no momento eu tenho um chão com sete armadilhas de baratas espalhadas. Eu montei um grande buffet de veneno para baratas. Mas, ó, nunca mais vi nenhuma.

O problema do primeiro encontro

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Eu me dei conta que um dos meus problemas com aplicativos de namoro é a minha tendência quase incontrolável de causar uma primeira boa impressão. Digo incontrolável porque nem sempre eu posso querer causar uma impressão tão boa que a pessoa persista. Talvez por uma curiosidade de escrita, qualquer ser humano que for colocado na minha frente por poucas horas despertará meu interesse. Pode ser o famoso homem que só fala de crossfit – eu lhe perguntaria: me conta, o que o crossfit tem de tão interessante? Eu gosto de ouvir as histórias das pessoas. Lembro que quando minhas colegas viraram todas psicólogas e eu virei escultora, elas viravam pra mim sem saber o que perguntar, e eu achava aquilo o fim. Se uma pessoa está numa realidade totalmente alheia à minha, aí sim fica ainda mais fácil de puxar assunto! Que rotina é essa que eu desconheço, do que se trata, quais as habilidades necessárias, como alguém vai parar nesse caminho. Tenho mil curiosidades, sou uma companhia verdadeiramente interessada. Aí a pessoa vai sair do primeiro encontro achando que temos muito em comum e que, no mínimo, podemos ser grandes amigos. Mas pra mim o interesse pode ter se esgotado ali, para sempre. E outra característica minha é detestar ser rude, o que dificultaria cortar as asinhas da pessoa depois…

Curtas de só derrotas

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Quando eu cheguei, o tubo estava vazio, o ônibus devia ter acabado de sair. Fiquei na frente da porta, a fila começou a se formar atrás de mim. Quando o Inter 2 chegou, estava vazio, literalmente, zero passageiros. E eu a primeira. A porta se abriu e o ônibus era meu, podia sentar onde quisesse. Fui direto para a fileira de cadeiras individuais. O motorista foi dar uma volta, o ônibus estacionado, pessoas chegando e preenchendo os espaços. Quando o motorista estava voltando, a última pessoa a entrar no ônibus foi uma grávida, com um barrigão enorme. Ela veio direto do meu lado e praticamente colocou a barriga no meu rosto. Tive que oferecer meu lugar.

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Começou a chover quando eu paguei pelas compras. Era daquelas chuvas de final de mundo. Todo mundo parado esperando a chuva passar. Os carros passaram a estacionar praticamente dentro do supermercado. Eu me encostei no carrinho e fiquei pensando na vida, e mesmo assim levou muito tempo. Depois de uma meia hora já não entrava nenhum carro, as pessoas chamavam uber, a chuva parecia ficar mais e mais intensa, trovões e relâmpagos. Eu já estava com dor na lombar e cansada quando desisti e fui carregando minhas compras debaixo da chuva. A única coisa que eu torcia era que ela não acabasse no meio do caminho, seria humilhação demais. Fui andando nas ruas vazias, sem ligar pro banho, pensando que não era tão ruim assim. Aí quando estava quase em casa, uma quadra, enfiei o pé na grama e sujei de lama até a meia.

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Eu tento marcar todos os meus exames neste período em que o ano não começou direito, para ficar menos puxado. Mesmo assim, foi difícil marcar uma das ecografias, e pra ficar ainda no começo do ano, topei fazer o exame do outro lado da cidade, às 13:40, no mesmo dia que cortaria o cabelo pela manhã, horário que eu havia agendado no ano passado. A velha história do muito tempo pra ficar na rua e pouco tempo para voltar pra casa, e preferi voltar para casa. Comi uma saladinha às 11:30, e saí de casa pouco depois do meio dia. Três ônibus depois e muita ansiedade, cheguei  no laboratório com 5 min de atraso. Esperei por um encaixe mais de uma hora. Fiz o exame. Fui numa padaria comer. Peguei outros três ônibus para voltar. Choveu muito, a cidade estava um caos, e ainda assim estava quente. Cheguei em casa quase 18h, esgotada e grudenta.

