A mudança de Arthur

História linda e emocionante sobre yoga, disciplina e persistência. Impossível não vibrar.


Valeu, Regina (aqui e aqui)!

Anúncios

Você vai se sujar

Eu realmente não sei o que a tal mulher esperava de um curso de Defesa Pessoal para Mulheres – táticas para convencer o agressor, dicas dos melhores tênis de corrida pra usar na hora de fugir? Porque foi só o instrutor começar a nos ensinar como e onde bater que ela se revoltou. Disse que era contra aquela cultura de violência, que violência não se combatia com violência, que bater numa pessoa tiraria a razão dela e a igualaria com o agressor, e ela não aceitava isso. As outras participantes – eu entre elas – ficaram olhando com cara de espanto, de alguém pagar caro por um curso e ficar contra as premissas básicas do mesmo logo nas primeiras horas. O instrutor foi obrigado a se posicionar, e lembro que ele começou assim:
– Se você está seguindo o seu caminho e alguém surge para te agredir, você tem que ter uma coisa bem clara na sua mente: você vai se sujar.

Quando algo ruim ou muito ruim acontece, dá vontade de ficar quieto e esperar passar. Pra ver se ignorando a situação ela vai embora, como se fosse um mero pesadelo. É uma tentativa de voltar ao estado anterior das coisas, ao que havíamos programado. O problema é que não há estágio anterior a se voltar. Algo ruim atravessou nosso caminho e sempre ficará registrado. A única coisa a ser feita é tentar tornar essa recordação menos dolorosa. As minhas piores lembranças são de coisas que eu deixei acontecer. Tento mudar minhas recordações e fazer de conta de que fiz algo, mas a mente não se convence. A certeza da covardia, taí uma idéia difícil de se conviver. Tolero bem pensar que fui imprevidente, exagerada, injusta, imatura, radical, escandalosa, vingativa, egoísta; não suporto pensar que não fiz nada. A concepção de vida que a vida tem me ensinado é de que ninguém é puro nesse mundo. As posições mais radicais e os idealismos sem concessões são sempre dos jovens, sempre dos que ainda fizeram muito pouco. Ou de quem viu a vida passar pela janela. Viver é um contínuo colocar os pés na lama, não se reconhecer nos seus atos e ter que reescrever o que um dia parecia correto.

Coisas grandes e pequenas

A semana inteira me vi às voltas com o problema de receber de volta o dinheiro que já havia dado a uma fotógrafa por uma foto de espetáculo. Encomendei a foto para dar de presente, e jamais imaginaria que a fotógrafa resolveria ficar com o meu dinheiro e não me entregar a foto. Prestem atenção que estou sempre falando a foto, ou seja, encomendei apenas uma. Dei a ela quinze reais e é por quinze reais que tenho ligado, mandado e-mail, me aborrecido, odiado.

Outra maneira de ver as coisas é dizer – “São apenas quinze reais, o que se compra com quinze reais? Deixa isso pra lá, se aborrecer por tão pouco não vale a pena”. Essa é a postura que minha família sempre teve, a teoria do ser superior ou do tão pouco dinheiro. Na minha adolescência, durante oito anos, minha mãe não recebeu aumento por causa do FHC. Nenhum aumento, nem reajuste, todo o funcionalismo público. Foi o pior período da minha vida, com a minha mãe surtando todo mês, mostrando contas, recebendo ajuda dos parentes. Nós literalmente contávamos moedas, tudo nos fazia falta. Por causa dessa questão do dinheiro – que realmente era grave – ela pode me controlar como nunca. Bastava eu desagradá-la para ficar sem dinheiro pra nada, não tinha nem como pegar ônibus. O motivo para eu não poder arranjar um emprego era sempre o mesmo: “Não vale a pena você sair pra trabalhar por tão pouco”. O que não foi colocado em palavras era que a idéia de eu ser vendedora ou secretária era inaceitável. Ceder a isso, pra minha mãe, era muito mais humilhante do que receber ajuda dos parentes. Meus primos tinham cursos de inglês, francês, colégios particulares e melhores faculdades, eu não poderia ter um empreguinho. Entre os argumentos e boicotes da minha mãe, passei aquele período infernal sofrendo e sem fazer nada. Hoje eu teria feito tudo diferente.

