Perfeição no ônibus

Eu estava de pé no Ligeirinho, que não estava cheio. Fiquei perto da porta da frente, olhando a paisagem e pensando na vida. Quando o ônibus parou num ponto, ouvi o barulho do choro de uma criança e olhei para lá instintivamente. Foi aí que eu reparei – acho que todos reparamos – numa mãe com um carrinho de bebê. Ela estava com um jeans colado, salto e blusinha. Ela chamava atenção por estar muito gostosa. Mas não era um gostosa qualquer, era um gostosa de revista, um gostosa de plástica. Peitão, cinturinha e bundão. Como explicar? Ela parecia uma heroína de HQ adulto, não parecia de verdade. Olhei para as outras pessoas no ônibus e mesmo as jovens, mesmo as magras, mesmo as bundudas ou peitudas, mesmo as lindas não eram como ela. O corpo dela estava tão “perfeito” que não se parecia com nenhum outro corpo ali – ela pertencia à uma espécie diferente, daquelas mulheres que saem em capa de revista. Um lado meu achou lindo, e pensou no prazer de vestir qualquer roupa com a certeza de ficar ótima. Já o outro lado a achou bizarra e ficou com medo de no futuro sermos todas obrigadas a ficar assim.
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De esquerda

Uma amiga observou que eu sou uma das poucas pessoas que coloca sua opção política no perfil do Facebook: de esquerda. Não faz tanto sentido levando em conta que meu perfil é muito pobre em informações e não sou do tipo que anda com o Manifesto na bolsa. Aquela informação tenta sanar um problema estranho que eu tenho. Ela quer representar muito mais do que política – é pra dizer que sou pelas minorias, pelo preto e pobre, pelos frascos e comprimidos, pelos animais indefesos, pelo direito de ver novela e por muitos outros discursos contrários à visão elitista que a classe média tem de si mesma.

O problema sou eu, na verdade. Sou calma e sem dúvida tenho cara de certinha. Casada, hetero, branquinha, cabelo liso, sotaque do sul, sem tatuagens ou piercings, curso superior. Todo aquele perfil agrada vovó. Então nego olha pra mim e acha que compartilho da sua visão elitista e bem nascida da vida. Vocês não imaginam as opiniões facistas que já ouvi das pessoas mais insuspeitas. São situações inesperadas e bizarras: aquela vovó boazinha que faz tricô vira pra mim e diz que os negros são …, ou amigos sorridentes comendo pizza começam a falar que é o nordeste que afunda o país porque …. Defesas apaixonadas da propriedade privada e horror a esse gente que fede e come pelas ruas. A parte mais ofensiva é a liberdade com que falam perto de mim, de nem passar pela cabeça deles que eu penso diferente. Voltando à parte mais política: na época do Lula recebia incansáveis e-mails falando mal dele e do PT. Tudo bem se citassem mensalão, excesso de viagens ou má administração. Os e-mails me incomodavam porque o problema Lula era ter nove dedos, ser um burro sem curso superior, sapo barbudo-feio-nordestino. Fernando Henrique sim era Doutor e fazia boa figura lá fora… Ou seja: opções políticas justificadas com os piores preconceitos. Tento avisar, com o meu de esquerda, que não sou assim e quero distância de quem seja.

Medo nosso de cada dia

Eu falo muito em ir embora de Curitiba. Sempre tive mais amigos fora, nem ao menos o meu blog faz tanto sucesso aqui como em outras capitais. Quando digo para o Luiz aceitar uma das muitas oportunidades de morar fora, ele me lembra sensatamente que moramos numa casa legal, num bairro legal, que tudo está legal. Morar em outra cidade pode ser bom… e também pode não ser. Na incapacidade de resolver essa equação e sendo que a nossa vida não está tão ruim assim, vamos ficando.

