Planetas maléficos e gente malvada

sun malefic

A astrologia ocidental, talvez contaminada pelo politicamente correto, tem abandonado os termos como “maléfico”, “detrimento”, “exílio”, “queda” para falar das posições dos planetas porque as pessoas ficam aborrecidas e nem sempre entendem o que quer dizer. A “queda” do Sol é em libra, ou seja, de todos os nascidos mais ou menos entre 21 de setembro a 21 de outubro; Júpiter está em “detrimento” em gêmeos, ou seja, ruim? Nos termos abandonados, Júpiter é o “grande benéfico” e Vênus “pequeno benéfico”, enquanto Saturno é o “grande maléfico” e Marte o “pequeno maléfico”. Para a astrologia védica, saber o que é maléfico ou benéfico é essencial. Já vi a metáfora que é ter amigos x inimigos, e que eles sejam poderosos x sem poder. A melhor combinação é amigo poderoso; se for para ser seu inimigo, melhor que seja sem poder; amigos sem poder até torcem por você, mas poucos podem ajudar; inimigos poderosos te fazem pensar duas vezes antes de sair de casa. Na astrologia védica: Mercúrio é neutro; Júpiter, Vênus e Lua benéficos; Saturno, Marte e Sol maléficos. Os planetas exteriores – Urano, Netuno e Plutão – não são levados em conta. Os benéficos são assim chamados porque te trazem coisas boas, de qualquer maneira e em qualquer posição; os maléficos também podem trazer bons resultados, mas mesmo quando estão “do seu lado”, os bons resultados só virão através de mérito, de esforço. Enquanto Júpiter é o queridinho de todos que expande tudo, às vezes a pessoa se torna otimista demais e não recebe tanto quanto imaginou; já o que vem de Saturno é garantido, seguro, gravado na pedra – o problema é que ele sempre demora pra entregar, é preciso trabalhar muito duro. E se a pessoa faltar com a ética, leva tapão.

Eu estava pensando nessa história de ter méritos para receber coisas boas. A primeira coisa que pensei é que ninguém se garante – se não pelo que fazemos agora, sabe-se-lá o que nossos ancestrais fizeram ou o que fizermos numa outra existência. A experiência nos mostra que ninguém sai da vida incólume. Lembrei dos vídeos e mensagens que eu tanta gente compartilhamos, todos os dias, com “lições”, com “pensamentos críticos”, querendo que as pessoas “acordem”. Num deles, que eu postei há poucos dias, um vídeo fala que as elites brasileiras não gostam de pobre e querem a manutenção da nossa imensa desigualdade social. Quando você usa o termo “elite”, que fala deles, é bem fácil; o difícil é ler e pensar “sou eu, elite brasileira, que não tenho feito nada para diminuir a pobreza”. Porque ninguém se vê assim, cada um se vê como uma pessoa que está tentando ser feliz, ficar bonito, formar uma família, ter uma carreira e ganhar um bom salário. Eu sei que as pessoas que eu penso quando posto um vídeo como aquele não se vêem assim.

O problema da tal falta de méritos, a mesma que não nos garante e nos faz levar pauladas da vida, é que nós não somos apenas o que fazemos e no que pensamos – o que não fazemos, não pensamos e não nos importamos talvez valha muito mais. O que não passa pela sua cabeça, as coisas para a qual você é cego porque não dá importância, o que você perpetua por ser cômodo e deixa as consequências pra lá – tudo isso também é maldade. Somos maus porque somos egoístas e somos egoístas por causa da nossa natureza. Somos egoístas porque temos um cérebro limitado, uma câmera interna que acompanha o nosso pequeno dia a dia e o de mais ninguém. Geramos consequências imprevistas o tempo todo. Por isso a vidinha simples de “quero apenas ser feliz e que os meus sejam felizes comigo” acaba sendo insuficiente. Levamos pancada e maléficos, e mesmo assim mal e mal olhamos pra fora do umbigo.

