Curtas sobre regras

toalhas

Conjunto completo de copos, todos iguais. Além de ser impossível, porque eles vão quebrando, eu me apeguei muito às xícaras. Tem a que cabe muito líquido, a que tem tampinha, a de brancura que ressalta o café, a que diz que sou mau humorada e quem manda aqui.

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Mesma coisa para as toalhas, ainda mais se você as guarda aparecendo: tenha um lindo jogo, todas branquinhas. Já confundi mais de uma vez a que acabou de ser lavada com a que estava pra secar depois do último banho. Descobri que, ao invés de me livrar das coloridas, funciona muito se eu alterno branca com coloridas e/ou estampadas, porque olho no varal e sei qual é a toalha da vez.

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Uma vez me curei de um crush quando o vi de preto numa foto quando ele foi andar de moto. Não qualquer moto, aquelas grandonas, chiques. Já tinha visto centenas de fotos dele, e em nenhuma ele vestia preto. Aí foi andar de moto e colocou camiseta preta, caveira, nada a ver com ele. Todo aquele discurso inovador e colocou um uniforme.

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Deve existir, em algum lugar, um estudo que diga porque a foto preferida da pessoa nunca é aquela que parece com quem ela é na vida real. Sabem do que estou falando, né? As fotos que a pessoa escolhe pra representar a si mesma nas suas redes sociais nunca são como nós, pessoas de fora, as vemos. Se for num “ensaio”, com todos aqueles ângulos e roupas improváveis, aí sim fica irreconhecível.

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Libertária, eu?

coxinha-e-mortadela

Uma vez eu estava com um amigo e uma amiga, numa mesa, e os dois falaram que já haviam feito sexo à três. Outra vez, com duas amigas, que não tem nada a ver com os dois anteriores, falaram que já posaram nuas. São momentos que eu olho para as pessoas e me pergunto se tenho amigos muito arrojados ou eu que sou muito antiga. Pior que eu sei qual a resposta. Passei pela adolescência e faculdade sem que jamais tenham me oferecido droga, nem um reles cigarrinho, nem ao menos soube quem usava ou não. Era tão claramente perda de tempo que ninguém se deu ao trabalho. Se eu nem ao menos bebo – do melhor vinho do porto à mais docinha e suave sangria, pra tudo eu faço careta igual criança, acho horrível. Tudo em mim grita tanto bom comportamento, que pessoas que frequentam igreja sentem uma vontade irresistível de me levar pra elas. Durante muito tempo até aceitei os convites, movida por pura curiosidade antropológica. O cálculo deles é que eu já não bebia, fumava ou saía e já me visto de maneira comportada, então estar fisicamente numa igreja é o de menos. E sabe a loucura que dá depois da separação, a liberdade, as baladas, a idade da loba? Nadinha.

Eu poderia fazer uma lista do meu bom mocismo e comportamento recatado. Caso alguém tivesse vontade de me conhecer através do blog, fecharia a janela na hora e enterraria a ideia pra sempre, convencido de que sou uma mala sem alça – e quem disse que não? O que me surpreende é que alguém como eu se veja alçada à posição de libertária. Que seja a que defenda o descrito como chocante e destruidor da família brasileira. A favorável às vozes que nem deveriam existir. Que nessas alturas da vida tenha que defender coisas que nunca fiz e nem nunca vou fazer porque sei que o meu comportamento não deve pautar o dos outros.  Eu tenho todo perfil pra ser reacionária e não sei se vocês vão entender o que direi agora: estou ressentida de não poder ser. O libertário precisaria de pessoas melhores em suas fileiras. Mas sei que a culpa não é minha – o conservador que migrou para as raias do absurdo.

