Todos

Meus amigos baladeiros sempre me alertaram: encontrar alguém nesse mundo pra chamar de seu é quase impossível. Porque ninguém quer nada sério, a coisa nunca passa de semanas e telefonema após o sexo é raridade. Os colegas de pesquisa do meu irmão passaram todos pela mesma orientadora, uma mulher famosa por humilhar os orientandos e exigir ser chamada de Doutora. Mas eles a aguentam por ser um grande nome na área e porque seguir a carreira acadêmica é assim mesmo. Uma amiga minha gostava muito de sair com uns amigos nossos, um belo casal de homens. Eles iam ao teatro, ao cinema, reuniões. Aí ela começou a ficar preocupada, porque todos os homens lindos, cultos e interessantes da cidade são gays. O ex-marido de uma amiga trabalhava duro e estudou feito louco até passar num concurso, num desses com salário e benefícios de sonho. Ele despreza quem ganha menos de dez mil por mês, porque o que todos querem é dinheiro; a única diferença entre ele e os outros é admitir em voz alta.
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Escultora

Pode pesquisar, tanto nos grandes nomes como nas exposições da sua cidade: existem poucas escultoras. Temos muitas pintoras e, mais próxima à idéia de três dimensões, muitas ceramistas. Eu achei que seria uma delas, porque gosto muito de mexer com barro. Aí descobri que cerâmica é um trabalho de infinita paciência – sovar bem a argila pra quem não tenha nenhuma bolha, tirar qualquer sujeira que apareça durante o processo, esperar a argila secar, cortar a peça e ocar sempre na mesma espessura, colar a peça e juntar muitas outras para levar ao forno (e pintar, em momentos que não sei bem). Qualquer falha num desses processos pode levar a peça a explodir dentro do forno, o que estraga também as peças que estão em volta.

 

A escultura é um processo mais bruto. Antigamente o termo esculpir era usado apenas para trabalhos em pedra, madeira ou materiais de onde você deve tirar o “excesso”. O trabalho com argila era chamado de modelagem. São maneiras de raciocinar totalmente diferentes, e é claro que modelar é muito mais fácil. Quando você retira do material, não há como voltar atrás. Isso sem falar no trabalho de martelar com um formão, arrancando pedaço por pedaço duma pedra. Os grandes escultores de antigamente tinham ajudantes que faziam a parte mais pesada, fazendo com que a pedra ficasse mais próxima ao formato da peça – o toque de gênio era dado no acabamento fino, nos detalhes. Se não fosse assim, seria inconcebível que eles tivessem conseguido produzir tanto.

 

A modelagem em si é muito menos pesada, o problema é na hora de fazer o molde. Além de braçal, é um trabalho sujo e melequento. O silicone é fedorento e nunca mais sai da roupa; o gesso tem um ponto certo, deve ser aplicado com rapidez e é difícil jogá-lo sobre um molde na vertical; o material do molde refratário une todos os itens anteriores e é tóxico. O molde deve ser virado ao contrário para despejarmos o material e preferencialmente deve ser rodado, ou pelo menos vibrado, pra impedir bolhas. Depois de pronta, a peça sempre apresenta rebarbas, e precisa ser cortada, lixada e polida. Imagine a dificuldade de fazer isso num bronze. Depois de fazer essas coisas, você sairá de lá suado, com a roupa estragada e um cheiro estranho, que as pessoas identificarão como solvente.

 

Eu tinha tudo para não gostar daquilo, mas amei. Quando viram aquele projeto de mulher – nova, tímida, mãos pequenas e macias- acharam que eu choraria diante da primeira unha quebrada. Mas o Armando que vive dentro de mim sempre sonhou em aprender a usar furadeira – “é muito perigoso, vamos ter que chamar um dos seus primos pra furar a parede e colocar o quadro”. Eu me realizava usando a machadinha, o esmeril, a lixadeira. O braço direito do meu professor, o Sadir, corria pra me ajudar e me repreendia cada vez que eu ia mexer em algo pesado. Mesmo sendo mais baixo do que eu. “Por que não me chamou? Eu levanto/empurro/ aperto/ quebro pra você”. No começo eu deixei, porque ele realmente tinha mais força e jeito do que eu. Até que eu entendi que a comodidade me fazia sempre dependende e inábil. Percebi que, pelo menos ali, ou eu era feminina ou eu era respeitada como profissional. Comprei um macacão, ignorei as repreensões do Sadir e passei a fazer apenas coisas que minha força física dava conta.

