O grande elefante

Normalmente eu saio mais feliz da aula de flamenco, e desta vez foi o contrário. Eu já não cheguei bem; aí assisti aula na turma anterior, que está aprendendo uma coreografia que eu adoro e dancei no ano passado. No processo de ensinar, parar e fazer devagar, ficou muito claro o quanto meu sapateado é sujo. Esse sempre foi meu maior problema, desde que comecei a dançar flamenco. Pessoas com menos tempo e menos nível de flamenco são capazes de ter um sapateado mais limpo do que o meu. Fiquei irritada comigo mesma de chegar numa aula em que deveria arrasar e estar cheia de dificuldades.

 

Por falar nisso, a Dúnia está fedendo tanto que parece que eu realmente tenho um cachorrão aqui em casa. Ela fede como um cachorro enorme e as semanas passam e eu nunca lembro de marcar o banho dela. Não tive mais tempo de sair com a Drogon, foi só o passei de chegar em casa. Estou preocupada com a minha falta de fôlego, com as marchas que eu não sei lidar (nos anos 80 as bicicletas não tinham todas essas frescuras) e com as muitas subidas pra chegar na minha casa. O segundo exame do DETRAN está chegando, duzentos e cinquenta paus jogados fora se eu não passar. Sabe o quanto eu teria que ralar pra conseguir duzentos e cinquenta paus? Tenho costurado sempre e parece que estou sempre aquém dos prazos. Sem dizer que as pessoas são muito bonitas e legais, desde que o dinheiro não entre na jogada. Algumas mesquinharias têm me irritado, embora não propriamente me surpreendido. Sem dizer que…
… que eu tenho que dizer para a minha imensa autocrítica que um decreto lei me proíbe qualquer cobrança esse período. Não posso mais do que já estou fazendo. Tenho cumprido tudo direitinho. Tenho sido legal, tenho me alimentado, tenho levado o cachorro pra passear, tenho acordado cedo, lavado louça. Não tenho lido e nem postado no blog, mas ninguém sente falta ou me paga pra isso. E tenho enfrentado tudo sem família e sem antidepressivo. Até a minha vida se estabilizar, até o grande elefante sair da sala, até a gigantesca mudança de vida terminar, todo o resto é supérfluo.
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Drogon

Eu tinha uma amiga que tinha um Herbie, e eu achava o cúmulo da falta de originalidade. A Suzi tem o Átila e eu demorei pra entender de onde tinha surgido o nome. Original ou não, sempre achei importante dar um nome, personalizar.

No início eu pensei na nave do filme 2001, Hal. Porque não era uma nave qualquer e porque havia pensado que levaria um modelo branco. Chegando lá, vi que pelo preço não era essas coisas todas, que tinha outras opções. A branca era cara porque era feminina e quem liga? Eu queria algo bom. E a melhor opção pelo mesmo preço era uma preta. Mais resistente, mais confortável, mais segura. Preta como um Bat Móvel. Pensei em usar Bat Móvel, mas… Não, quero algo mais significativo. Algo que expresse a força e a liberdade disso pra mim.

A partir de hoje serei mais uma ciclista pela cidade. Eu e minha bike Drogon.

Estatística

Não sei o quanto é consciente ou não, mas me parece que alguns se baseiam nas estatísticas para definir suas vidas. Onde a maioria tiver indo, é pra lá o caminho. A maioria dos homens prefere mulheres de cabelos compridos. Então terei cabelos compridos. Os homens preferem as loiras. Vamulá ser loira de cabelão. Magras peitudas? Bora fazer dieta radical, lipo e colocar silicone. Depois de ter a aparência que se deve ter, se comportar como deve se comportar, falar o que se espera que fale, a pessoa se sente segura. Ou, pelo menos, mais segura. Agora as pessoas olharão para ela e a acharão bonita. Ouvirão o que tem a dizer, e como é igual ao que todo mundo diz, acharão correto. Nada de chocar, o negócio é ficar igualzinho. Tudo estará certo, tudo estará nos eixos. A lógica é: se age como a maioria, será popular.

 

O que esse pessoal não sabe é que não precisa de maioria. Basta um ser humano. Um amor grande e profundo é capaz de preencher a alma pelo mundo inteiro.