Drosófilas e pelinhos

mata-mosca

Teve uma época que o meu irmão estudou drosófilas, aquelas mosquinhas que ficam em volta da banana. E ele disse que elas eram tão bonitinhas (!?), que cada uma era diferente da outra: que tinha mais pelo de um lado do que do outro, que os inúmeros olhos formavam padrões diferentes ou uma curva diferente nas asas. Isso me faz pensar que nada nunca é idêntico na natureza, nem mosquinha. Que se a gente vê como uniforme, é por falta de atenção ou pura limitação. Não é sempre diferente com neve, galhos de árvores, nuvens? Então como esperar que a humanidade fosse facilmente explicável, justo a humanidade? Logo nós que temos pelinhos, geometrias e asinhas internas tão complicados. Um mundo interior que não dá pra desenrolar nunca, e o próprio ato de tentar desenrolar vai dando ainda mais linha e gera espirais infinitas. É claro que o número de alternativas necessariamente seria maior do que o número de regras. E digo mais: os quebradores de regras não são eles, apenas eles, os esquisitos e os que têm prazer nisso. Mesmo para quem se propõe a andar sempre na linha, uma hora vai dar errado. O pelinho imprevisto vai tremelicar. Pode ser o racional que se pega baixando um Exu. Pode ser a religiosa pudica que vai parar no banheiro com um estranho. Pode ser funcionário ambicioso que tem piti justamente com o presidente da empresa. O machão que se descobre gay, a mãe que abandona os filhos, o arrivista que casa por interesse, são tantas possibilidades. De assassinato a roubar no troco. As rotas alternativas são tantas e de graus tão variáveis, que é certo que uma vez na vida se pratique algumas delas. A contabilidade de ser boa ou má pessoa é tão complicada que deve ser como “aquele que atingir no máximo 500″ – e a gente nunca sabe direito o que vale cada coisa. Dá pra aceitar o comportamento diferente pensando nas mosquinhas, que é tudo natural e que há uma beleza nisso. Mas se isso soar piegas, penso também numa coisa muito prática: já que todos vamos errar e de certa forma é impossível saber para que lado, é melhor viver num mundo com mais permissões do que proibições. Vai que o seu pelinho é justamente aquele que a sociedade entende que a encarnação do mal e merece morrer.

Alan Harper

Numero Uno Accidente Lawyer

Não sei se é feio ou bonito dizer que gosta da primeira fase (Charlie Sheen) de Two and a Half Men. Não sei se eu deveria me irritar com o assumido machismo da série, que me fazia rolar de rir. Acho que na visão americana, Alan é um encostado, um loser sem justificativa;  a nossa realidade subdesenvolvida o tolera mais. (Nunca vi nada a respeito, é só um palpite, tá?) Aqui pra baixo a vida não é tão fácil e nos parece mais do que explicável que algumas pessoas não tem sorte, e quem é que nunca viu ou viveu a situação de um parente se encostar? Digo mais: quem é que aqui pra baixo não se identifica muito mais com o azarado Alan do que o sujeito que trabalha pouco, ganha muito e por mais que faça tudo errado sempre se dá bem? Forever #teamAlan. Um dia eu comecei a analisar os dois à procura das respostas do porque as coisas eram assim com eles. Sim, sou dessas que leva personagens de séries à sério e crê que seus destinos são coerentes com suas atitudes. Aí eu percebi que eu e Alan pecamos/pecávamos pela mesma atitude: Alan toma decisões baseadas no que lhe parece correto, enquanto Charlie vai em busca do próprio prazer. O episódio se desenrola, as variáveis mudam e Alan continua preso à sua decisão. Na hora do desenrolar, Charlie diz o que lhe é mais adequado ao momento, mesmo que seja mentira, enquanto o ansioso do Alan respeita sua antiga decisão, se prende à necessidade de ser correto e se dá mal. É isso que dá quando a gente quer ser correto demais; de um lado é uma qualidade, de outro uma arrogância, uma fixação. Descobri que Charlie “merece” se dar bem, porque ele está dentro da situação, ele age de maneira adequada por estar dentro do momento e não no que imagina que deve ser. Esta que vos escreve sempre teve a tendência de agir igual ao Alan. O que isso me levou? Papel de vilã, coices por todos os lados, verdades que não precisavam ser pronunciadas, desconforto geral. Be more Charlie.

