Mas tão bonitinho o silêncio

A intenção dela não foi nos dar uma vivência de racismo. O que aconteceu é que ela foi convidada para a festa de casamento mais chique da sua vida, no Castelo do Batel, o lugar mais chique possível para se ter uma festa em Curitiba. Com meses de antecedência ela nos consultou sobre a questão de ter um acompanhante, e numa das diversas brincadeiras, eu lhe sugeri que fosse com uma amiga e fizesse com ela um falso casal lésbico, ia ficar super moderna. Ela então me disse que, de castigo, caso ela não arranjasse um acompanhante para a data, eu teria que ir de lésbica com ela e ser a masculinizada – aproveitávamos o cabelo curto e já ia de terninho e pouca maquiagem. No fim, deu certo e eu não precisei ir. Nos dias seguintes, estávamos doidas pra saber da festa, vimos fotos lindas. Lembro bem também do nosso silêncio quando ela nos contou que, assim que estacionou o carro e saiu dele maquiada e produzida, os seguranças a mandaram estacionar nos fundos, porque era lá a entrada de funcionários. Dentro da festa, foi preciso darem uma carteirada nos garçons, porque eles serviam todo mundo menos ela. Talvez pior ainda tenha sido que nós achávamos que ela iria (ou tinha que) ir embora, indignada, e ela nos explicou que isso é normal, que se fosse se retirar a cada episódio racista não iria mais a lugar nenhum.

Também foi sem querer que eu e uma amiga iniciamos uma discussão política no berço de um lugar bolsonarista. Agora tem muito bolsominion arrependido, classe média que se vê como rica, que foi atingida por corte em saúde, concursos, alta do dólar, aumento do desemprego, enfraquecimento das exportações. Mas existem também aqueles que estão tão acima na piramide que não foram pegos por nada disso, ou que têm tanto que mesmo tudo isso come apenas a bordinha sem importância do seu patrimônio. E foi uma dessas pessoas que começou seus argumentos dizendo que não havia nada de novo, que esta crise é igual a todas as outras crises, que as loucuras ditas agora são iguais a todas as outras loucuras ditas antes, mas tudo isso é normal e nem merece registro porque foi o governo petista que criou um legado realmente imperdoável: “o PT criou a luta de classes, o nós contra eles”.

O racismo pra mim é muito abstrato, é uma coisa que acontece com outros, relatos que me surpreendem e me chocam. Quando o problema não é seu, quando você está no grupo privilegiado, é como se visse certos problemas desde a cobertura de um arranha-céu – você está tão alto que as pessoas na calçada são apenas cabecinhas, tudo parece pacífico e igual. O agora é diferente porque as pessoas reclamam. Indígenas, gays, mulheres, negros, pobres. O pessoal da cobertura não via e está sendo chamado a ver. E a reação de muitos é: que pena que o gay não é discreto como antes, que o negro não ria da piada racista como antes, que a mulher não seja passiva como antes. Agora a moça do café não quer mais trazer a filha pra aprender o serviço também, ela quer viajar e colocar os filhos em faculdade. Será que antes a empregada via que a patroa gasta numa noite mais do que lhe paga de salário num ano inteiro e achava OK, só passou a se indignar agora? E o problema está na indignação e não na disparidade? Ninguém nega as profundas desigualdades sociais do Brasil, desigualdades estas que nasceram com o país, mas acha que era tão mais bonitinho antes, um povo tão cordial, tão mais barata a mão de obra… Minha conclusão é que, se você sofre e tem do que reclamar, reclame mais, reclame mais alto, grite para todo mundo ouvir. Não permita que usem o teu silêncio como desculpa.

