Luta diária

Com exceção dos dias chuvosos, sempre levamos a Dúnia pra passear. Antes eu chegava em casa mais ou menos no horário do almoço e ela se acostumou a passear quando eu chego em casa. Vi uma vez a recomendação de não passear com o cachorro no horário mais quente do dia, porque eles podem queimar as patinhas no asfalto. Meus horários mudaram e já tentei reacostumá-la a passear no final da tarde. Mas é inútil. Se passeio com ela cedo, mais tarde ela “esquece” que passeou e fica chorando pra passear de novo. Se tento passear mais tarde, lá por umas duas horas ela começa uma choradeira sem fim, que não termina enquanto não saímos. À medida que o horário do passeio se aproxima, eu não posso passar nem pela cozinha direito sem que ela se coloque à postos e/ou chore. Depois de tantos anos, acho que a Dúnia tem convicção de que é ela quem nos obriga a passear, tudo na base do choro.

O Luiz vê essas coisas e diz que a Dúnia teve a quem puxar. Porque eu sou naturalmente ansiosa, e não deixo de me identificar com esse dramalhão que ela faz. Acho que, do mesmo modo que ela, às vezes inverto causa e efeito, e me acho grande causadora de várias coisas, sendo que na verdade elas é que chegaram até mim. Me debato inutilmente, como se isso fizesse chegar mais rápido ou que posso interferir. Ou me angustio pelo que chegará de qualquer maneira.
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O que seria

Era pra eu estar fazendo doutorado agora. Foi a publicação da minha dissertação que me reaproximou do meu ex-orientador. Levei um exemplar de presente pra ele e outro pro departamento, que seria usado na avaliação do curso pela CAPES. Meu ex-orientador, que durante dois anos me pediu para entrar no doutorado, se mostrou aberto quando eu falei que pretendia voltar pra sociologia. Voltei a frequentar o grupo de estudos, escrevi um projeto muito bom, ajudei a organizar evento, mandei material para congresso, passei o ano inteiro estudando. Nas nossas conversas, ele me perguntava se estava atenta aos prazos, me dizia que desta vez eu teria bolsa e me disse pra já ir pensando que país eu iria para o meu doutorado-sanduíche. Eu já havia escolhido Espanha, porque é a única língua que eu falo e pra ir pra Sevilla, o berço do flamenco.

Só que quando chegou a hora de oficializar tudo, fui descartada. Normalmente, os alunos de doutorado precisam apenas da aprovação do seu futuro orientador. Como o curso teve uns problemas legais que não é o caso de contar, a seleção de doutorado passou a ter várias etapas, todas eliminatórias, semelhantes a outros concursos. E foi na primeira etapa, de avaliação do projeto, que eu não passei. Algo totalmente impensável pra quem já havia mostrado o projeto e tido o aval do professor há mais de seis meses. É como ser convidado pra trabalhar um lugar pelo dono da empresa e ser barrado pelo departamento de RH – é absurdo, não acontece. Ou seja, por algum motivo que eu nunca saberei qual é, meu ex-orientador decidiu voltar atrás depois de um ano de promessas.

Tudo o que eu havia planejado para os próximos cinco anos, e talvez até mais, não aconteceu. É provável, também, que esse seja o fim prematuro da minha carreira acadêmica – que eu já não amava, mas que não teria coragem de deixar.

I see psychiatric people

Na época que eu fazia estágio numa clínica psiquiátrica, começava a ver pacientes psiquiátricos por toda parte. Alguns pacientes não ficavam internados ou tinham alta, e eu os via por aí, nas ruas, nos restaurantes, nas filas. Na clínica, eles costumavam nos alertar sobre pacientes que tendências pedófilas ou sexualmente violentas. Lembro de um desses pacientes caminhando calmamente pelo centro e me deu uma certa vontade de avisar, um medo. Esse anonimato, na realidade, é algo positivo para eles. Não vivemos mais a época de estigmatizar na pele ou nas roupas um erro cometido no passado. Mas não eram apenas esses pacientes que eu via, eu enxergava nas pessoas comuns trejeitos e histórias que me lembravam muito alguns pacientes, e me perguntava se elas eram psiquiátricas também.