Curtas com só duas ou três vergonhas

hoje o dia foi bom

Se em algum momento, antes de fazer algo, nem que seja muito rapidamente, a pergunta “e a minha lombar?” passar pela sua mente, você está velho. Alias, só saber onde é a lombar…

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Quando você se pega torcendo pra pessoa quebrar a cara, o namoro não dar certo, o site não funfar, a vida ficar toda esquisita, porque quem sabe assim, só assim, você tenha como se aproximar.

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Fui num evento cheio de veganos, todos jovens, de cabelo colorido e roupas pretas. Eu só parei de comer carne, isso não era um movimento. “Quem sabe, se tivesse isso naquela época, eu também teria tido uma turma”. “Ah, não” – me corrigi depois – “certeza que não”. Eu os acharia chatos, que os hábitos alimentares não revelam caráter e muito menos definem comportamentos fora da mesa.

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Sempre fui assim, vou morrer assim, Gabrie-ela!

Duas vivências que determinaram minha concepção de beleza

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Quando começaram a aparecer shorts nas vitrines de Curitiba, eu jurei que aqui essa moda não pegaria. Quem está ou esteve aqui há pelo menos vinte anos entende o que estou dizendo. O verão nunca ultrapassava os 25º C e nem os panos subiam mais do que um palmo acima do joelho. Esse comprimento, em público, já fazia as mulheres receberem tantos e tão insistentes olhares que era quase como sair nua. Com uma cidade tão fria, nos dois sentidos, é muito fácil manter uma moral muito mais pudica em relação a cobrir os corpos. Me parece que aqui, mais do que em outros lugares, se leva muito mais à sério a imposição de esconder todo corpo que não segue o Padrão Ego. Uso uns sunquinis enormes pra nadar; eu diria que a diferença deles pros maiôs é apenas que mostro umbigo. Mesmo assim, sou a Leila Diniz da minha escola – “você é aquela moça que nada de biquini, né?” Esse meu hábito já me fez passar por alguns episódios desagradáveis: passaram “por acaso” a mão em mim algumas vezes, me comeram com os olhos de maneira bastante ostensiva, fui abordada por homem casado. Pela lógica deles, se eu fosse mulher séria não estava mostrando, né? Outra visão é a de que eu mostro porque “estou podendo”. O que há por detrás da minha atitude – e que ninguém entende – são duas vivências determinantes na minha forma de entender o assunto:

Lembrança 1: Estou cercada de pessoas, praticamente todas mais bronzeadas do que eu. Sou um pontinho branco – ou bastante vermelho, no espaço de algumas horas – no meio da multidão. Homens e mulheres passam por mim com poucos panos coloridos cobrindo seus corpos. Algumas estão na areia, pegando ainda mais sol, o que chega a ser aflitivo; outras estão no mar, jogando frescobol, conversando com amigos ou cuidando dos filhos. Algumas dessas mulheres são mulatas incríveis, com corpos tão lindos e tentadores que nos fazem entender a mística em torno delas. Também com panos poucos coloridos, passa por mim a vovó, que tem o corpo todo marcado pelo tempo. Lá vem correndo a menina barrigudinha, seguida pela sua mãe, que tem o corpo diferente da pré-adolescente, que não se parece nada com a quarentona. Tem mulher de seio pequeno que mal segura o top, mulheres de quadris enormes, mulheres com pelos loiros, mulheres, enfim, variados tipos, idades e histórias de corpos. Todas estão curtindo a sua praia. Todas estão de biquíni.

Lembrança 2: Olho para as pessoas – ao cruzarem comigo na ruas, conversando entre si nos ônibus, dando entrevistas na TV, almoçando em restaurantes por quilo, atendendo o telefone no balcão da loja – e tenho vontade de pedir que posem para mim. De tanto passar o dia inteiro esculpindo e estudando a anatomia humana, as pessoas se tornaram modeláveis para mim e tenho a impressão de que todos têm corpos de barro que podem ser mexidos e acrescentados. Como se apenas um gesto no local e profundidade certos fossem capazes de alterar peles e músculos. Só que os corpos que me chamam atenção não são os que comumente se considera belos, ao contrário: o corpo liso e jovem é sem graça, é uma folha sem linhas. Nos corpos de plástica é pior, pois vejo a ação do bisturi, que não respeita proporções, tira demais e uniformiza.  Os corpos que tenho vontade de eternizar são aqueles que me dão histórias num simples olhar. Vejo nobreza em rostos enrugados, mãos fortes que sustentam o mundo, quadris acolhedores, ingenuidade em lábios repuxados pra cima. Não quero o belo de revista, que se esgota na página seguinte – busco o belo do singular, do conteúdo que transborda, do espírito que marcou a matéria.

