Curtas de difícil entendimento

pensar fora da caixa

Eu estava na faculdade e o professor decidiu nos passar um documentário na aula. Só que ele disse que era um documentário em inglês e sem legenda, ele havia trazido direto do país. Ele perguntou se tinha algum problema, se todo mundo lá entendia inglês e eu fui a única pessoa da sala que disse que não conseguia e saiu. Nunca soube qual o percentual de não falantes em inglês da sala, mas duvido que fosse a única. Eu os imagino os outros sentados na cadeira durante mais de uma hora e acenando com a cabeça.

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Um homem uma vez me disse que, às vezes, por estar com muita vontade de ir pra cama com uma mulher, muito a fim, muito apaixonado, acontece dele falhar. E que essa brochada na primeira vez poderia ser tão constrangedora que ele nunca mais a procuraria. Eu disse que isso era horrível, que brochar não era nada, que ela ia ficar sem entender. Ele disse que, por eu ser mulher, eu não entendia o impacto psicológico da brochada. Já faz algumas décadas que eu ouvi e continua não fazendo sentido.

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As redes sociais têm sido agitadas de escândalos nos últimos meses – até aí, tudo normal – de pessoas famosas cheias de fãs cuja existência eu ignorava até o escândalo. Incautos caíam na lábia porque, até determinado momento, estavam se sentindo meio honrados com a atenção, meu ídolo, etc. Aí vou ver o que a pessoa produzia, e desde mil novecentos o conteúdo era péssimo, escorregava nas causas que se tem lutado tanto por aí, e no dito escândalo a pessoa agiu de acordo com o que sempre foi – mas aparentemente ninguém reclamou antes. Eu definitivamente perdi o contato com a juventude, não sei identificar o que lhes toca. Se fizerem um teste Buzzfeed: “celebridade de internet ou completo idiota?”, eu erro tudo.

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Anda comigo ver os aviões

“Eu nunca pensei que na minha idade ainda fosse possível”, diz a pessoa madura apaixonada. Poderia falar dos adolescentes ou quase adultos que conheço, que pula na cama da mãe às três da madrugada porque descobriu que é correspondida; das conversas infinitas da outra testando o clima, ambos lindos, interessados e sem a menor consciência disso; ou do que terminou, e semanas depois terminou definitivamente, agora sem amizade, sem mensagens, sem pretexto para manter contato e a dor não para de doer. Tudo tão pouco adulto. Adultos miram. Adultos conversam, pesam prós e contras. Adultos sabem que sexo é bom mesmo quando é ruim. Adultos não se cobram e nem exigem perfeição. Adultos combinam. O sim é todo mais fácil e o não, depois de outros tantos, já encontra estratégias de restabelecimento prontas. Mas nada disso é…

Assexuado

exame-mama

Pela natureza dos exames eu adivinhei que o médico precisaria de alguma habilidade para tornar tudo o mais profissional possível. No primeiro, ele precisaria introduzir uma sonda em mim para verificar meu útero por dentro. Há muitos anos, quando eu havia ameaçado colocar DIU e acabei desistindo, fiz aquele mesmo exame. Uma enfermeira chegou do meu lado, vestiu uma camisinha na sonda, encheu de lubrificante e enfiou aquilo em mim numa velocidade e facilidade que eu fiquei me sentindo uma mulher da vida. O segundo exame do dia era um tipo de mamografia, e eu não fazia a menor ideia de como seria. Eu já havia feito aquele na máquina, o que aperta o peito e nos faz desejar colocar nela o saco do maldito que inventou aquela porcaria. Deve diminuir a vida útil do nossos peitos em alguns anos ter os coitados espremidos de cima e em diagonal daquele jeito. Como na sala do médico que faria meus dois exames não tinha aquele aparelho monstruoso e apenas uma cama ao lado de uma estação com computador, vi que aquele seria inédito.