Minha tia deu aula durante meses a um ex-professor meu, que entrou no mestrado graças a ela e nunca pagou. Ela não foi atrás e acha humilhante ir atrás. Meu irmão substituiu uma professora uma manhã inteira numa faculdade; lá ele soube que aulas geminadas custam mais caro, mas a professora lhe pagou pelo valor de aulas individuais. Ele não disse a ela que sabia o verdadeiro valor da hora aula, nunca cobrou o dinheiro que ela desembolsou. É a tal superioridade moral deles. Eu que sempre fui errada por cobrar, me taxam de vingativa e mesquinha. Nessa de serem superiores moralmente, eles passam a vida incapazes de levantar a voz para quem francamente os engana. O problema não é quinze reais, cem reais ou mil reais, e sim aprender a ter voz. Pra isso é preciso fazer e reclamar assim que acontece. Quem não sabe cobrar o pequeno, fica enfraquecido na hora de lutar por algo grande.
Cometera um gigantesco erro psicológico ao pensar que o fato de submeter-me a você nas pequenas coisas não significava nada, pois quando o grande momento chegasse eu seria capaz de reafirmar a minha vontade graças à minha natural superioridade. Mas não foi isso o que aconteceu: quando o grande momento chegou, minha vontade havia me abandonado. Na verdade, na vida não há coisas grandes ou pequenas: todas as coisas têm o mesmo valor e tamanho.
Oscar Wilde/ De profundis

Os lindos

As pessoas mais inábeis na vida em sociedade, que eu conheço, sempre foram os lindos. Algumas vezes nem são tão lindos quando os conhecemos, são apenas muito bonitos. Ou seja, um resquício da beleza original, da época que foram indiscutivelmente lindos. Quando eu digo indiscutivelmente, falo daquela lindeza unânime, sem esforços, que atrai olhares em todos os ambientes, que mesmo quando nos desagrada não conseguimos negar. Geralmente são pessoas de olhos claros, porque nesse país onde quase todo mundo têm olhos castanhos ou pretos, ter olhos claros já é meio caminho pra ser considerado lindo. As mulheres, de preferência, são loiras – e para valorizar ainda mais seus atributos, deixarão o seu cabelo sempre longo. Você vê mulheres de cabelos crespos, castanhos, ondulados, pretos, ruins ou lisos fazerem todo tipo de experiência e cortes radicais, menos as loiras. Porque para elas o seu cabelo é como um patrimônio tombado, algo intocável, parte fundamental de uma lindeza que elas não pode abdicar nem por alguns meses. Os lindos, sejam eles homens ou mulheres, crescem em meio a elogios, pais orgulhosos, pessoas que se atiram aos seus pés e sempre lhe dizem Sim. As roupas lhe caem bem, os óculos lhe caem bem, os aparelhos não atrapalham em nada, até o desleixo os deixa charmosos. Eles não precisam se esforçar pra agradar, aprender a contar piadas, ser o confidente da turma, tirar as melhores notas ou qualquer um desses recursos que as pessoas menos favorecidas pelos deuses da estética fazem. Para eles, basta estar e sorrir.

Só que todos esses recursos que a gente aprende para compensar a falta de lindeza servem de alguma coisa. É raro encontrar um lindo que saiba ouvir, puxar um bom papo ou descontrair um ambiente. Muitos deles são – não tem como definir melhor – completos idiotas. Burros, incultos, sem noção, desagradáveis. Só sabem falar si mesmos, só sabem agir em proveito próprio. Quando o tempo passa e o lindo deixa de ser a criança fofinha, a pessoa mais popular da turma ou o gostoso do ambiente de trabalho, o estar e sorrir pára de fazer efeito e resta apenas o egocentrismo.

Eu joguei pedra na cruz!

