Um café

Às vezes eu tenho essa impressão, ou quem sabe ilusão, de que tudo se resolveria num café. Que se sentássemos numa mesinha redonda e pequena, daquelas onde não cabem mais do que duas xícaras e o açucareiro, e se nós dois pedíssemos cada um o seu café – eu um carioca, e você não sei qual – que eles viriam pelando, acompanhados de uma mini-bolacha amanteigada, quem sabe uma água com gás. E estaríamos sem graça, com tanto barulho em volta, o cheiro delicioso de café, as pernas mal acomodadas e a obrigação da gentileza. Na minha cena, o simples fato de olhar nos olhos e sem intermediários nos tornaria também sem subterfúgios. E a boa vontade mútua e vontade de ficar em paz nos faria resolver tudo. Você veria que eu sou uma pessoa legal, escondida eu sei pela aparente antipatia dos tímidos. Em um certo momento – não sei se na hora de sacudir o saquinho de açúcar ou aceitar a tua bolachinha amanteigada – você perceberia que não tenho nada contra você, muito pelo contrário, até te gosto. E no final dos nossos ml já seríamos chegados como se nada um dia tivesse sido diferente. Porque aqui dentro não é diferente.
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Ou não

Acredito em muitas coisas, mas tento não assumir ideais (ou ideias, rótulos, conceitos, etc) de nada ou quase nada. De um lado, talvez eu seja meio traumatizada do tanto que já mudei de ideia. Eu fico pensando se tivesse feito tatuagem de tantos amores – leia “amores” num sentido amplo, e não de relacionamentos – que tive, de tantas coisas que achava que me definiriam pro resto da vida e hoje digo que foram na encarnação passada, do tão pouco que falam de quem sou hoje, que seria igual aquelas celebridades que têm que ficar tatuando em cima do nome dos ex. Por outro – e esse é o motivo principal – não assumo ideais porque acho tão chato ter que fechar um conceito. Não podemos pensar por hipóteses? Encher o universo de astros, duendes, vibrações e cores que nunca poderemos provar, mas também nunca poderemos não provar. Depois, ficar cansado de toda essa viagem e agir conforme o visível – coisa que costuma funcionar muito bem. Ou já que o nosso inconsciente é tão poderoso que não sabemos até onde ele vai, então tudo pode ser fruto do meu inconsciente, comigo, para mim e em função de mim. Eu sou a única variável que eu controlo e olhe lá… Não podemos assumir temporariamente que um monte de coisas, só pelo prazer que esse raciocínio pode nos levar, às novas imagens, novos mundos, novos pressupostos? Acreditar duvidando, para aquele momento, enquanto for legal, enquanto explicar e se for preciso desdizer tudo. Leela – se a própria vida não passa de um jogo, pra que colocar as ideias num estatuto tão mais especial. Não vejo porquê fechar com um e ignorar totalmente as delícias do outro. Deus é tão picuiento assim que se a gente não pode nem se permitir duvidar dele? Ah, Deus, dá uma reboladinha!

Inacessível

Não foi exatamente a primeira vez que eu vi a Fer, mas foi a primeira frequentando a mesma escola que ela. Ela tem muito anos a mais do que eu de flamenco e menos anos de vida, dois fatores que, juntos, tornam a nossa distância – digamos – artística bem grande. Era noite de apresentação, eu na coreografia mais básica e ela com uma coreografia mega difícil com outro bailaor. Os dois pilhados, nervosíssimos; ele, que normalmente é um amor de pessoa, sempre vira um bicho antes de apresentação. Naquele dia tentei conversar com ele e levei uma invertida. Ela eu não sei se fica nervosa sempre ou foi só aquela noite, o que eu lembro é que estava com a cara fechada e um vestido belíssimo – o que colocava mais uma pedrinha naquela já citada distância. Eu já sabia que ela namorava um dos guitarristas, o Ale. E quer coisa melhor para melhorar como artista do que ser bailaora que namora guitarrista? No final da apresentação, que eu não pude ver, vi ela e o namorado num banco, com expressões tensas. Só depois soube que ela embarcou para a Espanha em poucos dias.

