rs rs rs rs

Revi a exposição Gênesis, do Sebastião Salgado, e toda minha paciência e boa vontade foram postos à prova com dois (suponho) americanos que estavam lá. Eles ficavam rindo o tempo todo. A primeira vez que eu vi a exposição foi num sábado. Museu lotado, pessoas de tudo quanto é tipo e atitude. Pra cada foto você nunca estava sozinho, sempre tinha mais alguém olhando. Tenho um talento especial de fazer as coisas ao contrário, e vi a exposição de trás para frente. Então, ao invés de acompanhar as pessoas, fazíamos um rodízio. Naquele dia, não me irritei. Pelo contrário, achei muito engraçado passar pelas pessoas e cada hora ouvir algo diferente. Muitos risos diante do tronco usado no pinto. A moça fazendo cara de “que fofo” na frente da foca. Diante da foto da tartaruga de um metro e meio uma moça com dois amigos disse: “olha, exatamente do meu tamanho”, o que me permitiu ter dimensão exata do tamanho da tartaruga. Um sujeito de rastafari até a cintura e bata colorida, comentou com a namorada que achava o Sebastião bom, mas que pro gosto dele algumas fotos era muito exageradas, over mesmo. Como exemplo, mostrou a foto de uma nativa trabalhando. As plantas ao lado dela “sujavam” a foto. Devia ter mandado ela ter trabalhado mais pra lá, claro! Fiquei com vontade de pedir o número do cara e passar pro Sebastião – pra consultoria.

Como eu ia dizendo, naquele dia não me irritei. Com o museu mais vazio, o perfil dos frequentadores era mais de famílias. Os adolescentes alternavam entre um ou outro fascinado, com aquele jeito de quem quer seguir esse caminho, e as caras de tédio de sempre. As crianças corriam livremente pelos corredores e quando paravam recebiam explicações dos pais. Achei engraçadíssimo diante da foto do leopardo dizerem que aquela “foi a última foto do Sebastião”. Ou seja, sou muito à favor de rir, de curtir, não acho que a pessoa tenha que ter uma atitude contemplativa. O que me incomodava naqueles americanos rindo, é que eles davam dois passos e riam. A cada foto um dele dizia alguma coisa e ria. Pense, são 245 fotos. Ninguém tem tanta coisa pra falar assim, ninguém é tão espirituoso assim. Eram risos forçados, quase uma competição. Aqueles dois, diante de um trabalho tão lindo, uma oportunidade de viver uma experiência de beleza tão grande – porque é isso o que esta exposição é – e ficavam com risinhos forçados. Vão fazer isso numa balada, num churrasco, sei lá. Idiotas.

Nietzsche e a juventude

Mais uma da série de coisas que todo mundo já sabia, conhecia ou gostava e eu comecei agora: Nietzsche. Tudo porque me queixei no FB de ter que esperar, e um amigo me recomendou ver o vídeo da Viviane Mosé, que coloquei no meu outro blog. Aí um leitor nos comentários recomendou as aulas do professor Clóvis. Meu próximo passo será tentar ler no original. Tentei ler Assim falava Zarastrusta, gostei de alguns trechos e achei viagem demais. De acordo com Clóvis, é o último que se deve ler, porque é realmente muito alucinado.

 

Demorei tanto pra chegar até Nietzsche porque tinha ouvido falar mal e vagamente dele. Me disseram que era a típica leitura adolescente, e me deram a entender que o conceito de Super Homem era meio narcisista, meio se achar melhor do que os outros, uma ideia parecida com a de Raskolnikov em Crime e Castigo (não vou explicar pra não estragar o livro). Ainda que a explicação tenha sido errada, me parece que realmente é uma leitura adolescente. Nietzsche propõe uma radicalidade tão grande com a vida e o agora que combina muito com a juventude. A idade adulta nos exige concessões e deve ficar meio angustiante fazer as concessões adultas com a cobrança de ser íntegro. Então, realmente não imagino adultos tão comprometidos com o que Nietzsche propõe.
Penso numa amiga, que me parece bem esse caminho. Quando ela me fala do passado, parece outra pessoa. Sua época universitária é cheia de aventuras, de casinhos, atitudes radicais e viagens em busca do autoconhecimento. Hoje ela uma vida totalmente burguesa e um emprego merda, que acaba com seu humor e sua saúde. Entendo por emprego merda aquele que você odeia cada minuto, que não tem nada a ver com o que você gosta ou quer, mas que paga muito bem e isso te mantém lá. Ela me conta com orgulho as histórias do passado, assim como tem orgulho da vida totalmente correta que tem hoje. Eu ouço e só consigo me perguntar em que ponto ela se perdeu…

