Curtas saturninos

lord saturn

Eu me perguntava porque as pessoas eram assim, não acessavam suas dores, deixavam que se transformassem em pedras, cânceres, rugas ou sei lá o quê. Que se soltassem, chorrassem e gritassem, enfrentassem sem medos. Hoje eu sei que, nossa, funciona pra caramba você ver a tristeza subindo a ladeira e mudar de rua. Muito mais fácil do que levantar é nem ao menos cair.

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Eu cheguei cedo e minha cabeleireira terminou o corte anterior cedo, por isso fui atendida quinze minutos mais cedo. O que era pra ser uma vantagem acabou sendo pior, porque a moça da sobrancelha atrasou meia hora. Ela estava saindo de casa e esqueceu suas coisas e teve que voltar. Que bom que o salão tem wi-fi. Esse pessoal do “converse entre si” não faz ideia do quanto o wi-fi gratuito melhoria o clima deles, com clientes calminhos.

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Voltando ao atraso. Estava com os olhos no celular e pensando no que fazer. Normalmente, falta de profissionalismo é uma das coisas que me deixa virada no jiraia. Me disseram que levaria quinze minutos e eu normalmente me levantaria e iria embora no dezesseis. Aí pensei na quantidade de vezes que me atrasei, a ansiedade dos minutos escorrerem e você sem ter como acelerar o mundo. Decidi esperar, ser compreensiva, tratá-la bem. Decidi não tratá-la com a crueldade que pratico comigo mesma.

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Descobri de onde minha dificuldade com pedintes em geral: eu olho nos olhos deles.

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Menos espaço

Maiôs de natação são feios, quase sempre pretos ou azul marinhos, então que legal seria um que fosse ótimo pra nadar e ao mesmo tempo tivesse estampas tão bonitas quanto os de praia. Excelente ideia a minha, não? Pois é, eu também achava. Na minha última compra, voltei com três estampas lindas e coloridas, mas mais por uma certa teimosia do que outra coisa. Digo isso porque sei que vão encalhar, posso citar um ou dois nomes de mulheres que teriam “coragem”. As que vão vender são as outras, essas sim atendendo os pedidos: preto, fundo preto, estampa miúda e convencional, o mais discreto possível. Comprei, mas comprei frustrada. Nenhuma das mulheres que me pediu isso é obesa, nem ao menos são gordas. Mas mesmo que fossem. Se acreditamos que o que torna o nosso corpo belo é ficar o menor e mais escondido possível, é claro que cores e estampas nos parecerão feios. Eu também estou condicionada por esse olhar, eu também me sinto mais segura com um fundo preto que me diminua e uniformize. Mas precisamos sempre, em todos os momentos, ficar preocupadas com esse “cair bem” de um outro a quem creditamos tanta crueldade?

Cantadas

bianca del rio

Sou muito paciente e bem pouco bélica nas minhas interações. No que depender de barracos virtuais, nunca me tornarei famosa por aqui. Já tentaram puxar briga comigo diversas vezes e vou te dizer que é difícil se manter agressivo quando o outro lado é gentil. Então estava analisando a minha atitude praticamente contrária quando sou cantada. Quando recebo uma cantada, eu me torno o próprio Seu Saraiva. Fico com sangue nozóio. E não estou falando de cantada de rua, que nem merece esse nome, estou falando daquele cara que se aproxima quando você está de saia curta e drink colorido na mão, sentada numa banqueta alta ao lado do bar. (Já me adianto em dizer que não fico nessa posição há anos, justamente porque me conheço.)