 

Mais de um ano depois, ela foi e voltou, muita água correu e eu ainda tinha aquela impressão, da distância. Quem está começando sempre fica constrangido perto dos mais avançados, acha que ele nos olham com nojinho (e alguns olham mesmo). Depois de uma apresentação de fim de ano, fomos todos pro restaurante. Chegando lá deu tudo errado, apesar de termos feito reserva: lotado, na mesa que não cabia nem um terço do nosso pessoal, ambiente horrível e a maioria resolve ficar na parte de fora. Cena: estou sentada na parte externa. Na mesa ao lado, a Fer está com seu namorado guitarrista (Ale) e o cantaor. Como são poucos os músicos flamencos, os poucos que têm viajam o país inteiro e se conhecem. O nosso cantor (ou cantaor) está sempre causando e começou a listar os vários guitarristas do país e dizer o que gostava em cada um deles. De uns ele gostava da interpretação, de outros das mudanças, de outro o tanto que entendia de flamenco… terminou o relatório citando que nem diria o que gostava do Ale – e fez aquele típico gesto de mãos paralelas no ar, que indica o tamanho do órgão sexual masculino.

 

Aí a Fer, que já havia bebido muito, dá um largo sorriso, bem característico dela, e diz com toda calma:

– Disso eu também gosto!

Cabô ali a inacessibilidade. E passei a gostar muito dessa guria.

Curtas de uma vida solitária

Certas ilusões nos são muito caras, a gente nunca deveria ser obrigado a perder. Como, por exemplo, achar que jamais encontrará uma cobra venenosa no portão da casa, já que mora numa cidade grande.
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São duas as coisas que demarcam a passagem do tempo: pessoas e TV. Quando há falta da primeira e ausência de hábito da segunda, você se pega sentindo fome depois lanchou de tarde e não viu que já passa das nove, ou engata um trabalho ou vídeos de gatinhos e quando vê é quase uma da manhã.
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Eu que cuido, mal e porcamente, da grama da frente da minha casa. Pelo menos enquanto não consigo encontrar outra solução. Chego em casa, arranco um matinho; espero uma carona na frente do portão, arranco um matinho; volto do passeio com a Dúnia – matinho. Agora quando estou andando e vejo matinhos por aí, em qualquer terreno e lugar, sinto comichões. Não apenas tenho que me segurar pra não ir lá arrancar como fico medindo qual o melhor jeito.
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Eu não tenho um Wilson. Falo com todos os objetos da casa, indistintamente, que é pra não deixar ninguém enciumado.

Torombo

Talvez eu seja incontrolavelmente do contra mesmo. O grande bailaor espanhol Torombo veio dar um workshop de quatro dias. Nesses quatro dias, as pessoas se emocionaram com seus gestos teatrais, os objetos, as metáforas, as tintas, a agitação. Eu achei tudo interessante, mas não mais do que isso – interessante. É chato estar no meio de um grupo de pessoas tão emocionadas, no meio de metamorfoses diante daquele a quem atribuem tanta luz e, dentro de você, nada tchuns. Como eu disse, estava interessante. Mas daí dizer que eu não conseguia dormir quando voltava pra casa de tanta energia, que ele tinha aberto meu coração para o flamenco ou que minha percepção da realidade era outra… Olha, tenho mais de vinte anos de terapia nas costas e fiz trocentas dinâmicas de grupo. Já fiquei muito descalça em roda, já bati muita palminha com estranhos, toquei o solo com os pés, as mãos, o corpo. Pra arrancar aqui de dentro algo que nunca foi arrancado é difícil, já mexi em muita coisa. Não é má vontade, apenas não sou mais tão em branco. No final do curso tiramos fotos com os nossos certificados, e ri sozinha aqui ao ver que eu fui a única que tirou foto ao lado dele, e não agarrada com ele.

 

Todas as noites tinha confraternização e em nenhuma delas o busquei. No último dia, chego tarde no restaurante e sou obrigada a sentar numa mesa que ainda não estava ocupada. Só que o Torombo chegou mais tarde ainda e entre eu e ele ficou apenas um amigo. Se eu, quatro dias depois estava muito cansada, imagine ele, que deu mais de três horas de aula por dia, ensaiou e dançou, foi para todas as festas que fizeram para ele. Naquela noite, Torombo falava pouco e tinha uma expressão abatida. Meu amigo, honrado por estar ao lado do ídolo, puxa papo. Fala de si, do flamenco, do que viveu, faz milagres com seu castellano. E quando Torombo se virou para o meu amigo, eu li o cansaço nos seus olhos – e diria até que li o desejo íntimo dele de ser deixado um pouco em paz. Naquele momento eu vi o homem e não o clown. Um homem vivido, que leva a sua profissão muito à sério, e que encontrou na sua forma mais descontraída uma maneira de passar uma mensagem ao mundo. Que tinha ciência do quanto sua presença significava para cada um que estava ali e por isso tentava ser paciente, apesar dos desconfortos e exageros. Quando fui incluída na conversa e Torombo pediu papel e caneta para mostrar uns jogos de palavras – que em “creatividad” existe o cre, crea, ti, id, vida, dad -, me identifiquei com essa sua vontade de procurar na vida os sinais de como agir. Até com sua ignorância do inglês eu me identifiquei – quem de nós não é ignorante em alguma coisa? Só os muito limitados acreditam conhecer tudo. Somente ali, sentada perto de um homem cansado demais para manter uma máscara, eu realmente gostei do Torombo. Um Torombo que acho que só eu vi, que talvez tenha sido apenas um lapso. Sou mesmo uma do contra, totalmente impressionável diante das boas intenções.