Foi só na internet que eu entrei em contato com um tipo de expressão que não sei se chega a ser blasfemia: não são os xingamentos aos santos católicos, e sim explicações sobre o que a pessoa teria feito de errado à figuras (ou momentos) sagrados e que explicam sua má sorte na vida. Pedi ajuda dos amigos para reunir algumas. Quem souber de outras, é só colocar nos comentários:

Eu dancei pole dance na cruz.

Fiz o Santo Sudário de canga

Julie: Eu joguei pedra na cruz e acertei no saco de Jesus Cristo
Usei o Santo Sudário para limpar a bunda
Eu fui na Santa Ceia usando a mesma sombra que Jesus

Viviane: Brinquei de amarelinha no Santo Sepulcro
Colei chiclete na cruz
Enxuguei a mão no Santo Sudário

Ricardo: Eu colei “me chuta” nas costas de Jesus Cristo
Arranhei o camelo de Jesus no estacionamento da Santa Ceia
Joguei as fotos pornô de Jesus e Madalena na net.
Joguei tachinhas enquanto Jesus passava na via sacra

Cristiane: Fiz pátina na mesa da Santa Ceia

Birdaum: Piquei salsinha na tábua dos dez mandamentos.

Ligia: Eu lavei calcinha na tábua dos dez mandamentos.

Bruno: Eu devo ter jogado Pedro na cruz. E pedras nele.
Eu devo ter jogado pedra no Arlindo Cruz (não é religiosa mas é genial!)
Eu joguei pedra, papel e tesoura na cruz.

Inagaki: Devo ter dançado o quadradinho de 8 na frente da cruz
Fiz brincadeira do copo na tábua dos dez mandamentos.

Personagem Félix, de Amor à vida: Limpei o chão com o Santo Sudário.
Pratiquei tiro ao alvo na cruz e surfei na tábua de Moisés.
Coloquei um casal de cupins na arca de Noé.

Ivan Santos: Eu colei babalu na toalha da ceia de Cristo

Silvinha666: Pendurei a calcinha na coroa de Criso.

Élan

Uma vez a escola estava pensando em fazer uma intervenção flamenca. Estava tendo um evento de dança que se dizia universal, mas como não tinha flamenco o plano era aparecer lá pra mostrar, mesmo sem sermos convidados. Minha sugestão de aparecermos como pessoas comuns não teve boa acolhida. Acharam que se era pra mostrar o flamenco, que fosse com todos os seus poás, flores e saias longas. O que havia por detrás da minha sugestão é o fascínio que sinto por pessoas dançando com roupas comuns. Isso evidencia mais ainda a qualidade dos movimentos, de uma maneira que é difícil explicar mas muito fácil de entender. Se vemos uma mulher de tutu, ou com a barriguinha de fora cheia de véus, ou de coque e peineta, já sabemos o que esperar, a roupa informa o que assistiremos. Quando alguém está vestido como todo mundo, de jeans e camiseta, é unicamente a sua movimentação nos transmite algo.

**

Vi um documentário uma vez, que falava de um violinista virtuose cujo nome não lembro. Contaram a história de uma visita que ele havia feito a uma escola, conhecer e estimular os pequenos futuros violinistas. Os alunos não chegavam à adolescência. Como é de praxe, num determinado momento quiseram aproveitar a visita e pediram que o Virtuose para tocasse um pouco. Ele estava sem seu famoso Stradivarius; sem se fazer de rogado, ele pegou emprestado o violino de uma das crianças e começou a tocar. O professor contou que foi fascinante: “O violino era um violino barato, evidente  que não soava como um Stradivarius. Ao mesmo tempo, por detrás de um violino ruim, ainda era claro que estavam ouvindo o Virtuose, com todas as suas qualidades e expressividade”. O menino, ao receber seu violino de volta, estava pasmo em perceber que sonoridade magnífica o instrumento potencialmente possuía, mas que ele jamais havia conseguido tirar.

