Bauman na arara de promoção da C&A

Hanger for clothes

Eu li, acho que no livro da Glória Kalil, que pra saber o valor da roupa é só dividi-la pelo número de vezes que você usou. Essa conta é pra dizer que a peça cara que resiste a muitas modas e se torna essencial no seu guarda-roupa pode ter saído mais barato do que a blusinha vagabunda. Só que eu fiquei cismada em perceber que algumas peças minhas saíam quase de graça, porque acabo favoritando peças que comprei em promoção. Uma calça jeans que usei até esburacar e que, à primeira vista, me pareceu muito roqueira pra mim. Tem uma blusa de moletom, e além de eu não ser chegada em moletom, é rosa.  Tento me livrar dela e não consigo. Ambas estavam naquelas araras da C&A de últimas peças, quase de graça. Fiquei cismada que tipo de coincidência ou masoquismo é esse, e percebi que talvez o que melhor explique isso seja Bauman (!!!).

De acordo com Bauman, o nosso excesso de opções não nos deixa felizes e sim eternamente insatisfeitos. Porque nunca conseguimos provar tudo para ter certeza antes de escolher. Então, temos as tais relações líquidas, sempre na expectativa de que a próxima será melhor, porque a certeza de ter feito a melhor escolha é impossível. Quando você não tem escolha, simplesmente aceita. Como os casamentos antigos, onde no máximo você escolhia entre o vizinho e o sujeito que frequenta a sua igreja. Minhas peças em promoção me tiram a ansiedade da escolha perfeita, faço mais esforço para me adaptar do que normalmente faria e, como resultado, somos felizes. Isso me lembra quando eu herdava roupas das minhas primas. Quem era rico o suficiente pra nunca herdar roupa não sabe o que é esperar numa peça escolhida por outra pessoa a renovada no guarda-roupa que não poderia acontecer de outra forma. E o quanto isso às vezes é muito legal.

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Brilho solitário

latas de tinta

Não que seja um bom momento pra isso, mas já sei que talvez nunca seja, então finalmente vou retocar a fachada da minha casa. Meus vizinhos já pintaram várias vezes e sou a única que nunca. Não sei se é a crise, ou se, como ele mesmo disse, é por ser aposentado, aparentado da vizinha e pegar só coisa rápida, mas o orçamento foi três vezes menor do que me fizeram há uns meses. E passou num crivo dificílimo: a Dúnia gostou dele. Pensar em mantê-la o dia inteiro presa ou até mais para quem alguém pudesse pintar a casa sempre me partiu o coração de dona de cachorro. Com ele, ela vai poder ficar solta, certamente rodeando tudo, alternando pedir carinho e apenas observar e – tenho certeza – no fim do dia terá umas gotas de tinta no pelo. Recebi minha pequena lista de materiais e tive que mandar fazer a tinta, porque pronta só tem branca e uns tons de bege. Peguei o catálogo Suvinil, aquele bolo de cores com mais tons do que o olho humano é capaz de registrar, e tentei achar um tom conciliasse desejo de cor mais vibrante versus parco orçamento. Não posso mudar minha fachada porque sempre baseio a descrição do endereço na cor, nunca localizam só número. Peguei as folhinhas e fiquei: quando é essa, e essa, e se mudar pra essa o quanto mais caro fica. Por fim, mandei fazer uma lata de “brilho solitário”. Escolhi daquele jeito que descrevi, mas me identifiquei e amei tanto, que abracei a lata e também estaria dizendo a verdade se dissesse: escolhi pelo nome. A cor da casa descreve a dona dela.

Amor demais

Comecei um festival Beatles na Netflix. Acho que só me falta ver um dos cinco que tem lá. Além deles, recomendo o do Canal NostalgiaA ironia é que eu nem me considero uma fã dos Beatles. Quem realmente era fã era o meu irmão, e se conheço todas as músicas deles e uma boa parte das de carreira solo do John, se deve ao fato de morar na mesma casa e não ter como fugir.

