Um mundo novo

É engraçado como a gente se relaciona sempre com as mesmas pessoas, sofre influência das mesmas informações. Na faculdade e no atelier, eu sempre dizia que não queria um namorado que trabalhasse na mesma área que eu – eu queria alguém diferente. Quando casei com um engenheiro, estava crente de que éramos muito diferentes e que constantemente eu fazia tudo diferente.

Até que comecei a ter contato com a dança. A diferença entre pessoas do meio artístico e os intelectuais se tornou tão gritante pra mim que sou capaz de reconhecê-los num olhar. Intelectuais cobrem o corpo e carregam-no como um estorvo, porque o que eles são não se definem através disso; os artistas (principalmente os bailarinos) vêm o corpo como a si mesmos – sem divisórias- algo a ser moldado, algo expressivo. A postura, as roupas, os assuntos que gostam de discutir e como gostam de discutir, tudo é diferente.

Hoje vejo a realidade não mais como guetos ou como caixas russas. A realidade se interpenetra; basta vibrar diferente pra no mesmo lugar ter experiências completamente diferentes. Toda minha formação – como intelectual ou como (futura) dançarina – aconteceu na mesma universidade, no mesmo prédio. No mesmo local, pessoas completamente diferentes se cruzam, todos os dias, e ninguém percebe. O quanto essas mudanças serão capazes de se inscrever no meu próprio corpo, é algo que ainda estou por descobrir.

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Conversa

Estavamos eu e o Luiz no nosso buffet livre preferido (ah!) e ele estava quase vazio (ahhhh!). Na única mesa ocupada estava um engravatado, que passou todo o tempo falando – e alto – sobre gestão, projeto, equipe, motivação e coisas afim.

No meu mundo ideal, um maitre de bigodinho e sotaque francês surgiria no salão. Com a postura sempre ereta, ele se inclinaria sobre o sujeito, e diria de maneira quase susurrante:

– Senhor, essa conversa está incomodando os outros clientes. Pedimos por favor pra que você mude de assunto ou termine-o lá fora.

O preto, o branco e o cinza também

Eu parei de comer carne aos 15 anos porque acreditava que comer carne era errado. Que o tamanho dos nossos intenstinos prova que a carne não no faz bem, isso sem falar no sofrimento animal e nas baixas vibrações. Fiz uma faculdade pensando em fazer o bem, a mesma coisa que me motivou a entrar em serviços voluntários. Pra alguns pode ser contraditório, mas meu amor pelas coisas certas sempre me impediu de entrar em qualquer tipo de religião – porque qualquer crença que coloca alguns indivíduos como melhores do que os outros não pode ser uma coisa boa.

Sim, eu sempre fui a própria Capitão Birobidjan. Tal como os bonequinhos que acompanharam o Capitão durante toda vida, isso de fazer a Coisa Certa me acompanha por todos os lugares. O problema é que com o passar dos anos a tal Coisa Certa tem se tornado menos clara. A sociologia me ensinou a duvidar de todos os valores absolutos, porque cada valor é absoluto apenas dentro da sua própria cultura. E, no âmbito pessoal, eu tenho aprendido que a gente não sabe de tudo, não controla tudo e – principalmente – que a vida é uma só. Na impossibilidade de fazer o bem para os outros, tenho optado em fazer o bem pra mim. Ou seja, o Bem tem sido substituído pela Felicidade.

Equilibrar esses dois valores, na prática, é muito mais complicado do que obedecer qualquer mandamento.

5 personagens marcantes

Já que faz tempo que ninguém me envia um même, inventarei um. Vou colocar aqui 5 personagens da literatura que, de alguma maneira, foram marcantes.

A eleição de personagens já retira da lista alguns livros bons. Em autores como Saramago ou García Marques, há uma grande história faz com que os personagens sejam coadjuvantes. Ou no caso do Kundera, eu classificaria todos os personagens como marcantes e me sentiria injusta de escolher apenas um. Com Dostoiéski, me vejo um pouco em cada um, como se fossem arquétipos. E se tivesse lido Camus há menos tempo, provavelmente ele estaria na lista, mas agora não sei citar ninguém dos livros dele em especial.

Feitas essas ressalvas, vamos à lista em si:

5º lugar: Marley
Um dia eu vi na livraria a edição especial com fotos do Marley que não aparecem na edição comum. E me emocionei lá, de pé. Fui no Youtube procurar por ele, olho pra todos os da raça dele com mais simpatia. O livro nos faz amar o Marley como se fosse nosso – e amar ainda mais o cachorro que temos ao nosso lado.

