Velho, velho e gift

Fiquei muito emocionada quando vi esta propaganda com o Elton John. Mandei pra amiga cujo filho está aprendendo guitarra, e sei que ela se identifica muito com o final da propaganda. Pra mim a propaganda toca mais de outra forma, legado é um tema importante pra mim. Talvez por sempre ter tido a tendência de fazer amigos mais velhos. Não falo em legado num sentido financeiro, e sim como história construída, o que você pensa da sua própria trajetória quando olha para trás. Aquele sorrisinho do Elton John no final da propaganda diz tudo. Uma das coisas que me fez querer chacoalhar e gritar no ouvido de algumas pessoas neste período recente da nossa história: o que você pensará a respeito das suas escolhas quando olhar para trás?

Ainda sobre velhice: fui, com amigos, fazer uma apresentação num asilo. Era o mais bonito e bem cuidado e feliz dentro das circunstâncias, mas era um asilo. Um lugar aonde vão pessoas que, na sua maioria, estão impossibilitadas de cuidar de si mesmas. E me vi menos tocada, menos emocionada que os outros. Talvez por já ter acompanhado deterioração física de perto, de saber o quanto o mundo se estreita. Ou, antes disso ainda, eu pesquisei cegos. Uma das minhas entrevistadas, a que tinha a história mais dolorosa, me ensinou que todo mundo tem limitações, a diferença é que a deles está evidente. Acho que para trabalhar com o sofrimento precisa ter uma aceitação muito profunda do que ela me disse.

O último ponto, voltando pra propaganda. Passei a ficar doida por Your Song, como quem ouve pela primeira vez. Meu verso preferido é: My gift is my song/ This one for you. Uma tradução rápida seria: Meu presente é a minha música/ Esta é para você. Mas gift também significa dom. Do mesmo modo, com este blog, me sinto dizendo continuamente: My gift is (to) write/ this one for you.

Anúncios

O que toca

despedida

Não gosto de ler sobre guerra no geral e comecei a ler o A guerra não tem rosto de mulher, da Svetlana Aleksiévitch, porque uma amiga jurou que é um livro essencial e que se devora em poucos dias. Como qualquer livro de guerra, a lista de barbaridades e situações horríveis é abundante – estupros, mutilações, canibalismo, etc. Tudo lá, se for levar a sério, é de chorar. Mas eu fui lendo – estou lendo – meio incólume, passando pelo horror com o olhar de quem já esperava aquilo. Aí, num certo momento, percebo que uma coisa vai subindo, subindo, e tenho que me interromper. As mães não choravam, elas uivavam de dor ao se despedir dos filhos. Uivar de dor. Eu que nem tenho filhos me vi transportada a estações de trem e mães entregando sua própria carne para ser esmagada, perder toda inocência, quem sabe nunca mais voltar.

Em breve, crítica no Caminhando por Fora.

Mutilação

o2bvisconde2bim2b2

Me disseram que todo grande autor – ou artista – é um mutilado. Neste sentido aqui:

Eu também já fui inteiro e, então, as coisas para mim pareciam naturais e confusas, estúpidas como o ar; acreditava ver tudo, quando na realidade só via a casca. Se você se reduzir à metade de si mesmo, eu lhe asseguro, meu rapaz, passará a compreender coisas que estão além da inteligência comum dos cérebros inteiros. Terá perdido metade de si e do mundo, mas a metade que restar será mil vezes mais profunda e mais preciosa. E então você desejará que tudo seja partido e despedaçado à sua imagem, porque a beleza e a sabedoria e a justiça só existem naquilo que é feito aos pedaços.

Italo Calvino/ Visconde partido ao meio

Ainda estou pensando.

Sem carne

buffet

Eu fui praticamente a última pessoa a me servir. Tive que me trocar – havia acabado de dançar – e quando cheguei o buffet já estava quase todo no fim. Como já sou de casa, perguntei pros meus anfitriões o que eu poderia comer, o que tinha carne ou não. Eu me sentei no balcão ao lado de uma moça que eu já conhecia de vista. Não lembro qual das duas puxou papo, só sei que ela me disse:

-Eu também não como carne.

-Existem diversos motivos para não se comer carne – olha, nem eu sei de onde tiro essas perguntas – qual é o seu?