Forças malévolas

Uma vez uma amiga me falou do poder da inveja. Ela morava em Curitiba mas era originária do nordeste, só ela morava aqui. Ela contou para a mãe que arranjou um ótimo emprego, depois de meses de procura. A mãe comentou o fato com uma ex-amiga de infância dessa minha amiga. Foi a tal da ex de infância saber das boas novas que a minha amiga caiu gravemente doente. “Nem todo mundo acredita, muita gente acha que é besteira, diria que é coincidência, mas não foi, foi a inveja.” Ela me contou isso sabendo que eu a desmentiria, que não sou dessas que procura argumentos científicos para tudo. O que eu omiti, se fosse para falar sinceramente, é que, mais do que inveja, tudo isso aconteceu porque ela dá um poder enorme ao que pensa e sente a tal da ex-amiga.
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Tenho uma teoria meio dura sobre ser uma fonte do mal. Existem aqueles sacanas por natureza, que escolhem fazer mal aos outros. Aquele que poderia ficar quieto no canto dele e opta por prejudicar os outros. Isso nem se discute. Mas existem os outros, todos nós, que nos achamos muito melhores do que somos. Que nem tomamos consciência dos nossos atos invejosos. Eu acredito que tudo aquilo que não foi trabalhado na gente nos torna maus. Tudo mesmo. Se você se acha feio, será fonte de maldade e inveja diante de todos aqueles que te parecem bonitos. Se não está feliz na profissão, se incomodará com todos aqueles felizes na profissão, e por aí vai. É humano, nós não conseguimos oferecer aquilo que sentimos que nos falta. É como querer que o chefe nos dê de mão beijada o cargo que ele sempre quis, que a amiga nos apresente ao seu amigo mais bonito quando ela mesma está encalhada, é como esperar que o que sempre teve resultados medíocres nos leve para o topo. Simplesmente não dá, é pedir demais.
Por isso que eu acho que pra tudo a gente tem que correr atrás, tem que tentar, tem que fazer com gosto. Pra não sair por aí espalhando o mal sem saber.

Saudades do Gonzaguinha

Sempre fui contra essas nostalgias, principalmente musicais, de dizer que está tudo se estragando, as novas gerações não sabem o que é bom, etc. O que a pessoa que diz isso espera que se faça? A música, as roupas, os costumes e a cultura estão sempre mudando; mesmo se quisessem, as novas gerações nada poderiam fazer para retomar o que de bom ficou no passado. Ao mesmo tempo, a gente percebe de maneira definitiva que está envelhecendo quando se torna uma testemunha de algo que não está mais lá. Gonzaguinha faz com que eu me sinta assim, num restinho dos 70 e infância anos 80, uma época de dores e alegrias particulares.

Na faculdade, um professor explicou a visão da Escola de Frankfurt sobre a perda da aura musical que a reprodutibilidade técnica nos faz ter. Se ouvir um arquivo de música clássica era tão pobre, perguntei, se eu pegasse um pianista, uma partitura, um instrumento afinado tal como na época e ele tocasse para mim, adiantaria? Não, porque eu não tenho mais a cultura, a sensibilidade necessária. Na hora isso me pareceu muito radical, mas quando vejo sinfonias e suas complicadas sutilezas musicais que duram mais de meia hora, penso que aquilo realmente não foi feito para pessoas com o tempo contado, incapazes de pararem quietas, que fazem várias coisas ao mesmo tempo. Um exemplo mais simples: num DVD do Nat King Cole que a Luciana me mandou, percebi muitas referências ao verão, ao sol, do quanto é bom quando o tempo fica ensolarado e podemos ir ao parque, à praia, fazer piquenique. Naquela época, sem ar condicionado, carros e shoppings em profusão, as pessoas ficavam muito mais à mercê das condições climáticas. Então após meses de inverno, enfurnados em casa, deveria ser mesmo bom sair ao sol. Por falar em condições climáticas, uma vez uma coletânea da Jovem Guarda me fez perguntar à minha mãe: “Era comum na sua época as pessoas aproveitarem que está chovendo pra começar a chorar?”
Voltando ao Gonzaguinha: hoje não temos mais cultura pra ter um Gonzaguinha. Pra começar, ele era feio. Saudades disso, da possibilidade de ter um ídolo que nos parece feio à primeira vista. Um homem que aprendemos a olhar com calma, ouvir a sua voz e aí sim descobri-lo bonito, interessante. É no que Gonzaguinha tem de tão comum que o faz especial, na sua maneira de parecer tão próximo, tão amigo nosso. Ele não era o mais bonito, o mais sexy, não tinha uma voz poderosa e nem as composições mais intrincadas. São letras bonitas, intimistas. Suas músicas falam muito de otimismo, de pé na estrada e de amizade, de ver no outro um companheiro de luta – três coisas tão, mas tão fora de moda! Era uma outra época, uma época de grande violência mas também de esperança. Essa segunda parte a gente perdeu.

