Tratado de Versalhes

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Na opinião dos chineses, o Tratado de Versalhes não é só injusto, mas simplesmente vulgar e falho de hanyang (educação). Se, no momento da vitória, os franceses tivessem sido um pouco animados do espírito do taoísmo, não teriam imposto o Tratado de Versalhes, e poderiam agora dormir de perna estendida. (Lin Yutang/ Minha terra, meu povo, p.70)

Uma guerra mundial depois, é muito fácil olhar para o Tratado de Versalhes e fazer até troça. Que era tão óbvio, o que é que custava ser um tiquinho mais generoso, onde estavam com a cabeça. Dá sempre a impressão que aqueles eram burros e que hoje se faria diferente. Não é isso que tenho visto. Sem entrar no mérito político ou sobre ser culpado ou inocente, mas precisa mesmo tornar a aposentadoria algo distante, tirar proteções legais relativas ao trabalho, achatar a renda da maioria enquanto poucos nadam em dinheiro, tornar a educação ainda mais elitizada, querer prender um homem que é um símbolo, tudo ao mesmo tempo?

A verdade está lá fora

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Eu achei que com o tempo ia parar, mas continuo ouvindo uma sugestão que para mim não faz o menor sentido: eu deveria largar tudo e ir morar no exterior. Largar tudo. Não tenho nenhum contato ou oportunidade de emprego à minha espera, qualquer vínculo que me puxe para outro país. O que as pessoas esperam é que eu vá, de qualquer jeito, para qualquer lugar, que qualquer país é melhor do que permanecer aqui. Que estar na cidade que eu domino, onde tenho amigos e contatos e a vida toda estabelecida não me serve de nada. Feliz mesmo eu seria em outro país, que subemprego, morar mal e estar cercada por pessoas que falam uma língua que não domino e que não querem saber de mim é muito melhor, apenas por ser estrangeiro. Vê se algum europeu acha que a vida de classe média no país dele não é nada diante da eletrizante experiência de viver mal no Brasil. Eu hein.

Defeito

Eu estava disposta a crushzar meu crush à distância até a morte, mas minhas amigas não se conformaram e queriam a todo custo me aproximar dele. O plano era mostrar a ele um dos meus textos, ele ia achar o máximo, iria atrás do meu perfil, descobriria que eu sou eu, me adicionaria e então eu poderia falar com ele sem parecer uma desesperada. Aí quiseram deixar o meu Facebook mais interessante, colocar uma foto bonitona. Eu nunca entendi muito a lógica de foto bonitona diante de um homem que já nos viu ou verá, só pra ele pensar que uma boa maquiagem e o ângulo certo são capazes de milagres. Enfim, mas eu sou eu, uma tonta que se conforma em jamais se declarar. Minha amiga veio aqui, me fez colocar uma roupa que mostrava o colo, me mandou segurar livro, jogar a cabeça para trás como se estivesse gargalhando, me postar diante do espelho, olhar pra cima, olhar pra baixo, colocar a mão aqui e ali. Eu estava me sentindo desconfortável, mas eu ficar desconfortável em foto é o meu normal. Depois de várias poses e fotos e nenhuma parecer estar boa, ela me falou que eu sei que ela é super sincera mesmo e sinceramente meus cabelos brancos me deixam com uma baita cara de velha e ela estava tentando disfarçar. Assim que ela falou, vi que ela fez uma cara de quem se arrependeu, provavelmente porque eu fiz uma cara de quem se magoou. Meu cabelo fica realmente estranho, tenho fotos onde ele está totalmente branco e em outras é como se ele fosse castanho. Então, eu entendi que há verdade no que ela disse. Mas ao mesmo tempo, se um dia quiser uma foto bonitona minha, já sei que temos concepções diferentes. Se eu achasse que meu cabelo é algo a se envergonhar, a ser disfarçado e escondido, eu pintaria. É a diferença de quem vai tirar foto de uma mulher gorda e manda ela ficar de lado, de preto e ângulos de cima pra disfarçar ou coloca um biquíni e tira foto na praia. Eu sei que a primeira opção é mais fácil de absorver. Eu tenho uma faixa branca, bem no meio da testa, e eu disfarçava usando sempre franja. Um dia puxei ela para trás na frente dos meus amigos Elson e Flávia e o Elson soltou um “que lindo” muito espontâneo. A Flávia recriou esse efeito com mecha o quanto pode, até detonou o cabelo. Por ironia da natureza, eu e ela temos a mesma idade e a Flávia que quase não tem cabelo branco adoraria ter porque acha a coisa mais linda. Se eu me acho linda? Quando me olho no espelho, me sinto de novo com cabelo cheio de mechas, o que fiz apenas uma vez na vida – poucas semanas depois pintei tudo, parecia cabelo branco… Levei um tempão pra absorver, tenho dias e dias, mas hoje quando me dá na telha prendo a franja para trás, exibo mesmo. Feio ou bonito, é o que me convém hoje. É meio:

