Simplificação

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Eu mandei minha dissertação pra editora da UFPR assim que apresentei. Foi sugestão da banca, eu tirei 10 e escreveram “a banca recomenda fortemente a publicação”. Mandei, esqueci o assunto e depois de quase um ano me chamaram. Não sabiam direito o que fazer, eu tinha que dar uma olhada numa coisa. Eles mandaram a dissertação para três avaliadores. Dois deles escreveram avaliações positivas e a terceira tinha várias páginas e deve ser de alguém que me odeia muito. Ela implicava com coisas incríveis, me acusou por exemplo de usar demais a expressão “esta dissertação”. Realizei uma busca no word e tinha três ocorrências. Daria vários posts o que estava escrito lá e tive que apelar para o meu próprio departamento, porque algumas coisas eram tão injustas que atingia mais do que a mim. Uma das críticas também dizia mais ou menos assim: ela explica conceitos complexos com simplicidade, logo se vê que não domina o assunto.

E não é que nisso a pessoa acertou? Acho que uma das minhas características é transformar ideias complexas em conceitos mais acessíveis.

Como você é meu leitor, deve ter ficado com raiva da pessoa e tal. Posso dizer também que já li que uma das maneiras de testar domínio do assunto é pedir para explicar em poucas palavras. Mas, ao mesmo, quem sabe, pensando bem, eu tenho carregado a fama de burrinha-porque-simples e nem tinha me dado conta.

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O jornal do bairro

jornais

Eu tinha uma amiga que não conseguiu se atualizar a ponto de ter internet, nem ao menos celular. Pra tudo era uma pessoa muito antenada, mas isso estabeleceu uma barreira que era difícil ultrapassar. Para algumas coisas era possível explicar e ela captava a essência, então não fazia falta. Digamos que eu explicava uma briga no Facebook; eu lhe explicava que cada um tem uma página, que são os seus dados, as suas fotos e o que você escreve. Outra pessoa pode ir lá e escrever no seu espaço. Então, cada um escreve a besteira que quiser no seu próprio espaço, mas alguém entrar no meu e me ofender era demais. Ela entendia. Ao mesmo tempo, eu tentei explicar blog e que tenho leitores, mas ela achava que eu seria realmente popular se enviasse meus textos para o jornalzinho do bairro. Ela também insistiu para que eu tentasse ir no Jô quando minha dissertação foi publicada. Olha, eu até tentei na época, achei site dele e você mandava um resumo do porque poderia aparecer lá. O site era tão abandonado que não precisava de mais nada pra saber que ninguém iria lá pra procurar um futuro entrevistado.

Tchecov, a quem amamos tanto, amargou um sentimento de falta de relevância porque não publicava um grande romance, e sim pequenas histórias nos jornais. Histórias essas que hoje achamos lindas, sensíveis, direto no ponto, que em poucas palavras captam o espírito dos seus personagens e nos permitem conhecer sua época. Eu amo ler e estava fazendo vídeos de recomendações (pela primeira vez desde que comecei, falhei e não sei se volto), e acabei fazendo quase um catálogo Netflix. Quase não recomendei livros porque me parece tão inútil. Tem alguns livros que recomendei pessoalmente para  algumas pessoas, livros tão a cara delas que só faltava exame de DNA para comprovar. Elas não leram. Não que não confiem me mim e etc., apenas porque quase não se lê. Ler é tão old fashion, tão século passado. Mesmo eu acho que não tenho mais o mesmo fôlego de antes, não consigo mais ficar tanto tempo parada para apenas ler.

O que, afinal, é ser lido? Será que também não é old fashion da minha parte pretender ser publicada?

Retrato

lucian freud

Eu sempre ficava imaginando uma pessoa que ia ingenuamente pedir pro grande artista Lucian Freud um retrato, ou que fosse convidado por ele a posar. Na minha imaginação, essa pessoa não faria qualquer pesquisa prévia e se veria na obra apenas depois de pronta. Duvido alguma reação que não seja de choque num primeiro momento, um abalo na auto-estima. De se sentir reduzido e retratado da forma mais cruel possível. Eu me sinto nessa situação, como um Lucian Freud, quando alguém tem a expectativa de ser descrito por mim. Eu sou boazinha, vocês dirão. Mas talvez seja ainda pior. Aquele que descreve o bizarro e acaba com a pessoa de cima abaixo, acaba ficando caricato e tudo o que dizer é cortado pela metade. Eu não. O ego é uma coisa frágil, e no meio a uma cascata de adjetivos, pode escapar um ruim. Pior: eles podem ser neutros demais, de maneira que a pessoa se descobre banal – antes ser vilão do que banal! Aí o efeito seria Lucien Freud. O que eu poderia dizer para quem conhece pessoas que escrevem: não queriam ser retratados, tenham medo de ser retratados.

