Uma sombra masculina

 

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Eu desço pela porta da frente do ônibus. Está escuro e a rua é uma descida. Viro na primeira esquina à direita, onde a inclinação é tão grande que vou devagar, com passos miudinhos. É raro que alguém desça ali, e mais raro ainda que dobre naquela rua residencial. Às vezes um homem desce o ônibus comigo e nem sempre consigo deixar que ele me ultrapasse. Aí olho de novo para trás quando viro a rua, olho quando tento atravessar, olho fingindo atravessar, ando cada vez mais rápido. Ele sem dúvida percebe o meu medo, minha desconfiança provavelmente injusta porque ele entrou naquele ônibus e desceu naquele ponto por motivos próprios e não para me seguir. O homem que está lá atrás pode ser tão sensível e bacana quanto qualquer amigo meu – eu nunca saberei, e se ele tentasse me dizer alguma coisa ela soaria como um prenúncio de violência. Carros passam indiferentes, os som das minhas botas ecoa entre as árvores. Ele é um homem e eu tenho medo. Ele sabe. De longe, o homem caminha devagar, deixa que eu me afaste cada vez mais, que corra, que sua figura fique bem pequenininha para que eu possa voltar a me sentir segura.

Ser um homem, observado com atenção por mulheres. Isso deve ser inteiramente estranho. Tê-las observando-o o tempo todo. Tê-las se encolhendo quando ele se move, mesmo se for um movimento bastante inofensivo, estender a mão para pegar um cinzeiro, talvez. Tê-las medindo-o, avaliando-o. Tê-las pensando, ele não pode, ele não é capaz de fazê-lo, ele não serve, ele terá de servir, este último como se fosse uma peça de vestuário, fora de moda ou ordinária, que deve não obstante ser vestida porque não há mais nada disponível.

Tê-las enganando-o, testando-o, provocando-o, experimentando-o, enquanto ele se enfia nelas para o ato sexual como se enfia uma meia no pé, até a base de seu próprio toco, aquele polegar adicional e sensível, seu tentáculo, seu olho de lesma de talo delicado, que se saliente, se expele, se expande, recua, e murcha encolhendo-se de volta para dentro de si mesmo quando tocado de maneira errada, cresce tornando-se grande de novo, fazendo um ligeiro bojo na ponta, viajando para frente como se ao longo de uma folha, para penetrar nelas, ávido por uma visão. Alcançar a visão dessa maneira, essa jornada para o interior de uma escuridão que é composta de mulheres, uma mulher, que pode ver na escuridão enquanto ele próprio se esforça cegamente para frente.

Margaret Atwood/ O conto de aia, parte IV cap.15

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A mulher da mala

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Quando eu cheguei no terminal o meu ônibus tinha acabado de cruzar a esquina e eu tinha pelo menos 15 min de espera pela frente. Me sentei num banco onde havia uma mulher e saquei meu Kindle. Tudo ia bem, o Conto de Aia é ótimo, até que minha leitura foi interrompida por uma mulher puxando uma mala de rodinhas “vou sentar aqui no meio de vocês e atrapalhar um pouco”, ela falou, muito simpática. Mal acomodou a bunda e já virou para a outra e comentou o quanto o ônibus é demorado, o que custava, tinha que colocar mais ônibus. Cada frase passou a exigir que eu lesse duas, três vezes. Não sei como, o papo foi parar em preços de imóveis e a mulher da mala começou a contar de todos os endereços que teve, um sobrado que ela queria comprar, o quanto dinheiro tinha. A leitura se tornou impossível e eu só olhava louca pro meu ônibus chegar, o que levou muito mais tempo do que eu gostaria.