 

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Frank Sinatra e o vôlei da net

Já que é feriado, recomendo um seriado Netflix sobre o Fran Sinatra, procura lá pelo nome dele. Não vi porque sou fã não, vi porque tinha uma vaga ideia de que era alguém que eu não gostava muito, que tinha gravado Girl from Ipanema e que o cantor que pede ajuda da máfia no filme O Poderoso Chefão seria ele. É interessante porque ele teve uma carreira e uma vida longa, daquelas que pegam os acontecimentos importantes da sua época. Mas o que eu mais gostei foi de não ter conseguido me decidir gostar dele ou não. Algumas atitudes canalhas*, incoerentes, autoritárias, sedentas por poder que ele tem me fariam jogar no lixo das pessoas detestáveis com a maior naturalidade. Mas ele também tem grandes gestos de generosidade, empatia com migrantes e negros quando ninguém tocava no assunto, baixos muito humanos e capacidade de se reerguer, amor aos filhos, caridade, amizade. Quando eu estava a ponto de bater o martelo pra um lado, o documentário mostrava outra face e eu não podia mais. Terminei completamente sem saber se gosto ou não, só sei que era realmente um talento enorme.

O julgamento das pessoas na net me lembra uma prova de vôlei que fiz uma vez no segundo grau, olha que didática incrível: duas equipes jogando, todos os jogadores começavam com nota dez. Cada vez que a bola caía no chão, uma pessoa – ou mais, às vezes até três, dependendo de como foi a jogada – gritava o seu número de chamada para a professora, que tirava um ponto da sua nota. Ou seja, se a bola caiu perto de você seis vezes, você gritava seu nome seis vezes e no fim da aula sabia que tinha tirado quatro. Só que na net, às vezes todos os pontos são retirados apenas com um movimento errado. Ama-se e odeia-se intensamente, a pessoa é anjo ou demônio, verdadeira ou mentirosa, perfeita ou um monstro hipócrita. E os atributos são apenas retirados, muito difícil que se acredite no lado bom das pessoas. Não é assim Sinatra, não deveria ser assim com ninguém.

*quero deixar registrado meu sincero BEM FEITO com o fim da história dele com Ava Gardner.

 

 

Ideias perigosas e sedutoras

Adolescentes e mini adultos são uma raça difícil de lidar. As mesmas crianças correm na sua direção pra ganhar um abraço, poucos anos depois estão no sofá e desejam que você nem olhe para a cara delas, porque elas não olharão para a tua. Os critérios deles pra gostar de alguém às vezes são tão misteriosos como códigos de erros no Windows. Mas, no entanto, contra tudo o que normalmente estes seres são – implicantes, independentes, resistentes, prevenidos contra qualquer tipo de autoridade -, bastam alguns autores malvados esquerdistas e eles estão seduzidos e dispostos a pegar em armas. Precisam ser protegidos de tão sedutoras palavras, caem direitinho na conversa, aderem rapidamente, se vêem prestando atenção e querendo mais.

Sério mesmo que este tipo de descrição estranha não te faz morrer de vontade pra ver o que diz o tal do Paulo Freire, o tal do Manifesto Comunista? Num mundo que reduz informações a memes, quando muito a um documentário, que canto da sereia é esse capaz de converter justamente os seres humanos na sua fase mais insuportável? Tem que ver isso aí, tem que eliminar os intermediários e provar também. Ou o medo é aderir também?

Obs: minha intenção era postar o Capítulo 2.1, que é tão bonito e profundo. Pretendia com isso quebrar a resistência e dar ao leitor a vontade de conhecer mais. Ao mesmo tempo, entendo que se proteja a sequência da série porque ela é um raciocínio que vai num crescendo. Mas fica minha sugestão.