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Nada será como antes

Old and Broken 1970s Television Set

Amiga conheceu um homem no Tinder. Tudo indo melhor do que a média dos outros encontros. Logo de início, ela se definiu como de esquerda e ele falou vagamente que se desentendia com uma ex de esquerda. Quatro meses depois, quando estão realmente ficando firmes, ele revela que é eleitor Daquele. Amiga fica confusa e decepcionada: se ele sabia desde o começo que ela achava aquilo imperdoável, por que escondeu? O que isso revela sobre os valores dele? Outra amiga. Gay e que detesta política. A postura dela até enchia um pouco, “se está bom pra mim, o resto que se dane”. Ela se recusava a levantar qualquer bandeira, até mesmo a gay. Agora descobriu que muita gente que a aceitava, a considerava ótima companhia e profissional, não se incomoda nem um pouco em votar em alguém que já declarou que “as minorias devem se render à vontade da maioria, ou deixar de existir”. Ela agora se pergunta até que ponto a aceitam mesmo, se ela só é útil agora mas, se acontecesse alguma coisa, ninguém se importaria o suficiente. Isso para falar apenas das coisas domésticas – teve página rackeada, jornalista intimidado, organizadora de evento que apanhou, mentiras deslavadas. Quem não tretou com a família e não rompeu amizade de anos por causa de política, discutiu em grupos de whats e pelo Facebook, tentou converter estranhos e alternou momentos de esperança com desespero, não viveu o 2018 no Brasil. Olha o ridículo que é todo mundo, sem precisar combinar, inventar apelidos porque apenas escrever o Nome atrai violência. Assim como tem gente que não vai na manifestação #elenão por medo.

Por méritos quase que exclusivos da própria campanha, a vitória que era dada como certa parece que não vai se concretizar. Mas depois de tudo, a vitória #elenão será uma vitória sobre terra devastada. Ainda não sabemos o que fazer com o que vimos das pessoas que nos cercam.

Sem merecer

harari

É difícil demais ver alguém conquistar algo que não conseguimos. Falando sinceramente, nem precisa ser alguém conquistar aquilo que sonhamos; às vezes a gente nem sabe que aquela possibilidade existia, aí a pessoa ao nosso lado alcança e pronto, nos dói muito não ter o que até então ignorávamos. Nos últimos dias os assuntos de bolsas e cotas estão muito presentes, por motivos óbvios. Até que ponto existe dívida histórica, até que ponto alguém deve ser favorecido com dinheiro ou reserva de vaga? Como fazer isso sem colocar no lugar alguém que não merecia, retirar o mérito do esforço, não deixar sem lugar um que também quis muito e lutou para chegar até ali, embora sua luta seja menos visível?

Hoje eu olho para trás e vejo o quanto fui competitiva sem me assumir como competitiva. A competição se manifesta nessa régua que nos faz constantemente medir o dos outros, em comparação com até onde achamos que eles merecem chegar e até quanto nós merecemos. Quero deixar claro aqui que o que direi também me soa bem difícil. Harari, um escritor que lançou seu terceiro livro agora, da série Sapiens, faz algumas previsões no livro Homo deus, que nada mais são do que conclusões lógicas baseadas no que estamos vivendo hoje. Ele diz que as massas, de uma maneira ou outra, eram úteis para gerar capital, mas que no futuro o nosso desenvolvimento técnico vai superar isso. No lugar de muitas formiguinhas, um técnico e muitas máquinas. Então, milhares de pessoas vão deixar de ter função econômica. Teremos uma riqueza gigantesca concentrada numa minoria totalmente independente de outras milhares de pessoas. O que fazer com isso, como não deixar essas pessoas inúteis à míngua? A conclusão lógica, se você tem uma visão um pouco mais humanitária, é que essas pessoas devem receber o suficiente para existir, mesmo inúteis. Ou seja, um futuro mais justo para a humanidade passa pela capacidade de superar esse sentimento tão difícil e doloroso que é ver o outro receber sem ter feito por merecer.