Tem trocentos estudos e teorias sobre o que torna os Beatles tão inesquecíveis. Uma das coisas que me toca, é a maneira como todos parecem ser pessoas bacanas. Quando jovens, eles são alegres e espirituosos; mais velhos, eles tentam tornar o mundo um lugar melhor. Dá impressão de que seriam ótimas pessoas para se ter como amigos. E que, se eles surgissem hoje, também fariam sucesso.

MAS, também acho muito triste a maneira como é o próprio sucesso que enche o saco e os destrói. O último que eu terminei foi sobre John e Yoko. Num certo ponto um dos entrevistados diz que era muito difícil ser (ex)Beatle, que todas as pessoas que olhavam para eles – dos fãs isolados e histéricos a quem fazia sua segurança, atendia seu quarto – queriam alguma coisa, estavam famintos. Lembrei da Amy Winehouse, que também foi devorada pelo sucesso. Ela decepcionou os fãs num show que se sentou no palco e se recusou a cantar. Os fãs ficaram magoados, mas aquela foi a única maneira que Amy conseguiu de parar aquela máquina que girava em torno dela. No do John, fala que ele estava tão péssimo sozinho, que a Yoko o fez tão feliz, que ele mudou tanto. E fã, por “amor”, se sentiu magoado porque ela não era o que se esperava para ele, era estranha, era feia, teria separado o grupo. John era só um homem, só uma pessoa tentando tocar a vida e ser feliz, é um absurdo que as pessoas tenham se sentido no direito de julgar isso.

Não tenho nenhuma conclusão sobre isso. Artista quer atenção, quer que seu trabalho toque as pessoas e faça parte do seu mundo. Eu também olharia para qualquer um deles com um olhar faminto. Harrison (se não me engano) falou num trecho: “Eu sempre tive pena do Elvis. Ele era um só. Havia muita gente trabalhando para ele, mas só um era o Elvis. Nós tínhamos uns aos outros”. Devia haver uma maneira de amar profundamente e não sufocar os nossos ídolos.

 

O cérebro de Dick

crumb

Philip Dick me foi altamente recomendado. Eu lembro que o Ernani Ssó me disse que as adaptações pro cinema (Blade Runner, Minory Report) o empobreciam muito. Lembro dele ter me dito da ilusão dentro da ilusão que havia no Vingador do Futuro e eu nem guardei, talvez porque a primeira parte já não tivesse feito sentido pra mim: empobreciam? Quando finalmente o li, lembro de ter sentido um desconforto, não ter realmente gostado. Era, sem dúvida, genial, inigualável. Mas era muito diferente do que eu esperava de ficção científica. Asimov, Clark e Sagan, minhas grandes referências da época, me faziam pensar num mundo além, em uma Humanidade com H maiúsculo, nas grandes questões. Dick era… intimista.

O livro de Dick que mais me impressionou foi Ubik. Aí o Ernani me disse que Os três estigmas de Palmer Endrich eram nessa linha de tão bom quanto. Resultado: levei uns quatro anos pra ter coragem de ler. Porque Ubik me traumatizou, não tem outra palavra. O mundo de Dick é um mundo onde não podemos confiar nas nossas percepções, onde nossos cérebros estão corrompidos. O dele deveria ser assim. Dick morreu novo – com 53 anos – e com alucinações e construções tão geniais quanto seus livros. Passem lá na wiki sobre ele e leiam o item “Paranormalidade e problemas mentais”. E se vocês digitarem o nome dele acrescido de Crumb, verão essa história em forma de quadrinhos.

O Dick me serve de lembrança para algo que parece muito óbvio mas não é, a julgar de como agimos: que a mente é apenas uma consequência física do cérebro. Durante a faculdade, um dos meus amigos mais próximos, que era músico, começou a fumar maconha. Éramos amigos desde o segundo grau e ele me acusou de quadrada, se afastou, o normal de quando ficamos diferente dos amigos. Depois soube que ele teve um surto. Depois voltamos a nos falar, ele ia para um psiquiatra, mas jamais teve coragem de me contar, acho que até hoje deve pensar que eu não sei. Não sei como e porquê ele surtou, vai da estrutura de cada um. Oliver Sacks, no seu livro A Mente Assombrada, conta suas próprias experiências com drogas, que ele usava pela “necessidade” (aspas dadas por ele mesmo) de conhecer os fenômenos que aconteciam com seus pacientes.