 

Então eu me tornei escultora.

Uma foto que tinha tudo pra ser linda, numa era pré-maquina digital.
A peça chamava
Mulher Soprando.

Se fôsseis tratar todas as pessoas de acordo com o merecimento de cada uma, quem escaparia da chibata? Tratais deles de acordo com vossa honra e dignidade.

Hamlet/ Shakespeare
ato II cena II
Sempre procurei oferecer o melhor na hora de escrever, mas estou realmente me cansando de ser tão mal lida. Não se surpreendam se o blog deixar de aceitar comentários.

Amor aos bichos

Quando vejo alguém dizendo que deveriam proibir venda de cachorros, fico desconfiada de que é algum entusiasta de amor pelos cachorros. Meu sentimento por essas pessoas oscila entre admiração e desconfiança. Já vi muitos cachorros e morri de pena, mas nunca fui capaz de pegar um bicho de rua e levar pra minha casa, gastar o dinheiro que não tenho para fazer com que ele restitua a saúde e arranjar um novo lar. Admiro esse desapego e a vontade de fazer a diferença. Ao mesmo tempo, vejo as pessoas muito comovidas com os cãezinhos e nem aí com quem passa fome. Ao invés de ser um sentimento de solidariedade universal, algumas pessoas claramente rejeitam a humanidade em favor dos bichos. Reconheço que humanos são detestáveis, ingratos e gostar deles é muito difícil. Mesmo assim, acho que realmente temos um compromisso muito maior com nossa própria espécie.

 

Estava conversando com uma amiga, quando uma moça de olhar bondoso veio nos falar de um lindo cachorro que ela resgatou da rua. Nos mostrou a foto, falou do veterinário, da necessidade de arranjar um lar, essas coisas todas. Aí o papo foi para cachorros e falei da Dúnia, que adotei filhote abandonada numa pet, tão pequena e frágil que cabia na minha mão. Não parecia que ela ficaria grande. Mas ficou muito maior do que esperávamos, hoje pesa quase vinte quilos (seu peso ideal) e vive na parte da frente da casa. Contei que adoraria ter outro cachorro, pra ser irmãozinho dela, mas que o espaço que ela tem eu já considero pequeno. Aí a moça de olhar bondoso falou, da maneira mais bondosa possível, que eu deveria rever minha posição. Que eu assistisse o video de Fulana (claro que esqueci o nome), no youtube, a maior especialista em ética de animais do Brasil (!?). Lá ela fala da importância de um cachorro conviver com outros da sua espécie. Que por mais que a gente os ame, ele precisa de alguém que fale a linguagem dele, que seja como ele. No mesmo video, ela fala que é uma maldade dar apenas ração, que os cães não comiam apenas uma coisa quando estavam na natureza e que ninguém gostaria de viver só de bolacha. Que na hora de dar comida a um cachorro, devemos nos perguntar se dariamos a mesma coisa a uma criança de dois anos.

 

Fiquei sem argumentos. Sei que qualquer coisa que eu alegasse – que eu teria que cozinhar só pra isso, porque aqui em casa cozinhamos muito pouco; que não temos espaço, tempo e nem dinheiro pra outro cachorro; que precisariamos mudar ainda mais a nossa rotina pra nos adaptar – seria pouco diante dos sacrifícios que ela mesma estaria disposta a fazer no meu lugar e certamente faz no seu dia a dia. Se todos esses parâmetros da maior-especialista-em-ética-animal-do-Brasil fossem lei, eu não teria condições de adotar a Dúnia. E não acho que ela estaria melhor se eu não a tivesse adotado e nem que sou uma dona ruim. Uma vez ouvi criticarem o fato de eu ter castrado a Dúnia, porque “impedi a livre manifestação da sexualidade dela”. Acho que as pessoas estão levando a sério demais a história de cachorro ser como um filho.

Ainda careca

Quem viveu os anos 80 sabe o impacto que a Sined O´Connor teve. Graças a ela, eu e milhares de outras mulheres cogitaram seriamente em raspar a cabeça. Mulher de cabeça raspada, pra mim, sempre lembra O`Connor linda, com pele de porcelana e traços perfeitos, olhando para a câmera dizendo “cause nothing compares… to you!”. Eu já cheguei a cortar o cabelo com máquina três e mesmo assim não tive coragem. Porque pra raspar a cabeça a mulher deve ser muito linda e segura. Nem todo mundo é Sined O´Connor ou Natalie Portman. pra raspar e continuar ultra feminina. Ou o contrário, a pessoa pode raspar o cabelo justamente por ser desencanada com vaidade e a opinião do mundo.