Gonzaguinha também era muito sensível às mulheres. De Frenéticas a Bethânia, quantas composições suas não ficaram inesquecíveis nas vozes femininas. Em primeira pessoa, ele coloca a mulher tão plena de histórias quanto os homens; como um homem que ama uma mulher, ele é apaixonado e desejoso sem ser vulgar. A mulher que Gonzaguinha ama nas suas músicas não é aquela que foi duro de conquistar, porque era a mais gostosa; também não era mais uma no meio de tantas que ele pegou e pegaria. A mulher das suas músicas tem cheiro, textura e uma vontade de estar próximo, de demonstrar de maneira física o que sente por ela. Aí ele compara com o sexo com mamão e mel, que me faz lembrar: na década de 80, e suponho que em várias décadas anteriores, a gente sentava na varanda pra comer fruta. Não porque é preciso comer frutas pra ser saudável ou pra regular o intestino, a gente comia fruta porque era bom. 

Há quanto tempo não sento com um prato de frutas no colo, descasco calmamente e como. Mudamos todos, mudamos muito, desde que Gonzaguinha nos deixou.

Caminhante

Eu havia saído cedo de casa, e cheguei até mesmo a segurar o guarda-chuva nas mãos. Mas no dia anterior a temperatura havia caído cerca de dez graus, o que me fez voltar para casa batendo os dentes de frio. Pela lógica – lógica do otimismo, claro – achei que a temperatura não cairia absurdamente e choveria ao mesmo tempo. Então, saí apenas agasalhada. Quando voltava no meio da manhã, a chuva forte me pegou desde a saída do ônibus.

 

Parei na padaria que tem no meio do caminho. Naquela padaria eu almoço, eu combino café com amigos, eu compro guloseimas, faço de tudo um pouco, a única coisa que eu não gosto de fazer lá é comprar pão. Todos os funcionários me conhecem de vista e eu a eles. Tenho inclusive acompanhado o engordamento sem fim da gerente, que quando chegou era magrinha e já subiu uns três números no manequim. Nas caixas há mais rotatividade, e tem uma que me chama atenção por ter um ar inteligente. Foi essa caixa, a inteligente, que me atendeu naquele dia.

(caixa) Oi, tudo bem?
(eu) Tudo. Fora o frio e a chuva, tudo bem.

(caixa) É, pra alguém como você que gosta muito de andar, deve ser ruim mesmo.

 

Apesar de não ter demonstrado, eu levei um susto. De onde ela sabia que eu gostava de andar? Se ela tivesse usado o termo “caminhante”, já atribuiria ao blog. Não era por estar sempre lá, porque eles sabiam que eu morava por perto. Ela me disse isso com um olhar significativo, de quem sabe que isso gera a pergunta inevitável:

– Como é que você sabe?

Aí ela me contaria, vitoriosa, que me viu andando sei lá aonde. Pensei num trajeto específico bem longo que faço umas três vezes por semana. Em alguma daquelas janelas, dentre tantos prédios, estaria ela, me observando? Eu queria saber. Poderia ter sido outra pessoa, qualquer um dos outros funcionários, que me viu e contou. Mas como e por que os funcionários conversariam a meu respeito? E se o fazem, eu sou conhecida como: “aquela que vem sempre aqui”, “aquela que conversa com todo mundo”, “a que compra todo nosso estoque de queijo minas”?

 

Uma vez os Thundercats pegaram alguma coisa do Mun-ra e impuseram umas condições para que eles tivessem a tal coisa de volta. Todos pensaram que ou Mun-ra aceitaria os termos – o que seria improvável, pois um vilão tem um nome a ser preservado – ou tentaria atacá-los. Um dos vilões pergunta a Mun-ra qual das duas coisas eles fariam. Ele respondeu: “Nunca faça o que seus inimigos esperam” – e mandou um falso emissário, pra aí sim fazer o ataque, de surpresa.

Eu não tenho (acho) inimigos, mas tal como Mun-ra, não gosto de fazer o que os outros esperam. Por isso não perguntei. Eu disse que realmente, para quem anda muito, quando está chovendo é foda.