Cuidado com o teu cérebro. Meio moralista da minha parte, eu sei. Eu morro de medo de quebrar alguma coisa aqui dentro. Dick tinha algum fio solto e acho que eu não gostaria de ter sido ele, mesmo com toda genialidade.

Lute como uma menina

Eu vi passar um vídeo na minha TL de uma moça com um cartaz numa mesa que dizia que ela era anti-feminismo, e quem quisesse podia tentar convertê-la. Não vi tudo, vi algumas mulheres que sentaram e tentaram seus melhores argumentos, enquanto a fulana ouvia tudo de braços cruzados, feliz na sua teimosia. Pensei para comigo que o que realmente a convenceria seria um homem qualquer passar lá e aplaudi-la, falar que é isso mesmo, que ela é bem comível e levanta daí e me faz um café. Como aquele sujeito que elegeram que se referiu a um gay como “aquela menina” para desmerecê-lo. Eu gosto de conhecer todos os argumentos, e uma mulher independente e religiosa que eu conheço uma vez falou sobre a mulher não conseguir se manter no lugar dela porque os homens falharam com seu papel primeiro – como exigir da mulher um papel passivo-feminino enquanto aquele que deveria lhe proteger se torna seu abusador?

Quero recomendar o desenho A Ganha Pão (Netflix). Fala em desenho e já penso em personagens felizes, mas não é o caso. No mundo ideal de um tipo fundamentalismo árabe, a mulher não pode sair na rua desacompanhada. Mas como fazer quando não há nenhum homem disponível para o papel? O desenho é lindíssimo, com tantas camadas. É uma declaração de amor, mas também é um sofrimento tão difícil de assistir – por que criar uma situação onde todos saem perdendo? Eu não acho que o que tem faltado aos teimosos felizes de braços cruzados é argumento e sim pele, empatia, experiência, carinho.

Monstros

olhos de crocodilo

Pouca gente no mundo consideraria a possibilidade de prender uma idosa no carro e arrastá-la na rua. Pouquíssimas. E dessas pouquíssimas pessoas, não tenho dúvidas que NÃO está o homem que de fato fez isso, o dono da Mercedez-Benz. Tenho certeza que ele repudiaria se visse no noticiário alguém que arrastou uma velhinha. Mas ele fez. Ele diria que não faria isso, jamais, que respeita idosos, seres humanos, que tem dinheiro o suficiente para comprar o balão que quisesse. Mas arrastou. Ele não se via como um monstro, mas agiu como um monstro. Não é à toa que no Direito existe a diferença entre culposo e doloso, porque consideramos muito pior planejar o mal do que se ver, sob algum tipo de pressão, fazendo o mal. Mas ele não é uma boa pessoa, vocês dirão, e eu concordo. Eu tenho certeza de que no dia a dia, em muitos detalhes, ele não era uma pessoa legal. Duvido que tratasse bem o garçom, o manobrista, a faxineira. Deve perguntar muito se a pessoa “sabe com quem está falando”, deve ter votado-em-sabemos-quem. Se pegarmos sua lista de amigos, duvido que não seja um grupo escolhido com base nos que podem lhe trazer vantagens financeiras. Aposto que é contra cotas, bolsa família, direitos LGBT, SUS, tudo o que favoreça gente que não faz parte do seu círculo. Eu arriscaria ainda mais longe e diria que usa o termo “feminazi”, que aproveita da sua posição de poder para intimidar empregados e faz cara de nojo pra quem está vestido de maneira simples. Acho que não erro se digo que ele tem mau hálito e suor desagradável, odores mal disfarçados com as melhores pastas de dente, enxaguantes bucais e perfumes importados. Mas não era, apesar de tudo, um monstro. Agora foragido, ele deve acordar de manhã, repassar o que aconteceu naquele dia e se perguntar em que momento poderia ter feito diferente, o que era monstruosidade e o que foi distração, até que ponto foi inevitável, má sorte ou castigo. Na sua imaginação, em algum momento ele desvia o olhar dos balões, pensa que aquilo não serve pra nada, ele não pechincha, ele não liga o carro, ele freia antes. Deve doer demais não poder mudar e ter que assumir: eu sou um monstro. A consciência tenta se proteger, e talvez ele não o diga com essas palavras, mas em algum lugar do seu inconsciente está assumido e registrado. Isso é o que me dá medo nessa história de monstros: um conjunto de comportamentos maus, que isoladamente não querem dizer nada, um dia podem se juntar, e o cidadão comum pode se ver fazendo algo que ele mesmo condenaria muito no outro. 