 

Nem preciso falar que a carreira de Sined O`Connor afundou de maneira injusta e tudo mais. Um dia, sem querer, vi por aí uma foto recente dela. Foi uma decepção enorme. Sou malvada e decepcionarei vocês também, olha:

Minha decepção não é porque ela ficou velha, feia, enrugada, etc. Porque nem ficou. Meu problema é ela ainda usar o cabelo raspado. Porque isso me dá a impressão de que ela envelheceu mal. Que tantos anos depois ela vive das sobras daquela cantora jovem, que um dia fez sucesso, que um dia foi ícone, e que era careca. Nada me causa mais mal estar do que encontrar uma pessoa anos depois e parecer que nada aconteceu, ela ter a mesma conversa que tinha da última vez que a vi. Algumas pessoas usam até o mesmo corte de cabelo, com as mesmas luzes e o mesmo comprimento! Pode ser uma idéia romântica, mas adoraria reencontrar um amigo e ele falar: “Você não ficou sabendo? Eu larguei tudo e virei trapezista”. Acho horrível pensar que a pessoa escolheu uma faculdade na adolescência e tudo mais foi consequencia disso, que em nenhum momento ela se questionou, que nunca fez algo inesperado. Porque a vida é inesperada. Se a pessoa não mudou de alguma forma, ela está fazendo muita força. E na direção errada.

[Semanas depois desta publicação… Mudar de vida radicalmente é tendência perto dos 40.]

Nomes e rostos

Minha capacidade de esquecer nomes é tão fantástica que deveria ser estudada pela ciência. Não é uma mera dificuldade de esquecer os nomes, fazendo com que eu precise ouvir várias vezes um nome até decorar. Eu simplesmente apago o nome das pessoas. Se eu não tive uma ligação emocional forte com alguém – seja boa ou ruim -, em pouco tempo o nome da pessoa se desfaz da minha lembrança. Como se nunca tivesse existido, como se eu tivesse formatado o HD. Rastrear amigos de infância, ex-colegas de faculdade? Se eu não tiver um lugar para colar, sem chance. Um exemplo: tinha uma na faculdade, uma CDF, que claramente não ia com a minha cara. O nome dela era Lígia. Na mesma época, tinha uma japonesa que fazia musculação no mesmo horário que eu, chamada Lídia. Associei: a japonesa tem quase o mesmo nome daquela-que-me-detesta. Pois bem. A faculdade terminou e uma semana depois reencontro a japonesa. Quem disse que eu lembrava do nome dela? A Lígia, assim como quase todo mundo que estudou comigo, já tinha sido apagada. Foi muito difícil reencontrar o nome dela nos arquivos. Agora não perco mais: aquela-que-me-detestava tem quase o mesmo nome da japonesa.

Minha incapacidade de lembrar dos nomes é inversamente proporcional à minha memória para rostos. Devo ser capaz de reconhecer qualquer pessoa que conviveu comigo, nem que fosse apenas o cara da portaria. Reconheço, andando na rua, pessoas que conviveram comigo há vinte anos atrás. Ou acho que estou reconhecendo alguém e na verdade estou achando que é alguém que conheço virtualmente ou que vi num filme. Qualquer rosto vagamente familiar fica martelando na minha mente, até eu conseguir rastreá-lo. Isso faz com que eu tenha um hobbie estranho, que chega quase a ser uma obsessão: quando vejo um filme ou seriado, tenho que descobrir em que outro lugar vi aquele ator. Faço isso com todos, com qualquer figurante, com aquele que morre nos primeiros minutos do filme. Esses dias estava vendo Law and Order – Special Victims Unit e reconheci a mulher que fazia papel de louca que queria sequestrar uma criança inseminada com o óvulo dela: era a mãe do Marty McFly, De Volta Para o Futuro. E uma das vítimas de Hannibal é o Lucius da série Roma…

Novo blog

Até que eu demorei. Sou chata demais, perfeccionista demais e auto-crítica demais e levei um tempão pra me decidir. Mesmo agora, o faço mais ou menos decidida, só porque que posso desistir. sem maiores perdas. Meu novo blog – Caminhando por fora – é pra dar vazão a outros textos. Aqui sempre falo de coisas subjetivas. Eu sinto falta de comentar sobre livros, teorias, notícias e coisas do mundo lá fora. Espero que seja interessante e que vocês gostem.

