Etiqueta de divórcio

divórcio

Apareceu nas sugestões de amizade do meu FB uma carinha conhecida. Cliquei e ops, era o marido de uma amiga exibindo o status de “divorciado”. Ela, mais discreta, apenas ocultou o estado civil e umas fotos mais recentes de ambos sumiram. Eu seria hipócrita se dissesse que não sabia, apenas não sabia oficialmente. Talvez outras pessoas discordem de mim, mas acho até necessário que a notícia da separação percorra os amigos; eu fiquei bastante grata quando percebi que as pessoas sabiam e me cuidavam sem tocar no assunto. Os amigos saberem evita a tristeza de ter que verbalizar algo que ainda dói muito. Também deve ser muito chato ter que ouvir perguntas sobre o outro – que muitas vezes são feitas apenas por educação – e ter o dilema de responder como se ainda estivesse com ele ou ter que explicar. Algo que me surpreendeu foi não ter precisado me explicar. Talvez, novamente, devo agradecer aos amigos ótimos eu tenho. Se eu quisesse falar, eles me ouviriam, mas ninguém precisava ouvir os detalhes ou que eu os convencesse de que foi o certo. A verdade verdadeira é que separações são uma tragédia para quem vive e banais para os outros.

Anúncios

Menos e mais

hqdefault

Se eu fosse projetar o cenário, nos colocaria sobre folhas gigantes, deitados como lagartas do País das Maravilhas, preguiçosamente fumando narguilé. Mas apenas conversávamos on line mesmo, porque nosso encontro real é tão difícil que é provável que ele aconteça apenas uma vez em toda nossa curta existência. Digo uma vez porque sou otimista, e se passasse perto de onde ele mora me mobilizaria para vê-lo e creio que ele faria o mesmo esforço. Apenas para que pudéssemos nos olhar nos olhos e rir juntos enquanto eu envolvo o meu braço no dele, para depois tirar, antes de ser mal interpretada, porque sei que meu amigo não é fácil. Naquela ocasião ele me falou que havia recém-descoberto que nem todo interesse precisava ir para cama e receber o investimento de uma paixão, que o sexo é sempre sexo e algumas mulheres ainda que muito interessantes poderiam continuar amigas. Pisco para ele com meus imensos olhos de lagarta cética. Na conversa seguinte ele já estaria novamente apaixonado, mas naquela ele estava de gônadas cansadas. Aí ele passou o narguilé para mim, estendi os braços curtos e ele me perguntou das minhas histórias. Disse que estavam no mesmo pé da última conversa, e da última, da última e última. Ninguém à vista, mesmo, nenhum homem, mulher ou ser vivo? Disse que para mim era um mistério como todas lhe parecem gostosas e interessantes. “Eu preciso comer menos a galera e você mais”. Sopro a fumaça no ar e faço três círculos. De fato.

Curtas sobre e com eles

homens-musculares-silhueta-vinil-parede-decalque-grande-m-sculos-fabricantes-gym-corpo-desenho-decalque-fitnees-centro_640x640

Meu amigo Alessandro recebeu no Sarahah que é muito mais interessante por escrito do que pessoalmente. O que posso dizer a respeito disso, se fosse pra mim: assim espero.

.oOo.

Meu irmão era o mestre em não brigar. Eu me aborrecia com ele e ele simplesmente não brigava. Reagia como se estivesse bem, porque se pra ele estava, então estava. Tenta ficar irritado com alguém que está de boas pra você ver, é muito difícil.

.oOo.

Os problemas que tive com aparelho serem foram na terceira semana. Só que quando tento marcar consulta extra é sempre tão difícil e cai poucos dias antes da manutenção, que desisti e me aguento. Desta vez, o dente entortou, a mola passou por cima do arco, elástico saiu, eu ficava ajeitando com o dedo, feia a coisa.

-Você não faz ideia da surpresa que eu e meu aparelho temos para você esse mês.

-O que você andou fazendo de errado?

-Eu não fiz nada, quem fez foi a natureza.

.oOo.