ser aceito e popular

Lagoa Azul virtual

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Nos heróicos anos 80, as tardes de domingo da Globo eram apimentadas com um filme chamado A Lagoa Azul. Um senhor com um casal de crianças loiras vai parar numa ilha deserta e o adulto morre em pouco tempo. Adaptados à natureza, eles crescem e descobrem sozinhos o amor, o sexo, fazem um bebê… A internet, quando se olha pro comportamento coletivo nela, me parece um imenso adolescente. Provavelmente é porque grande parte dos usuários é adolescente. Um adolescente na Lagoa Azul, porque houve um buraco. Só agora a geração mais velha entrou, e mesmo assim não muito. A forma deles interagirem aqui é diferente, é mais comportada, sem ler nas entrelinhas. Quem está aqui faz tempo sabe que gostar de quem nunca se encontrou pessoalmente é normal e enjoou de Bom Dia piscando desde o tempo que vinham em arquivos de pps. Só pra citar um exemplo, eu conheço o dono de uma loja de roupas muito boa e que demorou bastante para fazer site. Ele mesmo me disse que não imaginava que as pessoas quisessem comprar roupa pela internet. E, quando fez uma página no Facebook, as postagens são raras e sem o menor “gingado”. Dá pra perceber que ele fez só para constar; ele sabe que é necessário ter, mas não entende o que colocar porque ele mesmo não consome dessa forma.

A maneira como se ama ou se odeia na internet também me parece adolescente. A forma como se é dono da verdade. As polarizações, o radicalismo. Quando as pessoas querem chamar atenção de alguém, ficou comum não elogiar e sim partir para a discussão inútil, para mostrar que é uma pessoa com personalidade, que tem opinião. A vontade de ser diferente, de contrariar tudo, achar engraçado cultuar o pessimismo e reclamar o tempo todo. Não é tudo tipicamente adolescente? Mas um monte de adolescentes juntos também se modificam: hoje em dia quase não se comenta mais em blogs e até mesmo no twitter está complicado falar abertamente, a não se queira brigar. As opiniões migraram para o Facebook, onde o controle do público é maior, o que fortalece ainda mais as bolhas.

Mas sabe que, apesar de tudo, eu sou otimista? Eu acho que de tanto baterem uns nos outros os comportamentos vão se auto-regular. Essa geração vai crescer e vai acompanhar as próximas, não vai ter mais o buraco geracional que aconteceu com o surgimento da internet. Assim como os pps enjoaram, algumas modinhas de hoje vão enjoar também. Se a internet tivesse passado pelas vias normais dos adultos, ela nunca seria tão democrática como hoje. Teriam dado um jeito de exigir pós-graduação, exigiriam o preenchimento de papeladas, alguma forma de autoridade burocrática ia ser plantada. Adolescência também é caos. Sem essa imensa adolescência, não teríamos a criatividade, o senso de humor e o caos. Não sabemos o que pode vir desse caos, mas já considero melhor do que o que nasce das instituições de sempre.