ACHO que o problema é o seguinte: boa parte das nossas interações sociais é apenas a repetição de fórmulas vazias. Dizemos bom dia, boa tarde, boa noite, perguntamos como está o neto, dizemos que o cabelo ficou ótimo e nada do que é dito realmente importa. O importante é a intenção subjacente de ser educado e querer demonstrar que reconhecemos o outro como indivíduo. Mas, ao mesmo tempo, se uso só fórmulas, é porque estou num terreno seguro e não vejo quem está por detrás. Meu tipo preferido de gente é aquele que em poucos minutos consegue economizar todas essas palavras vazias e ir direto para a essência. Mas eu reconheço que isso é muito mas uma característica de personalidade do que da interação. Tem quem faça isso em poucos minutos, tem quem possa viver ao teu lado a vida inteira e não enxergar nada.

Eu aceito isso no dia a dia. Uma pessoa chega perto de mim com uma fórmula, finjo que não sei que é uma fórmula e aplico outra. E assim fingimos que nos vemos e nos importamos. Mas daí – agora entra a cantada – um sujeito se aproximar de mim com uma fórmula barata, que ele joga pra cima de todas as fêmeas e com isso achar que eu vou me encantar e deixar ele partilhar da minha intimidade é demais pra mim. É um atentado à minha inteligência.

-A gente vai pra sua casa ou pra minha?

-Os dois. Você vai pra sua casa e eu vou pra minha.

“Mas é um elogio, tem que ficar feliz, desse jeito você nunca vai desencalhar”. Ok.

Dentes de leão estão na moda

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Dentes de leão estão na moda, Suzi. Eu não sei como isso soa pra ela, eu não gostei. Gosto muito dos dentes de leão – não precisa pensar muito para associá-los com lúdico, leve e efêmero. Não gosto que nada que eu gosto se torne moda. Quando está no auge da moda é ruim, porque vejo pessoas que ofendem os meus “símbolos” ostentando-os como se nada fossem; quando a moda passa, aí é o efeito contrário, e se torna totalmente out e insuportável que alguém ainda use. Tem coisas que são minhas e não quero que sejam confundidas com moda nenhuma, in ou out. Me agradam os vestidos floridos que remetem aos anos 70, e que combinam tão bem com casacos compridos de lã, meias calças e as botas de cano longo que as curitibanas não abandonam nunca. A lembrança das curitibanas interrompe imediatamente o comercial que passa na minha cabeça, onde estou vestida igual uma hippie, toda produzida pela C&A. Tudo bem, esses florais têm fundo preto e na prática talvez acabasse não usando. Mudo de loja, passeio pelas centenas de opções como se pudesse comprar e até posso, mas não devo. Os imensos manequins parecem tão modernos e elegantes, usando de maneira displicente jeans com quadriculado e lã, e quando olho para as roupas me sinto incapaz de combinar tudo de maneira tão interessante. A jaquetinha jeans que namoro há tempos foi para uma arara “a partir de 39,90”, mas continua 119,90. Quem sabe eu pudesse acrescentar mais cor nas minhas roupas se usasse a camiseta com estampa de baleias, mas nossa, que baleias caras. Não fui pra comprar, mas por onde começaria? Na loja iluminada, o que estou vestindo e o que tenho me parecem subitamente insuficientes. Por isso que estou velha, feia e sem namorado, por isso que nem pra me arrumar pro flamenco eu sirvo. Me irrito comigo mesma, com minhas teimosias, minha inadaptação que só faz crescer, minhas roupas. Para evitar o padrão irresistível de usar sempre a mesma coisa, faço tentativas imaginárias de comprar diferente. Mas aquela saia evasé até o joelho não combinaria com o All Star; eu teria que ter uma bota e não tenho bota. Quer dizer, tenho, mas ela não que me permite andar por aí o tanto que eu ando. Mas e se eu…  namorasse, precisasse de roupa de trabalho, um dia fosse alguém? Aí me canso – me canso de tudo o que poderia ser e não sou, do mundo consumista que se oferece e foge, da brancura e adolescência eterna da loja TwentyOne. Penso com inveja nos monges e góticos por não se atormentarem com o vestir. Ninguém me obrigaria a usar flor à flamenca se eu ainda cortasse o cabelo com máquina 3. Saio do shopping tal como linho no fim do expediente. Que alguém me produzisse, comprasse e me vestisse, porque tudo isso é muito cansativo, fútil e complicado.

