Não mate o mensageiro

 

A gente sabe que as mudanças são necessárias, que elas causam bagunça mas que ela é necessária, que ficamos um tempo sem rumo e que isso é necessário. Mas nada disso faz com que seja um momento ótimo, daqueles que a gente quer evocar quando fecha os olhos. Não posso me queixar do meu 2014 por isso, porque foi um ano necessário. O ano mais difícil da minha vida, o ano que vivi dores que eu desconhecia, eu que achava que já estava bem conhecedora do assunto. Minha vida virou de pernas pro ar e não sobrou quase nada do que eu achava que era essencial pra mim. Mas foi tudo necessário. Me tornei mais humana, passei a ter clareza do que realmente importa, me aproximei de quem merecia e deixei pra lá o que não merece espaço. Foi difícil mas cá estou, viva, e não apenas no sentido biológico. A vantagem de ter ido tão pra baixo, é que 2015 não tem como não ser melhor. Que venha!
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Pessoas Não

Li em algum livro do Osho ele dizer que existem pessoas que são Sim e outras que são Não. Os Sim são os continuadores, os que conservam as tradições. Os Não são os destruidores, os rebeldes. Quando li, me achei incontestavelmente uma pessoa Sim. Eu (na época), a boa filha, boa aluna, boa esposa, boa qualquer coisa que implique em disciplina. Alias, as pessoas me descrevem tanto usando essa palavra – disciplinada – que me pego desenvolvendo complexos relativos a isso. Mas aí é outro tema.
Aí tem uma história num livro do Paulo Coelho, deve ter sido no Diário de um Mago ou no Alquimista, porque não acompanhei muito a carreira dele depois disso, que o personagem quando precisava descobrir alguma coisa usava duas pedras para perguntar, Urim e Tumin. Uma significava Sim e outra Não. Não sei qual era qual. Sei que eu e meu irmão André éramos considerados Urim e Tumin. Pra qualquer questão, fosse quem gosta de doce de leite, ou a opinião sobre o assunto do momento, nós tínhamos visões diferentes, partíamos de pontos de argumentação opostos. Meu irmão, na época, o cara legal que começou uma faculdade, trancou, trabalhou um par em coisas diferentes, fez outra…
Apesar de não fazer nada pra isso, de ser uma pessoa que gosta de acordar cedo, não come carne, não tem tatuagens e todos os sinais exteriores de rebeldia, hoje sei que sou uma pessoa Não. Meu irmão, o oposto a mim, está fazendo seu pós-doc e vai seguir a segura carreira de professor. Eu continuo sem saber para onde vou. Achei que sabia aos vinte, que saberia aos trinta, e agora espero saber aos quarenta. Porque é foda. É legal mas também é foda.
Eu invejava o Farruquito, por ter nascido numa família flamenca e hoje ser um grande bailaor flamenco, representante de uma linhagem. Nasceu no meio daquilo, faz parte dele; e eu, aqui tentando aprender a entrar numa bulería. Mas, quer saber? Certeza que se eu tivesse nascido numa família flamenca, igual a do Farruquito, eu teria virado dentista.

Um dia o Ale me mandou este vídeo. Fiquei muito emocionada quando recebi, é muito eu:

Férias forçadas

O fim de ano sempre foi o pior período para mim. As aulas entram em férias, os amigos viajam e eu ficava em Curitiba sem ter com quem conversar e nem ter o que fazer. O Luiz passava o dia no trabalho e eu contava as horas pra ele voltar.
Imaginem o medo que eu fiquei deste período de agora, sem ter ninguém para voltar. Meu tédio seria ainda mais mortal, minha depressão ainda mais deprimente. Mas não está sendo. A solidão de agora não é tão diferente assim da que eu tenho vivido nos últimos meses. E estar declaradamente sozinha faz com que as oportunidades apareçam, com que os amigos nos convidem e outros caminhos surjam.
Vontade de comentar um caso aqui, de uma amiga que faz questão de sempre sair por cima. Tudo mentira, claro, mas também seria indelicado jogar na cara. Como se não bastasse estar na pior, mentirosa. Então, fingi-se que as mentiras convencem. O que eu gostaria de dizer, se adiantasse é: conta com os amigos que é melhor.

