Um problema dos gentis

anti-quisto

1. A vida me coloca numa interação curta com a Pessoa 1. Nesta interação, ela não me trata bem. Apesar disso, eu continuo sendo gentil com ela.

Os motivos de eu ser gentil numa interação desagradável são inúmeros. Já citei em vários lugares uma frase do Hamlet que resume a minha ética sobre o assunto: “Se fôsseis tratar todas as pessoas de acordo com o merecimento de cada uma, quem escaparia da chibata? Tratai deles de acordo com vossa honra e dignidade.” Ou seja: eu parto do princípio que todos devem ser tratados com o maior respeito e consideração, independente de quem elas são. Pra eu tratar diferente, ela tem que ter saído da regra. E sou meio síndrome das escadas também, não sou do tipo que dispara uma resposta rápida automática quando me agridem (o engraçado é que com brincadeiras eu sou bem rápida). Na dúvida se a pessoa esta num dia ruim, ou eu estou num dia ruim e meio paranoica, diferença cultural, dor no ciático… ou se a pessoa realmente me odeia e decidiu fazer a parte dela pra estragar o meu dia, eu tendo a continuar educada. A possibilidade de arranjar briga quando você trata as pessoas com gentileza é mínima. (#DICA)

MAS ISSO NÃO QUER DIZER QUE EU NÃO NOTEI.

2. Eu e a Pessoa 1 temos algum Conhecido em Comum. Ele decide nos reunir. A Pessoa 1 fica sabendo que há possibilidade de se encontrar comigo e diz: “Claro, gente finíssima, pode marcar!”  Quando chega até mim a possibilidade de reencontrar a Pessoa 1, eu digo Não. Aí o Conhecido em Comum, que não conhece o contexto, me acha uma pessoa dificílima – como pode a Pessoa 1 ter de mim uma impressão tão boa e eu me recuso a encontrá-la? Eu, no lugar dela, também teria.

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Curtas dos problemas

galinha correndo

Tem várias coisinhas que eu achava que só resolveria quando voltasse a ter um homem do meu lado. Um homem, não necessariamente um marido, quem sabe até mesmo um parente. Muitos motivos: só vão respeitar um homem, um homem é que entenderia disso, o homem terá força física, um homem terá dinheiro, um homem me dará carona, um homem saberá o que fazer, um homem pode segurar minha mão. E, UMA A UMA, a vida tem me obrigado a resolver cada questão sozinha.

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Depois a gente entra numas de não precisar de homem e fica radical. Pra que uma mulher continue a querer um homem de todo jeito do seu lado, impeça-a de matar a primeira barata.

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Daqueles problemas de cobranças abusivas, que a gente não sabe até quanto pode apelar ou terá que pagar chorando. Um lado meu quer lutar até o fim, porque é de uma injustiça tremenda e essas malditas multinacionais lucram com a nossa ignorância. O outro não quer ligar, dinheiro é só dinheiro, pago de uma vez só pra voltar a viver em paz.

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Esbarrei numas postagens antigas e, mais do que estava escrito, me comovi com quem éramos na época que tudo foi escrito. Fui transportada pra lá, para as preocupações de anos atrás, para o que vivíamos, nossas perspectivas de futuro. Éramos tão mais felizes e relaxados. Agora eu me sinto exausta, é como se estivéssemos numa guerra civil.