Pequeneza

Eu e meus vizinhos nos mudamos quase ao mesmo tempo. Eles, um casal com um casal de filhos; nós, um casal sem filhos. Desde sempre eles brigavam muito. As paredes finas entre as duas casas praticamente nos permitiam ouvir as brigas como se fossem um programa de rádio. Perdi as contas de quantas vezes o cara saiu de casa. E mesmo quando não estão brigando, o casal nunca pareceu se dar bem. O cara passa horas lavando o carro e tem sempre uma expressão cansada. A mulher é uma grossa que chegou ao cúmulo de um dia destratar o filho do jardineiro porque ele quis fazer carinho no cachorro dela, pelo portão.

 

Aí eu me separei. Apesar de ter rolado climas horríveis, não foi por causa de nenhuma briga catastrófica, menos ainda quando estava tudo decidido. O Luiz foi saindo de casa aos poucos e acho que a vizinhança passou muito tempo na dúvida. Um dia, quando já fazia tempinho que eu estava sozinha e já não tinha como ter dúvidas, encontrei a vizinha pela primeira vez. Eu estava recebendo o cara que veio trocar minha cafeteira. Esta mulher parou e me olhou com uma expressão tão tão tão triunfante que vocês não fazem ideia. Ela “ganhou”, continuava casada e eu não.

Potência

Não é uma impressão, é uma certeza, quase físico. As coisas que eu faço, a energia que eu projeto no mundo, cai tão pertinho, menos de um metro de mim, que dá até desânimo. A metáfora mais próxima que consigo pensar é quando você faz uma força danada pra jogar um papel pra longe de você, e ele suavemente rodopia perto e para na mesma distância que pararia se você tivesse esticado o braço, ou menos. Não sou a única, vejo em várias pessoas, acho que a maioria se sente assim. Uma luta muito grande pra coisa chegar apenas um pouco mais pra lá. Ou como se a gente gritasse numa caverna que não devolve o eco, ou jogasse numa nuvem e a coisa se perde lá dentro, sem ruído ou qualquer pista. Ou como jogar garrafas no mar…

Aí um dia você está sem nada pra fazer e stalkeia alguém. E descobre que alguns tem – sorte, potência, possibilidade, pacto com o demo? – a característica contrária, de que tudo o que lança vai a muitos metros, cresce, encontra resposta, fica ainda maior, dá frutos. Uma pessoa igual a mim, com os mesmos sonhos e idealismos, mas tão outra. Daqui onde estou parece até mentira.

Turbilhão

Eu estou quietinha, encolhidinha no meu canto, sem fazer movimento algum. Até porque eu não sei qual movimento faria. E pensei – não vou fazer movimento algum, logo, a vida vai continuar a mesma. Um irmão foi pro Oriente e voltou. Outro irmão partiu pra longe. Um amigo virou paixão, depois grande amigo, depois decepção. Já um nome distante e culto se tornou um amigo, mesmo que ainda distante e culto. Minha grande amiga vai ter de volta um filho em casa, depois de tanto sofrer com a partida, e com a filha reedita coisas que já vi. Vi o que parecia o fim se transformar em uma dádiva para minhas professoras. Uma que já se considerava solteirona vai casar, outra enlouqueceu com um único homem. Virei inimiga pública número um pra algumas pessoas. Mudei de ascendente. Dancei uma patada de flamenco. Ganhei medalhas. Escrevi, corrigi, esqueci, voltei a corrigir. Continuo detestando cozinhar. Vi um show da Salmaso. Como pode tudo isso, se estou aqui, nesse mesmo lugar.