Uma doação de sangue em dezembro

Foi só sair o link com a notícia de que o movimento nos bancos de sangue cai cerca de 30% nessa época, que me arrumei e fui. Doar sangue é um hábito que adquiri desde que meu irmão um dia precisou. Conheço tanta gente que tem problemas com doação, seja por ter pavor de agulhas, por ter tido hepatite ou até mesmo por tentado doar e ter tido uma queda de pressão violenta, desmaiado e gritado enquanto estava inconsciente (!?), que eu acho que a dorzinha que sinto ainda é pouco. Tem que doe dinheiro; eu dôo sangue. Então lá fui eu, bem feliz e contente, aproveitar a minha manhã doando sangue. 

Terça, véspera de véspera de natal, garoa e queda no movimento das doações. Achei que seria sentar e doar, que tudo se resolveria em cinco minutos. Não sou das pessoas mais perseguidas por Murphy, mas eu tenho alguma ligação cósmica com os grandes doadores, que sempre que resolvo aparecer nos bancos de sangue, um ônibus inteiro (e não estou usando figuras de linguagem) resolve aparecer minutos antes de mim. Era o caso. Eu peguei, 10:45 da manhã, a senha 60 e eles ainda estavam fazendo o teste de anemia no número 40. Naquele momento eu me arrependi de não ter zatzat no meu celular.

Passava do meio dia quando eu me sentei na frente da mulher que faz pra gente aquelas perguntas pra saber se o nosso sangue pode ser usado ou não. Eu lembrava dela, então acho que ela lembrava de mim. Normalmente eu não me acho tão marcante, mas a recepcionista mal humorada da entrada disse que lembrava de mim. Eu estivera diante dela no final de agosto, quando fui doar sangue pra conseguir meia entrada pra um espetáculo de flamenco que nem teve. Cheguei lá e avisei que doava lá com certa regularidade, mas que tinha acabado de me separar e mudado de nome. Ela não me deu ouvidos e fez aquela cara de quem não gosta de público que não responde o estritamente o necessário. Depois de digitar o meu número, a mocinha olhou para a tela do computador com cara preocupada, saiu da cadeira e foi correndo buscar a médica (ou seja lá o que ela é) que agora me atendia. Ela apontou para a tela pra mostrar a tal coisa e, naquelas alturas, eu já estava convencida de que estava com AIDS. Imaginei um pop up piscante, dizendo que eu deveria ser detida imediatamente por tentar transmitir sangue contaminado por aí. Não era nada disso, o susto era apenas porque a minha ficha não batia com o meu nome atual. “Foi isso que eu tentei avisar assim que me sentei”. Aí elas mudaram meu registro.

Pois bem. A mulher devia lembrar de mim. Agiu como se não. Ela me fez aquelas perguntas de praxe sobre doenças, cirurgia, malária, piercing, etc. Aí ela me perguntou o número de parceiros sexuais que eu tive nos últimos seis meses. Como ela já havia me feito essa pergunta há quatro meses, eu me senti atualizando meu status sexual. “Sabe, amiga, de lá pra cá…”  A velha aqui almoça cedo e fica mal humorada com fome e já passava muito do meio dia. A temperatura caiu e chovia desgraçadamente, muito mais para o que eu estava preparada. Eu estava cansada, faminta e arrependida de ter decidido doar. Meu verniz social, assim como meu rímel e meu cabelo, já estava num estado lamentável. Foi por pouco, por muito pouco, que eu não olhei pra cara dela e disse:

– Moça, Redtube conta como parceiro sexual?

Não perguntei. Vai que.

