Imortais

Se eu vivesse eternamente, como os vampiros, o que faria? Na época que gostava do tema – Anne Rice, novela Vamp, Drácula de Bram Socker, Crepúsculo… acho que toda geração tem seu vampiro referência – minha resposta era fácil: aprenderia piano. Tentei aprender piano, amava tanto e era tão ruinzinha. Não tinha nem vinte anos e já estava velha demais, não tinha mais tempo pra sonhar em ser concertista. Para isso, eu precisaria ter começado pelo menos dez anos antes, numa idade que nem seria eu a escolher. Se eu fosse vampira, poderia sanar a educação musical que não tive na infância. Que eu precisasse de vinte, trinta, cem anos pra finalmente conseguir fazer os meus dedos entenderem as teclas, eu o faria. Nessa mesma época eu também achava que até chegar a idade de eu ficar velha, a Ciência teria avançado o suficiente pra evitar isso – evitar que meus cabelos ficassem brancos, que o meu corpo perdesse a vitalidade, que meus hormônios diminuíssem. Não avançou, não avançará.

Já Borges, muito mais inteligente do que eu, imaginou os homens eternos como bárbaros entediados. Depois de experimentar todos os sabores e todas as experiências várias vezes, nenhuma mais teria graça.

A morte (ou a sua alusão) torna preciosos e patéticos os homens. Estes comovem por sua condição de fantasmas; cada ato que executam pode ser o último; não há rosto que não esteja por se dissipar como o rosto de um sonho. Tudo entre os mortais, tem o valor do irrecuperável e do casual. Entre os Imortais, por sua vez, cada ato (e cada pensamento) é o eco de outro que no passado o antecederam, sem princípio visível, ou fiel presságio de outros que no futuro o repetirão até a vertigem. (O imortal/ O aleph)

Eu vejo o que o tempo e a prática faz em mim. A gente vai pegando o jeito, os cacoetes, absorve e aprende mesmo sem querer. Só de estar junto e de ouvir falar, de fazer de novo e de novo, vai se tornando outro, aumenta o repertório. Nesse ponto, continuo achando minha teoria corretíssima: com todo tempo do mundo, daria pra ser bom em qualquer coisa.

O talentoso é gente como Liniker, aquele que precisa de pouco tempo. É quem aos dezenove já tem a voz, jeito e projeção que outros levam décadas pra construir. Somos dois gráficos que caminham em direções opostas: uma expressão que cresce, uma vida que decresce. O desafio é o que se consegue fazer no intervalo.

 

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Curtas do bode lendo

bode lendo

A atual temporada (6º) de Game of Thrones ultrapassou os livros e estou achando ótimo. Eu comecei vendo a série, corri e li tudo, e a partir daí foi aquele inferno: no livro não é assim, não é esse personagem que faz isso, cadê tal cena?

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Não vou soltar spoiler, mas A Morte dessa temporada mostra o quanto vamos nos dessensibilizando. Eu já estava numa atitude de: pode dar bebê pra cachorro, cortar cabeças, esfolar, nada mais me choca. Mano, eu estava errada.

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A biografia do João Goulart escrita por Jorge Ferreira é uma das mais deliciosas que li nos últimos tempos.

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Acho que tudo começou com Chatô. Ele me levou a Samuel Wainer, que me levou à mulher dele, Danuza Leão. Todos os caminhos levavam a Getúlio, mas a escrita de Lira Neto não me envolveu. Suzi fez com que eu também me apaixonasse por Darcy Ribeiro, que fala muito do Jango. Estão na lista: Carlos Lacerda (será possível gostar desse homem?), Leonel Brizola e JK. Em comum: todos se conheceram, influenciaram-se mutuamente e ao Brasil. Estou apaixonada pela geração inteira.

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Todas as minhas leituras agora são prejudicadas pela necessidade de ir no Google Imagens digitar os nomes das pessoas pra ver a cara delas. Quero ver a Neuza, irmã preferida do Jango e que mais tarde se tornou a Sra. Brizola; quero ver a cara de Hugo de Farias, que ameaçou deixar o cargo quando Jango assumiu o Ministério do Trabalho e se tornaria seu braço direito. Ou como é a bunda do gado Jersey, citada por Almeida Reis.