-O sofrimento animal.

Ela me falou brevemente do abate, do quanto os animais sofrem. Devia ter umas cinco pessoas ouvindo a nossa conversa, todas elas carnívoras. Eu disse que comia carne de peixe, ela completou dizendo: “Eles morrem da forma mais bárbara de todas, por asfixia. Os caranguejos são queimados vivos em panelas” e eu quase completei: “Eu sei, a gente preparava caranguejo na casa do meu pai”. De um lado, aquilo tudo foi tão inadequado – aquela pregação contra a carne no meio de carnívoros e que não poupou nem a mim. Por outro, eu senti o quanto aquela questão a emocionava, talvez da forma como todos nós deveríamos nos emocionar. Era uma pessoa sensível que sentia o sofrimento dos animais como se fossem a sua própria carne. A sensibilidade, a inadequação, a necessidade maior do que as convenções de tentar pregar no vazio – achei bonito.

Menos impacto

Olho para trás e vejo que os documentários que mais me marcaram ultimamente – Muito além do peso, Escolarizando o mundo e agora The true cost – têm a ver com as mudanças radicais no nosso modo de vida causadas pelo capitalismo. E eu nada posso contra o capitalismo. Depois de ver The true cost, tive que passar no shopping porque tem um caixa eletrônico lá, e ver aquelas lojas, as roupas (52 coleções por ano!) e ter noção do que está acontecendo a todas as pessoas aqui (“Estamos cada vez mais pobres, mas não sentimos isso porque agora podemos comprar mais camisas”) e do outro lado do mundo (além da nada básica exploração financeira, temos degradação ambiental, epidemia de suicídio, gerações de crianças com problemas mentais e motores pela contaminação) é demais. Dá vontade de parar as pessoas na rua, gritar, quebrar uma vitrine, sei lá. Mas a gente não apenas não pode fazer isso como também não tem nem como evitar comprar numa dessas lojas. Eu lembro que quando saiu o anúncio de trabalho escravo na Zara, muitas pessoas (eu inclusive) se propuseram a não comprar mais lá. Algumas mantiveram a determinação mais tempo, outras menos, mas no fim todo mundo viu que se não for a Zara é outra loja de departamentos, ou até mesmo o camelô da esquina, porque não há mais roupas feitas sem algum tipo de exploração.

Os especialistas apontam que o problema é mudar todo sistema, e eu nada posso no sentido de mudar o sistema. Mas, ao mesmo tempo, acho que não podemos assumir a luta como perdida e não fazer nada. Eu tento aderir a umas causas, pra pelo menos não chafurdar alegre e cegamente em tudo o que me é oferecido. Idealmente, bom seria não ter que fazer nada que gere lucro, nada que contribua com algum tipo de destruição – mas aí eu seria reduzida à mendicância. Não sou ninguém, pro sistema me cuspir é muito fácil. Quando escrevi meu post sobre andar a pé, uma celebridade de internet me acusou de ser ecochata, que nem todo mundo pode viver uma vida sem carro. Eu concordo totalmente, nem todo mundo pode. Hoje eu não preciso, amanhã posso ter um emprego ou uma outra necessidade que me obrigue. Se viver sem carro começar a ficar prejudicial demais, fora de mão demais, terei. Então eu entro nas causas que eu posso, nas que eu consigo levar adiante. Outros pessoas, outras causas – o que é bom, porque se todos adotassem as mesmas duas ou três, como ficaria o resto? Andar a pé eu consigo, comida mais natural e orgânica não, porque sou lamentável na cozinha. Acho triste demais a obrigação que pesa sobre as mulheres de serem sempre jovens e magras, por isso escrevo sobre o assunto, replico links, vigio meus conceitos e minhas atitudes. O que me parece importante é tentar, nem que seja por pura obrigação moral com a outra ponta do nosso consumo.

Pequena

Venho me sentindo pequena. Tenho me sentindo uma pobre mulher, uma pobre divorciada, uma pobre solitária e pobre mulher. Tenho desejado um homem, sim, aquela frase – quem dera tivesse agora um homem pra ir lá e cuidar disso pra mim. Um homem com sua força arquetípica de homem, uma voz trovejante e uma agressividade natural. Tudo o que em mim é vontade de chorar, nele seria força para agir. Porque tem horas que ser frágil e feminina nada mais são do que defeitos. Eu sou tão pequena, tão mulherzinha, tão só. Preciso do oposto, onde ele está? Quero me enrolar como semente e voltar para terra enquanto um homem briga por mim.

