Curtidas

Você é muito amiga de um grupo de pessoas. Depois a vida te leva a se separar desse grupo, que continua unido. Aí um desses amigos compartilha no Facebook uma mensagem que, essencialmente, diz que “fica na nossa vida quem é pra ficar mesmo, se a pessoa foi embora é porque não era pra ser”. Mais: todos do seu ex-grupo de amigos curtem e dizem que é assim mesmo, que se amam, ainda bem que estamos juntos. A vontade é de lá escrever – Ó, MUITO OBRIGADA, VIU.
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Assim como tem o botão Curtir, um dia surgiu um vírus com um botão Descurtir. Fui uma das trouxas que foi lá correndo pra instalar o troço. Já me imaginava descurtindo um monte de coisas dos meus amigos, só de zoação. Aí um amigo de um amigo escreveu um longo depoimento, que acabei vendo, achando o cúmulo as pessoas caírem num vírus que propunha algo tão desagradável como descurtir os outros. Achei tremendamente paunocu e reclamei daquilo no meu perfil. Não sei se sujeito viu o que escrevi. Desde então vivo um climão imaginário com esse amigo do amigo.
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O problema desse amigo do amigo é que ele é uma das pessoas de quem sou íntima sem nem ao menos adicionar. Tem também aqueles ex-amigos que os amigos dão RT o tempo todo no twitter, os textos onipresentes da Eliane Brum, o povo que não se toca e vem escrever no meu mural porque o Facebook dá brecha pra que amigos de amigos façam isso. Meu amigo desconhecido mais íntimo que eu não adicionei em lugar nenhum é o Idelber. De opiniões políticas à tintura de cabelo, ele não pode espirrar sem que um dos nossos 22 amigos em comum o repassem. E repassam mais de uma vez. Por falar nisso: Oi, Idelber, beijo.
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Chantagem emocional na vida é duro. Como o Facebook imita a vida, agora tem chantagem emocional lá também. Você abre sua página e tem lá que um amigo seu curtiu e publicou uma imagem tocante, onde que diz que quem não a repassa é insensível, racista, capitalista, egoísta, assinante da Veja, bate na mãe e vai pro inferno. Parece aquela antiga maldição da Samara no orkut – leu? Então se ferrou. Acho que nesses casos só há uma solução digna possível: deixar de ver as atualizações do amigo.
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Uma vez eu falei que era pra salvar logo os Guaranás de Paranaguá porque não aguentava mais ver aquelas notícias. Depois meia dúzia nunca mais apareceu pra Curtir mais nada do meu perfil, de onde eu concluo que essas pessoas não vêem mais minhas atualizações. É do direito de cada um, elas acharam que com certos temas não se brinca. Também tenho minhas reservas a certos temas. Uma delas a coerência de personagens de HQ – não adianta argumentar, nunca vou curtir a idéia do Wolwerine gay.
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Farruquito

Veja como é a mente da gente: sempre tive um certo preconceito com pessoas que seguiam as mesmas profissões dos pais e avós. Sempre achei muita acomodação, sinal de que a pessoa nem parou para pensar quem ela realmente é, o que ela quer. Tinha para comigo que se pertencesse a uma linhagem, certeza que seria a ovelha negra que faria tudo diferente – afinal, eu já sou uma ovelha negra. Só que aí tem o Farruquito, que nasceu numa das famílias flamencas mais tradicionais da Espanha e, ai, que inveja. Quem me dera crescer em meio ao flamenco, aprendendo naturalmente o que hoje eu custo tanto a internalizar. Olha ele dançando com os parentes, ainda criança, que coisa mais fofa:

 