Lanchinho

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Uma vez eu conheci um ex-blogueiro, que me disse que comeu muita mulher por causa do blog – o que logo de início de conversa me deixou bem complexada, porque nunca tive um encontro amoroso por causa do blog. Ele já não escrevia há anos e, com alguma resistência, me mandou o link. Foi interessante, porque também me vi com vontade de procurá-lo, marcar um encontro, ver no que ia dar. Só que o que ia dar, no caso dele, era sempre transformar a moça em lanchinho. Ninguém, nunca, há anos, era mais do que lanchinho. Pude ver o contraste e imaginei a frustração de algumas daquelas mulheres. O blog mostrava um homem muito amoroso. Havia textos emocionantes sobre os pais, proximidade e orgulho dos filhos, como foi levar a primeira filha para o altar. O que a gente queria, quando lia os textos, não era exatamente dar pra ele – o bom seria fazer parte daquela vida, daquela família, de todo aquele amor. Que ele também lesse nos meus gestos coisas que ninguém nota, que sentisse saudades. Mas só com o convívio a gente descobria que o amor descrito no blog era apenas e tão somente para aqueles familiares, ele não deixava entrar mais ninguém. Mulher, só lanchinho. Convicto, feliz, sexo sem vínculo. Por isso que a gente diz, e repete, e tenta de novo, precisa ser relembrado: escrita é sempre mentirosa, mesmo quando a pessoa fala a verdade.

Frustração, frustração e Chico

Eu descobri uma vez um escritor frustrado, que era amigo de outro escritor frustrado. Era – pouco tempo depois da descoberta, eles devem ter tido alguma briga e se bloquearam no face. Tanto que depois não descobri mais o Fulano, porque o nome era comum e eu contava com o outro para encontrá-lo. O fato é que ele tinha algumas coisinhas publicadas no mural, e na impossibilidade de julgar a qualidade delas, coloquei num grupo de amigos, sem qualquer introdução. De primeira, gostaram, acharam que embora escatológico era interessante e bem escrito. Na segunda – “é o cara do cocô de novo? Já deu!”. Não sei o que pensa um escritor da Finlândia, eu sei que aqui é muito fácil dizer que a culpa das edições pagas com o próprio bolso não venderem é de temos um pouco inculto, que mal abre um livro, etc. Tenho muito medo de ficar assim, de verdade.

Bem naquela época eu estava viciadinha nesta música do Chico. Tem aquela brincadeira que nenhuma mulher diria não pra ele, né? Ouvindo esta música, mergulhando nesta música, colocando história e rosto na música, pensei no quanto o Chico é doce. Talvez seja o momento que tenha me dado um Eureka. Cresci ouvindo Chico e às vezes um artista está tão sempre na nossa cara, tão dado e normal, que perdemos a dimensão da sua genialidade. O Chico é um doce. Uma música de fala de sexo de uma maneira intensamente terna. A gente se sente lá, naquele momento que depois pode não dar em nada, ou em crime, mas que é lindo, confuso, apaixonado e se carrega pela vida inteira. Pensei que era esse o problema do primeiro e do segundo escritor frustrado: um grande artista nos leva para o mundo dele. Queremos estar com ele, pulsar ele, ver com os olhos dele. Pra ficar no rame-rame ou pensar em cocô, ninguém precisa de ajuda.

