Brilho solitário

latas de tinta

Não que seja um bom momento pra isso, mas já sei que talvez nunca seja, então finalmente vou retocar a fachada da minha casa. Meus vizinhos já pintaram várias vezes e sou a única que nunca. Não sei se é a crise, ou se, como ele mesmo disse, é por ser aposentado, aparentado da vizinha e pegar só coisa rápida, mas o orçamento foi três vezes menor do que me fizeram há uns meses. E passou num crivo dificílimo: a Dúnia gostou dele. Pensar em mantê-la o dia inteiro presa ou até mais para quem alguém pudesse pintar a casa sempre me partiu o coração de dona de cachorro. Com ele, ela vai poder ficar solta, certamente rodeando tudo, alternando pedir carinho e apenas observar e – tenho certeza – no fim do dia terá umas gotas de tinta no pelo. Recebi minha pequena lista de materiais e tive que mandar fazer a tinta, porque pronta só tem branca e uns tons de bege. Peguei o catálogo Suvinil, aquele bolo de cores com mais tons do que o olho humano é capaz de registrar, e tentei achar um tom conciliasse desejo de cor mais vibrante versus parco orçamento. Não posso mudar minha fachada porque sempre baseio a descrição do endereço na cor, nunca localizam só número. Peguei as folhinhas e fiquei: quando é essa, e essa, e se mudar pra essa o quanto mais caro fica. Por fim, mandei fazer uma lata de “brilho solitário”. Escolhi daquele jeito que descrevi, mas me identifiquei e amei tanto, que abracei a lata e também estaria dizendo a verdade se dissesse: escolhi pelo nome. A cor da casa descreve a dona dela.

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O gramado

grama-esmeralda

Nunca mais olhei grama da mesma forma depois que Harari – posso quase jurar que foi no Homo Deus – contou brevemente a história dela. Grama é um símbolo de status. Lembre-se que antigamente quase a única profissão possível era trabalhar com a terra e a maior riqueza era ter terra. Imagine que alguém era tão rico, mas tão rico, que podia se dar ao luxo de ter um monte de terra inútil. Terra coberta de um verde que não serve pra nada. E que pra ficar bonito precisa de manutenção constante. E manutenção de gramado não é só cortar, precisa ver o mato. Antes de mudar pra casa, eu achava um crime que as pessoas tampassem a parte com terra, achava que se fosse eu, manteria tudo o que pudesse com grama e plantas. Aí você coloca a grama e com o tempo, por mais que você cuide, o mato se prolifera de um jeito que a grama original já não existe mais, você precisa arrancar tudo e trocar por uma grama virgem. Lembrei disso porque choveu e corri pra arrancar os matos que crescem na minha calçada. Mandei cimentar pra não ter trabalho e praticamente nasce uma forragem nova de mato todo mês. Corri porque finalmente choveu bem é quase impossível arrancar mato quando a terra está seca, de modo que esperei, vingativa e rancorosa, enquanto o sol castigava e eles se fortaleciam. E lá, acocorada e estragando minha coluna, me dei conta de que quem inventou a grama não arrancava mato.

As intoleráveis baratas

barata

Percebam a ilustração mal feita escolhida à dedo. Ninguém merece ficar olhando foto de barata.

