Acabarão as fitinhas

senhor-do-bonfim

Eu faço controle de contas, tenho caderno de citações, cadernos de anotações diversas. E todos eles são marcados com uma fitinha do Senhor do Bonfim. Um dos cadernos acabou, e fui com urgência na livraria comprar outro bem bonito, porque seria mais um dos que vai me acompanhar durante anos, passeando entre os cômodos, recebendo anotações no sofá. Escolhi com todo carinho e quando cheguei em casa e fui correndo colocar a fitinha. Aí me deu aquele agridoce: eu tenho vários pacotinhos de fitinhas porque meu pai me enviou. Um dia – não sei nem dizer há quantos anos – eu mandei uma mensagem pro meu pai dizendo que estava sem fitinhas e se ele poderia me mandar algumas. Pouco tempo depois chegou uma caixa de correio com uma quantidade tão exagerada de pacotes, cada um deles com umas dez de cores diferentes. Tenho usado há anos sem me preocupar em contar, sabe quando você tem tanto de alguma coisa que é como se nunca fosse faltar? Foi um gesto de carinho de quem estava longe, de quem gostaria de oferecer muito mais e já não tinha como. “Acabaram as fitinhas”, eu pensei, como se já fosse passado. Não acabaram fisicamente, mas acabou. Já disse, assim que ele morreu, acabou Salvador, acabou tudo. Não que eu não tenha como comprar, não que eu não tenha quem me envie, mas acabou. Quem já se despediu de uma fase da vida sabe como é ver, pouco a pouco, as coisas se renovarem – peças de roupa que perdem cheiros, eletrodomésticos que ficam superados, lugares e hábitos totalmente inéditos. A cada mudança, vai embora uma testemunha da nossa história que nunca mais voltar.

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Você não é Kardashian

Eu percebi que as grandes impaciências e infelicidades na vida são porque cremos que merecemos de tudo. Por isso, vivo repetindo pra mim mesma: você não é uma Kardashian, a vida não tem obrigação de te dar nada. É como se tivéssemos uma cartela de bingo imaginária: carreira – amor – dinheiro – viagem à Europa. Eu preenchi a viagem, mas cadê o mozão. Eu tenho um emprego, mas não quero preencher o item carreira, porque é apenas um ganha-pão que não me realiza. Tenho amigos, mas de que me adianta se não tenho casa. Vamos às cartomantes porque ela disse que vai aparecer, mas está demorando demais, os papéis ficaram retidos na burocracia do além, onde fica o setor de reclamação celeste. Tudo isto é porque, no fundo, temos uma lista do que a vida nos deve. Nos deve porque queremos, porque todos têm, porque gente muito pior do que eu tem e tem o dobro. Alguns recordam que a vida não lhes deve nada quando acontece uma tragédia ao lado, tipo uma amiga muito jovem para quase morrer. Aí lembramos: nada é garantido, nem ao menos a saúde. Se o mozão que a cartomante prometeu demorar, tem que ficar feliz porque pelo menos tem mozão, alguns nem isso. Muitos morrem sem jamais colocar os pés na Europa – e não há nenhuma tragédia nisso. Talvez o que você tenha é isso aí, é o que tem pra essa existência: a viagem até a cidade vizinha, os amigos que marcam em lugares baratos porque eles também têm empregos modestos, o nascer do sol pela janela do ônibus, beijar o galã da rua, economizar muito para trocar de sofá. Vamos quase todos morrer sem deixar qualquer traço na história da humanidade. Alias, os Kardashian também.

otro dia más

Esperando o Cristo

budista e niilista

Sem querer ser desrespeitosa, mas não consigo pensar numa comparação melhor. Esperar por Cristo é acreditar numa promessa vaga de uma volta que juram que pode ser a qualquer momento, amanhã mesmo, e de amanhã em amanhã já se passaram mais de dois mil anos. Mas, depois de tanto tempo, quem disse que não pode ser amanhã o amanhã de verdade? Então é preciso estar preparado, com a casa de ordem e boas ações no currículo.