Abraço

Uma das avós da Viviane estava hospitalizada e – como em toda família grande e unida que se preze – foram todos para o hospital quando as visitas foram liberadas. Eles encheram o quarto, estavam em quase vinte pessoas. No quarto ao lado, uma família de ciganos causava um exagero parecido. Um dos tios-avôs da Viviane era desses homens que infelizmente o mundo não tem produzido mais, da geração que viveu os anos 70: praticante de diversas filosofias orientais, amigo da comida natural, adepto de terapias alternativas, com maneira holística de ver as coisas, um viver cheio de paz e amor. Num certo momento ele desceu, foi até as árvores que ficavam na frente do hospital e deu um longo abraço em uma delas. Quando estava voltando, um dos ciganos que assistia a cena lhe perguntou:

– O que você foi fazer?
– Eu fui fazer um pedido a árvore. Pedi para chover, porque minha irmã gosta muito de chuva.

– Humm, tá bom – respondeu o cigano, pensando aquilo que eu e você pensaríamos. Ainda mais num dia daqueles, com o céu limpo e sem nuvens.

Poucos minutos depois do abraço, surgem nuvens não se sabe daonde e começa a chover. Depois da chuva, o tio desce de novo e vai abraçar a mesma árvore, desta vez para agradecer. Na volta, encontrou o mesmo cigano, que lhe perguntou:

– Você aceita pedido de fora?

Casa

Eu não aproveito o fato de morar em casa da maneira como eu havia idealizado. Não faço refeições ao ar livre, não passo as noites contemplando o céu – se bem que o céu de Curitiba raramente é contemplável. No início usava bastante a rede; quando a vizinha construiu um muro alto, peguei uma certa birra e não gostava mais de ir lá, só pra não olhar aquela monstruosidade. A birra passou (um pouco) mas o hábito se perdeu. O jardim de inverno, ou melhor, a tentativa de jardim de inverno, nunca ficou tão bom quanto poderia. Não cultivamos os temperos que um dia quisemos cultivar. No fim – cai água de um telhado, de um lado da cobertura de trás, do outro lado, e mais a área de circulação – nem tem tanto espaço para ter plantas como parecia. Os vasos que tem lá atrás são aqueles que um dia foram da floreira, que ganharam uns quatro tipos de plantas diferentes e nenhuma deu certo. Estávamos convencidos de que nada nasceria lá e trouxemos tudo para baixo. Todos os nossos vizinhos (como, como?) conseguiram prosperar com suas floreiras, e a minha casa é a única que não exibe flores o ano inteiro. Nem com o cachorro – outra das grandes vantagens de morar em casa – eu aproveito tanto quanto gostaria. Ela acostumou de tal forma com a recompensa, que mal faço carinho e ela já começa a uivar de impaciência, querendo logo o que tem direito.

 

Só que tem a ida diária ao varal. É o meu encontro marcado com o tempo, a atmosfera e o céu. O fato de fazer isso de pijama, de roupão ou de roupa de sair sempre me faz pensar em liberdade. Não preciso passar por um elevador, uma portaria ou marcar um horário – alguns passos e já estou lá fora. É na ida ao varal que sempre penso: como é bom morar em casa, tenho que aproveitar melhor o fato de morar em casa.

Certeza

Não sei se era a época da minha vida, ou se era porque eu fazia aquilo desde que me entendia por gente, o fato é que todo mundo à minha volta sofria de dúvidas artísticas menos eu. Lembro de uma falando que demorou pra se arriscar a esculpir porque tinha dúvida de se seria capaz de produzir algo belo. Isso jamais havia me passado pela cabeça. Enquanto outros se debatiam em questões filosóficas em busca de inspiração, eu ia lá e fazia. Uma coisa bem infantil, no melhor sentido do termo. Alguns trabalhos me agradavam mais e outros menos, mas eu jamais sentia dúvidas sobre o que fazer e se conseguiria fazer. Hoje acho que minhas certezas eram exageradas e chegaram a me prejudicar, mas isso não vem ao caso. O que me faz falta é o sentimento de certeza que eu tinha naquela época e que nunca mais se repetiu, sobre qualquer assunto.

