Isso não é assunto que se poste, mas

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…tem uma barata vivendo no meu tanque de roupas. Foram duas noites seguidas. Fui mexer num balde que estava cheio de meias, ia aproveitar o calor noturno pra lavar e lá estava ela. Aquela brancura do tanque e uma barata adulta, no auge da sua saúde e vigor, numa idade que convertendo idade de barata à de gente corresponderia aos 30 anos, ali , parada. Quando dei por mim, já estava trancada na cozinha, segurando o balde e ofegante. Não apenas deixei o balde lá como fechei a cozinha, a porta do corredor, liguei o alarme, fechei todas as janelas e passei a fazer tudo de luzes apagadas. Na noite seguinte, descrente porque o que não falta na minha casa é armadilha de barata, fui lá mais ou menos no mesmo horário “vamos ver se hoje tem barAAAAAHHHH!”. Lá estava ela de novo. Como disse um amigo meu esses dias, as baratas deveriam ter características físicas mais definidas, porque fiquei sem saber se encontrei a mesma barata da noite anterior ou se era uma nova. Porque é totalmente diferente uma coisa da outra. Se for uma barata nova, terei que me mudar. Aí comecei a imaginar como ela foi parar ali, e acho que ela sobe pela tubulação, porque o tubo é todo cheio de saliências e quando ela chega no tanque propriamente dito não tenha por onde subir. Ou seja, ela sobe o tubo e fica lá pra tomar uma fresca. Em tese, eu deveria ir lá e matar, mas imaginem que nojeira o confronto com uma barata num tanque. Vai que ali, numa situação de perigo, a adrenalina sobe e ela se vê capaz de escalar a porcelana. E fuja. E entre na cozinha. Pensei também em deixar, na terceira noite, uma armadilha de barata. Ela sobe e ao invés da brancura vazia das outras noites há um hotel preto com comidinha dentro. Vai se sentir querida. Duvido que a gulosa deixaria a oportunidade passar, mas e o horror de ir lá no dia seguinte e ter que tirar um cadáver de barata do meu tanque. A solução temporária imediata que eu achei – por Deus, o que é que eu faço!? – foi arranjar uma espécie de tampa. Não consegui achar nada que tampasse o tanque. Qualquer coisa que envolva fita crepe gera uma imagem horrível de barata grudada. Cortei uma garrafa pet e a tampa está pra baixo, equilibrada, praticamente tampando. Só passariam as anteninhas. Não vedou, mas acho que pra barata aquilo é um baita peso. Parece que funcionou.

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Consulta

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Somos como velhos amigos. Pepe joga os búzios na minha frente e começa a descrever o que me trouxe ali:

-Você anda meio triste, desanimada, se sentindo muito só, sem rumo. Tem sentido falta de muitas coisas. Tudo está em indefinido – a parte amorosa, a profissional… já a dança vai bem.

É, realmente a dança vai bem. Pela primeira vez eu dançarei na frente. E nas duas coreografias.

 

Confissões sexuais de Darcy

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Nas entrevistas e documentários já dava para perceber que o Darcy Ribeiro era chegado em sexo, mas eu achei que nas Confissões ele teria pudor em ficar falando as mulheres com quem dormiu. Ingenuidade a minha. Acho que a nossa tendência, hoje, anos dois mil, movimentos feministas e de minorias, é achar ruim. Ele argumentaria dizendo que são confissões, é a vida dele, e sexo faz parte da vida. Não julgo como certo e errado porque me parece uma postura de geração; imagino perfeitamente meu pai falando (e sim, muitas vezes preferiria que ele me poupasse), lembro da autobiografia do Neruda onde ele conta, como se fosse uma coisa muito bacana, de quando estuprou uma nativa (isso mesmo que você leu) que recolhia o lixo dele. Em certos momentos o Darcy citar mulher tem a ver, em outros não, às vezes é pura vantagem e constrange, noutras… cara, teve essa daqui que me fez rir muito. Dica sexual do tio Darcy, anotem:

Vive em Paris uma das mulheres que mais amei. Ela nasceu de uma família francesa na Argélia e nós nos encontramos muitas vezes no México, em outros países e também em Paris. Devo a ela um amor elaboradíssimo, de tradição árabe, de que eu não fazia ideia. Primeiro, a sabedoria com que passávamos de sala em sala de seu apartamento. Cada uma delas com incensos de odores diferentes, maravilhosos. Comendo doces ou tomando licores para nos esquentar. Depois a cama, em que ela era uma das mais prodigiosas mulheres que conheci. O melhor mesmo é que, quando acabávamos de amar, ela saía e voltava logo depois com a toalha embebida em vapor. que punha em cima das minhas partes. Aquilo me descansava e me realentava para novos volteios. Nunca via coisa mais formidável. Aconselho minhas amigas todas a tentar com seus amores esse exercício, que realmente é uma lindeza. (p.218)

Confessional

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Há um episódio dos Simpsons – eles não previram tudo? – em que o Hommer começa a dar aulas à noite, e para tornar as aulas interessantes ele começa a falar da vida conjugal dele com a Marge. A turma era toda de adultos e ele consegue atenção imediata. Um dia ele está no supermercado com a Marge, encontra um dos alunos e ele fala da tintura de cabelo dela. Marge fica chocada, pra todos os efeitos ninguém sabe que ela pinta o cabelo. “Hommer, você anda contando nossas intimidades por aí?” “Olha, ela ficou nervosinha. Lamba o cotovelo dela…”. Ela lhe pede pra parar, ele promete, mas aí chega na aula e ninguém presta mais atenção nele. Aí ele: “Vou falar de um caso que eu ouvi falar, digamos que um homem chamado H, casado com uma mulher a quem chamarei de M…”

Um dia me queixei a um amigo escritor que eu só sabia falar de mim mesma, e ele me disse que, em maior ou menor grau, todos os escritores só falam de si mesmos. Mas eu gostaria de não pertencer ao mesmo time que o Hommer.

Orelhadas

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Os cobradores conversando no tubo:

-Ele é viúvo, me mostrou aqui a fotos das seis mulheres. Eu disse pra ele se arrumar, arranjar uma coisa séria, quem tem seis não tem nenhuma.

 

O cobrador pro motorista:

-Quem me contou foi a Feinha. A Feinha, sabe as cobradoras? A mais feia delas, a Feinha. Foi ela quem me disse que a Liane foi demitida. A Liane, aquela que é bem louca. A que matou o velho. Ele tomou viagra e morreu.

 

Uma amiga para a outra:

-A gente se chama de Potinho porque nós dois somos tatuados, aí quando cremarem nossos corpos só vai sobrar a tinta da tatuagem, viraremos dois potinhos.

Na ótica

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Pro mês fechar redondinho, eu deveria não fazer mais nenhum gasto que não fosse o básico, de comida. Ao mesmo tempo, eu estava usando o meu último par de lentes de contato, o que é uma imprudência, e a do lado esquerdo estava teimando de ter um fiozinho que precisava de um mergulho adicional na solução pra sair. Entrei na ótica por impulso, quase certa de que elas não teriam a minha lente, ou me mandariam voltar horas depois, como fizeram as últimas – oito, dez? – que iam mandar buscar no estoque.