Curtas com pitadas feministas

elenão

Independente do resultado das urnas, depois destas eleições, candidato nenhum vai ousar ser machista. Um assessor vai impedir que publiquem, ele será falso e dirá frases decoradas, o que seja. O que vimos foi um desrespeito total e absoluto, tão grande e evidente, tão certo de que não teria consequências.

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Eu estava no ônibus, sentada, e quando ele chegou no terminal, uma moça que ficou do meu lado falou em voz alta para um rapaz, algo sobre que nunca acontecesse com a mãe ou irmã dele. Ele começou a chama-la de feia, dizendo ela que queria aparecer. Outra mulher levantou a voz, e disse que depois de tudo o que a moça havia passado o sujeito ainda fazia isso, que o marido dela o encheria de porrada se estivesse ali. O sujeito vestiu o capuz e se calou, sentindo o meu olhar e do ônibus inteiro contra ele. Uma cena dessas seria impensável antes.

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Comprei com amigas a camiseta “Lute como uma garota”. Como não foi só comigo, posso dizer: é uma experiência andar com ela. Uns aprovam, outros parecem lançar um olhar quero-ver-se-é-lésbica-abortista. Não sei se a associam com a Manuela D´Ávila ou sabem que faz parte de algo maior. Por outro lado, também dá muito orgulho sair com ela.

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Tô lendo a biografia do Churchill, culto, herói, divertido, aquilo tudo que sabemos. É um livro meio arrastado pela quantidade de detalhes. Não sei se ele muda de ideia depois, mas nas cartas que ele escreveu na juventude, ele é terminantemente contra o voto feminino, porque “elas podem dominar o mundo”. Deveríamos mesmo, viu.

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Apesar de tudo o que eu li e de tudo o que eu já sabia, foi uma experiência muito marcante pra mim ver o filme sobre as Sufragistas. Tem na Netflix. A gente não tem dimensão. O que Churchill, esse filme, o candidato e o movimento #elenão me confirmam é que quem não chora não mama. Não dá pra pedir gentilmente, esperar que se toquem e abram mão da sua posição confortável por nós. Nós, mulheres, aquelas que poderiam dominar o mundo e ainda estão caminhando para se enxergar como coletivo.

Limpinho e correto

constelações

Eu falei dos ashwinis no último post porque tem a conclusão bacana da parte do meu irmão; se a minha intenção fosse apresentar a astrologia védica, aquele seria minha última escolha. Porque o que eu acho muito legal da história dos nakshatras é justamente eles não serem limpinhos e equilibrados como na astrologia ocidental. Mesmo sem perceber, aplicamos a ela aquela lógica de final feliz de filmes americanos, onde cada ponta solta gera uma resposta. Acho que Ashwini é o que tem a melhor descrição de todos, melhor no sentido de positiva. Mitologia indiana é muito antiga e muito pra lá de politicamente incorreto. Eles não têm a preocupação de dizer que todo signo é igualmente bom e ruim – alguns nakshatras tem descrições tão negativas que você decide que nunca gostaria de cruzar com uma pessoa dessas na sua frente, ou, caso você o tenha, que nunca vai poder dizer pra um indiano que aquele nakshatra aparece no seu mapa, sob o risco dele lhe virar a cara. Na história do Krittika, as coitadas das Plêiades foram expulsas por um adultério que não cometeram e ninguém se deu ao trabalho de desmentir. Tem nakshatra que fala que a vida vai ser muito difícil, de puxa-sacos manipuladores, de bem-sucedidos incapazes de ternura, que predispõe a incesto. Assim como há, quando se vai pensar em mapas para casais, três tipos de pessoas: as que beneficiam e fazem bem a quem quer que esteja do seu lado, as que tem uma troca regular e, por fim, aqueles que se aproveitam e prejudicam o parceiro.