Grampos

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Os primeiros eram cinza, os melhores. Eles prendiam tão bem que dá até pra colocar a ponta da toalha no gancho da rede. O plástico foi secando com os anos, e faz PLÁ! quando a gente aperta. Aí vieram uns japoneses. Tem três cores, mas são todos iguais – preto, verde e branco. Na embalagem eles prometiam marcar menos a roupa. E marcam mesmo, mas também não prendem muito. Por fim, comprei uma terceira leva, que veio numa cestinha e ficam pendurados. Foi aí que começou. São três cores: vermelho, verde e amarelo. Com eles eu descobri que dá pra combinar as cores na hora de pendurar a roupa. Passei alguns dias assim, só prendendo a toalha com grampos da mesma cor nos dois lados, os biquínis e a touca com a mesma cor e assim por diante. Quando estava organizando as roupas em função dos grampos decidi parar – melhor não dar vazão a mais uma mania. Agora enfio as mãos na cestinha e penduro com o primeiro que me surge na mão. Três peças, três grampos, como vier. Olho para a roupa e a toalha está com um verde numa ponta, um vermelho na outra e a calcinha com verde.

Se a toalha ficasse com os verdes e a calcinha com o vermelho seria melhor, penso.

Destino

Eu acredito em destino. Não porque acredite que tem alguém que decide o que devemos passar e sim porque somos formados por meia dúzia de padrões inegociáveis. Como agimos sempre com base nas mesmas premissas, jogamos sempre a mesma energia pro mundo e obtemos sempre as mesmas respostas. Às vezes nos achamos diferentes porque temos o padrão de ser do contra, ou de achar que somos fora do padrão. Como somos pessoas padronizadas e previsíveis, cercadas de pessoas igualmente padronizadas e previsíveis, qualquer olhar mais distante seria capaz de dizer com precisão o curso dos acontecimentos. Seria como olhar uma fila de formigas e prever que, poucos metros a diante, elas encontrarão um obstáculo.

Be more cat

(Adoro este vídeo, Be more dog)

Quando conheci a Claudia e a achei bonita careca, me lembrei de uma coisa que a Tere, que tem gatos, me disse: “Nós deveríamos ser mais gatos. O gato é tão ele, tão irritantemente ele, faz tudo sempre do jeito que ele quer, que a gente acaba se conformando e se adapta a ele”. Eu acho que a beleza também tem disso. De ao invés de aderir correndo a um padrão, teimar um pouco mais. Quando a gente ama alguém, não se pega amando seus cacoetes, suas pintinhas, as rugas dos cantos dos olhos quando sorri? Acho que quando a pessoa teima em ser ela, pode acontecer justamente o mesmo processo dos gatos – o mundo é que se adapta à nossa estética.

 

Ando com os meus cabelos brancos por aí e muita gente acha ele lindo. Vou confessar: eu não acho. Eu tenho aquela auto-imagem de ter o cabelo castanho bem escuro, quase preto, então eu não vejo o meu cabelo como “quase luzes” ou diferente, eu vejo cabelos brancos mesmo. Sempre me estranho nas fotos. Mas mesmo assim eu não pinto. Aceito que agora ele é mais branco e pronto. Meu corpo mudou e o meu cabelo também. Eu envelheci; fora o meu cabelo, acho que a juventude tem até feito uma hora extra em mim, então não vou pedir mais. O tempo, dinheiro e preocupação de pintar o cabelo são investidos em outras coisas. Ou quem sabe eu até pinte, só de que rosa, azul ou outra cor absurda. Tinha vontade de fazer isso aos trinta e me achava muito velha; agora, com quase quarenta, me sinto pronta. Be more cat.

 

Este é Serafa, o mito, um dos gatos da Suzi.

E quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração

Você se conhece. Você fez terapia durante muitos anos, você ainda faz terapia. Você conhece suas neuroses, pra que lado elas caminham. Conhece sem a menor dúvida o seu padrão do eneagrama. Sabe o que dispara as suas inseguranças e o que elas fazem quando fogem pela rua. Conhece os seus buracos, sabe as coisas que ele lhe leva a falar e a sentir. Sabe que é necessário segurar a onda para se reequilibrar. Lida com essas coisas desde sempre. Mas diga: quando a neurose é disparada, o padrão retorna, os bichos internos fogem pela rua como gremlins molhados – todo esse conhecimento adianta alguma coisa? Adianta alguma coisa? Não adianta nada. Você fala e sente tudo como se fosse a primeira vez.

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Ouça o seu coração. Listen to your heart. Mas e o que fazer quando o teu coração te levou para um caminho totalmente anti-econômico e depois se queixa de ter uma existência dependente; quando o seu coração quer mudanças, mas fica apavorado em fazer as mudanças que ele mesmo exige; quando o seu coração quer e ao mesmo tempo não quer o que ele deveria querer, ou quem sabe queria tantas coisas que elas simplesmente não podem coexistir no mesmo tempo e espaço. Eu tento coração, mas você não facilita.

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Você é afastado das pessoas, pelas circunstâncias. Aí elas se afastam de você. Depois, você se afasta delas. E as conversas que antes eram diárias passam a ser apenas uma vista de longe, uma stalkeada, uma lembrança. Depois, nem isso. Você deixa de falar nelas, de saber delas, de querer vê-las. Elas passam a se reunir entre si e você percebe que também deixou de fazer parte do mundo delas. Com o tempo pára de doer, porque você deixa de se importar. Elas passaram a ser apenas um nome. Depois que acontece tudo isso, no estágio branco e limpo que vêm depois da mágoa, vocês se reencontram. Você nem queria mais revê-las e fica surpreso pois é ótimo. Aí você se lembra do porque ter doído tanto: eram pessoas realmente bacanas, cujo afeto te faz falta.

Mudar de vida

Sabe quando você realiza aquela limpezona, se purifica do passado, coloca os nomes dos sentimentos ruins em tijolos e joga fora, faz aquelas coisas simbólicas muito fortes e se propõe a, dali por diante, ser e fazer tudo diferente? Estou nessa onda. Vamos mudar, vamos fazer diferente, chega do antigo.
Aí, quando a pessoa pensa em fazer alguma coisa que dê dinheiro, pensa de novo em correr atrás de doutorado. Que merda. Não adianta jogar o antigo fora sem saber o que colocar no lugar.

Silicone, beleza e casamento

Eu estava com duas amigas. Eu, sem silicone e sem filhos, trinta e poucos anos. Uma com silicone e filho grande, com quarenta e poucos anos. Uma sem silicone e com filha grande, com quarenta e tantos, cinquenta? As três casadas. Eu faço o gênero jeans e camiseta e tenho minhas tendências feministas. A com silicone faz o tipo gostosona, sempre de salto e roupas justas. A outra é a pessoa mais fashion e estilosa que eu conheci em toda a minha vida. Por isso foi uma surpresa muito grande quando a ouvi dizer

– Estou pensando em colocar silicone.

porque pra mim ela já era das mais lindas e admiráveis que uma mulher pode ser. Ela consegue ser feminina de uma maneira só dela. Eu nela só vejo beleza, nunca pensei que ela achasse que precisa mudar. Talvez ela não tenha noção do que nos transmite, de qual a impressão que temos quando a olhamos. O que eu vejo é: algo único. Ela é ela, poxa. Aquela pessoa que eu gosto, aquele sorriso largo, aquelas roupas e um estilo inconfundível. Claro, eu nunca a olhei com olhos de quem avalia o corpo, de quem pensa em tocar ou possuir. É verdade, ela tem seios pequenos. Mas será que o olhar masculino é tão diferente assim do nosso? São coisas que eu me pergunto.