“Temos!”, ou melhor, não tinham, tinham no estoque. Só que ao contrário das outras vezes, a vendedora me falou pra ficar, que o estoque ficava há cinco minutos e saiu imediatamente para buscar. Fiquei ali sentada e, enquanto esperava, a outra vendedora estava tirando vários óculos escuros da estante, para limpar. Sem ter o que fazer, comecei a experimentar todos. Peguei um aviador e Uau!, como ficou lindo. Aquele óculos acrescentou uns 2000 reais à minha aparência. Olhei na etiqueta e ele custava 500 e tantos. Larguei na hora, como se fosse uma doença. A vendedora percebeu e me disse que o preço não era aquele, que ele estava numa promoção e custava apenas 140 reais. Peguei de volta, amando muito, quase jogando o óculos que eu estava usando naquele momento – também aviador, só que paraguaio e vermelho – no lixo. Minto, adoro aquele óculos, mas me perguntei se ainda o conseguiria usar no lugar da versão ryca. Minha lente chegou e fazia tanto tempo que eu não comprava que ela não custava mais uns 70 e sim uns 90 e tanto. Quando estava quase finalizando a compra fui avisada que os óculos estavam sim em promoção, mas aquele, justamente aquele, estava menos promocionado que os outros, estava custando 200 reais. Ainda era um bom desconto mas, poxa, 60 reais. Eu, que já estava preocupada com a minha entrada mais que imediata no cheque especial, me senti como quem desperta de um sonho: eu já tinha óculos, o adorava, era vermelho, estiloso e único e não entraria no cheque especial por uma compra impulsiva e desnecessária. Elas ainda tentaram argumentar, dizendo que era único, lindo, que eu nunca mais encontraria um óculos como aquele por aquele preço. Resisti.

Passos depois, entrei numa loja vagabunda e comprei uma camiseta estampadona por 20 reais. Daquelas que soltam tinta até no sutiã.

Depois

E se, ao invés de pregar a volta imediata por cima, medicada e de bocarra vermelha, se dissesse, nos dissessem, que as coisas ficam diferentes durante muito tempo, anos, que algumas partes ficarão rasgadamente emotivas para sempre? Porque o luto, quando é grande demais, deixa de ser apenas uma espera e se torna o começo de um ser humano novo.

No salão

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Foi num salão aqui perto de casa. Entrou um homem bem apessoado pra cortar o cabelo e se dirigiu ao único cabeleireiro presente. Primeira vez que vê aquele homem, pra puxar assunto ele resolve abordar algum assunto de homem. O assunto escolhido foi bunda. Comentaram das famosas, as bundas clássicas, as bonitas, a sensação, formatos, etc. Conversa animada, cliente simpático. Depois do gelo já quebrado, o cabeleireiro pergunta qual a profissão do cliente. “O que você acha que eu sou? Nunca vai adivinhar”. Chutou empresário. Era o novo padre da paróquia. Todas as conversas do salão silenciaram na hora.

Deve ter sido o papo mais leve em anos. O padre raramente deve ter a oportunidade de conversar sobre bunda.

Herança

praiaMeu pai chegava do trabalho e ia como um jato até o quarto, trocava de roupa e ia para a praia, onde andava por quilômetros. Tentei andar com ele uma vez e não consegui, mesmo o trajeto mais curto era muito longo. Agora, aposentado, se propõe a caminhadas longuíssimas onde cruza o centro velho de Salvador a pé. Quando minha mãe dizia “vamos” para um passeio no centro, eu já sabia antecipadamente que andaríamos a tarde inteira, num roteiro que incluía contas, lojas, pesquisa de preço, perder-se e reencontrar-se. Quando subíamos no ônibus, na volta, estávamos tão exaustas que não conseguíamos nem falar. Minha mãe que me contou que o meu pai fez um churrasco com o primeiro pedreiro que mexeu na nossa casa, aquele colocou o fechadura da porta do quartinho dos fundos de cabeça para baixo, o que exigia um certo raciocínio na hora de abrir. Meu pai sempre acaba dando um jeito de inventar umas comidas de graça, atualmente é uma feijoada feita no meio da praça numa das cidades minúsculas da ilha de Itaparica. Todo fim de ano minha mãe me fazia abrir o grande cesto de vime onde ficavam meus brinquedos e separávamos para as crianças carentes. Eu olhava para os brinquedos e avaliava se ainda os usava, se ainda os amava, ou se eles fariam outra criança muito mais feliz. Lembro de um que era uma miniatura muito lindinha de uma casa, e eu quis dar sem dó. Aí quem quis preservar o brinquedo foi ela. Minha mãe sempre foi generosa, até demais, a ponto de nos preocuparmos dela ser explorada. Era alguém lhe contar uma história triste que ela já queria ajudar e dava o que iria lhe fazer falta.