O pressuposto básico da astrologia que uma pessoa é seu local e horário de nascimento, é altamente contestável – mas sabemos que os indianos têm razão, o mundo e as pessoas são mais do que defeitos e qualidades igualmente distribuídos numa balança. Os melhores astrólogos que tenho visto falam a mesma coisa, que a graça não é querer fazer previsões e dizer que é assim ou assado e sim aprender com essas metáforas, entender o que os nossos ancestrais tentaram nos falar, o que temos em comum com pessoas que viveram em outras épocas e também amavam, sofriam e pensavam sobre a vida. Existe algo de atraente nos nakshatras, nos Irmãos Grimm, nas Fábulas Italianas do Calvino; é mais humano do que um autor qualquer possa criar, elas transmitem muito mais do que a nossa mente cheia de tabus é capaz de reproduzir. Tenho me refugiado nos nakshatras porque encontro neles verdade, variedade e tempero, enquanto o mundo lá fora busca a pasteurização, odeia a variedade, nega o diferente.

Algumas recomendações

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Eu já ouvi falar que não se é mais jovem quando a gente olha pra um velho ciente de que vai ficar também. Antes disso, o que existe é um sentimento de juventude eterna e inabalável; lembro que eu dizia que acreditava na ciência, que até eu chegar à idade de decidir se faria reposição hormonal ou não, ela já não seria mais necessária. Talvez por já ter passado – ou alcançado – metade da régua da minha vida, hoje gosto da biografia olhada de trás para frente. Gosto de pensar em legado, no que fizemos com o que tínhamos. Como a Teoria do Fruto do Carvalho (o nome do livro é O código do ser), que diz que nossas experiências atendem a um anseio pré-existente, e não que somos moldados por ela. Ou, de uma maneira bem mais dura, quando Günter Grass, na sua autobiografia, se envergonha de ter sido da SS porque, quando jovem, aquilo representava apenas uma imagem de heroísmo e força; ele fez o que lhe pareceu conveniente sem pensar no peso que sua atitude geraria na consciência dele mesmo mais velho. A série Merlí (Netflix) também me fez pensar nessas questões, mas não avançarei nisso pra não dar spoiler – eu tenho uma teoria a respeito do fim dela, quem ouviu achou interessante. Tem o discurso de George Saunders sobre gentileza, que mandei pra tanta gente por ter me tocado de maneira praticamente religiosa.

O que me fez pensar em tudo isso foram as prateleiras vazias, porque as pessoas correram para comprar comida. Também cresci ouvindo falar que há muito não vivemos uma guerra, que ela molda o caráter. Deve ser verdade. É como a pessoa que, durante uma conversa sobre o efeito estufa, disse que se garantiu porque tem ar condicionado em todos os cômodos da casa. Lamento informar, mas ninguém conseguirá ser uma ilha fresquinha e bem alimentada em meio ao caos.

Pulsões e as mães

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Não sei se foram em filmes ou desenhos, mas cresci sabendo que a premissa de qualquer Alcoólicos Anônimos – formato que se estende para qualquer grupo de auxilio para sair de vícios – é o reconhecimento. Nada pode ser feito enquanto o sujeito não assume que tem um problema ou que aquilo é um problema pra ele. Eu me peguei citando a psicanálise para uma amiga, teoria que cresci detestando por causa do machismo, mas que me parece a melhor forma de dizer: nem tudo o que consideramos felicidade é felicidade para o outro. Ou: pra ele a felicidade pode ser justamente aquilo que nos parece bárbaro e destrutivo. Freud chamou isso de pulsão de morte. Existe a de morte e a de vida, e achamos que o mais saudável é caminha em direção à vida. Mas nem todos acham. E se a pessoa acha que o bacana é caminhar até a auto-destruição, se essa é a pulsão dela, quase nada pode ser feito. A não ser que ela diga pra si mesma que isso é um problema e ela deve mudar, nos sentimos atrapalhando, como a pessoa que se coloca no caminho do apaixonado e seu objeto de desejo.

(Droga é mais complicado do que isso, entra a questão de dependência química, mas são apenas  reflexões, ok?)