Meu corpo para todo mundo ver

“Você pode”. Dizem que eu nado de sunquíni porque posso. Não vou discutir o meu nível de “potência”. Digo nível, porque essa é uma escala de valores que coloca o ideal de beleza tão distante que ninguém se sente completamente aceito. Eu “posso” mais do que quem se afasta mais do que eu dessa escala imaginária, mas eu também não sou a mulher perfeita. Estou longe de ter barriga tanquinho. Coloco o shorts do biquíni e as gordurinhas ficam ressaltadas, igual qualquer mulher que não é extremamente magra ou que nunca fez lipo. Eu fico inchada, às vezes estou com o joelho ralado ou uns roxos por causa da bicicleta, tenho microvarizes, bronzeados irregulares, pancinha. O Ego faria a festa ao falar mal de mim.

 

O que eu tenho percebido é que fico cada vez mais à vontade. Água mole em pedra dura, sabe? As mulheres já me avaliaram de cima abaixo, já pensaram o quanto eu sou “posso” ou sou sem noção. Os homens já olharam o tanto que quiseram. Talvez no início tenham pensado que eu fazia isso pra chamar atenção, pra galinhar. Mas eu continuei na minha – quem me conhece pessoalmente sabe que posso ser exageradamente na minha. Alguns devem me achar gostosa, outros que eu sou magra demais, outros que eu sou magra de menos.  É isso. Seja lá o que eles e elas pensem de mim, seja lá o que elas fariam no meu lugar, eu vou pra aula do jeito que eu quero e pronto. O recado que há por detrás é: sua opinião sobre o meu corpo não me interessa.

E quer saber? Cada dia me sinto mais bonita de biquíni.

Sonho

Posso sonhar em voz alta?

Estava vendo o Roda Viva, a entrevista com o Cao Hamburguer (chatinha. Não por ele, e sim pelos entrevistadores. Faltou chamar gente mais bróder do Cao, sabe?). Antes das entrevistas eles sempre dão o currículo da bancada: Fulano de tal, jornalista e editor do caderno de cultura de tal; Beltranho, adido cultural, duas vezes premiado em não sei onde e atualmente dirige uma fundação, etc. Tudo pra que a gente olhe aquelas pessoas desconhecidas e entenda e aceite que elas estejam na bancada. Ah, nunca vi, mas é adido e premiado, então tem cacife pra fazer essa entrevista.

Meu sonho é que meu currículo possa ser resumido assim: “escritora”. Sabe quem mais é “escritor”? Paulo Coelho. Ele dispensa maiores apresentações. Não precisa listar onde os livros dele vendem e etc, ele é Paulo Coelho. Meu sonho é a palavra “escritora” dizer tudo a meu respeito.

Vida após a vida

Quando o Chicuta colocou este vídeo na página do Facebook dele, fui ver na minha TL e as três últimas tirinhas que eu tinha compartilhado nos últimos dias eram dos Malvados. Então nem preciso dizer se gosto.
Gostei muito da parte, mais pro final, que ele fala sobre não saber direito o que dizer para sua filha pequena sobre a morte, se a pessoa que morre vai para o céu. Aí ele diz que, como ateu, sente que sua responsabilidade pela própria vida é bem maior. Também tenho essa impressão, de que os ateus são muito mais comprometidos com a vida do que os crentes. “Você está aqui e é só uma vez que você está aqui, você não vai voltar como um cachorrinho, uma borboleta ou uma outra pessoa. Você está vivendo isso e vai acabar. Então é uma responsabilidade muito maior você ser feliz, você fazer as coisas direito dentro de um princípio moral e ético (….). Pro ateu, se eu não for feliz aqui, eu não vou ser feliz em lugar nenhum”.