Obrigada.

Paliativos

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Vi uma vez um desses programas americanos sobre taras estranhas, e o sujeito vivia com uma Real Doll como se fosse a mulher dele de verdade, colocava ela pra sentar à mesa, conversava com ela, usavam aliança, etc. O psicólogo do programa, numa atitude que eu achei bastante anti-ética, tentou a todo custo tirar o sujeito daquela situação, mostrando o quanto ela era uma fuga, que uma boneca de plástico é apenas uma boneca de plástico, que o que ele precisava era de uma relação real. A cada tentativa, o sujeito se defendia como podia. No fim do programa, naquelas letras que falam sobre o que aconteceu meses depois, eles avisavam que o fulano não apenas não tinha se livrado da “noiva” como tinha adquirido mais duas.

Passei uns dias bem pra baixo, carente, consciente de que as coisas não estão tão redondas, querendo amar e ser amada. Adivinhem o que eu fiz: entrei para o tinder, resolvi dar chance a um pretendente, liguei para o ex? Não, aumentei o número de pelúcias na minha cama.

Humanismo, Nise e Claire

Eu antes não entendia quando se usava o adjetivo humanismo – “Fulano é um humanista”. E não somos todos?, eu pensava. Se não pela religião que nos manda amar uns aos outros, por termos absorvido os ideais de igualdade entre os homens da Revolução Francesa e que são lei. Nise da Silveira, a psicóloga, era uma humanista. Já falei que ando viciada em House of Cards e que acho Claire Underwood uma mulher linda. Aquele cabelo curto num rosto tão quadrado dá uma mistura estranhamente bonita, e ela sempre está impecável em vestidos que ressaltam suas formas; ao mesmo tempo, suas roupas lembram armaduras e parecem falar muito sobre o rigor da própria personagem. Se me permitem avançar um pouco nos spoilers, ela é um excelente contraponto ao marido por ter seus escrúpulos. Enquanto Frank vê as pessoas mais próximas se ferrarem e diz que “batalhas são assim”, “o arrependimento não faz parte”, Claire oscila. Numa mini trama ela pensa em fazer tratamento engravidar. No meio do caminho, ela faz uma maldade com uma ex-funcionária grávida para ganhar uma disputada e logo depois cancela os exames do tratamento. Nenhuma palavra é dita, mas dá pra perceber que por detrás do ato há uma conscientização: não somos boas pessoas. Mas essa dor não é forte o suficiente para deter o egoísmo e a vontade de subir cada vez mais. Volto à Nise. Não vi o filme, mas conheço a história dela. Numa época que paciente psiquiátrico era pra ficar trancado, ela aplicou a psicologia junguiana e viu através dos trabalhos deles os arquétipos previstos na teoria. Loucos não são fáceis, ainda mais naquela época. Detrás de agressividade, sujeira, rótulo, falta de sentido, ela conseguiu ver pessoas. Vivemos uma época que as conquistas sobre direitos fundamentais parecem ter regredido de maneira assustadora. Eu acredito que, na verdade, ainda bebemos muito do passado escravocrata. Depois da frase “não é que eu tenha preconceito, é que” tem se dito as piores sentenças, justificativas de exclusão e violências sob a desculpa de… olha, às vezes sem a menor desculpa mesmo. Os argumentos estão todos aí; o fato de outro ser também de carne e osso e um ser que ama e tem direito à felicidade deveria ser argumento suficiente. De conceito óbvio, o ser humanista, pra mim, acabou se revestindo de caráter de necessidade e pedra fundamental.