O decurso geral da vida

carboidratos complexos

Isto não é uma louvação a Trotsky:

“Durante 43 anos de minha vida consciente fui revolucionário”, escreveu, “e durante 42 anos lutei sob a bandeira do marxismo. Se tivesse que começar tudo outra vez, tentaria evitar este ou aquele erro, mas o decurso geral da minha vida permaneceria inalterado. Morrerei sendo um revolucionário proletário, um marxista, um materialista dialético e um ateu irreconciliável. Minha fé no futuro comunista da humanidade não é hoje menos ardente (antes, mais firme) do que era nos dias de minha juventude.”

Leonardo Padura/ O homem que amava cachorros

 

Já falei aqui, acho, que tem astrólogo que diz que a pessoa já nasce com tudo o que vai fazer em vida programado, do mesmo modo que vamos ao cinema ver um Batman sabendo tudo o que vai acontecer e nem por isso deixamos de ver. É uma ideia bastante esquisita e com várias consequências, nem sei se boas. Eu acredito num determinismo social, colocar as estrelas no meio já é crer que ele não é ao acaso. Não sei. O que sei é que me parece que é como Trostky descreveu, que só os detalhes sem importância poderiam ser mudados. Estamos o tempo todo diante de decisões sem importância, como o que colocar no leite do café da manhã ou que música ouvir. As decisões realmente importantes, aquelas que mudam o curso das nossas vidas são duas ou três. Cada um sabe quais foram as suas. Quando penso nas minhas, também acho que não faria diferente. Não que eu tenha gostado de todas as consequências, não que acredite que sou a melhor versão possível de todas as escolhas possíveis, e sim porque eu sei que não poderia ter feito diferente. Não quem eu era, não da maneira como eu via o mundo, não com o que eu sentia fome de viver.

Outras musiquinhas

De tanto ler uma coisa aqui e outra ali, descobri que tinha interesse pelo Brasil da geração da década de 50 – não a geração que nasceu em 50, e sim a que produzia cultura naquela época. Bossa nova, Brasília, Darcy Ribeiro, Carmen Miranda, eu quis saber o que fez que o Brasil que um dia foi tão vanguarda acabar. E foi isso que me fez estudar a década seguinte… As pessoas não lamentam a saída das ciências sociais do currículo porque não podem lamentar o que desconhecem. Antropologia, todos deveriam ter o prazer de estudar antropologia. Ficamos mutilados de nascença, como país, sem estudar sociologia.

Eu gosto e acho muito importante a provocação que algo diferente nos causa. O seu próprio lugar, numa outra época, pode ser tão diferente. No Brasil da minha infância, ninguém achava que mulher semi-nua na TV estragava alguém – e vejo as pessoas ignorarem o fato na hora de clamar por um retorno moral. Mas também pode ser da mesma época em outro lugar: na série Rita, que se passa na Dinamarca, a professor precisou brigar com as alunas, que não queriam tomar banho depois de praticar esportes. O motivo era excesso de auto-crítica com seus corpos. Para convencê-las, teve ela mesma que tirar a roupa primeiro. Aqui por muito menos um artista foi chamado de pedófilo num museu. Mas quero falar de algo bom: no mesmo mundo e na mesma época, que nós, os portugueses fazem uma música muito gracinha, tão diferente da nossa. Eu ouvi esta pela primeira vez sem ver o clipe, e logo nos primeiros versos pensei que é exatamente o meu nervoso dentro de um engarrafamento.

 