Gente-personagem

Talvez pela escrita ser tão importante na minha vida, eu realmente nos vejo como personagens literários. Cada um, inclusive, tem sua nota fundamental, aquela que permeia todas as suas ações e serve de título da obra. Uns têm vida recheada de casos amorosos, outros de reviravoltas financeiras, uns galgam um a um os degraus do sucesso, enquanto outros já nascem com tudo e abandonam para se tornarem Budas… isso para não falar dos proustianos, que precisam apenas do cheiro de bolinhos para sentir tudo com muita intensidade. Então não sei, realmente, como formular uma regra para a vida. Não sei se existe uma solução definitiva, por mais bacana que ela pareça, seja Deus ou carpe diem. O que eu intuo é que protagonistas – e todos somos, pelo menos para nós mesmos – não são para nascer, crescer, casar, ser feliz para sempre e morrer. É o que a gente tenta, não é? Talvez gente-personagem seja feita para quebrar, cair de cara no chão, experimentar pelo menos uma vez a solidão profunda. Avançar velozmente e se descobrir errado, fugir e dar de frente com o próprio destino, como Édipos. Quem sabe a maior tragédia não seja o sofrimento, e sim não saber qual deles abraçar.

(Esta versão, sem legenda, é mais legal)

Curtas sobre menos, muito menos

Não adianta ter os lindos cabelos sedosos, olhos azuis, cintura boa de pegar e até mesmo ter uma sintonia incrível na cama. Você não é irresistível. É, no máximo… uma preferência? Porque existem outros cabelos, olhos e cinturas, que são até de outras cores e formatos, porque a variedade também é atraente. O elemento que torna uma pessoa sexualmente irresistível não está no físico, e sim no coração. Somente a paixão torna uma pessoa única. Sem paixão, basta dizer tchau. O problema é ter culhões pra ouvir do outro lado: tchau.

.oOo.

Tentar forçar que o outro nos elogie é sempre ruim, mas tem um método que é particularmente muito ruim: o de se desmerecer. Quando a outra pessoa saca, ele é tão chato e óbvio que não dá vontade de elogiar. O silêncio constrangido grita: Carente! Mas às vezes o outro não saca e acaba comprando a ideia, e ao invés de ganhar um elogio a pessoa ganha um complexo novo. Assim: “Eu sempre uso o cabelo comprido porque acho as minhas orelhas feias, elas são meio de abano”. “Sabe que agora que você falou…”

.oOo.

Eu continuo, e acho cada vez mais, que a vida é leela. Um lacaniano diria: o ser humano está sempre atrás do gozo. O problema é que algumas formas de gozo nos parecem muito bizarras, incompreensíveis. Há gozo no aparente sofrimento, na manutenção de situações difíceis. Quando a pessoa não quer, quando a situação não lhe dá algum tipo de ganho secundário (pra usar um termo psi), ela sai dali o mais rápido que pode. Se a vida, em leela, é um grande parque de diversões, o que fazer se tem quem goste de ficar o tempo todo no trem fantasma.

Boi preto e gata carente

Uma vez eu vi uma entrevista com o finado Clodovil, em que lá pelas tantas ele afirma que Leonardo Di Caprio era gay. O jornalista ficou espantado, e até relembrou que, até aquela data, o Di Caprio era namorado da Giseli Bündchen. Falar da sexualidade de celebridades brasileiras ainda vá lá, mas como é que o Clodovil se atrevia a falar uma coisa dessas de uma celebridade hollywoodiana, que ele nunca tinha visto na vida? Clô disse, simplesmente:

– Boi preto reconhece boi preto.

.oOo.

