A grande obra ainda não produzida

Sei da importância e tudo mais, mas não consigo gostar de Picasso. Talvez seja um dos pintores que eu tenha pesquisado mais do que outros justamente porque tentei entender e, quem sabe, produzir em mim um gosto pela obra que nunca me surgiu espontaneamente. Nessas pesquisas descobri que, ao contrário do que muitos pensam, ele tinha pleno domínio das técnicas de desenho e pintura. O leigo pode ver aqueles desenhos de perspectivas estranhas e achar que qualquer um faz, que desenhar não importava e sim a ideia. Quando mais estudo, mais me convenço de que nunca é assim. Seja no jazz, na escrita, na pintura, na escultura, pra inovar é preciso um grande domínio sobre a técnica tradicional. Só essa intimidade permite desconstruir.
Me identifiquei como escritora (o velho problema de sempre: que dizer quando me perguntam o que faço) e minha amiga me disse que o marido dela também escreve muito bem. Que ele era um grande contador de histórias, que tinha a imaginação muito rica e tal. Não tenho porque duvidar – um casal de advogados bem sucedidos e inteligentes, se ela disse que seu marido escreve, certamente escreve bem mesmo. Ela me disse que ele comprou um livro ótimo, que ela podia me emprestar, com todas as técnicas de escrita, como chegar a certas emoções num romance, etc. Não pude aceitar porque o livro está em inglês. Pensei: é claro que algum esperto já tinha que ter feito um livro desses, dando todos os instrumentos, todas as dicas para ser um grande escritor.
Somos muitos. Muitos os que sabemos fazer. Muitos que somos estimulados pelos nossos amigos, que temos meia dúzia de fãs caseiros. Já tem até livro. Potencialmente, somos todos como Picasso. Se eu fosse numa cartomante, quem sabe ela me dissesse que há, aqui, uma futura grande escritora. Está tudo na mão e é justamente isso o que dá medo, esse o problema. Podemos. Mas também não podemos. Temos que descobrir sobre o que escrever, e depois sentar para escrever até ficar bom. Em algum momento, é preciso se decidir e levar à sério esse potencial. Fazer de si um projeto. Passar meses com a bunda na cadeira, escrever, reler, reescrever até o infinito. E mesmo assim… Ao tentar de verdade, existe a terrível possibilidade de descobrir que não tão bons, que a tarefa é muito mais difícil e assustadora do que parecia a princípio.
É isso o que tenho feito, tenho escrito. Com este blog pouco frequentado, com o outro blog pouco frequentado, com umas histórias que poucos amigos leram. Estou me dando a tentativa de presente. Ufa, eu não sabia que tentar requeria tanta convicção! Um brinde aos que tentam, aos que se arriscam. Essa é a única parte que está sob nosso controle, o único e grande passo a ser dado: a tentativa.
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E quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração

Você se conhece. Você fez terapia durante muitos anos, você ainda faz terapia. Você conhece suas neuroses, pra que lado elas caminham. Conhece sem a menor dúvida o seu padrão do eneagrama. Sabe o que dispara as suas inseguranças e o que elas fazem quando fogem pela rua. Conhece os seus buracos, sabe as coisas que ele lhe leva a falar e a sentir. Sabe que é necessário segurar a onda para se reequilibrar. Lida com essas coisas desde sempre. Mas diga: quando a neurose é disparada, o padrão retorna, os bichos internos fogem pela rua como gremlins molhados – todo esse conhecimento adianta alguma coisa? Adianta alguma coisa? Não adianta nada. Você fala e sente tudo como se fosse a primeira vez.

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Ouça o seu coração. Listen to your heart. Mas e o que fazer quando o teu coração te levou para um caminho totalmente anti-econômico e depois se queixa de ter uma existência dependente; quando o seu coração quer mudanças, mas fica apavorado em fazer as mudanças que ele mesmo exige; quando o seu coração quer e ao mesmo tempo não quer o que ele deveria querer, ou quem sabe queria tantas coisas que elas simplesmente não podem coexistir no mesmo tempo e espaço. Eu tento coração, mas você não facilita.

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Você é afastado das pessoas, pelas circunstâncias. Aí elas se afastam de você. Depois, você se afasta delas. E as conversas que antes eram diárias passam a ser apenas uma vista de longe, uma stalkeada, uma lembrança. Depois, nem isso. Você deixa de falar nelas, de saber delas, de querer vê-las. Elas passam a se reunir entre si e você percebe que também deixou de fazer parte do mundo delas. Com o tempo pára de doer, porque você deixa de se importar. Elas passaram a ser apenas um nome. Depois que acontece tudo isso, no estágio branco e limpo que vêm depois da mágoa, vocês se reencontram. Você nem queria mais revê-las e fica surpreso pois é ótimo. Aí você se lembra do porque ter doído tanto: eram pessoas realmente bacanas, cujo afeto te faz falta.