O problema é que nenhum homem é uma ilha, não? De um lado, há o direito de buscar a felicidade na infelicidade, de outro existe o fato de que somos todos parte de um tecido, que nada nos afeta isoladamente. Afeta o emprego, afeta os vizinhos, afeta o cônjuge, afeta os filhos. E mesmo que a pessoa corte todos esses laços, ela é filha de alguém. Sempre que vejo defenderem que alguém merece mesmo morrer porque é bandido ou que só pessoas ruins foram torturadas naquele período histórico recente, penso nas mães que percorrem IMLs, passam por exames íntimos em presídios, exibem fotos dos filhos a estranhos enquanto contam suas histórias. “Eles” podem até ter feito por merecer à medida que danificaram ou professaram crenças erradas (!?), mas as suas mães não.

Drosófilas e pelinhos

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Teve uma época que o meu irmão estudou drosófilas, aquelas mosquinhas que ficam em volta da banana. E ele disse que elas eram tão bonitinhas (!?), que cada uma era diferente da outra: que tinha mais pelo de um lado do que do outro, que os inúmeros olhos formavam padrões diferentes ou uma curva diferente nas asas. Isso me faz pensar que nada nunca é idêntico na natureza, nem mosquinha. Que se a gente vê como uniforme, é por falta de atenção ou pura limitação. Não é sempre diferente com neve, galhos de árvores, nuvens? Então como esperar que a humanidade fosse facilmente explicável, justo a humanidade? Logo nós que temos pelinhos, geometrias e asinhas internas tão complicados. Um mundo interior que não dá pra desenrolar nunca, e o próprio ato de tentar desenrolar vai dando ainda mais linha e gera espirais infinitas. É claro que o número de alternativas necessariamente seria maior do que o número de regras. E digo mais: os quebradores de regras não são eles, apenas eles, os esquisitos e os que têm prazer nisso. Mesmo para quem se propõe a andar sempre na linha, uma hora vai dar errado. O pelinho imprevisto vai tremelicar. Pode ser o racional que se pega baixando um Exu. Pode ser a religiosa pudica que vai parar no banheiro com um estranho. Pode ser funcionário ambicioso que tem piti justamente com o presidente da empresa. O machão que se descobre gay, a mãe que abandona os filhos, o arrivista que casa por interesse, são tantas possibilidades. De assassinato a roubar no troco. As rotas alternativas são tantas e de graus tão variáveis, que é certo que uma vez na vida se pratique algumas delas. A contabilidade de ser boa ou má pessoa é tão complicada que deve ser como “aquele que atingir no máximo 500″ – e a gente nunca sabe direito o que vale cada coisa. Dá pra aceitar o comportamento diferente pensando nas mosquinhas, que é tudo natural e que há uma beleza nisso. Mas se isso soar piegas, penso também numa coisa muito prática: já que todos vamos errar e de certa forma é impossível saber para que lado, é melhor viver num mundo com mais permissões do que proibições. Vai que o seu pelinho é justamente aquele que a sociedade entende que a encarnação do mal e merece morrer.

A segunda fileira

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Vi um documentário longo e interessante sobre a escritora Fran Lebowitz, e nele ela diz que quase todos seus amigos, ícones dos seus campos artísticos, morreram de AIDS, porque eram gays e transavam muito, e que a morte deles fez com que a segunda e a terceira fileira, pessoas que não tinham tanto talento assim, acabassem se tornando os expoentes das suas áreas. Estou no fim do Handmaid´s Tale, da qual escrevi um texto quando terminei o livro. Eu diria que a principal diferença entre a protagonista da versão filmada está na força. A da série tenta fugir, enfrenta olhares, se dá ao luxo de ser espirituosa nas suas colocações. No livro, ela chega a dizer: me envergonho de contar a história assim, de ser tão passiva. E  a autora, numa entrevista, justifica: os movimentos autoritários matam os manifestantes. Ou seja, os mais indignados e combativos, os melhores de nós, morrem primeiro. Se não morrem fisicamente, são calados, demitidos, deportados, silenciados. Será que estamos condenados, como sociedade, a ser encabeçados – quando muito – sempre pela segunda fileira?