Enfim, o cara nasceu com tudo para ser uma estrela e foi lá e reivindicou o que é dele. É aquela situação ideal, o que a gente escolheria se pudesse (ou pode, sei lá) antes de nascer. Ele cresceu sempre estudando e hoje pode é um dos maiores bailaores da Espanha, da vertente tradicional. Minha vontade, diante de alguém assim, seria saber como e quando foi descobrir que nem toda família dança, tem ritmo, sabe bater palmas e em que tempo entra numa bulería. Ou que nem sabe o que é uma bulería. Eu imagino que quando criança ele nem fizesse idéia do quanto isso fosse especial. Eu me sinto tão mobral com três anos de flamenco, preciso de uma vida inteira pela frente – e ele já passou por essa vida, na infância.
Não poderei saber como é ser Farruquito, mas teria a honra de vê-lo, senti-lo! No ano passado ele deu um workshop muito concorrido, e eu não pude ir. Soube que as alunas ficaram todas suspirando com o charme e a gentileza dele. Agora ele está em turnê com outra que nasceu numa família poderosa de flamencos, Karime Amaya (neta de Carmen Amaya, a primeira a levar o flamenco para o mundo) e – pasmem – o espetáculo virá para Curitiba. É o do video que eu coloquei aí em cima. O mesmo espetáculo que está deixando os europeus babando, chance única na vida. Os melhores músicos, os melhores bailaores, Farruquito e Amaya no auge das carreiras, tudo de primeira. É pra vender a mãe e comprar o ingresso.

Felicidade

Eu sei que é uma metáfora nerd muito barata, mas quando penso na vida ela sempre me parece um game. Estamos em cima de uma plataforma em movimento, que irá nos derrubar; devemos saltar em outra plataforma em movimento que está passando. Não podemos ficar parados, não podemos pular antes, não podemos pular depois. Acredito muito no instante, na sincronicidade, na necessidade de tomar uma atitude no momento exato. Persistir em algo porque nos fez feliz um dia ou porque está dando certo não é a melhor saída. Um dia – que pode ser amanhã, pode ser daqui há dez anos – a vida nos convidará a mudar. O caminho outrora correto passará a ser a opção errada, acomodada e/ou covarde. Da mesma forma, não me aflijo em pensar que se eu tivesse feito antes ou qualquer coisa antes, hoje viveria uma vida muito melhor e diferente. Aproveitamos a oportunidade quando estamos prontos para ela. É como pensar que se ao invés de conhecer o Amor da Sua Vida aos trinta, você poderia ter conhecido aos vinte e seriam dez anos de felicidade a mais. Não, aos vinte você não estaria preparado, talvez estragasse tudo. Também são assim as situações da vida. O pulo tem que ser no momento exato.

Por isso que a vida é tão complicada, que a felicidade é tão difícil. Ela é dinâmica, ela nos exige mudança e atenção. Só há uma maneira de ser feliz para sempre:

O suicida

Mais uma conversa ouvida no ônibus.

– Você estava trabalhando quando aconteceu?
– Não, eu estava de férias. Eu estava em casa de tarde, aí me ligaram e disseram “liga a tevê agora, no Datena”, aí eu liguei e tinha ele pendurado lá no nono andar, querendo se matar.
– Dia seguinte ele foi demitido, conseguiu o que queria.
– Ele estava com todos aqueles problemas na família, de câncer, tratamento, queria tanto ser demitido e não conseguia. Que bom que ele conseguiu o que queria, ficaram com medo dele fazer alguma besteira.
– Não deram por bem, ele foi obrigado a tomar uma atitude drástica. Não queriam demitir ele porque ele faz parte da CIPA.
– Mas você viu que perigoso que foi? Estavam esvaziando o nono andar e ele foi lá e saiu por uma janelinha do banheiro das mulheres. Foi um perigo, estava chovendo muito aquela época. Ele poderia ter escorregado e se machucado…

Peitos e peitos

Uma amiga me indicou o guia GP e passei uma tarde inteira muito interessante lendo sobre a prostituição da minha cidade. Quis ler um pouco de tudo, dos relatos dos lugares mais caros e os programas de luxo até as mulheres que ficam nas ruas. Tem um lugar mais ou menos perto da minha casa, e de fora parece ser um muquifo. Procurei-o no guia e confirmei que é realmente um muquifo, parece que a única um pouco mais interessante é uma japonesa. Descobri coisas insuspeitas, como duas garotas que faziam programa juntas na frente da Biblioteca Pública, lugar onde eu passo com frequencia e jamais desconfiei de nada. Descobri até uma boca que ficava no prédio da minha mãe (!!!) e que agora mudou. Li os relatos dos programas, as críticas, os elogios. Em pouco tempo a gente constata que sexo é realmente muito igual, a mesma sequencia, as mesmas posições preferidas. Os clientes relatam o nojo a certos lugares, o desafio que é continuar o programa com algumas, lamentam as que largam essa vida para arrumar empregos regulares ou se casam.

