2011

Não fazer também é fazer, esperar também é decidir. Talvez 2011 seja o dia que eu mais tenha colocado isso em prática. Sou do tipo que prefere andar meia hora a esperar vinte minutos um ônibus que chega no mesmo lugar em dez. Porque no primeiro caso eu me sinto fazendo algo. Pra chegar nos lugares é um bom exercício, mas não estou falando apenas de ônibus. Minha ansiedade de sentir que estou fazendo algo já me prejudicou várias vezes. Tem um ditado grego que eu adoro, que diz: “O destino conduz a quem consente. A que não consente, ele arrasta”. Então aprendi a me controlar e saber que espernear não faz as coisas serem do jeito que eu quero. Hoje eu não esperneio mais, só faço bico. Amadurecer é assim: é ruim mas é bom.

O ano calmo que eu tive esconde as decisões importantes. Deixei de lado minha carreira acadêmica, aquela mesma que eu já não gostava mas pra onde sempre corria quando sentia medo. Decidi ficar em casa e sentir medo. Assumir certas coisas me permitiu racionalizar minha rotina, que pra ser perfeita só falta que eu seja remunerada por ela. Abri outro blog, estou feliz escrevendo no Livros e Afins e gosto das coisas que produzi por aqui. Escrever se torna cada dia mais importante pra mim. Quem sabe minha ligação com as letras um dia me renda mais do que satisfação pessoal. No flamenco tive alguns dissabores, mas as conquistas foram tantas e tão boas que chega a ser injusto lembrar disso. Fui imensamente feliz à dois, conheci e aprofundei amizades que me renderam momentos ótimos. 2011 foi, sem dúvidas, um ano bom.

De 2012 espero e quero que ele não seja igual a 2011.
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Inimiga

Ela era vizinha da minha vizinha, ou seja, morava duas casas pra lá. Foi com ela que eu descobri o que significava o termo Piranha, porque os meninos da vizinhança (meu irmão caçula entre eles) lhe dedicaram a música do Marcelo Nova. Eram crianças, acharam engraçado, desenharam piranhas com giz na rua. Aí meu irmão mais velho teve que contar pra gente o que era, e eles foram correndo apagar. Porque eram todos apaixonadinhos por ela e não sabiam direito como expressar. O jeito deles era ficarem provocando, dizerem de ela tinha voz esganiçada e estarem sempre brincando ali por perto. Na nossa região de casas, de meninas, tinha eu e as duas vizinhas. Então uma outra menina que não era parente e ainda por cima era loira, em Salvador, fazia sucesso. Ela tinha uma legião de meninas que ficavam atrás dela, como uma espécie de líder. Eu era de outra faixa etária, e isso é o mundo quando se é criança.

Só que como toda amizade baseada em liderança, às vezes ela brigava com as suas seguidoras. E uma delas era uma daquelas meninas que eu citei, que era minha vizinha. E ela ia conversar comigo. Por uma questão de idade, eu era muito amiga da irmã dela, a Juliana, numa relação onde as duas disputavam a liderança. Talvez se não fôssemos todas crianças, eu seria amiga dessa menina, a Marina, porque a considerava uma pessoa mais fácil. Então a Marina vinha conversar comigo e começava a se queixar da Silvia, a menina loira. Eu sabia que tudo aquilo era temporário e dizia que era assim mesmo, que daqui há pouco elas estavam amigas de novo. E invariavelmente a Marina me dizia:
– Você fica defendendo a Sílvia. Você não faz idéia das coisas que ela fala de você. Eu posso te contar.

E eu invariavelmente a impedia. Mais tarde elas voltavam a ser amigas, voltavam a brigar, a Marina voltava a me oferecer, eu voltava a me negar a ouvir. Chegou uma época que ela estava disposta a me contar de qualquer jeito, estivesse brigada ou não, e eu nunca deixei. Claro que eu tinha curiosidade. Mas, com razão, eu achava que aquilo não me faria nenhum bem. Eu sabia que perderia a espontaneidade de alguma coisa para sempre depois de saber. Eu era criança demais para entender que a Sílvia queria ser minha inimiga – e eu jamais lhe dei esse privilégio.