Tá difícil. Tem época que dá pra largar mão de tudo: horário para acordar ou dormir, alimentação saudável, higiene, falar com pessoas, acompanhar as notícias. Dá pra abandonar pouco a pouco qualquer contato com o exterior e ficar preso apenas na auto-comiseração. Porque é difícil responder “tudo bem” quando nada está bem. E quando há um desespero coletivo, você nem ao menos consegue alguém que te dê uma mentira positiva porque ninguém está vendo saída em lugar nenhum. Mas é preciso levantar cedo, mesmo sem ter um compromisso depois; manter as unhas e os cabelos aparados, mesmo sem ter ninguém que nos olhe; comer a comida saudável e fazer exercício, mesmo sem ter quem se importe ou quem peça. É preciso fazer como aqueles que esperam Cristo, que se mantém ativos mesmo sabendo que o tal amanhã é uma conversa de mais de dois mil anos. É preciso encontrar forças mesmo na mais vaga das promessas, se preocupar com o que não está visível no horizonte. Não temos certeza da melhora, mas dá pra ter certeza da entropia natural das coisas, da desordem, da dispersão, da crueldade do tempo sobre os corpos, da maneira como o mundo parece cada vez mais assustador quanto mais nos afastamos dele. Se por um lado o esperar Cristo pode parecer uma prontidão vazia, sem ela nos tornamos totalmente inúteis – aí pouco importa em que dia estamos.

Viver é levar uma bandeja com água num tobogã

Eu estava conversando com uma amiga dia desses, ela estava tentando mudar seu padrão acumulador. Não sei o quanto a cada dela está abarrotada, não acredito que seja até o teto e com o cadáver de um gato sumido por detrás de revistas, mas ela me pareceu bem culpada. Pelo dinheiro gasto, pelo espaço ocupado, pela inutilidade da coisa, etc. Eu estava no celular e odeio digitar pelo celular, então quem sabe se não fosse isso eu pudesse ter lhe dito que lembrava de outra amiga, que para arranjar o emprego dos sonhos saiu de uma cidade no interior de SC e foi para o Rio de Janeiro e trabalhou com o que amava, mas cercada de muita competição e machismo. Ela passou por um período acumuladora também, gastava uma nota em sapatos. Foram alguns anos de Carrie Bradshaw, que também a chatearam. Eu lhe disse: nova, sozinha, numa cidade estranha, enfrentando tudo o que você enfrentou, queria o que, passar sem nenhuma válvula de escape?

Não sei se isso é vida real para quem vive em país subdesenvolvido econômica e culturalmente, ou se dá pra afirmar universalmente: a vida é dura. É uma crise atrás da outra – ou juntas. Na maior parte da vida, somos aquelas pessoas que descem no tobogã segurando uma bandeja (eu via no programa Silvio Santos, mas o vídeo que eu achei é do Ratinho), com esperança de conseguir manter um tiquinho de líquido ali. Estamos sempre tendo que aguentar alguma coisa, nos compensando de alguma coisa. Alguns fazem isso com sapatos, outras com namoros, sei lá. Quando nova, tinha a ilusão de conhecer meus defeitos e superá-los; hoje sei que quem consegue controlar o mecanismo que dispara um só defeito já fez muito nessa vida. Como disse para as duas: se pra comprar um monte de coisas, você apenas ficou um pouco pobre, ainda está no lucro. O grande desafio na vida é não fazer uma besteira irremediável, a si mesmo e aos outros.