Agora ficamos eu e todos para quem contei essa história na curiosidade. Pensei em perguntar quando finalmente reencontrasse a moça, o que aconteceu quando voltei na padaria menos de vinte e quatro horas depois. Ela me atendeu sem me dar bola. Acho que ficou irritada com a isca que eu não mordi. Paciência.

Pensem nas crianças

Na minha infância, nos anos 80, o maior símbolo de miséria, a condição absoluta de falta, eram as imagens das crianças africanas. Elas nos olhavam naquelas fotos com olhos imensos e ossos saltados. Procurei fotos dessas pra ilustrar o post e nem consegui selecionar, é realmente muito chocante. Quando eu, criança, fazia alguma birra, achava ruim não ter alguma coisa ou reclamava da comida, minha mãe me jogava na cara as crianças africanas – Você reclamando que não gosta do feijão, enquanto as crianças da África…. Eu ficava louca da vida, claro. Nada a ver apelar para crianças da África, tão distantes de mim e do meu feijão.

Não sei se é efeito tardio do que a minha mãe queria fazer ou se é algo próprio da maturidade, mas eu agora eu penso nelas. Penso nas circunstâncias totalmente aleatórias que fazem uns terem tudo e outros não terem nada, de uns voltarem tranquilos para casa e outros não. Quando meus sofrimentos me parecem demais, quando parece que sou a criatura que mais sofre na Terra, eu vejo jornal e penso naqueles que tem problemas muito maiores. Penso nos que perderam tudo, penso nas vítimas de violência, penso nos problemas sem solução. E digo: pára de sofrer com besteira, sua ingrata.

Acordo

Fiz comigo um acordo, que chamo de Acordo Forrest Gump, embora eu não pretenda correr. Se um dia a solidão bater de forma violenta e eu não tiver ninguém pra apelar – as pessoas têm suas vidas, dependendo do dia, horário e frequência, simplesmente não dá -, eu vou sair andando. Andarei horas seguidas, cruzarei a cidade a pé se for preciso. Posso seguir uma linha de ônibus e ir, posso decidir tomar um café lá naquela padaria distante. Nem que eu só volte pra dormir e não consiga pensar em nada por estar exausta. O importante é não ficar trancada em casa.

Samantha

Uns amigos do meu pai compraram um terreno grande, dividiram em quatro e fizeram um condomínio. Até hoje minha família tem laços por ali. Meu pai não entrou por pouco, e minha mãe deu graças a Deus. Vivíamos por ali. Um desses amigos tinha duas filhas, e a Samantha era da minha idade. Como meus pais ainda estavam casados, eu tinha por volta de cinco anos. Nessa fase, é muito raro as crianças não se darem bem e eu e a Samantha passamos aquele dia inteiro juntas, lembro que quando fui embora já estava escuro.
Não sei o que levou à conversa, mas a Samantha ficou sabendo que eu tinha medo de sapo. O tal condomínio era cercado de mato, então eles tinham muito mais contato com a natureza e seus bichos do que eu estava acostumada. Ela começou a me contar de muitos eventos envolvendo sapos: de como sua mãe foi tomar banho e tinha um sapo no boxe, de sair do quarto de manhã e encontrar um sapo, de ter sapos na cozinha. Eu ouvia tudo com um terror crescente. Aí antes de entrar no carro, depois de um dia inteiro juntos, a Samantha me disse, rindo, que todas aquelas histórias sobre sapo eram mentira. Ela não resistiu às minhas caras de medo ou nojo e passou a tarde inteira inventando histórias.
É, as histórias eram exageradas, mas eu simplesmente não pensei em colocar em dúvida. Até então, eu jamais podia imaginar que alguém pudesse contar mentiras pelo simples prazer de contar. Fiquei feliz quando seus pais se separaram e foram embora pra nunca mais voltar.

Outra noite

Eu estava voltando pra casa, pra lá de dez da noite. Saí do ônibus pela frente, passei pelo prédio perto do ponto e vi poucas luzes acesas. Passei por um cara numa moto dessas bonitas. Segui em frente, e os prédios chiques tinham carros chiques chegando. O pessoal da padaria tinha fechado há pouco, e atravessamos – eu indo e eles vindo – correndo o sinal que estava para abrir. O lugar que vende água estava fechado; em compensação, o vizinho do lado trabalhava na varanda, algo que parecia marcenaria. Adolescentes passaram rindo pela rua. O pessoal do espetinho, agora como sempre, estava vendendo os espetinhos escondidos, pra dentro do portão. Acho que desistiram da clientela da rua. 