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E você acha que quando é romance as coisas melhoram? Fico querendo quero ver que caras colocaram nas adaptações para o cinema. Numa dessas buscas descobri a loirinha bonitinha do Downton Abbey como Princesa Maria Bolkonskaya, de Guerra e Paz. Fiquei indignada, nada a ver.

Trinta

Trinta homens. Uma moça.

trinta

 

Por Marina Ferreira, no Facebook.

“Se ela estivesse estudando isso não aconteceria!”
Menina estuprada em escola de São Paulo reconhece agressores:http://glo.bo/1TZ6Ej0

“Se ela estivesse na igreja isso não aconteceria!”
Jovem é estuprada dentro de secretaria de igreja em Brasília:http://bit.ly/1NQpoVc

“Se ela estivesse em casa isso não aconteceria!”
Morre jovem encontrada com sinais de estupro dentro de casa na Zona Norte:http://bit.ly/1qMl4Lu

“Se ela estivesse trabalhando isso não aconteceria!”
Jovem é atacada e estuprada a caminho do trabalho: http://bit.ly/1P19Wpq

“Se ela tivesse um namorado fixo isso não aconteceria!”
‘Meu namorado me estuprou por um ano enquanto eu dormia’:http://bbc.in/27UhJvG

“Se ela fosse mais família isso não aconteceria!”
Adolescente com deficiência física é estuprada pelo tio em RR:http://glo.bo/1THnB47

“Se ela fosse menos ‘puta’ isso não aconteceria!”
Menina (de 1 ano e meio) morta em igreja foi violentada: http://bit.ly/1Z3LEM4

“Se ela tivesse mais cuidado isso não aconteceria!”
Jovem é estuprada em estação do Metrô de São Paulo: http://bit.ly/1WnjCgw

Os cafas e os anjos

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Do lado de cá – o lado feminino – vejo minhas amigas sofrerem muito com os homens. De um lado elas, pessoas cheias de qualidades, qualidades que eu conheço e reconheço, e do outro lado homens não percebem, não agem de acordo, não dão valor. Quando é com a gente dói muito, mas de fora é tão claro que… como direi? Tem aquela passagem bíblica (gênesis 19) dos homens que queriam violentar os anjos. Isso pra mim fala duas coisas a respeito deles:

1- que não eram imunes à beleza. Eles perceberam naqueles anjos algo acima da média, encantador, extraordinário. Mas:

2- eles reagiram como sabiam. No caso, com brutalidade.

Estar diante do extraordinário, superior, belo ou diferente é uma coisa, saber reagir à altura é outra. Canso de dizer aqui o quanto o homem (agora no sentido de humanidade) é um ser limitado. Diante de uma situação, se a gente tiver três atitudes diferentes no repertório já é muito. Então, quando penso nas minhas amigas tão especiais que são tratadas como se nada fossem, não me parece que os tais homens necessariamente fizeram por mal ou que não viram o valor que elas têm. Eles podiam apenas ser brutos e limitados demais para reagir diferente.