As dificuldades

dificuldades

A vida na internet me colocou em contato com muita gente que escreve bem. Nós não sabíamos, mas estávamos todos naquela idade das possibilidades. Ou talvez um deles soubesse, quando me dizia: “você sabe que o que eu invejo não é o que você escreve, e sim você continuar escrevendo”. Porque ele, na verdade, foi um dos que eu conheci pós-escrita. Ele foi dono de um site delicioso, que teve muitos fãs e lhe permitiu “comer muita gente” (palavras dele). Eu acreditei piamente que um dia todos nós estaríamos num cocktail, comentando nossas críticas, dizendo por debaixo dos panos que Fulano ou Beltrano nem é tudo isso, que a literatura brasileira anda mesmo bastante decadente. Eu pensava, como na tirinha do Liniers, que a gente lutava contra os nossos fantasmas, contra o fato do que o que pareceu lindo na imaginação, praticamente um livro inteiro, se transformar em poucas linhas medíocres quando finalmente sentamos para escrever. Mas estes entraves – sei agora – são o de menos. O problema são os vazamentos do Intercept. Eu fico doida, não consigo pensar em mais nada. Clico em cada paródia, tenho que dividir todos os memes. Fui atrás do filme do Snowden (Netflix), ainda não tinha visto. Vi o David Miranda dançando e agora quero formar um trisal com Glenn e David (mas me conformo com um jantar). Quando o que me invejava-porque-ainda-escrevo me falou isso, eu lhe respondi que ainda escrevia porque não conseguia parar. Na expressão dele vi que isso soou muito invejável, mas talvez isso seja apenas um atestado da minha falta de saúde psíquica. Eu poderia ter lhe dito que ele se diverte em comer gente, em se envolver com as questões dos filhos, em frequentar bons restaurantes e eu não tenho nada disso. Até já tive, mas hoje estou sem restaurante, sem dinheiro, sem companhia, sem nada. Passo dias sem interagir com nenhum outro ser humano que não seja atendente da padaria. Uma pessoa mais normal se angustiaria; já eu acostumei e gosto. Até minha mãe se angustia pela minha recusa em conhecer gente. Meu mundo praticamente se resume a escrever e, sob este ponto de vista, eu sou extremamente incompetente. De todos os amigos escritores que eu imaginava um dia discutir, um deles ganhador do Nobel, o outro autor de crônicas, eu aparecendo disfarçada de personagem no livro de alguém, aquele que realmente conseguiu escrever foi um que não fazia alarde. Mais inteligente, ele não se propôs a nenhuma revolução, ouviu muitos conselhos e surpreendeu a todos com livro bacana, editado, recomendável; comparado com a nossa empáfia e publicidade, ele foi um verdadeiro um azarão. Conseguiu porque é professor, vida estável e disciplinado. A nossa culpa, dos que não escrevemos os famosos livros, é do Intercept, do divórcio, dos vídeos de gatinhos, dos app, dos astros. Pelo menos uns dez anos se passaram e estamos numa idade “ih, daí não sai mais nada”. Ou será que ainda sai?

Tartaruga na árvore

Há um dito que fala que se você encontra uma tartaruga numa árvore, ou teve enchente ou alguém colocou lá, porque subir sozinha é que não foi. Quanto mais profundamente me conheço – nessa cisma tão grande de ser eu ao longo da vida – e olho para a realidade lá fora – tão diferente do caminho que meu auto-conhecimento me levou – chego à conclusão que não posso ouvir mais esse ditado com ouvia antes, com a indignação de quem vê as pessoas que não merecem prosperarem. Porque sendo eu tão tartaruga num mundo cheio de árvores, só esperando ajuda da natureza ou de uma mão amiga pra conseguir um dia ser alguém no mundo.

Eu continuo a andar, mas para aonde?

passo

Extremo oposto

amigos mais talentosos

Hoje eu me pergunto se sempre foi tão impossível pra mim ter uma mente matemática ou se me falhou algo a mais, como aulas de robótica – um amigo colocou me contou que o filho lhe pediu pra fazer esta aula e achei incrível que exista. Sempre tive pra mim que matemática era a minha pior matéria mas, quando estudava em colégio particular, ela ser minha pior matéria queria dizer que eu precisava tirar 0,5 ou 1,0 para passar no quarto semestre, porque eu já estava passada em tudo no terceiro. Foi quando mudei para escola pública que degringolou, a física me caiu como impossível logo nas primeiras aulas. Mas, ainda assim, era apaixonada por trigonometria e gostava de voltar pra casa fazendo contas hipotéticas de logaritmo na cabeça.

Outra grande inveja minha é músico. Sempre tive pra mim que não os alcanço, que não ouço o que eles ouvem, que vivo num universo menor. Tenho um bom ouvido, sou afinadinha pra cantar, gosto de música clássica, mas não adianta, ninguém me convence de que eles não têm algo que eu não tenho. Minha impressão foi justificada quando li Alucinações Musicais – um livro incrível, principalmente pra quem for da área – e ele confirmou que o cérebro de quem estuda música desde criança se diferencia muito dos cérebros não-musicais.