Cronista

stack of newspapers

No mesmo caixa da mesma padaria, estava um jornal que havia sido uma revista mas que mantinha sua linha editorial de socialites curitibanos. No primeiro número, estava na caixa uma moça mulata que não tenho visto mais por ali, e eu lhe disse que não pegaria aquela porcaria porque conheci a antiga editora e era uma dessas pessoas que faz com que a gente se sinta mal ao lado dela, que te diz com um olhar que te considera inferior porque detectou em você a ausência de algum símbolo de status. E que, ironicamente, hoje ela trabalha como terapeuta. Quando nos olhamos nos olhos, a moça da caixa expressou a solidariedade de quem sabia bem do que eu estava falando. Só que hoje, muitos números depois, havia no canto inferior direito da capa do jornaleco uma foto de um rapaz bonito, da minha faixa etária, com o sobrenome estrelado do primeiro ginecologista que eu fui na vida, e lá dizia que ele retratava Curitiba através de suas palavras. Não resisti ao apelo e enfiei o jornal na sacola junto com o pão e o bolo. Entre mordidas, li com a impaciência de quem vê a falta de talento ser exaltada por bons contatos, desprezei os livros publicados de próprio bolso e vendido apenas a amigos, obtive a confirmação de tudo quando soube que era um colaborador assíduo daquele mesmo jornal, outrora revista, de socialites, daquela que despreza com o olhar. Depois de comprovar que eram muitas as páginas de fotos de inaugurações e festas, o jornaleco foi pro lixo reciclável; depois, decidi que pode me ser útil no futuro, para desentupir privada, e já que peguei de volta mesmo, conferi a exclusiva palinha do novo livro do Fulaninho. Li. Não é um gênio, não é um idiota. Tentei ver, para além de todas minhas frustrações, se ele conseguia. Se ele tem o que todos querem e nos transforma em tolos que tentam aprisionar fantasmas. Quis saber se ele tem o dom de nos fazer interromper uma frase pela forma como ela nos atinge, se nos puxa para o mundo dele como uma energia irresistível. Quis desfazer aquele trabalho e me vi emudecida pela minha incapacidade de ter uma panorama: o meu é melhor?

A indesejada das gentes

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Eu li o Montanha Mágica quase inteiro, enfrentei as páginas que se considera mais difíceis e larguei num mal estar que eu desconfiei ser inerente ao tema e não ao livro em si. Para quem não conhece, a ação do livro se passa numa clínica de tratamento de tuberculose. Depois daquilo li mais algumas coisas sobre o assunto. Na biografia de Nelson Rodrigues ela aparece bem, com Nelson angustiado por ir e voltar para o tratamento. Só que por mais que a biografia fale da angústia dele, eu nunca li – pode ser que tenha e apenas eu que nunca tenha lido – o próprio Nelson falar da rotina desses tratamentos. O nosso Manuel Bandeira foi um que conviveu com a tuberculose, sempre à espreita, e no fim das contas acabou sobrevivendo a quase todos seus amigos saudáveis e morreu aos 82 anos. Mas não foram 82 anos comuns, foram 82 sentindo a morte em cada tosse, cada ventinho, cada febre.

Consoada
Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
– Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

Mas de tudo o que eu li sobre a doença, Bernhard é o que mais me toca. Ele tem um modo de escrever intensamento autobiográfico, e não apenas nos deixa saber que é doente, ele descreve o tratamento por dentro: como é ser internado, verificar a secreção cuspida numa garrafa, os meses iguais e sem perspectiva de melhora, o olhar da equipe de enfermagem que crê que a qualquer momento você não estará mais ali, os pacientes que um belo dia somem e seus lençóis são trocados. Bernhard me faz entender que a rotina da Montanha Mágica realmente me angustiava. Eu sou irritamente saudável; há alguns dias me resfriei, acordei com a cabeça pesada e fiquei me perguntado se aquilo era apenas resfriado ou gripe – eu não me resfriava há tantos anos que nem lembrava mais como era. Fico me perguntando a sede de vida que passar tanto tempo trancado dá a alguém; para mim, é a combinação dessa vontade urgente com – ironicamente – a cultura que adquiriu nos meses de imobilidade que tornam Bernhard um autor tão incrível.