As dificuldades

dificuldades

A vida na internet me colocou em contato com muita gente que escreve bem. Nós não sabíamos, mas estávamos todos naquela idade das possibilidades. Ou talvez um deles soubesse, quando me dizia: “você sabe que o que eu invejo não é o que você escreve, e sim você continuar escrevendo”. Porque ele, na verdade, foi um dos que eu conheci pós-escrita. Ele foi dono de um site delicioso, que teve muitos fãs e lhe permitiu “comer muita gente” (palavras dele). Eu acreditei piamente que um dia todos nós estaríamos num cocktail, comentando nossas críticas, dizendo por debaixo dos panos que Fulano ou Beltrano nem é tudo isso, que a literatura brasileira anda mesmo bastante decadente. Eu pensava, como na tirinha do Liniers, que a gente lutava contra os nossos fantasmas, contra o fato do que o que pareceu lindo na imaginação, praticamente um livro inteiro, se transformar em poucas linhas medíocres quando finalmente sentamos para escrever. Mas estes entraves – sei agora – são o de menos. O problema são os vazamentos do Intercept. Eu fico doida, não consigo pensar em mais nada. Clico em cada paródia, tenho que dividir todos os memes. Fui atrás do filme do Snowden (Netflix), ainda não tinha visto. Vi o David Miranda dançando e agora quero formar um trisal com Glenn e David (mas me conformo com um jantar). Quando o que me invejava-porque-ainda-escrevo me falou isso, eu lhe respondi que ainda escrevia porque não conseguia parar. Na expressão dele vi que isso soou muito invejável, mas talvez isso seja apenas um atestado da minha falta de saúde psíquica. Eu poderia ter lhe dito que ele se diverte em comer gente, em se envolver com as questões dos filhos, em frequentar bons restaurantes e eu não tenho nada disso. Até já tive, mas hoje estou sem restaurante, sem dinheiro, sem companhia, sem nada. Passo dias sem interagir com nenhum outro ser humano que não seja atendente da padaria. Uma pessoa mais normal se angustiaria; já eu acostumei e gosto. Até minha mãe se angustia pela minha recusa em conhecer gente. Meu mundo praticamente se resume a escrever e, sob este ponto de vista, eu sou extremamente incompetente. De todos os amigos escritores que eu imaginava um dia discutir, um deles ganhador do Nobel, o outro autor de crônicas, eu aparecendo disfarçada de personagem no livro de alguém, aquele que realmente conseguiu escrever foi um que não fazia alarde. Mais inteligente, ele não se propôs a nenhuma revolução, ouviu muitos conselhos e surpreendeu a todos com livro bacana, editado, recomendável; comparado com a nossa empáfia e publicidade, ele foi um verdadeiro um azarão. Conseguiu porque é professor, vida estável e disciplinado. A nossa culpa, dos que não escrevemos os famosos livros, é do Intercept, do divórcio, dos vídeos de gatinhos, dos app, dos astros. Pelo menos uns dez anos se passaram e estamos numa idade “ih, daí não sai mais nada”. Ou será que ainda sai?

Curtas sobre ser quem é

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Há um ano, eu publiquei um ou dois textos falando sobre a Marielle. Ela me impressionou muito e, como quase todo mundo, eu só fiquei sabendo da sua história quando terminou. Ainda hoje me espanta como ela me parece tão grande, enquanto para outros era “aquela lésbica” ou “só mais uma pessoa”. O ano após a morte dela foi tão longo, parece muito mais do que um ano, e tão pior. O que dizer quando uma sociedade mata ou deixa morrer os seus melhores?

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Eu tenho um problema específico com o elogio “esforçada”, talvez por ter ouvido muito. Quem sabe numa outra sociedade, como a japonesa, em que o empenho e a disciplina ocupam um papel diferente, seja realmente um elogio. Eu acho que, aqui, ser chamado de esforçado é meio como ganhar o Miss Simpatia: todo mundo sabe que a Miss Simpatia nunca é a vencedora do concurso. O esforçado nunca é o talentoso, o best, o preferido, o melhor. Esforçado é aquele cujo único mérito é fazer tudo certo, mas sem alcançar um resultado digno de nota.

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Nunca fui da turma cuja sorte bate à porta, talvez por isso minha única opção seja mesmo o esforço. O que a vida tem feito comigo é – pela total falta de candidatos e alternativas – me transformar na pessoa que eu gostaria de ter ao meu lado. Baratas, filtro d´água, manter as contas em dia, fazer manutenção de bicicleta, descobrir músicas novas, apagar todas as luzes, saber o que me cai bem, criticar e corrigir o que eu mesma escrevo. Mais recentemente, gravar vídeo com recomendação de coisas bacanas pra ver ou ler.  (Tá na minha página no FB, às quintas)

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Uma coisa ótima que ouvi sobre auto-estima. Falava de um aspecto específico no mapa astral, mas acho que serve pra todo mundo: “saiba que você tem esta voz dentro de você que sempre vai te colocar pra baixo. Pra sempre você vai ter a sensação de que não vai dar certo, não vale a pena, você não consegue. Se for esperar o dia que você se sentir preparado e confiante, você nunca fará nada na sua vida. Você deve viver e seguir em frente apesar dela.”

Ô, merda, eu sou mesmo muito esforçada.