É possível que o médico não tenha visto nem se eu sou loira ou morena, do tão pouco que ele fez questão de me olhar. Sua assistente me mandou tirar toda roupa no banheiro que tinha ao lado e vestir o avental que estaria num pacote lacrado. O tal avental é tão aberto e fininho que claramente é feito só pra constar, só pra gente não andar pelada por aí como se estivesse em casa. Aí eu me deitei na cama de joelhos dobrados e pernas afastadas. Sem nunca tirar os olhos da tela do computador, o médico me mostrou a sonda, que apesar de comprida e toda coberta por uma camisinha, iria entrar poucos centímetros em mim. Na parede oposta, uma TV mostrava o que a sonda filmava. Terminado esse, sempre em meio à uma conversinha social, ele me mandou aproximar mais e colocar o braço por detrás da cabeça – era o momento dos seios. Aí ele jogou uma quantidade enorme de KY no meio doseio, bem no centro, e passou sonda por cima de tudo. Repito: jogou uma quantidade enorme de KY em cada seio. Não sei se existem outros fins, mais puros, para o KY, mas pra mim aquilo tem cheiro de sexo. Não tem como sentir aquele cheiro e associar com Dostoiévski ou tarde de compras. Eu deitada, praticamente nua, braço apoiado atrás da cabeça e os seios cheios de KY. Se por acaso eu não tivesse notado todo profissionalismo do médico desde que coloquei os pés no consultório, qualquer fantasia teria se desfeito quando ele me falou:

– Para uma mulher da idade da senhora, os exames estão bastante bons.

Depois eu fui pro banheiro, sequei o excesso de KY, me vesti e saí na rua com meus exames na mão me sentindo meio… sei lá.

Confissões sexuais de Darcy

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Nas entrevistas e documentários já dava para perceber que o Darcy Ribeiro era chegado em sexo, mas eu achei que nas Confissões ele teria pudor em ficar falando as mulheres com quem dormiu. Ingenuidade a minha. Acho que a nossa tendência, hoje, anos dois mil, movimentos feministas e de minorias, é achar ruim. Ele argumentaria dizendo que são confissões, é a vida dele, e sexo faz parte da vida. Não julgo como certo e errado porque me parece uma postura de geração; imagino perfeitamente meu pai falando (e sim, muitas vezes preferiria que ele me poupasse), lembro da autobiografia do Neruda onde ele conta, como se fosse uma coisa muito bacana, de quando estuprou uma nativa (isso mesmo que você leu) que recolhia o lixo dele. Em certos momentos o Darcy citar mulher tem a ver, em outros não, às vezes é pura vantagem e constrange, noutras… cara, teve essa daqui que me fez rir muito. Dica sexual do tio Darcy, anotem:

Vive em Paris uma das mulheres que mais amei. Ela nasceu de uma família francesa na Argélia e nós nos encontramos muitas vezes no México, em outros países e também em Paris. Devo a ela um amor elaboradíssimo, de tradição árabe, de que eu não fazia ideia. Primeiro, a sabedoria com que passávamos de sala em sala de seu apartamento. Cada uma delas com incensos de odores diferentes, maravilhosos. Comendo doces ou tomando licores para nos esquentar. Depois a cama, em que ela era uma das mais prodigiosas mulheres que conheci. O melhor mesmo é que, quando acabávamos de amar, ela saía e voltava logo depois com a toalha embebida em vapor. que punha em cima das minhas partes. Aquilo me descansava e me realentava para novos volteios. Nunca via coisa mais formidável. Aconselho minhas amigas todas a tentar com seus amores esse exercício, que realmente é uma lindeza. (p.218)

Mais prazer

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Todo mundo sabe que pra manter o cachorro comendo ração, nunca devemos dar comida normal para ele. Baste que prove uma vez a comida cozida pra que ele nunca mais se contente com aquelas bolotas secas e de sabor uniforme. Do mesmo modo que você pode se mudar de um apartamento pra uma casa grande com quintal, nunca o contrário, sob o risco de matar o cachorro de depressão. Na escala humana isso corresponde a empobrecer – nossas escolhas ficam limitadas ao dinheiro e um universo de coisas passam a existir apenas para os outros, embora ainda as desejemos. A mulher tinha que ser virgem antes de casar pra não ficar “estragada” e esse estragar nada mais é do que saber um pouco mais do seu corpo e do que ele pede. À mulher que não sabia de nada disso, o marido poderia oferecer o que quiser que estava bom; com a mulher experiente, é arriscado e é preciso se empenhar mais. Envelhecer nos retira potência e olhares; quanto mais isso foi importante, mais dói, mais a pessoa se recusa. Grandes leitores são difíceis de agradar, cada vez mais conhecedores dos mecanismos de escrita, cada vez mais famintos por mecanismos sofisticados. Até mesmo quem tem acesso a um grande professor, quando o deixa, fica na situação difícil de não conseguir ser mais aluno de ninguém. Quem experimenta o amor, aquele grande e marcante, nunca mais quer um mais ou menos. O prazer é a grande força que nos tira da caverna e transforma em sombra tudo o que não faz parte dele.