– Mas o meu marido não quer, ele me disse pra não ser louca, que é pra deixar como está.

(Eu) – Então, vai ver que não precisa mesmo. Ele gosta de você do jeito que você é, sem precisar de um peitão. Você é você, não precisa ficar diferente em nada.

(Amiga com silicone, pra mim) – Pra você é fácil dizer isso, porque você não teve filhos. Você não sabe como o peito fica murcho depois da amamentação. É diferente. (para a outra) Eu já vejo isso de outro ponto de vista. Ele não quer te ver melhor, não quer que você evolua. Se você colocar silicone, você vai ficar linda e ele vai se sentir ameaçado. Isso é uma maneira de te manter sempre ali, insegura. Eu acho que você deve colocar sim. Você vai se sentir melhor, mais bonita, mais poderosa.

Eu não falei mais nada. Porque não sei como o peito fica depois de ter filhos, não sei se maridos nos impedem de ficarmos belas. Só sei que olho pra minha amiga e a acho tão bonita.

Uma sucessão de problemas

São duas professoras e não têm parentes aqui em Curitiba. Uma delas, solteira, vivia com os pais de mais de oitenta anos e a mãe com a saúde muito comprometida. A outra, casada, estava sempre por perto da mãe. Na mesma época, o pai da solteira foi diagnosticado com câncer de próstata e a mãe da casada precisava tirar o útero. Só que poucas pessoas souberam do caso do câncer. Ela contou para quem interessava e algumas pessoas de confiança, desmarcou as aulas, sumiu por uns tempos e depois voltou. A casada contou o problema para todos a sua volta, com os aspectos médicos envolvidos, ressaltou o quanto ela é sozinha, que tudo fica nas costas dela, o prejuízo que teria desmarcando as aulas, o incômodo, etc. Quando voltou, ressaltou a amiga maravilhosa que mandou sopa, as alunas atenciosas que mandaram cestas de café da manhã, as pessoas educadas que ligaram e umas (eu, por exemplo) foram decepcionantes e insensíveis ao extremo por se conformarem em receber notícias por terceiros. O câncer do pai da outra? Ela nem registrou, estava muito ocupada.

E todo ano é assim, todo ano o destino apronta uma morte, uma operação, um problema de saúde, uma correria com marido, filho, parentes próximos ou distantes. Os períodos de calmaria são sempre curtos. Mesmo cursos interessantes têm o ônus de desmarcar coisas, sair correndo, custar caro e nunca trazem o reconhecimento que deveriam até mesmo por parte dos alunos. Por tudo isso, ela precisa sempre de muitas orelhas, muitos confidentes e apoio porque uma vida atribulada dessas não é fácil. Aquela professora solteira do início da história um dia falou, na tentativa de dar um toque: “Na sua vida tudo está sempre ruim, você está sempre cheia de problemas, né?”. Como resposta, obteve um sentido – “Sim, minha vida é uma sucessão de problemas”.

Barriguinha

Eu nunca tive essa barriguinha zero que está na moda hoje em dia. Nem quando eu tinha quinze anos, nem quando eu pesava dez quilos à menos. Porque minha genética não é assim. Cada um tem um lugar onde o corpo gosta de armazenar a gordura, e o meu é na barriga. Me sentia mais à vontade de maiô, nunca sequer cogitei colocar um piercing no umbigo. Calças de cintura baixa nunca foram feitas para me valorizar. Mas antigamente todo mundo era meio assim, quase ninguém nasce de barriga zero. Então eu não ligava.