 

Minha querida tia Hulda sempre tem um casal de gatos em casa. Já está na segunda geração. Pra não ter um criadouro de gatos, sempre mandam o gato castrar. E, mesmo castrado, ele sempre é capaz de satisfazer, pelo menos um pouco, as necessidades da gata. A gata, quando entra no cio, começa a miar escandalosamente na janela. Minha tia retira a bicha da janela e lhe diz:
– Não não não, pode parar com isso! Essa não foi a educação que eu lhe dei. Mamãe também tem necessidades e fica carente, mas eu não fico na janela gritando isso pra vizinhança inteira. Contenha-se!

 

.oOo.

Desde que fiquei triste, as visitas a este blog tem bombado. É muito boi preto.

Essa da gata me lembra uma amiga. Ela tem miado tanto na janela, que tenho vontade de dizer – Escuta aqui, minha filha. Eu que separei não estou chiando tanto. Vamos manter pelo menos a dignidade?

Pensem nas crianças

Na minha infância, nos anos 80, o maior símbolo de miséria, a condição absoluta de falta, eram as imagens das crianças africanas. Elas nos olhavam naquelas fotos com olhos imensos e ossos saltados. Procurei fotos dessas pra ilustrar o post e nem consegui selecionar, é realmente muito chocante. Quando eu, criança, fazia alguma birra, achava ruim não ter alguma coisa ou reclamava da comida, minha mãe me jogava na cara as crianças africanas – Você reclamando que não gosta do feijão, enquanto as crianças da África…. Eu ficava louca da vida, claro. Nada a ver apelar para crianças da África, tão distantes de mim e do meu feijão.

Não sei se é efeito tardio do que a minha mãe queria fazer ou se é algo próprio da maturidade, mas eu agora eu penso nelas. Penso nas circunstâncias totalmente aleatórias que fazem uns terem tudo e outros não terem nada, de uns voltarem tranquilos para casa e outros não. Quando meus sofrimentos me parecem demais, quando parece que sou a criatura que mais sofre na Terra, eu vejo jornal e penso naqueles que tem problemas muito maiores. Penso nos que perderam tudo, penso nas vítimas de violência, penso nos problemas sem solução. E digo: pára de sofrer com besteira, sua ingrata.

Sofrimento

Quando meu irmão sofreu o acidente, e eu fiquei meses indo ao hospital, eu me conscientizei do importante trabalho de médicos e enfermeiras, da quantidade de pessoas que são internadas todos os dias, o sofrimento da própria pessoa e da família. Quando acontece uma coisa dessas com quem a gente ama, nossa primeira vontade é passar por cima do mundo pra que ele seja atendido. Só que estar em corredores de hospital faz com que você ouça muito mais histórias, de pessoas que estão há mais tempo, que sofreram mais, que têm mais sequelas e menos recursos. Aí o nosso sofrimento, embora grande, parece mais um sofrimento no mar de sofrimento. Naquela época eu me propus a não perder o vínculo com o hospital que o atendeu – Hospital Evangélico – e queria ser voluntária. Pra que mesmo com o meu irmão já restabelecido, eu não perdesse a lembrança daquele sofrimento.

Não foi o que eu fiz. Cheguei a fazer o curso de voluntária e não continuei por dois grandes motivos. O primeiro eu não conseguiria disfarçar a minha falta de adesão às crenças cristãs – o que me impediria de ser voluntária num hospital evangélico mas que poderia me levar a ser voluntária em outros hospitais. O outro motivo é a maneira como o sofrimento do hospital me afeta. Sou impressionável com sangue, com dor, com tudo. Quem trabalha na área de saúde precisa fazer a separação saudável do que vê no trabalho e do que é a sua vida. Quando quis mergulhar no sofrimento para nunca esquecê-lo, me dei conta de que é preciso deixá-lo de lado. Sabemos que a morte pode vir a qualquer momento, mas é um inferno estar sempre ciente disso. A felicidade tem a ver com uma certa ilusão. Estar com o sofrimento sempre diante de mim apenas tornaria a minha vida mais pesada e o mundo não precisa de mais gente infeliz. É preciso lidar com o sofrimento, mas também é preciso viver o outro lado.