A amiga mediana

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Eu sinto falta dela, e talvez não seja de forma elogiosa. Lembro que vi uma  vez uma matéria de uma menina que era consultora oficial de uma grande empresa de brinquedos. O Walt Disney da tal empresa a descobriu por acaso, uma filha da vizinha, e era tiro e queda, que tudo o que ela gostava virava sucesso de vendas e se ela não se entusiasmava o brinquedo não vendia. Essa tal amiga, de quem eu sinto falta, era como essa menina pra mim. Se eu queria saber a opinião do senso comum, a opinião das ruas, o que a maior parte das pessoas julga sobre uma situação, até mesmo se as pessoas consideravam tal assunto relevante, era só perguntar pra ela. Um dos casos impressionantes foi quando ela me disse que viu um prêmio importante, com as pessoas muito chiques, e a Marisa Monte disse que estava usando roupa de brechó – não brechó chique, brecho dérreau. Eu achei aquilo muito legal e ela ficou mortalmente ofendida, nunca mais gostou da Marisa Monte, porque achou um desrespeito com as pessoas que haviam gastado bastante. Eu jamais teria chegado àquela conclusão sozinha. Com ela eu estava sempre a par do que se pensavam das celebridades e do quanto elas são “importantes”, dos sonhos de consumo nas novelas, do peso de certos símbolos de status presentes em e festas, do que se deve ou não fazer nas horas livres. Eu a ouvia com interesse e contava em casa o novo mundo que ela me apresentava, porque ela também me fez ver o quanto eu era esquisita e fora da média. Nunca consegui substituí-la, nunca mais consegui alguém que encarnasse o comum em todos os gestos e opiniões; tenho que ficar imaginando, tenho aqui e ali pessoas que me mostram o que pensam grupos específicos. Acho que a primeira pergunta que eu lhe faria se a reencontrasse é o que ela pensa sobre o Bolsonaro.

Tudo normal

Há décadas, quando eu estudei isso, o Duplo Vínculo estava ligado à antipsiquiatria. Claro, ninguém aqui quer negar que haja um componente biológico, mas a antipsiquiatria tinha no seu âmago uma crítica à psiquiatria tentava ampliar a forma de ver a loucura. Essa teoria nos informa que não se fica louco do nada, que há uma história, que o meio tem seu papel. Nas relações familiares mais próximas de um doente psiquiátrico seria fácil encontrar relações doentias – chamadas de duplo vínculo – onde uma pessoa com grande autoridade sobre o sujeito lhe dá informações conflitantes que destroem seu senso de eu. É o “eu te amo” dito numa realidade cheia de ódio, o discurso da confiança em meio à agressões. Isso é repetido tantas vezes, por um outro tão maior e convicto, que o “louco” fica confuso e paralisado. Ele não consegue responder porque não há resposta coerente possível frente ao incoerente.

Estudei duplo vínculo como antipsiquiatria, mas hoje ele me parece tão mais amplo. Penso que existe em toda relação abusiva. Inclusive, hoje em particular, me parece que é possível fazer duplo vínculo com um país inteiro. Um absurdo maior do que o outro e nossos meios de comunicação e governo insistem que:

não há nada acontecendo

Embrace

Uma das coisas que me afastou da psicologia foi quando percebi que há uma personalização de problemas que são coletivos. Se a mulher vai para o consultório com problemas de auto-estima porque se acha gorda, e quase todas as mulheres do mundo estão se achando gordas, fazendo plásticas e dietas porque se acham gordas, tanto as que fazem parte das estatísticas crescentes de obesidade quanto as que estão abaixo do peso, temos aqui um problema que não é apenas da mulher que vai no consultório. É um problema de todas nós. Ao mesmo tempo, a psicologia existe porque existe um problema que, para a pessoa, pouco importa se é pessoal ou coletivo: é algo que a impede de ter qualidade de vida e ela quer mudar.