Livro natural

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Depois que chove e finalmente consigo tirar a Dúnia de casa, já sei que me espera um passeio mais demorado do que o habitual. Parece que a chuva abre possibilidades novas e ela se atira sobre os matinhos e cantos com mais entusiasmo, como se ali estivessem informações novas e deliciosas. Talvez a Dúnia já esteja bem ceguinha e eu nem sei, porque ela sempre foi um cachorro olfativo. Trajetos longos nada significavam pra ela se não fosse possível parar a todo instante para cheirar. Antes essas paradas me deixavam impaciente depois comecei a pensar que, visto de fora, também não tem o menor sentido que eu coloque diante do meu rosto uma tela branca cheia de fileiras pretas e fique parada. Ficar deitada na casinha e latir para quem passa é apenas a parte visível do universo da Dúnia, a parte que tenho acesso. Também tenho visto os chefs, e qualquer matinho eles já colocam na boca, provam as coisas cruas, pegam o camarão que foi pescado na hora, arrancam a cabeça, descascam e comem aquela carne transparente. Eu só consigo pensar numa água saindo da torneira, meia hora de molho com um pouco de água sanitária, quem sabe uma panela cheia de óleo quente. Claro que é nisso que eu penso, eu já coloquei alecrim em molho sugo e só soube que fica ruim porque comi. O dom que eu tenho é o de vir aqui e contar essas coisas, e contar tantas coisas, pequenas e fugidias, que vocês se iludem de que elas são mais importantes do que as de outros. Assim como o que sabe matemática vira o sabichão no colégio, o domínio da linguagem escrita dá a poderosa sensação de inteligência. Eu adoraria poder penetrar na magia do cheiro dos matinhos molhados.

Os chefs

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Estou vendo Chef´s Table e recomendei pra um monte de gente. Cada episódio fala de um chef, que além de ser super poderoso na cozinha tem que ser especial em alguma coisa. Além de dar fome e uma frustraçãozinha por saber que nunca comeremos aqueles filezinhos minúsculos de 500 dólares, a gente fica também com vontade de fazer algo pelo mundo. A série abre com Massimo Bottura, que já havia conquistado meu coração no documentário com o mesmo nome e que mostra um restaurante que ele abriu com os melhores chefs do mundo cozinhando de graça. Aí vem o que na busca pelos ingredientes perfeitos se envolve na produção dos alimentos, cada vez mais orgânica. Outro tem uma equipe de ciganos e cozinha ao natural, usando fogueiras,. Tem a japonesa que é puro amor. O que usou algas que ninguém comia, o pesquisou métodos antigos de conservação de alimentos. Aí chega num nova iorquinho e assim que o programa começa mostra que o tchans dele é fazer uma comida mucho loca. Quase desliguei. Grandes coisas, jogar os doces na mesa e fazer comer com os dedos, isso eu faço em casa (eca, não faço não). Achei pequeno, eu quero é chef que cozinha com método medieval e muda o mundo! Aí mostraram os pratos e, pensando bem, sendo muito sincera… Se fosse chef, eu estaria muito mais pra que faz pratos engraçadinhos do que o que cozinha em geleiras.

Mais de 10000 saltos horríveis

Não cheguei a comentar sobre isso nos posts que escrevi sobre o livro Outliniers (um post aqui e outro aqui). Não deve ser novidade pra quem é da área de educação. Lá fala que tem um estudo que diz que, por algum motivo, alguma questão estrutural do cérebro, são necessárias pelo menos dez mil horas de prática em qualquer para um ser expert. Aí o livro examina histórias de talentos que nos parecem precoces, como Bill Gates e Mozart, e mostra o que os tornou precoces aos nossos olhos foi o fato de terem juntado dez mil horas mais cedo do que os demais. Sobre Mozart, o autor até mesmo diz que as tais primeiras composições que ele fez quando era criança não passavam de colagens de músicas da época, provavelmente feitas com o auxílio do pai. Que as primeiras composições revelantes de Mozart são quando ele já tinha seus vinte anos, o que o torna até um músico de amadurecimento tardio (!!!).