Cabelo e algo mais

Comecei a cortar o meu cabelo curto com quinze anos. Ele passou por diversas fases, como atestam as minhas fotos, mas se for perguntar pras pessoas quem eu sou, como é que eu sou, todos lembram de mim como uma morena de cabelo curto. Tive todos os cortes curtos imagináveis, sempre atualizada. Agora estou há praticamente um ano deixando o cabelo crescer. Minha motivação é o flamenco. Se for parar pra pensar, pra mim deixar o cabelo crescer é algo radical, porque trocar de um cabelo curto para o outro era a minha regra. Só que me olho no espelho com o cabelo tão lisinho – o cabelo dos sonhos dos outros – e me acho tão comunzinha. Nunca senti tanta vontade de ter tatuagem, de me vestir da maneira estilosa, de fazer alguma coisa. Meu cabelo não chega nem no ombro, e cabelo não diz tanto assim a respeito de alguém – mas como explicar essa sensação de que me tornei mais uma na multidão? Por debaixo daqueles cortes diferentes havia uma vontade de ser diferente. E a certeza de que sou igual.

Carlinhos Brown

Eu e Carlinhos Brown éramos amigos de infância. Tocávamos juntos, estávamos sempre juntos, compondo, tirando um som. Aí chegou a época do vestibular, eu estudei, passei em direito. Hoje trabalho todo engravatado, pego ônibus cheio e ele é Carlinhos Brown, mundialmente famoso. Tivesse vagabundeado ao lado dele ao invés de estudar e eu estaria rico também.

Quando eu ouvi essa história pela primeira vez, da boca de um amigo desse amigo, foi num tom de A cigarra e a formiga, onde a cigarra se deu bem. Eu era estudiosa e fazia tudo certo. Assim como esse cara, nem me passaria na cabeça não estudar, não me esforçar pra fazer o certo. A história simbolizou pra mim a injustiça desse país, que premia um vagabundo e deixa o estudioso pegando ônibus.

Eu cresci e deixei de ser aquela que faz tudo certo e arranja emprego. Larguei o garantido e fui ser artista. Aí passei a ver nisso um símbolo, uma resposta a meus anseios de pessoa sonhadora. Carlinhos Brown era um que tinha ouvido a voz do coração e não se deixou corromper pelo que se esperava dele. O amigo tinha desistido do sonho, ele não. Escolhas medíocres, resultados medíocres. Carlinhos apostou alto e ganhou. Eu também estava apostando alto e acreditava que o universo também apoiaria minha decisão.

Agora já deixei de ser a jovem com um futuro brilhante pela frente. Perdi o bonde do emprego sério, joguei fora minhas oportunidades de ter uma carreira sólida. Com a minha idade, já deveria ser alguma coisa e não sou. Agora penso nessa história e acho que Carlinhos Brown era uma pessoa monotemática. Ele era aquilo, sabia fazer só aquilo, não era adaptável o bastante para prestar um vestibular e virar advogado. Ele não podia e não conseguia ter um emprego de gente comum. Isso poderia torná-lo rico ou matá-lo de fome; ele era o que era. Algumas pessoas – eu, Carlinhos Brown – avançam sem se desviar. E sem saber para onde vão.

Duende

É uma história antiga, da época que eu tentava tocar piano. Ele era um pianista principiante, mas com talento o suficiente pra participar de um concurso. Era aquele estudo de sempre, que ele tocava há mais de um ano. Ele o tocava bem, não errava as notas, tinha interpretação, enfim, o básico. Chegou o dia do concurso. Ele se colocou diante do piano, a banca na frente de ambos, uma pequena platéia com alguns amigos. Logo nas primeiras notas começou a sentir algo especial, como se uma onda o tivesse invadido. É difícil descrever em palavras. Ele sentiu que não tinha mais controle sobre os seus dedos, sobre o que estava acontecendo. As lágrimas escorriam grossas, as notas respiravam, ele nunca havia tocado de forma tão maravilhosa em toda a sua vida. Só que ele quis controlar a situação e seu esforço fez com que o fluxo parasse. No final da música ele havia voltado a tocar da maneira medíocre de sempre. Talvez por isso tenha ficado apenas com o segundo lugar.

Acho que os músicos não têm um termo específico para isso. No flamenco, chama-se duende. Ironicamente, o mais perto que estive do duende foi fazendo ballet. Era o começo da aula e estávamos fazendo pliés no centro da sala, uma coisa dificílima. Começou a tocar uma versão instrumental muito bonita de Casta Diva. A concentração e a suavidade dos nossos movimentos, aquela música. Era como se o tempo tivesse parado para nos ver, meu coração fica apertado só de lembrar.