Minha ideia pra uma encarnação posterior que realizasse o que não pude nessa é sempre foi que eu gostaria de nascer numa família que me colocasse diante de um instrumento desde cedo. De alguns anos pra cá, enfiei a matemática na fantasia. Ainda mais que música e matemática são bastante aparentadas, eno a fantasia ainda é bastante coerente.

Eu vi uma definição muito bonita sobre o auto-conhecimento; veio de um astrólogo, mas vale para tudo. Você nasce com algo na mão, digamos que um lápis. O que você precisa descobrir é o que fazer com ele. Você pode insistir em querer pintar uma parede ou esculpir uma pedra, mas se você usar o lápis para escrever ou desenhar, você vai muito mais longe na sua vida.

A vida é tão curta, então tem lógica que você descubra o melhor e vá atrás dele. Não me parece que a gente consiga fazer mais do que dois caminhos, quando muito. Mas, para além do que é fácil, existe também uma outra possibilidade: recusar o que lhe foi dado, fazer algo radicalmente distante. Por querer, para pisar em lugares desconhecidos de si mesmo. Até onde alguém que foi programado para A e B consegue se fizer Z?

(Às vezes lágrimas, amigos)

Dashas e vida de borboleta

zodiac copy

Se pegar um mapa normal de astrologia, normal digo ocidental, eu sei dizer mais ou menos quais são os trânsitos que estão acontecendo. Já a astrologia védica tem um cálculo tão diferente, que por mais que eu olhe, ainda não consegui entender a lógica. Fui em sites e procurei os tais dos dashas, e cada dasha tem os subdashas, digamos assim, que são as subdivisões dos períodos. Alguns duram anos, e começam no meu aniversário, outros duram meses outros sei lá daonde. Não foi nada bom saber que estou em Rahu-Saturno e as referências dizerem que une o mais temido com o pior. Preveem que eu procurarei um astrólogo, o que entendi que era outra forma de dizer: você vai ficar bem desesperada e vai pagar alguém pra te dizer o que está acontecendo. E, de fato, tentei procurar um astrólogo védico. Meu dasha temido e pior começou em 2017 e vai até 2020. Pensem na minha alegria ao ler isto.

Aí, CDF do jeito que eu sou, copiei tudo no word e transformei numa tabela. Período, quando começou, quando terminou e um espaço em branco do lado. Coloquei no espaço os fatos relevantes da minha vida, pra ver se entendo a lógica da relação entre os fatos e os períodos. Que.ex.pe.ri.ên.cia. A vida me bater na cara e me dizer que não sou importante já tem sido tão frequente que já chego protegendo o rosto, mas desta vez foi diferente. Eu me senti uma borboleta – nunca minha vida me pareceu tão curta e irrelevante. Anos e anos de espaços em branco, nada de realmente significativo pra registrar.

Nasci.

Mudança pra Curitiba.

Mudança pra escola pública.

Entrei na faculdade.

Terminei faculdade.

Atelier.

Casei.

Outra faculdade.

Flamenco.

Separei.

 

Omiti uma ou duas coisinhas muito íntimas, mas basicamente é isto. E se for pensar no que eu realmente decidi, no que manifesta meu livre arbítrio e decisões enquanto pessoa, são ainda menos itens. A gente toma uma ou duas decisões na vida, o resto é tempo perdido no trânsito.

O decurso geral da vida

carboidratos complexos

Isto não é uma louvação a Trotsky:

“Durante 43 anos de minha vida consciente fui revolucionário”, escreveu, “e durante 42 anos lutei sob a bandeira do marxismo. Se tivesse que começar tudo outra vez, tentaria evitar este ou aquele erro, mas o decurso geral da minha vida permaneceria inalterado. Morrerei sendo um revolucionário proletário, um marxista, um materialista dialético e um ateu irreconciliável. Minha fé no futuro comunista da humanidade não é hoje menos ardente (antes, mais firme) do que era nos dias de minha juventude.”