Já dei uma nota de vinte para o cobrador pedindo desculpas. Ele foi gentil e olhou para mim com enormes olhos verdes. Pensei em falar do quão grandes e verdes eram aqueles olhos e parei. Juro para vocês que ele praticamente batia as pestanas para que o detalhe não passasse anônimo.

Curtas de objection your honor

objection-your-honor

Digitadores ficam com LER nos pulsos e o elenco de The Good Wife deve desenvolver lesões relativas a levantar abruptamente dizendo: objection, your honor!

.oOo.

Primeiro contato e eu não foi polida – não fui grossa, mas não foi bacana. A resposta foi no mesmo tom. Já tinha decidido nunca mais comentar nada, deixar de ler, aí recebo uma mensagem privada gentil, fazendo referência ao meu comentário e me convidando a ler um outro texto. Fiquei muito sem graça, pedi desculpas, disse que havia me arrependido do meu primeiro comentário, agradeci. Aí lembrei porque tenho a política de ser gentil sempre que possível:

  1. A gentileza desarma.
  2. A gentileza nos faz passar menos vergonha.

 

.oOo.

As pessoas. Elas têm o péssimo hábito de terem defeitos. Alguns nos são insuportáveis e deixamos de falar com elas. Quando não são, a melhor política é escapar, nunca tocar no assunto e fingir que não viu. Por incrível que pareça, o caminho do meio – analisar, jogar na cara, exigir justificativas e pedidos de desculpas – é muito pior.

Louca obsessão

Contém spoilers (é um filme de 90´s, pô!).

Havíamos acordado cedo. Foi um dia inteiro viajando de carro pelas cidades do Recôncavo Baiano, comendo bem, ouvindo Folia de Santo sem parar, passando por altas aventuras como a busca pela casa da Dona Canô. À noite estávamos exaustos e ainda tinha algumas horinhas até o horário de dormir. Ligamos a TV à procura de qualquer coisa razoável para ver e passamos por um filme chamado Louca Obsessão. Regina quis deixar lá, era um filme bom, ela havia visto. “Ainda mais pra você, que escreve. Tem uma cena massa, pena que eu acho que já passou…” Aí ela nos explicou o contexto: um escritor famoso caiu perto da casa de uma enfermeira, que era fã dele. Não encontraram o sujeito e ele era dado como morto. Ele havia escrito uma série com uma personagem que tinha muitos fãs, e no último livro deu um fim nela. Então a tal enfermeira fã cuidou dele e o mantinha em cárcere privado para que ele escrevesse um novo livro que trouxesse a mocinha de volta. Ele não gostou disso, tentava chamar atenção das pessoas naquela casa isolada, fingiu que ainda continuava doente, essas coisas. Até que a louca nota que ele está se recuperando. Não lembro o que acontece, mas sei que ele acorda todo amarrado na cama. “Eu me enganei, ainda não passou”. A cena seguinte se passa quase toda do ponto de vista do escritor, na cama. A louca começa a conversar com ele, diz que ele tem se comportado mal, que ela tem cuidado tão bem dele. Ele reclama, quer ir embora. Enquanto isso, ela se movimenta pelo quarto, claramente se preparando. Ela pega um pedaço de madeira e coloca firmemente entre os tornozelos dele, e continua. Ficamos sem saber pra que serve aquilo – as pernas sustentando uma madeira, os pés soltos no ar.. Até que ela pega um martelo bem pesado, puxa para trás e bate com toda força na lateral do pé. Cena de pé virado e osso partido. Eu e Laécio pulamos no sofá. Regina ri da nossa cara. Fico traumatizada para sempre. Fim.