O ônibus chegou e levantamos as três, perdi as outras de vista. Um monte de gente esperando, o ônibus estaciona, se ajeita, dá ré, e as pessoas que estavam espalhadas tentam arranjar o lugar mais estratégico. Fico parada em frente à porta da frente, mania porque sigo em frente quando desço no meu ponto. A escolha se mostra péssima, nas outras portas os passageiros estão entrando, na minha desce gente com problema no joelho, os lugares vão sendo tomados, aquele deusnosacuda, consigo um dos lugares duplos perto do cobrador, junto da janela. Quando o ônibus estão quase saindo, quem surge? A mulher com a mala, que aparentemente encontrou um amigo, que se senta na frente e ela do meu lado. “Misericórdia”, é só o que eu consigo pensar enquanto viro meu rosto pra janela. O rapaz se senta com os pés pro corredor e virado para a esquerda e passa o tempo todo fazendo u-hum com a cabeça, porque a mulher mal dá tempo dele abrir a boca. “Queria tanto encontrar uma amiga minha, mas eu não sei o sobrenome dela” e começa a contar os vários endereços – endereço aparentemente é um tema muito interessante – que teve e que a fulana depois também teve antes de perderem contato. O telefone toca, a mulher atende, e me parece que até o amigo suspira aliviado. Oi filho, estou no ônibus, etc. Mas ela logo volta, interrompe a história da tal da Maliu cujo contato ela perdeu – o nome não era esse, mas era parecido – e fala que era o filho, de uma amiga do filho, primeiro chama de namorada, depois o filho tem cinco anos, depois não entendo nada, alguém levou a menina para casa, depois a menina é mesmo uma criança, um fenômeno, uma peste, impossível, entende tudo de informática, uma diaba, mexe em tudo, acredita que a menina virou pra ela e disse: “não sei o que tanto você fala, vou passar cola na sua boca pra ver se você cala a boca durante alguns instantes”.

Sério, eu me virei para a mulher naquele momento pronta pra dizer que ela deveria dar ouvido à sabedoria das crianças. Mas aí, quando a gente olha na cara da sujeita, acha ela simpática.

Um deslize machista

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Ele não falou nervoso, como quem exige seus direitos. Falou numa boa, como quem dá um toque. Estávamos vendo TV.

-Eu fui no banheiro e levantei a tampa da privada pra fazer xixi e, olha, tá um nojo lá embaixo.

Não vou falar de como eram os nossos horários naquela época ou descrever meus hábitos de higiene. Vou me limitar a dizer que quem já cuidou de uma casa sem faxineira ou empregada sabe que há altos e baixos.

Ele me falou mais na boa que pôde e eu também fiz meu possível:

-Você poderia simplesmente pegar os produtos de limpeza – que você sabe que estão do lado da privada – e resolvido isso na hora. Mas você acha que a limpeza da privada é tão obrigação minha que preferiu ficar enojado, deixar como estava e me falar na primeira oportunidade, pra aí sim eu pegar os produtos de limpeza e resolver.

Ele ficou sem graça e limpou assim que começaram os comerciais. E acho que fez isso outras vezes.

Um problema novo

Fui na biblioteca devolver os últimos livros que peguei e, ao contrário do que faço há anos, quase a vida inteira, não peguei nada novo. Acho que foi só durante a faculdade que deixei de pegar livros na Biblioteca Pública, porque os pegava da biblioteca da universidade. Foi uma sensação de término de relacionamento. Não digo que nunca mais pegarei nada, que me abastecerei para tudo de arquivos mobi, mas sem dúvida nada será como antes. O novo formato combina comigo, que nunca fui de posar na frente de estantes. Fui criada ouvindo a pergunta, antes de querer comprar algum livro: Mas você já verificou se tem na biblioteca? Se a resposta fosse afirmativa, era um desperdício querer comprar. Não tenho big estantes, fotos diante de estantes, check in em sebos e sempre achei – estava redondamente enganada! – que não precisaria de nada disso para as pessoas perceberem que leio muito e mereço crédito. Mas o problema novo não é deixar de ler, e sim ter me dado conta que a minha coleção de marcadores de livros não tem mais razão de ser. Ainda não sei o que farei; como desacumuladora compulsiva, não me agrada deixá-los aqui como lembrança. É provável que me livre de alguns jogando no lixo ou os espalhe pelo mundo, entre pessoas que eu gosto. Quem sabe guarde alguns. Este daqui é um dos meus xodós:

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Chocantes e recentes descobertas

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Kindle: Você teria um minuto para ouvir a palavra de Kindle?
Pra não me estender aqui no óbvio, de dizer de novo que amei e que vantagem incrível é ter vários livros armazenados. Quando lia que ele é gostosinho de pegar, achei que fosse exagero nerd, mas pior que é verdade. Pra quem lê vários livros ao mesmo tempo, é um barato poder estar com todos eles disponíveis ao mesmo tempo, sem ter mais aquela situação de “estou lendo esse porque é o mais leve/o que eu trouxe, mas eu gostaria mesmo de estar com o outro”. MAS, tenho que dizer que fico com receio de ler em público, fico com medo de ser roubada, coisa que com um livro eu sei que jamais aconteceria – já pensou, seria até engraçado, ser roubada porque o ladrão é doido por Hugo Mãe.

Shakespeare: Muito bom esse autor, acho que todo mundo devia ler.
Eu li todas as comédias e nunca consegui passar disso. Eu tinha em casa a coleção completa, que pertenceu ao meu avó, uma tradução em versos de mil novecentos e pouco. Era um trabalho desgastante ler aquilo, tão desgastante que causava pouco prazer. Vi há poucos dias um documentário na Netflix (Now: In the wings on a world stage) sobre uma montagem de Ricardo III feita por Kevin Spacey e fui atrás. Agora estou lendo devagar porque estou achando tudo tão maravilhoso que tenho que parar pra anotar e saborear. Um trecho curtinho que eu apelidei de “humor involuntário em Shakespeare” e só não adoto pra vida porque pessoas não captam ironias:

Quisera eu ser moça do campo antes que grande rainha, assim maltratada, escarnecida e ultrajada. Pequeno contentamento tenho eu em ser Rainha da Inglaterra.

Isabel, ato I, cena III

 

Despacito: Quiero desnudarte a besos despacito…
Esse foi realmente pra fazer tirar o dedo do botão do leitor que havia decidido me seguir quando eu disse que estava lendo Shakespeare. Despacito comentada em todos os lugares e passei incólume por todos os links e programas, até decidir colocar de recomendação (irônica) como “música para fazer yoga” para uma amiga. Como já tinha clicado, fui lá ver o tal clipe… Olha, entendi aquela história de dizer que tem que fazer lobotomia pra tirar certas músicas da cabeça. Qualquer referência a Despacito dispara em mim um gatilho mental de mais de 72h. O ritmo é irresistível pra quem é chegado em mexer a raba e, vamos assumir, que letra…

Local ermo e tranquilo

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Já apelidei o campinho que tem aqui perto, com árvores e um caminho que antigamente não dava em nada (agora tem um condomínio fechado) de maconhódromo faz tempo. Um atleta que eu conheço meio de vista, que mora por aqui desde sempre, não simpatizou muito com o termo, quase me desmentiu, mas meu faro quando eu vou passear com a Dúnia não mente. Digo mais: a Boca não é muito longe, fica numa rua pra cima. Eta lugares para terem aquele cheiro característico. A Boca não sei onde é e como é, mas o maconhódromo foi claramente escolhido pela privacidade do lugar. E agora que a rua que não dava em nada melhorou, o local foi descoberto por casais dentro de carros. O problema, como já disse, é que passo sempre por ali pra passear com a Dúnia. E ela tem uma paixão toda especial pelo cheiro de rodas de carro. Faço o possível pra evitar, puxo pra longe e tal, porque atrapalhar casal em carro é até pecado – afinal, quem nunca?

Curtas gastando dinheiro (ou não)

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Lembro da primeira vez que entrei numa loja Hering, do quanto fiquei indignada com o preço. Nos anos 80, junto com Sulfabril, Hering era sinônimo de roupa básica e barata, camiseta branca.

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Agora as Havaianas estão assim. Ok, os gringos já amam faz tempo, mas precisa um chinelo custar 40 reais? E as últimas que eu comprei soltaram as tiras bem rápido.