Taí mais um motivo pra eu me sentir tão compatível com ateus, apesar de não ser uma. Eu concordo com eles, essa vida é única, e precisamos ser urgentemente felizes nela, agora. Mesmo que exista uma outra vida, e que nela eu receba o que mereço e o que me falte nesta, eu seria outra pessoa, com outros pais, em outra época, com outras vivências e necessidades. Nada do que me aconteceu ou me acontecerá será igual a este momento. Receber no futuro não compensa o meu presente, uma outra vida não teria nada a ver com quem sou hoje. Cada dia, cada encontro, tudo é único e precisa valer a pena.

Sorriso

Se uma pessoa sorri pra você, mesmo que apenas por educação, numa troca de meia dúzia de palavras, e isso te deixa feliz, significa que você está interessado nela?

Crítica

A gente vê o desfile daquelas Drags – sim, ainda estou falando do Ru Paul´s Drag Race – e às vezes esquece que aquilo tudo é uma questão vital para elas. A maneira como eles (os homens que se transformam) falam de suas personas femininas mostram que o vestir-se de mulher faz parte de um crescimento pessoal, é a sua forma expressão artística. Crescimento pessoal é sempre lindo e não cabe julgamentos. É uma coisa que só dá pra comparar de você consigo mesmo, do que você era pro que você é. Mas, ao mesmo tempo, eles estão numa competição de Drags, e fica como se fosse um julgamento de quem cresceu melhor (digamos assim). Se de um lado, o crescimento interior é algo que não pode ser julgado, mas por outro a manifestação dele pode sim, porque é o que vemos. Esse problema está na raiz da arte e faz sofrer tanto aqueles que se dedicam a qualquer uma delas. Minha arte pode significar tudo pra mim e não dizer nada ao mundo. Quando o público vê uma dança, um quadro ou uma Drag Queen, pode dizer qual está mais bonito ou mais bem feito. O que não inviabiliza o processo interior. Entendo a dor delas, montadas no palco, e ouvir do júri – “Você está ridícula nessa roupa”. Deve dar vontade de ir embora.
Sempre que vejo realitys, eu me pergunto como seria eu lá dentro. Nos Big Brother, tenho certeza que seria um desses participantes que chamam de “planta”, que ficam quietos no seu canto e não dão ao público as deliciosas polêmicas. Se sou colocada no meio de um monte de gente lutando pra chamar atenção, eu deixo que se matem. Sobre as Drags recebendo críticas, eu via e me perguntava qual seria minha reação: eu seria das que aceitam, as que choram, as que fazem cara feia, as que reagem mal? Descobri sem querer a resposta, ao receber um feedback duríssimo do meu livro. Fui eu que pedi, eu que me coloquei nessa situação, tal como elas ao se inscreverem. Mas sempre existe a esperança de que o nosso trabalho é irretocável… Eu não briguei, não sou do tipo que reage devolvendo a “agressão”. Fazer um amigo ler o que você escreveu é deixá-lo numa posição muito difícil, e apenas quem lhe quer muito bem é capaz de criticar com sinceridade. Meu lado racional entende perfeitamente, aceita, abraça a ideia. Mas é a minha Drag, porra! Estou abalada, diminuída, me sentindo a pior, quero dar as costas e não brincar mais disso. Céus, que necessidade urgente de um amor, um pote de sorvete e uma boa notícia! Eu choraria no palco. Eu agradeceria as críticas construtivas com lágrimas nos olhos.

Estratégias

 

Eu vejo estratégias o tempo todo. Estratégia de usar os argumentos mais sólidos possíveis. Sugestões suaves, que indicam que a solução é rápida, fácil e leva à realização de todos os sonhos depois de uma pequena curva. Ou de usar os mais assustadores, os que mexem com os medos atávicos de morte, fome e violência. Se não por ser melhor e por convencimento, que seja por acreditar que é o melhor caminho para se manter vivo. Vejo muito a estratégia de calar, de omitir o que realmente pensa, para só soltar no momento apropriado. As respostas vagas só se mostram à luz do dia quando a pessoa estiver aberta para ouvir, estiver frágil e duvidando da sua própria capacidade. Que momento melhor pode haver para enfiar ideias novas do que quando as de sempre estão agonizando? Então é melhor esperar, calar, fingir que está tudo bem. Presas experientes exigem caçadores experientes. Deixa o outro chegar, comer do seu pão, se sentir à vontade, pra só aí então…

Gostar com sinceridade seria mais fácil.