Único, essencial

Penso nesses atores mirins ou pessoas que fizeram sucesso muito cedo. Pra elas a queda é muito dura e não é difícil imaginar o motivo. Em entrevista, já vi muitos dizerem “estou curtindo o sucesso, preparado para a possibilidade de um dia ele acabar, estou tranquilo”. É claro que eles dizem isso e sabem da possibilidade de acabar, mas é uma repetição, uma conversa vazia. Porque eles não acreditam, de verdade, que aquilo vai acabar. Eles acreditam que o sucesso chegou para eles porque são únicos, insubstituíveis, porque tinha que ser. Todos nós temos esse sentimento de sermos únicos, estamos todos prontos e preparados para que o mundo confirme isso. E mesmo após sucessivos fracassos, a última coisa a cair é esse sentimento. Porque se acreditar único e essencial faz parte do amor próprio, do fato de sermos a única vida que acompanhamos o tempo todo.

Eu escrevo, acho que deu pra notar. Mas se fosse pensar numa pessoa que está à procura de uma blogueira, com textos pessoais e que emocionasse muito, a melhor de todas; para oferecer a ela uma coluna, um salário, uma oportunidade de ouro… Sinceramente? Eu não me escolheria, escolheria a Fal. E pra cada coisa que penso – uma bailaora talentosa, uma pessoa que sabe envolver os outros, uma pessoa cheia de iniciativa, uma pessoa sensível e empática, uma pessoa determinada, etc – sempre eu encontraria um nome muito bom para colocar diante de mim. Não é complexo de inferioridade, é reconhecimento. Reconhecimento das características bacanas que existem pelo mundo, do talento dos outros, da especialidade de cada um. A gente cresce e abandona o lado “astro mirim” e percebe que não é único e insubstituível, não no sentido estrela-pop-que-só-falta-ser-descoberta. O mundo está cheio de gente e cheio de talentos. Pra cada coisa que você é ótimo, existem milhões que são igualmente ótimos na mesma coisa. Se achar o melhor é sempre uma temeridade; é muito mais provável que você não conheça as pessoas melhores do que você, e não que essas pessoas não existam.

Aí a gente se obriga a achar uma outra forma de pensar. De que cada um é e não é único e essencial. Não somos, na medida em que é possível colocar qualquer outro na função que gostaríamos que fosse nossa. E, surpresa, ele pode se sair melhor. Mas, ao mesmo tempo, cada um é sim único e essencial. Pergunte pra quem está do seu lado, para o seu amor, para o seu amigo. Não basta colocar alguém com sorriso mais branco no seu lugar e está tudo bem. Sou única e essencial porque só eu faço as coisas do meu jeito, só eu digo o que eu digo.  Na escrita, eu acho a Fal muito melhor, muito mais sensível – mas tem a Fal e tem eu. A Fal fala coisas maravilhosas e eu falo de outras coisas. Podem não ser maravilhosas, mas são outras. E tem coisas que nem eu e nem a Fal falamos, então é preciso que existam outros. Melhor em quê e melhor pra quê? Pra certas coisas não existem medida, apenas preferências. Ser único, hoje, me parece uma construção. Quero encontrar a minha voz e que ela seja inconfundível.

Um salário para o Gabriel

Depois de uma linda patada por bulerías – que é o momento no flamenco que se faz uma roda e a pessoa entra pra dançar um pouquinho – fui cumprimentar o Gabriel. “Gostou mesmo?”. Céus, claro que eu gostei. Eu e todos os presentes. Fui animada, segura, tecnicamente difícil, um arraso. Uma das coisas que me agradam no mundo da dança é isso: a inutilidade dos certificados. No mundo lá fora, as pessoas saem correndo pra assistirem um monte de cursos, coisas que não as interessam ou que elas vão lá como quem corre uma maratona, numa correria que nada se aproveita. Tudo porque elas precisam do papel, e é a quantidade de papéis que vai dizer aos outros quem ela é. Na dança, mesmo que eu tenha todos os papéis do mundo, é na hora do palco, na movimentação do corpo, nos primeiros minutos de coreografia, que a pessoa diz quem é. E o Gabriel é. Sua paixão pelo flamenco é famosa, ele é o que vai atrás da história, dos passos, conhece os grandes nomes, respira e vive flamenco. Depois de muita economia, ele largou o emprego e viajou semanas pela Espanha pra viver tudo aquilo de perto, frequentar os bailes, estar pessoalmente na atmosfera flamenca. De lá, voltou ainda melhor.