Dizem que o diabo nunca se apresenta como tal. Assim como tantos, eu posso estar encontrando justificativas plausíveis para vários atos reprováveis pequenos. E, cercada de pessoas de erros e justificativas semelhantes, nos justificamos juntos e assim nos sentimos santos. Eu tenho medo de virar monstro e acho que você também deveria. Sabe uma coisa que gera muita monstruosidade? A certeza de ser um representante do bem. 

As dificuldades

dificuldades

A vida na internet me colocou em contato com muita gente que escreve bem. Nós não sabíamos, mas estávamos todos naquela idade das possibilidades. Ou talvez um deles soubesse, quando me dizia: “você sabe que o que eu invejo não é o que você escreve, e sim você continuar escrevendo”. Porque ele, na verdade, foi um dos que eu conheci pós-escrita. Ele foi dono de um site delicioso, que teve muitos fãs e lhe permitiu “comer muita gente” (palavras dele). Eu acreditei piamente que um dia todos nós estaríamos num cocktail, comentando nossas críticas, dizendo por debaixo dos panos que Fulano ou Beltrano nem é tudo isso, que a literatura brasileira anda mesmo bastante decadente. Eu pensava, como na tirinha do Liniers, que a gente lutava contra os nossos fantasmas, contra o fato do que o que pareceu lindo na imaginação, praticamente um livro inteiro, se transformar em poucas linhas medíocres quando finalmente sentamos para escrever. Mas estes entraves – sei agora – são o de menos. O problema são os vazamentos do Intercept. Eu fico doida, não consigo pensar em mais nada. Clico em cada paródia, tenho que dividir todos os memes. Fui atrás do filme do Snowden (Netflix), ainda não tinha visto. Vi o David Miranda dançando e agora quero formar um trisal com Glenn e David (mas me conformo com um jantar). Quando o que me invejava-porque-ainda-escrevo me falou isso, eu lhe respondi que ainda escrevia porque não conseguia parar. Na expressão dele vi que isso soou muito invejável, mas talvez isso seja apenas um atestado da minha falta de saúde psíquica. Eu poderia ter lhe dito que ele se diverte em comer gente, em se envolver com as questões dos filhos, em frequentar bons restaurantes e eu não tenho nada disso. Até já tive, mas hoje estou sem restaurante, sem dinheiro, sem companhia, sem nada. Passo dias sem interagir com nenhum outro ser humano que não seja atendente da padaria. Uma pessoa mais normal se angustiaria; já eu acostumei e gosto. Até minha mãe se angustia pela minha recusa em conhecer gente. Meu mundo praticamente se resume a escrever e, sob este ponto de vista, eu sou extremamente incompetente. De todos os amigos escritores que eu imaginava um dia discutir, um deles ganhador do Nobel, o outro autor de crônicas, eu aparecendo disfarçada de personagem no livro de alguém, aquele que realmente conseguiu escrever foi um que não fazia alarde. Mais inteligente, ele não se propôs a nenhuma revolução, ouviu muitos conselhos e surpreendeu a todos com livro bacana, editado, recomendável; comparado com a nossa empáfia e publicidade, ele foi um verdadeiro um azarão. Conseguiu porque é professor, vida estável e disciplinado. A nossa culpa, dos que não escrevemos os famosos livros, é do Intercept, do divórcio, dos vídeos de gatinhos, dos app, dos astros. Pelo menos uns dez anos se passaram e estamos numa idade “ih, daí não sai mais nada”. Ou será que ainda sai?