Essa teoria me estimulou a tentar algo meio inédito: tentar fazer uma saída (aquele salto maledeto pra entrar na água) decente. Quem nada desde criança salta lindamente na água, parecem uns peixinhos voltando pro aquário. Quem começa a nadar depois de adulto dá vergonhosas barrigadas e/ou um salto sem impulsão. Como é frustrante, todo mundo deixa por isso mesmo. Eu me impus o desafio de fazer pelo menos uma saída por aula, geralmente faço mais. Será que um dia, na terceira idade, vou conseguir enganar os olhos mais treinados e parecer que aprendi a saltar desde criança? Aguardemos.

É só posicionar os pés, as mãos, a cabeça e sair. Valeu, Gustavo!

Intensivo

Eu fiz um curso que durou um dia inteiro, que pelo jeito foi um sucesso, e recebi uma correspondência falando que ele agora dura dias, não lembro se dois ou mais. Depois eu reparei que não é só o curso, tem uma estadia num retiro, é como uma vivência. Aí eu pensei: não basta ter tolerado perguntas bestas durante um dia inteiro, eu tenho que encontrar com as pessoas de manhã, de tarde e de noite, fazer refeições com elas, dividir quarto com uma delas, repetir tudo no dia seguinte. É um curso ou um BBB, prova de resistência? Quando o monstro desinflou, pensei que a maioria das pessoas acharia uma experiência linda.

whats wrong with me

Alguma dignidade

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Gosto de fazer compras à noite, as vantagens são inúmeras. Eu já morei num bairro que também tinha muitos prédios, mas todos com lojas embaixo, então havia sempre um movimento em qualquer horário. Aqui não, é uma região muito mal servida de comércio, passo quase o tempo todo por portarias e grades que me permitem adivinhar quadras, salões de festas, garagens. Passam por mim alguns poucos passeadores de cães, pessoas indo e voltando da padaria, vejo acenos de pessoas aos seus caronas já quase dentro dos prédios. Por isso aquele casal chamou minha atenção. Ele, da minha altura, um rosto latino que não soube identificar. Ela, provavelmente da mesma região, com uma enorme gravidez. Um carrinho com um bebê e uma criança. Nossos olhares se cruzam de maneira neutra e sigo para o supermercado, eles para a direção oposta. Quando estou voltando, alternando o peso das sacolas nas duas mãos, os vejo de longe remexendo a lixeira de um dos prédios. Ajeito as sacolas, espero os carros passarem, atravesso a rua e isso lhes dá tempo de fecharem rapidamente a lixeira. Quando passo por eles, voltaram a ser um casal andando com os filhos pela noite. Pensei no que tinha nas sacolas e na carteira, mas a única coisa que eles queriam de mim era a manutenção da sua dignidade.

Curtas sobre profissionalização

profissionalizacao-01-760x400Já entrei na fase de ter que fazer vários exames chatos todo ano. “Você já fez antes?”, perguntam cheios de dedos. Aí a gente se pega já tirando a roupa, colocando os peitos pra fora pra moça, abrindo as pernas, olhando pro lado. Faz aí.

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Eu estava sentada no banco do ônibus ajeitando meus pacotes de compras e um sujeito me estendeu um papel. Nem olhei, fiz um gesto de recusa com a mão. Depois o vi recolhendo o papel e ninguém tinha dado nada. Método errado. Tem dias que ouço histórias comoventes de superação após largar as drogas, gente puxando oração, brindes dados de coração, artigos que custariam o dobro na loja e nem salvam vidas, gente que toma fitoterápico pro joelho que o SUS não cobre, piadistas. Vê se alguém que só distribui papel tem chance hoje em dia.