 

 

Perda de valores, vanguarda e flamenco

Não faz muito sentido pra mim, mas tenho amigo gay que dança flamenco e é daqueles que se enfurece com a “perda dos valores”. Ele é mais velho, não é dessa geração que se assume desde a adolescência, ouve músicas e tem ídolos gays, “dá pinta” por aí. E o flamenco, como todo mundo que faz flamenco sabe, já foi uma dança muito subversiva. Tem uma brincadeira que eu faço, quando surge uma dúvida de como um passo é feito: basta testar qual a maneira mais difícil que será aquela. Quase morri de tédio o dia que vi o ensaio de um grupo de dança tradicional, que pra cada dois passos para a direita, precisavam fazer dois para a esquerda, sempre precisava haver o mesmo número de pessoas a cada lado do palco e eles precisavam andar formando figuras geométricas. O flamenco é todo torto, faz as coisas em números ímpares, entra no meio dos tempos. Isso sem falar nas subversões ainda mais óbvias, como o fato da mulher puxar a saia pra cima na hora de dançar, a força e a sensualidade no palco, a presença. Pensem no que era isso há séculos, porque o flamenco existe pelo menos desde o século XVIII. Uma vanguarda que todos os bailaores sabem é que um ritmo chamado Farruca antes era dançado apenas por homens, e hoje as mulheres o dançam também, geralmente de calça e figurinos sóbrios para se manterem fiéis ao estilo. Se por um lado o flamenco foi uma vanguarda em relação à sua época e à outras danças, ele também teve sua vanguarda dentro da vanguarda, com a mulher ousando colocar uma calça, ousando expressar sentimentos que até então eram considerados exclusivos dos homens.

Mas o flamenco é uma arte, algo lindo, superior, meu amigo diria, nada a ver com os absurdos que tem por aí: gente pelada, peças onde se enfia a mão nos orifícios uns dos outros, desrespeito a figuras religiosas em exposições, que são vestidas de forma profana ou o profano vestido de religioso. A questão é que para as inovações surgirem é preciso ter liberdade. Outras metáforas me vêm à mente: um solo fértil, um respiro, a flexibilidade que permite que construções que recebem muito impacto não desabem. Não é possível, antes mesmo das coisas surgirem, julgar o que presta e o que não presta. É preciso aceitar o choque inicial, saber que é assim que funciona e, à primeira vista, pode ser até feio. O “fora dos padrões” pode ser visto como ameaça, assim como pode ser o experimental, diferente, novo, criativo – é através dos que fazem coisas que a princípio não nos parecem certas que a sociedade se renova. O chocante nem sempre está começando um novo caminho, ele pode estar informando algo que existe e em pouco tempo será comum. Como um dia foi com o flamenco, com a homossexualidade, com as mulheres usarem calças compridas. O que é idiota e sem sentido, o choque pelo choque, como peça de teatro onde um enfia o dedo no orifício do outro, não frutifica e o próprio tempo se encarrega de apagar.

No vídeo, uma Farruca de uma das escolas de flamenco mais tradicionais da Espanha, a Amor de Dios.

Um fado

Vamos mudar um pouco o clima desse blog. Eu vejo o vídeo e me imagino passando mal de rir, porque tentaria não rir para não desrespeitar os anfitriões e só pioraria as coisas. Obrigada pela pérola, Antônio!

 

Curtas de pequenas grandes descobertas

Eu descobri que uma excelente maneira da gente achar que faz um bom trabalho é acompanhar, de longe, quem faz pior do que o seu. “Olha lá, que ridículo, era melhor nem fazer, kkkkk”. Descobri também que nos torna pessoas piores e não leva a lugar nenhum.

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Primeiro a gente passa o fio dental, que não tira apenas os restos de comida como também as bactérias que estão na gengiva. Só depois escovamos os dentes.

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Eu acompanho páginas científicas e páginas de astrologia, e é claro que a primeira gosta de falar mal de quem lê a segunda. Dou risada. Você pode se recusar a toda religiosidade sim, não acreditar em nenhum consolo, não ceder às superstições, enfrentar o mundo visível apenas com o que já foi publicado na revista Nature. Assim como pode acreditar que tudo tem o motivo, os deuses te ouvem e no fim acabará bem. É com você. Aviso que nenhum dos grupos ganha medalha.