Esse é um buraco tão profundo, um caminho tão difícil a ser seguido. Conheço gente que usa PP e acha gordura em si mesma, que diz que gostaria de serrar parte do quadril; também conheço quem quase não consiga comprar roupas e se sinta julgada o tempo todo por causa do peso. E existe sofrimento em ambas. Então eu quero, de coração, indicar este documentário (Netflix) pra ser uma pedrinha em meio a tantas mensagens que nos levam à insatisfação todos os dias. Que ele te emocione e te faça refletir também.

O bom de chopp

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Estávamos quase reprovando em massa em Estatística quando o professor oficial da cadeira voltou dos EUA, com a promessa de uma forma arrojada e fresquinha de pensar. Ele era alto, loiro, agitado e provavelmente bonitão (naquela idade eu apenas o classifiquei de velho), a própria encarnação do winner. O curso em questão era de psicologia e, pelo menos naquela época, ninguém ali era muito de esquerda. Ele realmente conseguiu o milagre de salvar a turma, jamais esquecerei que pulei de uma nota 0,25 (eu colei) para 10, o que me permitiu fazer prova final e passar. Um dia, numa de suas muitas ilustrações, ele falou do novo profissional que estava surgindo. Ele disse que antigamente toda empresa tinha “o bom de chopp”, que era o cara que não trabalhava tanto assim, mas ele era amigo da galera, contava boas piadas, deixava o ambiente mais ameno. Por isso se fazia vista grossa pro rendimento menor e ele ia ficando. Agora não, não haveria mais espaço para isso, cada um tinha que ser muito competente e focado. Sem lenga lenga, trabalho duro. Várias cabecinhas balançaram em sinal afirmativo, cada qual se sentindo muito merecedora de passar nesse funil. Eu fiquei incomodada – tanto que lembro da história – e levei muito tempo para entender o porquê.

Hoje em dia se considera um avanço a maneira como temos medicamentos para pacientes psiquiátricos, porque com isso é possível estabilizar o humor deles e torná-los produtivos. Só que numa perspectiva mais crítica e ampla, vemos que outras épocas e sociedades tinham uma capacidade muito maior de absorver essas pessoais tais como são. Onde vemos gente esquisita que não produz, poderíamos ver místicos, visionários, artísticas, xamãs, santos, eleitos. Ninguém precisava tentar mudar, eram pessoas com dons especias e um papel onde suas características eram valiosas. Eles estariam apontando pra uma direção que ninguém mais. Estariam não, estão – nós é que falhamos em ver. Sem perceber, colocamos como valor absoluto o indivíduo ser gerador de renda. Se não gera renda, independente do motivo, não merece crédito em nada.

Não é à toa que as classificações psiquiátricas aumentem cada dia mais. Basta alguém gritar no local de trabalho ou destruir um objeto que já é surto e precisa ser internado. Pouco importa a violência que se sofre o tempo inteiro, quem não consegue lidar com isso a portas trancadas é louco. Normal é que leva pancada atrás de pancada com uma capacidade infinita de se conter, porque hoje nem “precisa” mais de um bom clima no trabalho. Ou será que o bom de chopp também era uma forma de trabalho?

Todo mundo não existe

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Aprendi isso em terapia: todo mundo não existe. A não ser que você tenha tido um vídeo íntimo vazado e esteja sofrendo de bullying em cadeia nacional, não existe o “todo mundo” que pensa ou sente algo a teu respeito. Os funcionários da padaria, o pessoal do ponto de ônibus, o motorista do carro ao lado, ou seja, pra maioria da população você nem ao menos existe. Aí você diminui para as poucas pessoas com quem convive, elimina as que não estão envolvidas na situação, coloca também aquelas que te amam e estão do seu lado, corta de um lado e corta de outro e acaba descobrindo que o tal “todo mundo” se reduz a um círculo muito pequeno de pessoas, às vezes nem isso. Pode ser que seja apenas uma pessoa e ela seja tão poderosa que o seu juízo pese mais do que “todo mundo”. Um conselho fácil de dar e às vezes difícil de aplicar: não dê poder a quem te fere.