Entre quatro opções e paredes

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Tem esses testes do Facebook – quem você foi na vida passada? Que palavra melhor te descreve? Que amigo é o seu anjo do mal? Chamam de teste e geralmente nem são, você entra e o site sorteia uma resposta aleatória. Mas, no caso, era um teste mesmo. Era pra gente clicar em uma série de imagens e informações a nosso respeito, pra isso gerar um teste personalizado. Respondi o de uma amiga e estava fazendo o meu. Coloquei que entre praia, cama, nos braços de alguém ou balada eu preferia estar na praia, numa sequencia de foto com vários esportes, respondi que o que eu mais gostava era natação… aí apareceu pra eu escolher minha posição sexual preferida, com quatro desenhos de opções. Fechei a janela.

Eu que sou pudica ou é realmente too much information? “Eu errei o teste, porque achei que você gostava de ladinho e…” Não.

Newton pega ninguém

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Um trecho do wikipedia:

Newton, em seus últimos dias, passou por diversos problemas renais que culminaram com sua morte. No lado mais pessoal, existem biógrafos que afirmam que ele teria morrido virgem.

Falando assim até parece Newton chorava escondido de madrugada porque se sentia muito sozinho. Newton encalhado, frustrado, BV (boca virgem). Ah, parem. Assim somos nós, eu e você – quem manda a gente pensar em sexo, por isso que não descobrimos lei nenhuma. Pra mim é claramente incompatível, por pura falta de tempo e energia, que Newton tivesse as mesmas preocupações e frustrações que o homem comum. Sabiam que ele furou o próprio olho num experimento cientifico? Ele queria entender, queria saber se funcionava como uma lente. Claro que ele perdeu a visão daquele olho. Agora me diz se uma pessoa que tão ansiosa pelo funcionamento do olho é capaz de furar o seu próprio é normal, mediana.

Ele era humano, então não me arrisco a crer que ele fosse totalmente indiferente. Mas pense comigo, ou como ele: Newton obteve reconhecimento ainda em vida. Tinha prestígio, dinheiro, até que era bonitão, ou seja, devia ser bom partido. Não devia ser lá muito sedutor e bom de papo, mas naquela época isso não era pré-requisito. Claro que arranjaria facilmente uma esposa, bastava se propor. Acho que o problema se apresentou para ele da seguinte forma: se eu arranjar uma mulher, ela vai precisar de atenção. Ao invés de passar doze horas por dia fazendo minhas coisas, terei que dispensar algumas com ela. Terei que jantar na mesa. Terei que reparar no vestido, falar coisas bonitas e  – horror dos horrores – ter vida social. O pobre Newton aflito para calcular a mecânica celeste enquanto segura um canapé e ouve o sogro falar sobre galgos. Eu, que não penso nada importante, fico angustiada só de imaginar. Aí Newton decidiu que não era viável e afastou o pensamento, pronto.

 

Desejo

Você está louca, não aguenta mais de desejo, quer ligar pro Fulano. Ok, podemos ligar. Ele pode até estranhar, talvez pergunte se eu tenho mesmo certeza, mas ele não vai se recusar. Ele vai achar ótimo. E se você quer sexo, só sexo, você sabe que vai ser ótimo. Ele chegará rápido, vai estacionar o carro lá na frente, pode até colocar na garagem. Um carrão, a vizinhança vai botar olho. Ele vai sorrir, te dar um abraço, quem sabe uma conversinha no sofá e todo resto você já sabe. E vai ser bom, sempre foi bom. Se é isso o que você quer, um sexo bom, então vá em frente e peça. Mas só se for só sexo. Porque você sabe que ele vai embora. Você até poderia pedir pra ele passar a noite com você, e quem sabe ele até passasse, mas na manhã seguinte ele iria embora. E você sabe o que o ir embora dele significa. Depois de sair pela porta, o que aconteceu será apagado da memória dele. Ele viverá a vida dele, mais relaxado e tal, mas sem se sentir nem um pouco mais ligado a você. Para ele, tudo continuará na mesma, um sexo consensual entre adultos – e para você? Porque se vê-lo atravessar aquela porta for doloroso, se você estiver esperando que os sentimentos ou a relação de vocês mude depois, não é só sexo que você quer. Você quer algo mais. Você está pensando no sexo como um meio e não como um fim. Esse algo mais ele não é capaz de te dar. Ele não quer te dar e ponto final. Quem sabe outro dia, em outro momento, com outra mulher… mas isso não vem ao caso. Não esta noite, não com você. Então é melhor ficar quietinha. Não é só sexo.