Broxada

 

Uma vez um homem me disse que se saísse com uma mulher que ele queria muito, e broxasse logo de primeira, provavelmente nunca mais a procuraria, de vergonha. Eu argumentei que não tinha nada a ver, que ela entenderia, que pra ela seria pior, etc, mas ele não se deixou convencer. Ele concordava com os meus argumentos, mas simplesmente a vergonha seria maior. Só fui entender esse tipo de vergonha há uma semana. E é óbvio que eu não vou contar o que é.

Uma manhã de dezembro

Eu estava na fila do Mercadorama da Praça Tiradentes. Fui conformada, lá sempre tem fila, sempre demora muito, ainda mais meio dia. O caixa rápido tinha duas caixas e quatro pessoas na minha frente. Eu havia andado a manhã inteira pelo Boqueirão, à procura de agulha para minha overlock. Tem esses imprevistos que não dá pra passar por consumidor, não dá pra reclamar. Como esse retalho que eu comprei, que deixa o maiô belíssimo, mas que destrói agulhas de overlock como nenhum outro. Foram quatro com dois maiôs. O normal é não quebrar nada. Aí fui na rua mais cheia de lojas de máquinas de costura da cidade, já prevendo que teria que passar por muitas. Aproveitei pra passar numa farmácia, porque reza a lenda que tudo no Boqueirão custa a metade. Comprei vermífugo, ainda impressionada com o verme que vi no fundo de uma privada no dia anterior. “A gente que tem cachorro” – me alertou a amiga – “devia tomar pelo menos uma vez por ano”. Comprei duas doses, pra matar bichinho e bichinho grávido que solta filhote ainda morto no organismo. Já que ia promover uma matança interna, o farmacêutico me convenceu a comprar vitaminas. Achei caro, mas levei mesmo assim porque devem ser caras pela metade do preço. Ele me disse que aquela vitamina era desenvolvida especialmente para mulheres, e acredito nele: a embalagem e as pílulas são cor de rosa, e está escrito em letras garrafais que “NÃO ENGORDA”. Quem fez aquilo conhece seu público. A mulher com criança na minha frente sai da fila e avançar um pouco me permite aproveitar a oferta de Wake. Tanto melhor. Fico atrás de um homem alto, magro, e um rosto cheio de marcas de espinhas, um biotipo estranhamente familiar. O dia nem havia começado e eu já estava cansada. Aparentemente eu sou uma das duas ou três pessoas na cidade que tem uma Ultralock da Singer. Não é overlock e nem interlock, é ultralock. Nunca descobri o porquê. Quando uso o termo ultralock me olham como se eu fosse louca, de tão desconhecida que a máquina é. Não foi a minha intenção! Sem dizer que a agulha custa mais caro. Depois de muitos nãos, encontrei uma loja que não tinha lá, mas que tinha na filial. Topo andar até a outra, desde que ele me garantisse que não seria em vão. Dez quadras ensolaradas depois… “Moço, você tem agulha para ultralock da singer?” “Temos, quantas você quer?””TODAS.” 