Surya, Saturno e como mesmo o triunfo não é como e quando gostaríamos

(Se você gosta quando eu falo de astrologia, dá pra entender isto como astrologia. Se não, é possível ler como “a vida é assim mesmo, dura”)

Eu peguei o costume de ficar vendo mapa astral de famosos. Leio qualquer coisa, tipo “Michael Jackson era muito ligado à mãe”, e procuro o mapa astral do vivente no google. Aí dou uma olhadinha rápida, só pra ver se acho um padrão. (No caso de ser muito ligado à mãe, procuro a Lua). Numa dessas muitas olhadas, vi o mapa da patinadora Surya Bonaly, que aparece na série Losers (da Netflix, já recomendada aqui). Ela tem Saturno bem junto ao meio do céu. Planeta junto do meio do céu costuma ser uma excelente indicação para a carreira. Ao mesmo tempo que é um aspecto fortíssimo de longevidade, ambição e ser o melhor na sua carreira (outra que descobri com este mesmo saturno é a Rainha Elizabeth), Saturno é sempre Saturno, o planeta das provações e dos atrasos. Aquele que sempre promete o que cumpre, mas que cobra muito antes de entregar.

A história dela é muito impressionante. Todo o esporte que Surya praticava, rapidamente se tornava a melhor. Era claramente um gênio. Começou a patinação artística e logo se tornou a melhor da Europa. Mas, em Olimpíadas e Olimpíadas de Inverno, Surya esbarrava no preconceito. O eufemismo usado era que ela era boa, porém muito exótica. Na prática, mostrava que os juízes não conseguiam aceitar uma rainha do gelo fora do padrão Disney: loira, branca, delicada. Surya era uma negra poderosa, que fazia coisas que nem os melhores patinadores masculinos eram capazes. 

Imagine que duro deve ser ter certeza e todas as provas de ser o melhor da sua área e, ao mesmo tempo, não receber o que lhe é devido. E me parece que com Saturno é assim, a sensação de bater numa parede, dar o seu melhor e mesmo assim as suas forças se provarem insuficientes. Diz que o objetivo é fazer com que a pessoa trabalhe ainda mais duro. A cena dela tirando do pescoço a medalha de prata, que os puristas acusaram de falta de espírito olímpico, dá para entender perfeitamente dentro do contexto. Uma menina, que trabalhava muito, era a melhor, e faziam questão de não recompensar. Tudo o que eu leio sob o governo de Saturno diz: “xiiii, antes dos 30 nem adianta”. “Antes dos 34 não adianta”. “Se tiver outros aspectos envolvidos, dá pra ir acrescentando cada vez mais anos”. Mas chega, garantem. Saturno não dá o que você quer na hora que você quer, mas às vezes pode entregar mais do que você imagina.

No caso de Surya, o que se entregou foi muito maior. Se ela tivesse ganhado aquelas medalhas olímpicas, seria apenas mais uma patinadora. A injustiça que Bonaly sofreu tornou o seu caso emblemático. Ninguém sabe o nome das patinadoras que ganharam dela; alias, eu nem sei o nome de outras patinadoras no mundo. E dizem que o que vem de Saturno nunca mais se perde. O Losers me deixou feliz em saber que ela está feliz, na vida pessoal e com sua história.

Uma última curiosidade: os pais de Surya viajaram muito para a Índia antes de adotá-la. Em hindi, Surya significa Sol. Surya e Shani (Saturno) são grandes inimigos nas histórias e, por consequência, na astrologia védica.

Feliz aniversário pra mim

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Hoje é meu aniversário, faço 42.