Eu nem posso me queixar, como aqui é frio, só tenho problemas com baratas quando esquenta. Uma noite dessas, passei na cozinha com preguiça de acender a luz, pouco antes de dormir, e tinha alguma coisa ao lado do chinelo. Quase chutei. Acendi a luz e era uma barata agonizante. Ela poderia ter comido veneno fora da cozinha, numa armadilha perto do botijão, ou a que está junto do fogão, ou se andou mais a que fica no canto da cozinha. Mesmo assim, peguei o spray de veneno que fica embaixo e atirei nela, que fugiu se arrastando. Na manhã seguinte, estava de patinhas viradas para cima, ainda agonizante, perto do botijão. Tive que esperar um dia inteiro pra ela morrer pra valer, vai que eu punha do lixo e quando abrisse de novo a barata saísse correndo? As armadilhas de barata dizem na embalagem que elas comem o veneno e morrem dentro do ninho, e antes transmitem o veneno para outras baratas – ou seja, aquela havia descumprido a parte no acordo. Na noite seguinte, também antes de dormir, vi uma coisa preta no forro do lado de fora. Era outra barata, desta vez forte e saudável. Só tive tempo de gritar e fechar todas as janelas. Numa atitude emergencial, fui no supermercado na manhã seguinte comprar mais armadilhas de baratas. A primeira barata havia comido numa das armadilhas, mas veja a minha dúvida: será que tem comida para várias refeições de baratas ou aquela havia comido tudo e não sobrou para a segunda barata? Sem dizer que eu lembro de ter comprado quando esquentou, e depois esfriou de novo, o que me faz pensar (na época) que eu gastei dinheiro à toa. Como depois esquentou pra valer, e como esquentou, acho que comprei as armadilhas em outubro. A validade diz três meses, então pode ser que as armadilhas estejam no fim do prazo. O que não pode ser é conviver com barata. Solução: comprei armadilhas novas, agora de outra marca pra saber qual é qual. Coloquei as novas nos lugares das antigas e coloquei todas as antigas perto do lugar onde as baratas apareceram. Ou seja, no momento eu tenho um chão com sete armadilhas de baratas espalhadas. Eu montei um grande buffet de veneno para baratas. Mas, ó, nunca mais vi nenhuma.

Hidráulica

hidráulica

Sabe quando você está tão cansada que não consegue descansar, e tão irritada e querendo esquecer que não consegue pensar em outra coisa? O registro do banheiro jamais fechou; quando eu tive problema com a mangueira da descarga, ela inundou tudo até esgotar a caixa d´água. O encanador, quando resolveu o pinga-pinga da torneira, disse que era uma peça que estava quebrada lá dentro. Ele desmontaria, pegaria e pela pra comprar outra igual e voltaria. Disse que ele poderia vir lá pelas 10h manhã e veio às 9h. Logo depois de ligar pra ele combinando, descobri que torneira do outro banheiro, que eu pedi pra ele arrumar preventivamente, estava vertendo água do lado que não abre (!?) e encharcou uns dez rolos de papel higiênico. Para encurtar: ele saiu daqui 19:30h. Teve que passar em lojas duas vezes. Todos os metais da casa são de marca desconhecida e fora de linha. Pelas variadas foram trocadas. Tudo precisou de veda rosca. Cada ora era preciso fechar um registro diferente – e eu não sabia que havia tantos – porque nenhuma saída de água fazia sentido. Está comprovado as torneiras do banheiros realmente tem que abrir a esquerda de um e direita de outro, porque foram instalados invertidos. O encanamento da caixa d´água vai direto para as torneiras, o que quer dizer que ele é diferente do da privada e do chuveiro. No fim, foi preciso criar três minis registros no banheiro. O chuveiro e a privada ainda são assuntos pendentes. “Eu estou ficando até com medo de mexer nos teus encanamentos, porque em cada lugar surge um problema”. Eu trabalho com a hipótese de que o achamos que é registro do banheiro na verdade é apenas cenográfico, uma torneira falsa que o pedreiro colocou na parede só pra entregar a obra. Ainda abrirei aquela parede – não por gosto e sim para corrigir a posição do chuveiro, que é meio absurda – e descobrirei. O que tem aqui não é hidráulica e sim Pegadinha do Malandro.