Sou interrompida nos meus pensamentos pelo homem que está na minha frente: “Moça, não precisa ficar segurando a cestinha assim, pode apoiar ela no chão”. É mesmo. Ela estava pesada, com refri dois litros, leite, capuccino, dois Wakes em promoção, queijo ralado. Agradeço o conselho e ele me diz que é assim mesmo, a gente se distrai. Na noite anterior, inclusive, era pra ele ter morrido. Antes de dormir ele havia colocado uma água no fogo e esquecido ela lá. Aí ele foi dormir, passou pela sala, a irmã estava vendo TV. Inclusive ele não era daqui e sim de Feira de Santana (bem que o biotipo me era familiar) e não fazia muito tempo que estava aqui. Já esteve, e voltou, e nesse meio tempo ele havia hospedado o irmão. Irmão que se envolveu com drogas e disse pra todo mundo em Feira que quem usava drogas era ele, veja só. Logo ele – e me mostra a cestinha, que tinha apenas um pacote de arroz integral – que não usava nem as drogas lícitas, que gostava de se alimentar da forma mais natural o possível. E tinha traficante atrás dele, ninguém acreditou nele. Quatorze anos ajudando esse irmão, inclusive tinha trazido ele pra Curitiba, hospedado em casa. Até quando o irmão engravidou uma moça era ele quem pagava a pensão, porque o irmão estava desempregado. Não era muita coisa, só cento e oitenta reais, mas era ele quem pagava, ele que nem tinha nada a ver com isso. Mas bem que a mãe dele também tinha passado por uma situação dessas, de ajudar e depois ser traída. Uma mulher que ela ajudou mais de vinte anos, que abria o armário da cozinha e dizia pra ela levar o que quisesse, e a mulher saiu por aí dizendo que a mãe dele dava resto. Ele deveria ter visto o exemplo da mãe e se prevenido. Porque as pessoas são assim, há de se ter muito cuidado com as pessoas. Tem coisas que só por Deus mesmo, ele é quem olha pela gente. Igual a panela no fogo no dia anterior. De madrugada ele até havia acordado com uma sensação estranha, mas não levantou da cama. De manhã o fogo estava apagado e ainda tinha gás, uma coisa inexplicável. Foi a intervenção divina mesmo, Deus é que olha por nós. Que eu contasse com Deus e não com as pessoas. As pessoas exploram. Foi um prazer conversar. E feliz natal.

Vazios

 

Nenhuma estante, nenhuma gaveta fica vazia durante muito tempo. Espaços nunca ficam vazios. Isso vale pra vida também. Quantas vezes eu me retirei de lugares, tive a saída lamentada, mas ninguém chegou a sair ou mudar de rumo por minha causa. E num instante, por mais legal que eu fosse, surgia outra. Outra pessoa legal, outra aluna aplicada, outra. Se fôssemos falar com as pessoas, quem sabe elas dissessem: “não, ela era a melhor, a mais, totalmente insubstituível”. Mas no dia a dia, eu fui. Somos todos. De onde concluo que se você quer muito uma coisa, não pode arredar o pé.

Velhinha e colheita

Soube de uma história real de uma velhinha, daquelas de cabelo bem branquinho, passos curvados e vestido de chita, que foi mandada ao psiquiatra pelo filho. Ela chegava na consulta e falava sobre os filhos, os netos, a TV, coisas amenas. O tempo passava e o psi não entendia direito o que a velhinha fazia lá, as conversas giravam sempre em torno desses temas, nada muito angustiante. Até que a velhinha faltou uma consulta, depois outra. Aí o filho liga desesperado:

– Minha mãe sumiu!
– O que você acha que pode ter acontecido?
– Ora, doutor, o senhor sabe, deve ser a cachaça.

A velhinha era uma pinguça, ou melhor, uma tremenda alcoólatra e o psi nem desconfiava.

 

Lembro da velhinha porque cansei de ouvir queixas sobre a injustiça do universo. A gente conhece a pessoa, ela expõe a sua situação, nos diz que fez de tudo, que é incompreensível estar tão ferrada daquele jeito. Durante algum tempo ficamos lá, comovidos, pensando no quanto o mundo é injusto. Compramos a causa, tentamos ajudar, aquela coisa toda. Mas um dia, mais cedo ou mais tarde, descobrimos o lado oculto. Às vezes por informações de terceiros, ou porque ela se distrai e nos mostra sua verdadeira face, ou até mesmo porque o veneno se volta contra nós. Aí você descobre o porquê – ah, ela merece sim! Deve ter um ou outro caso por aí de gente que não fez por onde, tão poucos que nem merecem registro. As estatísticas provam: todo mundo colhe o que planta. Você que não conhece todos os lados da história

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Procrastinação e repercussão