Dentes de leão estão na moda

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Dentes de leão estão na moda, Suzi. Eu não sei como isso soa pra ela, eu não gostei. Gosto muito dos dentes de leão – não precisa pensar muito para associá-los com lúdico, leve e efêmero. Não gosto que nada que eu gosto se torne moda. Quando está no auge da moda é ruim, porque vejo pessoas que ofendem os meus “símbolos” ostentando-os como se nada fossem; quando a moda passa, aí é o efeito contrário, e se torna totalmente out e insuportável que alguém ainda use. Tem coisas que são minhas e não quero que sejam confundidas com moda nenhuma, in ou out. Me agradam os vestidos floridos que remetem aos anos 70, e que combinam tão bem com casacos compridos de lã, meias calças e as botas de cano longo que as curitibanas não abandonam nunca. A lembrança das curitibanas interrompe imediatamente o comercial que passa na minha cabeça, onde estou vestida igual uma hippie, toda produzida pela C&A. Tudo bem, esses florais têm fundo preto e na prática talvez acabasse não usando. Mudo de loja, passeio pelas centenas de opções como se pudesse comprar e até posso, mas não devo. Os imensos manequins parecem tão modernos e elegantes, usando de maneira displicente jeans com quadriculado e lã, e quando olho para as roupas me sinto incapaz de combinar tudo de maneira tão interessante. A jaquetinha jeans que namoro há tempos foi para uma arara “a partir de 39,90”, mas continua 119,90. Quem sabe eu pudesse acrescentar mais cor nas minhas roupas se usasse a camiseta com estampa de baleias, mas nossa, que baleias caras. Não fui pra comprar, mas por onde começaria? Na loja iluminada, o que estou vestindo e o que tenho me parecem subitamente insuficientes. Por isso que estou velha, feia e sem namorado, por isso que nem pra me arrumar pro flamenco eu sirvo. Me irrito comigo mesma, com minhas teimosias, minha inadaptação que só faz crescer, minhas roupas. Para evitar o padrão irresistível de usar sempre a mesma coisa, faço tentativas imaginárias de comprar diferente. Mas aquela saia evasé até o joelho não combinaria com o All Star; eu teria que ter uma bota e não tenho bota. Quer dizer, tenho, mas ela não que me permite andar por aí o tanto que eu ando. Mas e se eu…  namorasse, precisasse de roupa de trabalho, um dia fosse alguém? Aí me canso – me canso de tudo o que poderia ser e não sou, do mundo consumista que se oferece e foge, da brancura e adolescência eterna da loja TwentyOne. Penso com inveja nos monges e góticos por não se atormentarem com o vestir. Ninguém me obrigaria a usar flor à flamenca se eu ainda cortasse o cabelo com máquina 3. Saio do shopping tal como linho no fim do expediente. Que alguém me produzisse, comprasse e me vestisse, porque tudo isso é muito cansativo, fútil e complicado.

Contra o amor

Depois que descobri esse clipe, assisti uma quantidade vergonhosa de vezes. Chorei feito noivinha, ainda bem que ninguém viu. Eu havia esquecido do sentimento que o clipe mostra: a crença no amor, de ver no outro uma esperança de um futuro, ter uma redoma de felicidade a dois. Todos buscam viver isso, mas não é algo que se produza por força da vontade. Como diz a música da Rita Lee, amor é sorte. E como a felicidade deixa todo mundo esplendoroso, né? Garrei amor por todos aqueles casais. O clipe é do canal do Jeneci. Jeneci, gente, quem é essa pessoa, o que faz e do que se alimenta. Ele já me viciou antes, com Dia a dia, lado a lado. Se não fosse o youtube me oferecer, não teria conhecido o trabalho dele. E é um trabalho que merece ser conhecido, tudo o que o tal do Jeneci faz é caprichado e lindo.

Aí fiquei com vontade de mandar o clipe pra minha amiga que acabou de casar. Só que o clipe – o que também é lindo – não tem nenhum preconceito com o amor, e mostra casamento de homem com homem e mulher com mulher. Minha amiga é de Igreja e provavelmente isso não faria sucesso no mural dela. Achei a cena tão chata e triste: ao invés de se comover com o amor dos outros, fazer um julgamento se aquilo pode acontecer ou não. Ser contra amor, contra felicidade. Que bom que não tenho “contrato” fechado com nenhum tipo de crença  e não preciso me preocupar com explicações ou certo e errado. Na minha concepção, feliz, amor e bem se misturam. Se deixou o meu coração quentinho, acho bom e quero mais é que cresça.

Sem carro

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É uma tendência quase irresistível a de se ver como um núcleo flutuante, como se o que somos e pensamos fosse gerado independente da realidade. Muito pelo contrário, quem aposta que o homem não passa de um conjunto de hábitos – sendo que a maioria deles foi adotada por mera repetição – está muito mais perto da verdade. Uma das coisas que me determina muito é não ter carro. O não ter carro me torna uma pessoa que anda à pé, de ônibus e de bicicleta. Ah, e carona dos amigos. Você pode pensar que isso, então, nada mais é do que um atestado de pobreza. Não é (apenas), eu nunca quis ter um carro. Era pra ter ficado com carro no divórcio e me recusei.