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Dois tuites meus viralizaram de maneira assustadora. Um deles falava de veneno de rato e o outro de classe média. O segundo foi parar em pelo menos duas páginas do Facebook. Não queria ver a repercussão, mas me mostraram. Como vocês podem imaginar, não tem limites. Teve até gente que copiou como se fosse a sua experiência pessoal. Também disseram que eu criei o tuíte apenas para ganhar likes. Que sonho seria se eu tivesse essa capacidade de adivinhar o que as pessoas querem ler.

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Séries Netflix: só com indicação. Os trailers das de humor são assustadores.

 

Durona

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Eu não sei que horas a Dúnia dorme, ela está sempre acordada quando eu vou dormir, por mais tarde que eu vá pra cama. Agora, mais velhinha, o horário dela de acordar é pra lá do meio dia. Quando saio de bicicleta, às 7h, está bem mais cedo do que o horário dela. Eu acordo, vou até a cozinha pra um café rápido, volto pra terminar de me arrumar e saio. Principalmente no inverno, quando eu abro a porta, a Dúnia me olha com cara de sono dentro da casinha, aproveito pra fazer o carinho que ela normalmente não deixa e lhe dou um ossinho. O que ela não sabe é que, às vezes, enquanto estou tomando meu café, eu a vejo da janela da cozinha, sentada com o ouvido colado à porta da frente. Em algum momento, entre o café e terminar de me arrumar, ela volta pra cama e fecha os olhos pra me convencer que esteve lá todo o tempo.

Despedida com bolinhas

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Eu li em algum lugar do Facebook que é meio chocante pensar que, em algum momento da infância, você saiu para brincar com seus amigos sem saber que aquela seria a última vez. As pessoas comentaram que era um pensamento meio perturbador. Da minha parte, tenho muito limpa na lembrança a minha despedida. Foi com meu irmão e eu acho que tinha 14 anos e ele 13. No lugar mais central de Curitiba, no início da década de 90, inauguraram uma loja que ocupava vários andares de um edifício de esquina, chamado Garcez, e a loja tinha o mesmo nome. Quando inaugurou, era muito bonita, quase um shopping. Depois não deu certo, virou várias lojinhas, virou faculdade quando ficou fácil abrir faculdade e hoje me parece que é um prédio administrativo. Todo mundo que mora aqui sabe de que prédio estou falando. Eu e meu irmão fomos passear no centro, adultamente, e aquilo era parte do passeio. As escadas eram de mármore branco e o dourado predominava na decoração. Cada era dedicado a um segmento – feminino, masculino, infantil, eletrodomésticos, etc – e na parte central aberta era possível olhar toda loja. Quando chegamos na sessão infantil, havia um parquinho, uma porta branca com uma piscina de bolinha em cada ponta. Eu lembro que elas eram bem rasas, o parque havia sido pensando para crianças muito pequenas. Mas quando eu era uma criança muito pequena não existiam piscinas de bolinhas. Eu lembro que minha sensação quando elas surgiram foi: Pooooxa, por que não inventaram isso antes? Não lembro como foi o acordo, se alguém propôs; gosto de imaginar que apenas nos olhamos e entendemos tudo. O que eu lembro bem é de cada um na sua piscina, som de bolinhas, bolinhas escorrendo para os lados, guerra de bolinhas. Adultos com ar de reprovação eram apenas inveja. Só fomos embora depois de esparramar e jogar todas as bolinhas que quisemos e a nossa felicidade era completa.