Fazer de última hora, ir pra prova sem ter estudado ou gostar sem se dedicar tem uma vantagem que poucos se dão conta: eles permitem que a pessoa tenha ilusões com relação às suas capacidades. Estaria ótimo se eu tivesse realmente me dedicado. Eu tiraria dez em tudo se estudasse. Eu seria o melhor bailaor ser realmente quisesse. Por ser muito ansiosa, não costumo me dar a esse luxo. Eu costumava estar com os meus trabalhos prontos pelo menos uma semana antes do prazo, para qualquer eventualidade. Levo a ferro e fogo quase tudo o que faço, simplesmente porque não consigo fazer sem intensidade. Então eu tenho descoberto que mesmo fazendo tudo direito, nem sempre eu tiro dez, nem sempre eu sou a melhor. Amar o flamenco e dançar atrás me dói por isso, porque a parte da ir as aulas e pegar a coreografia rápido eu faço. Não tenho podido me dedicar ao sapateado por causa da vizinha louca, mas minhas colegas também não o fazem e olha aí. Mas ok. Dói não ser boa mas nunca sonhei em ser uma bailaora profissional. 
A tal novela que citei, que estou há mais de um ano escrevendo, tem me deixado com muito medo. Porque eu tenho feito por ela tudo o que posso. Se levo dias pra corrigir um parágrafo, não posso alegar que qualquer coisa ali passou, não é bem o que eu queria dizer ou é aleatória. Cada vírgula terá a minha mão e será a medida do meu talento. A arte – chamo de arte qualquer tipo de expressão individual – tem o imponderável.  Eu posso fazer a minha parte, posso corrigir os erros e criar as sentenças mais bonitas que conseguir, ser muito sincera no que escrevo. Mas se isso vai tocar e como vai tocar você, que está aí do outro lado, eu não posso controlar. Dançar pra mim é importante; escrever é tudo. E se o que eu estou escrevendo alcançar o mesmo que as palavras deste blog…

Tudo

Eu não ia tocar no assunto pra não criar expectativas, mas estou escrevendo uma ficção. Vocês não fazem ideia do quanto está sendo difícil. Minha autocrítica está mais feliz que porco no lixo. Atentem: venho trabalhando nisso a quase um ano e meio, e a dita cuja não chegará às cinquenta páginas. Eu corto tanto do que escrevo, condenso e diminuo de tal forma, que não sei como é que não terminei com um arquivo em branco. Li uma conferência no Gabriel Garcia Marquéz onde ele diz que escrever é o único ofício que vai ficando cada vez mais difícil à medida que o tempo passa. Mal comecei e já estou assim, vejam a minha situação. Mais um pouco terei que apelar para o haicai.
Pra mim, o que mais se compara ao trabalho do escritor é imaginar que você compra um terreno vazio, desmata, faz a fundação, desenha a planta, empilha os tijolos, levanta as paredes, faz parte elétrica, hidraulica, decoração… ou seja, é como erguer uma casa do nada até os mínimos detalhes. Eu me matando pra fazer um puxadinho, imagina o que é escrever um Guerra e Paz. Não devo mesmo ter vocação pro troço.
Ah, e eu ter contado aqui que estou escrevendo não quer dizer que um dia vocês lerão. É só um desabafo.