Nunca consegui convencer ninguém sobre as vantagens do não ter carro. O único argumento que faz as pessoas realmente balançarem é dizer que a vida sem carro é mais magra. No mais, nada posso contra o evidente conforto, rapidez e status (principalmente o último). Sem falar da lista de motivos, todos excelentes, que fazem com que meu interlocutor, por mais que admire a vida sem carro, não possa abrir mão de um – é filho, é distância, são horários impossíveis, fascite plantar… Tudo bem que meus amigos muitas vezes sejam mais jovens e moram mais perto do que eu, mas eu sou eu, eles são eles, e eu ando de ônibus e eles não, fim.

Eu acho que a vida sem carro nos modifica de uma maneira profunda, é uma vida slow. Quando eu digo que emagrece não ter carro, isso para mim não é apenas uma questão de gasto calórico. Andar faz com que a pessoa tenha uma outra relação com seu tempo, seu corpo e seus pensamentos. O aborrecimento vai embora no passo apressado. É um momento de perceber o horizonte, sentir o contato da pele com o tempo, olhar para as pessoas, ser parte da lenta mudança de cenário. Claro que de carro costuma ser mais rápido, que ônibus lotado e acordar mais cedo é uma vida que ninguém quer. O transporte coletivo não é ruim apenas por ser coletivo, ele é sucateado por estar relegado à “pobreza”. Quem não dirige demora mais a chegar, mas tem mais chances de chegar tranquilo. O lento é uma maneira diferente de lidar com o tempo, de não ficar tão focado no fim e sim no caminho. Carro deixa o sujeito trancado; os outros meios de transporte levam a dividir mais o espaço, participar, negociar com um tempo alheio à você. Acho que temos precisado muito disso: ser arrancados de nós mesmos, não estar constantemente envolvidos no próprio inferno. Por isso que digo que não ter carro fala de quem eu sou. É um cotidiano que exige de mim mais paciência, tolerância e empatia. Empatia, esse sentimento que tem feito tanta falta no mundo.

Não sou

Temos que fazer uma pequena coreografia, nossa, para a próxima apresentação. O mesmo número de compassos, a estrutura básica, mas cada um cria a sua, do seu jeito, o que lhe convém. Dentro do flamenco existem diversos estilos de bailaores, e La Lupi tem um dos estilos que eu mais gosto – adoro quem dança de forma escrachada, divertida. Aí uma colega, que também adora La Lupi, fez o óbvio: viu videos e se inspirou. Ficou ótimo. Nela.

Não sei que nome dar ao que direi agora. Pode ser cansaço, desistência, assim como também pode ser uma forma de autoconhecimento e sabedoria. Não me inspirarei em La Lupi porque me conheço o suficiente para saber que o gestual dela não tem nada a ver comigo. Talvez ame e admire tanto justamente por isso. Eu sou brincalhona, tento não me levar à sério, mas de outra forma. Gestos expansivos: já quis, já tentei, até já me iludi pensando que conseguia. Não rolou. Além de não tentar ser La Lupi, não estou me propondo a dançar nada difícil. Antes eu tentaria mostrar nesses poucos minutos tudo o que sei, tentaria trazer o público pra mim. Para minha surpresa, farei o básico do básico do básico. Ao invés de complicar, eu simplifiquei todos os gestos, todos os sons, é praticamente um Tangos Minimalista.

Isso é bom, é ruim? Não sei, apenas é.

Fuga

bicho é tão melhor

Quinta passada, pela primeira vez, a Dúnia fugiu de casa.

Ela foi adestrada pra nunca fugir, nunca tentar ultrapassar o portão. Não sei dizer como essa mágica é feita, ela simplesmente não é de se aproximar da saída quando o vê aberto. Ou não era. Não faz muito nós voltávamos de um passeio e só deixei o portão encostado enquanto ia abrir a porta de casa. Ainda de costas, ouvi aquele agito e quando vi a bicha já estava no meio da rua, cercando pra um cara com um cachorrinho. A Dúnia encostou no portão, ele abriu e ela aproveitou a chance.