Os putanheiros recomendam garotas uns para os outros e colocam notas: rosto, peitos, bunda, pegada. Nos links de prostitutas de luxo, vi mulheres sempre de cabelos longos, barrigas lipo aspiradas, silicone. Essas são sempre jovens (ou que mentem a idade para baixo), e os clientes não se cansam de pressioná-las a ter peitos maiores, a fazerem anal, a deixá-los ir até o fundo, a deixar de lado a camisinha. E com todas, o programa é algo que serve para “esvaziar as gônadas”, prontos para tocar sua vida adiante como se nada tivesse acontecido. Como dá pra perceber, de divertido esse site fica pouco a pouco deprimente. Fiquei imaginando um homem, depois de transar comigo, ir num site descrever que minha barriga “precisava de uns abdominais”, dar nota 4 para o meu peito e 10 para minha bunda (ou vice-versa), dizer que fiz “muito bem em esconder o rosto nas fotos, porque ele é feio”, que embaixo “o cheiro era muito forte” e outros termos tão crus. Eu já não sou uma menina e fiquei diminuída diante da idéia de ter meu corpo avaliado como quem aponta um dedo, como uma mercadoria.

Aí teve a festa do Oscar. No meio ao burburinho de tantas beldades e o tapete vermelho, meu amigo Anderson diz que “iria fácil na Helen Hunt”. Não vi, mas me disseram que no seu último filme ela mostra os mamilos. Fui procurar cenas e, como era de se esperar, ela está mais velha do que a última vez que a vi em Melhor é impossível. E mesmo antes disso, mesmo nos tempos de Mad about you, Helen Hunt nunca foi a imagem de um mulherão. Então, num primeiro momento, eu não entendi o que o Anderson quis dizer. A Helen Hunt não apenas não virou um mulherão como agora tem até rugas. Aí lembrei de tudo o que a Helen Hunt é, da atriz, da mulher talentosa, do carisma, de coisas que vão muito além de um rosto e que se refletem no rosto. Porque quando conhecemos alguém, a pessoa não é apenas mais um rosto. Quando admiramos uma mulher, seu peito é mais do que um peito, é mais do que grande ou pequeno, caído ou durinho, siliconado ou não: é o peito dela, daquela mulher maravilhosa, desejável por ser quem é. Lembrar disso me deixou feliz e restaurou minha fé. Os homens dão notas e depois se afastam justamente porque são peitos que não lhe dizem nada.

As cartas

Todo místico que se preze pelo menos tenta alguma vez na vida aprender a ler tarô. O tarô é essencialmente um baralho, onde os chamados Arcanos Menores seguem o mesmo esquema de naipes que conhecemos e os Arcanos Maiores possuem uma numeração própria e símbolos mais elaborados. O que a pessoa precisa para ler tarô é saber mais ou menos o significado da cartas e, ao colocá-las na mesa, ser capaz de formar uma história coerente. É como aquela brincadeira de estar contando uma história e ter que adicionar as palavras à medida que vão aparecendo. Para os que crêem, o outro mundo é que determina a ordem das cartas e dá a intuição para a continuidade da história.

Até eu sei tirar tarô. Nunca me arrisquei a tirar pros outros e muito menos cobrar por isso. Como é muito fácil, qualquer cara de pau pode sair por aí se dizendo cartomante. Por isso que cartomante boa não é de papelzinho de rua, e sim que a amiga (ou a amiga da amiga) foi e ficou impressionada – a mulher acertou horrores e disse que ela namoraria um ruivo da área médica e agora estava namorando um enfermeiro ruivo, quem poderia prever uma coisa dessas? Foi com esse tipo de indicação que eu fui naquela, pela última vez na minha vida. Pra variar a mulher morava longe. Fui pra um terminal de ônibus quase fora de Curitiba, e de lá peguei um outro ônibus. Havia recebido por telefone indicações precisas de onde parar, andar duas longas quadras num terreno quase vazio à frente e virar à esquerda. Apertei a campainha e a simpática mulher me conduziu a um puxadinho no fundo de um terreno cheio de plantas.