Torneira

torneira-pingando-vazandoEu tenho um vizinho de confiança pra as emergências da casa. Ele tem uma empresa disso e mora na frente. Mando zap pra ele, que se não pode me atender na hora manda alguém. Num fim de semana uma torneira começou a pingar. Esperei passar o fim de semana e mandei um texto bem leve, dizendo que era coisa rápida, que quando ele pudesse. Tudo pra não ter que pagar como urgência. Ele esqueceu, eu tive que comprar tela nova do computador, ele me encontrou saindo de casa e pediu desculpas e eu falei que foi até bom, porque tinha ficado sem dinheiro e seria melhor esperar uns quinze dias. Passaram os dias, mandei mensagem dizendo que agora dava, ele estava ocupado na hora. Um dia estava voltando com compras e ele me surpreendeu aqui no portão, disse que não esqueceu. Vou confessar: tenho resistência. Resistência a ele ter que passar pelo meu quarto e eu tenho que me preparar e arrumar a cama, que sempre fica aberta por causa da história de que assim acumula menos ácaro. Mas, principalmente, tenho meus pudores porque aqui em casa não se anda de sapato. Quando vem um prestador de serviço não tenho coragem de exigir, o que me faz limpar o chão imediatamente depois. É a minha única mania mais séria de limpeza, já me peguei limpado chão de madrugada. De um lado quero arrumar a torneira e de outro um dia já limpei o chão, outro dia estou com preguiça. Então falei pra ele com toda tranquilidade que não tinha pressa, é coisa simples, tudo bem. Resultado: já faz um mês que estou com a ridícula situação de nunca abrir uma torneira. A outra está quase começando a ficar pinga-pinga também. E quando eu penso em apressa-lo, lembro da cama e do chão. É neurose o nome, eu sei.

Curtas aprendizagens

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Uma torneira começou a ficar chata de fechar, até que chegou um ponto que ela pinga sem parar. Já sei que é uma borrachinha que fica bem na ponta da torneira e ela arrebenta com o tempo e tem que trocar. Sei também que pra quem tem o material, é estupidamente fácil. E entrei em contato com o vizinho que troca antes das gotinhas virarem jorro e dei um prazo largo pra ele vir, pra depois não vir me cobrar os olhos da cara.

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Passei muito mal na semana logo após as eleições, um desanimo digno dos dias depressivos das piores fases da minha vida. Aí acabei comentando com uma que me parecia boa pessoa, que estava decepcionada com a espécie humana em geral, e ela falou: agora é torcer. Meu desânimo só me permitiu dizer que torcia para que ele fizesse o mesmo dos seus trinta anos de vida pública, ou seja, nada. Agora ganhei mais uma pessoa que me hostiliza.

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Mas: 1. Há muito tempo eu sei que gostarem de mim é apenas bônus, que as pessoas não têm obrigação desde que ajam com profissionalismo. 2. Isso vai me dar o motivo que eu estava precisando para não ir em confraternização. Como já disse antes, estou decepcionada com a espécie humana em geral.

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Tem uma bandeja com docinhos perto do caixa, vários sabores, todos parecem bons. Pergunte pro caixa qual o mais gostoso deles, ele sem dúvida já provou todos.

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Eu fui num cartomante três vezes. Digamos que foi como se nas três ele dissesse a mesma coisa, com a desvantagem que ele foi falando cada vez menos. Reli essas anotações e é interessante como a gente só ouve o que quer, só dá destaque ao que quer. De lá pra cá, algumas coisas dentro de mim mudaram de tal maneira que o que era ruim agora me soa como algo bom. Estou dizendo para o Universo: agora eu quero, se era isso que faltava, manda!

Curtas sobre o sistema de caixa acoplada

caixa acoplada

Estou ficando boa nessa história de ser adulta, de pensar o que uma pessoa sensata faria no meu lugar e fingir que sou ela. Uma das lições essenciais para agir sensatamente é: abrace o prejuízo. Já deu errado, você vai ter que sair correndo, comprar o que não tinha planejado, pagar o que o cara te pedir, entrar no cheque especial. É assim mesmo.