Uma vez eu concluí que a vida nada mais era do que uma evitação do sofrimento. Se mudar, tudo pode ficar um pouco pior, então ficamos. Se alguém nos pede um conselho, também temos dificuldade de recomendar a mudança. “Se eu me separar do traste, será que consigo um marido melhor, caso de novo e sou bem feliz?” Pode ser… Então a mulher só larga o traste quando se conforma que morrer seca é melhor do que continuar lá. Vejo que é muito mais o medo do que pode acontecer em casos de doença ou morte que mantém muitas famílias unidas. Até eu penso no que será de mim quando for velha, sem filhos que se preocupem com meu bem estar. O emprego é ruim mas pelo menos paga as contas. Os amigos são ruins mas pelo menos é companhia. Não gosto da cidade mas já estou acostumada.

A equação do medo é difícil de ser solucionada. Ele fica de mãos dadas com a sensatez, mas ser sensato a vida inteira é quase como não viver. Eu desisti da idéia dele ir embora. Quando quero fazer algo novo, pego na mão do Medo e vamos juntinhos.

Picolé de amendoim

No ano passado abriram dois lugares aqui que vendem picolés deliciosos: um fica bem no centro, e se chama Delícias do Serrado, na Barão do Rio Branco. Lá os picolés são mais naturais e têm sabores de frutas incomuns. O outro é a famosa Paleteria, atrás do Estação, que vende uns picolés mexicanos bem parrudos. Quando vou lá e vejo aquela decoração cheia de Fridas e caveiras, sempre penso na Flávia e que será obrigatório levá-la quando ela vier pra Curitiba. Gosto tanto de um lugar quanto de outro, mas nos dois eu provei os picolés de amendoim e eles ficaram aquém das minhas expectativas. O problema é que eu busco um sabor muito específico no picolé de amendoim, algo que remete ao melhor picolé de amendoim que existe no mundo: o picolé de amendoim Capelinha.

Quem já foi numa praia de Salvador sabe do que estou falando. Você está na praia e passa um rapaz andando de chinelo de dedo debaixo do sol e naquelas areias escaldantes. Ele veste apenas uma bermuda e quando muito uma camiseta velha. Apoiado sobre um ombro só, um isopor. O picolé é baratíssimo, menos da metade de um picolé de marca, dava pra pagar com algumas moedas. Nos sabores umbu, mangada, siriguela e outras frutas típicas. Não tem logomarca e nenhum papel os protege. Com aquele preço e aquela estrutura, é claro que as condições de higiene e produção do picolé não devem ser das melhores. Foi por isso que na última vez que fui a casa do meu pai, e ele chamou o Capelinha para dar picolé pra todo mundo, o Luiz educadamente recusou. Eu disse – Dêem um de amendoim para ele. Ele continuou recusando, até que por insistência deu uma mordida educada no picolé que tinha em mãos. Resultado: o Luiz não quis provar mais nada, sempre que aparecia um Capelinha – e meu pai tinha acordo com um que vinha até em casa -, ele só queria picolé de amendoim. Esse picolé tem pedacinhos de amendoim por ele inteiro, e é doce na medida certa. Não é à toa que é o primeiro sabor que acaba.

Será que ainda existe o Picolé Capelinha? Procuro outros e nada chega perto. Posso conviver bem com a idéia de nunca mais comer um acarajé da Cira (o melhor da cidade), mas jamais sem aquele picolé de amendoim.

Dança divertida

Eu achava muito divertido. Ficávamos em fila e, ao som do batuque, tínhamos de dar saltinhos. Saltar alto, com uma perna dobrada (em retiré) e a outra esticada, os braços se erguendo e olhando para o lado. Eu apelidei aquele salto de “propaganda de amaciante”. Era o primeiro lugar à sério que eu dançava, depois de ter passado pela minha primeira audição. Eu ainda guardava no espírito a alma de uma universitária, e achava tudo aquilo tão novo, tão divertido. Exercícios que tinham o objetivo de desenvolver a coordenação motora – quem fazia isso depois da infância? Por isso eu me sentia sempre um pouco brincando, sempre um pouco na infância. Alguns ficavam constrangidos, outros se aborreciam por não conseguirem fazer, e isso pra mim só era uma prova de que nem todo mundo sabe brincar.