Estava tudo bem. A mesa estava preparada, ela sentou com o baralho nas mãos, fez uma oração se concentrou. Pediu para eu cortar o baralho três vezes e respirando fundo começou a distribuir as cartas sobre a mesa. Só que ao olhar para as cartas e olhar para mim, notei um certo desespero no seu olhar. Pude perceber que ela não estava conseguindo ler nada. Na meia hora seguinte a mulher enrolou o quanto pode, falou de si mesma, deu conselhos sobre a relação com a minha mãe, só faltou me passar uma receita de bolo. Eu olhava para as cartas e via que elas não diziam nada daquilo. Lembrei de uma amiga que uma vez foi num pai de santo, e após várias tentativas ele disse que não poderia tirar búzios para ela, porque os guias dela não deixavam. Lá estava eu, na frente de uma cartomante que todo mundo dizia acertar tudo e que não me falava nada com nada. No final daquela meia hora, quando lhe dei o dinheiro, percebi que ela recebeu com constrangimento. E eu fiquei com dó de pagar. Geralmente a gente só tem consciência de que foi dinheiro jogado fora depois, quando as coisas não acontecem como previsto.

Fim do google reader

Leitores: o google reader subiu no telhado. Coisas de São Google, que decidiu assim. Por isso, quem acompanha o blog pelo google reader ou RSS ligados a ele ficará sem saber das atualizações. Recomendo que quem queira continuar lendo o blog dê um outro jeito: curte a página no Facebook, segue meu twitter, favorita, sei lá. Só não vale deixar de ler por um motivo bobo desses, né?

Update: este link fala um pouco mais sobre o assunto e apresenta sugestões de links para substituir o reader.

Convicção

Uma vez vi uma entrevista do Tom Zé, e nela ele contava que tinha desenvolvido uma música com um aspirador de pó. Depois da música feita, ele chamou um cara importante pra ouvir a música. O sujeito veio e quando Tom Zé se viu apresentando a música, tocando com um aspirador de pó na frente de Fulano de Tal, que ele se deu conta da esquisitice da cena.  O que Tom Zé disse depois foi fantástico, algo mais ou menos assim:
– Eu me dei conta do ridículo da situação na frente do Fulano e comecei a me sentir mal, deu aquela vontade de parar, de largar o aspirador e não passar vergonha. Mas é nessas horas que bate a vergonha é que a gente tem que se concentrar e fazer com ainda mais convicção, então eu continuei tocando. Toquei e no final ele gostou, disse que achou genial…
Continuar por convicção, apesar do sentimento de ridículo, na esperança de que faça sentido: é a própria definição da minha vida.