Alguns conceitos só começam a fazer sentido com a passagem dos anos. Porque, a curto prazo, são apenas uma porcaria: tentar a todo custo ser coerente com o que você diz, colocar a correção acima de vantagens pessoais, preferir o papel de vítima ao de algoz, suportar as injustiças, ser o mais verdadeiro possível. Todas essas ideias são um convite a não usufruir o que se apresenta no presente; elas fazem com que você se sinta um motorista que no meio de um racha resolve frear para pedestres ou dar seta antes de fazer as curvas. Só mais tarde entendemos que viver é construir uma biografia, um tiro único. A história construída com os anos será sempre carregada com você, te definirá aos olhos do mundo e não aceitará nenhuma desculpa. Ter tornado o mundo um lugar pior por medo, falta de visão ou porque precisava de dinheiro, dá tudo na mesma. O contrário também – até nossos sorrisos falsos, no final das contas, foram sorridos. O que foi feito é o que é.

Se tudo der certo, estou agora no meio do caminho, talvez um pouco mais pro lado onde a régua está menor. Se eu gosto do que vejo? Na média, sim.

Curtido

roça

-Você é professora?

-Não.

-Você tem cara de professora.

-É a idade. Estou velha. Vê se alguém com dezesseis anos vai ter cara de professor. Todos nós ficamos com cara de professor com o tempo.

-Professora jovem. Eu que tenho cara de acabado. É que quando eu tinha meus quinze anos, quinze até os dezenove, eu cantava nos bailes. Na fase de desenvolvimento, como se diz, eu dormia mal, bebia. Fiquei assim.

-Mas aí valeu a pena, aproveitou.

-Eram outros tempos. Naquela época não se considerava que eu era assim tão novo…

-Verdade, outra educação. Hoje é diferente, pra melhor e pra pior.

-Eu acho que é pra pior. Hoje protegem muito. Eu fui colocado pra trabalhar na roça com meus seis anos. A gente aprende a dar mais valor.

-Tem o lado bom e o ruim. De um lado, as crianças recebem tanto amor, tanto carinho, tanto cuidado… Mas por outro lado, quando saem no mundo, é porrada atrás de porrada.

-É mesmo, eles não estão preparados.

-Você que trabalhou desde os seis anos, alguém pode dizer: coitado, que infância dura. Mas por outro lado, quando você ficou adulto, já estava curtido.

“De onde diabos eu fui desenterrar o termo ‘curtido’? Será que ele entendeu que eu o comparei com couro?”

-É bem isso mesmo. Veja, meu pai acordava a gente cedo. Com seis anos eu pegava na enxada. A gente arrancava feijão, assim. Eles diziam que a gente arrancava rápido porque era criança, não tinha dor nas costas. Não tinha? De tarde a gente não conseguia fazer assim (se inclina para trás). Era pequeno e tinha braço pequeno, mão pequena. Produzia menos, mas trabalhava igual. Em dois dias a gente fazia um alqueire. A gente vinha assim, com o adubo, e o adulto passava atrás fechando assim.

Meu ônibus chega. Eu me despeço.

-Eu vou ficar pensando no que você me falou. Eu nunca tinha memorizado assim. É bem como você disse mesmo.

Anti-agito

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Estávamos esperando o ensaio começar. Tem uma coreografia bem simples, mas bem simples mesmo, que todos fazem juntos. Como tem convidadas especiais, e elas têm que ficar na frente, pediram pra dois professores repassarem com elas. Eles repassaram, aí as pessoas estavam por ali perto começaram a repassar junto. De novo, outra vez, agora sem olhar no espelho. O troço foi como uma onda e estava quase todo mundo repetindo aquilo várias vezes, como se fosse aula. Eu os observava à distância, sentada. Olhei para aquela balburdia, eu imóvel, eles se mexendo, e pensei que aquilo era muito eu – a antissocial, a alien, a que não sabe se divertir em festas. Mas olhei de novo e conheço bem algumas pessoas, e sei que elas não estavam preocupadas com aquela coreografia. Comecei a me perguntar quantos ali não estavam apenas não querer ficar estranhos, e por dentro não estavam achando um saco repetir mil vezes algo simples e que bastaria colar na hora. Que poderiam estar se sentindo falsos, dentro e fora ao mesmo tempo. Exatamente como eu me sinto quando tenho que fazer de conta que estou me divertido. Meu problema com festas é principalmente a obrigação de estar sorridente e sempre em movimento, buscar constantemente um holofote imaginário. Pela primeira vez, percebi que justamente a minha recusa em fingir e ser capaz de ficar no meu canto pode ser uma das minhas grandes qualidades.