O desespero alegre

ta tudo bem

Talvez seja uma variante do “continue a nadar”. Ou a constatação adulta de que jogar as coisas para o alto é pior, porque depois só dá mais trabalho. Meu amigo Luís já me falou algumas vezes do quanto me acha uma pessoa otimista. Às vezes me acho insanamente otimista. Eu acredito em movimento, talvez como a história do ratinho que foi jogado no leite e se debateu tanto que transformou em queijo e conseguiu fugir. Mesmo quando não há perspectiva de nada bom, a louça ainda suja, o almoço precisa ser feito, o sovaco cheira mal. De alguma forma, eu acho que é a rotina chata que nos salva. A rotina ocupa as horas que a gente só quer que passem. Então eu cuido: falo com as pessoas quando tem que falar, faço minhas obrigações. Você está sempre bem, sabe para onde ir? Não, às vezes eu estou bem desesperada, me sentindo andando na prancha do navio pirata pra ser jogada no mar. Mas se eu fizer direitinho, deixar em ordem, manter um sorriso no rosto, vai que alguém simpatiza comigo, joga uma escada do céu ou aparece com um bote e me tira daqui?

O problema do primeiro encontro

bad-dates

Eu me dei conta que um dos meus problemas com aplicativos de namoro é a minha tendência quase incontrolável de causar uma primeira boa impressão. Digo incontrolável porque nem sempre eu posso querer causar uma impressão tão boa que a pessoa persista. Talvez por uma curiosidade de escrita, qualquer ser humano que for colocado na minha frente por poucas horas despertará meu interesse. Pode ser o famoso homem que só fala de crossfit – eu lhe perguntaria: me conta, o que o crossfit tem de tão interessante? Eu gosto de ouvir as histórias das pessoas. Lembro que quando minhas colegas viraram todas psicólogas e eu virei escultora, elas viravam pra mim sem saber o que perguntar, e eu achava aquilo o fim. Se uma pessoa está numa realidade totalmente alheia à minha, aí sim fica ainda mais fácil de puxar assunto! Que rotina é essa que eu desconheço, do que se trata, quais as habilidades necessárias, como alguém vai parar nesse caminho. Tenho mil curiosidades, sou uma companhia verdadeiramente interessada. Aí a pessoa vai sair do primeiro encontro achando que temos muito em comum e que, no mínimo, podemos ser grandes amigos. Mas pra mim o interesse pode ter se esgotado ali, para sempre. E outra característica minha é detestar ser rude, o que dificultaria cortar as asinhas da pessoa depois…

Hidráulica

hidráulica

Sabe quando você está tão cansada que não consegue descansar, e tão irritada e querendo esquecer que não consegue pensar em outra coisa? O registro do banheiro jamais fechou; quando eu tive problema com a mangueira da descarga, ela inundou tudo até esgotar a caixa d´água. O encanador, quando resolveu o pinga-pinga da torneira, disse que era uma peça que estava quebrada lá dentro. Ele desmontaria, pegaria e pela pra comprar outra igual e voltaria. Disse que ele poderia vir lá pelas 10h manhã e veio às 9h. Logo depois de ligar pra ele combinando, descobri que torneira do outro banheiro, que eu pedi pra ele arrumar preventivamente, estava vertendo água do lado que não abre (!?) e encharcou uns dez rolos de papel higiênico. Para encurtar: ele saiu daqui 19:30h. Teve que passar em lojas duas vezes. Todos os metais da casa são de marca desconhecida e fora de linha. Pelas variadas foram trocadas. Tudo precisou de veda rosca. Cada ora era preciso fechar um registro diferente – e eu não sabia que havia tantos – porque nenhuma saída de água fazia sentido. Está comprovado as torneiras do banheiros realmente tem que abrir a esquerda de um e direita de outro, porque foram instalados invertidos. O encanamento da caixa d´água vai direto para as torneiras, o que quer dizer que ele é diferente do da privada e do chuveiro. No fim, foi preciso criar três minis registros no banheiro. O chuveiro e a privada ainda são assuntos pendentes. “Eu estou ficando até com medo de mexer nos teus encanamentos, porque em cada lugar surge um problema”. Eu trabalho com a hipótese de que o achamos que é registro do banheiro na verdade é apenas cenográfico, uma torneira falsa que o pedreiro colocou na parede só pra entregar a obra. Ainda abrirei aquela parede – não por gosto e sim para corrigir a posição do chuveiro, que é meio absurda – e descobrirei. O que tem aqui não é hidráulica e sim Pegadinha do Malandro.