Cobrador-amigo

Assim que assumiu um horário no tubo em frente à favela, o traficante local já foi falar com ele, dizer que ali era o seu ponto, que os seus protegidos deveriam passar sem pagar. O cobrador disse que também não era assim, que não podia ser tudo liberado porque ele é um empregado que tem que responder a uma empresa. E pra qualquer coisa que acontecia no tubo sempre tinha um olheiro, fosse um pessoal que fica lá rondando ou até mesmo dentro das casas da favela. Eles queriam que todo mundo que entrasse no tubo com mercadoria já fosse automaticamente considerado um “cliente”, ou seja, roubado. O cobrador foi contra, disse que com os amigos dele não podia. Aí quando chegava alguém – “Também esses burros compram ventilador, TV grande, aquecedor e vai pro tubo na frente da favela. Por que não pegam um taxi?” – e o cobrador sabia que os olheiros já se agitavam todos. Ele falava discretamente pra pessoa: “Oi, chega aqui perto de mim, vamos bater um papo” e trazia a mercadoria para junto de si, só liberando quando o ônibus chegava. Os que entravam na onda eram poupados – o olheiro passava, dava uma olhada e ia embora. Com os antipáticos a coisa era muito rápida: um entrava pela porta aberta ou pulava a roleta do tubo, pegava a mercadoria e jogava para outro esperando do lado de fora e ambos saiam correndo.

Velhinha

A decadência do corpo não é nada divertida, mas sempre acho que vou gostar de ser velhinha. A gente não sabe, na verdade, como vai lidar com a perda da juventude, especialmente da beleza, até acontecer. Não cheguei lá, mas pelo andar da carruagem, acho que sou do time que vai deixar cair. Não por ser contra as plásticas em si, mas por não conseguir me imaginar submetendo meu corpo a violência de ser cortado, esticado e a longa recuperação. Poucos dias em casa já me colocam louca, quanto mais passar meses sentindo dor, esperando desinchar, etc. A velhice cheia de rugas tem uma dignidade que me atrai. Adoro o foda-se que velhinhos bem resolvidos têm pra tudo. E passar ao lado de uma obra ou um grupo de homens sem ter que apertar o passo ou fazer cara de poucos amigos sem dúvida será um alívio.

Gente-personagem

Talvez pela escrita ser tão importante na minha vida, eu realmente nos vejo como personagens literários. Cada um, inclusive, tem sua nota fundamental, aquela que permeia todas as suas ações e serve de título da obra. Uns têm vida recheada de casos amorosos, outros de reviravoltas financeiras, uns galgam um a um os degraus do sucesso, enquanto outros já nascem com tudo e abandonam para se tornarem Budas… isso para não falar dos proustianos, que precisam apenas do cheiro de bolinhos para sentir tudo com muita intensidade. Então não sei, realmente, como formular uma regra para a vida. Não sei se existe uma solução definitiva, por mais bacana que ela pareça, seja Deus ou carpe diem. O que eu intuo é que protagonistas – e todos somos, pelo menos para nós mesmos – não são para nascer, crescer, casar, ser feliz para sempre e morrer. É o que a gente tenta, não é? Talvez gente-personagem seja feita para quebrar, cair de cara no chão, experimentar pelo menos uma vez a solidão profunda. Avançar velozmente e se descobrir errado, fugir e dar de frente com o próprio destino, como Édipos. Quem sabe a maior tragédia não seja o sofrimento, e sim não saber qual deles abraçar.

(Esta versão, sem legenda, é mais legal)

Fronteira

O pessimismo desenfreado, de achar que se nada vejo na minha frente é porque não há nada, me parece sem sentido. Basta olhar em volta, ou olhar para o próprio passado. A nossa visão é limitada até para a nossa própria vida, planos e dimensões do Eu; que dirá sobre o que vem a seguir, das mudanças dos outros, das conjunturas mundiais e acidentes de percurso. O impensável e louco de um dia pode ser o totalmente natural e viável de amanhã. Crer que sabemos e controlamos todas as variáveis é de um sentimento de onipotência muito burro. Se nada sabemos do que vem à seguir, por que não acreditar que vem algo bom e que nos fará felizes? Dizem que pensamentos positivos atraem coisas boas.

 

Acho que o termo que melhor explica esse otimismo é . A fé é um apegar-se ao invisível e acreditar que seu fim nos será favorável, certo? Essa crença pode nos fazer rejeitar o mais ou menos por acreditar que o que vem pela frente é muito melhor. Com fé podemos olhar para o nosso presente medíocre e não nos deixar afetar por ele, porque andamos olhando o horizonte. A fé pode ser a única coisa que temos, quando o mundo inteiro desacredita de quem somos e do que ainda podemos. Mas – não pergunto retoricamente e sim na minha própria vida – até que ponto levar a fé, qual a fronteira entre o otimismo legítimo e a simples loucura? Eu não sei.