Cantadas

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Sou muito paciente e bem pouco bélica nas minhas interações. No que depender de barracos virtuais, nunca me tornarei famosa por aqui. Já tentaram puxar briga comigo diversas vezes e vou te dizer que é difícil se manter agressivo quando o outro lado é gentil. Então estava analisando a minha atitude praticamente contrária quando sou cantada. Quando recebo uma cantada, eu me torno o próprio Seu Saraiva. Fico com sangue nozóio. E não estou falando de cantada de rua, que nem merece esse nome, estou falando daquele cara que se aproxima quando você está de saia curta e drink colorido na mão, sentada numa banqueta alta ao lado do bar. (Já me adianto em dizer que não fico nessa posição há anos, justamente porque me conheço.)

ACHO que o problema é o seguinte: boa parte das nossas interações sociais é apenas a repetição de fórmulas vazias. Dizemos bom dia, boa tarde, boa noite, perguntamos como está o neto, dizemos que o cabelo ficou ótimo e nada do que é dito realmente importa. O importante é a intenção subjacente de ser educado e querer demonstrar que reconhecemos o outro como indivíduo. Mas, ao mesmo tempo, se uso só fórmulas, é porque estou num terreno seguro e não vejo quem está por detrás. Meu tipo preferido de gente é aquele que em poucos minutos consegue economizar todas essas palavras vazias e ir direto para a essência. Mas eu reconheço que isso é muito mas uma característica de personalidade do que da interação. Tem quem faça isso em poucos minutos, tem quem possa viver ao teu lado a vida inteira e não enxergar nada.

Eu aceito isso no dia a dia. Uma pessoa chega perto de mim com uma fórmula, finjo que não sei que é uma fórmula e aplico outra. E assim fingimos que nos vemos e nos importamos. Mas daí – agora entra a cantada – um sujeito se aproximar de mim com uma fórmula barata, que ele joga pra cima de todas as fêmeas e com isso achar que eu vou me encantar e deixar ele partilhar da minha intimidade é demais pra mim. É um atentado à minha inteligência.

-A gente vai pra sua casa ou pra minha?

-Os dois. Você vai pra sua casa e eu vou pra minha.

“Mas é um elogio, tem que ficar feliz, desse jeito você nunca vai desencalhar”. Ok.

Chá

Foi assim: depois de comer pastéis na segunda noite seguida durante a semana, fiquei muito enjoada e mal conseguia comer. Então tomava café. Quando dei por mim, estava há quase dois dias à base de café, praticamente uma Balzac. Aí decidi fazer uma nova tentativa – nem sei quantas foram ao longo da vida – de me tornar uma pessoa que toma chá. Apesar da minha triste história com chá. Pra falar a verdade, há anos tomo chá socialmente, se a pessoa me oferece um daqueles bem especiais. Fui no super e comprei uns chás bons, misturados e especiais. Agora, principalmente à noite, quando me bate aquela sede que não deve ser saciada com café, leite já larguei faz tempo e refrigerante não bom, tomo chá. Todo dia rola chá aqui, tá bonito de se ver, estou quase uma inglesa. Só falta eu gostar. Boto fé que conseguirei, pelo menos não faço mais careta.

 

É por essas e outras coisas que vejo que cinquenta anos, cem anos, não são nada em termos de mudanças sociais. Opa, comassim o assunto foi de chá à mudanças sociais? Me explico: cinquenta anos não é nem uma geração, cem anos não chega a duas. O ser humano é um bicho resistente, determinado praticamente todo na infância, emperrado e burro, que leva a vida inteira pra mudar um hábito simples como aprender a gostar de chá. O que dizer de coisas mais graves, que incluem a necessidade de rever conceitos, aceitar as diferenças, fazer justiça aos acontecimentos? Nascendo de novo ou só nascendo novos.