Magra e bela

Ela era faxineira lá da academia. Não sei dizer quantos anos tinha, era um rostinho de criança num corpo inchado, e de ouvir suas histórias soube que ela tinha pelo menos dois filhos em idade escolar. Frequentar academias, ainda mais uma cara como aquela, é ver todos os dias mulheres lindas e magras desfilando na sua frente, algumas com o dobro da sua idade. Acredito que isso tenha mexido com a cabeça da faxineira e ela passou a achar que não era bom estar gorda. Ela começou a emagrecer com uma rapidez impressionante, a mim pareceu que tinha feito algum tipo de loucura. Dois meses depois, estava com trinta quilos a menos. Foi uma nutricionista (!?) que lhe passou uma dieta em que podia comer apenas três vezes ao dia e o resto do tempo ela podia apenas se encher de água. Pense no esforço dessa moça, que trabalhava pesado e morava longe. Até desmaio ela estava tendo, mas estava determinada a emagrecer. Ela ficou magra com uma aparência murchinha, como se tudo o que ela tivesse antes fosse um ar que saiu quando fizeram um furo.
Depois de magra, cada dia ela aparecia com uma história diferente. Queria fazer tatuagem, queria pintar o cabelo. No dia em que falou em fazer chapinha, eu e outra mulher acabamos não resistindo em perguntar porquê e para quê. Ela tinha um lindo cabelo preto e longo, com cachinhos que desciam suavemente pelas pontas. Ela alegou que precisava muito, pelo menos na franja, que era indomável. A mulher lhe recomendou então deixar um grampinho no cabelo quando úmido, ou um bob, que ele secaria certinho. Sem dizer – alertamos – que quando começamos a encher o cabelo de química é preciso cuidar mais, hidratar e um monte de outros trabalhos que ela atualmente não tinha. Ou seja, falamos para ela não fazer. Ela claramente não gostou, ela queria fazer alguma coisa para ficar mais bonita. E, como toda mulher que decide ficar mais bonita, ela não aceitaria ser simplesmente quem é. Acho que tudo fazia parte de um projeto pessoal, que iniciou com o regime, de ficar linda. Ela queria fazer tudo o que as outras estavam fazendo e ficar igual a tudo o que dizem que devemos ser. Modelos de beleza são assim, sempre estamos aquém, sempre é preciso investir mais e mais…

Rentáveis

Deixa eu confessar que estou desapontada. Na época do vestibular, aquela fase importante das escolhas profissionais, existem os pais que pressionam e os pais que dizem para o filho seguir o coração. Minha mãe fez um pouco dos dois: ela queria muito que eu fizesse Direito mas também entendia que a vida era minha e eu tinha que seguir o que me atraía. E direito sem dúvida nunca me atraiu. Meu coração sempre pendeu para humanas, praticamente todos os cursos de humanas me atraem. E posso dizer que o problema começa aí – eta área desvalorizada e mal remunerada. Eu não sabia o quanto era assim até o Luiz me contar que ofereceram emprego a ele, um empregão, quando ele tinha seis meses de formado. Tudo porque a empresa chegou na faculdade e pediu o nome dos maiores escores da última turma a se formar. Os anteriores já estavam empregados, então o emprego chegou até ele. Digam quando um empregão procura um recém formado da área de humanas. Outro exemplo: um amigo meu, seis meses antes de se formar, foi empregado como médico. Ele chegou lá procurando estágio e já o colocaram como clínico geral, ganhando como formado, porque eles estavam precisando. Talvez o problema seja esse: com um curso de humanas, ninguém sente que precisa de você. Quem sabe se você souber fazer um bom café…

 

Outra verdade é que nos fixamos muito com a idéia de que é preciso faculdade para se dar bem na vida. Existe uma tendência a ganhar melhor com curso superior, só que sempre existem exceções. São os trabalhos tão específicos que quase ninguém faz, ou quase ninguém tem o talento, então aquela pessoa se torna única na cidade. Existe uma joalheria no centro que abre apenas dois dias por semana. Tudo porque o joelheiro dela recebe relógios da cidade inteira para arrumar – ele sem dúvida deve ter algo de único. Quando você precisa fazer um tratamento dentário, aquela coisa tão cara, o teu dentista fará em vezes, já o protético recebe apenas à vista. Vi uma reportagem dizendo que é muito difícil arranjar o especialista em distinguir o sexo dos pintinhos. Falando em sexo, uma dominadora profissional ganhava – quando aceitava ser contratada- quinhentos reais por duas horas de sessão. Não são duas horas de chicotadas, como ela mesma explicou: ela podia deixar o cara ajoelhado e ler uma Vogue. Como dominadora, ela nem tinha obrigação de fazer sexo com o sujeito, ele é que estava lá para lhe dar prazer. Penso numa prostituta de rua, com seu trabalho tão pouco especializado – pra ela é dureza (não resisti ao trocadilho) ganhar cinquenta reais. Ser especializado é tudo nessa vida.