Curtas sobre a vida, esta pândega

Você vê uma situação lá longe, bem longe, em outro ponto cardeal. Vira pra amiga que está ao lado e “olha só aquilo. Ma nunca que eu me meto numa dessas”. Adivinha onde você estará em alguns meses?

 

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Se conserta o mundo em três frases, não preciso olhar RG, avatar, perguntar se viu Michael Jackson preto nem nada: já sei que é jovem. Quero ver ser assim depois que passar da idade dos enta (quarenta, cinquenta…). Aí sim eu vejo mérito, nunca antes. Porque mesmo àqueles que mal saem do sofá, a vida ensina. E a didática da vida não é essa que nós temos hoje, que não pode nem relar a mão. A vida ensina com chinelada na cara, que é pra doer e humilhar ao mesmo tempo.

 

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Ele pode ter sentido a tua falta, muito. Pode ter olhado com tristeza para a tela que nunca mais terá uma mensagem tua, para a porta que nunca mais te dará passagem, para a risada… ou pode ter simplesmente dado de ombros, ter dito que foi mal, esquecido o assunto com a facilidade que se esquece a anotação de um post-it. Seja lá como foi, para ambos, um dia passa. Tudo que foge ao nosso olhar passa.

 

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Eu lhe falei que mantinha muitas das minhas neuras e fraquezas atrás de uma porta muito específica do meu inconsciente. E ele – jovem, claro – me falou com a presteza de um mágico que uma fraqueza reconhecida se torna força, e abandonou o assunto – jovem, claro – porque aquela máxima resolvia tudo. Veja bem. Algumas fraquezas podem, talvez, quem sabe, dependendo, se transformar em força. Mas o mundo continua aí, as portas fechadas pra esconder a bagunça e os resultados das nossas atitudes limitadas produzindo filhotes limitadinhos.

Mais Drexler, menos Richard

Artistas como Keith Richards são muito engraçados e ao mesmo tempo não são. Existem duas alternativas para trajetórias assim: ou não há qualquer mérito, ele é um sortudo que estava fazendo a coisa certa na hora certa, ou ele nasceu com uma luz e uma genialidade que o colocam acima da avaliação dos mortais comuns – ou seja, conforme-se que uns poucos não seguem nenhuma das regras de bom senso. Com isso, eles apenas não se estrepam como conseguem muito mais do que você.

 

Eu gosto muito de artistas como o Drexler. Um cara que tem um talento enorme e indiscutível, mas olhamos pra ele e vemos o trabalho duro. Ele escrevia, estudou violão clássico, foi gente comum e médico até os trinta. Drexler parece personificar tudo aquilo que lemos sobre o esforço e o bom caráter. Eu olho para o Drexler e vejo mérito, em níveis profundos. Mais do que isso: Drexler me faz acreditar num mundo melhor. No Mundo Drexler, as pessoas amam seu trabalho e o reconhecimento vem na medida do esforço. No Mundo Drexler, a fama, o talento e o dinheiro andam juntos com a pureza de propósito, com os bons sentimentos e a vontade de melhorar cada vez mais. Não estou dizendo que ele é perfeito como ser humano, claro que não, mas não é um porra louca mundialmente famoso sem mais nem porquê. Vejam as entrevistas e os documentários sobre Drexler, todos apontam pra mesma direção. O Mundo Drexler não é o meu, pelo menos não agora, infelizmente. Conheço mais gente que eu gostaria de ajudar do que posso, porque eu também não estou numa posição confortável. É como se esse outro mundo fosse uma rua que corre paralela; não apenas não consigo mudar de faixa como não conheço ninguém que o saiba. Mas eu quero muito esse mundo, quero luz, justiça e beleza. Ele me faz acreditar que em algum lugar o bom existe e saber disso não deixa de ser uma forma de alento.

Abismo III

– O vento, você sente o vento? O coração disparado e a adrenalina?

E se eu te dissesse para não pular? Ninguém disse que você só tem uma semana de vida. Ao contrário, são tão longos os dias que você têm a sua espera. Muitos deles têm bolinhos quentes, cervejas geladas e amigos. Diria até alguns desses dias serão gloriosos. E que… Não, eles não têm esse vento e essa adrenalina. 

Adiantaria se eu te dissesse para não pular?