Eficiente, adulta e guilhotina

nurse ratched

Já aceitei que talvez seja inevitável que a Dúnia precise usar o cone da vergonha uma vez por ano, no verão. Mesmo com o anti-pulgas, talvez por ela viver fora de casa, algum bicho a morde e ela não deixa a ferida cicatrizar. Eu me sentia tão mal em colocar o cone que a mimava mais, e ela em pouco tempo percebia e começava a ficar manhosa, me deixava totalmente sem autoridade. Como não se derreter com um cachorro que fica o tempo todo acertando sua perna com um plástico duro porque sempre tenta chegar perto, roça o cone na parede e no chão quando se movimenta, precisa ficar com a casinha sem teto senão não dá pra entrar. Eu também acabava tirando o cone antes do tempo, quando não estava totalmente cicatrizado, o que fazia com que ela voltasse a abrir a ferida, e eu tinha que colocar o cone de novo. Uma vez de tanto colocar e tirar acabei estendendo a situação por um mês, ela ia passear e andava ondulando, estava até com a percepção espacial alterada. Agora não: enfio a mão nos pelos da ferida, mesmo ela se esquivando. Cortei a parte dura, onde está o sangue coagulado e casquinha, verifiquei que ainda tem mais o que cicatrizar. Tudo com precisão, apesar dos protestos dela, apesar de ser chato, apesar de morrer de dó. Estou como uma enfermeira ultra-experiente que não se comove mais. Sempre achei tão bonito e procurei ser uma pessoa em contato com seus sentimentos, mas, ao mesmo tempo, tenho a impressão de que amadurecer é ficar implacável, ser capaz de ignorar o primeiro impulso e se preciso infligir dor, a si mesmo e/ou no outro, em nome do correto. Como se a gente fosse bisturi. Ou como quando você fica sabendo que a guilhotina foi considerada extremamente humanizadora na sua época, porque matava de maneira rápida e eficiente. Ou como quando você percebe que é mais fácil nem começar a chorar. Como endurecer por fora e continuar suave por dentro, como adultecer apenas o suficiente para não se partir em mil pedaços em contato com o mundo?

Hidráulica

hidráulica

Sabe quando você está tão cansada que não consegue descansar, e tão irritada e querendo esquecer que não consegue pensar em outra coisa? O registro do banheiro jamais fechou; quando eu tive problema com a mangueira da descarga, ela inundou tudo até esgotar a caixa d´água. O encanador, quando resolveu o pinga-pinga da torneira, disse que era uma peça que estava quebrada lá dentro. Ele desmontaria, pegaria e pela pra comprar outra igual e voltaria. Disse que ele poderia vir lá pelas 10h manhã e veio às 9h. Logo depois de ligar pra ele combinando, descobri que torneira do outro banheiro, que eu pedi pra ele arrumar preventivamente, estava vertendo água do lado que não abre (!?) e encharcou uns dez rolos de papel higiênico. Para encurtar: ele saiu daqui 19:30h. Teve que passar em lojas duas vezes. Todos os metais da casa são de marca desconhecida e fora de linha. Pelas variadas foram trocadas. Tudo precisou de veda rosca. Cada ora era preciso fechar um registro diferente – e eu não sabia que havia tantos – porque nenhuma saída de água fazia sentido. Está comprovado as torneiras do banheiros realmente tem que abrir a esquerda de um e direita de outro, porque foram instalados invertidos. O encanamento da caixa d´água vai direto para as torneiras, o que quer dizer que ele é diferente do da privada e do chuveiro. No fim, foi preciso criar três minis registros no banheiro. O chuveiro e a privada ainda são assuntos pendentes. “Eu estou ficando até com medo de mexer nos teus encanamentos, porque em cada lugar surge um problema”. Eu trabalho com a hipótese de que o achamos que é registro do banheiro na verdade é apenas cenográfico, uma torneira falsa que o pedreiro colocou na parede só pra entregar a obra. Ainda abrirei aquela parede – não por gosto e sim para corrigir a posição do chuveiro, que é meio absurda – e descobrirei. O que tem aqui não é hidráulica e sim Pegadinha do Malandro.