Lembrança ruim

Estava andando perto de casa e fui surpreendida com um pensamento triste, muito triste. Desses sobre contrastes do que eu esperava e do que agora é, desses sobre promessas não cumpridas, os meus erros, as falsas esperanças e a culpa. Eu que andava tão feliz, tão imune. Talvez por ter sido um fim de semana intenso. Um segredo, uma angústia coletiva e que finalmente revelada. Mudanças de rumo, de planos e até espaço físico. Esse ano não tem deixado pedra sobre pedra, tudo o que havia de sólido se desmanchou no ar, tudo o que balançava caiu. Sou otimista e tenho visto tudo isso como novos recomeços, como o destino fazendo mover o que não movemos por comodismo. Mas o primeiro momento é sempre de impacto. E minha vida andando, se afastando do que era, ficando cada vez mais adulta. Ser adulto dá muito medo. Evoluções que não necessariamente são ruins, que nem são feitas pensando em mim, mas que de certa forma me afetam, nem que seja apenas simbolicamente. Em algum lugar, por tudo isso, devo ter ficado mais frágil e aquele pensamento me pegou. Ele veio como um monstro escondido na esquina, tal como nos filmes de terror. Eu olhei pra ele e disse “você ainda está aí”, sem surpresa. Porque ele esteve comigo o tempo todo, semanas a fio, tornando os meus dias tão difíceis. Cada hora com um prisma novo para doer diferente, mostrando aspectos que eu nem tinha pensado. Meu inimigo mais constante, mais dedicado, mais íntimo. O inconsciente realmente guarda tudo, os detalhes não têm fim. Aí ele volta depois de tanto tempo e me diz – Você ainda se lembra. Sim, eu me lembro. Acho que me lembrarei para todo sempre

Diego Peretti

Você acha esse cara gato, galã? Nem eu. Nem eu achava, quero dizer.

Tudo bem que eu gosto de narizes grandes, acho que dependendo do rosto e da personalidade pode ficar lindo, mas a napa do Diego Peretti é demais até pros meus padrões. Então só consegui achar que a Vivi tinha mau gosto, quando uma das primeiras coisas que ela fez ao me apresentar aos Simuladores foi falar de Maximo Cosetti.

 

(Estou amando tanto que gostaria de fazer um post no outro blog, analisando as soluções deles. Há uma filosofia por detrás. Não o farei porque sei que mais ninguém está vendo)

 

Aí a gente vai vendo a série, vai rindo cada vez que ele se apresenta como Maximo, e quando se dá conta, está achando ele lindo. Sou louca o suficiente pra ter visto umas entrevistas por aí e descobri que não fui só eu, as argentinas também ficaram doidinhas por ele. Só pela estampa, meu tipo é muito mais Federico D ´elia, e depois Martin Seefeld. Mas Diego…
Quando a gente diz pra uma pessoa travada, daquelas que reclama o tempo todo que ninguém ama e ninguém quer, que ela não é feia, que o que lhe falta é segurança, ela não acredita. “Muito fácil pra você falar isso, porque você não é (segue complexo preferido ou uma lista de defeitos)”. Pois Diego Peretti é a prova de que segurança é tudo. Uma napa dessas e é um galã argentino. Eu pegaria fácil.


Vi essa cena trocentas vezes. Se fosse uma fita, estaria inutilizada agora.

Zapeando

Programas do tipo Master Chef me dão uma fome danada. Mas é uma fome frustrante: fico com vontade de comer camarão ao frufrufru com molho de não-sei-oquê e toque de lululu e só tenho iogurte activia pra me saciar.

Programas de decoração ou mudanças de casa me dão uma certa raiva dos americanos. Depoimentos chorosos do quanto a cozinha ou o banheiro são deprimentes, escuros, mal decorados, pequenos. Aí mostra o dito cujo e é igualzinho, ou até melhor do que os nossos. Casal precisa pra ontem se mudar, porque a casa é minúscula pra família. “A gente tem que pedir licença quando anda pela cozinha” ou “não tem sala de jogos para as crianças” ou “só tem 200m quadrados”. Ah, por favor!

Na oitava temporada do The Big Band Theory, Penny está com um cabelo curtíssimo e fiquei com vontade de cortar igual. O mesmo cabelo que Jennifer Lawrence estava usando. O mesmo corte que fiz no início do ano. Eu não aprendo: sempre adoro cabelo curto em loiras, todos os detalhes aparecem. Em mim, claro, não ficou aquele deslumbre. Estou numa fase que não sei mais o que fica bom em mim em váááários aspectos, o cabelo é um deles. Durante toda minha vida achei que eram os cabelos curtíssimos. Adoraria ter uma consultoria neste momento, tipo Esquadrão da Moda.