Curtas sobre o sistema de caixa acoplada

caixa acoplada

Estou ficando boa nessa história de ser adulta, de pensar o que uma pessoa sensata faria no meu lugar e fingir que sou ela. Uma das lições essenciais para agir sensatamente é: abrace o prejuízo. Já deu errado, você vai ter que sair correndo, comprar o que não tinha planejado, pagar o que o cara te pedir, entrar no cheque especial. É assim mesmo.

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Eu ouvi um barulho estranho e tentei ajustar a válvula da descarga à noite. Uma mangueirinha se soltou e ficou dentro d´água. Na manhã seguinte, fez mais barulho, fui ajustar a válvula, ela quebrou na minha mão, a água começou a espirrar sem parar. “Por que, meu Deus, que infelicidade, que inesperado!”. Bem, fora o fato que eu não uso aquela privada há mais de um ano porque ela tem um vazamento incurável …

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Conclusão: sempre me achei das espertas que se antecipa aos problemas. Esse povo que não faz terapia, que procrastina, que isso, que aquilo, eu não, minha ansiedade e perfeccionismo nem deixam. Quem sabe até seja verdade que eu me antecipo aos problemas, apenas não quando eles são hidráulicos.

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O sujeito não vinha voando como eu gostaria, e muito sensatamente aproveitei aquelas horas para comprar um sistema novo. Sensatamente desliguei o registro. No que pareceu um excesso de cuidado, comprei um sistema novo inteiro de uma vez, para não correr o risco de comprar a peça errada. Depois, o cara me disse que fui muito sensata, porque a peça que deu problema justamente é aquela que não vendem separado. Sensatamente, eu tinha um dinheirinho comigo e não precisei ir ao banco. Eu mereço uma estrelinha por tanta sensatez junta, mas entrei no cheque especial e minha futura conta de água…

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“Nossa, você comprou o kit todo, custa uma fortuna e tem peça separada”. Mas olha o que aconteceu: eu contei pra ele que o sistema foi mudado inúmeras vezes e a descarga sempre vazou. Por causa disso ele decidiu desmontar a caixa inteira. Ele me mostrou a peça desgastada e meu banheiro ficou com cheiro de mofo como nunca antes. Deu trabalho e o cara me cobrou bem. Concluo que todas as outras vezes que trocaram o sistema, as pessoas fingiram trocar tudo e não tiraram a peça principal porque a porcelana nunca havia sido mexida. Comprei kits e paguei pessoas à toa durante todos esses anos.

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Outra conclusão adulta: prejuízo que resolve o problema de verdade não é prejuízo.

Ninguém ouve o Dr. Drauzio

Acho que o Dr. Drauzio Varela é uma daquelas poucas unanimidades – alguém já viu uma pessoa dizer “nossa, não suporto do Dr. Drauzio”? Ao mesmo tempo, por mais que muita gente se diga fã, me parece é como aquela pessoa do grupo de amigas que é muito querida, mas que ninguém vai consultar pra um assunto realmente importante. Ou o amigo que conta piada e quando diz algo sério as pessoas riem do mesmo jeito. Pensei nisso quando me peguei relendo um link que ele fala de presidiárias, um trabalho que fecha sua trilogia sobre o sistema prisional: Estação Carandiru, Carcereiros e Prisioneiras. Demorei para me tocar que havia lido a entrevista há anos, porque basicamente ele sempre fala o mesmo: prisão não reabilita, é infinitamente mais violenta do que a simples supressão da liberdade, tem consequências sociais terríveis. Ou, mais resumido: sistema carcerário não funciona, temos que pensar em outra alternativa. Se a pessoa diz que respeita a opinião dele e quer que todo mundo seja preso, tem alguma coisa errada aí. Nessas entrevistas, Dr. Drauzio nem tenta apelar para nossa empatia, ele trabalha com números e prova que o aumento de prisões não diminui violência e que é um buraco sem fundo em termos de custos.