Quinta eu estava no meu serviço de preso de ficar levando os pedriscos que estão na minha calçada para dentro do quintal. Fico levando e trazendo baldes, com o portão aberto. Acontece que o quintal estava cheio de cocôs de cachorro e recolhi pra evitar pisar. Foi igual da outra vez, ela se aproveitou enquanto estava de costas, perto da pra porta. Olhei para trás e vi tudo vazio, aquele portão escancarado. Sabe quando você sente o coração parar? Chamei, chamei, cadê o cachorro. Vou para frente da casa, chamo, não vejo ninguém. Aí ela surge, tranquila, e decide cheirar o arbusto do vizinho.

Vou até ela calmamente, conversando, e a abraço por trás. Tento carregar e ela se debate, e não dou conta porque a Dúnia pesa uns vinte quilos. Ela rosna pra mim, elevo a voz, ela se joga no chão, eu a arrasto pelas patas… uma cena. De volta pra casa, a Dúnia fica naquele agito típico de quando ela acha que vai levar bronca. Mas não – fiquei tão exausta, preocupada, aliviada, passada e todos os adas possíveis que não consigo. Apenas passei a fechar o portão.

Grampos

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Os primeiros eram cinza, os melhores. Eles prendiam tão bem que dá até pra colocar a ponta da toalha no gancho da rede. O plástico foi secando com os anos, e faz PLÁ! quando a gente aperta. Aí vieram uns japoneses. Tem três cores, mas são todos iguais – preto, verde e branco. Na embalagem eles prometiam marcar menos a roupa. E marcam mesmo, mas também não prendem muito. Por fim, comprei uma terceira leva, que veio numa cestinha e ficam pendurados. Foi aí que começou. São três cores: vermelho, verde e amarelo. Com eles eu descobri que dá pra combinar as cores na hora de pendurar a roupa. Passei alguns dias assim, só prendendo a toalha com grampos da mesma cor nos dois lados, os biquínis e a touca com a mesma cor e assim por diante. Quando estava organizando as roupas em função dos grampos decidi parar – melhor não dar vazão a mais uma mania. Agora enfio as mãos na cestinha e penduro com o primeiro que me surge na mão. Três peças, três grampos, como vier. Olho para a roupa e a toalha está com um verde numa ponta, um vermelho na outra e a calcinha com verde.

Se a toalha ficasse com os verdes e a calcinha com o vermelho seria melhor, penso.

Imenso

No período em que estudei cegueira, acabei descobrindo que Imenso é um conceito puramente visual. Sem a visão, o Imenso é muito abstrato. Imenso não é grande, muito grande, não é apenas muito mais do que você pode tocar ou sentir. O imenso é o horizonte, as montanhas, a multidão num estádio lotado. O mar calmo, verde, com ondas; o céu azul de nuvens ou preto picotado de estrelas. O imenso tira o fôlego e nos sentimos pequenos, ele nos recoloca em nosso lugar. Não é à toa que as catedrais góticas eram altas, cada vez mais altas – a mais alta do mundo, de Ulm, tem 161,53 m de altura. Eles queriam esmagar mesmo, queriam ressaltar o quanto o homem é pequeno diante de Deus. Acho que Imenso é a experiência mais próxima e acessível do Divino que nós temos.

Pensei nessas coisas enquanto observava o céu estrelado desta noite, um dos mais belos que já vi nessa cidade. Poucas coisas resistem e continuam importantes sob o brilho das estrelas.

noite

Uhu, roupinhas!

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Ganhei roupas de uma amiga fazendo limpeza no guarda-roupa. Cheguei em casa toda feliz, não apenas porque agora tinha roupa nova mas também porque eram umas que eu nunca provaria se tivesse visto na loja. Mas, ao mesmo tempo, ficaram tão bem em mim e são a minha cara. Aí pensei o quanto isso é legal, que se a pessoa só tem roupas que ela mesma comprou ou que foram compradas pra ela, nunca vai ter o prazer de vestir algo que ela jamais teria pensado.

Outro lado meu falou: nossa, como tu é pobre, nasceu pra ser pobre, tu gosta de herdar roupa. O primeiro respondeu: sou mesmo. E continuei feliz.