Quando me foi possível novamente levantar e ir até a janela, e finalmente até o corredor e depois, com todos os outros condenados à morte capazes de andar, de uma extremidade à outra do pavilhão e que finalmente, um belo dia, pude até sair do Pavilhão Hermann, tentei chegar até o Pavilhão Ludwig. Porém eu superestimei minhas forças e fui obrigado a parar diante do Pavilhão Ernest. Tive que me sentar no banco fixado ao muro e retomar o fôlego antes de poder continuar por meus próprios meios para o Pavilhão Hermann. Quando os pacientes passam semanas ou mesmo meses na cama, eles superestimam suas forças assim que se vêem capazes de levantar, eles querem simplesmente fazer tudo e em certos casos acontece de esse tipo de besteira fazer com que retrocedam semanas, e alguns, numa dessas aventuras irrefletidas, foram atingidos pela morte da qual tinham escapado com uma operação. Apesar de ser um doente escolado e de ter, durante toda a minha vida, convivido com as minhas doenças mais ou menos graves, depois gravíssimas e, finalmente, sempre com minhas doenças ditas incuráveis, sempre tive regularmente essas recaídas de diletantismo em matéria de doença, fiz besteiras, besteiras imperdoáveis. Primeiro alguns passos, quatro ou cinco, depois dez ou doze, em seguida treze ou quatorze, finalmente vinte ou trinta, é assim que o doente deve agir, e não levantar logo, sair e ir embora, o que, na maioria das vezes, vem a ser fatal. Porém o doente trancado durante meses, durante meses só sonha em sair, e mal consegue esperar o momento em que terá o direito de deixar o seu quarto de doente e, naturalmente, não se contenta em dar alguns passos no corredor, não, ele sai para o ar livre e ele mesmo se destrói. (O sobrinho de Wittgenstein, p.13-14)

Personagens amam ser escritores

hemingway-escritorEu sempre achei o cúmulo de falta de imaginação perceber que é muito mais frequente as pessoas quererem ser escritores em livros, ou seja, enquanto personagens de livros, do que na vida real. Ou se eles, escritores, eram assim tão narcisistas de não conseguirem imaginar algo mais motivador do que ter a própria ocupação deles. Aí quando me vi tentando escrever algo mais longo e verdadeiro, o quanto é preciso ter vivência e o quão pouco conseguimos escapar para além do que vivemos. Lembro de um conto do Oscar Wilde com uma descrição tão boba do que é ser um pescador – acordar cedo, jogar a rede, o cheiro do mar – que eu mesma poderia ter feito, aqui da minha cadeira. Porque provavelmente ele o fez da dele. Somente alguém que já foi até o pescador e a rede, melhor ainda se tiver sido um, pra saber dos detalhes. Imagino que a mão seja calejada de uma maneira diferente, que a rede possa cortar as mãos, que cada tipo de pesca tenha um conjunto de procedimentos diferentes. O mundo interior de quem se vê frente a frente com o mar não pode ser o mesmo de quem acorda cedo pra enfrentar trânsito. Mas que mundo é esse, que talvez o próprio pescador não saiba definir em palavras? Então o escritor se vê entre descrições pobres do que ele só imagina ou falar do que realmente sabe porque já viveu. E do que um escritor sabe? De profissões ligadas a escrita. Não é falta de imaginação ou narcismo, é apenas limitação.

Curtas de expectativas curtas

no balanço

Vou confessar uma coisa: é extremamente difícil arranjar o que escrever quando passei o dia sozinha. Eu gosto, mas é como se minha inspiração funcionasse melhor com um debate silencioso com os outros.

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Estava conversando com uma amiga sobre aquelas roupas que não estão limpas o suficiente pra voltarem pro guarda-roupa mas também não estão sujas pra ir no cesto. Você foi até a esquina e voltou, não teve nem tempo de suar. Aí elas ficam num limbo de roupas, esperando para serem usadas pra valer. Ela me disse que na casa dela chamavam de roupas “começadas”. Já adotei.

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À caminho da padaria vi um cartaz que dizia que há um local para consertar bikes a 300 m. Na volta decidi ir pra lá, virando à esquerda ao invés de seguir em frente, pra ver se achava o tal lugar. Não achei o conserto de bikes mas vi adolescentes suspeitos numa praça que até então acreditava segura, o escritório novo do meu ex vizinho numa casa enorme, uma mecânica de carros e uma igreja Quadrangular exatamente uma quadra de casa. Me senti a pessoa mais ignorante do bairro.