 

Off-topic: é um saco fazer layout de dois blogs.

Filhos

Inspirado nela
Não sei se vivo meio fora da realidade, ou se tenho um temperamento tão claramente alheio a conselhos que ninguém mais perde tempo comigo. Provavelmente as duas coisas. O fato é que há anos as pessoas não me perguntam mais sobre filhos. Senti uma pressão muito grande quando casei, tão grande que cheguei a pensar com sinceridade no assunto. Me surpreendi um dia vendo posts antigos e está lá, por escrito, que eu via a possibilidade de ser mãe. Todo mundo me dizia tanto pra ser mãe que eu tentei voltar atrás, tentei olhar para crianças e achar fofo, pensei em como eu os criaria, pensei no meu futuro. E a decisão de não ser mãe deixou de ser um sentimento vago pra se tornar uma certeza. Num futuro distante, é provável que eu seja uma viuva solitária, que não receberá um único telefonema no seu aniversário. Eu sei e aceito.

 

Sempre que leio posts sobre o assunto, por mais racionais que eles sejam, os comentários dos pró-filhos beiram à intolerância. O que me chama atenção é que os que mais defendem o instinto de procriar são os homens. Vi uma entrevista do Keith Richards dizendo que não é preciso estar sempre presente pra ser um bom pai. É verdade. Imagino ele chegando em casa, após meses de tourneé, com a bolsa cheia de presentes. Os filhos contando os dias até ele chegar, orgulhosos porque o pai é rockeiro. Isso só foi possível porque havia uma mãe muito presente. Foi ela quem corrigiu as lições das crianças e se preocupou com o horário delas dormirem. Ela estava lá cuidando dos detalhes, todos os dias, enquanto ele curtia a carreira (nos dois sentidos). É possível ser um bom pai ausente, ficar apenas com a parte divertida, mas uma mãe não. Pensando assim, eu acho que seria um excelente pai; pena que esse papel não está disponível pra mim.

 

Eu não tento argumentar com essas pessoas. Percebi que o raciocínio delas é muito semelhante ao dos crentes que saem por aí tentando converter os outros. Existe aí uma boa vontade, um idealismo. Eles fizeram uma escolha, e a partir daí sua vida adquiriu um sentido e uma qualidade grandiosos, algo inédito. Foi uma das melhores decisões que já tomaram, eles não podem mais imaginar a vida deles de outra maneira. Como isso os tornou melhores, imaginam que o efeito vai ser o mesmo se os outros escolherem igual. Para eles, não se converter – assim como optar por não ter filhos – é como ganhar uma viagem para Paris com tudo pago e decidir ficar em casa. É como abrir mão de um paraíso particular em troca de nada. Um tipo de doença, de cegueira, de incapacidade de perceber o que é melhor. Eles não aceitam, eles não entendem. Não passa pela cabeça dessa gente que algo que foi maravilhoso para os outros não será necessariamente maravilhoso para mim.

 

É raro alguém simplesmente aceitar quando eu digo que não quero ser mãe. O que mais ouvi até hoje foi:

 

-Eu pensava como você. Eu era do tipo que não queria ter filhos de jeito nenhum. Um dia começou a surgir um desejo tão grande, uma coisa, uma vontade muito grande de ser mãe. Eu olhava as crianças, eu queria, não podia viver sem aquilo. Aí eu engravidei.

 

Minha resposta, gentil – porque entendo que ela quer o meu bem – e conciliadora -porque acho cansativo brigar por uma questão dessas- é:

– No dia em que surgir um desejo assim, eu engravidarei. Até hoje não aconteceu.

Loja tradicional II

Quando entrei na loja, fui atendida por um projeto de adulto, um rapaz mal saído da adolescência que tentava parecer mais velho numa calça e camisa social. Comecei a falar com ele e surgiu um homem na faixa dos seus quarenta anos, que fez questão de me atender. De maneira gentil, elogiou várias vezes a minha beleza e se mostrava encantado cada vez que eu sorria. Vi todas as carteiras de loja e acessórios que nem sabia que ainda existiam. Ele colocou perfume nos meus pulsos (passei dias espirrando), fez comentários espirituosos e me fez saber que era o dono da loja. Eu já sou uma pessoa de sorriso fácil e me deixei cortejar. Depois de reservar a carteira e ele não encontrou mais o que me mostrar, eu estava praticamente fora da loja quando ele me lançou um olhar muito significativo e perguntou:

– O seu marido é mais velho do que você, não é?