De novo

dunia-2016Hoje a Dúnia fez de novo algo semelhante à vez que ela quase fugiu de casa. Tínhamos voltado do passeio e eu fiz o de sempre: tirei a corrente e joguei pra dentro de casa enquanto usava o saquinho de recolher cocô com o cocô que estava na frente. Quando estava voltando, cadê o cachorro. Eu já adivinhei o que poderia ter acontecido. Estava tendo um jogo aqui perto, e o som da torcida e os fogos provavelmente a tinha incomodado o dia inteiro. Eu não sabia porque tinha chegado há pouco e saí direto com ela. Quando olhei para dentro de casa, lá estava o cachorro. Ela caminhava lentamente em volta da mesa de jantar com a curiosidade de quem anda numa galeria de arte. Achei a cena de doer de tão linda.

Mas aí tive de dar uma de dona responsável: chamei de volta, ela deitou no chão porque não queria ser colocada pra fora, etc.

Maja nua

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Eu fiquei umas seis horas lá dentro, nunca mais repetirei a experiência. Não se pode dizer que eu vi tudo porque uma das funcionárias fez o favor de me informar que as salas que estavam fechadas eram nada menos do que dos pintores italianos. Pouca coisa, o que tem pra ver de pintores italianos? Ela me tranquilizou dizendo que no dia seguinte estariam abertas, mas aí eu que é não estaria mais lá. Sei que chegou uma hora que eu entrava na sala e sentia engulhos, como se toda aquela beleza começasse a me fazer mal. Quando cheguei na sala de Goya, num segundo andar, já era esse o meu estado de espírito. Olhei para as Majas porque mesmo inculta do jeito que eu era – e quem não o é aos vinte e um? -, eu sabia que aquele era um clássico. Fui até a loja do museu doida para comprar alguma coisa, qualquer coisa, não poderia deixar aquela experiência passar em branco. Mas era tudo tão caro! Lembro até que tinha chocolate do quadro As Meninas de Velázquez. Eu já colecionava marcadores e quis comprar as duas Majas, ia fazer um belo conjunto ter a versão vestida e nua. Mas era tudo acima do meu orçamento, mesmo os marcadores, e naqueles últimos dias de viagem a escolha não seria nem entre comer e não comer e sim ter ou não dinheiro para ir até o aeroporto. Então comprei só uma, a nua.

Duas meninas do flamenco fizeram pós na Espanha e estudaram a história do flamenco com um grande especialista, e a pedido da nossa professora elas nos ofereceram uma série de palestras. Falaram do nascimento do flamenco, que demorou para ser conhecido apenas como uma dança e ficar do jeito que conhecemos hoje. As dançarinas que dançavam o que hoje é o flamenco, junto com trupes, ciganos, cantando e dançando, eram as Majas. Era uma figura folclórica que foi incorporadas até em balés românticos, sempre representada por uma morena de temperamento difícil, jamais a mocinha. Eu demorei pra relacionar essas figuras à do marcador, porque as meninas falavam a pronúncia em espanhol – “marras”. Não precisa ir muito longe para saber que numa época onde o balé nascia na Europa, com pulinhos e babados, mulheres-majas movendo suas cadeiras, batendo os pés com força e brincando com a saia não fossem bem vistas, e fossem consideradas prostitutas. Então, por dançar flamenco, também eu posso ser considerada uma maja – ou pelo menos uma descendente delas.