Leonardo Padura/ O homem que amava cachorros

 

Já falei aqui, acho, que tem astrólogo que diz que a pessoa já nasce com tudo o que vai fazer em vida programado, do mesmo modo que vamos ao cinema ver um Batman sabendo tudo o que vai acontecer e nem por isso deixamos de ver. É uma ideia bastante esquisita e com várias consequências, nem sei se boas. Eu acredito num determinismo social, colocar as estrelas no meio já é crer que ele não é ao acaso. Não sei. O que sei é que me parece que é como Trostky descreveu, que só os detalhes sem importância poderiam ser mudados. Estamos o tempo todo diante de decisões sem importância, como o que colocar no leite do café da manhã ou que música ouvir. As decisões realmente importantes, aquelas que mudam o curso das nossas vidas são duas ou três. Cada um sabe quais foram as suas. Quando penso nas minhas, também acho que não faria diferente. Não que eu tenha gostado de todas as consequências, não que acredite que sou a melhor versão possível de todas as escolhas possíveis, e sim porque eu sei que não poderia ter feito diferente. Não quem eu era, não da maneira como eu via o mundo, não com o que eu sentia fome de viver.

Guarda-roupa

guarda roupa

Minha tia preferida passou um período morando na casa do meu pai, em Salvador, e depois voltou para São Paulo. Sobre o período, ela me disse uma vez: “bem quando eu tinha conseguido fazer um excelente guarda-roupa, deixei de usar todos os meus casacos”. Olha, difícil. Eu considero que até hoje não montei o guarda-roupa que eu queria pra Curitiba, que me garanta estar à vontade quando é pra ficar à vontade e elegante nos momentos elegantes, ainda estou chegando lá. Semana passada eu fui mandar a minha bicicleta pra fazer uma revisão, algo que exige de mim uma programação extra, porque normalmente ando de bicicleta com roupa berrante e elastano e se deixo a bicicleta pra ir de ônibus (e vice-versa), preciso de algo intermediário. Naquele dia me programei, pronta para pagar pros freios novos e quem sabe até pneu. O cara foi sincero e me disse que não precisava, ela estava excelente. Deixei ela lá pra fazer a super limpeza e revisão, considero que é o meu IPVA. Paguei, perguntei se não precisava pegar uma ficha, algo que descrevesse qual delas era a minha bicicleta. “Imagina, você já é de casa”, ele me disse. Não esperava, eu passo lá poucas vezes por ano. De roupa mais ou menos berrante e colante, fui comer no posto de gasolina de sempre; agora eles olham pra mim e já vão pegando o café e o pão de queijo de provolone. Tem o vizinho que conserta coisas, o pão de queijo certo, a turma de que topa confraternização na data que eu propus, a turma que marca segunda confraternização pra eu ir, o verdureiro que dá as dicas, a loja de bike de confiança… Enquanto mordendo o pão de queijo quentinho, pensei: o que a vida vai me aprontar agora? Porque ela é assim, não pode ver um guarda-roupa ajeitadinho que manda a gente pra longe.

Pedras arredondadas

pedra rio

Durante muito tempo, eu considerei a minha ex-sogra como uma vilã do meu casamento. Com os anos as coisas foram anuviando, igual uma metáfora que eu vi que as pessoas que convivem são como pedrinhas numa garrafa, que de tanto se machucarem acabam ficando redondas. No final do processo de separação, eu lembro que olhei pra ela – deve ter sido no dia da assinatura do divórcio, ela estava de testemunha – e senti pena do nosso caminho juntas ter terminado. O mesmo sentimento de quando eu saí de casa para casar e sabia que dali por diante nunca mais moraria com meu irmão e minha mãe de novo. Eu mesma fiquei surpresa com o sentimento, porque nunca tive por ela o afeto de uma filha. Fiquei triste pelo ciclo que se encerrava. Fomos pedrinhas que se machucaram muito, detestaram ser encerradas na mesma garrafa, e no final se entendiam mais. Quando deixamos de conviver, eu vi que havia um tempo que faríamos parte da vida uma da outra, que teríamos algo a acrescentar à vida uma da outra, e que ele se encerrava ali para nunca mais – e eu sabia que passamos tempo demais nos detestando. Tenho certeza que com a nova nora dela, ela pegou muito mais leve e demorou bem menos para mostrar seu lado agradável; da minha parte, se um dia que voltar a ter uma sogra, cederei muito mais do que cedi com ela. Quem sabe o legado que tínhamos para deixar fosse esse. O que me tocou muito foi ver que, tivéssemos cumprido ou não o que tínhamos que cumprir, o nosso tempo havia acabado. Agimos como se as coisas fossem durar para sempre e na verdade o mais comum é que durem pouco – cinco anos, uma década, muito raramente duas décadas. Cada um segue a sua vida, esse evento único e complicado; algumas pessoas andam alguns metros do nosso lado e depois se vão. O ideal é que seja caloroso, o ideal é que sejam boas lembranças. Nós não temos obrigação de ficar, os outros têm o direito de partir.