 

Logo após meu elogio, e de confessar que ele costuma se achar uma porcaria, Gabriel disse que precisávamos sentar, tomar um vinho, que ele tem uns projetos aí. Só que ao contrário do que eu esperava, esses projetos não dizem respeito ao flamenco e sim a dar um tempo. Com o olhar mais triste do mundo, ele me disse que precisava ganhar dinheiro, que é muito difícil, que se profissionalizar é quase impossível. Ainda mais triste do que o olhar dele, foi eu ter dito que estou nesse mesmo movimento, que estou mandando curriculo, que a gente se envolve nessa paixão e não quer sair mais, e chega uma hora que se vê obrigado a crescer, e tentar se enquadrar. Naquele momento teria sido tão bom ter dito algo diferente! Mas a tristeza que havia no olhar dele é a mesma que tem frequentado o meu nas últimas semanas. Um certo sentimento de traição do destino, de amar tanto algo, de investir no coração e não ver saída, não ver retorno.

 

Li alguns livros sobre os muito muito ricos, como os amigos que Capote frequentava. Através deles eu descobri que os muito muito ricos pagam as despesas dos amigos. Eles viajam e levem o povo junto, pros hotéis, pros programas, pros drinks, as roupas, tudo. Quando lia isso, pensava que tipo de gente fútil era essa e que qualidade amigos um milionário teria, apenas um bando de puxa sacos que não querem perder sua fonte de renda. Talvez. Mas hoje vejo sabedoria nessa atitude. Pobre e burro é o ex-marido daquela minha amiga que a largou porque ela não podia contribuir tanto quanto ele nas despesas. Quem é rico sabe que pessoas são tão preciosas que elas valem o investimento, que o melhor quarto de hotel e as melhores festas não são nada sem as melhores companhias. Se de outra forma não podemos tê-las, então que se pague. Dinheiro é descartável, gente não.

 

Eu gostaria muito de ser dessas pessoas muito muito ricas e poder pagar meus amigos. Eu tenho me queixado e andado triste, e sei que muitos dos meus amigos gostariam de me acudir. Eu sei que eles sabem que eu sou competente, esforçada, confiável e que seria uma excelente qualquer-coisa que eles precisassem. Mas eles não têm como me ajudar, porque eles também estão na lida. Assim como muitas vezes sei que eles estão em dificuldades e não posso fazer nada além de torcer pra que tudo se resolva da melhor forma. Como disse o Alessandro, certas pessoas mereciam ser pagas para ser quem são. Eu gostaria de falar pro Gabriel – “Diz aí, Gab, quanto é que você ganha nesse teu emprego que eu cubro”. O Gabriel merecia receber pra flamenquear. Ele merece ser pago para pesquisar os palos, descobrir novos sapateados, treinar palmas. Mais: ele merecia ser pago para continuar sendo uma das pessoas mais carismáticas que eu conheci na vida, pra espalhar a risada dele pela escola, pra contar suas histórias deliciosas, cantarolar. Pra me recompensar, bastava ele dançar umas bulerías bem boas.