Nada parecido com o que eu vivo em relação ao flamenco. Quando o Luiz me encontra depois da aula, ele já aprendeu a ler meus estados de espírito – posso chegar e me sentar em silêncio, levando muito tempo até decidir falar; posso chegar saltitante e despejar todas as novidades do dia. Se dá tudo certo na aula, se pego os sons e entendi os passos, tudo está bem. Eu amo o flamenco e ele me ama, e temos um longo futuro juntos. Só que meu sentimento geral tende mais para: não gosto das minhas mãos, meu sapateado é lamentável, minha interpretação é fraca. Quando vi o vídeo do espetáculo fiquei péssima- o que eram aqueles braços moles, meu deus?

clica e aumenta!

Existe um mundo, um lugar dentro de nossas mentes, onde as dúvidas não penetram. Eu sei que existe.

Caridade

Fomos ao Hospital Evangélico doar algumas roupas. Hospitais são lugares chatos para estacionar. Achamos uma vaga na praça em frente ao Hospital, o Luiz ficou no carro e eu a atravessei com a sacola na mão. De longe já pude ver um carro parado bem em frente à rampa do hospital, por onde as ambulâncias passam. Eu me aproximei da casinha onde fica o vigia quase ao mesmo tempo que a motorista do carro. Enquanto eu pedi autorização ao vigilante para ir até o Setor de Voluntários, a mulher passou por detrás de mim e depositou duas sacolas no chão. Ela nos interrompeu e disse pra ele:

– Trouxe isso daqui pra doação. Leve lá pra mim, fazendo o favor.
– Minha senhora, eu não posso me afastar daqui.
– Então peça alguém pra levar.

Dito isso, entrou no carro e foi embora. Como era o meu caminho mesmo, disse para o porteiro que não precisava chamar ninguém, porque eu mesma levaria.

As pessoas conseguem ser insuportáveis e arrogantes até na hora de fazer uma doação.

Poucos e bons

Eu me angustio com a quantidade de bandas e cantores imperdíveis que surgem todos os dias. Ou a quantidade de material para download, os compositores, os intérpretes, as gravações raras. Não conheço nem metade desses shows que vêm (ou não vêm) para o Brasil e deixam as pessoas na expectativa, indignadas com o preço dos ingressos, economizando para viajar. Ouvi falar de alguns, e é provável que goste de umas músicas deles sem saber, mas simplesmente não encontro tempo e nem disposição para me manter atualizada. Tenho poucos CDs, e desses CDs sempre acabou ouvindo um ou dois. Para as conversas, até seria interessante conhecer mais, mas para o meu prazer acústico o pouco que eu sei já me faz feliz.

***

Eu tinha um desses planos de saúde que a gente pagava meia consulta, e o manual com a relação de médicos era quase um romance. Páginas e páginas de todas as especialidades possíveis, médicos espalhados pela cidade inteira. A solução era perguntar para os amigos que médicos eram bons, e depois procurar as pessoas lá. No tempo em que eu não fazia isso, descobri que recém-formados entram em tudo quanto é plano, e muitas vezes a gente chega num médico e ele parece ter faltado justamente a aula que fala do seu problema… Uma vez fui numa ginecologista tão ruim que eu expliquei pra ela o uso do diafragma. Para conseguir atestado vagabundo serve; pra todo resto, vale mais ter um único e grande médico. O plano ideal teria uns três médicos em cada especialidade, mas todos muito bons.

***

Acho lindo mulher de salto, mas eu ando rápido demais pra isso. Não sei qual a explicação física de a gente fazer tanto esforço e mal sair do lugar quando está de salto. Sem falar que eu torcia muito o pé quando era adolescente. Isso para falar apenas de um dos muitos itens femininos que eu não adoto. Aos poucos a gente percebe que roupa, sapato, corte de cabelo, unhas, enfim, o visual, tem muito a ver com o quanto você está disposta a se preocupar e qual seu objetivo com isso. A feminilidade, visualmente falando, costuma estar associada a saias, cabelos longos e loiros, decotes.  No modo de agir, com sorrisos, insinuações e uma maneira toda especial de exibir e esconder. Ao não me dar ao trabalho de não ser assim, abri mão de muito mais olhares masculinos e, por consequencia, de muito mais poder de escolha. Só que para a minha felicidade eu preciso apenas de um…