louca-obsessao

Eu e o Cristo

jesus-chamou

Se você parar pra pensar, raramente um dos nomes que hoje nos é referência foi reconhecido e amplamente divulgado na sua época. A maioria deles eram pessoas comuns e fizeram um trabalho no meio de outros, que talvez se destacasse apenas no seu círculo ou nem isso. Os grandes gostavam de outros grandes: Chopin, Lizst, a escritora George Sand, tudo a mesma patota; o Grupo de Bloomsbury tinha Virginia Woolf e Keynes; Gertrude Stein chamava Hemingway e James Joyce para apreciar sua coleção de Picassos. Ou seja, por fora era apenas um grupo de amigos. Quando a gente é fã, pensa: “Já pensou que legal, estar lá nas primeiras montagens de Shakespeare, ver as posições originais dos atores, quem sabe o próprio no palco?”. O mais provável é que a gente não fizesse parte. É uma dezena de pessoas destinada a fazer história, fazendo o que lhe parece melhor no momento. Pessoas que tinham parentes que lhes pediam atenção, vizinhos que às vezes se incomodavam com o barulho, cortavam o cabelo e compravam roupa nos mesmos lugares que todo mundo. Neste mesmo instante, um movimento importante pode estar surgindo do nosso lado e a gente nem está sabendo. Ou até está e ficou com preguiça de ir.

-E aí, tá sabendo daquele cara polêmico, o tal de Jesus?

-Ouvi falar, um que fica andando por aí, enfurece uns sacerdotes, um troço assim, né?

-Ele mesmo.

-Qué que tem ele?

-Tá vindo pra cá.

-Opa! Vem fazer o que aqui?

-Deve vir dar uma palestra. Eu viaja pelos lugares e fala. Um parsa meu que é amigo de um primo que segue ele que soube. O Jesus deve chegar daqui há três dias. Tá a fim de ir?

-Não sei… vai ser muito longe?

-Não, aqui pertinho. Ele gosta de falar nos montes, é mais fácil de organizar.

-Hum, legal. É caro? É que esse mês teve uma seca e…

-Não, é de graça.

-Aí já está mais dentro do meu orçamento. Fiquei a fim.

-Formô. Só tem que chegar cedo pra conseguir um bom lugar…

-Belê!

-…porque vai bastante gente e…

-Hum… o que você chama de bastante gente? Você convidou mais de três, quatro pessoas?

-Ah, vai uma multidão, né? O cara é polêmico, é de graça, a notícia se espalha.

-É que eu tenho uns pergaminhos aqui pra ler… Vamos fazer o seguinte, a gente vai se falando? Qualquer coisa você me faz um resumo.

Como fazer amigos, etc.

shortcuts-popup

Quando eu li o clássico livro Como fazer amigos e influenciar pessoas, do Dale Carnegie, eu era uma adolescente que passava o recreio na biblioteca. A bibliotecária que já me considerava uma anormal faz tempo, ficou completamente convencida quando me viu lendo aquilo. Eu realmente só podia ter problemas. Haviam me dito também que a imprensa foi no enterro do autor e que haviam lá meia dúzia de gatos pingados, o que punha em xeque o conteúdo do próprio livro. Eu queria entender que fórmula seria aquela e hoje me surpreendo em lembrar que fiquei surpresa. As regras me espantaram pela sua simplicidade: “a palavra mais bonita do idioma pra uma pessoa é o seu próprio nome”. Ele recomendava lembrar do nome das pessoas, sorrir quando apresentado, recordar o que nos falam, etc. Eram regras que evidenciaram pra mim o quanto no fundo todo mundo é igual na sua carência e desimportância, por isso a vontade de ser confirmado a cada contato. Achei que entendi o porquê dele ter tido poucas pessoas no enterro. O livro me fez concluir que as pessoas eram um tédio – e era por isso que eu passava tanto tempo na biblioteca.

Teoricamente a gente sabe que no fundo todo mundo é a mesma criança que sempre foi, mas também se vê surpreso quando vê congressista se estapeando, modelo verificando celular do namorado, advogados dando gritos e subindo na mesa. Ao mesmo tempo que esse lado infantil e mimado nos faz praticar atos enormes de egoísmo, também me parece que é nele que está a chave do perdão e outras qualidades do coração amolecido. Carnegie recomendaria: reconheça o erro e fale “desculpe”. Eu recebi uma mensagem de um rancor antigo, e como não podia ler na hora vi apenas as primeiras palavras. Elas me deram a entender um mea culpa; fantasiei que a tal pessoa tinha lido as coisas que escrevo e ter me acompanhado a fez rever muitas coisas do passado e concluir que sou legal e que foi um erro blablablá. Já estava toda mudando de ideia e reconhecendo os meus erros também quando finalmente abri a mensagem e era apenas uma corrente de internet. E das chatas. Sabe cachorro que mal recebe carinho e já está oferecendo a barriga pra carinho? Me senti assim, facinha. Que raiva.