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Acreditam que veio um outro cobrador, à noite, que ao contrário do que tinha jeito de malandro é um que eu conheço faz tempo, gente boa, evitava assaltos, e ele quis que eu passasse pagando dois reais fora da roleta. Sério, é cada história que ele conta, a expressão de pessoa sofrida, pra ele não tem como dizer não. Pior que ele quer ter esquema porque sempre pego ônibus o mesmo horário e tal. A gente quer ser bom e a sociedade…

Confessional

confessional

Há um episódio dos Simpsons – eles não previram tudo? – em que o Hommer começa a dar aulas à noite, e para tornar as aulas interessantes ele começa a falar da vida conjugal dele com a Marge. A turma era toda de adultos e ele consegue atenção imediata. Um dia ele está no supermercado com a Marge, encontra um dos alunos e ele fala da tintura de cabelo dela. Marge fica chocada, pra todos os efeitos ninguém sabe que ela pinta o cabelo. “Hommer, você anda contando nossas intimidades por aí?” “Olha, ela ficou nervosinha. Lamba o cotovelo dela…”. Ela lhe pede pra parar, ele promete, mas aí chega na aula e ninguém presta mais atenção nele. Aí ele: “Vou falar de um caso que eu ouvi falar, digamos que um homem chamado H, casado com uma mulher a quem chamarei de M…”

Um dia me queixei a um amigo escritor que eu só sabia falar de mim mesma, e ele me disse que, em maior ou menor grau, todos os escritores só falam de si mesmos. Mas eu gostaria de não pertencer ao mesmo time que o Hommer.

Maja nua

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Eu fiquei umas seis horas lá dentro, nunca mais repetirei a experiência. Não se pode dizer que eu vi tudo porque uma das funcionárias fez o favor de me informar que as salas que estavam fechadas eram nada menos do que dos pintores italianos. Pouca coisa, o que tem pra ver de pintores italianos? Ela me tranquilizou dizendo que no dia seguinte estariam abertas, mas aí eu que é não estaria mais lá. Sei que chegou uma hora que eu entrava na sala e sentia engulhos, como se toda aquela beleza começasse a me fazer mal. Quando cheguei na sala de Goya, num segundo andar, já era esse o meu estado de espírito. Olhei para as Majas porque mesmo inculta do jeito que eu era – e quem não o é aos vinte e um? -, eu sabia que aquele era um clássico. Fui até a loja do museu doida para comprar alguma coisa, qualquer coisa, não poderia deixar aquela experiência passar em branco. Mas era tudo tão caro! Lembro até que tinha chocolate do quadro As Meninas de Velázquez. Eu já colecionava marcadores e quis comprar as duas Majas, ia fazer um belo conjunto ter a versão vestida e nua. Mas era tudo acima do meu orçamento, mesmo os marcadores, e naqueles últimos dias de viagem a escolha não seria nem entre comer e não comer e sim ter ou não dinheiro para ir até o aeroporto. Então comprei só uma, a nua.

Duas meninas do flamenco fizeram pós na Espanha e estudaram a história do flamenco com um grande especialista, e a pedido da nossa professora elas nos ofereceram uma série de palestras. Falaram do nascimento do flamenco, que demorou para ser conhecido apenas como uma dança e ficar do jeito que conhecemos hoje. As dançarinas que dançavam o que hoje é o flamenco, junto com trupes, ciganos, cantando e dançando, eram as Majas. Era uma figura folclórica que foi incorporadas até em balés românticos, sempre representada por uma morena de temperamento difícil, jamais a mocinha. Eu demorei pra relacionar essas figuras à do marcador, porque as meninas falavam a pronúncia em espanhol – “marras”. Não precisa ir muito longe para saber que numa época onde o balé nascia na Europa, com pulinhos e babados, mulheres-majas movendo suas cadeiras, batendo os pés com força e brincando com a saia não fossem bem vistas, e fossem consideradas prostitutas. Então, por dançar flamenco, também eu posso ser considerada uma maja – ou pelo menos uma descendente delas.

A Maja, minha maja, me faz pensar em três tipos de nudez. A primeira e mais óbvia é a do corpo. A segunda, dos meus textos. Tenho me exposto continuamente e dá para me conhecer através do que eu escrevo não apenas pelas histórias e pelo que digo, mas também pela repetição dos temas, do que omito, da forma como manejo as palavras. Tenho me feito despir no que escrevo no meu twitter, nas brincadeiras que compartilho no meu facebook, pelas piadas com os amigos, pelo que escrevo privadamente. Pra mim, durante muito tempo, nudez era isso. Agora sei que há uma terceira, algo que nem consideramos nudez por estar tão acessível a muitas pessoas, diariamente. Hoje passei o dia inteiro fora, peguei vários ônibus e cruzei com muitas pessoas na rua, e a qualquer uma delas tinha acesso à minha aparência e os meus gestos. Num olhar é possível adivinhar o humor, os valores, a vida de alguém. Cada um tem um gesto mais significativo, que para uns pode ser a maneira como se inclina na cadeira e presta atenção com os olhos apertados, como segura um cigarro (caso fume), se joga a cabeça para trás na gargalhada ou a inclina para frente balançando a cabeça. Há algo de revelador que só a presença física pode dar, só o olhar, a energia, o contexto, o estar presente naquele instante. Radicalizando essa nudez, há a sensação dos dedos passando suavemente pelos cabelos, o cheiro da pele mais escondida, o efeito da voz sobre os tímpanos e o coração. A gente passa por várias pessoas diariamente, as lê sem querer e logo depois esquece. A nudez só impacta quando é desejada. Das três – é muito interessante se dar conta disso – a terceira é a única sobre a qual não se tem controle. É uma nudez que nada importa ou tudo importa, e como dói quando simplesmente não pode ser.