Realização

Foi justamente no fim de semana que eu passei doente. Depois de passar mal o sábado inteiro e acordar mais ou menos no domingo, no final da tarde eu não aguentava mais de tédio e quis sair. Se eu soubesse, teria tentado dar um jeito no cabelo todo pra cima e a cara de morta. Vesti qualquer coisa e saí de qualquer jeito. Na loja aconteceu um encontro que já havia imaginado muitas vezes, e em todas imaginei que sentiria alguma coisa. Mas da minha parte não aconteceu nada. A vingança pode até ser um prato que se serve frio, mas quando as coisas esfriam demais também não dá certo. Éramos daquelas amizades intensas, difíceis, e no final de dois anos eu me sentia totalmente esgotada. Deixar de falar com ela foi deixar de saber de todas as fofocas pra me tornar parte delas.

Ela me viu primeiro. Quando olhei na direção dela, ela fez uma cara de quem está casualmente olhando para o lado, mas a vi me medir de cima abaixo e tive a certeza de que seus olhos estavam cravados em mim quando lhe dei as costas. Não senti o arrepio que imaginei, nem a vontade de tomar um banho de descarrego. Comecei a pensar no que ela viu, e qual o efeito do que ela viu. Ela parecia mais baixinha, mais cheinha (ela se orgulhava da sua gostosura) e com a lordose mais pronunciada. De mim ela deve ter notado que continuo tendo cabelo curto, quem sabe tenha reparado que está mais claro e mal pintado. Pelas roupas, viu que eu não me tornei nenhuma perua, que ainda sou fã de andar de tênis. Se se incomodou pelo fato de eu estar magra, seria pela expectativa de que todos engordam durante os anos. Aí pensei no detalhe que certamente a matou de inveja, algo que não estava em mim e sim no que a minha mão direita segurava: a mão do meu marido.

Na última vez que nos vimos, eu estava namorando o Luiz há poucos dias. Eu a encontrei numa secretaria, na faculdade, e ela disse que tinha seus informantes e que “a federal inteira” já estava sabendo que eu estava namorando e com quem. O sonho dela era casar e ter muitos filhos, e no Facebook (não sejamos hipócritas, claro que fui lá olhar) dela diz que ela está “num relacionamento”. Eu realizei o sonho do marido próprio e ela não. Pra algumas mulheres, isso é tudo.

Um solo

Pode ser um pouco demais querer falar da emoção de ser solista sendo que eu só vou dançar quatro tempos de doze, mas me deixa. Vai que esse é o primeiro e único solo da minha vida, então não posso deixar passar em branco.

Quem dança tem inveja e vontade de fazer solo, não adianta. Ele é uma promoção. Ficar na frente é bom, ficar no meio é bom, mas nada é tão atraente quanto a idéia de que por instantes o palco é seu. Meus esforços já me levaram boas posições nas coreografias, mas nunca antes ao melhor de todos. E nem era pra ser, pra falar a verdade. O próximo espetáculo é a reapresentação do espetáculo do fim do ano. Teoricamente, era pra ser tudo igual. Só que vocês não fazem idéia do grau de confusão, surtamento e alterações que acontecem no meio de caminho. Na prática, é um outro espetáculo, com outras pessoas em outras posições. Ouso dizer que será melhor em muitos aspectos, porque alguns meses fazem muita diferença na hora de entender um movimento.

Uma coreografia que a minha turma já dançava o ano passado tinha um pequeno solo. Dançávamos todos, e num determinado momento saía todo mundo do palco, a menina solava e nós corríamos atrás das coxias, porque o solo era curtinho e todo mundo invertia as posições na reentrada. Só que ela deixou de fazer flamenco desde o espetáculo do ano passado. Como ela não era da nossa turma e nunca ensaiávamos juntos, demoramos pra perceber que essa parte ficou sem ninguém. E a coisa foi indo, os ensaios avançando e essa parte vazia. Até que uma semana antes do espetáculo a coreografia foi passada pra mim.