4º lugar: Liesel
Como pode uma criança sofrer tanto e seguir em frente? É como se a resposta pra ela pudesse garantir que a gente também consegue ir em frente apesar da morte e da dor da separação. Dá vontade de pegar a Liesel no colo e levar pra muito longe…

3º lugar: Brás Cubas
“Se bela, por que manca? Se manca, por que bela?” Como não gostar do cínico e verdadeiro Brás Cubas? Só mesmo quem gosta de se ver muito melhor do que realmente é. Eu li o livro e me perguntei se eu não seria como ele e não estou sabendo.

2º lugar: Capitão Birobidjan
“Iniciamos agora a construção de uma nova sociedade” – essa é a máxima do Capitão. E é repetida durante o livro inteiro, porque é difícil construir sozinho. Sem dizer que o livro é muito engraçado. Não sei se pela teimosia, pelo ideal marxista, pela persistência em tentar levar sentido pra tudo o que faz… fiquei encantada com o Capitão e agora vivo querendo iniciar a construção de uma nova sociedade também.

1º lugar: Orlando
Por fora, a vida de Orlando muda de maneiras que ninguém conseguiria. Muda de idade, gênero, atividade, vive centenas de anos… Por dentro, Orlando tem um olhar apaixonado pela vida – às vezes melancólico, outras vezes divertido – algo que parecia não existir fora de nós. Anos sem importância podem ser resumidos em uma frase, enquanto uma paixão pode consumir capítulos inteiros. Orlando é o meu amor literário da minha vida.

Eu passo a bola pra: Imagens, DoritosBaka, Alessandro Martins, Rota de Fuga e Pseudoblog.

Sobre sexta-feira

(continuação do post anterior)

Toda confiança que eu tinha adquirido no dia anterior foi embora assim que eu cheguei. Até então, eu não fazia idéia do que seria essa tal turma avançada – não eram apenas 2 turmas, 2 dias de seleção? Logo nos corredores, olhando todos aqueles adolescentes de preto, esbeltos, altos e magros, vivi o momento mais Flashdance da minha vida: o que eu estou fazendo aqui, no meio desse covil de bailarinos?

Fiquei preocupada. Se ali quase todo mundo era bailarino, era capaz de cobrarem coisas como super en dehors ou fazer uns fouettes. Não pediram nem uma coisa nenhuma, mas chegou bem perto. As caminhadas, os equilíbrios, os passos… tudo lá tinha cheiro de ballet. Até piruettas tivemos de fazer. Pra minha infelicidade, quando a sala foi dividida em dois grupos, eu fiquei no primeiro. Perdi um pouco o equilíbrio em alguns momentos, confundi uma coreografia, rodei quando estava todo mundo parando. Se tem uma coisa que esses parcos 1 ano e 8 meses de ballet me ensinaram é de ter carão: fazer de conta que está tudo bem e continuar.

Na saída, quando estava me trocando, uma professora me pediu pra não ir embora sem falar com eles. Depois da última experiência, achei que seria pra me dizer que era sou maravilhosa e estava aprovadíssima. Na realidade…

O Responsável disse que no dia anterior eles haviam se reunido pra discutir o meu caso. Que 70% das meninas que estavam lá iriam embora, mas que meu perfil era diferente. Aí ele começou a falar de palco, de carreira, de aulas, de limitações e várias coisas que eu desejava muito mas nunca tive coragem de confessar nem pra mim mesma. Como exigência, pediu pra que eu me comprometesse em emagrecer*. E que o fato dele estar me falando tudo isso não era garantia que eu tinha passado. Eu saí de lá tremendo, sem chão. Eles me levaram a sério como eu nunca achei que levariam.

Hoje, quando eu fui ver o resultado, fiquei uns 5 minutos na frente daquele edital, sem qualquer reação. Amigos, agora eu faço parte da turma do Avançado do Curso de Dança Moderna da Federal. 😀

* Foi a primeira vez que fui considerada gorda em toda a minha vida. E sim, é horrível.

Sobre quinta-feira

Quando eu fiz a inscrição, me disseram que era pra aparecer às 14h. Eu cheguei lá meia hora antes e os corredores já estavam cheios. No dia anterior houve a seleção dos mais novos, e só naquele dia eram mais de 200 pessoas. Não sei se deu um boom, mas a concorrência estava grande se a gente pensar que no total são 100 vagas. Infelizmente eu fazia parte da 2º turma a entrar e fiquei angustiada durante mais de 1 hora na sala de espera.