Abordagem baiana direta

Quando fui a Salvador no ano passado, e estava passeando na areia da praia e fui abordado por um novinho que achou que eu estava emaconhada quando disse a minha idade, bastou meia hora de respostas lacônicas para ele me dizer:

– Quer fazer sexo comigo?

Minha primeira reação foi cair na risada, de tão surreal que a situação me pareceu. Eu respondi que não e ele foi propondo: vamos fazer um amor gostoso, vamos transar na areia, vamos transar no mar, quero fazer sexo com você, por que você não quer, você me achou feio?

A abordagem baiana é assim, direta. Isso porque eu não dei bola pra ele. Mas também não cortei da maneira explícita. De acordo com meu irmão, o jeito de fazer um baiano se afastar é dizendo com todas as letras: não quero não, você está me incomodando, vai embora daqui. Pra mim, por mais que eu saiba, é muito difícil falar assim. Isso seria o grau máximo de rudeza, daquele que eu só uso quando perco a calma. São momentos como esse que me faziam sentir a própria Leite Quente quando vou a Salvador.
(Percebam que falo apenas de Salvador. Não sei dizer se o resto do nordeste é assim.)
“Doentio mesmo são aqueles anúncios de prostitutas no orelhão. Aquilo sim é chocante”, defendeu meu irmão. Na primeira vez que ele disse isso, eu defendi os papeizinhos. Disse que em São Paulo também tinha, que era normal. Que anormal mesmo era propor sexo pra uma estranha na lata. Agora já tendo a concordar com ele. Talvez seja melhor assim, às claras, assumindo o próprio desejo. E como não conseguimos fazer isso cá embaixo, ficamos mais escondidos e o que deixa de ver a luz do dia acaba adquirindo contornos bizarros, com fotos de bundas enquanto você telefona.

A casa que eu fiquei tinha um rádio ligado o dia inteiro, às vezes concorrendo com a música que vinha da rua. É muito baiano isso, de qualquer reuniãozinha, às vezes de duas pessoas, ser motivo pra colocar um som no último volume. Coisa que aqui já nos faz chamar a polícia. Cada vez que tocava uma música dessas, eu ria. As letras são muito diretas. É muito eles, é muito baiano. Talvez justamente por isso não consiga chegar aqui.

Curtas sobre menos, muito menos

Não adianta ter os lindos cabelos sedosos, olhos azuis, cintura boa de pegar e até mesmo ter uma sintonia incrível na cama. Você não é irresistível. É, no máximo… uma preferência? Porque existem outros cabelos, olhos e cinturas, que são até de outras cores e formatos, porque a variedade também é atraente. O elemento que torna uma pessoa sexualmente irresistível não está no físico, e sim no coração. Somente a paixão torna uma pessoa única. Sem paixão, basta dizer tchau. O problema é ter culhões pra ouvir do outro lado: tchau.

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Tentar forçar que o outro nos elogie é sempre ruim, mas tem um método que é particularmente muito ruim: o de se desmerecer. Quando a outra pessoa saca, ele é tão chato e óbvio que não dá vontade de elogiar. O silêncio constrangido grita: Carente! Mas às vezes o outro não saca e acaba comprando a ideia, e ao invés de ganhar um elogio a pessoa ganha um complexo novo. Assim: “Eu sempre uso o cabelo comprido porque acho as minhas orelhas feias, elas são meio de abano”. “Sabe que agora que você falou…”

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Eu continuo, e acho cada vez mais, que a vida é leela. Um lacaniano diria: o ser humano está sempre atrás do gozo. O problema é que algumas formas de gozo nos parecem muito bizarras, incompreensíveis. Há gozo no aparente sofrimento, na manutenção de situações difíceis. Quando a pessoa não quer, quando a situação não lhe dá algum tipo de ganho secundário (pra usar um termo psi), ela sai dali o mais rápido que pode. Se a vida, em leela, é um grande parque de diversões, o que fazer se tem quem goste de ficar o tempo todo no trem fantasma.