Mortalidade

buddha1

Era de noite, eu estava no ônibus e me sentia miserável. É que estar miserável era meu estado normal aqueles dias. Aí meu ônibus parou no sinal na frente de outro, e naquela outro havia adolescentes rindo e uma moça com saia curta e uma meia calça de bolinhas. Por algum motivo eu achei que valia a pena estar ali, vê-los rindo, ver a meia calça de bolinhas.

.oOo.

Eu me pegava muito pensando Nela. Quando as coisas estavam ruins, quando minha mente me torturava pelo fim, pela minha burrice, pelos meus erros, por tudo. Acho que o masoquismo era demais e chega uma hora que o organismo reage. Ele me dizia: “Ok, você está sofrendo muito por ter se separado. Mas o que seria melhor, ser Ela?” Não, eu tinha que reconhecer que não. Ela, naquele momento, não sofria pelo fim de nada porque jamais começou.

.oOo.

Na noite anterior eu já sentia sinais. Uma contagem regressiva. Eu jamais havia entendido gente que comemora data de morte e coisas tristes, achei que era apenas desligar. Aí descobri que não é assim. Dormi pensando no assunto e já não acordei bem. Tentei várias coisas e nada me animava, até que antes das 10h eu sentei no sofá disposta a chorar todas as lágrimas, o dia inteiro. Foi naquele exato momento que Ele me convidou para almoçar, e quando soube como eu estava, para passarmos o dia juntos.

.oOo.

Foi a minha dentista que, sem querer, me mostrou que eu era normal. Fomos da mesma turma de pilates durante alguns anos e eu a conheci pouco antes de se separar. “Nos fins de semana eu ia pra casa do meu ex, pra fazer faxina. Imagina só. É que você ainda está tão ligado que não sabe ficar sem o outro, aquela rotina. Com o tempo foi passando”.

.oOo.

À caminho de casa eu estava pensando em publicar no meu facebook que o meu aniversário está chegando, pros amigos já ficarem sabendo e se esmerarem nos votos de felicidade e memes. Lembrei do Anderson, dos votos lindos que ele fez naquele aniversário, dizendo que eu era uma luz para os meus amigos. Só de lembrar eu me emociono, foi tão importante naquele momento. Quando eu chego em casa, o mesmo Ânderson publicou uma notícia tão triste, da filha que ele desejou tanto.

.oOo.

O tempo, esse devorador de coisas.

 

Entre quatro opções e paredes

dado-posicoes-hetero-com-1un-fundo-branco

Tem esses testes do Facebook – quem você foi na vida passada? Que palavra melhor te descreve? Que amigo é o seu anjo do mal? Chamam de teste e geralmente nem são, você entra e o site sorteia uma resposta aleatória. Mas, no caso, era um teste mesmo. Era pra gente clicar em uma série de imagens e informações a nosso respeito, pra isso gerar um teste personalizado. Respondi o de uma amiga e estava fazendo o meu. Coloquei que entre praia, cama, nos braços de alguém ou balada eu preferia estar na praia, numa sequencia de foto com vários esportes, respondi que o que eu mais gostava era natação… aí apareceu pra eu escolher minha posição sexual preferida, com quatro desenhos de opções. Fechei a janela.

Eu que sou pudica ou é realmente too much information? “Eu errei o teste, porque achei que você gostava de ladinho e…” Não.

Casa nova e Paraísos

Fiz cagada com a mudança de Caminhante Diurno para At., Caminhante. Eu mudei a URL do blog sem saber direito que o Blogger fazia isso, e quando eu vi já não dava para voltar atrás e – o que é pior – um link não dava para ir direito para o outro. Muita gente veio me dizer que o blog saiu dos feeds e não adiantava nada mudar o link, as notificações não chegavam mais. Isso sem dizer nos anos de referências por aí como Caminhante Diurno que eu não tenho como voltar atrás e dizer “ei, sou eu!”. Mas, enfim, acontece, também não era nenhum nome de um milhão de dólares.