Por isso que quando fui convidada a escrever sobre a beleza feminina saiu isso.

Curtas de queixas vintage

Essas promoções de hoje em dia, que a gente tem que cadastrar código de barra e guardar a embalagem. Não gosto, preferia mandar as ditas pelo correio. Devia ser um problema se livrar de tudo depois que a promoção acabava, mas aí o problema era deles. O meu problema é que eu cadastro as embalagens e elas ficam por aí, estorvando. Quando vejo, joguei fora. Aí fico com medo de ser sorteada.

 

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Uma coisa que deixou de existir e ainda bem: fã que para demonstrar seu amor escreve carta pro ídolo com 10 metros de papel com a frase “eu te amo”. Aí mostrava a quantidade de caneta que a infeliz usou, etc.

 

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Já fui fã dos grandes gestos de desculpas, não sou mais. Sabe igual a cena do Richard Gere pedindo desculpas para a Julia Roberts na escada, em Uma linda mulher? Não me convence mais. Não porque a pessoa já conta com isso, em fazer uma merda muito grande e depois basta um gesto grandiloquente, uma cena pública. Sou mais ter pensado antes e evitado de me magoar.

 

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Fico doida com esses posts que usam nostalgia dos anos 80 como motivos para alfinetar as gerações mais novas. Naquele tempo andávamos na parte detrás do carro, o mertiolate ardia, a TV não tinha controle remoto e nem por isso morremos, etc. Mas se essa geração que está aí é mole, mimada e não tem a nossa firmeza de caráter, a culpa é de quem? Dos seus pais anos 80. Se achavam que os valores da nossa época eram tão bons assim, não deveriam ter criado os filhos dando tudo, levando de carro pra cima e pra baixo e superprotegendo.

Curtas exemplares

Às vezes as pessoas me pedem conselhos. Fujo da situação, finjo que não é comigo, faço uma brincadeira. Tem os que conseguem ultrapassar todos esses obstáculos pra me colocar contra a parede e me fazer dizer coisas que não quero. Porque sempre, sempre eu me sinto uma farsante dando conselhos. Eu me sinto o cara do Little Miss Sunshine e suas palestras sobre como ter sucesso.

 

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Ela me pergunta sobre minha vida amorosa, e quando lhe respondo que nada aconteceu desde que larguei mão da minha paixão platônica, recebo um olhar preocupado. Durante quanto tempo posso não buscar o sexo oposto sem parecer anormal?

 

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Tenho uma amiga que tem que regular seu comportamento por ser líder de grupo religioso. Sou uma das pessoas de comportamento mais caretas que conheço e me arrepio diante de uma possibilidade dessas. Não me vejo como exemplo a ser seguido. Minha caretice é incurável, profunda, defeito de fábrica, é coisa mi-nha. Por mim, que bebam, comam carne e transem se isso os faz felizes. Se tem uma coisa que me é muito cara é o meu direito de mudar de ideia.

 

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Das coisas que tive vontade de dizer e não disse essa semana:
– Quantos anos você tem, treze? (quase quarenta, no caso)
– Se fosse na tua casa você também agiria assim?
– Literalmente significa ao pé da letra, logo, não é você “literalmente” nesse vídeo.
– Mostra minha mensagem anterior pra Fulana que ela vai te explicar.