Lembrando de uma tetra antiga

Nessas alturas, as feministas já desistiram de mim e eu delas. Mas quando eu surgi, digamos assim, umas bem intencionadas me convidavam pra participar de algumas coisas, frequentar os seus blogs. Numa dessas, parei no blog de uma. Hoje não sei e não quero saber o que continua escrevendo, me parece que continua. Naquela época, as postagens seguiam o seguinte moto perpetuo: ela conhecia um homem. Eles iam pra cama. Iam pra cama de novo, num modo mais sexualmente interessante ainda – aparecia de madrugava, puxava cabelo, agarrava ela no banheiro, etc. Pouco tempo depois ou ela ficava doente, ou carente, ou aparecia num bar quando ele estava com os amigos e, pra surpresa dela, ele não se mostrava disposto a fazer chá, ficar somente conversando, largar a namorada ou assumi-la em público. Aí ela ficava down. Postagens e mais postagens reclamando dos homens machistas e da vida. Ela melhorava, arranjava outro e o ciclo recomeçava. O blog se resumia a isso. Ela não falava de rotina, da família, do trabalho, da ida a padaria, de mais nada.

 

Depois de infinitos posts iguais, um dia ela comentou que estava lendo um livro. E esse livro fez com que ela repensasse suas atitudes. Que ela vinha se envolvendo em situações destrutivas, se machucando e que queria parar de fazer isso. Ela queria parar de se envolver com esses homens que não viam o valor que ela tinha. Disse que queria ajuda, que quem sabe procurasse um psicólogo. Nos comentários eu, muito ingenuamente, apoiei. Disse que nada melhor do que descobrir o que estamos fazendo de errado, que esse é o primeiro passo para mudança, que estava torcendo, etc.

 

Dias depois um post neste tom: “um dia desses eu estava mal, e fiz um post muito depressivo. Aí uma pessoa que vocês acham que é esclarecida, que posa de feminista, veio tripudiar em cima de mim, veio me criticar, dizer que eu estava errada, veio toda moralista dizer que não devo me envolver com os homens da forma livre como me envolvo”. E daí pra baixo. Nem preciso dizer o quanto fiquei feliz – feliz em deixar de seguir e esquecer que a criatura existe. Sobre o meu moralismo, mantenho e sustento: quem se sente bem com suas escolhas não precisa reclamar delas o tempo todo.

Eu sei

Já me contaram e eu já percebi que as coisas não são como eram quando eu saí do mercado por casar. Ou talvez até já fossem, mas passar um período casada pra dez anos depois estar solteira é como dormir adolescente e acordar quarentona. Eu sei que o mundo está assim, que ninguém é de ninguém, que a palavra namoro soa forte demais, soa mofo, soa compromisso, soa alianças e estamos já tão desapegados, quase um filme de ficção científica. Que velha sou, por favor, que eu guarde pra mim todo meu romantismo, minha paixão pelo cheiro de quem eu gosto, minha necessidade de abraçar, sexualmente e principalmente não sexualmente, apenas por gostar do calor e todo carinho que estar no meio dos braços de alguém transmite. Ontem fui parar num concerto de jazz, e digo que fui parar porque só fui porque a Adri insistiu, e a Adri só existe porque um dia nos apresentaram, e no dia seguinte estávamos juntas numa festa dos amigos dela e eu não conhecia ninguém, e falamos de nossas vidas complicadas. É como se tudo tivesse ficado mais intenso e inesperado desde que me separei. Agora nada me impede de falar com estranhos, de aparecer em festas, de assistir espetáculos de jazz. Porque ele sim era uma pessoa mais normal, que não se apegava facilmente, que tinha vergonha na cara pra não ir assim na casa dos outros e, principalmente, detestava jazz. Ela me deu carona, mas eu não teria problema nenhum em voltar de ônibus, porque me tornei amiga da noite, das ruas escuras e dos ônibus noturnos. Em uma semana comi dois hamburgueres vegetarianos iguais no Dom Corleone, o primeiro porque vários amigos foram lá e não deixamos ninguém conversar direito com as nossas risadas e o segundo porque eu estava na fossa, e se bebesse teria enchido a cara naquele dia. Foi a primeira vez na vida que mobilizei as pessoas em torno da minha dor de amor. Mas, veja só, como são inocentes meus novos programas, minhas fossas, minhas dores. Eu sei que poderia muito mais, eu sei que poderia começar agora. Assim como agora eu sei que o que ele me oferecia nem era tão pouco assim, em comparação com o tão pouco que hoje se cobra. Um telefonema, uma trepada mensal, arranjar vários pra evitar de se apaixonar por um, ou se apaixonar por todos e desejar que algum deles fique. Eu ouço minhas músicas, eu danço pela sala, eu ando no sol e me pergunto se mais ninguém sente as coisas que eu sinto, como eu sinto. Eu sei que eu sou adulta, eu sei que ele vai voltar, eu sei que o jazz é problema meu, eu sei que seria tão bom crescer, eu sei que o mundo é assim, eu sei que não me custaria nada. Um pouco de prazer, meu bem, entre amigos. Mas o que fazer se meu peito começou a doer, igualzinho quando eu me separei. Igualzinho. O mesmo medo e desamor. Então por mais que eu saiba, que eu concorde, que eu queria, que eu seja adulta, que eu aceite e ache tudo muito funcional, não vai dar. Meu peito dói.