O duende tem a ver com a técnica, porque não acontece quando a concentração se volta à execução do básico. Tem a ver com o tempo, porque é difícil dominar uma técnica no início. Para quem executa, é ser levado numa onda, e para o público é ser arrebatado sem entender direito o porquê. Mas é possível ter técnica, ter tempo, ter tudo, e não ter duende.

Eu preciso é de um duende para chamar de meu.

Meus eus

Há uma crônica do Veríssimo que eu adoro, acho que está no Comédias da Vida Privada. É de um homem que vai num bar e encontra diversas versões de si mesmo. Ele começa a perguntar se tivesse defendido ou não um pênalti, e no fim acaba concluindo que o melhor dele era o original, o que havia entrado no bar. Eu também tenho – não um bar, porque não bebo – um café cheio de versões minhas. De perto, os dias parecem todos iguais; mas existem alguns momentos decisivos que a gente sente que a vida poderia ser diferente.

 

Em uma das minhas vidas eu continuei fazendo teatro. Minha mãe não me proibiu, eu apresentei a peça do fim de ano, continuei fazendo oficina no ano seguinte. Não sei se continuaria atriz; a certeza que tenho dessa versão é que teria sido uma adolescente mais livre, teria amolecido minha rigidez mais cedo. Talvez as versões tatuadas e de cabelo colorido venham daí. Tenho versões como psicóloga, algumas de terninho e outras mais à vontade, todas um pouco prepotentes. A versão que trabalha no RH é infinitamente mais envelhecida e quadrada do que as outras. Tenho versões européias, com doutorado na Espanha, com marido ou ex-marido espanhol. Noutra tenho um tórrido caso destrutivo com um português. Em ambas, certamente teria um bom número de viagens no currículo. Não sei se nessa versão eu volto pro Brasil, se descubro o flamenco mais cedo, se mudo tanto a ponto de nem ser mais tímida. Quero crer que exista uma versão escultora de sucesso, mas nunca a vi. Existem versões ainda muito próximas onde sigo pela sociologia -mestrado, doutorado, pós-doutorado, concurso público – sem me desviar. Nela eu não fui arrebatada pela dança, mas minha mãe tem orgulho de mim. Não posso garantir nada, mas acho ouvi alguém falando “Bah!” por aqui…

 

Mais do que todas as versões, e de olhar para as minhas versões, o que eu realmente gosto é de saber que são muitas. Imagino o salão apinhado de Eus: algumas felizes, outras arrumadas, umas solitárias. Aceito, inclusive, a idéia de que algumas versões são melhores do que atual. O que me frustraria seria pensar que quem eu sou hoje era minha única alternativa.

Evolução

Eu imagino que os filhos de famílias católicas sejam obcecados com a idéia do bem. Eu, que nasci numa família mística, sempre fui atormentada pela idéia de evolução. Os espíritas talvez digam que o importante é a noção de karma – causa e efeito, receber pelas ações praticadas no passado, sofrer ou ser feliz de acordo com méritos que desconhecemos. No misticismo oriental essa idéia de karma está imersa em algo maior, num projeto da alma, num percurso que vai da pureza à perfeição, passando pelos erros e lama mundanos. O bem, dessa maneira, deixa de ser absoluto. Ele é relativo a quem você é, ao melhor que você pode fazer, ao próximo passo que você pode empreender no sentido de se tornar melhor. É uma idéia mais sofisticada, e também muito mais exigente.

Só que na prática, todos os conceitos de bem, karma e evolução são usados para julgar os outros. Os que estão piores, estão piores porque foram maus na encarnação passada. É cego porque na vida passada furou os olhos de alguém – como já me disse um cego criticando o espiritismo, e como eu já ouvi de espírita. Os que estão ricos é porque um dia fizeram por merecer. Os que bebem, saem, se drogam e cometem qualquer tipo de excesso estão se enchendo de karma ruim para a vida que vem. Então o bom mesmo é quem nunca se envolve, nunca vai a extremos, nunca deixa a linha segura do senso comum. Ir à igreja ou ao centro espírita toda semana, para dar um afago na consciência. Trabalhar as oito horas porque é preciso cumprir obrigações. Estar com a família porque o destino assim o quis. Formar sua própria família porque almas querem nascer. Que outros sejam irresponsáveis e façam coisas da qual se arrependam – nós somos tão bons que nunca daremos um único passo em falso. Viver como burguês e pensar como semideus, como diria Flaubert. O objetivo não é estar com a humanidade, e sim pairar sobre ela.

É engraçado pensar que algo que deveria ser mais radical leve a uma maneira ainda mais conformada de agir. E que levar uma vida que não faz qualquer diferença no mundo possa fazer alguém crer que é um semideus.