Não colabora

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O que me faz postar dia sim dia não é puro TOC. Eu me estabeleci esse desafio há anos e simplesmente não consigo deixar de lado. Depois isso foi virando uma cobrança, que se eu realmente gosto e quero escrever, devo ser capaz disso sempre, mesmo nos dias que estou mais cansada e sem inspiração. Os grandes escritores estavam sempre escrevendo, e até mesmo aqueles que nem eram tão grandes assim. Os autores podem ser divididos – pelamor, só um palpite! – entre os que se envolviam em profissões como as de jornalista, para serem obrigados a escrever sempre e aqueles que vão para profissões pouco exigentes, também para poderem escrever sempre. Então, é até pouco que eu me imponha um dia e um dia não. Por incrível que pareça, os dias mais difíceis não são os cheios de atividades, porque sento aqui e pensei em alguma coisa ou me disseram alguma coisa ao longo do dia. O mais difícil é quando passei já muito tempo na frente do computador, dedicada a um outro projeto de escrita. Só estou com ele e todo meu ser só quer saber dele. É o caso, hoje.

Errada, eu?

estou errada

Já dizia Freud que um dos perfis difíceis de paciente é o inteligente demais. Desculpem voltar ao assunto – os posts sobre dança são dos mais impopulares do blog – mas foi difícil me convencer de que eu não dançava bem. Poxa, a mais frequente, que pegava os passos primeiro, aquela que as pessoas consultam pra saber da coreografia e eu não danço bem? Não aceitava. Via os meus videos e me enchia de desgosto, mas quem não se sente desgostoso ao se ver em vídeo ou com a voz gravada? Até que um dia eu pensei numa metáfora perfeita, digamos assim, aí eu nunca mais duvidei. Não apenas não duvidei como me aquietei. Ok, a vida é assim, a dança é meu hobbie e não meu metier. A citação a Freud foi porque como pessoa inteligente e teimosa, precisava de alguém que chegasse ao ponto na argumentação e ninguém soube direito. Eu sou como aquela pessoa que escreve muito bem, com coerência, bom português, raciocínio linear, frases curtas e tal, mas chaaaaata. Escrever (ou dançar) certo não é sinônimo de gostoso.

Originalidade

Tem uma frase que eu li em algum lugar que me ajuda muito e não sei direito como dizer isso sem querer parecer uma pregadora religiosa. É assim: “Através de você, Deus está vivendo uma experiência que ele nunca viveu antes.” Para mim, essa frase é um apelo máximo à originalidade. Ela me faz pensar o quanto regras de conduta são perigosas e até inválidas, porque o que rege a minha vida pode ser um estrago na vida do outro. Eu ia escrever “o que equilibra a minha vida” mas já está aí, pode ser que tudo o que o outro menos precise seja equilíbrio. Eu penso também numa conhecida minha, que nunca sonhou em viajar, mas colocou o nome num projeto e os frutos dele estão levando-a a viver em outras partes do mundo, de Inglaterra à Nova Zelândia. Eu mal e mal vou até Campo Largo; se fosse tentar ser uma pessoa viajada, teria que fazer imensos esforços. Ou seja, pra ela vem fácil e pra mim seria uma luta, uma tentativa de cópia, a vontade de ter o que não é a minha realidade. Me faz pensar também no escrever, nessa crise imensa que todos que escrevemos temos, ao olhar para o lado e achar tão lindo, genial e disse tudo – e nessa de achar o outro tão maravilhoso, dá a impressão de que tudo está tão dito e muito melhor dito que não tem porque euzinha escrever. E realmente já está dito e não vale a pena, se eu virar uma cópia mal feita de Paulo Coelho ou Borges. Mas valerá a pena, será único e original se eu disser o que apenas eu posso dizer – mesmo sem viagens internacionais.