Continuo vendo comportamentos psiquiátricos all the time and everywhere. Pra mim, o que os caracteriza é a desproporção. Alguém briga comigo e fico enfurecida durante alguns dias. Xingo, penso em vingança, quem sabe até faça alguma coisa. Aí a vida coloca outras coisas no caminho e acabo esquecendo. Ou alguém sorri pra mim e parece estar interessado. Concluo que se sentiu atraído, que quer me conhecer e quem sabe num futuro dê em alguma coisa. Esses são os comportamentos proporcionais. Os que me chamam atenção e me fazem ver psychiatric people são os que demonstram um apego exagerado às próprias fantasias, que levam a reações igualmente exageradas às frustrações: ser colocado numa lista negra, por meses ou anos a fio, depois de ter contrariado alguém; fantasiar que o outro vai largar emprego, cônjuge e filhos pra se casar com você e ir viver em Acapulco depois de um sorriso. E por aí vai.

Pense bem, você conhece psychiatric people.

Encontro fugaz

Era um dia sem nada especial. Estava voltando tranquilamente para casa. No meu caminho, há uma via rápida sem sinalização. Só é possível passar lá porque tem uma lombada por perto. Quando cheguei, a rua estava praticamente vazia. O único carro que passava era um velho, que andava devagar, cheio de coisas dentro. Ele diminuiu ainda mais a velocidade pra passar na lombada, e eu atravessei calmamente porque ainda dava tempo. Eis que do nada surgiu um carrão, desses utilitários. Ele veio a toda, e pra desviar do carro que vinha lento, veio pra cima de mim e ficou muito perto de me atropelar. Eu olhei para a motorista e ergui os ombros, indignada. Aí essa mulher olhou bem para a minha cara e me imitou. Ela ergueu os ombros também e fez umas caretas horríveis, como se estivese fosse eu me queixando. De tranquila passei a louca da vida num instante. Se tivesse algum sinal por perto, alguma parada, alguma maneira, eu teria moído aquela criatura. Teria riscado o carro, partido pra briga, jogado uma pedra, feito qualquer coisa. Porque era o cúmulo quase ter sido atropelada e ainda assistir aquilo.

Mas eu estava de pedestre e ela em alta velocidade, então não pude fazer nada. Minha vingança é ter certeza de que a criatura bebe muito suco cuspido por aí.

Passou

As redes sociais insistem em nos indicar possíveis amigos, e o resultado geralmente é desastroso. Geralmente conhecemos até demais aquelas pessoas – e gostariamos de esquecer que elas existem. Só deixei de achar essas indicações ruins quando vi, no Facebook, o rosto e o nome de uma moça que não me eram estranhos. Entrei no perfil e era uma bailarina que fez a mesma faculdade que eu. Percebi que ela continua linda, bailarina e adorável, como sempre foi. Com muita frequencia, ela era maravilhosa demais pra minha auto-estima. Só que o tempo passou. Ela está longe, eu conheci outras pessoas e tenho outros planos. Foi ótimo perceber que algumas coisas perdem importância, só porque o tempo passou.

Curtas de pós-viagem

* Ah, Cataratas! Só elas já valeriam uma visita à Foz do Iguaçu. No roteiro personalizado que farei na próxima vez que for para lá, dedicarei mais tempo a elas – quero andar pela passarela de novo, fazer o Macuco e o lado argentino. Ir lá no meio, aquela chuva, todos correndo inutilmente pra se proteger e eufóricos – chega a ser uma experiência espiritual.

* Por falar em experiência espiritual, foi espiritualmente brochante conhecer o Mosteiro Budista. Não tinha um banquinho, uma vivalma pra dizer o que cada uma daquelas estátuas significava e quem nos atendeu foi um chinês de péssimo humor e que soltava grunhidos. Como se aquilo existisse só pra constar, pra não dizerem que eles têm um terreno enorme e não dão nenhum retorno à sociedade.

* Ser turista é ser explorado, saber que está sendo explorado e não poder fazer nada para evitar. Foi a mesma sensação de quando fui ao Rio de Janeiro: todo mundo lá era ixperto menos você. Cada um tem a sua versão de quanto é taxa, do quê é obrigatório, de qual a distância e qual a comissão. No fim, a gente conclui que todo mundo está tirando vantagem.