Convites

Essa é uma daquelas equações que eu não sei resolver. Algumas pessoas, quando fazem um convite, intimam. Pode ser o evento mais chato, como uma formatura de direito, ou uma festa badalada pra uma pessoa totalmente avessa a badalações, ela fará questão da presença. Na verdade, não de uma presença em especial, mas de presença, de número, de que cada um que recebeu o convite vá. A pessoa tem uma lista mental com os nomes dos seus convidados, e não atender o convite causa transferência imediatamente para outra lista, a negra. Aí para evitar o incômodo, o choramingo, as indiretas e todas as infantilidades possíveis, a gente faz um esforço gigantesco e vai, mesmo odiando estar lá.

Eu procuro fazer o contrário. Convido as pessoas sem pressionar, e pra algumas até deixo claro que sei que aquilo não é muito o feitio delas e que entenderei perfeitamente caso elas não queiram ir. Eu morro de preguiça de ir a eventos, então não acho justo querer obrigar os outros a irem nos meus. E quando não vão, quando aparecem com desculpas, digo que está tudo bem, nunca transformo isso num problema. Ou seja, eu sou legal. Então, o que me acontece? Convido as pessoas para me verem nos espetáculos e não aparece uma alma. Nada, ninguém. Alguns sempre inventam que estão mortalmente ocupados; a maioria nem se dá ao trabalho. Se eu fico achando que tenho pouca importância para elas? Claro que acho. Parece que as amizades só funcionam na base da pressão.

Empatia

Os cachorros têm uma série de comportamentos dominantes e pra mostrar que a gente é que manda, é preciso impedí-los. Eu faço tudo certo antes de sair com a Dúnia: não coloco a corrente enquanto ela está agitada, faço-a esperar enquanto abro o portão, nunca a deixo passar pelo portão antes de mim, não vou atrás dela para tirar a corrente. Só que no passeio em si, eu deveria impedir que ela andasse na minha frente, porque quem vai na frente é o líder. Mas além dela ter resistido a todas as minhas tentativas de colocá-la atrás, a verdade é que eu gosto de ficar olhando o caminhar suave e rebolativo da Dúnia enquanto andamos. Quem é dono de cachorro (especialmente dos grandes) sabe do que estou falando.

Fora isso, ela não tem o comportamento de um cachorro dominante. Ela conhece as regras que formamos ao longo de anos de passeio e quase sempre as respeita. Ela conhece o nosso trajeto e as possibilidades de parar. É um passeio tranquilo, com a corrente bem solta. Mas ela realmente gosta de ficar muito à frente, de modo a me deixar fora do seu campo de visão e impor o seu ritmo à caminhada. Imagino que a Dúnia gosta de fingir que está sozinha; como se ela fantasiasse que saiu porque quer, que é a dona de seus próprios caminhos. São os minutos mais desejados do dia, são o seu momento. Tenho empatia demais pra impedir.

Maradona

– Aê, Maradona!

Disse o meu irmão e o cara, de longe, acenou de má vontade. Ele não parecia diferente de todos os outros magrinhos e bronzeados que ficam jogando futebol e pegando onda. Meu irmão me explicou que o Maradona era dono de uma das barracas daquela praia e detestava o apelido, que vinha da sua curta carreira como jogador de futebol. Descoberto por um grande time paulista, acho que o Corinthians, Maradona realizou o sonho de todo moleque que joga nos campinhos de futebol e foi jogar no sudeste. Do dia pra noite virou jogador profissional, treinava ao lado dos ídolos, realizou todos os seus sonhos. Comprou carro, apartamento, e com o dinheiro também vieram as mulheres, as festas até o amanhecer, a vida louca regada a álcool e drogas. Um dia foi pego num antidoping e chutado de volta para a Bahia. Com o dinheiro que restou comprou o ponto. Hoje é o melhor jogador da praia e se recusa a falar daquela época.

Fogo em cima da montanha

Eu dizia que o I Ching não gostava de mim, porque eu sempre recebia respostas atravessadas. Era como se ele fosse uma pessoa, e ele vivia me dando coices. Também, pudera: eu o procurava pra perguntar sempre a mesma coisa, de maneiras diferentes, numa tentativa desesperada de ler o que eu queria. Eu queria saber se meu namoro e um possível casamento com o Fulano dariam certo. E o I Ching me chamava de “A pequena moça casadoira” – a pequena moça casadoira é uma jovem que é ofertada a um inimigo ou chefe tribal para aplacar os ânimos. A situação dela é extremamente desfavorável. Olhando para trás, do tanto que meu namorado era maluco e brigávamos o tempo todo, me parece que o I Ching tinha toda razão.