Em meio a isso, eu descia a rua com o passo apertado, mas não tão apertado. O passo de quem estava voltando para casa à noite. Em um certo momento eu respirei, e percebi que estava relaxada. Não era mais o passo de quem estava tranquila apesar de ser de noite, apesar de tudo o que está acontecendo. Era o passo de quem andava por um caminho conhecido, um passo de quem vive aquilo lá e é isso. Não há um modo diferente ou melhor. Eu adoro andar e naquele momento sentia o prazer de andar que sempre sinto quando estou sem pressa.

Tudo vai acabar bem.

Das escolhas que a gente faz quando não faz

Ainda tenho muitos amigos professores, mestrandos, ou ligados à vida acadêmica de alguma forma. E quando eles postam fotos sentadinhos em palestras, sentimentos antigos vêm à tona. Tédio. Bunda doendo. Olhar para a pessoa que fala desejando estar em outro lugar. Claro que não foi sempre assim, claro que ao longo da minha vida me interessei e assisti palestras interessantes. Mas é esse o sentimento que ficou. Olho pras fotos e me sinto aliviada, como quem lembra de um karma que já pagou.

 

Às vezes eu olho pra minha vida e penso que escolhi tudo, que sou responsável por estar onde e como estou. Outras vezes me parece que cheguei aqui levada pela maré. É um pouco das duas coisas. Acho que tem momento na vida que falamos – É isso! e vamos naquela direção. Em outros, escolhemos sem escolher. Não sabemos pra onde vamos, até nem sabemos que existe outro lugar e que gostaríamos de ir pra lá. Aí nos tornamos meio moles, meio sem comprometimento… é aquela vontade de ser demitido porque não temos coragem de nos demitir.

 

Quando estava tudo certo pra eu entrar no doutorado, eu voltei a frequentar o grupo de estudos. Voltei a sentar nas cadeiras. Meu tédio era profundo. Sentava naquela cadeira alta, que me deixava na ponta dos pés e as horas se arrastavam. Eu olhava para aquelas pessoas como se estivesse atrás de um vidro, seus lábios se mexiam em câmera lenta, dizendo coisas sem importância. Eu não tinha a menor vontade de estar ali, mas achava que precisava. Tinha escrito um projeto muito bom, cujo tema me daria prazer de escrever até hoje. Queria ganhar uma bolsa de estudos e quem sabe escrever outro livro. Só que pra chegar lá, precisava estar nas reuniões, precisava fingir que me importava. As reuniões começaram como um grupo de estudos, e nessa época era interessante. Até que o grupo começou a organizar uma Jornada por ano, e isso tem tantos detalhes tudo passou a se limitar ao evento. Um dos membros até se queixou disso, e foi prontamente desqualificado. A verdade é que poucos se importavam com a mudança, porque fazer parte da organização de um evento científico enriquece muito o currículo.

 

Faltavam algumas semanas para a Jornada e decidiram que era preciso fazer um texto, que colocaria no papel o posicionamento do grupo e a ligação de todos os temas que seriam tratados. Seria algo chato e difícil de escrever, levaria várias tardes e não teria a assinatura do autor. Um a um, em fila, todos foram pulando fora. Quando chegou em mim, aleguei que não teria tempo de escrever porque estava estudando para a prova teórica do doutorado, que seria dali poucas semanas. Meu orientador não gostou nem um pouco, mas não insistiu. Os motivos que o levaram a não me aprovar no doutorado serão para sempre um mistério, ele nem ao menos assume que não me aprovou; no entanto, eu sei que a minha recusa em aceitar escrever aquele artigo deve ter pesado na decisão.

 

Por que eu não fui, apesar de saber que pegaria muito mal? No momento, achei que foi preguiça. Mil vezes ficar em casa sem fazer nada do que ir pra universidade escrever um artigo chato pra um evento que eu nem gostaria de estar. Hoje vejo que foi um boicote inconsciente, uma forma de escolher sem escolher. Quando você tem prazer no que está fazendo, quando está no caminho certo, não tem essa de preguiça. Você faz o que é preciso, vira noites, desmarca compromissos, olha para trás e fica impressionada com o que fez. Estar lá, na reunião, já era esforço demais. Que bom que eu tanto não fiz que acabei indo embora.