Fiquei sem fala. Só então eu entendi o que ele pensava de mim. Me arrependi e me envergonhei de todos os meus sorrisos. Eu entrei numa loja de público sexagenário e é claro que ele pensou que eu era casada com um. Ele achou que eu era uma mulher novinha casada com um velho rico. Quem dera a parte de ter me casado com um homem rico fosse verdade! Ele achou que meu casamento era daqueles baseados num acordo e não em amor: o velho entrava (nos dois sentidos) com o poder e o dinheiro e eu com a juventude e beleza. Logo eu, que sempre escolhi o caminho mais difícil, que tenho “preconceito contra o meu próprio corpo”. Foi como se tivessem me chamado de puta.

Pior do que isso: eu não tive o que responder. Mesmo não sendo nada daquilo que ele estava pensando, de certa forma o dono da loja tinha razão, eu sou mesmo casada com um homem mais velho. O Luiz é nove anos mais velho do que eu – o que o deixa na média dos homens com quem me relacionei. Meus amigos sempre foram mais velhos, eu era (e sou) a caçula de todas as turmas que frequentei. Então, namorar homens mais velhos era uma consequencia natural. Mas eu não ia ficar contando minha biografia na porta de uma loja. Passaram na minha cabeça as respostas “Sim, mas ele nem é tão velho assim” ou “sim, mas eu o amo!”, mas achei que soaria pior. Então, completamente humilhada, eu só fui capaz de murmurar:

– Sim.

Tentei várias vezes entrar lá com o Luiz e mostrar pro sujeito que eu não me casei por dinheiro. Mas o Luiz diz que só entra comigo se for sem aliança…

Loja tradicional I

Eu digo para o Luiz que o estraguei nesses anos de casamento. Quando o conheci, ele usava camisa pólo pra ficar informal, fazia a barba dia sim dia não e cortava o cabelo curtíssimo, parecendo um milico, todos os meses. Agora ele adora camiseta, chega a ficar quatro dias sem fazer a barba e corta o cabelo a cada semestre. Isso sem falar em outras mudanças mais subjetivas, todas no mesmo sentido de ficar mais relaxado e descontraído. E é claro que gosto disso, que vejo nessas coisas a mostra do quanto o faço feliz. Mas todas essas mudanças ainda estavam em curso quando aconteceu o que contarei a seguir. Assim como naquela época eu era mais magra, tinha menos fios brancos e não parecia ter idade para casar. (suspiro nostálgico)

Não precisava de muito tempo pra perceber que o Luiz tinha um gosto tradicional e resistente à mudanças. Metrossexualismo pra ele é coisa de viado. Ele jamais usaria cremes, faria as unhas, tratamentos estéticos e essas coisas frescas. No vestuário, acha igualmente horrível essa moda de colares e outros acessórios para homens. Por ser assim é que comecei a usar uma aliança de ouro na mão direita assim que as coisas ficaram sérias, porque pra ele não tinha cabimento me dar uma aliança de prata. Eu sempre quis que ele se modernizasse um pouco na hora de se vestir; embora fiquem bem nele, ele não gosta dessas camisas de corte mais seco, mais próximas ao corpo. Um dia passamos em frente a uma loja de esquina, quase na Praça Osório, com a vitrine cheia de chinelos de couro, camisas com brasão e calça social com elástico e ele me disse que era uma loja boa. Imaginei que ele já tinha comprado alguma coisa. Só hoje, ao escrever esse texto (quase seis anos depois do ocorrido!), ele me contou que só disse aquilo porque o avô dele gostava de lá.

O aniversário dele estava se aproximando e eu decidi lhe dar uma carteira nova. Vi várias que me agradaram e sempre que perguntava se ele tinha gostado a resposta era não. Descobri que a carteira é um daqueles itens que ele tem um gosto tão definido que chega a ser intolerante: a carteira deve ser preta, de couro, sem compartimento para moedas, sem botões, sem velcro, sem espaço para talão de cheques e preferencialmente com poucos plásticos na parte interna. Qualquer alteração nesses itens – nem que fosse apenas a cor – e ele não a usaria. Achei que o único lugar onde teria uma carteria assim era na tal loja tradicional. Me preocupei em passar na loja num dia em que estivesse vestida de maneira menos informal – de longe se via que eles não estavam acostumados a receber mulheres de tênis. Diria que nem com mulheres eles estavam acostumados.