Pra dizer adeus

diante da imensidão do tempo

“Custava ela me dizer que” é sempre a queixa de quando as coisas terminam. O outro lado sempre poderia ter jogado mais limpo, ter confiado mais, dito de maneira mais clara o que queria. Como se não bastasse o rompimento em si, fica a mágoa por ter ouvido uma versão pobre, de um problema ter se multiplicado porque agora há climas e mal entendidos. No término descobrimos no outro um lado pequeno, mesquinho.

Eu acredito que algumas pessoas têm papeis específicos para desempenhar nas nossas vidas; alguns são mais longos do que outros, quase ninguém é pra permanecer a vida inteira. Não tem a ver com afinidade ou a vontade das partes, não tem a ver nem com amor. Tem gente que não nos desce direito e fica toda vida aí, e outras que queremos e admiramos tanto e já vão embora. Uma vez, no tempo da internet à lenha, um amigo estava com um amigo que queria fazer um site falando da doença rara da filha. Na mesma semana eu comecei a trocar mensagens com um cara, e ele trabalhava com isso. Nós encontramos uma única vez. Não sei nem dizer o motivo, foi uma tarde agradável mas nenhum dos dois sentiu vontade de mais. Comentei a história do site e ele se ofereceu pra fazer de graça. Fiquei com a clara impressão de que havíamos nos encontrado só pra isso.

Mas assim é fácil, né? Uma tarefa clara, um contato rápido e sem expectativas. Na maior parte das vezes os benefícios de um relacionamento são internos, as vidas se misturam, obrigações são criadas. É raro que os dois estejam no mesmo ritmo, geralmente um sente que já deu e o outro ainda quer ficar. Eu imagino os rompimentos como uma ordem da presidência, dada num mundo ideal, e na hora que ela chega na sua mão é um “te vira e tem que estar pronto até sexta”. Por isso, desista: no término, ninguém nunca diz ou age como deveria.

Feminista, eu?

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Eu não costumo ser “confundida” com feminista. No início, algumas amigas quiseram me colocar em coletivos feministas, mas aos poucos elas foram mudando de ideia e pararam de me convidar. Já postei contando experiência ruim em congresso feminista, já me coloquei contra a escolha do termo Vadia como bandeira para marcha. A vigília constante e exagero de algumas me cansa. Sou uma velha para os apedrejamentos das redes sociais; a faixa etária predominante é muito jovem, e jovens costumam julgar e condenar com muita rapidez. Em algumas colocações, essas feministas me parecem simplesmente não ter vivência para falar do que estão falando. Outras vezes, as reclamações me parecem mau humor puro e simples. Vejo essas coisas e não me posiciono. Então não sou feminista, pra ninguém.

Se dizer feminista é carregar uma bandeira e não sou de carregar bandeiras. Depois de namorar várias ideologias sem jamais aderir, refleti que não é possível que o mundo inteiro esteja errado e eu certa. Por isso digo que meu problema não é com a agenda feminista ou grupos feministas e sim eu com qualquer agenda e grupo. Nossa, que ódio quando os professores não me deixavam fazer os trabalhos sozinha! Era uma tortura, vai totalmente contra minha personalidade. Grupos exigem um grau de negociação que me desgasta demais. Não acho bonito – pelo contrário, é extremamente desvantajoso ser assim. Então, digo com relação ao movimento feminista aquela frase que pra fim de relacionamento é pura desculpa, mas no meu caso é sincera: o problema sou eu, e não elas.

Então podemos dizer que eu não sou feminista? Claro que não. Eu acho que nenhuma mulher, em sã consciência, pode se colocar contra o movimento feminista. Só o fato de você poder ler o que estou escrevendo já é a prova disso. Se você gosta de ler e escrever, sair sozinha na rua, escolher seus amigos e parceiros, sentir prazer no sexo, trabalhar, colocar a roupa do comprimento que lhe convém, votar e ter opiniões, você não pode ser contra o feminismo. Ninguém que conheça um pouco de história pode ser contra o feminismo. Cada pequeno direito que as mulheres têm hoje veio de muita reivindicação e luta; já para nos tirarem algo, sempre foi muito rápido e fácil. Toda mulher deve algo ao feminismo.