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Lembro que uma vez li como eram várias coisas com a idade, e pra lá dos sessenta o jeans era “aqueles com elástico”. Não cheguei em jeans com elástico ainda, mas os de hoje fazem com que eu me sinta uma salsicha amarrada: gordurinhas saltando pra cima, quase gangrenando na panturrilha.

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Mal comprei um Kindle e já necessito como se não conhecesse outra forma de viver.

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… e já tenho mais livros baixados do que consigo ler. Tudo de graça. Eu, que escrevo. Bem…

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Empresa de gás oferece os seguintes brindes a cada pedido: balde, vassoura, prendedor de roupa, rodo, pote com tampa e suporte plástico para botijão. “Que coisa mais estúpida”, pensei assim que vi, “achar que a gente vai pedir gás deles pra ganhar esses brindes baratos”. Hoje: colecionadora de baldes.

Pergunta cruel

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Foi logo nos primeiros meses da faculdade, logo, nem dezoito anos eu tinha. Deveríamos entrevistar uma gestante. Consegui marcar com uma faxineira da faculdade, que respondeu as perguntas enquanto limpava o banheiro. Em algum momento ela me disse que continuava fumando. Eu não prossegui o assunto, mas na hora de escrever o trabalho fingi que tinha perguntado alguma coisa do tipo “você não sabe que isso prejudica o bebê?” e, pra não inventar tanto assim, que ela tinha dado de ombros. Quando o trabalho voltou, havia a observação: “Pergunta cruel!”. Aí fiquei sem saber se me desmentia ou não. Levei alguns anos pra superar o conflito entre o que acho que esperam e o que realmente sou capaz – pelo menos na hora de fazer uma entrevista. Seria cruel mesmo, tanto que não perguntei.

Boemia de ar noturno

(Todo ano eu punha algo marcando meu aniversário e este ano não vi porquê. Agora lembrei: fico entretida com a data e não me dá tempo de preparar o texto. Vai um que estava guardado. Está bom mas não muito meu espírito de agora)

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Sofrer nos faz descobrir portas e janelas novos, lugares que nos acompanharão para o resto da vida, como se fôssemos nos tornando um feudo cada vez maior. Uma das janelas que eu abri foi o gosto pela noite. Eu não me permito saciar meu desejo por madrugadas, porque ele não tem nada a ver com o gosto dos boêmios: gosto de andar sozinha pela rua e ouvir apenas o som dos meus próprios passos. Gosto da companhia das estrelas que me olham com indiferença. Gosto do aspecto silencioso das construções, das cortinas baixadas, o sussurro distante dos televisores. Quando finalmente o silêncio se faz físico, sou capaz de também ficar em silêncio e olho para a minha própria vida com reverência, num estado que não é alegre e nem triste. Eu perguntei à noite porque andamos assim, tão sujos, cada vez mais sujos, acumulando pó a cada passo e nunca, jamais, ser parte de tudo o que nos assiste. Porque não amamos apenas e tão somente a quem nos é permitido amar; porque não conseguimos satisfação no nosso círculo, sem invadir o espaço do outro; porque nossas palavras não são transparentes, e ferimos. Mesmo quando certos, ainda assim pisamos errado, estragamos a flor. Ou vai ver que não estávamos certos, tínhamos apenas boas intenções. Ficamos feudamente maiores, ficamos cheios de bagagem e poeira – somos adultos. Ao mesmo tempo, agimos como crianças em loja de cristais. Gosto da noite silenciosa porque ela é indiferente a tudo isso. Ou, às vezes, parece dizer: isso também é belo, isso é muito humano.