Nossos corpos

praia anos 80

Um dia o Suplicy começou a aparecer de sunga nas minhas redes sociais. Em todas, repetidamente. Ele estava na praia e parou pra ver um protesto. Fotografaram e disseminaram até à loucura. Vi dizerem que era sinal de senilidade, outros exaltando o gesto. Não achei uma coisa nem outra. Lembrei do meu ex-sogro, que ficava todo queimado porque ia cortar grama sem camisa em dias de sol. Lembrei do meu pai, que considera que o clima ideal é quando a casa está toda aberta e ele de chinelo e bermuda. Suplicy, pai, ex-sogro, são todos da mesma geração. A geração deles não tem problema nenhum em ficar sem camisa. Como pessoa de infância anos 80, convivi com eles e peguei um pouco disso também. Eram os adultos que estavam à minha volta. Eles fumavam na nossa frente. Nós dizíamos – vou pra casa do Fulano – e isso era justificativa pra passar o dia inteiro fora e viver altas aventuras, bem como mostra no Stranger Things.

Estávamos na praia, e alguém pegava uma máquina fotográfica e decidia registrar o momento para sempre. Eram máquinas de filme, filme era caro pra comprar e mais ainda para revelar. Você tirava duas fotos e o momento especial já estava registrado, as próximas duas fotos seriam gastas só em outro momento especial – podia levar um ano inteiro até gastar um filme e mais tempo ainda pra revelar. Não dava pra descobrir se a foto ficou boa até ver, você até esquecia o que tinha lá dentro. O adulto falava “foto”, e nós que estávamos com a água até as canelas, de roupa de banho, parávamos e olhávamos para a câmera. Só isso. E nos víamos quando o filme era revelado. Acho que o sentimento de “credo, eu sou esquisito assim” foi inventado junto com a câmera escura, mas o que realmente incomodava era só você piscava. De resto – barriga, mancha, rosto brilhante de suor, dentes tortos -, era tudo apenas corpo, pessoas. Uma pancinha era só uma pancinha, assim como a parte de cima do biquíni quase no pescoço, ou pernas finas. Era uma relação menos neurótica com os corpos e como os corpos eram registrados.

Eu me dei conta que somos apenas duas no flamenco que se vestem de uma maneira mais fora do padrão, digamos assim. Ela adora brechós e garimpar peças, eu tenho me esmerado na arte de usar o maior número de cores possíveis e ainda ornar (ou não). O que eu e ela temos em comum é: anos 80. Nós vivemos uma época em que cada roupa não precisava ressaltar que você está magro e malhado, talvez porque todo mundo fosse meio magro e fraquinho. Eu lembro que baby look foi inventada quando eu estava no início da faculdade, até então usávamos o mesmo modelo de camiseta para homens e mulheres. Isso sem falar das cores 80’s; havia tons de verde até nos fuscas, o que dizer então das polainas, das ombreiras, das faixas no cabelo.