Sofrimento canino

Um dia li um manifesto de amor pelos cães, que adoraria colocar aqui se lembrasse onde foi. Num dos itens dizia que era importante estar com o cachorro nos seus momentos de dor. Que por mais que pro dono seja difícil ver o seu cachorro levar uma injeção, pro cachorro é ainda mais difícil ser deixado a sós pra receber uma picada dolorosa que ele nem sabe pra quê. Nesse sentido donos de cães se sentem um pouco como pais de bebês, porque quando eles sentem dor não dá pra perguntar aonde e nem porquê. E quando precisamos infringir alguma dor, porque será melhor pra ele a longo prazo, também não podemos explicar, podemos apenas tentar suavizar. Os cães sofrem sempre sem saber o porquê. E isso não pode ser evitado por mais amor que exista.

Mas nem sempre dá pra explicar as coisas, e não estou falando apenas de lidar com seres de outra espécie. Algumas pessoas fazem questão de nunca ouvirem explicações. Porque pressentem as explicações e saem correndo, porque deturpam o sentido de tudo que lhes é dirigido, porque se vitimizam demais, porque se colocam num pedestal, enfim, os motivos são muitos. Ou o problema pode ser do lado que devia falar: porque não gosta de se explicar, porque acha que não deve explicações, porque quer ser ouvido de uma maneira muito especial. Aí você combina as duas situações: uma pessoa que não ouve, um fato, uma pessoa com pouca disposição para explicar. O resultado disso é um sofrimento canino.

PS: A Terla não deixou por menos e me mandou os mandamentos que eu citei no post. Veja aqui.

Solidariedade estranha

Quando uma mulher está com um cisto enorme no seio, faz biópsia e ela dá um resultado chocante e muito ruim, e a mulher tem que tirar o seio, é sinal de que ela está com um tumor maligno, né? Se sim, eu conheço uma mulher que está com um tumor maligno. E finjo que não sei. Na verdade essa história se arrasta há quase um ano, quando apareceu no seio um inchaço que deixou a mama tão sensível que não dava para encostar. O inchaço foi crescendo e se tornou tão grande que ocupa quase o seio inteiro. Ela foi à vários médicos, usou de métodos alternativos e a parte inchada endureceu e parou de doer. Os médicos não estavam muito seguros pra operar, por causa do tamanho. Entre tirar ou não tirar, outro médico pediu outra biópsia e a partir daí eu apenas vi e ouvi coisas. Vi-a recebendo a solidariedade de muitas pessoas, vi dizendo que foi um choque e que agora se conformou, que a operação já está marcada. Como não nos encontramos em horários que normalmente nos veríamos, não sei se ela não me contou por simples desencontros ou decisão não me contar. Acredito na primeira hipótese, porque ela não também nunca escondeu. E eu não perguntei.

 

Pode parecer puro comodismo ou insensibilidade, mas faço isso por solidariedade. Uma solidariedade estranha, eu sei, mas na qual eu acredito. É que quando meu irmão sofreu acidente de carro, foi parar na UTI, quase morreu e etc, minha vida ficou interrompida. Fui eu quem assumi essa carga durante os primeiros meses. Era eu que o visitava, era eu que falava com os médicos, era eu quem passava a notícia para os outros. Por isso todos à minha volta sabiam o que estava acontecendo – minha família, a família do meu noivo, meus amigos, os vizinhos, os porteiros, pessoas que eu nem conheço. Sempre que eu precisava interagir com alguém, o outro me olhava com aquele olhar – um olhar solidário, um olhar de pena, um olhar de alguém de quem olha pra alguém numa fase difícil. Não que isso tudo não fosse verdade e eu não chorasse todos os dias, mas ver o meu drama refletido no olhar dos outros às vezes me era pesado demais. Às vezes eu precisava, e outras vezes não. Momentos de grande sofrimento são assim, nada nunca satisfaz completamente. Eu precisava sim de compreensão, mas em alguns momentos eu sentia falta de ser uma pessoa comum. De que me tratassem normalmente, que me falassem trivialidades, que em algum momento do meu dia eu não fosse aquela-cujo-irmão-está-entre-a-vida-e-a-morte.

 

Eu sou a que conversa com ela sobre as 25 maneiras de amarrar um lenço, ou coisas da TV. Para perguntar da operação, ela já tem todos os outros.