* Em Foz, só não tem relógio e óculos quem não quer. Nem precisava ter ido no Paraguai, tem vendendo em todos lugares por preços tão amigos quanto.

* Quem não come carne está condenado a passar muito mal em viagens. Tudo tinha carne, tudo era fritura. Não sei quanto a vocês, mas ver ovos mexidos, pizza e cachorro-quente logo de manhã me dá enjôo. Num guento mais ver sanduíche natural na minha frente. Teria dado um rim por um Mac Donalds amigo mas não achei. Pagamos 25 reais por pessoa, no Paraguai, só pra comer um arroz com feijão (sem caldo) e purê de batatas.

* Levar pouca bagagem é bom pra colocar mais coisas dentro delas depois e por nem precisar despachar. Mas o estado que a gente fica durante a viagem é meio decadente. São dias se vestindo para ser prático, pra andar em qualquer lugar e passar o dia inteiro fora. Ou seja, dias sem se preocupar em ficar bonito. Cheguei em casa morrendo de saudades da minha pinça e de me arrumar antes de sair.

Foz

Nunca tinha feito uma excursão e não fazia idéia do quanto é cansativo. Acordar cedo, comer, entrar no ônibus, ver, ouvir, comer qualquer coisa, andar mais, voltar pro ônibus, chegar se arrastando no hotel. Aí você percebe que não é mais jovem, que não consegue sair da rotina sem consequencias – faço blé pra mesa generosa no café da manhã porque não costumo comer de manhã. Ficar na base do sanduíche, além de me deixar mal, fez com que brotassem alergias que eu nem sabia que tinha. Mas é férias, faz sol lá fora (chupa, Curitiba!), e estou de passeio.

No mais, recomendo tudo – Foz, Paraguai, Itaipu e excursão. Fora estar lá, não temos mais nenhuma preocupação. A usina é mesmo incrível, a guia é divertida e fui tão preparada pro inferno na terra em Cidade de Leste que nem achei tão ruim assim. Comprei óculos escuros por dez reais e relógios a vinte (eeeeee!), todos para consumo próprio. Hoje é dia de Cataratas e, se tivermos disposição, pretendemos conhecer um mosteiro budista. Amanhã acaba e volto a ficar na internet o dia inteiro e plantar morangos no The Sims. E lá vou eu porque meu hotel é o primeiro da lista, até!

Grand jeté

O grand jeté é um dos símbolos do ballet. Ao ver a imagem de uma pessoa voando assim, pensamos no ballet e das coisas impossíveis que só os bailarinos são capazes de fazer. Dá a impressão de que há cabos escondidos em algum lugar. É difícil imaginar o que leva um ser humano, antes igual aos outros, se tornar capaz de saltar daquele jeito.

Imaginem, então, o meu susto, quando no meu primeiro dia de aula de ballet a professora nos pediu para dar um grand jeté. Ou melhor, vários, atravessar a sala com grand jetés. Eu e as outras meninas nos olhamos com cara de cuma?, mas era isso mesmo. Ela disse que o princípio era o mesmo de saltar uma poça d´água. Que deveríamos tentar saltar o mais longe e alto possível. Pra facilitar (ou não), ela espalhou vários objetos no chão e tínhamos que saltá-los. Esse foi um dos momentos “onde é que eu fui amarrar meu burro” da minha vida. Foi o ponto alto de um desconforto que iniciou com a própria preparação pra fazer ballet. Quando fui comprar meu collant – do modelo e marca mais simples o possível, pro prejuízo não ser grande caso eu não ficasse – a vendedora me perguntou se era pra minha filha. Meio uma criança, mais precisamente como um bebê gigante, que eu me sentia cada vez que vestia aquilo. Minhas colegas de ballet eram adolescentes e a própria professora daquela turma mal tinha saído da adolescência – fato que me acompanharia em quase todas as turmas que frequentei.

O salto em si foi… chinfrim. A perna não abriu muito, não saltei alto e a vontade de fazer direito me fez contrair os ombros e ficar com os braços duros. Saltei com a mesma graça e leveza que você saltaria aí na sua casa. De grand jeté ficou a intenção. Para coroar meus esforços da pior maneira, fui a única que ficar no final da aula pra ver se conseguia saltar com a perna esquerda pra frente. Simplesmente não ia, meu corpo não “saltava poça” com a esquerda no comando.