Às 15h, começamos. Eram mais de 20 pessoas, de várias idades e tipos. Eu era a única com uma camisetona por cima da calça de ginástica. Tínhamos que colocar o número – o meu era 4 – bem visível na frente, pra que a banca de 9 pessoas pudesse ver. Primeiro, era uma parte física. Ficamos de pé, de lado, em borboleta, em abertura. No fim disso, o Responsável chegou discretamente por trás de mim e perguntou a minha idade. Merda. Oficialmente, eles só aceitam pessoas até os 21 anos.

Aí começaram os testes. Não foi como eu esperava. Foram coisas simples, que eu já fiz durante umas aulas por aí. Pequenas seqüências ritmadas, coisas que envolvem consciência corporal, equilíbrio, lateralidade. Andamos e saltamos de maneiras esquisitas, dessas que a gente se sente um pato fazendo. Não pra saber como eu estava em relação aos outros, porque era tudo muito rápido e concentrado.

Antes de terminar, o Responsável chegou perto de nós e apontou direto pra mim. “Número 4, número tal e número tal devem ficar aqui para conversar com a banca”. Fudeu, eu pensei, vão me expulsar por causa da idade. Todos ficaram mudos, tensos. “Calma gente, não é nada ruim”. Os outros foram embora e deveriam voltar na semana seguinte pra saber o resultado. Nós ficamos. As outras 2 moças já eram alunas antigas.

“A banca decidiu que vocês estão num nível muito melhor do que o desta turma, e pede pra que vocês apareçam amanhã às 14h pra fazer o teste junto com a turma avançada. Entendam que a gente não pode colocar vocês no Avançado direto, porque a gente não sabe o nível das pessoas que vem por aí. Se for um nível muito alto, a gente vai nivelar por cima e vocês permanecem nessa turma. Senão, vocês ficam no avançado, nem que tenham que correr um pouquinho”.

(continua)

A foto

Namorávamos há anos e à distância. Pela primeira vez, era eu que ia visitar o mundo dele. Conhecer as ruas, os pontos de ônibus, os prédios. Num dos últimos dias, folheei um album de fotos antigo e encontrei uma foto em que ele estava com uma ex-namorada no colo. Fiquei mal, emburrei, me recusei a falar, fiz cena, reclamei que ela era linda – “você é mais bonita do que ela”, “Mentira!” e por aí foi.

Demorei pra descobrir porquê aquela foto tinha me incomodado tanto. Era daquelas fotos que a gente imagina a cena quando olha: eles estavam entre amigos, e na hora em que a foto foi batida os dois estavam gargalhando e sem graça. Em todos aqueles anos de namoro, eu nunca tive e nem nunca teria uma foto dessas com ele. Éramos um casal solitário, deprimidos, sem amigos e enfrentando o mundo. Precisávamos um do outro na mesma proporção que nos fazíamos mal. Estávamos sempre brigando, esclarecendo, chorando, pedindo desculpas, fazendo cenas, nos controlando. Não me admira que as coisas terminaram do jeito que terminaram – depois de uma semana inteira de brigas, com acusações, choros e esclarecimentos que não chegavam a lugar nenhum. Quando terminamos, eu estava exausta.

O amor tem que ser leve, senão não é amor.

Sapo cantor

Nossa, fiquei muito emocionada quando encontrei esse video! Durante anos eu o procurei, falei nele, me lembrei dele!

Quando eu era criança, achava a história engraçadinha, como todo mundo. Depois, a coisa começou a me fascinar. Eu comecei a me espelhar nela, comecei a me identificar… com o sapo. Todos os meus terapeutas – oficiais ou não – ouviram falar desse desenho. Ele ilustrava o quanto privadamente eu era uma coisa e a minha timidez me impedia de mostrar isso. Mais tarde, quando consegui controlar a minha timidez, o sapo passou a ilustrar o quanto as pessoas que me conhecem bem sabem o quanto sou boa no que faço, mas eu tenho uma baita dificuldade de assumir isso, de me valorizar, de projetar o meu trabalho no mundo. Tem gente que me conhece há anos e não sabe que eu sou escultora…

Sim, eu tenho uma relação agridoce com esse desenho. Espero que um dia ele deixe de ser uma metáfora, e volte a ser apenas uma lembrança.