Preta-velha

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Eu via que a linha que mais fazia sucesso era da esquerda, com os Exus e Pombas-Giras. Tudo muito prático, muito claro – quero mais dinheiro, quero aquele homem pra mim. Como eu não ia atrás de nenhuma das duas coisas, eles não me davam muita bola e nem eu a eles. Já os Pretos-Velhos me tocavam bastante. As coisas que eles falavam soavam vagas, sempre em metáforas, e à primeira vista davam a impressão de ser uma pregação impessoal. Depois eu vi que não, que as palavras deles têm longo alcance.

Foi na época que eu estava brigando com a história da máquina de costura, um problema que durou meses. Eu ajoelhei na frente da Preta, fui benzida, ela me perguntou se eu estava bem. Eu disse que sim – meu humor sempre melhorava só de estar lá – e ela me olhou. Disse que feliz de quem no dia chuvoso adivinha o sol que tem atrás, de quem é capaz de olhar o céu cheio de nuvens e não esquecer das estrelas. E completou: “Isso tudo vai passar, mizinfia, só mais um pouco de paciência. Já está acabando”. Na hora eu achei que ela estava falando da minha máquina de costura – depois eu vi que era mais do que isso, era todo um ciclo doloroso que estava se encerrando. E se encerrou.

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Chorar porquê

Já passei da fase de querer chorar na sessão de hortifruti, quando comprar um pimentão, um cacho pequeno de bananas e umas três cebolas me deprimiam. Não que na minha casa se cozinhasse muito, mas não era tudo tão pouco, tão gritantemente solitário. Semanas atrás dei pra quase chorar na sessão de bolachas, ou sei lá que sessão é aquela. O supermercado onde eu vou começou a se expandir, e eles não fecharam pra fazer a transição. Então cada dia que eu vou lá, as coisas foram parar num lugar diferente. O padaria continua no fundo, mas os pães de forma ficam muitos corredores à esquerda. Naquele dia em especial eu havia percorrido vários corredores à procura de tudo e fiquei cansada. A cestinha já estava pesada, mas faltava comprar a bolacha. Eu ainda enfrentaria o caixa, a distribuição na sacola, a longa subida até minha casa. Eu rodava feito uma tonta, só gosto de uma marca específica de bolacha e… enfim, eu estava quase largando a cestinha no meio do corredor e cobrindo o rosto com as mãos, igual criança. Até que finalmente achei.

 

Não sei se hoje foi mais sério ou eu estava mais frágil e mais cansada, ainda mais que eu havia machucado as costas de manhã. Apesar de ter aula mais tarde e ter saído de casa pelo menos meia hora mais tarde, o Interbairros 2 me deixou esperando quarenta minutos no ponto, de novo. De onde eu concluo (alô, prefeitura!) que há um intervalo de horário de duas horas no final da tarde que aquela linha não funciona direito. Frio, de pé, costas doendo. Não há livro e horário adiantado que não consigam fazer quarenta minutos que são estendidos de dez em dez pelo marcador não parecerem longos. Meu pensamento quis me tirar dali e, em busca de um pouco de prazer, lembrou daquele beijo. Aquele que foi tão bom, que finalmente encaixou, que teve tanto calor e afeto que parecia que depois dali tudo deslancharia. Só que não apenas não deslanchou como foi o nosso último. Dessa vez não deu pra segurar e quando me vi a sós, caminhando nas ruas escuras, desatei a chorar. Minha desimportância bateu forte demais.

O adeus

Li uma vez um texto ótimo da Danuza Leão que ela diz que ex jamais deveria se recuperar de ter nos perdido. Que o bom é encontrá-lo cabisbaixo, triste, doido para voltar. Ele jamais deve casar; se casar, que mesmo assim deixe claro que foi apenas falta de opção, porque o eterno amor dele sempre fomos nós. Talvez a pior sensação do mundo seja pensar que somos dispensáveis. O legal é imaginar o lugar que deixamos sempre ficará vazio, de uma maneira respeitosa. O desejo de tudo dê errado na nossa ausência só não é maior do que a verdade por detrás dele: todos nós somos substituíveis, sempre. A nossa falta pode causar menos ou mais estranheza, ela pode durar um minuto ou um dia, mas o nosso lugar será preenchido e a vida continuará.

Eu me pego pensando no lugar da sala ou no papel que ocupava em cada coreografia e imagino nada acontecendo sem mim. Que as pessoas da minha mais recente ex-escola digam que sem mim não há a menor condição de dançarem, que era de mim que elas copiavam, que eu era a alegria da sala, que sem mim não dá. É claro que não vai acontecer. Mesmo se acontecesse, por melhor que fosse, seria rapidinho; na segunda vez já estaria todo mundo adaptado e fazendo o que deve fazer. Porque eles são ótimos e não dependem de mim para serem ótimos. Se antes riam das minhas brincadeiras, depois rirão de outras brincadeiras – de qualquer forma, minha ausência não tirará o riso e nem a dança de ninguém. Melhor assim. E que haja dança e riso no próximo lugar que eu for.

Agora acabou

Estar em cartaz é bom e é uma escravidão ao mesmo tempo. Eu, que nem acompanho a novela, já estava com saudades da Flora. Ainda não bateu a saudades ou o tesão de voltar para o palco – estou imensamente cansada. O que sinto é uma necessidade muito grande de dormir; de cuidar da pele que passou a estar seca depois de tanta maquiagem; de deixar os meus joelhos se recuperarem de tanto ajoelhar no palco impiedosamente duro; de lixar os pés depois de tanto girar descalça. Isso sem falar nas roupas sujas, na casa bagunçada, nos livros abandonados e várias bobagens que me fazem bem.

É, gente, 2008 já foi. E eu nem arrumei minha árvore.