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Eu ouvi um barulho estranho e tentei ajustar a válvula da descarga à noite. Uma mangueirinha se soltou e ficou dentro d´água. Na manhã seguinte, fez mais barulho, fui ajustar a válvula, ela quebrou na minha mão, a água começou a espirrar sem parar. “Por que, meu Deus, que infelicidade, que inesperado!”. Bem, fora o fato que eu não uso aquela privada há mais de um ano porque ela tem um vazamento incurável …

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Conclusão: sempre me achei das espertas que se antecipa aos problemas. Esse povo que não faz terapia, que procrastina, que isso, que aquilo, eu não, minha ansiedade e perfeccionismo nem deixam. Quem sabe até seja verdade que eu me antecipo aos problemas, apenas não quando eles são hidráulicos.

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O sujeito não vinha voando como eu gostaria, e muito sensatamente aproveitei aquelas horas para comprar um sistema novo. Sensatamente desliguei o registro. No que pareceu um excesso de cuidado, comprei um sistema novo inteiro de uma vez, para não correr o risco de comprar a peça errada. Depois, o cara me disse que fui muito sensata, porque a peça que deu problema justamente é aquela que não vendem separado. Sensatamente, eu tinha um dinheirinho comigo e não precisei ir ao banco. Eu mereço uma estrelinha por tanta sensatez junta, mas entrei no cheque especial e minha futura conta de água…

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“Nossa, você comprou o kit todo, custa uma fortuna e tem peça separada”. Mas olha o que aconteceu: eu contei pra ele que o sistema foi mudado inúmeras vezes e a descarga sempre vazou. Por causa disso ele decidiu desmontar a caixa inteira. Ele me mostrou a peça desgastada e meu banheiro ficou com cheiro de mofo como nunca antes. Deu trabalho e o cara me cobrou bem. Concluo que todas as outras vezes que trocaram o sistema, as pessoas fingiram trocar tudo e não tiraram a peça principal porque a porcelana nunca havia sido mexida. Comprei kits e paguei pessoas à toa durante todos esses anos.

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Outra conclusão adulta: prejuízo que resolve o problema de verdade não é prejuízo.

Caixa de correio

caixa de correio

“O problema deste modelo é que ele é tão bom, a abertura tão generosa, que o carteiro deixa boa parte da correspondência da vizinhança na minha casa”, eu disse para a vendedora. Eu tinha em casa a mesma caixa de correio de quando me mudei, ou seja, pra lá de dez anos. Naquela manhã me deu vergonha e a decisão urgente de comprar outra. Ela estava horrível faz tempo, manchada, e com os parafusos que a prendiam no portão todos soltos e enferrujados. Ela ia escorregando para baixo a cada carta que enfiavam. Aí eu a puxava pra cima, arrastando. Me acontece disso, talvez com todo mundo, de ficar com uma coisa feia em casa e não me incomodar, dizer que arrumo quando tiver uma sobra, e um belo dia achar que aquilo é insustentável. Fui numa loja pequena de material de construção, tinha seis modelos e foram longos minutos de indecisão. A questão é que no modelo que eu tinha, de plástico amarelo, a abertura fica no topo, e tudo podia ser enfiado ali sem dobrar. Mas peguei raiva, não queria trocar a velha por uma nova, queria que a troca de caixa de correio também fosse um marco: troquei, comprei sozinha, nova fase, etc. Comprei a mais cara, de metal, maior do que a anterior, só que a abertura é uma janelinha na frente – como ela fica encaixada atrás do portão, fica obstruída pela grande. O carteiro não vai gostar, eu pensei.