Foi num espírito semelhante que fui fazer curso de preparação de musicais, em Joinville, com uma amiga que fiz na dança e considerava muito. Não apenas o curso não foi nada do que eu esperava como a amizade acabou ali, e depois de colocar os pés em Curitiba nunca mais nos falamos. Um grande problema do curso – hoje eu sei – era o fato dele ser ministrado por um cara da Globo e ser uma oportunidade de entrar lá. O musical era divertido, as músicas eram divertidas, as coreografias eram divertidas – só o ambiente que era péssimo. Competição, competição, competição. Eu era ruim demais, com apenas três anos de dança, perto de pessoas que até academia tinham. Então, não era contra mim que os fogos eram destinados – eu recebia o desprezo destinado aos muito ruins. Eu não entendia como pessoas podiam dançar, que era algo tão divertido, e não se divertirem, e tornarem aquilo mais um motivo de infelicidade. Dança e competir me pareciam um contrasenso.

Poucos meses depois, na escola, eu estava da mesma maneira: vendo quem dançava bem, querendo um lugar melhor o palco, reparando nos puxa-sacos, tentando obter as informações mais privilegiadas. Comecei a ficar assim quando a dança finalmente me fisgou, quando comecei a querer ser alguém. Aí percebi que até então eu os olhava de fora, como se aquilo não fosse um mundo sério. O mundo sério havia sido, pra mim, até aquela data, apenas o mundo acadêmico. Eu não havia me dado conta que os saltinhos e a coordenação motora eram o trabalho dos bailarinos, a maneira como se viam, como eram avaliados, sua profissão. Só então percebi, com um certo desapontamento, que onde quer que o ser humano coloque importância, lá haverá competição, inveja, fofoca, traição e tudo o que há de pior, porque poucos conseguem levar à sério sem perder a leveza.

Stand up

O nosso carro ainda era bonitinho no época. Saímos da festa de aniversário já meio tarde, e quando voltamos o estacionamento estava lotado. O cara que cuidava já estava meio bêbado e tinha deixado um carrão – uma dessas caminhonetes – atrapalhando a nossa passagem. De um lado o carrão e do outro lado uma parede que tinha um tanque de cimento. Apesar do Luiz ser um excelente motorista e o nosso carro pequeno, quase não havia espaço. Ele fez o que pode, mas não conseguiu evitar que a lateral do carro acertasse o tanque, e a cada manobra pra tentar desviar, ia riscando mais um pouco. Só depois que o estrago estava feito que o sujeito veio com a chave e tirou a caminhonete. Seria tanta dor de cabeça pra tentar que pagassem o prejuízo, pra provar que estava difícil de manobrar, que o cara estava bêbado e nós não e etc, que resolvemos deixar pra lá e voltar pra casa.

Deixamos pra lá mas voltamos putos. Estávamos naquele estágio de emputecimento que ninguém conseguia nem falar nada. Chegamos em casa sem tocar no assunto. Como não dava pra dormir daquele jeito, ligamos a TV. Estava passando Altas Horas e acho que foi a única vez na vida que vi o programa quando estava passando, e não alguns momentos memoráveis no youtube. Quem estava lá era o Leandro Hassum e ele começou a fazer o stand up dele falando sobre os alpinistas:
Mesmo resistentes no começo, começamos a rir. E quando o Leandro Hassum terminou, já estávamos melhor. Com a alma mais leve, desligamos a TV e fomos dormir.

O arranhão continua lá, serve pra afastar os ladrões.

***

Esse comentário que recebi por e-mail é ótimo, não podia deixar de colocar aqui:

Seus posts no Caminhante Diurno são sempre ótimos, Caminhante. Novamente vou dizer: é uma pena que não abra mais a caixa de comentários. Sobre o post do estacionamento, me fez lembrar um momento histórico da vida de um grande amigo meu. Ele se chama Américo, e era um amigo meu do curso de veterinária que tinha graves dificuldades financeiras. Ele entregava a revista IstoÉ, e como sempre tinha a falcatrua como um de seus talentos máximos_ além do excepcional humor que o fazia ver esses pequenos detalhes como coisas simpáticas e triviais_, ele saía em sua motinha cg velha, todas as semanas, de madrugada, para entregar as revistas, e chegava à universidade sempre atrasado, de modos que sempre ficava de dependência em alguma matéria. Como eramos muito amigos, ele me dava uma IstoÈ toda semana. Ele se apaixonou por uma menina mais nova que ele, e que tinha um pai com fma de bravíssimo, e esse pai odiava o Américo. Uma vez, o Américo teve que se sentar ao lado d o pai da menina, na casa dela, enquanto essa não chegava da casa da avó ou de sei lá quem, e ele sentiu que o pai iria aproveitar a circunstância para dar o ultimato do relacionamento. Ficaram longos minutos em silêncio, o pai com a cara fechadíssima (o Américo mede 1,60, enquanto o pai um homenzarrão de 1,80). Daí começou na tv um filme do Roberto Benigni, O Monstro. A menina nada de chegar. Quando ela chega em casa, encontra o pai e o namorado quase nos braços um do outro, chorando de gargalhadas por causa do filme. A coisa resultou em casamento. O Américo teve uma sorte danada por um antigo conhecido do bairro ter-lhe telefonado oferecendo um emprego em Brasília com alto salário, e deixou de ser o pé-rapado de antigamente. Apenas não nos vemos mais, há dez anos. 

Amor em ódio

Não acho admiração em excesso bom. Se alguém diz que me admira, tenho vontade de falar “Não, espera!”. Alguns disfarçam mais, outros têm coisas piores, mas todos têm seus defeitos. Conhecer a melhor face nos faz gostar até de psicopatas. Quando um começa a olhar para o outro como especial demais, como se fosse muito além de todas as outras pessoas, está a um passo de odiar. Sim, eu acredito que o adorador de hoje é o hater de amanhã. Não acho que seja da natureza humana admirar sem ambiguidade, colocar o outro no alto sem desejar secretamente que ele caia. Por isso que gostamos tanto de ver as celulites das celebridades, os seus chifres, os problemas com a família. Um lado nosso ama e o outro lado deseja que não seja tudo tão bom, que os defeitos, a vida com problemas, os traumas de infância e os problemas com dinheiro estejam em algum lugar. Como se gostar e não gostar fossem parte do mesmo mecanismo, e apenas gostar seja uma perversão, que faz com que a parte ruim fique represada. Quem oferece muito espera muito também, então é muito fácil magoar. Um gesto impensado e o pedestal pode ruir. O que seria perfeitamente normal e desculpável nos outros é imperdoável no ídolo. Isso é o que o mais novo hater dirá. Para mim, o mecanismo é: se o outro está no alto, nós necessariamente estamos embaixo, e todo mundo sabe que ficar no alto é mais gostoso. Então, a coisa toda já começou errada. Quem um dia adorou, não consegue sair da vida do outro à francesa, como se nada fosse. Ele precisa xingar, precisa empreender campanhas, precisa deixar o ambiente pesado. Pra sepultar e alimentar para sempre o que um dia foi amor, ele começa a pesquisar os defeitos: acompanha a vida do outro de longe, torna-se assíduo leitor do que ele escreve, une-se a outros “inimigos”. Tudo continua no lugar – a mesma intensidade, a mesma pessoa no coração.

Cartão

Eu estava passeando com o meu pai pelas Lojas Americanas. Até a adolescência, eu era louca por cartões. Sempre ia nas lojas e queria ver todos e me surpreender. Gostava dos desenhos, das cores dos envelopes, da idéia de falarem na frente algo que se completava de uma maneira imprevista depois. Então eu vi um que tinha um desenho triste na frente e dizia “a amizade dos outros pode ser preto e branca”, aí abria o cartão e a mesma figura da frente do cartão ressurgia, agora alegre e colorida – “mas a nossa é colorida”. Adorei o cartão e quis que meu pai comprasse. Queria dar de presente para a Natascha, minha melhor amiga durante toda a infância.

– Não, esse você não pode mandar. Escolhe qualquer outro cartão menos esse.

Mas eu queria aquele. Porque era o que expressava o que eu sentia, que era sem graça ficar sozinha e a Natascha era a amiga com quem eu mais gostava de brincar. Porque preto e branco na frente e colorido dentro. Porque era o cartão que falava da nossa amizade. Aí meu pai disse que não podia porque aquele cartão não falava de amizade. Que amizade colorida era uma espécie de namoros entre adultos e era disso que o cartão falava. Ia dar impressão de que eu e a Natascha éramos namoradas.