Enquanto o pessoal da academia gostava de mulher de abdomen definido, eu pegava na minha pancinha e dizia que mulher tem carne ali, que isso sim é feminino. Mas o tempo foi passando, e nas revistas todas as mulheres têm barrigas assim, todo Porque Hoje é Sábado têm barrigas assim e nas ruas as mulheres começaram a ficar assim. Então eu fui vencida e pouco a pouco também passei a achar essas barrigas a coisa mais linda. Tenho uma amiga que fez lipo e posso garantir que ela não tem dobrinhas e ângulos cheinhos, como as outras mortais. Eu olho pra essas barrigas lipoaspiradas e agora concordo que elas sim ressaltam as curvas, que elas sim são femininas. Como uma coisa leva à outra, eu passei a sentir vergonha do que antes achava muito natural.

Do jeito em que as coisas estão, ter barriga vai ser considerado mau gosto, atestado de pobreza. Assim como os peitos pequenos, as coxas finas e as bundas achatadas. As mulheres serão todas perfeitas: peitão, cinturinha, bundão e coxão. As peles estarão lisas como de bebês, os bicos dos seios apontarão sempre para cima, a coxas duras de tanto leg press. Essas mulheres não precisarão de dicas na hora de se vestir, e nem que os homens olhem com generosidade para os seus defeitinhos. Musas de peito pequeno serão tão antigas… A diferença entre uma mulher e outra estará nos ossos, domínio que a plástica (AINDA) não conseguiu atingir. Se você acha que não é bem assim, veja neste clipe que o futuro não é um lugar distante.

As dores II

Justiça seja feita: é muito mais fácil conviver com quem não assume suas dores do que com quem vive em função delas. Como os traumatizados profissionais. São aquelas pessoas que vivem o(s) trauma(s) de sua vida como se tudo tivesse acontecido ontem, mesmo que o acontecimento seja de 50 anos atrás. Quando um desses, meio à queima roupa, te conta o que lhe aconteceu, você se sente surpreso e até mesmo lisongeado pela confiança. Dá a ele seu tempo, solidariedade e atenção. Fala um pouco de si para mostrar que lições você aprendeu e que podem ser úteis. Quanto mais atenção você der, mais raiva e sensação de ter sido enganado você tem depois. Com o tempo você descobre que aquela dor não é segredo e sim um cartão de visitas. Repetindo sempre a mesma história, as queixas são usadas para justificar qualquer besteira, em qualquer área da vida. O traumatizado profissional não precisa de conselho porque ele nunca quis mudar. Ser traumatizado é seu modo de viver.

O problema para essas pessoas (e alívio para as que as cercam) é que qualquer história – por mais dramática e dolorosa que seja – some de nossas mentes assim que dobramos a esquina. Os problemas alheios têm um poder muito pequeno de mobilização. A vida tem uma característica que é sua benção e maldição: as experiências são incompartilháveis. Ninguém jamais saberá o que vivemos, ninguém sentirá na pele o que nós passamos. Toda descrição será apenas uma idéia aproximada. Não é possível comparar as dores, nem ao menos quando elas são parecidas. Cada um tem sua própria história – única, irrepetível. E quem não consegue fazer da própria vida uma experiência interessante a perde sozinho.

Grupos

Eu já trabalhei num atelier público. Cada um pagava uma mensalidade e isso nos dava direito a usar livremente o espaço e solicitar ajuda do professor e dos funcionários. Alguns, como eu, tinham no atelier a sua rotina do ano inteiro. Estávamos sempre com algum novo projeto ou encomendas. Cada um já tinha um cantinho onde colocava suas coisas e os instrumentos preferidos. As pessoas se conheciam de nome e sabiam mais ou menos o estilo de trabalho de cada um – qual o seu canto, que momentos era possível interromper, etc. O lugar era público e era nosso ao mesmo tempo.

Apareciam novos alunos o ano inteiro. No final do ano, sempre chegavam uns alunos de design. Se esse pessoal ficava uma semana era muito. Alguns, porque vinham com um projeto bem definido, e quando terminam esse projeto iam embora. Outros, porque achavam que mereciam mais atenção – nosso professor era um grande escultor de Curitiba, com projetos próprios, e não tinha paciência pra explicar passo a passo a cada um que chegava. O fato é que na maior inocência os novos pegavam os instrumentos que os antigos tinham separadado nos cantinhos, ocupavam espaços destinados a outras atividades e – pior e mais freqüente ainda – sujavam tudo e iam embora sem limpar porque achavam que tinha funcionário pra isso (o que não era verdade). A Beth às vezes já chegava indicando onde é que estava a vassoura… Antes mesmo da gente ter tempo de corrigir, esse pessoal já tinha ido embora.