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Estava vendo o lindíssimo vídeo que viralizou, com o Paul McCartney. Por todos que o cercavam, declarações escancaradas de admiração e afeto. O próprio programa se encarregava disso, impossível não cantar junto. Tirando a polpa da vida desse homem, o que vai ficar em meio à biografia, é a pessoa que nos deu Let It Be, Hey Jude, dentre outras. Como imaginar um mundo sem essas canções e o que elas fizeram nas nossas vidas? Aí lembrei no nosso Paul, o Chico Buarque. Não torçam o nariz, não é preciso forçar a barra pra dizer que o Chico tem coisas tão universais quanto. Donde eu concluo: tem que amar o Chico, afagar, curtir, homenagear, aproveitar o máximo. Chega de ser ingrato e pequeno, de fazer pouco caso e só descobrir o valor quando a pessoa morre e passa retrospectiva no final do Jornal Nacional. Mesmo pra quem discorda das opiniões políticas dele, tem que amar o Chico, o Chico é nosso.

 

Fã clube

Minha amiga Bárbara é fã do Chico Buarque. Eu também adoro Chico Buarque, mas ela é fã, é diferente. Já tivemos várias conversas sobre as músicas dele, ela sempre preferindo-a qualquer um dos seus interpretes. Quando alguém diz (eu fiz muitas vezes) que ele é um excelente compositor e não cantor, ela se irrita. Não adianta argumentar questões técnicas como alcance de voz e etc, para ela o Chico é o melhor cantor das músicas do Chico e pronto.

Passei a vida inteira imune ao gene de ser fã e agora, bem… Uma amiga definiu assim: claro que ela tinha que ser fã de um português que ninguém conhece. Fiquei sem graça, porque fica parecendo que escolho minhas músicas em função de não ter ninguém do meu lado que goste, e não é assim (pelo menos com músicas). Ser fã nem ao menos é escolha. Agora, só agora entendo a Bárbara. O melhor interprete pro meu amado Miguel Araújo é o Miguel Araújo.

O pulso

Eu li em algum lugar, alguma vez, falando obviamente de astrologia, que Saturno era o planeta essencial para um bom músico. Saturno, também conhecido como O Grande Maléfico. O planeta da tristeza, dos atrasos, da rigidez, da seriedade. Quando a gente vai na raiz do que é a música, faz todo sentido. Para quem não é músico, há de se pensar em tudo reduzido, apagar os floreios, a voz e os instrumentos, e pensar no pulso. Já os músicos sabem que toda variedade é aparente, que o que possibilita que todos estejam em harmonia é a obediência a um princípio fundamental, que segue invariável e matemático. Na biografia do Bob Dylan fala dele comentar sobre um dos seus bateristas não ser exato o suficiente, aí o biografo nos lembra: não é qualquer coisa tocar gaita, violão e cantar músicas de dez minutos e se manter no tempo. Um guitarrista de flamenco me disse que o Paco de Lucía era tão exato que ele chegou a colocar um metrônomo ouvindo uma das apresentações dele e Paco se manteve exato o tempo todo.

Pra este post ficar um tiquinho carnavalesco (é que o meu carnaval é assim mesmo, saturnino), coloco um vídeo que faz sucesso pelo Facebook: Paco de Lucía interpreta Tico Tico no Fubá.

Curtas de etiqueta

Passei na loja no dia e horário mais agitado, e pretendia comprar meu produto escondida e sair correndo. O dono me viu e achei que ele colaboraria com meu intento, com a justificativa perfeita de que havia muita gente. Mas aí ele me acenou animado, como nos velhos tempos, me perguntou o que eu queria, pegou pessoalmente, terminou de me atender. Acho que lhe desejei Feliz Ano Novo, e ele disse que era muito cedo, eu não voltaria lá em um mês? Disse que provavelmente não, que… Então ele deu a volta no balcão e “então pra não correr o risco me dê agora o abraço” e lhe dei um abraço que me deixou com o perfume dele impregnado na roupa. Tive vontade de perguntar se ele enlouqueceu, se ele se lembrava do quanto foi frio nas últimas muitas vezes que passei lá. Vai ver que ele decidiu que depois de três anos eu não merecia mais ser punida pela separação. Vai ver o ex passou lá com a noiva. Vai ver que queria se mostrar pra alguém. Sei lá.