E, principalmente:

I see psychiatric people

Na época que eu fazia estágio numa clínica psiquiátrica, começava a ver pacientes psiquiátricos por toda parte. Alguns pacientes não ficavam internados ou tinham alta, e eu os via por aí, nas ruas, nos restaurantes, nas filas. Na clínica, eles costumavam nos alertar sobre pacientes que tendências pedófilas ou sexualmente violentas. Lembro de um desses pacientes caminhando calmamente pelo centro e me deu uma certa vontade de avisar, um medo. Esse anonimato, na realidade, é algo positivo para eles. Não vivemos mais a época de estigmatizar na pele ou nas roupas um erro cometido no passado. Mas não eram apenas esses pacientes que eu via, eu enxergava nas pessoas comuns trejeitos e histórias que me lembravam muito alguns pacientes, e me perguntava se elas eram psiquiátricas também.

Continuo vendo comportamentos psiquiátricos all the time and everywhere. Pra mim, o que os caracteriza é a desproporção. Alguém briga comigo e fico enfurecida durante alguns dias. Xingo, penso em vingança, quem sabe até faça alguma coisa. Aí a vida coloca outras coisas no caminho e acabo esquecendo. Ou alguém sorri pra mim e parece estar interessado. Concluo que se sentiu atraído, que quer me conhecer e quem sabe num futuro dê em alguma coisa. Esses são os comportamentos proporcionais. Os que me chamam atenção e me fazem ver psychiatric people são os que demonstram um apego exagerado às próprias fantasias, que levam a reações igualmente exageradas às frustrações: ser colocado numa lista negra, por meses ou anos a fio, depois de ter contrariado alguém; fantasiar que o outro vai largar emprego, cônjuge e filhos pra se casar com você e ir viver em Acapulco depois de um sorriso. E por aí vai.

Pense bem, você conhece psychiatric people.

Galinhas

Nunca mais olharei as galinhas da mesma forma. Nunca.

Em 1922, o ano em que Mussolini ascendeu a primeiro-ministro, Schjedelrup-Ebbe mostrou como as galinhas, mesmo famintas, permitiam ao seu líder (a galinha “alfa”) comer primeiro e não ousavam interferir até que ela houvesse acabado; se o líder fosse removido, nem assim as galinhas comiam logo, preferindo esperar até que a “beta” enchesse o papo, e assim por diante, em escala descendente. A ordem das bicadas das galinhas mostrou-se tão rígida quanto num exército, a tal extremo que, quando afastada por algumas semanas e depois devolvidas ao grupo original, cada uma retornava de imediato à velha hierarquia. Como recompensa, o rebanho vivia em paz, não brigava por comida e produzia mais ovos. O preço era o da injustiça. As que estavam no fundo da hierarquia não somente tinham menos pra comer, mas também prole menos numerosa, sofriam de estresse, deterioravam-se fisicamente e, em momentos de perigo – quando a comida escasseava, quando a população ficava muito densa – transformavam-se em bodes expiatórios e eram atacadas sem misericórdia.

Theodore Zeldin
Uma história íntima da humanidade p. 128-129

Pensamento 1: Estar por baixo é sempre ruim, mesmo pra quem é galinha.

Pensamento 2: Será que todo mundo que tem galinha percebe essas coisas, e o Fulanorup só fez colocar no papel?

Pensamento 3: Todo bicho, de perto, deve ter suas idiossincrasias. Diz o Ricardo que até os peixes reconhecem a mão que os alimenta.

Pé na Jaca Life Style

Devo ser bastante tolerante, porque as pessoas me fazem confidências sem que eu procure por isso. E me contam experiências que eu nunca estive perto de fazer. Já disse que se um dia fosse fazer uma tatuagem, um ponto de interrogação me definiria bem. Não ouso considerar quase nada certo ou errado por si só. Mas de todas as experiências que eu sou capaz de ouvir e entender, uma delas não é cultivar o Pé na Jaca Life Style: chafurdar e achar o máximo, fazer continuamente coisas prejudiciais e ainda se achar muito arrojado por isso. Eu não vejo quebrar a cara espontaneamente como sinônimo de liberdade ou de aproveitar a vida ao máximo. Na adolescência essas coisas podem se confundir, mas mesmo assim… Não tem nada de interessante passar a maior parte do tempo louco, ou se recuperando das loucuras – seja fisicamente, financeiramente, emocionalmente. Fazer coisas que claramente só ficam boas quando contadas, como se a pessoa vivesse em função de criar histórias para entreter os outros. Ressacas não são divertidas, perder o emprego não é divertido, acordar ao lado de um estranho e ficar na dúvida se usou camisinha não é divertido. Como se não bastasse tudo isso, quando tais coisas são feitas por mulheres, fica parecendo uma bandeira – se você não bate palmas é porque é machista. Em minha defesa: considero dormir com qualquer coisa sem o menor critério, só porque tem pica ou buraco, deplorável em ambos os sexos. Não gosto de dar ouvidos a essas coisas porque me chateio. Fico preocupada e com raiva de quem faz. Ouvir é meio se tornar cúmplice e não gosto da idéia de assinar embaixo de um Pé na Jaca Life Style.