Mente matemática

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Eu sei que, invariavelmente, a minha mão tem cinco dedos, mas sempre preciso dar uma conferida, ou até tocar, quando vou fazer conta. A calculadora do Windows fica bem visível. Nunca esqueci quando li que o Google também serve de calculadora, é só colocar a conta no lugar da busca. E no celular, é um aplicativo que está na tela inicial, assim que a gente desbloqueia. Mas ele não estava comigo, porque fui no supermercado só com a carteira. Uma compra pequena, nenhum item urgente, mas gosto de ir no supermercado naquele horário por estar sempre vazio. E não é bom deixar acumular. Queijo em promoção, atum em promoção, o pão de sempre, peguei o hábito de beber leite em caixinha na tentativa de diminuir o café e não voltar a ter leite em casa. Estou indo pro caixa, olho para os produtos na cestinha e decreto que daria uns cinquenta reais. Deu R$ 45,37 e fiquei perguntando onde é que tem um Rain Man dentro do meu cérebro.

Curtas vampirescos

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Já vi muita nostalgia anos 80 mas nunca achei em lugar nenhum alguém fazer referência a um desenho japonês que eu adorava, de um vampiro todo atrapalhado que tinha uma filha bem correta. Num episódio ele inventa uma super cola que fica por dentro do lápis e dá pra ver pela lateral; em outro, ele olha pro sol, vira pó e a filha tem que reconstruí-lo. Só que ele estava com um guarda-chuva na hora e ele reaparece com o guarda-chuva no nariz. Alguém?

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Tinha também um desenho japonês de uma nave que parecia um navio e tinha uma contagem regressiva porque estava procurando outro planeta para a humanidade porque o nosso ia acabar. Nada a ver com vampiros, mas também nunca vi referências e gostaria de saber qual era.

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Voltando aos vampiros. Conversa do meu irmão para o seu melhor amigo, no tempo dos DVDs, da qual rimos muito:

– Estou vendo Drácula de Bram Stoker.

– Eu vi no cinema. Em que parte você está, a Winona Rider já morreu?

– Putamerda, ainda não!!!

Na época nem existia o termo spoiler, quanto mais spoiler falso.

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Nunca vi Entrevista com Vampiro. Fiquei doida pelo livro quando li, doida, doida, doida. Acho que cada época tem seu vampiro galã. Quando anunciaram as filmagens, a autora disse que devia ser o Jeremy Irons e ficou indignada quando colocaram o Tom Cruise. Eu concordei tanto com ela que nunca quis ver.

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Traumas não são como vampiros, tal como sempre se dá a entender. Eles não viram pó instantaneamente quando a luz da razão os atinge. Nem ao menos some depois de um momento de choro catártico. Os traumas grandes, atávicos, que definem nossas vidas são muito mais como Jason, Freddy Krueger, a mãozinha saindo da cova quando todos estão ingenuamente tranquilos.

Velha

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Às vezes eu tenho a impressão que apenas no dia que me olhar no espelho e eu for tão enrugada a ponto de quase não encontrar o branco dos olhos ou a jovem que um dia fui, é que vou sentir que o interior e o exterior se encontraram. A todos que insistem em dizer que meu cabelo branco me envelhece, meu argumento é que quem diz a verdade é ele, o resto é que me rejuvenesce involuntariamente. Sempre gostei da companhia de pessoas mais velhas, sempre me senti muito bem com elas; quando estou com os da minha idade, sempre esqueço que não são mais novos e acho que é todo mundo criança, que sou a mais madura do grupo. Chega a ser até difícil pra mim não querer virar e usar argumento de autoridade, apelando para uma vantagem de anos que eu de repente nem tenho. Talvez por isso me pegue defendendo a velhice. Baladas me dão bocejos e homens que se aproximam de mim com cantada sempre me fizeram rolar os olhos para cima – garçom, me vê uma fralda geriátrica porque acabo de envelhecer cem anos . Sei que soa triste e anormal, mas o que eu sempre gostei mesmo foi de trabalhar. Gosto da concentração, de fazer as coisas certas e bem feitas e de pensar que ajudo o mundo a se tornar melhor. Psicologicamente, não descarto que a irresponsabilidade do meu pai tenha matado minha juventude antes mesmo dela chegar. Meu mundo deixou de ser macio já cedo. Não lamento, não seria a primeira e nem a última. Há quem me ame assim. Eu amo.