Ciência comportamental

condicionamento-efetuado-com-sucesso

Eu lembro bem do primeiro dia que tivemos aula sobre behaviorismo radical. Numa cena de filme fantástico, as carteiras voariam, as pessoas rasgariam as roupas, comeriam os livros. O fato de ter sido ministrada por uma psicanalista, obviamente odiando tudo aquilo, torno ainda mais dramático. Com a teoria freudiana estamos todos mais ou menos acostumados, mesmo sem dominar. Sabe como é: ego, culpa, consciente e inconsciente. Já uma teoria que diz que não devemos buscar explicações nessas “viagens” e sim no comportamento observável… ninguém lá estava preparado. Skinner, o Freud do Behaviorismo, provocava: tudo pode ser explicado pelo comportamento, até mesmo os pensamentos. Tudo, ele tem essa ousadia de dizer que tudo? Não podia ser, que absurdo, reduz a pessoa a um… a apenas… como se! “O pior é que funciona”, dizia a professora num misto de provocação e conformidade. Melhor terapia pra resolver um problema concreto. Você pode tentar tratar uma fobia como o pequeno Hans, o caso clássico do menino com medo de cavalo, que aí entra no tamanho do pênis do cavalo, na fase do desenvolvimento que ele estava, como é o complexo de Édipo masculino… ou você pode identificar a fobia, seus desencadeadores e fazer uma exposição gradual. Pá bum. Nem todos ficaram chocados, alguns acharam que até que fazia sentido, e tão mais prático… Psicanálise e behaviorismo talvez sejam os dois grandes times dentro da psicologia, os opostos mais radicais da régua. 

“Não se pode dizer” – algum dos livros de behaviorismo que eu estudei exemplificava – “que a melhor obra de Shakespeare seja a que ele não escreveu”. Eu nem pretendia escrever na época, mas lembro que essa frase doeu. Pense no gênios, nas pessoas que admiramos. Perdoamos e até gostamos de todas as suas esquisitices porque acreditamos que foram elas que os levaram às grandes obras. Tire as grandes obras e o que sobra? Um velho descabelado mostrando a língua, um matemático virgem, um baixinho tão meticuloso que dava pra ajustar o relógio com os horários de saída dele. A grande lição que eu tirei com o behaviorismo talvez seja: faça e, assim, se valide.  

Tem dica?

verduras

Uma das melhores coisas que eu aprendi foi fazer compras no caminhão de verduras. Além de ir muito à favor de um ideal que eu tenho de sempre apoiar os pequenos, estou me tornando mais saudável na minha alimentação. E a assessoria do Ricardo é outro diferencial, ele entende tudo do que vende. Aprendi a perguntar “tem dica?” antes de decidir algumas escolhas e ele me responde, sempre com algum pudor: na verdade, tem sim.

  • Côco verde: melhor os de circunferência mais perfeita, não os muito compridos ou largos. Sentir o peso do côco. Alguns tentam ouvir o som, mas se você ouve a água lá dentro ela já está começando a ser absorvida pela parte comestível.
  • Maracujá: já no maracujá é o contrário, você deve ouvir o barulho das sementes lá dentro. E sentir o peso. Se chacoalha muito, tem pouca semente dentro. Tem que fazer um barulho mais robusto.
  • Mandioca: melhor colhida em mês sem R. O ideal é consumir em poucos dias. Duas maneiras de preservar: descasca e congela, dura indefinidamente. Ou descasca e deixa na água. Aumenta em mais alguns dias, mas a água precisa ser trocada e vai perdendo os nutrientes aos poucos.
  • Mel: o mel realmente puro vai descendo e ficando empedrado com o tempo. Se não acontece isso, é porque está aguado. Pra deixar mole de novo, colocar em banho maria.
  • Brócolis: para preservar, primeiro dá um susto na água quente, logo depois coloca na água fria. A água quente vai pré-cozer de leve e matar os bichinhos. Depois separa as arvorezinhas e guarda na geladeira.

Isso sem falar no olho clínico na hora de me ajudar a comprar o melhor abacaxi ou abacate. E agora também estou comendo a batata Yacon, há tempos eu procurava uma solução natural pra colesterol alto que fosse possível comer sem fazer careta. Em Curitiba tem muitas feiras livres, elas estão em todos os bairros, assim como tem feira de orgânico no Passeio Público de manhã. Eu antes não ia até por não saber fazer nada; aos poucos, o Ricardo tem me ajudado a experimentar novos sabores. É um horti-fruti com guia, recomendo muito a outros incompetentes culinários.