Outro símbolo que caía com frequencia para mim era “O estrangeiro”. Quando começava a jogar as moedas e fazer os tracinhos, debaixo para cima, esse era um dos poucos que eu já sabia antes de ler: o fogo em cima da montanha. O fogo não pode permanecer muito tempo numa montanha, seu destino é seguir outros caminhos. Assim era um estrangeiro, que compartilhava daquela situação temporariamente e depois iria embora. Enquanto permanecia, o estrangeiro tinha que ser prudente e amável com todos. Era como eu me sentia naquela época da minha vida, na casa da minha mãe. Eu estava sempre pisando em ovos, sempre tentando me antecipar ao humor instável dela. Mesmo assim era impossível agradá-la – estávamos sempre brigando e ela deixava claro que queria que eu fosse embora. Para consolar, eu lembrava de fogo sobre fogo, o Esplendor: Não fique triste. Seja como o sol ao meio dia.

Depois de muitos meses de espera, quando finalmente fui encomendar meu sapato de flamenco, recebi a notícia que o dia anterior ao meu e-mail o funcionário que fazia bordado tinha ido embora. Que eu pedisse sem bordado ou esperasse pelo menos um mês. Poderia passar o dia citando coisas que para os outros chegam com facilidade, todas as filas que deixam de andar quando eu chego. Lembrei da minha numerologia, que não tem o número sete (ou isso seria função do dois?) e faz com que tudo na vida da pessoa seja mais difícil, justamente para obrigá-la a desenvolver a paciência. Vejo os meus projetos crescerem a passo de tartaruga e penso nos muitos planetas que eu tenho em touro, que me tornam tão taurina quanto geminiana. Touro é turrão, e constrói o que tem de maneira lenta e segura. De fato, tudo à minha volta tem parecido muito lento. Não sei se estou num período de calmaria ou se minhas escolhas foram tão equivocadas que é só o que está aí. Racionalmente não vejo perspectivas. Penso em touro, penso em mim, e com isso tento acreditar que me encaminho a um lugar seguro.

Paulocoelhando 2

Eu estava na fila – na porta do teatro – do espetáculo de fim de ano de uma das escolas que eu dancei. Alguns levavam flores, outros estava com filhos. Na minha frente havia um casal. Num certo momento a mulher instruiu o marido:
– Então já sabe: aconteça o que acontecer lá dentro, quando ela nos perguntar o que achamos você vai dizer que adorou, viu?

Como se não bastasse isso, uma mãe que chegou atrasada veio encarecidamente pedir para sentar no meu lugar. Era um teatro sufocante, todo preto, com cadeiras equilibradas sobre pequenas arquibancadas. Eu fiz questão de pegar um lugar perto da porta – para respirar um pouco – e ao lado do corredor – pra sair correndo com facilidade caso tudo despencasse. A mãe queria sentar justo no mesmo lugar porque iria fugir no início da apresentação. Ela só queria prestigiar a filha, que dançaria logo no começo. Depois ela ia embora e o pai ia buscá-la. Ela poderia dizer sem estar mentindo que tinha visto a apresentação da filha.

Eu me livrei de tudo isso quando comecei a dançar flamenco. Mesmo nas coreografias mais simples – que é o que ainda faço – é possível ser interessante, arrancar aplausos sinceros da platéia. É bom dançar algo que impacta sem esforço. É gostoso agradar de verdade, sem que as pessoas precisem programar elogios.

O que une

Fico vendo Encantador de Cães e ele não se cansa de dizer que a melhor maneira de criar um vínculo com seu cachorro, ou entre cachorros, é andar juntos. Pegar a coleira e andar com o cachorro, só isso. Espíritos simples, métodos simples, dá pra pensar. Aí um dia a Nikelen escreve que comer junto une as pessoas. E aponta que talvez o juntos seja mais importante do que o verbo que conjugamos antes. Lembrei da minha recusa eterna aos encontros de ex-colegas, porque nunca vi no fato do destino ter nos unido aleatoriamente em salas de aula um motivo para nos revermos. A família, esse laço indissolúvel e frequentemente desagradável, é formada de pessoas que acreditam na obrigação de ficarem juntas por laços consanguíneos. Na internet, nos sentimos vinculados a desconhecidos só porque comentamos as mesmas coisas em tempo real. Dançar une as pessoas. Curitibanos são acusados de frieza por não se aproximarem daqueles que vêem todos os dias. Encontrar sexualmente e não criar um vínculo emocional se tornou um desafio comum. A combinação de sexo, amor e o desejo de manter o laço leva ao casamento, que nada mais é do que criar uma rotina à dois. Tudo isso me faz pensar que não amamos idéias, opiniões, cultura, gostos – essa é a consequencia, não a causa. Vai ver que somos iguais os cachorros e o que nos une é a reunião.