(continua)

De tudo ficou um pouco

Mas de tudo fica um pouco./De ponte bombardeada. Acho que o que nos leva a fazer terapia é sempre um desejo – vago pra alguns, muito claro para outros – de ser alguém diferente do que se é. Minha vida teria sido muito mais fácil, desde sempre, se ao invés de ser uma CDF observadora e dilacerada por questões éticas, eu tivesse simplesmente seguido o fluxo e feito tudo pensando apenas nos meus interesses. Se de tudo fica um pouco/ mas por que não ficaria/ um pouco de mim?

 

Um amigo ia começar a terapia porque queria se tornar alguém diferente e eu lhe disse que isso não aconteceria. Foi crueldade. Não que seja mentira, mas é uma verdade que apenas quem fez terapia entende: a gente muda sem mudar. Descobre os seus pontos difíceis e lida com eles da maneira como pode. Eu leio as dores da Rita e fico sem jeito porque sei que a morte da minha mãe não me afetará tanto. Quando S. fala que tem problemas com bebida e pessoas lhe dizem que encher a cara não tem nada demais, me sinto trouxa porque parece que só eu já convivi (e sofri) com alcoolismo. Oh abre os vidros de loção/ e abafa/ o insuportável mau cheiro da memória. No sábado passado, entrei distraída num restaurante e uma ex-colega de faculdade sorriu pra mim. E eu a ignorei (no início por não lembrar de onde a conhecia), porque não me sentia em condições de responder a clássica pergunta sobre o que estou fazendo. São essas coisas que nos fazem querer terapia, o desejo de tirar as dores debaixo do tapete e mandar direto pro caminhão de lixo. Partido em mil esperanças,/ este pescoço de cisne,/ este segredo infantil…

 

Mas terapia não é Lacuna, o apagamento de lembranças do filme Eternal Sunshine. Meus muitos anos de divã – que às vezes são poltronas, noutras são almofadas- me ensinaram que algumas coisas não apenas não vão pro lixo como passam a enfeitar a sala de estar. Que eu sou, também, as minhas dores. Com ou apesar delas, tenho que ser feliz. Assim como tenho dificuldades com coisas que são fáceis para outros, tenho vitórias silenciosas com coisas que ninguém imagina. E sob tu mesmo e os teus pés já duros/ e sob os gonzos da família e da classe,/ fica sempre um pouco de tudo.

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No casamento

Sabe como são os casamentos, a gente tem que dar graças aos céus se consegue sentar com alguém conhecido. Eu era amiga da noiva e muito próxima a uma das madrinhas. Mas sabe como são os casamentos, cheios de rituais sem sentido e bregas. Um deles é colocar os “protagonistas” em uma grande mesa separada, por isso mal as vi durante toda festa. Na minha mesa ficamos eu, a Vanessa e mais dois casais. Naquela mesma festa, horas mais tarde, ela conheceria o homem com quem quase se casou. Um carioca todo bom partido, que ocupava um cargo importante num banco e se encantou com ela sentada sozinha enquanto os outros se esbaldavam na pista de dança (isso é para provar, Milton, que nem sempre quem dança se dá bem). E mais de um ano depois, por diferenças religiosas, eles se separariam e ela sofreria muito. Porque a religião dela – que não sei qual é, porque essas denominações cristãs me confundem – guiava todos os seus passos e era a essência de sua própria vida. Foi por causa da religião que ela havia parado, há tão pouco tempo que eu nem sabia, de comer carne. Nunca entendi como alguém passa a vida inteira frequentando uma igreja e comendo bife pra um dia decidir que aquilo (o bife, e não a igreja) era ruim. Nos intervalos das aulas, nunca a vi com problemas porque as coisas da cantina tinham carne. Naquele dia, no casamento, passou a ter. Vai ver os pastores tinham descoberto há poucos meses que os animais também são criação divina.