Sala de exame

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Acho sempre muito estranho quando eu saio do elevador e me vejo de uma vez no ambiente, acho que foram anos de condicionamento entrando em corredores. É como nos filmes de ficção científica que a pessoa salta em outra dimensão. Mais surpreendente ainda porque fui parar numa sala de exames lotada e na última vez que tinha feito ele, um exame totalmente feminino, não foi daquele jeito. Esperei minha senha, meio ansiosa porque cheguei nos dez minutos antes que manda o protocolo mas até me chamarem já daria o horário. Aí vi que a sala estava lotada daquele jeito por causa dos acompanhantes. Saia gente de lá com o andar típico de quem tinha tido AVC e não conseguia mover direito um lado do corpo. Pessoas que torceram o pé. Idosos que mal se moviam. Dois entraram homens na sala, ignoraram a senha e se desentenderam entre eles e com uma das atendentes, justamente a que eu tinha achado antipática. Um queria fazer um exame que fica em outra unidade, praticamente do outro lado da cidade. Aí ele virou pro outro e era daquelas pessoas que fala sem mover a boca, o movimento acontece todo por detrás dos lábios imóveis. Ele hesitava em deixar o outro – provavelmente haitiano – lá, achava que não saberia voltar sozinho. Mas deixou. O haitiano trouxe o resultado de uma colonoscopia, não sabia dizer onde estava a guia, se tinha guia, a atendente que eu achava que era antipática pegou a carteirinha e não pediu para ele ir para a fila. Não havia nenhum registro no número e ele disse que precisava fazer outro exame. Ela quis saber quem, como, onde e ele não sabia responder. Eu fui chamada antes da história terminar. Fiz meu exame, esperei o resultado com a bolsa no colo e sem ânimo de pegar o Kindle. Depois de longos minutos, a assistente foi até a impressora que fica atrás das atendentes e pegou folhas que estavam espalhadas lá faz tempo, ou seja. Peguei o exame, agradeci, fui a passos largos até o elevador. Meus passos eram largos, bem informados, saudáveis.

Carpe nada

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A expressão carpe diem é bonitinha mas, tal como diz as propagandas, precisa ser apreciada com moderação. É um equilíbrio difícil o de aproveitar o dia, não deixar para depois e perder o momento, mas também não estragar o futuro por um impulso sem sentido. Porque o futuro é malvado, o futuro é Saturno devorando o filho. O tempo traz de volta o cadáver, o tempo traz a verdade, o tempo revela tudo. Quando me esqueço do quanto o tempo é valioso, penso em alguém que tenha sido preso sem culpa. Se a pessoa passa vinte anos na prisão e depois soltam porque reconheceram o erro, nosso primeiro impulso é pensar que ela deve processar o Estado e ganhar uma fortuna. Mesmo que ganhe, de que adianta? Ela entrou jovem, cheia de forças e ilusões e saiu um velho amargo, não há dinheiro que pague. A pior coisa para o canalha, para o carpe diem alalaô, é o tempo. Eles acham que vão morrer na farra, garrafa na mão e de preferência penetrando uma prostitua. Mas não morrem. Um monte de pessoas fitness morrem cedo, às vezes de câncer do pulmão sem fumar nem cigarro eletrônico, e o sujeito que exagera continua aí. Tenho certeza que é castigo. É pra olhar no espelho e ver a feiura, o pau caído, se sentir doente quando está de ressaca, sentir o desprezo dos que chegaram no mundo agora. Saturno não, é Deus Saturno pra você.

Umbiguismo

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Uma vez comemorei o primeiro post do ano me propondo a fazer o blog diferente, mais leve, mais como trato com meus amigos. Não apenas não consegui porque foi um ano de porrada na minha vida pessoal, como depois um amigo (?) citou aquele post como prova inconteste do meu umbiguismo. Então me vejo diante da obrigação de escrever o primeiro post do ano sem saber o que dizer. Tal como naquele ano, gostaria de dizer algo diferente. Sempre quero dizer algo diferente. Eu me canso de mim, dos temas que eu falo e dos temas que sou incapaz de falar. Não sei como vocês aguentam tanta história de ônibus. Mas temos sido insistentes: vocês em lerem histórias sobre ônibus, eu em tentar me espremer apesar das minhas limitações. Nós temos nos divertido, não é verdade? Passei da fase de ameaçar não escrever mais e blablablá porque eu sei que preciso. Vamo que vamo, tem gente que gosta de umbigo.