As dores

Eu fico assustada com pessoas que acabaram de passar por um momento muito difícil – separação, morte, destruição dos sonhos – e estão por aí, badalando. Depois a pessoa te conta, reservadamente, que está tomando anti-depressivos e que ficar em casa é uma tortura. A fuga se dá pela felicidade constante, pela necessidade de estar acompanhada e tomar remédios de tarja preta. Com o tempo, a pessoa vai tirando a medicação (ou não…). O objetivo é olhar para trás e não ter tido um único prejuízo na época difícil – ele deve ser tão alegre e produtivo quanto qualquer outro. O mercado de trabalho, de amigos e de namoros não perdoa quem fica mais de uma semana triste; é preciso rejuvenescer, socializar, levantar.

Penso nas gerações anteriores, nas Anas Terra da minha família e na dos outros. Pessoas que tiveram perdas muito grandes e nunca apelaram para remédios, que nem existiam antes. Elas nunca chegaram perto de se matar; nunca receberam o dignóstico de depressão – o que não quer dizer que elas nunca tenham ficado tristes. Os lutos eram simbolizados por suas roupas pretas e duravam anos. Era até feio freqüentar eventos sociais nos primeiros meses. Assim como um bom bordado, nenhuma dor era encerrada em poucos dias. Tenho certeza que a fibra das nossas mães e avós tem a ver com tempo e com aceitação do sofrimento.

Sofrimento filho da puta

Estou sofrendo e não é pouco. Nem tem muito o que dizer sobre isso, vai ser banal. Esse intervalo – que parece eterno – entre a minha segunda faculdade e um futuro emprego está me matando. Na última vez que passei por isso eu fiquei deprimida durante mais de 6 meses, engordei muito (deve ter sido uns 10 kg, eu me recusava a me pesar) e comecei outra ocupação… que até hoje não me remunera. Tendo dizer pra mim mesma que agora a situação é totalmente nova, mas vai convencer o inconsciente disso…
Acho que só estou escrevendo isso porque preciso explicar pra algumas pessoas que quando eu fico mal eu me fecho. Normalmente meus amigos enlouquecem, acham que é algo pessoal, pedem explicações que eu não sou capaz de dar. Aí uma crise pessoal se transforma em uma crise de amizade e eu perco o amigo. As pessoas pedem uma palavra, um gesto, e sou incapaz de qualquer coisa agora que não seja ficar trancada.

É, eu sei que amigos são pra essas coisas, mas eu sou do tipo que não consegue pedir ajuda. Não consigo chorar por aí, não consigo deixar de tratar bem as pessoas, não consigo, não consigo. Eu achei que conseguiria voltar pro orkut e falar com meus amigos e voltar a me sentir a Fernanda de sempre, mas eu não consigo e não consigo. Até rolar alguma coisa, não tem muito o que fazer a não ser tomar Rescue e suportar esses médios e baixos.

O Fim

Não existe regra para O Fim. Mesmo para a mesma pessoa, O Fim não parece ter padrão fixo. Por isso, ele é difícil de prever e, pior ainda, de se produzir.

Algumas vezes, O Fim apenas concretiza algo que havia acabado há muito tempo. Um incidente, uma decepção de meses ou até anos, e que tentou ser contornada. Mas não foi – insidiosamente, ela foi corroendo em silêncio e apenas quando O Fim surge as coisas ficam claras. Por isso, às vezes um declarado fim banal tem por detrás um motivo muito sério, mas que todos pensavam que tinha sido superado.

Às vezes O Fim surge tímido, numa tentativa que ninguém acredita. Parece apenas um tempo, um afastamento… mas que por algum motivo nunca mais volta. A vida mudou imperceptivelmente e O Fim surge, sem maiores dores e mágoas. O mais comum parece ser quando O Fim surge tranqüilo apenas para um dos lados – o outro luta e sofre para que não seja O Fim. Mas luta em vão. Porque há fim e O Fim.

A falta de controle sobre O Fim é um problema. Porque às vezes O Fim é desejado mas nunca é alcançado. Algumas pessoas tem mais difículdade em colocar um Fim do que outras. As mais firmes criam O Fim assim que decidem que esta é a melhor alternativa. Outras, produzem vários fim, que apenas desgastam e fazem com que ela perca todo respeito diante das outras pessoas. Porque O Fim e o fim, quando forçados, têm em comum o efeito de produzir sofrimento. Ninguém fica indiferente diante do fim.