otro dia más

Pudor

troche

Não gosto de falar de mim. De vez em quando alguém se propõe a me conhecer, senta numa cadeira na minha frente, olha nos meus olhos e me faz uma pergunta pessoal direta. Não uma brincadeira ou uma opinião, coisa que ofereço com muito prazer, e sim um fato biográfico – o que você faz, em que colégio estudou, qual o seu plano? Invariavelmente fico muito sem graça, respondo com outra pergunta, tento desviar o assunto, dou uma resposta evasiva. Soa estranho eu dizer isso, eu sei. Estou aqui o tempo todo falando eueueu, me expondo e expondo também aqueles que um dia fizeram parte da minha vida. Numa ordem de importância, eu diria que a biografia é muito menos do que o expor, e anterior a isso é o escrever, o comunicar. O que eu tento fazer, na verdade, é usar a minha biografia como meio. Sabe quando você está com quem ama e conversa sobre o tempo, a meia furada, o que o cachorro aprontou, o que pensou enquanto mastigava o pão ou andava até ali e coisas incrivelmente banais, cada vez mais irrelevantes, porque na verdade o importante é estar lá? Estar lá, mostrar que você se importa e manter um vínculo. Falo eueueu porque é o que tenho. Se tivesse acesso a outra biografia para isso, pode ter certeza de que a usaria no lugar da minha.

Modelar um livro

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Se fosse pra falar bem tecnicamente, eu deveria dizer que modelava e não que esculpia. Esculpir é quando você apenas retira do material, como uma pedra ou madeira. Quando você lida com um material flexível – argila, massinha, etc.- que permita que se faça retiradas e acréscimos, o nome disso é modelagem. Esculpir é infinitamente mais difícil, exige um outro tipo de raciocínio e não permite erros. A pessoa precisa ver no bloco exatamente o que vai fazer. O que foi modelado pode ir pra um molde e aí adquirir resistência e ficar como uma pedra. Por isso que o esculpido comum é reto, carranca, sem detalhes, tende ao imóvel. O modelado permite mais ousadia. Mas isso quando pensamos em feirinha; quando a referência é o melhor, os clássicos, os mármores gregos, vemos textura de pele, veias pulsando, lágrimas.

Escrever é como modelar e nisso está o nosso grau supremo de nudez. Quando Gregório Duvivier lançou seu livro de poesias, ele disse que se sentia mais exposto do que qualquer outra coisa que tinha feito, muito mais do que vestir uma roupa verde apertada que lhe adivinhava as partes íntimas. Sou uma artista de feirinha expondo meu trabalho no mesmo mundo de Bernini. Se eu tive o tempo que quisesse e podia colocar na história o que quisesse, não tenho desculpas quando um leitor crítico me diz: isso daqui está confuso, mal escrito, que pieguice. Eu não tenho como dizer que foi sem querer, ou que já estava lá quando eu cheguei, naquela hora eu não estava olhando. Pior ainda se é um arquivo com 38 páginas exaustivamente trabalhadas durante mais de dois anos. Se toda minha imaginação, leitura e capacidade de revisão conseguiram isso, apenas isso, não há onde me esconder, de mim e dos outros. Essa é a nudez extrema de que o Gregório falou.

Há autores que se internam durante quinze dias e de lá saem com um livro, assim como há aqueles que passam dez anos com um manuscrito sebento debaixo do braço e não terminam nunca. Sou mais desse time. Também já li que o livro termina não quando a gente para de mexer e sim quando nos arrancam e nos impedem de modificar mais. As minhas 38 páginas são uma história triste, onde aproveitei para repensar muitas dores dos últimos anos. As partes mais verossímeis são as mais mentirosas, e vice-versa. Não faço a menor ideia se está bom, o que sei é que estou cansada. Nessa última revisão já foi difícil segurar o tom, porque estou em outra fase, feliz e a fim de pensar em coisas mais felizes. Como parecia que este dia não chegaria nunca, estou sem planos. Olho para listas de editoras, a dificuldade generalizada de publicar e me arrepio. Não vou me preocupar com isso agora. Terminar de escrever é ufa, férias!