Quando trouxe a nova caixa para casa, vi que a vizinhança, ao longo desses anos, já havia trocado suas caixas, que agora eram quase todas do modelo amarelo de plástico com abertura grande. A exceção é justamente minha vizinha louca, que tem uma de metal com abertura frontal também. Depois de colocar minha caixa nova, fiquei igual Odorico Paraguaçu: o carteiro a semana inteira sem dar as caras. Quando apareceu, não fui na janela mas acompanhei auditivamente: a moto parada com motor ligado, a espera dele vasculhando o bolo de cartas, o barulho do metal da janelinha, o portão chacoalhar, barulho, mais barulho, portinhola de metal batendo, a moto indo embora. Quando peguei minha correspondência, o envelope em tamanho A4 estava dobrando raivosamente em três pedaços. O carteiro não gostou, mas é de metal, nova e minha.

As lâmpadas

lampada

Eu entrei na sala e achei que estava escura. O spot tem um vidro e dá pra ver que ele usa duas lâmpadas pequenas. Aí fui no computador e também achei que estava escuro. Lâmpada fria tem dessas, elas apagam suavemente, ainda mais que tem a outra. Coloquei na lista de compras e no dia seguinte já estava com as lâmpadas novas. Peguei a escada, vi de que lado estava escuro, tirei o spot e – surpresa – só havia uma lâmpada. Tanto na sala como no escritório. Tenho a vaga lembrança de, há mais de um ano pelo menos, ter tentado trocar a lâmpada usando um banquinho e me sentido tonta. Ao que tudo indica, deixei o assunto pra lá e estou há meses andando em uma casa escura sem me dar conta. A parte de me acostumar vá lá, mas o que me deu de, de repente, perceber que estava escuro? Não sei. De uns tempos pra cá dei de ter um carinho com a minha casa que não tinha antes – pintei paredes, coloquei quadros com mulheres fortes, organizei bagunças que eu acreditava que não tinham jeito. Como pessoa que crê em terapia, vos digo: há curas mais profundas embaixo de cada cura.

A casa do sonho

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Também acontece com vocês de, no sonho, lembrar que aquele elemento já existia num sonho anterior, como se você vivesse uma vida paralela em sonhos? Há poucas noites percebi que mudei de casa. Há anos eu sonhava com casas, em visitar casas, de entrar em casas mofadas ou abandonadas e deixar o ar entrar e ter que torná-las habitadas de novo. Recentemente me mudei, uma casa enorme num amplo terreno com gramado. Posso dizer que ela é tudo que sonhei ou até mais, porque é uma casa bem grande, móveis desenhados, ampla entrada de luz, gramado que dá um bom espaço relação aos vizinhos, segura. Só que o interessante dessa nova casa, é que ela é minha e não é. Eu vivo num quarto bem escondido, tenho que passar por vários corredores até chegar lá, é quase como se fosse um porão. Em contraste com o capricho da casa, meu quarto é austero como uma cela religiosa. Será que vai ser sempre assim, ou com o tempo eu galgarei quartos melhores dentro da minha própria casa em vida paralela de sonho?

O (acho que) rato

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Era de noite, a porta dos fundos estava aberta como sempre e eu ouvi um barulho esquisito que vinha de fora. Apurei o ouvido e vinha do sifão, da parte debaixo. Durante o dia eu tinha usado o tanque e a água esparramou toda, o sifão estava desencaixado. Encaixei de volta e achei que era apenas porque estava ressecado. Ao ouvir aquele barulho, entendi que um bicho havia tirado ele do lugar e que estava tentando fazer de novo, naquele instante. Abri a torneira e deixei a água correr, o barulho parou. No dia seguinte tudo bem, mesmo assim joguei uma água sanitária antes de dormir, para dar o recado. Na manhã seguinte, o sifão todo para fora de novo. Pego uma imensa pedra redonda de jardim e coloco em cima do buraco, ou seja, fico sem tanque o dia todo. Estou bem tranquila à noite fazendo sopa e quando olho para o tanque a pedra estava longe. Foi aquela sensação de filme de terror, o bicho além de persistente é grande. Coloco a pedra de novo, agora com o reforço de enciclopédias (!!) para prendê-la à parede. Tenho medo de ter prendido o rato pra fora – ou para dentro, dependendo do ponto de vista – , mas como é que eu vou saber se ele foi e já voltou? Me desconcentro, não leio mais, não faço mais nada direito. Estou no sofá ouvindo a única trilha possível no momento – Life is Hard – e penso em não postar. Tem um ratão em algum lugar, lá embaixo.