Curtas de idiotices amorosas

Sexo, essa sacanagem que a natureza inventou para nos obrigar a trazer o outro para nossas vidas. Senão, bastava assinar a HBO e estava todo mundo feliz, cada um na sua casa.

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Miguinha sofredora não cansa de escrever que quando o Fulano perceber o que perdeu, ah, aí sim hein, que dolor. Não dá pra jogar na cara, mas se tem uma coisa que nunca acontece no mundo é essa: a pessoa que nos dispensou “acordar”. Porque quem dispensou sempre sabe o que está fazendo. Ele não viu, não quer ver e nem nunca verá nada demais em você. Simples e duro assim.

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Sinopse de um livro de Sidney Sheldon, que li na adolescência: moça ingênua é seduzida por um piloto de avião. Depois de tórridas semanas, o cara some e ela descobre que foi enganada. De mocinha ingênua ela passa a sedutora-predadora profissional e vai conseguindo homens cada vez mais poderosos. Quando está no auge, contrata o piloto que a enganou. “Ela havia imaginado” – fingindo agora que estou copiando o livro – “aquele encontro de várias maneiras. Imaginou ele sem fala, sem saber como reagir diante dela, ciente de que havia desgraçado sua vida. Quem sabe ele nem a conseguisse encarar, quisesse se manter longe, até mesmo pra fugir do desejo de tocar uma mulher que um dia foi dele e agora lhe era proibida. Ou então, cafajeste do jeito que era, podia se sentir confiante e querer reconquistá-la. De todas as cenas, o que ela nunca havia imaginado é que ele simplesmente não a reconheceria. (….) É que foram tantas”. Cara. Cara.

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A Fal, mais que maravilhosa disse: “Bancar o idiota por amor é da vida. Se você nunca bancou o idiota por amor, você não viveu. O que não dá é pra ficar bancando o idiota sem amor. Só pra ser isso mesmo, um idiota. Aí, né. Oi.”

(Preciso continuar escrevendo? Já lhes dei Fal, vocês estão mais do que bem servidos.)

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Preciso complementar a frase anterior, sobre o ser idiota, porque tá frequente demais no mundo. HÁ o direito de ser idiota, de correr atrás, de agarrar no peito, pijama, nos pés e ao pé da cama. Ligar, mandar recado, bolar estratégias, correr atrás, pagar macumbeiro, etc. Só que um dia, por mais que demore, a insanidade amorosa passa. Aí a pessoa se toca das besteiras e de todo tempo desperdiçado. O arrependimento do depois é tãããããão grande. Cada gesto ridículo persegue a pessoa de um jeito chiclete que dói a alma. É de querer mudar de cidade e de nome, querer morrer. Ou que ele morra, só pra deixar de ser a prova viva da nossa idiotice. Então, cuidado.