É uma questão profunda e com muitas nuances e sei que se colocar contra o encarceramento soa para muito como “não vamos fazer nada, vamos deixar roubarem e matarem à vontade e depois ainda dar um buquê de flores”. Que os bandidos, ao contrariarem conscientemente as regras, tornaram-se parte do Mal, e o Mal deve ser combatido sem tréguas e nem acordos; não se colocar frontalmente contra o Mal, não tentar coibi-lo da maneira mais absoluta, é o mesmo que fazer aliança com ele, é como negociar com o diabo. Os discursos mais recentes sobre regulamentação das drogas também me chocam e me assustam – eu não gosto nem de bebida alcoólica, como ser favorável à liberação de substâncias que alteram mais ainda a consciência e com mais rapidez? Mas eu reconheço minha ignorância diante do Dr. Drauzio e de outros estudiosos. Entendo que, por mais chocante e pacto com o diabo que pareça, eles partem de uma lógica simples e que funciona no mundo real: a mesma atitude produz sempre os mesmos resultados. Mais polícia, mais presídios, mais armas, mais verba para polícia, presídio e armas – não é o mesmo que sempre fizemos, mas em escalas cada vez maiores?

 

 

Gente dessa laia

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Como as regras anti-spoiler não valem para séries que acabaram há anos, vou falar um dos acontecimentos que eu mais gostei em Mad Men. Don Draper é o protagonista e, como tal, tem a nossa simpatia. E Pete Campbel começa a série como um arrivista detestável – com tempo ele conquista a nossa simpatia. No começo da série, Pete descobre que Draper não é realmente o nome dele do Draper, que há um passado obscuro, que ele mente sobre sua origem. Aí Pete reúne suas provas e confronta Draper na frente do dono da agência. O dono da agência fala: Draper é um dos meus melhores publicitários, fecha contratos de milhões de dólares, não estou nem aí pro nome dele. E Pete fica de filme queimado.

Muitos episódios depois, em outra temporada, surge um funcionário bonito, sorridente, puxa saco e que começa a se destacar. Sem querer, Pete descobre que o sorridente também não é quem diz que é, que suas referências são todas falsas. Aí ele o confronta: Sorridente, eu sei que você mentiu, eu já lidei com essa situação e conheço gente da sua laia, agora sei exatamente o que fazer. O que Pete faz? Se oferece para dar boas referências pro cara ir pra outra agência e sumir.

Não é bonito de se recomendar, não é aquilo que nos ensinam os contos de fadas. Mas, como diria Raul, quem aqui é besta pra tirar onda de herói. Eu tenho a impressão que, com “gente dessa laia”, a melhor coisa é deixa-los chegar onde eles querem – lá encontrarão muitos iguais a se matarão sozinhos.

Sistema cérebro espinhal

cerebro espinhal

O ideal seria não se importar com nada. Olha para a transitoriedade das coisas e não se magoar. Ser indiferente à solidão ou ao estar acompanhado, abrir e fechar empresa com como se estivesse com a vida ganha. Mas se eu conseguisse tudo isso, seria Buda e o que estaria fazendo na frente deste computador. Não sou feliz o tempo todo, mas já vi que qualquer postagem deprimida me incomoda, como se reforçasse, por isso evito. Mesmo com tudo muito hard, não tomei remédio, não faltei um único compromisso e não estourei nenhuma conta; o que ouvi foram queixas de que não me deixava ser ajudada porque não me abria. É verdade, sou muito mais a que ouve os problemas – não gosto do efeito Panic Button da maioria das pessoas ao ouvir confidências. Já tive que deixar claro pra amiga que não é que esconda coisas dela e sim que não dou importância, deixo pra lá e não permito minha mente ir pro assunto. Sou como o sistema cérebro espinhal: quase todos os assuntos são recuperáveis e negociáveis, menos LÁ. Restringi meu eu a poucas relevâncias, o que na maior parte do tempo é ótimo. Posso dizer que meu estado de espírito preferido é o estável. Mas aí recebi um e-mail, quase por engano, que passou raspando, e entrei em colapso, frágil como um castelo de cartas.

O (acho que) rato

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Era de noite, a porta dos fundos estava aberta como sempre e eu ouvi um barulho esquisito que vinha de fora. Apurei o ouvido e vinha do sifão, da parte debaixo. Durante o dia eu tinha usado o tanque e a água esparramou toda, o sifão estava desencaixado. Encaixei de volta e achei que era apenas porque estava ressecado. Ao ouvir aquele barulho, entendi que um bicho havia tirado ele do lugar e que estava tentando fazer de novo, naquele instante. Abri a torneira e deixei a água correr, o barulho parou. No dia seguinte tudo bem, mesmo assim joguei uma água sanitária antes de dormir, para dar o recado. Na manhã seguinte, o sifão todo para fora de novo. Pego uma imensa pedra redonda de jardim e coloco em cima do buraco, ou seja, fico sem tanque o dia todo. Estou bem tranquila à noite fazendo sopa e quando olho para o tanque a pedra estava longe. Foi aquela sensação de filme de terror, o bicho além de persistente é grande. Coloco a pedra de novo, agora com o reforço de enciclopédias (!!) para prendê-la à parede. Tenho medo de ter prendido o rato pra fora – ou para dentro, dependendo do ponto de vista – , mas como é que eu vou saber se ele foi e já voltou? Me desconcentro, não leio mais, não faço mais nada direito. Estou no sofá ouvindo a única trilha possível no momento – Life is Hard – e penso em não postar. Tem um ratão em algum lugar, lá embaixo.