Segurança

Falei recentemente pra um amigo que eu era uma pessoa insegura, que na hora me disse que não, que eu não era uma pessoa insegura. A espontaneidade da resposta me deixou feliz, tanto que nem quis perguntar de onde ele tirava tão equivocada impressão… Fiquei pensando nas muitas coisas que podem nos passar a ideia de que alguém é inseguro ou seguro: a maneira de olhar e se dirigir às pessoas, a maneira de falar, o tom de voz, o modo como se veste, etc. e concluí que talvez eu tenha aprendido a dominar essas técnicas o suficiente pra não deixar tão claras as minhas inseguranças. Crescer, amadurecer, fazer terapia, corrigir a própria postura têm que servir para alguma coisa. Tem vezes que eu disfarço tão bem, fico tanto tempo nessa ilha de segurança, que até eu mesma começo a achar que sou segura pacas. 
Mas aí me vejo aqui às voltas com meu novo projeto, que em poucas palavras pode ser resumido à ideia de sair do meu exílio auto-imposto. As inúmeras portas fechadas e a impressionante falta de sorte que tenho no meu setor profissional acabaram me convencendo de que não adiantava lutar. Eu me convenci que a vida produtiva não era pra mim, que por algum motivo eu jamais ganharia o meu dinheiro e que ser esposa era tudo o que minhas capacidades me trariam. De certa forma, eu ainda penso isso. Penso e estou aqui tentando não mais pensar. Sabe o que é tentar de novo? Sabe o que é fazer o que você já fez várias vezes, anos a fio e nunca deu certo? Olhar de novo para currículos e procurar pessoas me afeta de um jeito que só de escrever isso me dá vontade de chorar. É como tomar várias doses de injeções oleosas, sempre no mesmo lugar. Eu farei unicamente porque não é mais possível adiar; cheguei num ponto que avançar dói, mas não avançar dói mais ainda.
Tendo isso em mente, a segurança agora não me parece mais uma questão de ser ou não ser. É como se fosse uma questão de atenção, de onde você coloca o holofote da sua consciência. Ou seja: sou capaz de viajar sozinha, me hospedar na casa de pessoas que mal conheço e depois ir pra uma festa. Sou capaz de subir num palco, de participar de campeonato e de vestir biquíni. Sou capaz de muitas coisas que, como pessoa muito tímida, eu não deveria ser capaz de fazer. Porque treinei, já fiz e de uma maneira ou outra deu certo. Mas basta colocar o foco na minha vida profissional – onde a minha história não é tão boa – que tudo cai por terra. É mostrar a sujeira debaixo do tapete, exibir para as visitas o cômodo da bagunça. Nesse setor da consciência, a criança tímida nunca cresceu.

O que eu quero, Mário Alberto?

Tenho que reconhecer: quem diz que a gente alcança o que procura tem razão. Reconheçamos, é assim sim. A gente tende a achar que todo mundo busca o que nós buscamos, ou que todo mundo busca a excelência, e quando vê que uns conquistam e outros não, começa a duvidar. Mas alcançamos sim, o que nós buscamos, num sentido muito profundo. Veja o caso do Eri Johnson, por exemplo. Sim, aquele ator da pinta, que só faz papel dele mesmo. Acham que ele é infeliz, que ele liga de falarem que ele é um mau ator? Não acho que seja. Ele é o ator que ele pretende ser, o cara que joga na praia, que frequenta festas, é famoso e trabalha na Globo. Tá louco de bom. Entrar pra história como um grande ator, se desafiar num papel, entender profundamente a arte de atuar… isso é o sonho dos outros. E isso não tem a ver com ter papéis garantidos nas novelas de Glória Perez. Na mesma atividade cada um pode sonhar coisas diferentes.
Vejo e falo por mim: plantei onde estou. Nunca desejei, claro, chegar na idade que eu estou com a vida profissional tão nula. Mas, ao mesmo tempo, nas minhas escolhas, nunca priorizei isso. Trabalhei por amor, por conhecimento, por gostar de quem estava no meu lado, por um monte de coisas. Nunca trabalhei em prol de carreira ou dinheiro. Claro que, durante uma boa parte da minha vida, achei que uma coisa acompanhava a outra – que minha paixão e dedicação se converteria automaticamente em dinheiro. Mas eu sei: em momentos pontuais da minha vida, eu poderia ter escolhido lugares onde ia ganhar mais, onde teria status, onde poderia plantar um futuro profissional melhor. Se dinheiro e carreira fossem a minha meta, eu teria feito por onde, teria me aproximado de certas pessoas, me omitido e engolido coisas que não omiti nem engoli, teria deixado de lado as atividades que me davam prazer. E não o fiz. Se fosse colocar em palavras, talvez o que sempre tenha me motivado seja a vontade de conhecer, de me aperfeiçoar e me sentir bem. O que me faz concluir: eu alcancei o que eu buscava. Não o que eu achava que buscava, não o que na época eu diria que buscava, mas o que eu buscava num sentido muito profundo.