Por falar em Esquadrão da Moda: total empatia pelo casos “não sei o que vestir e ficar elegante no meu dia a dia que necessita de roupas práticas” e vontade de não dar roupa nenhuma pros “sou assim, sexymente agressiva e quero que vocês se danem”.

Eu via aquele programa de construir uma casa para os outros, o original que inspirou o Luciano Huck. Era quinta à noite. Eles contavam a história triste de como o fulano ficou sem casa. Lembro bem do caso de uma mulher com seis filhos cujo marido morreu quando quis reformar a casa que compraram e ela estava cheia de fungos. Os fungos o mataram, a casa foi interditada e a família não pode tirar nada de lá de dentro. Pra não parar na rua, foram viver na casa da irmã. Só histórias assim, terríveis. Mostravam a pessoa, a comunidade unida reconstruindo tudo, os detalhes de sonho, a reação… Era tudo tão bacana e bem feito que eu me acabava de chorar. Aí comecei a me sentir meio ridícula de todas às quintas, das 23 às 24h, me acabar de chorar. Parei.

Curtas caseiras

O portão de casa sempre foi meio emperrado. Aí foi ficando cada vez mais emperrado, precisando de jeitinhos, até que nos últimos tempos eu tinha que ficar chutando pra conseguir sair de casa. Parecia que a culpa era da árvore e dale procurar alguém pra cortar a árvore. Só que todas as noites eu olhava para aquela árvore e ficava triste em pensar em não vê-la mais. Plantamos dois ipês na frente assim que nos mudamos e os dois foram destruídos durante a noite. Um mato foi crescendo ao lado da casa de gás e acabou virando a árvore. A árvore que eu ganhei de presente da natureza. Do mesmo modo que eu faria qualquer mudança pra deixar a Dúnia mais confortável, será que eu também não teria obrigações para com a árvore, que também é uma vida? Decidi poupar a árvore e fazer uma gambiarra no portão. Fui falar com o serralheiro, duma serralheria que fica no caminho do passeio da Dúnia. Ele passou aqui, olhou com olhos profissionais e disse que a árvore não tinha culpa, que é natural os portões emperrarem com o tempo e a gravidade. Me fez um orçamento muito mais baixo do que cortar árvore, trouxe as coisas dele, serrou o portão, reencaixou e 15 min depois meu portão estava novo, abrindo como nunca antes. Eu tiro o ferrolho e ele se abre, é tão mágico. Anos sofrendo por algo tão rápido e barato. E ninguém precisou morrer.

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Uma vizinha bateu aqui em casa, e me perguntou se nós éramos católicos. Nós? Minha vizinhança ainda me crê casada. Ela queria nos convidar para uma novena que estava tendo naquele momento. Minha vontade foi de responder: “Eu não sou, mas se a Dúnia quiser ir eu não me oponho. Nunca perguntei quais as crenças dela”. Não disse isso porque ela veio na maior das boas intenções e isso sempre me toca.

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Sou acordada cedo por um barulho de água corrente. Vou no banheiro e parece ser de lá, mas também pode ser da casa vizinha, que fica vazia nos fins de semana. Desço pra tomar café e definitivamente é de lá, mais precisamente da torneira. Sem dúvida estourou durante a madrugada, e deveria estar inundando tudo. É cedo, todos dormem, o que fazer. Eles haviam deixado um telefone pra contato, mas não ficou comigo. Ligo pro celular do Luiz, que estava dormindo e não tem mais o telefone. Penso em acordar o vizinho da frente, mas antes tenho a ideia brilhante de ligar para a central de alarme, que sempre deixa plaquinha em frente às casas. Ligo e explico o acontecido. Uma hora depois os vizinhos aparecem, desligam algo, e ficam mais de mais hora mexendo na cozinha, mudando coisas do lugar. Quando saem, estão com uma cara péssima – o que prova que eu estava certa. Foi o meu pequeno momento de heroísmo. Nunca pude salvar o mundo mas ajudei uma família.