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Sigo por princípio esta citação de Hamlet:

Se fosseis tratar todas as pessoas de acordo com o merecimento de cada uma, quem escaparia da chibata? Tratais deles de acordo com vossa honra e dignidade. (ato II, cena II)

… e tenho confundido as pessoas nesses nossos tempos rudes. Eu gosto de tratar bem, ouvir confidências, tenho uma memória de elefante a respeito do que as pessoas me contam, gosto que minhas interações sejam o mais leves e agradáveis para ambos. Aí quem reserva seu lado agradável apenas para quem ama, interpreta minhas atitudes como declaração de amor. Só se for amor pela humanidade.

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Sou uma fã nova de Bob Dylan, nova e solitária, porque passei a gostar sozinha lendo um livro. Então eu não sei se, como fã, eu tenho que gostar mais dele cantando do que qualquer outra pessoa. Se tenho, jamais serei alçada ao clube. Este desconhecido, por exemplo, que adorável!

Un manoir à Neufchatel, ce n’est pas pour moi

Todo mundo já foi lá, então não sabiam me indicar certinho o endereço. “É uma casa na frente do Parque Barigui”. A localização não é ótima apenas por ser um parque – morar na frente do Barigui significa morar, no mínimo, numa casa muito boa. Mais provavelmente numa mansão. Aí me deram umas indicações, fica no meu caminho quando passo de bicicleta, eu apenas não sei qual delas. Voltando da aula, com minha roupa de pedalada e mochila nas costas, passei reparando e achei. Pode ser uma casa enorme que fica à esquerda ou uma mansão estonteante que fica à direita. Só vai ser meio chatinho à noite, se ninguém me der carona. Cada vida tem suas características, seus desafios, e eu percebo que a minha me faz conviver com grupos muito diferentes. Há pessoas que dizem: “não conheço ninguém que voltou na Dilma”, ou “todos meus amigos são do mundo artístico”, ou “somos um grupinho dos que estudaram no Colégio Tal”. Eu nunca, sempre foi tudo muito misturado, tão misturado que jamais poderia colocar todo mundo no mesmo ambiente. Um dia ouço uma mulher falar do período que passava fome e no outro a que reclama de ter ir a Europa de novo. Olhei para a casa que ainda conhecerei, e lembrei de um amigo que reclamou que eu não o levava junto quando tinha convite high-society. Ele queria ir mesmo sem conhecer ninguém, via como oportunidade. Em compensação, tem outra que poderia e faz questão de não ir. Olhando as mansões de bicicleta, lembrei que muitos de lá dentro tem a mesma idade que eu, de carne o osso também, quem sabe até menos qualificados. Em algum lugar, quem sabe, eu devesse desejar estar lá, lutar para isso, não perder tão feio quando sou comparada aos meus primos. Deveria não estar tão feliz apenas montada numa bicicleta, com dinheiro contado e escrevendo coisas que caem sem efeito no mundo. Mas eu realmente nunca quis, nunca fiz por onde, é como se em algum momento tivessem dado o sinal de largada e eu não ouvi. Não sei se é porque nunca quis ter filhos e não tenho que deixar um legado. Talvez seja porque a gente aprende desde cedo a não sonhar com o que está longe demais – sou de humanas, curso de humanas não enriquece. Zaz, pensei. A moça que ganhava dinheiro cantando nas ruas. A música que me soou tão adolescente. Quem sabe também me diga respeito.