Uma bola de sorvete

pelourinho

Eu e o meu pai pegamos um ônibus comum, não o “frescão” que eu pegava quando ia visitá-lo, e fomos longe, até a cidade baixa. Paramos num terminal, quente a beça já de manhã. Andamos por ruas apertadas, lojinhas, comprando miudezas que ele precisava: um fio aqui, uma ampola e seringa ali. Eu adoro andar, e taí uma característica que não dá pra dizer de quem eu puxei, porque até onde eu saiba somos todos muito andarilhos – eu, meu pai, minha mãe, meu irmão. Andamos, andamos, andamos. Paramos num restaurante por quilo pra almoçar. A agenda já estava toda cumprida e ele me disse que me íamos até o Pelourinho, mas por cima, porque ninguém o obrigaria a subir aquela ladeira. Fui incontáveis vezes ao Pelourinho e jamais havia me dado conta que o caminho pra turista ver é sempre subindo. Naquele dia, ao descer, foi tão diferente que eu nem senti direito que estava no Pelourinho, só me senti realmente lá quando chegamos na praça perto da igreja. Talvez por isso tenha parado, pra realizar que estava no Pelourinho. Aí meu pai me perguntou: “Quer sorvete, filha?”. Não sei se é porque o meu pai conhece os meandros de Salvador como ninguém ou se é característico de todas as sorveterias da cidade, mas sempre que me foi oferecido sorvete lá, o “uma bola” correspondia a quase meio quilo de sorvete. Duas bolas, um almoço. Três, nunca arrisquei. Por isso quando ele me perguntou eu olhei pro horizonte com os olhos apertados, repetindo a cabeça pro meu cérebro e pras minhas vísceras – será que eu quero sorvete? Depois de alguns segundos, respondi: “Acho que sim”. Meu pai deu um meio sorriso, daqueles que acompanha um breve movimento de cabeça para os lados e me deu um beijo na testa. Se não fosse esse gesto dele, eu não teria percebido. Um gesto que dizia: típico. Hoje ele não tem dinheiro, mas já teve muito, e era sua filha querida. Sempre tive claro que poderia lhe pedir o céu, meu irmão me disse várias vezes que o pai atenderia a qualquer pedido que eu lhe fizesse, e eu não fiz. Deveria ter feito, acho que ele teria adorado ter a oportunidade de mostrar que me daria o céu. Mas eu era difícil e frustrante – bastava estar lá que andava o dia inteiro de chinelo e camiseta, o boné que me dessem. Ou estava deitada na rede e ou pra praia ali do lado, de camisetão cobrindo o biquíni, só pra visitar o mar. Eu não lhe pedia pra me comprar coisas porque não me ocorria nada pra pedir. Só naquele dia eu percebi que sempre fui assim.

Pelados na TV

maniquíes-articulados

Não vou dizer a conta porque ela já está tendo problemas sem eu anunciar. Tenho uma amiga que está em Portugal e ela descobriu, fascinada, um programa de namoro onde a pessoa escolhe seu parceiro através de anteparos. O programa é em inglês, mas veja bem, ele passa na TV aberta portuguesa. Detrás dos anteparos as pessoas estão nuas e vão sendo mostradas debaixo para cima, cada vez mostrando mais um pouco, à medida que se escolhe. Talvez até por birra porque alguém a denuncia toda vez que ela posta, uma noite dessas ela postou o programa inteiro e eu vi. Apenas que é sensacional, fiquei com vontade de mandar todo mundo ver. A gente vivendo uma onda assustadora de moralismo e Portugal, que para nós lembra muito senhoras católicas de preto, com uma atitude muito mais saudável em relação à nudez. O programa é sensacional pela tranquilidade de tudo. Tranquilidade de olhar para diferentes formatos e ver que nada ali é estranho, cada um é de um jeito e tem sua beleza. Gostei da tatuagem, não gostei porque achei grande, gostei porque me inspira confiança – nada errado. Quando o candidato é eliminado, o anteparo levanta e a pessoa caminha nua até o palco. Caminha nua, cumprimenta, ela está nua mas nada ali é erótico. No fim, quando sobram duas pessoas, a pessoa que estava selecionando que aparece nua. Quando sobra apenas um casal, eles verificam se continuarão gostando um do outro vestidos, num encontro. Fiquei boba, achei lindo. O programa me faz perceber quanto nos gabamos de ser liberais e na verdade somos extremamente retrógrados. E que expor o corpo não é o mesmo que encará-lo com naturalidade, a nossa exposição é muito sexualizada e julgadora.