Tempestade

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Depois de um mês de estiagem choveu muito, choveu, finalmente parou e a previsão é recomeçar. Mas o dia passou seco, roupa secando no varal, a noite silenciosa, talvez até mais silenciosa do que o normal, e a previsão de chuva parecia ser mais um erro. Mas os sites não param de noticiar e o Milton posta sobre palco caindo e quer tranquilizar as pessoas. Ponho varal pra dentro e me encastelo toda. Desde que passei a morar em casa, a chuva deixou de ser um ruído na janela que ajudava a relaxar pra ser algo que me acorda de madrugada. A porta da frente, na posição original, deixava entrar muita água, apesar daquela borracha instalada embaixo, e depois de qualquer chuva era certo que a sala inundaria. Também tem a corrida na madrugada pra tirar as roupas da pequena cobertura lá atrás. A Dúnia que tem comportamento estranho em dia de chuva forte, ora deprimida e querendo entrar em casa, ora se colocando num cantinho praticamente descoberto e se molhando toda. Mas, principalmente, começo a pensar em notícias de casas destelhadas, árvores, lugares que inundam enquanto estou quentinha. Morar em casa realmente nos deixa mais próximos da terra, com todo simbolismo que isso tem. Já repararam no quanto as músicas antigamente falavam de fenômenos meteorológicos? Era sunny day, here comes the sun, crying in the rain, long and cold winter…

Caos

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Chego em casa no início da noite, com um pouco de frio, porque saí de casa pouco depois do almoço e achei que conseguiria voltar mais cedo. A Dúnia me cumprimenta no portão, feliz de me ver, no amor incondicional que só um cachorro é capaz. É o segundo dia seguido que a deixo sem passeio e os cocô dela salpicam a parte de frente da casa. Encho o potinho de água, coloco os cadeados, pego o saco plástico que já fica com os ossinhos dela e procuro os cocôs sob a luz do poste. Deveria aproveitar para colocar a sacola de lixo reciclável para fora e decido deixar para depois. Meu telefone começa a apitar enlouquecido assim que entra na área do wi-fi e recebi e-mails, mensagens privadas, notificações do facebook e retuítes. Respondo tudo enquanto como o macarrão que estava na geladeira, vejo uma entrevista do Programa do Bial e depois de poucos minutos a adrenalina baixa e tudo na internet começa a me irritar, sinal inconfundível de que estou esgotada. Deito com as pernas pra cima, não sem antes me reprovar por fazer isso de barriga cheia. Sei que vou dormir e me deixo, na esperança de conseguir acordar nova. Acordo uma hora depois, ainda podre e decido que aquelas 21:30h pro meu organismo estão mais para 3h e vou dormir. Desligo o computador, tiro o som do celular. Quando me deito, ao contrário do que esperava, não apago, mas também estou cansada demais para abrir os olhos ou voltar a levantar. Na manhã seguinte levanto tarde, perco minha carona, a pia está tomada por panelas e pratos cheios de água, no tanque dois baldes cheios de roupas de molho por mais de 24h. Preciso tomar café apesar da louça, preciso pelo menos trocar aquela água se não tiver disposição para lavar a roupa, preciso organizar o que comprei no dia anterior, preciso sair de novo porque acordei atrasada. Acho que já perdi o caminhão do lixo reciclável. Poucos dias ocupada e cansada e minha vida é o próprio exemplo da entropia.

Curtas de sorvete na geladeira

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Eu me senti muito adulta em descobrir um sorvete perdido. Quando na minha vida eu imaginei que chegaria o dia que um sorvete não seria devorado em qualquer pretexto de comer doce.