Fomos passear pelo resto da loja, quietos. Até que na hora de ir embora, meu pai começou a voltar para a sessão de cartões.

– Esquece o que eu disse, vamos comprar aquele cartão pra Natascha.
Mas aí eu é que não queria mais.

Mulherão

Durante muito tempo eu achei que o que me impedia de ser um mulherão era a aparência. No dia que eu tivesse um corpão para exibir… Os anos passaram e a adolescência passou, e com ela muitos complexos injustificados. Mas o fim da adolescência não me tornou um mulherão. Fiquei mais magra e mais gorda, fui a mais nova e a mais velha, me vesti melhor e pior, já tive cabelão e cabelinho, fui solteira e hoje sou casada. E em nenhum momento, entre uma amizade masculina e outra, entre uma festa e outra, entre uma conversa e outra, fui um mulherão. Pensei também que tinha a ver com a altura, que todo mulherão precisa ter pelo menos mais de 1,70. Aí conheci uma bailarina que conseguia ser um mulherão com a mesma altura que eu, 1,65. Será que todo mulherão tem peitão? Porque todas as que eu conheci tinham, ela tinha, e a forma como lembro dela é de bota, collant decotado e capa curta fechada por um cinto, andando pelo festival de Joinville e fazendo com que todos os heteros presentes no local (muito menor do que a média em outros lugares, reconheço) quase se jogassem no meio do caminho para chamar sua atenção. Foi com ela que tive a certeza de que todo mulherão acha muito natural que os homens se interessem por elas. Ou seja, eu sempre fiz tudo errado – eu tratava mal todos aqueles que não tinham chance. Do mulherão loiro e siliconado que vi na rua, aprendi que ser mulherão é um investimento que é pago com cantadas. Mulherão escondido debaixo de roupas discretas não existe, porque mulherão é justamente pra atrair olhares. Ser mulherão é um modo de vida, de se relacionar com o sexo oposto, de que colocar como objeto de desejo. Por isso que eu nunca fui e nunca serei um mulherão. E digo isso sem dores, sem achar que tenho menos valor por causa disso. Mulherão é apenas mais uma das muitas formas de ser feminina.

Porquê envelhecer é tão bom

Envelhecer é bom. Claro que não digo no aspecto físico, com as várias gorduras que aparecem sem que tenhamos feito nada para merecer – ou vai me dizer que um pão com manteiga ou outro é um motivo justo?, das dores nas costas e uma série de lentidões. Mas mesmo assim envelhecer é bom. Tanto que qualquer idiota é capaz de dizer quando encontra alguém mais jovem – “eu gostaria de voltar a ter a tua idade, só que com a cabeça que eu tenho hoje”. Não precisa ser sábio para aprender alguma coisa com o passar dos anos. Podemos não aprender sobre o mundo, e continuar nos surpreendendo com a maldade que há nele, mas aprendemos a respeito dos nossos próprios mecanismos e isso já é o suficiente para tornar a própria vida melhor.

Acho que a maior lição que temos com os anos é a consciência dos limites. Conhecemos os nossos limites, e por isso passamos longe deles. Essa história de ultrapassar os limites só é bonita nos filmes. Na vida de verdade, o gostoso é fazer as tarefas do dia a dia bem descansado, banho tomado, tudo funcionando. Chega de dar murros contra a parede, ou de fazer tudo com a insegurança da primeira vez. Ao saber que certas coisas nunca serão mudadas, paramos de lutar inutilmente. A pessoa pára de lutar contra quem ela é, o que toma um tempo danado e raramente chega a algum lugar. Timidez é isso aí, tipo físico é isso aí, o mundo é isso aí. Pergunte aos casais antigos que se dão bem – as pessoas param de brigar contra o que não tem solução e vivem melhor assim.