Arqui-inimigo

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Já me disseram que um inimigo pode ser estimulante. Alguém que te odeie como uma cunhada rica de novela mexicana ou um valentão que te desafie chamando de covarde. Minha reação às duas coisas – o ódio e o desafio – sempre foram bastante touro Ferdinando. Sério: já tive gente que me perseguiu durante ANOS, em posts e por twitter, e eu nem ao menos ia lá para ler. Achei que fosse um ser superior, totalmente indiferente à ação de arqui-inimigos e, por isso mesmo, jamais saberia que estímulo essa relação poderia me oferecer. Até que um dia finalmente bateu, só que não foi ódio e desafio: fui profundamente subestimada. ME AGUARDE, FDP!

É como fazer uma porta

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Atenção você que pensa em comprar uma casa, principalmente um sobrado: aquelas portas da frente que fazem agora e ficam no ângulo e não simplesmente na parede, são péssimas. Parece charmoso porque você ainda não mora lá e a construção está vazia, mas quando você se muda, aquela porta permite que as pessoas da rua vejam a casa inteira por dentro, até os fundos. Tive alguns problemas com isso e tentava arrumar de todo jeito: mudava a disposição dos móveis, colocava alguma coisa ao lado da porta, quase comprei um biombo. Nada adiantava porque a visão que ela permite varia conforme a posição da pessoa do lado de fora, ou seja, o “obstáculo” tamparia apenas um ângulo e poucos passos para o lado e daria para ver tudo de novo. Em pouco tempo passei a querer muito trocar a posição da porta e colocar na parede e não mais no ângulo dela.

Foram anos, sabe aquele problema que se torna grande porque você nunca consegue solucionar? Foram incontáveis pedreiros. Alguns nem vinham. Dos poucos que vinham, eles nem ao menos se dignavam a passar orçamento. Ninguém queria fazer e pronto. É sabido que pedreiros preferem serviços grandes, mas não tinha mais o que oferecer, o problema era apenas a porta. Até que um dia um vizinho estava fazendo uma reforma aqui perto e tive aquela intuição de falar com o pedreiro. Ele enrolou, disse que não podia na hora, que só depois, que não sabia se dava, me fez mudar a minha ideia original e quase lhe ofereci toalhas e rosas brancas no camarim. Mas ele topou e fez um excelente serviço. Foi um feriadão inteiro de luta com madeira e cimento, eu vi. Aquele pedreiro finalmente me explicou o porquê da dificuldade de arranjar alguém para fazer a tal da porta:

É o típico serviço que não aparece. Dá muito trabalho, é difícil, mas aí o patrão olha pro serviço pronto e só vê uma porta. Ele não tem noção da dificuldade e acha que a gente fez pouca coisa.

Desde então tenho vontade de usar a expressão “é igual fazer uma porta”.

[post deletado]

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Escrevi porque estava me incomodando. Porque acordei pensando, fiquei sensível, me levantei pensando, me doendo e escrevi. Escrevi e depois tirei a parte que usava um termo mais claro. Começava com um exemplo bem racional, colocava uma posição sobre o assunto e em seguida eu dizia que não dava, que por mais que soubesse a posição racional não era assim que estava por aqui dentro. Tinha desabafado. Não iam interpretar errado. Quem sabe nem chegasse lá. Se chegasse, ia ser por uma pessoa que gosta de mim e que não seria maldosa no resumo. E, mesmo se fosse, iriam conferir. Veriam aquele primeiro parágrafo racional, eu apaguei a palavra pesada. Não é uma empresa e um monte de gente maldosa, cobras, é outra relação. Não iam maldar. Ia continuar tudo bem, é o meu espaço. Todo mundo na mesma situação ficaria assim. Eu teria empatia. Depois de um dia inteiro meio doendo e olhar para o vazio, tive que sair, pedindo aos céus forças para fazer uma cara boa e fingir um bom humor que não era o meu no dia inteiro. Horas depois, cruzo a porta de casa, completamente outra. Post deletado. Pra quê. Como o Kibe me aconselhou uma vez e com uma sabedoria incrível: não deixe que percebam que você sentiu o golpe.