Então deixa eu avisar agora, com mais antecedência: em breve, estaremos de casa nova. Estou fazendo um site novo no WordPress. Tá ficando legal. Estou na dúvida sobre comprar domínio e outros detalhes que me fazem não querer colocar o link ainda. Acho que vocês me matam se eu mudar de Blogger pra WordPress e de WordPress pra .com em tão pouco tempo, né? Então, coming soon. Estejam avisados.

.oOo.

Hoje é aniversário dela, da amada Fal. E hoje vi também este vídeo do projeto novo dela, o Paraísos de Papel. Sei lá, a gente vai envelhecendo e ficando besta. Chorei vendo o vídeo e pensando nas citações que elas não falaram mas que talvez adivinhe, no amor, no diabo, nas horas contínuas de leitura quando adolescente, na solidão acompanhada que é ler… Mas não quero ser repetitiva e nem estragar o vídeo. Clica aí.

Com inveja de Simone de Beauvoir

O filme mostra que Sartre se interessou por Simone porque ela estava sempre lendo, estudando, escrevendo. Tanto que a apelidou de “Castor”.

 

Eu sempre sou aquela que defende os não-leitores da detração dos leitores, a que se coloca contra essa maneira de dividir o mundo. Sempre sou contra que coloquem o número de livros como medida de inteligência. Sou a que no meio de uma discussão sobre a incultura nacional, no meio de gente onde citar Machado de Assis é coisa de principiante, fala: “Vocês são uns elitistas. Estão colocando algo que sabem fazer bem como medida de superioridade só porque isso os beneficia”. E cito uma frase do Millôr que diz que jogar xadrez desenvolve muito a inteligência de jogar xadrez. Mas ninguém me leva à sério. Talvez não devam mesmo, não sei.

 

Sempre gostei muito de ler, desde criança. Ao longo da vida, passei por fases em que lia mais ou que lia menos, mas mesmo nas fases de baixa eu sempre li mais do que a média – o que, convenhamos, não é difícil no nosso país. Eu me acostumei, aprendi a não esperar, sei que as pessoas a minha volta não leem. Das descobertas incríveis que faço nas minhas leituras, eu sei que não apenas não terei interlocutores, como nem ao menos posso tentar comentar – é um saco o teatral ar culpado de “ler é tão importante, eu deveria ler mais!”, que logo se transforma num “pobre de mim, não leio porque não tenho tempo pra na-da!“. Não discuto, não tento converter ninguém, cada um sabe de si e deixa pra lá. Só que a ideia de alguém se aproximar de mim – quanto mais romanticamente! – por ser leitora e estudiosa é tão impossível que fiquei triste quando vi o filme. A leitura sempre me tornou intimidante para os outros e pessoalmente solitária.

A última morada de Dona Canô

Na minha curta estadia no Recôncavo Baiano visitei várias cidades com a Regina e o Laécio. Foi tudo bom: a companhia, as acomodações, Folia de Santo, as comidas, os passeios. Foi tão bom que eles me fizeram cogitar morar na Bahia, coisa que meu pai sempre quis e nunca conseguiu. Numa dessas viagens, passamos por Santo Amaro, cidade de Caetano e Bethânia. Lá almoçamos muito bem enquanto observávamos uma figura misteriosa fumava na porta do estabelecimento, que claramente era importante na cidade. Uns jovens quiseram sentar perto e com um simples gesto de dedos ele os expulsou dali. “Deve ser parente de Caê”. Só de estar em solo sagrado já estávamos assim, íntimos da família de Dona Canô.

Aí fomos para a principal rua da cidade e não foi difícil achar a casa de Dona Canô. Pela foto, dá pra perceber que a cidade é muito limpa e ainda não tinha tirado os enfeites das festas juninas. Nenhuma dessas casas é a casa de Dona Canô, mas era do mesmo estilo. Caso alguém ficasse na dúvida, bem na frente tinha placas, uma falando de Bethânia e outra de Caetano. 

“Essa não é a casa de Dona Canô”, falou Regina, que nessa época nem tinha assumido que é Viciada em Problematizar – “Eu vi uma entrevista recente dela, em casa, e ela está num jardim grande. Essa casa é pequena”. Ficamos com vontade de conferir. A casa estava linda e bem cuidada, e quase fomos entrando, naquele raciocínio de que deve ter se transformado num museu. Só depois percebemos que não era, tinha alguém morando lá. Provavelmente um primo de Caê.