O que não pode ser apagado

Não foi nada fácil pra ela. Foi por causa dele que ela veio morar em Curitiba e deixou tudo para trás: família, amigos, alunos, enfim, todas as suas referências. Ele quem quis morar no sul. Foi ele quem passou em concurso, ele que ia ganhar muito dinheiro, ele que tinha lutado por aquilo. Ela foi atrás, porque ele era sua referência desde sempre. Amigo de infância, namorado de adolescência, seu primeiro homem, seu melhor amigo, homem com quem vivia junto há anos. Como iriam morar fora, resolveram oficializar a união e fizeram uma festa badalada. Foi um casamento e uma despedida. Só que, quando aconteceu, parecia que seria apenas uma despedida dos amigos, e não de tudo. Sim, de tudo, porque aquele casamento acabou com tudo. Uma vez casados, uma vez empregado, uma vez um homem tão importante, ele mudou. Ela já não era suficiente pra ele. Ela era apenas uma professorinha que ganhava mal. O apartamento bonito, os jantares regados aos melhores vinhos, o mundo ao alcance, tudo vinha do salário dele – e ele fazia questão de deixar isso bem claro. Para piorar, a tristeza fez com que ela engordasse e isso serviu para diminuí-la ainda mais. Como ela, gorda e fracassada, poderia fazer jus à colega de faculdade novinha que ele arranjou? Não pôde. Mesmo sem saber para onde ir e como fazer longe dele, ela teve que se separar. Oficialmente, quem pediu a separação foi ela, mas podemos dizer também que ela foi expulsa. Expulsa ao ser continuamente chamada de gorda, de ser humilhada na frente dos amigos, de ser relembrada o tempo todo do padrão de consumo.

Longe dele, ela descobriu outros homens, outros valores e capacidades que até então nem desconfiava. Fez amigos, arranjou namorado, até montou um negócio. Ninguém imaginava que um ano depois ela estaria tão refeita, nem ela mesma. Só que o que doía, apesar de estar tudo tão bem, era constatar que ele ainda era tão presente na vida dela. Que ela assistia algo ou faziam um comentário ao lado dela, e ela sabia exatamente qual seria a reação dele, o que ele diria, que cara faria. Doía perceber que em todas as suas lembranças ele estava lá e que havia mais fotos para recortar do que fotos dela mesma sozinha. O que machucava muito era perceber que por mais canalha, filho da puta e detestável, por mais que ela tivesse sofrido no fim, por mais que o último ele não parecesse em nada com o homem que ela conheceu, ele sempre faria parte da sua história.O amor não pode ser apagado.

Seguir seus sonhos, etc.

Às vezes o carinho e a boa vontade das pessoas nos colocam em roubadas. Foi o caso de eu ter que ler algo que de antemão eu sabia que não me agradaria: A viagem da sabedoria. Não contarei a história aqui, vai que algum leitor se interessa e fico aqui contando o livro. Tenho problemas com o gênero de autoajuda. Talvez por ter lido demais desses livros na adolescência. Tenho, com esse gênero, o mesmo problema que tenho com músicas gospel: não gosto que alguém me diga, com todas as letras, quem eu sou e o que devo fazer. Por mais sábias que sejam as colocações, não gosto. Digo que é o mesmo problema da música gospel porque nessas músicas há a necessidade de usar a palavra Deus e citar Jesus a todo instante. E eu não acho que você tem que dizer Deus para chegar a Deus. O sentimento de divino, de integração, de paz e de felicidade podem vir – até mais facilmente – com uma música que não diga isso com todas as letras, ou até que não diga nada. Se Deus é amor, cantar qualquer tipo de amor, o levará a Ele. Qualquer coisa que me dê paz será Divina. Mas não, supomos ouvidos limitados, e é preciso dizer as coisas com todas as letras, é preciso dizer Deus Deus Deus o tempo todo, como uma cartilha. Senão, não é religiosa, não é gospel.

 

A viagem da sabedoria é um livro escrito por um norte-americano, e quando ele fala em poder e liderança, tudo me parece bastante próprio da cultura deles. O livro me lembrou um filme que detestei de paixão, e trata do mesmo tema: Jerry Maguire. Em ambos, uma situação de crise, de estar totalmente por baixo. Em ambas, a pessoa se reergue e atinge um patamar de sucesso muito maior do que ela seria capaz antes, se tivesse seguido seu curso natural. Ou seja, ser criativo, pensar fora da caixa, usar as leis de sucesso, seguir seus sonhos, leva a pessoa à fama e sucesso ilimitados. E sabemos que não é assim. Eu acredito muito em seguir seus sonhos e tenho seguido os meus. Embora ainda seja muito jovem pra dizer onde isso vai dar, posso garantir que a equação não é tão simples. Mais do que alcançar o sucesso, ir atrás do que se quer muda os pontos de vista. Abrir mão de certas posições e oportunidades é para sempre. Correr atrás da sua vocação, caso ela implique trabalhar em áreas de pouco dinheiro, não vai fazer com que você ganhe muito dinheiro. Pode ser que correr atrás dos seus sonhos implique em perder status para sempre diante dos seus. Ou escolher jamais atingir padrões altos de consumo.