Essa foi a primeira de uma série de vergonhas que eu passei (e ainda passo) desde que decidi dançar. Quando parava de passar vergonha numa turma, sinal de que já estava na hora de ir pra uma mais adiantada, pra passar outras vergonhas, vergonhas mais difíceis e sofisticadas. O corpo aprende mais devagar do que a cabeça; é preciso repetir até ele entender. E repetir começa com o tentar. Juro que já vi professor contendo o riso depois de eu ter feito algo especialmente desajeitado. Assim como eu reparo no que os outros fazem e comento, é claro que reparam e falam de mim também. Todo mundo nota, mas todo mundo também foi ridículo quando começou. Existe um respeito por todos que tentam com sinceridade. Foi no ballet que eu aprendi que não há nenhum problema em errar, em passar vergonha ou em repetir milhões de vezes. A única coisa imperdoável é desistir de lutar.

Não me conte seus problemas!

Não sei se é só na Bahia ou se em todo nordeste que existe a expressão “não me conte seus problemas!”. E ela é usada dessa maneira mesmo que você está pensando. Alguém chega perto, começa a se queixar da vida e você diz sem a menor cerimônia: “Fulano, não me conte seus problemas!”. Eu adoraria que essa expressão existisse aqui também, embora fosse pouco provável que tivesse coragem de usar. Talvez justamente por isso eu seja depositária de muitos segredos e confidências que eu adoraria não ouvir. Estou quieta no meu canto e PAF!, a confidência cai no meu colo. Parece que o segredo pra ser um confidente é não ter a menor vontade disso.

Já o meu irmão que mora em Salvador não tem o menor problema com isso. Ele não tem o menor pudor em falar na lata qualquer coisa que o incomode. Talvez por ser muito decidido, ele odeia queixas e não tem a menor paciência com coitadinhos. Acho que isso é muito claro para qualquer um que o conheça. E mesmo assim, alguns masoquistas insistem em se queixar com ele. Adivinhem quem o amigo que não passou no vestibular pelo quarto ano consecutivo foi procurar? Assim que abriu a boca para se lamentar, meu irmão soltou um vibrante:

– TETRACAMPEÃO, TETRACAMPEÃO!

Olha que nem existia ainda o video “É tetra“.

Sinceramente

Quem está de fora, no máximo como aluno, não sabe o quanto e como trabalham os professores das universidades federais. Eles não são meros executores de aula; basta ver que seu salário não se baseia em horas de aula, como ocorre na maioria das faculdades particulares. Eles representam linhas de pesquisa, e como tal, precisam de visibilidade. Por isso eles estão sempre comprometidos em comissões científicas, eventos, defesas, grupos. É um esforço pra se manter sempre por cima que eu só vim a perceber quando fiz parte de um grupo de pesquisa. Nele, a figura do meu orientador era como um sol, onde todos os outros giravam em torno e dali procuravam extrair um pouco da sua luz. E se tornarem sóis também.

Entrei no grupo única e exclusivamente porque fui obrigada, porque meu orientador não marcava horário comigo. Ele me dizia “Falaremos disso no fim da reunião”, e lá ia eu sem desculpas para faltar. Por um motivo que eu não entendia na época, eu não tinha saco pra qualquer evento acadêmico. Apesar de ficar o mais quieta possível, por ser a única com diploma na área e estar fazendo um bom trabalho, meu nome começou a ser cotado e gerar ciúmes. Muito especialmente de uma psicóloga. Ela era o braço direito do meu orientador e aluna dele há uns dez anos. Ela não se cansava de se sentar na minha frente, de me olhar com desprezo, de só se referir a mim se fosse para desmerecer algo que eu disse ou até mesmo o que eu não disse. Ela estava muito comprometida (meu orientador já estava em idade para se aposentar) e não ia ceder seu espaço a uma fedelha.