Eu sou branca, hetero, tenho curso superior e sou parte de uma minoria. Isso não se justifica numericamente, mas ser mulher é ser parte de uma minoria. Por isso, o fortalecimento de discursos reacionários e de ódio me preocupa. É um discurso moralista e que parece razoável para muitos. Para eles, não seria nada mal que o aborto fosse punido com mais severidade ou que as mulheres tivessem um comportamento sexual mais recatado. Não vou discutir isso. O que sei é que a violência costuma ser uma Caixa de Pandora. Leia sobre o Terror, a Inquisição, as revoluções russa, chinesa, golpes militares na América Latina, etc. Você verá sempre o mesmo padrão (é pra isso que se estuda história): a violência, uma vez deflagrada, ultrapassa muito os propósitos iniciais, não consegue mais ser contida, se volta até mesmo contra aqueles que a iniciaram, leva muito tempo para se esgotar. Quem apóia a violência sempre acha que está no topo e por isso está seguro. Só deixa eu relembrar: nenhuma mulher está no topo.

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Porque nem sempre o artista sabe como nos atinge

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25/03/2016 – 17:02

Olá, Alessandra! Faz muito tempo que me enrolo pra mandar esta mensagem. Às vezes acho que vai ser bobinha, e noutras penso que ficaria muito feliz se recebesse algo do tipo. Então lá vai:

No próximo mês de junho, precisamente dia 10, eu completarei 2 anos de divórcio. Faz muito tempo e foi ontem. No período de merda total, me recomendaram ouvir música e cantarolar. Só que quando fui ouvir as minhas e quase todas as outras músicas do universo, percebi que elas falavam de amor, no sentido de paixão. Aquilo doída demais em mim. Eu não consegui ouvir sobre amor desfeito, amor que dura, esperança de amor, nada. Ao invés de ajudarem, as músicas me relembravam o que eu estava passando.

Na mesma época me apresentaram o CD Folia de Santo, e me apaixonei instantaneamente por ele. Gosto daquela religiosidade tão original, um tema que normalmente não me seduz. Por onde vou e para qualquer pessoa que apresente aquelas músicas, é sempre uma bela surpresa.

Vim aqui agradecer ao teu trabalho e de todos os que estiveram envolvidos no projeto. Além do valor das músicas em si, quero te dizer que em um lugar do Brasil havia uma pessoa muito triste e que tinha nele seu único consolo. Mesmo hoje o Folia tem um lugar especial no meu coração.

Um abraço e boa páscoa!

25/03/2016 – 18:29

Mensagem linda, flor. Feliz em recebê-la e ainda mais hoje, nesse dia tão cheio de símbolos e significados, e num momento pessoal intenso e por vezes tão cheio de dúvidas. Sua mensagem me renova a fé no que faço por aqui. Muito obrigada mesmo. Sigamos. Beijo e feliz páscoa.

 

Curtas de tá frio pá caraleo

galinhas vestidas

O melhor argumento de todos contra o frio e que eu sempre repito: a gente não consegue uma textura decente pra passar manteiga. (Chicuta)

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Um dia você quase tem uma insolação porque vai num casamento onde a noiva deixa os convidados em cadeiras de plástico no meio do nada sob o sol de 30 graus das 13h, e no outro a orelha perde a sensibilidade com o vento gelado.

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O frio que eu gosto é o anterior, aquele que a gente olha pros nossos vários casacos e decide a melhor maneira de sair quentinho e alegre, ou elegante, ou seja lá como você se sente naquele dia. E não essa busca desesperada por calor.

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Tanto que quem mora no sul tem toda uma ciência na hora de se vestir: tem o frio do vento gelado, o que esquenta no meio do dia, o úmido (pior de todos), com solzinho…

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Quem diz que no frio ficamos elegantes, além de gostar muito de preto, pensa num retrato, uma coisa estática. Porque se for encontrar com as pessoas todo dia, você vai perceber que elas estão sempre com o mesmo casaco, ano após ano. Casacão custa caro, sabia?

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Todo mundo fica encantado quando digo que a Dúnia adora roupa. Ela tem dormido com duas. O problema é que quando ela começa a usar roupinha não quer mais tirar. A estação muda, o sol à pino lá fora, e o cachorro querendo pijama. Isso porque ela já é quase um casaco de peles.