Ilibada

no-de-oito

Lembro de uma enfermeira que eu conheci, que num determinado momento da vida prestou concurso para trabalhar nas Forças Armadas. Nunca convivi muito com ninguém que foi das Forças Armadas, então repetirei apenas o que ela me disse, ok? Quando ela entrou, por ser uma pessoa correta, achou que conseguiria ter um currículo sem nenhuma prisão. Isso acabou não acontecendo. Lembro de um rapaz que me contou que foi preso porque se atrasou. Minha amiga nem me contou o motivo, mas ela foi presa. De acordo com ela, existe uma pressão pra isso, que de certa forma era pretensão dela achar que nunca seria presa, as pessoas não largam do pé até que aconteça.

Eu acho que a vida também faz isso com a gente. Temos a pretensão de passar ao largo dos erros – mas, à medida que avançamos, a coisa vai ficando confusa e as escolhas limitadas. Muitas vezes o moralmente correto é escolher entre o sacrifício anônimo e o prazer. Quando conhecemos aquele que parece que conseguiu passar por tudo sem cometer um deslize, ele não passa uma impressão feliz, pelo contrário, soa mais como arrogante e invejoso. Isso me faz pensar que o erro (ou pecado, use o termo que quiser) é inevitável, e na balança o não jogar o jogo seja o pior deles.

No piano

Oliver Sacks, de tanto citar música no Alucinações Musicais, me deixou com vontade de ouvir música clássica. E com a mente vagando durante um concerto, eu me lembrei de já ter tocado piano. De manhã cedo fui atrás da prova, quase como se eu mesma duvidasse que foi possível.

pianista

Eu toquei piano por quase seis anos e havia apagado. Quem conviveu comigo na época da faculdade sem dúvida não esqueceu, porque eu amava muito tocar piano. A escola ficava do lado, atravessando a rua, e eu vivia lá. Às vezes eu pegava as partituras no meio da aula, estudava, depois voltava na maior cara de pau. Comecei a pensar se não lembrava disso por bloqueio, porque lembro que encarar os fatos – sem dinheiro, sem escola e sem piano atravessando a rua – e deixar de fazer aulas foi uma das minhas primeiras decisões dolorosamente adultas. Mas não foi isso. Como vocês podem imaginar, a foto me deixou bem nostálgica. Lembro de quem eu era na época, dos meus planos, das minhas prioridades. Pensei no quanto tudo mudou, nos caminhos que segui e que nunca imaginava, nas reviravoltas. Fiquei com aquela certeza de que a vida bem vivida passa muito mais pela variedade de experiências do que qualquer noção burguesa de sucesso. E vi que daquela dor de não tocar piano não ficou nada, porque não foi uma porta que eu fechei ou algo que morreu dentro de mim – tenho vivido intensamente aquela mesma necessidade artística, ao longo da vida ela encontrou outras vias de expressão. Há caminhos, há esperança, as coisas não serão necessariamente como estamos vendo. A vida é muito maior do que a gente.