Eu deixei o grupo de estudos duas vezes, sendo que a segunda foi definitiva. Porque aquilo não era importante pra mim. Mas ela nunca percebeu. Cada um dos meus gestos era visto por ela como um movimento estratégico; como se até nas minhas recusas eu estivesse me fazendo de importante. É muito estranho alguém entrar em guerra com você sem você estar em guerra com ele. Minha vontade sempre foi a de chegar pra ela e dizer “Fulana, eu não sou tua concorrente. Pode ficar com o grupo, com qualquer coisa, com tudo. Eu não ligo, sinceramente”. Pensei mesmo em dizer. Nunca o fiz porque tenho certeza de que não apenas não adiantaria como poderia ser ainda pior. Ela procuraria sentidos ocultos no que eu disse, e concluiria qualquer coisa menos que aquilo era verdade. Sinto isso com relação a ela e a outros que travam guerras imaginárias: essas pessoas lidam com fantasmas, não é a mim que elas combatem.

Momento coruja

Esse espetáculo, apresentado no Guairinha, foi organizado às pressas. Duas ex-integrantes da Compañia Aire Flamenco, que agora vivem na Espanha, estavam em Curitiba. Então a Cris tentou arranjar um teatro e no espaço de uma semana tudo foi arranjado. O cajonero veio e foi correndo, o outro guitarrista conheceu os bailaores em cima da hora, coreografias e solos foram repassados. Eu participei, como assistente de palco. Fui daquelas pessoas que ninguém viu, mas que ajudou fazendo coisas tão chatas quanto essencias: fiz marcação de palco, coloquei cadeiras, falei com iluminador, ajudei na troca de roupas roupas, etc. Quando as luzes se acenderam e as pessoas foram cumprimentar os bailarores, juntei minhas coisinhas e fui pra casa. Estava no teatro há quase dez horas e muito cansada.

Vi esse video inúmeras vezes. Muitas coisas são novidades pra mim, que vi o que pude da coxia esquerda. Lindo, né? Eu ainda preciso de muito feijão com… de muita paella pra chegar lá.

Imagem

Uma vez, há muitos anos, lançaram (mais) um livro que prometia desencalhar as mulheres. As regras eram polêmicas por serem bem ao contrário do que fazemos quando estamos desesperadas: termine você a conversa por telefone, não aceite o convite de um homem que te ligue com menos de dois dias de antecedência. Eram regras que se destinavam a filtrar aqueles que nos vêem apenas como diversão. A sugestão que o livro dava que eu realmente gostei, era na verdade algo impraticável: pedir pra uma amiga entrar em contato com os nossos ex e perguntar pra eles o porquê não deu certo. De posse dessas informações, ela nos daria tudo em forma de dossiê, sem citar nomes. Isso serviria para fazer uma auto-crítica e descobrir onde mudar.

Essa idéia me parece impraticável porque duvido que esses homens realmente falassem a verdade. Acho que eles não confiariam na tal amiga; eles não diriam com sinceridade que terminaram porque a outra mastiga chicletes de boca aberta ou é burra. Se dissessem, não sei se a amiga teria coragem de dizer – a não ser que se arranjasse uma amiga sádica (e meio inimiga) pra fazer o serviço. O que é gosto é da idéia, ainda que ilusória, de saber o que as pessoas realmente pensam a nosso respeito. Existe algo a meu e ao teu respeito, algo que é muito claro para qualquer um que entre em contato conosco. E esse algo não necessariamente é o que imaginamos. Acredito que as pessoas tenham nenhum ou pouquíssimo controle sobre a imagem que projetam. Já vi quem se ache representante da cultura e na verdade é considerado arrogante; ou quem ignore o poder que tem sobre os outros. E coisas totalmente inesperadas, da pessoa achar que chama atenção por seu profissionalismo e na verdade é um ser de emoções à flor da pele. Talvez a verdade nos desse o mesmo estranhamento de ouvir a própria voz gravada. O amigo não contará a verdade por se preocupar em ser favorável e gentil; o inimigo, por querer ferir. É como se estivéssemos condenados a jamais saber algo que está escrito na nossa testa.

O público

No segundo grau, numa aula de interpretação de texto, tive que escrever sobre Nos bailes da vida. Frente à pergunta “Todo artista tem que ir aonde o povo está? Por quê?”, fui a única que disse: “Não, isso é uma opção pessoal do artista”. Nunca imaginei que colocaria em prática essa resposta e descobriria que Milton Nascimento estava certo desde o início.