Na relação com o mundo, vejo que só a idade para fazer abandonar a idéia de provar coisas aos outros. O engraçado é que os adolescentes se vêem como os campeões nisso, sendo justamente o contrário – em nenhuma outra fase lutamos tanto para provar; não sabemos contra que o que eu lutamos, mas lutamos muito. É apenas testando que somos capazes de descobrir o que nos agrada e o que nos desagrada. Nem sempre o que o mundo diz que é agradável é agradável para nós, e vice-versa. Diria muita coisa só existe porque quando as pessoas descobrem que é ruim, a geração já mudou… Quando as situações ainda estão chegando, quando elas são apenas um pontinho no horizonte, também somos, quando mais velhos, capazes de identificar. Muitos anos e pessoas, muitas situações em que fomos enganados e nos ferramos, nos dão esse dom. A gente se torna capaz de identificar os sinais e agir antes do estrago. Não temos que esperar crescer pra saber no que vai dar. Os mais jovens chamariam de preconceito, de julgamento precipitado. É a semelhança com o passado que permite a leitura dos pequenos gestos – pessoas de quem os bichos gostam, pessoas que não devolvem o troco, pessoas que se descontrolam. 

Por fim, existe sempre a possibilidade, quando se é mais velho, de dizer que não tem idade pra isso. Contra esse argumento não há o que discutir – mesmo que a gente nem seja tão velho assim.

Tirinha

Uma vez saiu uma tirinha na Folha de São Paulo que minha mãe disse que era a minha cara. Era uma do Laerte, da série de tirinhas de Deus. Por pura distração, não recortei a tirinha aquele dia, depois achei que seria fácil encontrar no site do Laerte e o resultado é que isso já faz uns quinze anos e nunca mais encontrei a dita cuja. Gostaria de tê-la porque acho bacana ser definida por ela. Se alguém tiver ou achar, entre em contato comigo. Me conformo com uma cópia digital.

Deus estava diante dos anjos. Só vemos as cabecinhas deles, de costas. Deus fala:

– Cansei dessa história de sexo dos anjos. A partir de agora, quem quiser ser anjo venha para minha esquerda e quem quiser ser anja venha para a minha direita.

As cabecinhas se afastam, algumas para a direita e outras para a esquerda. Até que resta apenas um anjo no meio. Deus se dirige a ele:

– E você, o que quer?

Com o dedinho erguido, o anjo diz:
– Eu quero ser diabo.

****
Valeu a pena colocar essa história aqui. Eis que a tirinha apareceu. Muito obrigada, Eliane!

Incômodo

Um dos meus vizinhos, uma família, é ultra sensível a barulhos. Parece que os vizinhos deles, do outro lado, são uma família que tem o costume de bater as portas ao invés de fechar e isso os deixa loucos. Da minha parte, não sou do tipo que curte música altíssima, nunca ando de sapatos em casa e não tenho crianças, o que me faria a vizinha perfeita. Mas, às vezes, gosto de praticar flamenco. Faço isso de chinelo e bato fraquinho, mesmo porque prejudica a coluna. Pra não incomodar ninguém sapateando, testei vários horários. Tentei estudar três horas da tarde, tentei estudar dez horas da manhã, fim de semana nem pensar. Em poucos minutos, ouvi batidas enfurecidas na parede, imitando o som do meu sapateado. Sou uma pessoa de paz e ouvir essas batidas me faz parar. Ao mesmo tempo fico com raiva – que tipo de pessoa fica em casa o dia inteiro e acha que tem direito de não ser incomodado com barulho nenhum? Isso é apenas parte das atitudes desagradáveis dessa gente, que já destratou o filho do jardineiro, o carteiro e todo mundo de quem eu tenho notícia.

Vocês podem achar essa associação meio distante, mas esses meus vizinhos às vezes me lembram a vida na internet. A qualquer hora, qualquer atitude pode gerar uma reclamação. Você cita um exemplo distante, tem o cuidado de dizer que não são todos os casos, só falta falar que está se referindo aos esquimós errantes do século XV, e mesmo assim sempre aparece um incomodado. Um que toma aquilo como se fosse dirigido especialmente pra ele, com nome e endereço, e “se defende” de maneira enfurecida. Aí você tem que relembrá-lo que aquilo não foi pra ele – embora, convenhamos, talvez tenha sido pela velocidade com que vestiu a carapuça.