Árvores

árvore

Uma pedrinha que cabe na mão nos parece um nada, nem sabemos distinguir direito o que é pedra ou um plástico polido. Mas, quando se olha grandes rochedos, formações de montanhas, não tem como evitar a sensação de estar diante de uma vida, quase deuses, que nos olham com uma pacífica indiferença. Mesmo a mais comum das árvores, plantada no meio da cidade como parte da decoração, é facilmente mais velha do que nós. Tenho uma ou duas preferidas no meu caminho diário e sempre me pergunto sobre qual a relação que elas têm com o meio. Muita gente já passou por ali. Não acredito que tenham medo, acho o medo um sentimento muito humano, fruto da nossa desconexão. Qualquer árvore bonita da cidade já estava lá quando chegamos e ficará lá depois da nossa morte. Se passamos por ela sempre, passamos quando éramos crianças, passamos adultos ocupados, passaremos velhinhos e um dia deixaremos de passar. O cenário, as modas, os sons, quantas coisas elas já viram. Quando eu olho muito pra uma árvore, eu me pergunto se ela percebe e também olha pra mim. E desejo que ela se lembre.

Não seja Kirk

kirk

Vi muito Star Trek quando era criança. Quando revi adulta, algumas coisas que não me chamaram atenção na época ficaram gritantes agora. Uma delas foi a maneira como Kirk se opõe a qualquer ideia de paraíso. Para ele, sem inquietação e uma dose de infelicidade, acabam-se a inventividade e a busca humanas. Não saberei dizer quais, mas em alguns episódios a tripulação da Enterprise encontra paraísos – às vezes é um planeta e noutras é uma alteração química. Ele faz questão de destruir tudo, para salvá-los. Era o próprio capitalista salvando as pessoas do hippismo.

Uma vez eu estava conversando com uma pessoa muito rica, não classe média que se vê como rica e sim rica de verdade. E ela me disse que filho dela jamais andaria de ônibus, porque era perigoso e desnecessário. Minha vontade foi de dizer que isso seria um mal na vida deles, que estariam despreparados para a vida. Mas os filhos de uma pessoa tão rica provavelmente jamais precisariam mesmo. Eles podem estar despreparados para a realidade dos que andam de ônibus, que é realmente uma grande maioria – mas essa é A Realidade? Quando convocamos as pessoas à realidade, geralmente é pra destacar o lado mais feio e difícil da vida. Perto do que existe por aí, anda de ônibus não é nada, eu também não conheço A Realidade. Devemos todos ser convocados ao mundo cão para sermos levados à sério? Fazer campeonato de quem é mais traumatizado e desgraçado na vida?

Eu acho que ninguém passa pela vida sem levar umas lambadas, mas… deixa as pessoas. Ver pessoas felizes e dizer que elas não conhecem a realidade oscila entre o pretensioso e a simples inveja.

Sim ou não

carmen miranda

Na imperdível biografia da Carmen Miranda, Ruy Castro conta que quando ela era bem novinha, trabalhou como vendedora numa loja de chapéus. Carmen era uma excelente vendedora; quando uma cliente estava na dúvida, bastava ela colocar o chapéu em si mesma. Se ver refletida no rosto encantador da Carmen convencia qualquer uma a gastar. O dono da loja – que era cara e tradicional – ficou muito apaixonado por ela, queria compromisso, tentou de todo jeito. Ela namorava um bonitão da alta sociedade e, como única retaliação possível, o patrão a fazia atrasar na loja para não conseguir encontrar com o namorado.

Eu fiquei me perguntando o que teria acontecido se a Carmen tivesse dado bola pro cara da loja de chapéu. Hoje, olhando em retrospecto, é absurda a ideia de Carmen Miranda, talvez a brasileira mais próxima do conceito de celebridade internacional que já tivemos, reduzida à esposa de um chapeleiro. Era uma loja tradicional, ele tinha dinheiro, ela não, ele queria casar, bom partido e etc. mas ela era Carmen Miranda, poxa! Quer dizer, ainda não era A Carmen Miranda, apenas o potencial dela. Eu imagino a Carmen – e aí está a visão que tenho de todas as escolhas que fazemos na vida, todas – naquela cabine com fones de ouvido, nos antigos programas que quando vê a luz o candidato deve responder sim ou não sem fazer ideia do que estão lhe propondo: você aceita trocar ser uma cantora mundialmente conhecida por um casamento por conveniência?