 

Mas eu ainda não sabia que ela havia parado de comer carne. Só descobri isso quando voltamos todos do buffet e ao ver os pratos das pessoas cheios de frango e filet, ela começou a falar. Começou de mansinho, com aquele papo de que carne não faz bem, vocês sabem, né? Avançou sobre o argumento de que os homens são animais herbívoros, que o tamanho dos nossos intestinos prova isso, e foi para detalhes escatológicos como a carne apodrecendo dentro do corpo. Os outros também começaram a se defender de maneira tímida, dizendo que sentem falta e não conseguem conceber a sua vida sem carne. A coisa foi avançando e no fim da história os homens estavam rindo muito, dizendo que gostam muito de bois desde que bem passados e no espeto, que comem salada terceirizada e digerida, e coisas do tipo.

 

Massacrada numericamente e pelo bom humor dos outros convidados, a Vanessa lançava olhares insistentes para mim. Ela queria que eu a ajudasse ao invés de só achar tudo muito engraçado. Porque se alguém olhasse para o meu prato, notaria que eu também não tinha me servido de carne. E se alguém me perguntasse, eu diria que não comia carne vermelha há mais de cinco anos.

Neurose

As melhores explicações são sempre as mais simples. Você vai achar muita coisa escrita por aí, e eu li muita coisa por aí, mas a explicação do que é neurose que eu sempre recorro é uma que eu ouvi logo no primeiro semestre de psicologia. Ela foi dada em aula por um grande psiquiatra – Joaquim Monte. Parece que fomos a última turma antes dele parar de dar aula; hoje ele é só clínico. A explicação dele sobre neurose, acompanhada de desenho no quadro negro, foi a seguinte:

 

Imagine que essa menina more numa rua e a escola dela fica na mesma rua, na outra ponta da quadra. Mas entre a casa dela e a escola, a rua é escura, perigosa, cheia de marginais. Então, ao invés de ir seguir reto até a escola, ela é obrigada a dar uma grande volta por toda quadra, pra desviar daquele caminho e chegar até lá. Por fazer o caminho mais longo, ela é louca? Não, muito pelo contrário. Ela está fazendo a coisa mais segura e racional diante da realidade dela.

 

Agora imagine que os anos se passaram e os marginais não estão mais lá. A rua que ela vivia foi revitalizada, construiram um enorme shopping center, tem policiamento 24h, iluminação, pessoas circulando, enfim, se tornou um lugar muito seguro. Mas apesar de tudo isso, a menina continua dando a volta na quadra, porque é assim que ela sempre fez. Isso é neurose.

Três galinhas

Antigamente e em certos locais, não custava muito criar umas galinhas. Pelo menos é assim que eu entendo, porque isso diz respeito à família do Luiz. A minha está em capitais há tantas gerações que só vê galinha na sessão de aves do açougue. De maneira que um parente do Luiz, já adolescente, recebeu da mãe a tarefa de ir até o galinheiro e matar três galinhas.

Ele foi até o galinheiro, pegou as três galinhas e levou para a mesa*. Pegou a primeira galinha, quebrou o pescoço dela, cortou e jogou a cabeça fora, colocou de lado. Estendeu o braço, pegou a segunda galinha, quebrou o pescoço dela, cortou e jogou a cabeça fora, colocou de lado. Quando foi pegar a terceira galinha, ela estava num cantinho, com a cabeça toda encolhida, tremendo e olhando para ele aterrorizada.

Eles tiveram que comer só duas galinhas mesmo.

* Pra mim o mais lógico era fazer isso numa pia, mas fui corrigida e ainda tive que ouvir – “Esse povo que só morou na capital!” Detalhe: o Luiz veio morar em Curitiba aos 3 anos de idade.

Hoooooouse!

O pré-requisito mínimo para o Curso de Preparação para Musicais era ter três anos de experiência em dança. Eu entrei raspando, porque o curso era em julho e tinha sido exatamente em julho que eu tinha começado a fazer ballet. Fui fazer o curso baseada numa propaganda totalmente enganosa (não sei se involuntária ou não) de uma amiga minha que tinha feito no ano anterior. Ela me falou de camaradagem, risos, destaque para todo mundo. Não sabemos se a fama daquele primeiro curso correu ou o que foi – o fato é que naquele ano apareceram pessoas que cantavam, dançavam, representavam e estavam doidas para se destacar. Era uma tensão só, todo mundo querendo mostrar que merecia ir pra Globo (era uma possibilidade real). Vieram pessoas do país inteiro, donas de escola de dança, meninas mal entradas na adolescência e que cantavam com vozeirão, modelo-atriz-manequim com programa de TV.