Imaginem essa situação se repetindo toda semana ou todo mês, e certamente várias vezes num ano. Com desconhecidos mexendo nas suas coisas, sentando na sua cadeira, atrapalhando o seu trabalho. Sem maldade, mas invadindo e interrompendo. Nas primeiras vezes, você tem mais paciência para ajudar, ser legal, explicar o que está acontecendo. Mas em pouco tempo dava pra perceber que era uma guerra perdida, porque a gente não vencia falar com aquelas pessoas – pessoas que iam embora, que não pegavam amor àquele lugar. Chegou uma época que todo mundo estava tão de saco cheio que era francamente rude com os novos. Aí surgiu um terceiro motivo pra ir embora: porque as pessoas do atelier eram muito antipáticas.

Claro que quem chegava lá não tinha noção de tudo isso. Para eles, tudo era novo; era o primeiro trabalho, o lugar que aparecia vago, uma mesa que deixou suja. Pros antigos, era a milionésima vez que tudo aquilo acontecia. Os novos recebiam patadas que na verdade nem eram para eles, era contra todos os que vieram e ainda estavam por vir, contra uma situação. Porque as pessoas são assim, grupos são assim: territorialistas, impacientes por natureza e com tendência a proteger os seus e agredir os de fora. Isso acontece em ateliers, em academias, em locais de trabalho e qualquer lugar onde haja pessoas novas e antigas. Não é justo nem bonito – é humano.

Você é bonito?

Do número absurdo de cirurgias plásticas no Brasil, à campanhas da Dove e o que nossos próprias espelhos nos dizem – não existe um que diga em altos brados que se acha lindo, que é totalmente atraente e seguro de si. Quando alguém fala isso, em geral está sendo irônico. As pessoas freqüentam academias, emagrecem, fazem plásticas, vestem roupas legais e a tal da beleza parece estar sempre mais pra lá, como um arco-íris.

Às vezes eu tenho a impressão de que vemos novelas da Globo demais, revistas Corpo demais, olhamos para o espelho demais. Quando vejo essas fotos cheias de PhotoShop penso que estamos no mesmo processo que os egípcios, que tinham padrões tão rígidos que seus belos desenhos são todos iguais; eles não retratam ninguém em especial. Uma mulher é convidada pra posar pra Playboy e contrata personal, faz lipo, coloca silicone e quando você abre a revista ela é igual à pelada da edição anterior.

Aí nós esquecemos que as pessoas são mais do que traços físicos. Que quando nos apaixonamos por alguém, quanto mais idiossincrático o detalhe, melhor. Que cada pessoa vem acompanhada de tons de voz, de expressões, de maneirismos, de estilos, de maneira de andar, de risadas, de cheiros… de tantas coisas, tão únicas e misturadas que passamos a gostar de tudo o que faz parte desse conjunto.

Como escultora, eu detesto essa beleza padrão. Vejo pessoas gordinhas, enrugadas, diferentes e morro de vontade de pedir pra elas posarem pra mim. Porque são expressivas, são únicas, são elas. Pra que tanto esforço pra ser igual se o lindo é ser único? Eu não consigo imaginar que alguém que destrói o seu corpo com dietas que contrariam seu tipo físico; que arranca costelas ou que usa espartilhos; que corta pedaços ou coloca plásticos na procura do volume ideal; que luta uma luta cada vez mais ingrata contra o tempo – eu realmente não consigo acreditar que alguém seja capaz dessas coisas e, ao mesmo tempo, esteja conectado com a sua própria essência.