 

Se a pessoa seguir seus sonhos achando que vai ficar ainda mais rica, ela na verdade está fazendo uma aposta com o destino. Está dando o que tem com a expectativa de ganhar tudo de volta, acrescido de juros. Isso é pensar na mesma lógica do mercado, só que com outra embalagem. Os sonhadores que eu conheço, aqueles de verdade, revolucionaram de maneira mais profunda. Nenhum deles se tornou rico, o maior consultor, nenhum deles reúne multidões para ouvirem suas palavras. Nenhum deles se importa. Eles estão vivendo até com menos do que a média. Mas seguir os seus sonhos revela algo misteriosamente tão bom, que a opinião da média deixa de ser algo a se lutar.

O que não pode ser deixado

Eu posso, facilmente, ser acusada de falta de persistência. Achava que queria ser psi, fiz a faculdade inteira, seus muitos estágios e trabalhos, aí depois de meses de busca infrutífera por um emprego, comecei a esculpir. Naquela época, ainda não sabia o quanto é difícil viver de arte e passar o dia inteiro no atelier me realizava de tal forma que jamais me passou pela cabeça ficar lá e mandar currículos, que aquilo me ocupasse sem eliminar a outra parte. Os anos foram me convencendo de que só a arte não ia, aí comecei outra faculdade. Gosto de estudar, estudei até demais, só que aconteceu a mesmíssima coisa de antes – uma atividade paralela se tornou a principal assim que as coisas começaram a não ir. De socióloga virei bailarina. Ao contrário da outra vez, mandei vários currículos, anos a fio, sempre sem ter retorno. E fui me afastando da área, tanto no que diz respeito às leituras e círculos de amizades como também no jeito de ser, na maneira de ver as coisas, na minha alma.

Por ter começado e dado as costas à tantas coisas (tantas? Talvez apenas mais do que a média) eu sempre tive em mim a dúvida de se era uma pessoa em busca do que gosto ou simplesmente alguém que não consegue persistir. Eu tentei, procurei emprego, segui toda cartilha. Outros poderiam me dizer que eu deveria ter feito isso durante mais tempo, mais vezes, antes de partir para outra. Que não fiz com a determinação necessária. Ao mesmo tempo, reconheço, quando abandonei essas áreas, fiz sem medo e sem qualquer dor. Deveria, né? Anos de faculdade, títulos acadêmicos e possibilidades invejáveis jogadas no lixo como se não fossem nada. Eu me perguntava se esse seria para sempre o meu destino, o de mudar tudo a cada quatro ou cinco anos, se eu era uma mudadora compulsiva.

Finalmente tive as minhas respostas. Eu andei, andei, andei, e cheguei a duas grandes paixões: escrever e dançar. Ironicamente, nas áreas que eu abandonei, ouvi algumas vezes que eu tinha um grande futuro pela frente, que era uma gênia, que levava o maior jeito, que seria a sucessora natural de alguém. Agora não. Tem um elogio aqui e ali, mas basicamente estou sozinha sem grandes perspectivas. Sofri, nas duas áreas, alguns golpes duros. Não tenho, até onde minha vista alcança, a perspectiva de ser grande coisa nas duas – mesmo porque ser grande nas duas áreas raramente se converte em dinheiro. Se fosse para largar, já era para largar. Mas eu não largo. Quando estou triste, o que mantém viva é escrever e dançar. Quando estou feliz, tenho vontade de escrever e dançar. E no resto do tempo…

É assim que a gente descobre que finalmente se encontrou. Quando você alcança o que é pra ser, o que fala profundamente à sua essência, sente que não pode mais viver sem. Que a coisa é o seu veneno e sua cura. A persistência, a partir daí, vem naturalmente. Sua essência não pode ser deixada, ela é a própria vida.

Em versão mais longa

Tenho uma superstição de não querer contar os meus projetos antes de darem certo, porque tenho a impressão de que divulgar antes é fazer com que fracassem. Mas como isso não é bem um projeto e não existe bem a possibilidade de sucesso ou fracasso, posso contar: tenho tentado escrever. Coisas longas, quero dizer. Novela, romance, essas coisas. Foram anos ouvindo de pessoas que liam o blog que eu poderia escrever algo mais longo, que eu era capaz, que me convenceram e resolvi arriscar. Acho que a grandessíssima responsável – pro bem ou pro mal? – foi a Tina, que me mandou um edital de um concurso o ano passado. Me inscrevi e o dito cujo dizia que se fosse aprovada eu teria seis meses pra escrever. Desesperei com a ideia e resolvi começar antes, imediatamente, pra ter mais tempo. Seis meses escrevendo e saiu o resultado de que eu não fui aprovada. Mas o troço estava engatado e eu continuei.