A flor da mocidade

Olho para minha vó e pra minha mãe e tenho a certeza de que venho de uma família privilegiada, que carrego genes de mulheres cuja beleza dos traços resistem bem à passagem do tempo. Numa das minhas primeiras semanas de aula na faculdade, eu estava sentada no ônibus e vestia orgulhosa a minha primeira camiseta com o nome e o símbolo do meu curso. Um pouco mais à frente, algumas pessoas que pastas de cursinho conversavam. Quando o ônibus parou e eu me levantei, eles finalmente notaram a minha presença e disseram: “Olha a camiseta que aquela menina está usando!”, como se eu estivesse com a roupa da minha irmã. Eu era nova – dezesseis anos – e devia mais parecer uma estudante de segundo grau do que alguém que já estava uma etapa à frente.

Pouco tempo após meu casamento, minha mãe entrou no elevador e encontrou uma vizinha. Ela comentou que há muito não me via, e minha mãe respondeu que é porque eu não morava mais ali, eu havia me casado. A vizinha fez uma expressão contrariada e silenciou durante alguns instantes. Depois disse:
– Eu acho que você não deveria ter deixado a sua filha se casar. Ela é muito nova.

– Mas ela tem vinte e cinco anos!

Há uma beleza própria da juventude que tentamos agarrar e nos escapa. Alguns permanecem com ela um pouco mais de tempo do que os outros, mas ela sempre termina. Não sei dizer quando me aconteceu. Nos olhamos todo dia no espelho e não percebemos a mudança. A pele perde o viço aos poucos, arrancamos alguns fios brancos, o olhar se torna diferente. Quando estamos tão jovens, tudo parece natural: os olhares por onde passamos, as excessivas gentilezas masculinas, o frisson quando entramos num ambiente. Isso vai diminuindo tão lentamente que no início não temos certeza, achamos que é algum tipo de coincidência. No espelho parecemos as mesmas, mas alguma coisa muito profunda mudou. Até que um dia não dará mais pra ignorar.

Eu era quase quinze anos mais velha do que quase todas as meninas que faziam dança comigo. A única coisa que tínhamos em comum era o fato de dançarmos juntas. No máximo, elas me lembravam coisas que eu já vivi. Perto delas a Sabrina nem era tão nova. Ela já tinha prestado vestibular, já tinha feito teatro, já havia sido modelo. Assim como eu um dia, ela parecia muito mais nova. Eram dezenove anos com carinha de dezesseis. Cabelo preto e muito bem cuidado até a cintura, voz fina, rosto de boneca, predileção pela cor violeta (violeta é o rosa das adultas, conforme me disseram), um jeito todo feminino e delicado de ser. E o mais importante de tudo: um doce de pessoa. Todas essas coisas fizeram dela uma amiga constante enquanto eu estive lá.

Às vezes saímos pra comprar alguma coisa juntas, ou pra conversar. Era ficar ao lado dela esperando o sinal fechar para que vários carros passassem buzinando; era parar um pouco para conversar de pé na rua XV para vários adolescentes pararem, os homens virarem o pescoço. Não havia como negar – tudo aquilo era pra ela, não mais pra mim. Eu já sou uma mulher.

Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trota a toda a ligeireza,
E imprime em toda a flor sua pisada.

Não posso dizer que sou imune aos custos do envelhecimento, que suportarei com tranquilidade as mudanças do meu corpo. Quando as peles caírem, quando as gorduras se acumularem, quando os sulcos ficarem muito profundos, como resistir ao apelo da indústria da estética? A velhice não nos torna automaticamente sábios, não retira do coração os desejos que sempre nos alimentaram. Não sei se existe preparação possível à idéia de deixar a vaidade de lado e ser apenas uma velhinha. O que eu acho realmente triste em toda essa história é saber que todo o investimento que se possa fazer em plásticas, preenchimentos, lipoaspirações e botox é em vão. As novas gerações e a juventude sempre serão mais belas.