Olha, não é fácil. Eu me senti igualzinho a crítica que fiz do Cisne Negro, sobre a solista ter que provar que merece o papel. Os primeiros momentos foram só de euforia. Só que a coreografia me foi passada sem a música. Eu tinha uma versão dela aqui em casa, de um outro espetáculo. Estudei por ela, pra depois descobrir que era muito rápida e praticamente sem entradas. Quando começamos a ensaiar com os músicos, eles tocaram outras coisas e tive que me tentar me encaixar. Se me encaixo ou não, se tem deixa ou não, se o movimento é difícil, tudo diz respeito apenas a mim. O que tiro dessa experiência é que perdoei todos os solos que não ganhei na minha vida e admiro ainda mais quem faz. Ter todos os olhares, todos os erros e acertos sobre você é de uma nudez muito grande. Pra fazer solo não basta ter mérito artístico, tem que ter fibra.

Encontro no além

Não sei porque insistiam tanto que eu seria médium. Nunca viajei por aí enquanto estava dormindo, nem vi espíritos, não falei com parentes mortos e muito menos previ acontecimentos. Não que eu um dia não tenha desejado tudo isso. Hoje acho divertido dizer para os que insistem que eu deveria desenvolver minha pretensa mediunidade que o corpo é meu e não empresto pra ninguém – se eles não usaram direito enquanto estavam vivos, por que eu tenho que ceder o meu? Por que o meu tempo dentro do meu corpo é menos importante do que o tempo deles? Que os tais espíritos encarnem, fabriquem o seu próprio corpo e o aproveitem bem, pra não ter que emprestar o dos outros no futuro. O único intercâmbio com o além que eu gostaria de ter, até o momento, seria encontrar o único amigo que perdi para a morte: o João. Só que se no além as pessoas continuam sendo o que é, encontrar com o João seria mais ou menos assim:

Eu entro numa ombrada, por uma daquelas portas duplas de filmes de faroeste. Dentro, um bar com mesas redondas de madeira e cadeiras combinando. Não reparo nos outros, nem ao menos sei dizer que existem outros. Como quem sabe a que veio, me dirijo ao fundo do salão e lá está o João sentado, muito à vontade. Ele sorri ao me ver, nos abraçamos e ele me oferece uma cadeira. Estou eufórica, digo que estou feliz em vê-lo, pergunto como ele está, ele diz que está bem, e depois desse curto momento percebo que estou falando com um amigo que já morreu, e todas as implicações que aquele encontro tem. Mil perguntas surgem na minha cabeça: quero saber como é a vida após a morte, se somos classificados de alguma forma, se existem ocupações no outro lado, se os que morreram participam de alguma maneira do mundo dos vivos… Ele olha no fundo dos meus olhos e diz:
– Não seja boba, não temos muito tempo. Pergunte algo realmente importante.

Ninguém nunca me conheceu e nem nunca me conhecerá como o João. Ele conhece as mesmas palavras vazias que eu sobre mundos, planetas e evoluções- estudamos as mesmas teorias, deixamos de lado as mesmas teorias. Se ele me dissesse, o que eu poderia realmente entender? Questões que até um segundo atrás pareciam importantes foram caindo uma a uma, suavemente, como areia numa ampulheta. É o mesmo amigo que me viu em tantas crises, e no espaço de alguns anos quase todas sumiram da minha memória. Ele que viveu pouco mais do que eu vivi até hoje; tempo o suficiente pra saber o quão difícil é estar vivo, da nossa ignorância pra tudo, do desejo e tentativas sempre às cegas. Eu era tão jovem quando convivíamos, e quando somos muito jovens cada ano faz muita diferença. Não tenho mais o mesmo olhar, não tenho mais as mesmas dúvidas; mesmo que ele não me vigie lá do alto, mesmo que não tenha lido um arquivo com o meu nome, basta olhar para saber. A própria presença dele já responde mais do que eu poderia desejar. De repente a pergunta surge clara, a única possível, a essência do que me atormenta a cada passo:

– João, tenho escolhido bem?

Ele sorri. Será que a pergunta foi tão boba, será que sou tão previsível?

– Você está feliz, não está?

– Muito, – respondo impulsivamente. E depois de pensar um pouco, respondo para mim mesma – muito.

– Então eu não há do que se arrepender.