Então acho que de certa forma o blog está sendo prejudicado por isso, porque tenho canalizado minha necessidade de escrever e me expressar lá nas outras coisas. Nunca mais escrevi, por exemplo, sobre o processo de escrever, no Livros & Afins. O que não deixa de ser uma ironia, porque agora entendo muito melhor do que antes dessas dificuldades. E o que eu tenho a dizer é: nossa, como é difícil. Manter uma história interessante por dois, quatro parágrafos, tudo bem. Ao longo do tempo, por várias páginas, tentar temperar com outras vozes, é muito difícil. Qualquer escritor vagabundo, best-seller, edição paga e ator global/ assistente de palco/ ex-atleta que resolveu escrever agora me parece um gênio. Nessas coisas mais longas, tenho me achado um saco. É tudo muito pior do que eu imaginava. Acho que como escritora sou mesmo uma excelente dona de casa. Sério. Uns pobres amigos foram obrigados e me ler e olha, mandar manuscritos pros outros é meio como peidar na frente de alguém – quase ninguém quer tamanha intimidade. É uma situação delicadíssima, para ambos. Aposto que tem gente lamentando o dia que me conheceu. Ou xingando a tal pessoa que deu o pontapé que me fez tentar ser escritora. Culpa da Tina, gente.

Solista

Minha profe de flamenco acabou me fazendo dormir mal, cheia de questões existenciais. Uma aluna perguntou para ela que faríamos com aquela coreografia a mais que havíamos aprendido, e ela disse que é sempre bom saber mais um baile, quem sabe “alguém quisesse fazer um solo”. Fiquei surpresa – então é só pedir? Nos outros lugares onde eu dancei, em todos os outros – de flamenco ou de outras danças – o solo era algo muito desejado e que dependia de um certo favor do professor. O professor virava para o aluno e lhe oferecia o solo. Ele se sentia honrado e fazia o seu melhor. Às vezes a decisão do professor era questionável, fruto de pura preferência pessoal e nada a ver com o talento. Noutras, todos viam no escolhido um solista nato. Como a decisão nunca cabia ao aluno, era sempre uma eleição, quem queria ser solista podia apenas sonhar, torcer para ser notado e dar o seu melhor. Quem não ganhava solo ficava insatisfeito, sentia raiva, sentia inveja, sentia qualquer coisa; sua opinião não influenciava em nada. Então, nessas situações, dentro do meu coração, eu senti raiva, inveja e insatisfação por muitos solos que eu não ganhei. Podia não estar preparada para todos, mas para alguns eu achei que dava. Mas como a decisão jamais esteve nas minhas mãos, como eu não era a preferida de ninguém, eu aceitei a ideia de jamais solar.
Aí a outra coloca o solo como uma coisa muito mais acessível. Um solo não como uma eleição feita pelo professor, e sim por uma auto-confiança e uma vontade do aluno. O aluno dizer: “me coloca lá’, é novidade pra mim. Dele sentir que pode, ter o desejo de se impor esse desafio e coragem de ficar a sós com o público. E agora, Caminhante, queres ser solista? Não sou perfeita tecnicamente, me sinto insegura com as contagens, com os sapateados, mas a questão não é essa. Com um solo acessível percebo o quanto é fácil invejar e reclamar, o quanto é confortável que um só decida. A culpa é toda do outro, ele que é injusto e cego por não reconhecer o talento… Eu desejei ser escolhida, mas também é fácil o papel de quem é escolhido. Assumir-se como solista, dizer para si e para o mundo: eu quero, eu tenho confiança, eu sou. Um solista é. Um solista nato tem culhões. Ainda estou aqui, pensativa a respeito dos meus.