Eleanor Rigby

Era um disco duplo, de capa cinza, com uma coletânea dos Beatles. A gente abria e tinha a letra, em inglês. Eleanor Rigby provavelmente chamou a minha atenção pelos arranjos, tão bonitos e tão diferentes das outras músicas do disco. Minha mãe me explicou que a música falava de solidão e existia até uma estátua da Eleanor embora ela nunca tenha existido. Com a capa do disco nas mãos, minha mãe pegou a letra e traduziu. Eleanor Rigby catava os arroz que jogavam na igreja e sonhava em casar, Padre Mckenzi escrevia sermões que ninguém ouvia. “Fácil, é só apresentar a Eleanor ao Mckenzi e eles se casam os dois deixam de ser sozinhos!”. Pela expressão da minha mãe, ela não tinha ficado totalmente convencida. “Hum, é porque ele é padre, né, não pode casar. Mas ela poderia ir assistir os sermões dele…”

É uma pena quando as coisas não podem ser simples.

100%

grafico

Eu achava muito interessante uma tática que conheci de um violinista, que já chegava nos ambientes e perguntava: Fora as coisas ruins, tudo bem? Se não ganhava um Tudo Bem imediato, pelo menos era “é, fora as coisas ruins…” daqueles que normalmente passariam horas se queixando. Também acho cafona a moda de falar “gratidão” pra tudo, mas talvez seja realmente o melhor princípio contra o mimimi. Me pego cada dia mais impaciente com os que tem o hábito de reclamar. Tenho amiga desempregada há um tempão que provavelmente leu isso e pensou: “poxa, mas você não sabe o que estou passando, foda ficar desempregada”. E digo: não é de você que estou falando. Já perceberam que as pessoas que mais reclamam nunca são as que estão realmente mais ferradas? Aí que entra o conceito de gratidão: se você vira para elas e fala que, apesar de X, ela tá saudável, bonitona, namorado apaixonado e fazendo o que gosta, a resposta será um “É..” bem muxoxo. Para esse tipo de pessoa, o que falta lhe dói muito; já o que ela tem é tão básico, tão obrigação do universo, que nem conta. Nem se você não apenas também esteja passando por X como ele ainda é multiplicado por y², a outra se sente menos coitada. O que eu posso afirmar, do que sei da vida e das pessoas (imagens projetadas em redes sociais não contam) é que ninguém tem 100% da vida maravilhosa e bem resolvida. Todo mundo tem um lado mais difícil: a de carreira ótima não tem sorte no amor, o de vida mansa tem saúde ruim, o cônjuge maravilhoso vem com ex chata no pacote, por aí vai. Do mesmo modo, apesar dos mimizentos profissionais, também nunca vi alguém 100% ferrado, com tudo ruim ao mesmo tempo, sem absolutamente nenhuma fonte de felicidade. Tem felicidade sim, a pessoa que faz questão de ignorar pra poder reclamar melhor. Então, vai se vitimizar pra lá e fora as coisas ruins tudo bem, ok?

Curtas sobre bichos escrotos

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Ouvi um papo sobre chinelada e não estava entendendo. Aí me mostraram que havia uma barata enorme no vestiário, perto do teto e de alguns armários. Uma diz: “é que as baratas gostam muito de sabonete”. Na minha lista de “Coisas que Baratas Gostam” já constam: saliva, restos de comida, correr na nossa direção, esgoto, lixo, ralos, fingir de morta, cantos escuros, buracos entre armários, jornais velhos, calor, sapatos, aparelhos eletrônicos desativados, cerveja, papelão, voar. Concluo que o grande segredo das baratas é a sua alegria de viver.