 

Quem recomenda ao filho, numa época importante da vida, aprender a olhar pintinho? Nem os metafóricos. Amei todas as coisas que fiz e faço, mas também teria amado reconhecimento, dinheiro e sucesso. Hoje os pais que forçam os filhos a certas profissões já não me parecem tão errados. É que eles sabem que amor não enche pança, e assim como trabalhar sem amor é frustrante, trabalhar só por amor também é.

Chuva e cheiro

Passei o dia todo fora. Combinei de almoçar na casa da Suzi, e como faço tudo de ônibus, saí uma hora e meia antes. Nem adiantou, porque eu me perdi, fiquei chorando no meio da rua, cheguei atrasada e a Suzi que também estava tendo problemas com um arquivo que se recusava a abrir. Roda a região à procura de um lugar que abra o pen drive, chove fino e chove grosso, vamos, nos perdemos lindamente em São José dos Pinhais, passamos numa Secretaria cuja entrada tinha cheiro de cabelo sujo. Enquanto as pessoas tratam de assuntos importantes, desço para comprar uma bebida e quase não consigo. Isotônico com cabelo. Termina a reunião, voltamos para a casa da Suzi depois de um turismo involuntário em São José, tomamos um café cheirosinho com pão de nove grãos, conversamos, o Luiz chega e tomamos mais café cheirosinho. Na volta, chove medonhamente. Chego em casa quase oito e meia, mal abro a porta e tudo fede. Pensem em alguém que tem no mínimo um odorizador em cada cômodo de casa. Aí chego de noite e ela fede. O marido, naquela delicadeza que só os anos de casamento dão, pergunta: “Foi você que peidou tão fedido assim?”. Andamos pela casa, à procura de um cano, um ralo, uma água preta e nada de achar motivos pra casa cheirar assim. Era algo meio podre, meio repolho, seria um rato morto? Remeto ao passado, de quando tínhamos vizinhos maconheiros na casa dos fundos – nossa casa às vezes cheirava de um jeito que se batesse a polícia ia todo mundo preso. Ou quando tem fumantes, ou quando jogam pinho demais, ou quando fazem fogueiras, por algum motivo nossa casa pega cheiro muito fácil. Com aquela chuva, algum esgoto poderia ter se levantado. Só pode.
Apesar dos pesares, estávamos em casa e nem só de café e pão nove grãos vive o homem. Resolvo fazer um peixinho, que deixei para descongelar segunda de noite. Abro a geladeira e cadê meu peixe. Adivinhem… Eu havia tirado o peixe da geladeira, tampado a travessa e guardei tudo de novo no lugar, ou seja, no armário. Peixe podre, meus amigos. E eu falando mal da secretaria cheirando cabelo.

I wanna hold your hand

Em primeiro lugar nunca fui beatlemaníaca, mas ser irmã de um me faz conhecer um pouco mais sobre o assunto do que um ouvinte aleatório. Cresci ouvindo Beatles, então cresci ouvindo e modificando minha percepção sobre o que ouvia. Eu acho uma fofura a primeira fase dos Beatles, quando eles ainda queriam pegar na mão das moças. Ela tinha uma alegria e uma inocência que durante muito tempo eu achei que deveriam ter sido eternas. Ouvia as músicas que vieram depois e – por mais que reconhecesse seu valor melódico, inovações e letras – sentia saudades dos primeiros Beatles. Achava que eles poderiam ter ficado assim pra sempre. Eu entendia perfeitamente a repórter que disse para Lennon, quando ele começou a aparecer pelado com a Yoko: “Eu admirava o seu trabalho, eu gostava mais de quem você era antes”. Lennon lhe respondeu: “Sinal de que eu cresci, você não”.
Hoje sei que eles não seriam quem foram (e são até hoje) se tivessem permanecido assim fofos durante toda a carreira. Os Beatles que compuseram essa música eram rapazes que montaram uma banda, que se apresentavam em lugares baratos e isso os ajudava a impressionar as meninas. Depois de ficarem mundialmente famosos, viajarem, experimentarem de tudo, casarem e se separarem, não fazia mais sentido cantar o amorzinho. Eles não eram mais os mesmos e foram artisticamente capazes de transformar essa mudança num enriquecimento na sua própria música.