 

Entre aquelas mulheres lindas, com pernas que iam às alturas e pegavam as coreografias só de olhar, uma pessoa chamava a atenção por ser muito destoante. Acho que era amazonense. Ela era atriz, cerca de um metro e meio, na faixa dos quarenta anos, um corpo cheio de curvas e bem acima do peso. Cabelo pixaim e rosto grande. Fora ter vindo com um dos melhores bailarinos do curso, ninguém sabia o que ela estava fazendo lá. Ela claramente não dançava muito. Éramos colocadas no fundo, na turma dos que não aparecem. Vocês sabem o que é estar num meio que pelo valores vigentes você é a pior? De lá nada adiantaria falar dos meus diplomas, minhas esculturas, meu livro ou do quanto sou uma pessoa sensível. Lá o importante era ser jovem, belo, extrovertido, fabuloso, broadway. Eu sou do tipo que precisa de tempo pra se soltar; dependendo do entorno, isso pode nem acontecer. Aquela mulherona, na minha imaginação, era o meu espelho. Sempre me perguntei se ela também estava se sentia intimidada no meio daquela gente.

 

O curso todo era a montagem de um musical, que já vinha todo organizado e precisava ser distribuido e incorporado por nós. Antes de viajar, recebiamos uma lista de figurinos pra possíveis papéis. No primeiro dia de curso, tinhamos nosso momento Ídolos, em que todos os sessenta bailarinos faziam uma roda e eram chamados nome a nome para cantar para três pessoas num tablado. Entre elas estava André Gabeh, que na hora fazia anotações e avaliava nossas vozes. Imaginem o constrangimento. Como percebi mais tarde, a prioridade era o volume da voz. Eu canto baixinho e agudinho, por isso só fiquei no coro. A mulherona era a única com uma voz sonora e grave.

 

Escolhidas pela voz e pelo tipo físico, ela e mais duas foram escaladas para o seguinte papel: num momento do musical apareciam três mulheres de lingerie e aquele chapeuzinho de freira. Era o momento mais non sense do espetáculo. Elas iam até o centro do palco e diziam: Nos chamaram? As pessoas respondiam: Mas quem são vocês? Elas: Nós somos as Novicias do Vício. Aí cada uma dizia seu nome: Amy, Wine e… aí nossa amiga dizia numa voz muito grave: Hoooooouse! A platéia vinha abaixo.

 

Amigos antigos e de alojamento vieram prestigiar o espetáculo. Quando pediamos para eles contarem do que mais gostaram, quem chamou mais atenção, qual a melhor parte, todos diziam: Hoooooouse!

2011

Como muitas vezes na minha vida, começo este do zero, sem nada fechado. E justamente por ser algo recorrente na minha vida, aprendi a não mais me desesperar com isso. Eu tive uma colega de faculdade que brincavamos dizendo que todas nós íamos parar na terapia nos queixando dela. Porque queríamos ser como ela. Antes mesmo de entrar na faculdade, ela havia decidido ser psicóloga hospitalar. Ela fez todas as matérias e todos os estágios possíveis na área e ao sair da faculdade já tinha um curriculo ótimo. Quando se formou, ela decidiu apresentar um projeto num hospital nos primeiros meses e depois passar no mestrado. Eu ri da maneira como ela fez tudo parecer simples. E foi, ela fez tudo exatamente no prazo e na ordem que havia estabelecido. Foi ela quem me inspirou a escrever o texto Rochas e Folhas. Evidentemente ela é a rocha e eu a folha. Jamais consegui cumprir objetivos dessa maneira. Pelo contrário, quando estabeleço um objetivo, a vida faz de tudo para afastá-lo de mim.

O que eu quero pra esse ano é novamente conseguir inovar, descobrir uma estrada que nunca trilhei. As poucas coisas ao meu alcance não me agradam . Se tivesse que descrever o que vejo, seriam perspectivas pequenas e conformadas. Mas já vivi o suficiente pra saber que isso não quer dizer que elas não exista algo mais.

Fui o chefe Urutú-Branco – depois de ser Tatarana e de ter sido o jagunço Riobaldo. Essas coisas larguei, largaram de mim, na remotidão. Hoje eu quero é a fé, mais a bondade. Só que não entendo quem se praz com nada ou pouco; eu, não me serve cheirar a poeira do cogulo – mais quero mexer com minhas mãos e ir ver recrescer a massa…
Guimarães Rosa
Grande Sertão: Veredas, p. 570