As dores II

Justiça seja feita: é muito mais fácil conviver com quem não assume suas dores do que com quem vive em função delas. Como os traumatizados profissionais. São aquelas pessoas que vivem o(s) trauma(s) de sua vida como se tudo tivesse acontecido ontem, mesmo que o acontecimento seja de 50 anos atrás. Quando um desses, meio à queima roupa, te conta o que lhe aconteceu, você se sente surpreso e até mesmo lisongeado pela confiança. Dá a ele seu tempo, solidariedade e atenção. Fala um pouco de si para mostrar que lições você aprendeu e que podem ser úteis. Quanto mais atenção você der, mais raiva e sensação de ter sido enganado você tem depois. Com o tempo você descobre que aquela dor não é segredo e sim um cartão de visitas. Repetindo sempre a mesma história, as queixas são usadas para justificar qualquer besteira, em qualquer área da vida. O traumatizado profissional não precisa de conselho porque ele nunca quis mudar. Ser traumatizado é seu modo de viver.

O problema para essas pessoas (e alívio para as que as cercam) é que qualquer história – por mais dramática e dolorosa que seja – some de nossas mentes assim que dobramos a esquina. Os problemas alheios têm um poder muito pequeno de mobilização. A vida tem uma característica que é sua benção e maldição: as experiências são incompartilháveis. Ninguém jamais saberá o que vivemos, ninguém sentirá na pele o que nós passamos. Toda descrição será apenas uma idéia aproximada. Não é possível comparar as dores, nem ao menos quando elas são parecidas. Cada um tem sua própria história – única, irrepetível. E quem não consegue fazer da própria vida uma experiência interessante a perde sozinho.

Curitiba 30 graus

(Eu) Agora o bom é que está quente de verdade. Eu vivia passando vergonha na faculdade porque saía com uma roupa toda fresquinha de manhã, crente que ia esfriar, aí o tempo fechava e eu era a única de bermuda na rua.
(Colega) Isso nunca aconteceu comigo. Eu não corro esse risco, eu sempre vou pra aula de calça jeans.

Esse diálogo, na minha opinião, reflete exatamente o comportamento das curitibanas nesses dias de calor. Elas não correm riscos desnecessários (como eu). São mulheres impressionantes; sua força de vontade, pudor e elegância são capazes de superar quaisquer obstáculos, o que dirá de um calorzinho de 30 graus. Ao contrário dos outros anos, em que bastava esquentar um pouco pra chover todo fim de tarde e esfriar, desta vez o sol tem se mantido firme e o céu sem nuvens. Está fazendo um calor nordestino por aqui, juro.

Eu ando toda despudorada pelas ruas de Curitiba – de saia jeans e alcinha. Achou pouco despudorado? Pense que numa sala de aula abafada com mais de 30 pessoas eu era a única nesses trajes. Com esse calor, a maioria das mulheres está de jeans. Camisetas. Botas. Sobreposições. O recorde da foi sexta-feira passada, um dos dias mais quentes do ano. Era meio dia, e eu estava dentro de um ônibus lotado. Devo ressaltar que as janelas dos ônibus aqui abrem pouquíssimo, eles não foram feitos para o calor. E nesse mesmo dia e ônibus eu vi, com esses olhos que a terra há de comer, uma adolescente de calça jeans e jaqueta sintética de manga comprida!

E depois eu estranho que ainda me digam- você não é daqui, né?