“Eu acho que essa é a casa onde eles passaram a infância. Depois os dois fizeram sucesso, ficaram ricos e compraram outra casa para a mãe, aquela que eu vi na entrevista”. Aí decidimos procurar a outra casa, a boa, a última morada de Dona Canô. Fomos andando pela rua. Em quase todas as casas havia pessoas de idade com cadeiras na varanda tomando uma cervejinha. Abordávamos todas: “Você sabe nos dizer onde fica a última casa de Dona Canô?”. Quase todos nos descreviam aquela casinha que havíamos acabado de ver. Agradecíamos e íamos embora, claramente gente desatualizada. Até que uma senhora, que tomava cerveja sozinha na sua varanda, nos informou: “Vocês querem a última casa da Dona Canô? Eu não sei o número, fica na rua aqui atrás. É só vocês pegarem essa rua e logo vocês vão ver”.

Viramos a esquina e era uma baita subida. Fomos de carro. À medida que subíamos, as casas iam ficando mais feias, uma favela. “Não vai ser difícil achar a casa de Dona Canô porque ela vai ser a mais bonita, vai se destacar no meio dessas casas pobrinhas”. Subimos, subimos, subimos. Perguntamos sobre a casa de Dona Canô e todo mundo nos indicava aquela que havíamos acabado de conhecer. Era subida que não acabava mais e nada de achar uma casa bonita. “Regina, se abraça com uma velhinha dessas e diz que não encontrou com Dona Canô mas conheceu uma amiga de infância dela. Provavelmente é verdade”. Mas ela não quis me ouvir. Até que chegou um ponto que vimos que velhinha nenhuma conseguiria subir tanto, que Caê não faria aquilo com a própria mãe. Desistimos e decidimos conhecer outra cidade.

Na descida, viramos a esquina na rua paralela ao nosso ponto de partida. Olhei à minha direita e “gente, olha lá, foi isso o que a mulher quis nos dizer!”. Logo ali atrás estava a última morada de Dona Canô: o cemitério.

Enquanto fomos amigos

 

Eu estava na rua, numa dessas minhas caminhadas que qualquer outra pessoa consideraria muito longa, e lembrei de você. Nem era sobre algo que vivemos juntos – lembrei de um causo que me contaram sobre você, e ri de ser algo tão tipicamente teu. Sempre adorei o teu senso de humor, acho que essa era a parte que mais nos unia. Lembrei e lamentei não ter mais acesso a ele. Você me diria que não, que esse afastamento não passa de mais uma das minhas bobagens e exageros; bastaria te desbloquear de tudo, me reaproximar, e você se deixaria entrar na minha vida com a mesma naturalidade de antes. Me deixaria te mandar os piores links, trabalhar ao teu lado cantarolando o que toca no rádio. Passearíamos, veríamos TV juntos. Mas esse, pensei, é o grande problema. A proximidade tão grande de um lado e a impossibilidade de outro. As coisas que despertamos um no outro. O meu afeto tão disponível, o teu recheado de promessas quebradas. Você reconhece que eu não entendo, porque sou “um alien”, o que te encanta e te convida a se aproveitar. Chamar de acidente e negar algo que foi premeditado é tão ofensivo. A capacidade imensa que você tem de me magoar. Doeu tanto. Os piores cafajestes são sempre os mais amigos, os mais legais e você é tão as duas coisas. As coisas que você fez por mim, a tua generosidade, o teu carinho. Há certas coisas que eu não sei como teria passado sem você. Amo o teu senso de humor, invejo quem pode desfrutar dele sem ambiguidades. Como disse na nossa última conversa, que sei que nem parecia a última: foi muito bom enquanto fomos amigos.