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“Eu olho pra você e lembro do coentro” – verdureiro do bairro. No caso, o coentro que ele vai passar a trazer pra mim.

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Para o telemarketing da Net: “Se eu acabo de te dizer que mal uso telefone fixo e o Now porque quase nunca ligo pra ninguém e assisto Netflix, acho que não faz sentido você tentar me mudar para um plano de ligações ilimitadas e mais vantagens na TV a cabo, né?” Ela ficou sem graça e me deixou desligar.

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A Dúnia estava com todas as necessidades satisfeitas – água, comida e passeio – e não parava de chorar. Ela tem tendência a chorar à toa só pra ganhar ossinho. Aí fico naquele dilema, de não querer atender o cachorro imediatamente pra não reforçar comportamento indesejado. Aguentei o quanto pude, e quando fui pronta pra dar uma bronca, descobri um passarinho se debatendo (e cagando) na sala inteira. Ela estava assustada com o barulho. Fiquei me sentindo uma monstra de sala suja.

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Que é meio difícil me tirar de casa é ok, o que eu não sabia é a diferença que faz saber que vai ter comida boa de graça. Válido para cultos de religiões simpáticas. Quero ver quem atira a primeira pedra.

Curtas sobre bichos escrotos

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Ouvi um papo sobre chinelada e não estava entendendo. Aí me mostraram que havia uma barata enorme no vestiário, perto do teto e de alguns armários. Uma diz: “é que as baratas gostam muito de sabonete”. Na minha lista de “Coisas que Baratas Gostam” já constam: saliva, restos de comida, correr na nossa direção, esgoto, lixo, ralos, fingir de morta, cantos escuros, buracos entre armários, jornais velhos, calor, sapatos, aparelhos eletrônicos desativados, cerveja, papelão, voar. Concluo que o grande segredo das baratas é a sua alegria de viver.

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Quando eu conferi o lixo que não é lixo e ele estava roído, meu desânimo foi total. Aquilo sim deu vontade de fazer as malas e ir embora dessa vida divorciada e adulta. Porque enfrentar baratas, seres resistentes e nojentos é uma coisa; outra, bem diferente, é enfrentar seres superiores. Ratos são os bichos mais inteligentes da terra, o autor do Guia do Mochileiro das Galáxias tem razão. Um exemplo que li num livro: tinha um navio enfestado de ratos, nada dava jeito. Aí um dia tiveram um plano infalível de evacuar o navio, lacrar e colocar tubos que jogavam um veneno fortíssimo dentro do navio. Dias depois, voltaram achando que teria cadáver de rato espalhado por tudo, mas não, estava tão enfestado quanto antes. Quando foram ver os tubos, descobriram que cada um deles havia sido entupido com ratos, que andaram em direção ao veneno até morrer e vedar.

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Fui procurar dicas na internet sobre como lidar com ratos e uma bem ecológica recomendava cheiro de xixi de gato ou cachorro perto do local, porque são inimigos naturais. Já me imaginei colocando potinho de coleta embaixo da Dúnia durante o passeio.

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Outra: foi muito difícil desenvolver veneno para ratos. Pra começar por causa do olfato apurado deles, que faziam com que qualquer veneno passasse intocado. Depois, quando conseguiram desenvolver um veneno sem cheiro de veneno, pela prudência dos ratos: qualquer sabor novo tinha de ser experimentado pelo membro mais velho do grupo, que passava dias em observação. Só depois de alguns dias o alimento passava a ser liberado pros outros. Por isso que nenhum veneno de ratos age imediatamente.

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Por isso eu considero os ratos como uma grande inteligência coletiva. Já pensou se os humanos conseguissem agir assim? É que cada um de nós se sente importante demais. Um sujeito com um revolver com poucas balas consegue dominar uma multidão, porque cada parte dela tenta se preservar. Meu problema eu resolvi tapando o ralo, caso vocês queiram saber.