Simpatia, ex e sexo

Não sei qual das coisas absolutamente normais eu disse, normais no sentido de que eu as diria inocentemente para qualquer um, que fez com que minha médica me falasse, espontaneamente, que eu sou uma pessoa muito simpática. Vai ver que sou. Eu tinha é que conseguir arranjar uma maneira de ganhar dinheiro com isso.

“Dá pra virar amiga de aluguel, igual o teu amigo Alessandro“. “Pra mulheres isso costuma ter outro nome” “As gueixas não dormem com os seus clientes”. Trollagem de ex – a melhor trollagem.

E já que o assunto é esse, tenho que dizer: se descobrir capaz de fazer sexo sem estar apaixonada é uma das coisas mais libertadoras que existem. Mais não digo.

Curtas de amor & sexo

Andei pensando e cheguei à conclusão que o meu (só meu?) problema com amizade colorida é puramente narcisista: não suportaria a ideia de alguém partilhar da minha intimidade e depois sair igual. Tem que ficar loucamente apaixonado, claro.

 

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Assim como dói enorme e absurdamente quando do lado de cá houve um grande amor e do lado de lá apenas mais uma foda. Se do lado de cá houve amor, houve luzes, houve borboletas na barriga, houve felicidade. Podemos dizer que o outro lado saiu perdendo, que o que vale nessa vida é a capacidade de amar e criar boas lembranças. Mas poxa. Dói demais, deve ser a coisa que mais dói no mundo. É daquelas que joga o cabra no chão e pode ser que ele nunca mais levante.

 

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A espera é uma coisa complicada. Esperar até esperamos, mas achamos que isso gera bônus. Como se fosse uma planta, que quanto mais você espera, maior ela fica, ou seja, melhor vai ser o que vem depois. “Tenho esperado muito tempo, então não pode ser esse comunzinho aí, tem que ser espetacular”. Não é assim que funciona. Às vezes não tem planta nenhuma.

 

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Eu me pego – veja porque sei que o ateísmo está além da minha capacidade – querendo chantagear o Destino. “Se até dia tal, não aparecer alguém assim, assim e assim, eu vou fazer isso e aquilo.” Claro que o Destino boceja, a vida segue e não acontece nem uma coisa e nem outra.

Lá atrás

 

Em nenhum momento ela usou a palavra amor ou mágoa. Ela se limitou a descrever a situação: como o conheceu, o que viveram juntos, as declarações de amor, as promessas, a ruptura sem explicações. Mas as duas palavras estavam lá, no seu tom de voz, no seu sofrimento. E sua amiga, tão mais experiente em anos e relacionamentos, apenas disse:

– Eu fico até sem graça, sem saber o que dizer. Há muito tempo eu não sei o que é gostar de alguém desse jeito.

À medida que me afasto da adolescência, eu olho para trás – e vejo todos olhando para trás também. Há algo lá que não somos mais e que gostaríamos de ser. Adivinhamos que tem a ver com a juventude, e tentamos nos fazer mais jovens fisicamente. Ou buscamos essa juventude através de terceiros, sejam eles filhos ou parceiros mais jovens. Me pergunto até se esse nojo e violência que é a pedofilia também não tenha raiz nessa busca. Alguns identificam que a grande questão é o risco. Um adulto é capaz de se antecipar muito mais, e isso tira o risco e com a falta do risco perdemos a adrenalina. Uma maneira é apelar para esportes radicais. Ou radicalizar na vida, mergulhando de cabeça em algo que nem nos cabe mais, numa atitude bastante auto-destrutiva. Quem sabe o grande prazer que sentíamos nas festas de faculdade e namoros na praia fosse a descoberta do sexo. Nesse caso, sem as nóias e proibições da adolescência, um adulto pode fazer sexo com muito mais liberdade. Pode repetir e repetir, cada vez mais, com pessoas ainda mais belas, mais jovens, com mais pessoas, com fantasias cada vez mais sofisticadas. Há várias formas de ver, há várias formas de buscar. Existem até os que não fazem nada, por acreditarem ser inútil. O fato é que há algo lá atrás que se perde com o tempo. Um adulto rejuvenescido e descolado não passa de uma farsa que não engana ninguém. Envelhecemos e ganhamos estabilidade, previsão, experiência, dinheiro, auto-conhecimento, força, estratégias, influência e o diabo a quatro. Ganhamos tanto e perdemos a cor, a capacidade de tornar a vida interessante. Perdemos a intensidade.