Eu gostava de desenhar, mas não achava meu traço tão bom assim e a coisa não foi adiante. Já sonhei em ser jornalista porque adorava escrever, mas minhas histórias não resistiram à auto-crítica que crescia junto comigo e parei quando me tornei adolescente. Quis fazer teatro e minha mãe me impediu (cortou o dinheiro do ônibus) com medo da “promiscuidade do meio artístico”. Amava piano e toquei durante alguns anos, mas era um amor pouco correspondido. Minha mais séria tentativa foi a de virar escultora. Conscientemente, eu sabia que devia mostrar o meu trabalho. Mas tinha muita dificuldade em falar e mostrar, até mesmo para os amigos. Era quase como revelar um segredo. Eu pensava que o ideal seria como nos filmes, que o artista de verdade está preso ou num manicômio, e alguém se apresentasse mostrando o que eu fazia. Porque a parte de sentar na frente do barro, ter idéias, produzir, era deliciosa e muito fácil pra mim. Enquanto meus colegas de atelier levavam meses pra modelar uma peça, eu fazia em dois dias. Meu problema era, sempre foi, a parte de ir ao público. Expor qualquer coisa que eu fiz sempre fazia com que eu me sentisse nua, como se tivesse oferecendo meu próprio coração à pessoas indignas.

Quando eu comecei o ballet, frequentava uma escola para adultos que não tinha apresentação de fim de ano. Eles não queriam dor de cabeça. Durante muito tempo, isso pra mim era alívio, porque não queria passar vergonha de collant. Aí comecei a frequentar o curso de dança moderna e entendi o papel que o público tem. Fazer e ninguém ver é quase como se não fazer; a arte vai morrendo as poucos. A idéia de mostrar estimula, permite entender o próprio progresso, coloca sangue novo nas veias. Quando me exponho – aqui, num palco – sinto que me coloco contra toda uma vida, contra tendências do meu temperamento e todos os meus pudores. Por natureza, não gosto das pessoas. Aprendi a esperar o pior delas, as considero complicadas e maldosas. Mas apesar de nunca saber como serei interpretada, de não saber o que farão com meus gestos e palavras, eu preciso mostrar. Porque sei o que acontece quando se é talentoso só dentro de casa. Todo artista tem que ir aonde o povo está.

O horror

Tem uma historinha que quase publiquei aqui, faz tempo, mas não tinha gostado do tom moralista dela. É assim:

Desde a sala de embarque, fiz amizade com um músico. Uma dessas amizades que duram apenas durante o vôo. Numa das muitas coisas que conversamos, ele me disse que tinha dois amigos judeus que haviam sobrevivido ao Holocausto. Um deles era um homem sisudo, amargo, pessimista. Ele era assim porque havia visto e vivido o que há de pior na humanidade, ele conhecia seu lado mais cruel. Já o outro amigo judeu era o oposto – festeiro, alegre, piadista, bom de papo, positivo. Ele era assim porque já havia visto e vivido o que há de pior na humanidade, ele conhecia… ou seja: ele já havia passado pelo pior. Depois daquilo, nada lhe parecia tão ruim.

A história fala por si só, pra mim. O chato é que ser uma pessoa otimista junto de pessimistas sempre vira uma disputa de traumas. Você é otimista porque nasceu em berço de ouro e eu não. Você é bonito e eu não, você ganha bem e eu não, e por aí vai. E se você se dá ao trabalho de dizer – não é bem assim, também tive meus problemas, também tenho meus problemas! não adianta, porque a disputa nunca acaba. O outro vai procurar picuinhas, até cansar, só pra justificar que o destino o condenou à infelicidade. E que a felicidade do outro é consequencia natural das coisas, sem qualquer mérito. Aposto que se esses dois judeus se encontrassem, era capaz de rolar um “mas o meu campo de concentração era pior do que o seu!”

Tâmaras

Depois dos filhos criados, casados e com seus próprios filhos, minha tia passou a investir seu dinheiro em viagens internacionais. Ela mal volta pro Brasil e já está planejando a outra. Depois de cansar dos tradicionais roteiros de Estados Unidos e Europa, ela passou a querer conhecer lugares exóticos. O primeiro deles foi o Egito. De lá ela nos trouxe: lindas rosas do deserto, pingentes em ouro com a transcrição fonética do nome das irmãs em hieróglifos (preço fixo por nome. Calculamos que nomes grandes compensam mais e ficam mais bonitos), a informação de que os camelos são muito fedorentos (“o cheiro não sai da roupa”) e tâmaras.