A Maja, minha maja, me faz pensar em três tipos de nudez. A primeira e mais óbvia é a do corpo. A segunda, dos meus textos. Tenho me exposto continuamente e dá para me conhecer através do que eu escrevo não apenas pelas histórias e pelo que digo, mas também pela repetição dos temas, do que omito, da forma como manejo as palavras. Tenho me feito despir no que escrevo no meu twitter, nas brincadeiras que compartilho no meu facebook, pelas piadas com os amigos, pelo que escrevo privadamente. Pra mim, durante muito tempo, nudez era isso. Agora sei que há uma terceira, algo que nem consideramos nudez por estar tão acessível a muitas pessoas, diariamente. Hoje passei o dia inteiro fora, peguei vários ônibus e cruzei com muitas pessoas na rua, e a qualquer uma delas tinha acesso à minha aparência e os meus gestos. Num olhar é possível adivinhar o humor, os valores, a vida de alguém. Cada um tem um gesto mais significativo, que para uns pode ser a maneira como se inclina na cadeira e presta atenção com os olhos apertados, como segura um cigarro (caso fume), se joga a cabeça para trás na gargalhada ou a inclina para frente balançando a cabeça. Há algo de revelador que só a presença física pode dar, só o olhar, a energia, o contexto, o estar presente naquele instante. Radicalizando essa nudez, há a sensação dos dedos passando suavemente pelos cabelos, o cheiro da pele mais escondida, o efeito da voz sobre os tímpanos e o coração. A gente passa por várias pessoas diariamente, as lê sem querer e logo depois esquece. A nudez só impacta quando é desejada. Das três – é muito interessante se dar conta disso – a terceira é a única sobre a qual não se tem controle. É uma nudez que nada importa ou tudo importa, e como dói quando simplesmente não pode ser.

Irrelevâncias de House of Cards

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Desde que o Fora Temer assumiu, ouço falar de House of Cards e não tenho parado de assistir desde o fim de semana. Spoiler não é spoiler se a gente fala de uma série antiga, mas mesmo assim não terá nenhum deles aqui. Quero falar de algumas coisas que não tem nada a ver com a trama central e que me chamam atenção:

  • A facilidade como se descarta celular. Não apenas os pré-pagos que servem de números secretos, mas também em ataques de raiva, depressão, brigas, fugas dissociativas.
  • Por falar em telefonemas, ninguém se importa quando eles acontecem de madrugada. Ou de ter que trabalhar durante a madrugada.
  • É todo mundo tão workaholic, mesmo fora da política, que quando alguém pede ajuda pra um policial, investigador ou coisa do gênero (quem nunca?) e ele diz: “Não era pra fazer isso, pal, é muito arriscado, só fiz porque a gente é bróder”, eu me pergunto bróder da onde se esse povo só trabalha.
  • Aparentemente, nas imediações do poder, os homens ficam doidos pra ter algo sério quando a mulher dorme com eles e diz: “nada sério, ok? Não me acostumo com essa ideia de misturar sexo e amor”.
  • Sempre me chama atenção, e me disseram que lá existe mesmo essa cultura, a facilidade com que as pessoas dormem na casa umas das outras. Rola até deixar a chave do apartamento com o vivente e ir trabalhar. Aqui, mal se faz isso com a mãe.
  • Por último, antes que eu fale demais: não é irônico que o casal mais amoroso e liberal do série seja justamente os Underwood?

Curtas de silly face

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Uma coisa que me aborrece bastante em usar aparelho é a sensação de que o dente nunca está completamente limpo. E levando em conta que por mais que se escove é possível que ressurjam sujeiras de duas refeições atrás, não é só impressão.

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Como sou atrasada com séries, só descobri agora a Claire Underwood. Antigamente, correria no salão pra cortar o cabelo igual. Hoje já sei que não adianta, eu não ficaria maravilhosa daquele jeito. Outra coisa que eu aprendi é que cabelo curto em loira é outra história.

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Eu pretendia votar Nulo, aí cheguei na frente da cabine e só tinha botão de Branco. Eu jurava que antes tinha um botão Nulo. Ou não tinha?

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Tem aquele cachorro que lembra a Dúnia. A gente passava lá e ele latia. Aí adotaram outro, de uma raça que lembra boxer, mas ele é pequeno. Agora o filhote fica latindo pra gente, enquanto o pseudo-Dúnia olha tudo com cara de egípcia. É muito engraçado.