Frustração, frustração e Chico

Eu descobri uma vez um escritor frustrado, que era amigo de outro escritor frustrado. Era – pouco tempo depois da descoberta, eles devem ter tido alguma briga e se bloquearam no face. Tanto que depois não descobri mais o Fulano, porque o nome era comum e eu contava com o outro para encontrá-lo. O fato é que ele tinha algumas coisinhas publicadas no mural, e na impossibilidade de julgar a qualidade delas, coloquei num grupo de amigos, sem qualquer introdução. De primeira, gostaram, acharam que embora escatológico era interessante e bem escrito. Na segunda – “é o cara do cocô de novo? Já deu!”. Não sei o que pensa um escritor da Finlândia, eu sei que aqui é muito fácil dizer que a culpa das edições pagas com o próprio bolso não venderem é de temos um pouco inculto, que mal abre um livro, etc. Tenho muito medo de ficar assim, de verdade.

Bem naquela época eu estava viciadinha nesta música do Chico. Tem aquela brincadeira que nenhuma mulher diria não pra ele, né? Ouvindo esta música, mergulhando nesta música, colocando história e rosto na música, pensei no quanto o Chico é doce. Talvez seja o momento que tenha me dado um Eureka. Cresci ouvindo Chico e às vezes um artista está tão sempre na nossa cara, tão dado e normal, que perdemos a dimensão da sua genialidade. O Chico é um doce. Uma música de fala de sexo de uma maneira intensamente terna. A gente se sente lá, naquele momento que depois pode não dar em nada, ou em crime, mas que é lindo, confuso, apaixonado e se carrega pela vida inteira. Pensei que era esse o problema do primeiro e do segundo escritor frustrado: um grande artista nos leva para o mundo dele. Queremos estar com ele, pulsar ele, ver com os olhos dele. Pra ficar no rame-rame ou pensar em cocô, ninguém precisa de ajuda.

Batalha

Há poucos dias uma artista que eu sigo no Facebook, e com quem não tenho intimidade, postou a notícia de uma performance que teve na USP de uma moça pintada de preto e era mijada por um rapaz. Ela estava indignada com o absurdo, convocou um amigo negro e disseram que aquilo era apologia à violência e ao racismo. Junto com outra amiga dela, eu disse que não via assim, que era justamente o contrário: o choque era para mostrar as relações entre negros x brancos, homens x mulheres. Ela não disse nada e eu, por ver nela uma pessoa envolvida com arte, interpretei seu silêncio como concordância. Dias depois, a vi compartilhar um texto com a mesma posição sobre a tal performance. Aí eu entendi que ela não concordou e sim me ignorou. Que não quis discutir comigo por achar que não vale a pena entrar em discussões – política que eu também adoto na maior parte do tempo -, mas que meus argumentos não mudaram nada. Eu acho chato problematizadores enfurecidos, então entendi a posição dela. Ao mesmo tempo, fiquei decepcionada e desativei as notificações.

Este vídeo não tem, por parte do Porta dos Fundos, nenhuma mensagem subliminar. Mas ele representa como eu tenho me sentido diante da mais nova mentalidade medieval brasileira.

O tempo trota a toda ligeireza

Vi, mais pelo título ser curioso do que qualquer outra coisa, o documentário Chuck Norris x Comunismo. Foi um ano que vi muita coisa boa, e este foi mais um. Nesta época de ignorância, me dá até medo indicar – “olhaí, comunismo, uma tremenda porcaria”. O filme é crítico sim como o comunismo romeno, mas muito mais pelo seu aspecto totalitário, ou seja, algo que acontece em doutrinas de direita e de esquerda. Trata de História, mas também de histórias. Tem protagonistas e uma ação que se desenrola. É crítica e uma declaração de amor ao cinema.