Lembro bem daquele dia. Minha mãe havia saído pra encontrar a família e falar da viagem. Minha tia tinha voltado há algumas semanas, e leva tempo até descansar, se readaptar ao fuso horário, revelar fotos. Tudo isso já tinha acontecido. Ao entrar em casa, minha mãe está com um saco plástico molhado. Ela me disse que eram as tâmaras que a tia trouxe do Egito. Estavam deliciosas e limpas. Sentamos as duas para comer e quando pus a primeira na boca… Que sensação indescritível! Eu nunca tinha comido tâmaras na minha vida, era a coisa mais maravilhosa e doce que havia provado. Nós não conseguíamos parar de comer, e já estávamos lamentando antecipadamente que seria preciso outra pessoa viajar pro Egito pra comermos daquela maravilha novamente.

Não lembro se elas estavam melequentas, ou se fazia isso pra limpar mais, só lembro que eu colocava as tâmaras debaixo da torneira antes de começar a comer. Quando já havia comido várias, coloquei uma debaixo da torneira e vi um verminho branco se movendo por dentro da casca. Fiquei com nojo e avisei pra minha mãe que tinha acabado de achar um bicho, que precisávamos prestar atenção. A outra que eu peguei também estava com bicho, então começamos a prestar atenção e percebemos que todas estavam com bichos. Tâmaras egípcias, de semanas atrás – devia estar tudo estragado.

Jogamos tudo fora. Até hoje não sei se aquelas tâmaras estavam tão deliciosas porque eram egípcias ou porque estavam estragadas.

Silicone, beleza e casamento

Eu estava com duas amigas. Eu, sem silicone e sem filhos, trinta e poucos anos. Uma com silicone e filho grande, com quarenta e poucos anos. Uma sem silicone e com filha grande, com quarenta e tantos, cinquenta? As três casadas. Eu faço o gênero jeans e camiseta e tenho minhas tendências feministas. A com silicone faz o tipo gostosona, sempre de salto e roupas justas. A outra é a pessoa mais fashion e estilosa que eu conheci em toda a minha vida. Por isso foi uma surpresa muito grande quando a ouvi dizer

– Estou pensando em colocar silicone.

porque pra mim ela já era das mais lindas e admiráveis que uma mulher pode ser. Ela consegue ser feminina de uma maneira só dela. Eu nela só vejo beleza, nunca pensei que ela achasse que precisa mudar. Talvez ela não tenha noção do que nos transmite, de qual a impressão que temos quando a olhamos. O que eu vejo é: algo único. Ela é ela, poxa. Aquela pessoa que eu gosto, aquele sorriso largo, aquelas roupas e um estilo inconfundível. Claro, eu nunca a olhei com olhos de quem avalia o corpo, de quem pensa em tocar ou possuir. É verdade, ela tem seios pequenos. Mas será que o olhar masculino é tão diferente assim do nosso? São coisas que eu me pergunto.

– Mas o meu marido não quer, ele me disse pra não ser louca, que é pra deixar como está.

(Eu) – Então, vai ver que não precisa mesmo. Ele gosta de você do jeito que você é, sem precisar de um peitão. Você é você, não precisa ficar diferente em nada.

(Amiga com silicone, pra mim) – Pra você é fácil dizer isso, porque você não teve filhos. Você não sabe como o peito fica murcho depois da amamentação. É diferente. (para a outra) Eu já vejo isso de outro ponto de vista. Ele não quer te ver melhor, não quer que você evolua. Se você colocar silicone, você vai ficar linda e ele vai se sentir ameaçado. Isso é uma maneira de te manter sempre ali, insegura. Eu acho que você deve colocar sim. Você vai se sentir melhor, mais bonita, mais poderosa.

Eu não falei mais nada. Porque não sei como o peito fica depois de ter filhos, não sei se maridos nos impedem de ficarmos belas. Só sei que olho pra minha amiga e a acho tão bonita.