Eu era a confidente e consolo para as amigas com seus empregos, problemas, família, relacionamentos e surtos. Eu estava sempre bem e elas não; elas ainda estavam em busca e eu casada, estabelecida, vida ganha.
Aí me separei. Eu não estava separada nem há um mês quando reencontrei uma amiga. Ela tinha levado o fora do noivo, um cara que morava em outra cidade e eles se viam a cada quinze dias. “Estamos passando pela mesma coisa, estou sofrendo igualzinho você.”
Agora estou separada e sem namorado, e minhas amigas me fazem de confidente e consolo de seus problemas com empregos, problemas, família, relacionamentos e surtos. Afinal, estou sozinha e estável, já elas têm que ficar administrando relacionamentos.

 

Testimonial

Já me queixei várias vezes da falta que sinto dos Testimonials do Orkut. Acho o Facebook ótimo, mas isso falta. Dá vontade de lançar uma daquelas petições on line – tem pra tanta coisa! – e mandar pro Zuc. Pra mim os Testimonials são a mesma coisa que as dedicatórias dos livros da minha amiga Suzi. Ela tem uns livros com umas dedicatórias lindas, cheguei a ler algumas. As dedicatórias falam de amor e de amizade, revelam um pouco de quem escreve e de quem recebe. Nos momentos difíceis, a Suzi se presenteia com aquelas dedicatórias. É como um “em caso de emergência, quebre o vidro”. Percebo que também é disso que eu tanto sinto falta nos Testimonials. Alguém no mundo registrou quem somos e nos impede de esquecer. Com o coração arrebentado e o mundo dizendo não, fica difícil não cair e começar a pensar: será que é isso mesmo, deixei algo de bom no meu caminho? O escrito é diferente de estar na memória, está materializado. Ano passado, no meu aniversário, meus amigos Marcela e Ânderson capricharam nas mensagens que deixaram no meu mural no Facebook. Eles sabiam que eu estava fragilizada e quiseram me dar – ainda que à distância – um pouco do amor que eu precisava. Chorei muito diante do que ambos escreveram, eles ajudaram mais do que sou capaz de agradecer. Como sabia que com o tempo os recados seriam enterrados (se fossem Testimonials…), fiz meu próprio “em caso de emergência”: copiei num papelzinho e deixei ao lado do meu monitor.

Obrigada de novo, queridos!

 

Curtas de lama e chuva

Meus amigos deram risada ao me ver nesta foto. Se perguntaram que apagão foi esse, como era possível eu totalmente desprovida de vaidade e num lugar cheio de lama. Eu ri e me senti muito querida de terem notado. E a sujeira estava apenas começando.

 

 .oOo.

 

Conheci a amiga do Alessandro, Claudia. Quem acompanha o Alessandro sabe que ambos têm uma atitude libertária diante da vida, dos relacionamentos e do sexo. O que eu sabia dela é que era uma mulher careca que não curtia se depilar e tirava fotos em poses dominadoras. Aí a encontrei, em carne e osso, igualzinha às fotos e às descrições. Ela é uma dessas pessoas que parece estar muito confortável dentro da pele. Não, ela não seria mais bonita cabeluda ou depilada, simplesmente porque não seria ela.

 

.oOo.

 

Alias, fui convidada pra fazer parte da comunidade que eles pretender ter. Quarto e banheiro privativo, o resto comunal. Mal e mal sei se consigo casar de novo, então acho que não é pra qualquer um ser convidado pra viver junto numa comunidade nascente. Fiquei lisonjeada. E disse não.

 

.oOo.
Não deu pra encaixar no post anterior: esqueci o repelente e meu pé foi cruelmente atacado por pulgas. Fiquei preocupada com a calça que usei no curso e o que está mesmo quase dando PT (Perda Total) é o meu pé. Pensei em postar uma foto disso também, mas ia ser algo tão aviso em maço de cigarros…

 

.oOo.

 

Aconteceu uma coisa chata no curso: um dos locais deu em cima de mim. E em cima de outra, conforme soube na volta. Foi rápido e sutil, com ambas. Ele estava no mesmo quarto que eu, e a partir daquele momento eu fiquei receosa. Dormi mal, então tenho certeza de que nada aconteceu. Não deve ser má pessoa e ele mesmo não deve ter visto nada de errado na sua atitude, muito pelo contrário. Mas o mundo é um lugar tão perigoso para as mulheres e os homens às vezes não se dão conta disso.