Inimigos ocultos

inimigo oculto

Sempre achei meio paranoico existir um pedaço do mapa astral (eu sei que vocês odeiam quando eu falo de astrologia, calma que já acabou) que trata dos inimigos ocultos. Nem todos têm inimigos, muito menos ocultos, porque nem todo mundo tem uma vida pra isso, eu pensava. Se você ocupa um cargo importante, disputa comissões e etc, tudo bem, mas se você é uma velhinha que frequenta apenas a igreja perto de casa? Pois bem. Um dia encontrei na rua uma senhora cuja história eu já havia contado aqui, ela e seu cachorrinho. Eu passei por eles, ela ofereceu o cachorro pra eu fazer carinho e ele se esquivou. Ela ficou sem graça. Eu também sou dona de cachorro e sei bem como é. “Ele não era assim, ele se dava bem com todo mundo!”. Eu lhe disse que era assim mesmo, que no começo eles eram todos chegados e depois iam escolhendo seus humanos preferidos e que um dia ele iria gostar apenas dela. Os olhos dela brilharam quando eu disse isso. Aí ela me contou toda a rotina dos dois, que se mistura desde o despertar e vai até à noite. Eu passo na frente da casa dela e a vejo falando, brigando, o cachorro late de volta, aquele grude. Eu tive que dar a ela a dica de que é possível sim pegar táxi com o cachorro, que basta ligar pro número do táxi e especificar que vai com um. Que eu precisei fazer isso com a minha. Isso porque ela havia acabado de me fazer descobrir que é possível sim ter inimigos ocultos sendo uma velhinha que só vai pra igreja: uma vez ela encontrou o cachorro comendo alguma coisa estranha que achou no quintal. Ela desconfiou e quis tirar dele. Minutos depois o cachorro estava morrendo, havia sido envenenado. Ela não tinha como levar o cachorro por ser sozinha (por isso a dica) e a veterinária lhe deu todas as indicações por telefone.

Naquele dia ela estava justamente saindo da missa, roupas muito simples e um terço enfeitando o pescoço. É uma paróquia relativamente grande e me parece que sou uma das poucas pessoas da região que não vai. Outras pessoas saiam da igreja, conversavam, a cumprimentavam de longe. Nós nos despedimos e eu não conseguia pensar que alguém ali era o inimigo oculto de uma velhinha que tem num cachorro a sua única fonte de afeto.

Pequenos momentos de reveião

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O supermercado sempre me dá uns cupons de promoção que eu raramente uso, porque são sempre itens que eu não compro, porque não consumo ou não gosto da marca. Desta vez, tinha finalmente ganhado um que poderia ganhar, porque era só o valor da compra – acima de R$ 120. O problema é que fui me organizando pra não dar as caras em comércio em geral no fim do ano. Comprei antecipadamente remédio pra articulação do cachorro, comprei toda comida que não estragasse, deixei qualquer compra de vestuário e afins pras promoções de janeiro. Deixei o cupom na frente do computador. Fui uma vez no supermercado, pouco antes do natal. Mas era pouca coisa. Aí não deu mais pra segurar e tive que fazer uma compra maior dia 30. Lembrei do cupom quando estava lá. Coloquei as coisas na cestinha o torci mentalmente pra não chegar a R$120, só pra não ficar me xingando. Quase abandonei uns itens, mas aí seria roubar. Foi um suspense no caixa. Não deu 120, chegou perto. Ainda bem.

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Uma amiga me convidou para a virada de ano na casa dela. Nunca gosto de me sentir invadindo as festinhas dos outros, mas nesta eu iria porque conhecia e gostava dos presentes. Ela não apenas convidou, reafirmou que adoraria muito que eu fosse. Eu acreditei duplamente: por ela ter dito e por ter visto que ela me conhece, que sabe que tenho dificuldade em acreditar que importo, e ter feito questão de que eu sentisse que ela me quer bem. Não pude ir mas fiquei tão grata.

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Do porquê não fui e o que fiz: tenho um vizinho que vende fogos. Isso aqui vira uma Copacabana. Pior que eu nem vejo, porque não tenho ângulo aqui de casa. Eu já nem perco mais tempo colocando roupa nova ou tomando banho. Toda mudança de ano aqui é abraçando fortemente uma cadela que normalmente odeia contato físico, mas que fica desesperada sem saber o que fazer de si mesma com o barulho.