 

O que eles fizeram não é fácil. Se até mudar de corte de cabelo é difícil! Ao longo dos anos a gente vai formando certos paradigmas, coisas que fazemos melhor do que outras, percepções do que nos faz bem. Não é jamais a visão mais completa, mas funciona e isso é o que importa. Apresentar algo diferente é correr o risco de ser rejeitado, de perder amigos, de se sentir no vazio. Por mais que exista outro público, outros amigos e outra realidade, existe um período de espera e incerteza. E o sucesso não é garantido, lamento dizer.

 

Essas coisas me fazem respeitar mais os Beatles e todos aqueles que mudam. Mesmo que eu não entenda a mudança, mesmo que me pareça que foi para pior. Porque, de uma maneira ou outra, há coragem ali.

Foto polêmica e reflexão

A maioria dos meus amigos já sabe um pouco dessa história.
Na foto que está no meu avatar do Facebook, eu estou com duas flores: uma na cabeça e outra na boca. Foi uma maneira divertida de participar de um concurso da Vudu – loja que me vendeu as duas flores. A gente tinha que tirar foto usando os produtos da Vudu para concorrer ao valor deles caso a foto fosse a mais votada. Quis fazer algo divertido e que me permitisse usar mais de um produto na mesma foto. Achei a foto tão legal que depois do concurso decidi usá-la como avatar.
Uma noite, estava para desligar o micro e vi uma mensagem privada. Era um senhor, amigo de um amigo, que eu tinha adicionado por educação. Ele começava a mensagem pedindo desculpas. Abre primeiro parênteses: o velho método de pedir desculpas antecipadas pra depois descer a lenha. Como se uma coisa anulasse o efeito da outra. Posso garantir: não anula. Fecha parênteses. Ele pediu desculpas, disse que estava sendo arrogante e invasivo – segundo parênteses: se sabia que estava, não era melhor guardar para si? – e disse que a minha foto com a flor na boca era muito bonita mas “totalmente inadequada”. Minha primeira reação foi: hein? Até fui olhar para a foto de novo, para ver se ela tinha um erotismo cavalar e eu boba nem me dei conta. Tanta foto de gente sem camisa, chupando dedo, fazendo biquinho e ninguém nunca disse nada a essas pessoas. Eu mordo uma flor e… Não sei se ele estava se referindo ao fato de eu ter um blog no Sul21. Mas, primeiro: o meu facebook não está vinculado ao blog e segundo: se o editor do Sul21, o Milton, não vê nada demais na foto, sinal de que realmente não há nada. Pensei em várias respostas possíveis, e todas me faziam pensar na invasão, no machismo, na falta do que fazer e daí para baixo. Muitos me recomendaram colocar fotos realmente eróticas, pra dar uma lição. Apesar de todos os pesares, optei por não ser agressiva com um senhor, não respondi nada e o deletei. Qual não foi a minha surpresa quando, na noite seguinte, ele me mandou outra mensagem privada muito grosseira, dizendo que eu não suporto ouvir críticas, etc.
Agora a reflexão: não conheço uma única pessoa que não tivesse respondido esse sujeito. Que não teria dito que ele não tem o menor direito de sair criticando coisas com uma mentalidade tão pequena que surpreende. Quando o deletei, eu me achei uma pessoa muito legal por isso, por deixar a história no vazio. Agora me parece que não, que talvez deletar as pessoas soe, para muitos, a atitude mais cruel. Eu o tornei sem importância, um inexistente que nem merece ser respondido. Pelo início da mensagem, vejo que ele já tinha mobilizado a energia da agressão, ele sabia que aquilo não ia agradar e esperava uma resposta a altura. Pouca gente é capaz de se programar para agredir e depois voltar atrás. Eu não agi como esperado, mas a engrenagem já estava acionada e ele me agrediu mesmo assim. Se eu tivesse respondido, ele teria me xingado, eu teria xingado de volta e tudo seria como ele esperava. Simplesmente não responder pode ter soado como um desprezo profundo.