Essa casa brasileira

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Quando eu e o ex namorávamos, nós vivíamos praticamente nos extremos da cidade: ele morava e trabalhava no Leste e eu vivia no Oeste e trabalhava no Norte. Quando decidimos buscar uma casa, o primeiro impulso foi procurar no Leste porque era mais perto do trabalho dele. Eu tive resistência a isso e questionei se ele pretendia trabalhar naquela empresa a vida inteira. Como a resposta foi negativa – e ele acabou saindo de lá poucos anos depois de casados -, disse que não fazia sentido centrar nossas buscas apenas no Leste. Virou quase uma competição, cada um torcendo que a casa ideal para os nossos sonhos e orçamento ficasse na sua região. Os corretores ficavam loucos, porque quando nos perguntavam que bairros estávamos dispostos a ver, eles contemplavam três pontos cardeais e os do meio. Mas na verdade enchemos pouco o saco dos outros porque vimos quase tudo sozinhos. Na sexta-feira já marcávamos as casas em potencial que veríamos naquele fim de semana e, além dessas, seguíamos qualquer placa que víssemos no caminho. Foram meses fazendo isso, vendo dezenas de casas por dia em todos os cantos que se possa imaginar, um daqueles feitos que quando a gente olha pra trás se pergunta como teve paciência. Vimos muita coisa, muitos absurdos. Lembro de um sobrado pequeno, com todos os cômodos apertados, cujo grande atrativo era a banheira da suíte, que cabia umas sete pessoas sentadas. É de se perguntar pra que tipo de consumidor aquela planta foi pensada. Vi casas que para resolver o desperdício de espaço com corredores o tinham simplesmente omitido: as portas dos quartos ficavam coladas na lateral, formando um triângulo cuja base era a escada. Ou seja, se você saísse do quarto um pouco sonolento ou distraído, poderia morrer.

O que realmente me marcou nos absurdos que vimos naquela época foi o seguinte: fomos parar naquele conjunto de sobrados por uma das muitas placas que seguimos no meio da rua. Quem estava lá para vender foi o próprio sujeito que construiu os sobrados. Eram uns seis sobrados de dois tamanhos diferentes: o maior tinha cerca de 150m² e estava mais de vinte mil acima do orçamento (no mercado imobiliário se fala dez, vinte e trinta mil com um desapego que é de deixar deprimido) e o outro tinha 110m² e estava menos acima do orçamento. Ele queria, claro, que a gente se propusesse a vender as mães e ficar com o maior, por isso nos fez visita-lo primeiro, mesmo a gente dizendo que não poderia ficar. Pois bem, fomos e ficamos babando. Quartos, suítes, banheiros, sala, cozinha, tudo muito bem distribuído, iluminado, espaços bem aproveitados, um projeto muito bom. Era de fechar o negócio ali se não estivesse realmente acima do orçamento. Fomos animados ver o de metragem menor. Nos perguntávamos como seria, se de repente só tivesse tirado um dos três quartos, ainda assim seria bonito, a gente não precisava mesmo de uma casa tão grande. Quando entramos… olha, não tenho nem palavras, aquilo foi inacreditável. O sujeito pegou a planta da casa de 150m² e passou a régua na lateral da planta e com isso cortou os 40m² de diferença. A casa menor era idêntica à anterior, só que com os cômodos de todo lado direito mutilado. Ficou horrível, burro, não quisemos ver mais nada.

Evito ao máximo dar pitacos políticos aqui, mas essa reforma da previdência me parece igualzinha. Tem muita gente boa escrevendo e sendo entrevistada sobre o assunto, então não vou ousar tentar explicar o que não entendo. O que sei é que todos temos ciência de que é preciso mudar, que não dá pra seguir no atual modelo. Mas com tantas outras possibilidades e torneiras abertas, precisa ser uma matemática tão óbvia e burra que pune justamente quem menos pode se defender?