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Quando eu conferi o lixo que não é lixo e ele estava roído, meu desânimo foi total. Aquilo sim deu vontade de fazer as malas e ir embora dessa vida divorciada e adulta. Porque enfrentar baratas, seres resistentes e nojentos é uma coisa; outra, bem diferente, é enfrentar seres superiores. Ratos são os bichos mais inteligentes da terra, o autor do Guia do Mochileiro das Galáxias tem razão. Um exemplo que li num livro: tinha um navio enfestado de ratos, nada dava jeito. Aí um dia tiveram um plano infalível de evacuar o navio, lacrar e colocar tubos que jogavam um veneno fortíssimo dentro do navio. Dias depois, voltaram achando que teria cadáver de rato espalhado por tudo, mas não, estava tão enfestado quanto antes. Quando foram ver os tubos, descobriram que cada um deles havia sido entupido com ratos, que andaram em direção ao veneno até morrer e vedar.

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Fui procurar dicas na internet sobre como lidar com ratos e uma bem ecológica recomendava cheiro de xixi de gato ou cachorro perto do local, porque são inimigos naturais. Já me imaginei colocando potinho de coleta embaixo da Dúnia durante o passeio.

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Outra: foi muito difícil desenvolver veneno para ratos. Pra começar por causa do olfato apurado deles, que faziam com que qualquer veneno passasse intocado. Depois, quando conseguiram desenvolver um veneno sem cheiro de veneno, pela prudência dos ratos: qualquer sabor novo tinha de ser experimentado pelo membro mais velho do grupo, que passava dias em observação. Só depois de alguns dias o alimento passava a ser liberado pros outros. Por isso que nenhum veneno de ratos age imediatamente.

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Por isso eu considero os ratos como uma grande inteligência coletiva. Já pensou se os humanos conseguissem agir assim? É que cada um de nós se sente importante demais. Um sujeito com um revolver com poucas balas consegue dominar uma multidão, porque cada parte dela tenta se preservar. Meu problema eu resolvi tapando o ralo, caso vocês queiram saber.

Isso não é assunto que se poste, mas

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…tem uma barata vivendo no meu tanque de roupas. Foram duas noites seguidas. Fui mexer num balde que estava cheio de meias, ia aproveitar o calor noturno pra lavar e lá estava ela. Aquela brancura do tanque e uma barata adulta, no auge da sua saúde e vigor, numa idade que convertendo idade de barata à de gente corresponderia aos 30 anos, ali , parada. Quando dei por mim, já estava trancada na cozinha, segurando o balde e ofegante. Não apenas deixei o balde lá como fechei a cozinha, a porta do corredor, liguei o alarme, fechei todas as janelas e passei a fazer tudo de luzes apagadas. Na noite seguinte, descrente porque o que não falta na minha casa é armadilha de barata, fui lá mais ou menos no mesmo horário “vamos ver se hoje tem barAAAAAHHHH!”. Lá estava ela de novo. Como disse um amigo meu esses dias, as baratas deveriam ter características físicas mais definidas, porque fiquei sem saber se encontrei a mesma barata da noite anterior ou se era uma nova. Porque é totalmente diferente uma coisa da outra. Se for uma barata nova, terei que me mudar. Aí comecei a imaginar como ela foi parar ali, e acho que ela sobe pela tubulação, porque o tubo é todo cheio de saliências e quando ela chega no tanque propriamente dito não tenha por onde subir. Ou seja, ela sobe o tubo e fica lá pra tomar uma fresca. Em tese, eu deveria ir lá e matar, mas imaginem que nojeira o confronto com uma barata num tanque. Vai que ali, numa situação de perigo, a adrenalina sobe e ela se vê capaz de escalar a porcelana. E fuja. E entre na cozinha. Pensei também em deixar, na terceira noite, uma armadilha de barata. Ela sobe e ao invés da brancura vazia das outras noites há um hotel preto com comidinha dentro. Vai se sentir querida. Duvido que a gulosa deixaria a oportunidade passar, mas e o horror de ir lá no dia seguinte e ter que tirar um cadáver de barata do meu tanque. A solução temporária imediata que eu achei – por Deus, o que é que eu faço!? – foi arranjar uma espécie de tampa. Não consegui achar nada que tampasse o tanque. Qualquer coisa que envolva fita crepe gera uma imagem horrível de barata grudada. Cortei uma garrafa pet e a tampa está pra baixo, equilibrada, praticamente tampando. Só passariam as anteninhas. Não vedou, mas acho que pra barata aquilo é um baita peso. Parece que funcionou.