Naquela parte muito bobinha e pessoal que nos marca, o filme me fez pensar no quanto tudo chega ao fim. Por mais indestrutível que pareça, por melhor ou por pior que seja. Quando se vivia aquilo retratado no filme, o regime comunista parecia que nunca chegaria ao fim e durou quantas gerações, duas? Um dia conseguir uma fita pirata pra assistir no vídeo cassete é uma aventura, anos depois é uma experiência isolada e deslocada no tempo. Ele me fez pensar o quanto, apesar de toda essa porcaria que está rolando, temos que continuar vivendo. Continuar fazendo as coisas, tocando os projetos, amando, aprendendo coisas novas. Porque passa.

Doçura

Tenho sentido uma falta imensa de doçura, imensa. Apelo para doçura nas maiores doses que posso e sinto que ela adere em mim com um hidratante numa pele muito ressecada, que afina pouco e pede mais e mais. Um lado sente que precisa salvar o mundo do desmoronamento, outro que suas liberdades correm o risco de serem podadas antes mesmo de criarem raízes, e os dois se sentem perdedores. E se armam. Na minha busca por doçura, tenho ouvido muita música portuguesa, de quem sempre ouvi que desprezamos as raízes mas de quem herdamos o coração bom. Ouço a música deles e acredito.

Curtas do conhecimento

É outra coisa comprar verdura com o verdureiro do bairro, ao invés da gôndola fria e impessoal do supermercado. Agora eu sei que o coentro só pode ser colhido se na noite anterior não choveu, senão as folhinhas apodrecem. Que a mandioca boa só é colhida nos meses que não têm R – maio, junho, julho e agosto. Agora a mais impressionante: toda maçã que nós estamos comendo foram colhidas até maio. Eles congelam as maçãs meio verdes e ficam tirando do freezer o resto do ano.

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Admiro muito mulheres que estão sempre por dentro do seu ciclo menstrual e quando a data se aproxima estão prevenidas, até com absorvente na bolsa. Para mim, é sempre que vou ao banheiro e olho para a calcinha: “E esse sangue!? Será que eu estou doente, estou com hemorroidas, estou com câncer? Porque menstruação não pode ser, não deve fazer nem uma semana que acabou a última!”

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Deixei o youtube rodando MPB e apareceu este vídeo. Minha primeira reação foi achar que fiz uma grande descoberta e quis anunciar pra todos meus amigos. Depois me toquei que sou tão desatualizada musicalmente que o mais provável é que a moça já tenha tema na novela e participação no show da Ivete. De qualquer maneira, para mim foi uma descoberta. E sotaque português me derrete.

Homo sapiens

Nos primeiros ajuntamentos de Homo sapiens o material genético era distribuído sexualmente entre diversos parceiros, de maneira a gerar com comprometimento coletivo com a prole ou sempre houve um desejo exclusivo de proteger o seu próprio, por isso o atual predomínio da monogamia? Cada vez que esse tipo de questão é colocada, um historiador, um sociólogo ou qualquer estudioso da área de humanas sente um arrepio na nuca. Quando surge a proposta de fazer uma macro história, de tentar adivinhar os comportamentos do ancestrais que não deixaram escritos, é muito comum apelar por um biologicismo rasteiro, que pega o que convém de diversas espécies e com isso tenta justificar o que há de pior na humanidade. Harari corrige tal posicionamento em poucas palavras:

Os debates acalorados sobre o “estilo de vida natural” do Homo sapiens perdem de vista a questão principal. Desde a Revolução Cognitiva, não existe um único estilo de vida natural para os sapiens. Há apenas escolhas culturais, dentro de um conjunto assombroso de possibilidades. (Sapiens: uma breve história da humanidade)

Também pudera, Harari é historiador. E fala, nesta entrevista, de uma maneira tão simples do surgimento do seu primeiro best seller mundial (o já citado Sapiens) que nem fica parecendo que o livro é brilhante. Se você tem preconceito com best sellers, supere, porque de quando em quando eles têm razão de ser. Harari, para reconstruir a história da humanidade, encadeia fatos que a princípio não são novidade e com eles gera insights deslumbrantes. Por favor, consumam.