Decidir

As pessoas não se dão conta, mas um dos maiores prazeres da existência é tomar uma decisão. Ter dúvidas é ruim, precisar decidir é péssimo, colocar uma decisão em prática é um pesadelo, já decidir… Decidir é ótimo. Decidir é uma onipotência, uma felicidade, uma realização. Decidir é olhar o mundo do topo, da montanha, russa ou de pedra, e olhar. Decidir é sentir que tudo foi colocado nos eixos, que sabemos exatamente o que fazer, que caminhamos para um lugar seguro. O momento da decisão é como um orgasmo mental. Decidir aquieta todos os pensamentos e diz para a mente parar de uma vez. Decidir é colocar peso nas coisas de maneira definitiva, é a interrupção de todo fluxo de argumentos. Antes de decidir há sofrimento, depois de decidir provavelmente há mais sofrimento, decidir é o bom. Decidir dá sensação de controle sobre a própria vida, o que talvez seja a mais ilusória das sensações. Talvez por isso que decidir seja tão bom, por ser tão grande a sua ilusão: decidir é controle e nunca controlamos nada. Decidir nos dá a impressão de que existe um rumo, sendo que a vida não tem rumo nenhum. Decidir dá a impressão de que sabemos o que estamos fazendo e que eliminamos o aleatório. Como se a vida pudesse ser um cenário, onde nada, nada do que está lá não tem sua razão de ser. Gostamos de pensar que tudo nos diz respeito e tudo nos dirá respeito. Decidir é a ilusão que nos permitimos porque qualquer ilusão é melhor que o caos.

Disputar atenção

Alguns adultos têm efeitos mágicos sobre as crianças. Lembro de uma ou duas professoras no primário, coincidência ou não, a magia era maior quando eram professoras substitutas. Elas iam embora e nos deixavam com gosto de quero mais. Outro era o tio da minha vizinha, a quem todas as crianças chamavam também de tio. São adultos que não apenas gostam de crianças, sabem lidar com elas com o carinho e a autoridade necessária, mas também conseguem se fazer parte da turma, conseguem deixar sua presença tão especial que lembramos deles pelos restos das nossas vidas. Como todas as crianças, eu os amava, os admirava, tinha vontade de estar com eles. Aí acabava a aula ou o tio da amiga ia embora, e o roteiro se repetia: todas as crianças os cercavam, querendo colher o último minuto de atenção, arrancar a última promessa, cobrar o último pedido, garantir que seu nome era significativo. E enquanto eu olhava todas as outras crianças disputarem atenção, eu me afastava. A disputa por atenção gerava em mim dois sentimentos antagônicos e muito fortes. De um lado, eu sentia uma imensa insegurança. Olhava aquelas crianças e me convencia de que era mais uma, apenas mais uma. Tinha certeza de que seria atendida de forma burocrática, que arrancaria conversas vazias, de que ele se esqueceria de mim mal eu virasse as costas. Então eu nem ia. Minha outra certeza é de que eu não era todo mundo, que eu não disputaria atenção. Ou eu era realmente amada e marcante ou não era. Eu é que não iria mendigar atenção de ninguém.

A gente roda, roda, roda, e não muda.

Menos é mais?

Duas pessoas diferentes postaram no Facebook um tema que me interessa: casas pequenas. O Alessandro até mostrou que existe um tumblr dedicado a esse tema, e que eu já estou seguindo. Esse tumblr é daquelas coisas que quando a gente vê se pergunta porque não fez antes, porque o tema sempre esteve à espera. Também vejo dessas casas e não resisto à vontade de querer entender como funciona, adotar uma dessas, de viver assim também. Gosto da idéia do espaço bem aproveitado, de viver apenas com o essencial. Elas são como caixas de surpresa, o raciocínio contrário da ostentação – quase nada por fora, um tesouro por dentro. Perto daqui tem uns condomínios de casa, com terrenos razoavelmente grandes e quase todos estão ocupados por casas que vão quase de muro a muro. Sempre penso que, idealmente, no lugar dessas casonas, eu teria construído uma casa pequena e feito um belo paisagismo em todo o resto. Uma casa ampla com armários espaçosos acabam sendo um convite à acumulação, às tralhas. Quanto mais temos, mais cuidado essas coisas nos exigem. Ter coisas demais nos engole. Gostaria que as minhas coisas coubessem em algumas caixas, invejo a liberdade dos que têm tudo o que precisam dentro de uma mochila.
Ao mesmo tempo, Andre V expressou sobre essas novas casas pequenas algo que sempre senti:
Sempre que eu vejo essas matérias sobre “como viver num apartamento de 30m” me sinto LESADÍSSIMO. pq a solução sempre envolve o uso maciço de marcenaria que em geral custam MAIS QUE O APARTAMENTO. Dai se você pode gastar 350 mil num apartamento será mesmo que você precisa viver num apartamento de 23m ?
Ou seja, o custo de super casas pequenas da moda acaba pervertendo o sentido de tudo que eu disse acima, não?