Tapete de pele de coelho

Estava conversando com uma amiga e acabei formulando a Teoria do Homem Lindo, que transcrevi no meu facebook: namorar homem lindo não presta, é igual ter tapete de pele de coelho.
Explicar metáfora é igual explicar piada, então apenas contarei de onde vem minha referência:
Eu já era da casa. Mas tal como os próprios moradores, sempre entrava pela cozinha. Porque se fosse entrar pela porta da frente, acabaria passando pela sala de estar, daquelas que são tão chiques que os próprios donos nem usam. Essa sala era tomada por um tapete de pele de coelho. Era tão alvo e peludo, que mesmo sendo tão incorreto – sabe quantos coelhos são necessários para fazer um tapete? – dava vontade de deitar nele. Mas não podia nem pisar, quanto mais deitar. Se por acaso a porta da frente se abrisse, a gente tinha que entrar quase colado na parede, em fila indiana, que era pra não pisar.
Anos depois a casa foi assaltada. Entraram, roubaram computador, bagunçaram tudo, fizeram cocô no meio da sala. No afamado tapete branco, esfregaram os pés sujos de lama. Fizeram com tanto gosto e com tal nível de sujeira, que o tapete teve que ser jogado fora.

Eu saí da frente do computador e

… me esparramei no sofá. Tinha passado as últimas horas, ou melhor, os últimos dias vendo Ru Paul´s Drag Race. Minha vida toda em suspenso porque me viciei numa série. Pensei nas coisas que eu tinha que fazer; mesmo se pensarmos que estou de férias porque minha clientela está de férias, ainda há outras costuras. Projetos inacabados, experiências, um peso de porta, tudo por fazer. Pensei em fazer e não fiz. Que eu me voltasse então para a pintura das caixas que ficam na sala e agora eu tenho tinta e todo material para deixar o serviço finalmente terminado. Ou voltasse para o computador e começasse um novo livro. Nada, eu não me movia. Me convenci de que não era um momento de atitude, mas que pelo menos pensasse. Que organizasse minha agenda, desse um fim a tantas horas perdidas com Ru Paul´s, ou pelo menos estabelecesse um número máximo por dia. Mas minha cabeça zunia, e invés de organizar um novo horário, só consegui me abraçar a uma almofada e me apoiar nela, de lado.
Parecia depressão, mas era apenas pressão baixa. Que calor!

Ru Paul´s Drag Race

Tenho o problema de me viciar em certos programas e querer levar os amigos junto. Meu último vício, que tem acabado com todo meu tempo livre é o Ru Paul´s Drag Race. Está lá pela sétima temporada e comecei fim de semana passado e agora estou na quarta. Já falei aqui do America´s Next Top Model, e o formato é mais ou menos o mesmo, mas é muito melhor. As modelos do America´s são meninas inexperientes, e ser modelo é muito menos desafiador. As Drag Queens são artistas que preparam seu cabelo, sua maquiagem, costuram suas roupas, coreografam, canta, representam… então o programa pede muito mais delas. É de arrepiar as coisas que elas são capazes de fazer em uma semana. Isso sem falar na história de vida de cada uma, que raramente contam com o carinho e a aceitação das suas famílias. Comecei a ver o programa achando que veria muita gayzisse, e terminei respeitando esse o trabalho muito mais do que imaginava.

Estou vendo o programa num desses canais on line, então nem vou colocar o link aqui porque não vou ganhar nada fazendo propaganda. O que eu queria dizer é o quanto ver homens vestidos de mulheres e imitando nossos trejeitos mexe com a gente. Impossível não ver aqueles desfiles e não começar a querer se vestir com mais glamour e mais humor. Os cabelos exagerados, o andar de passarela, a sensualidade exacerbada não são apenas um exagero sobre o que é ser mulher. A gente começa a pensar que se elas fazem tanto para parecer conosco e se esses excessos ficam tão bem nelas, por que nós, mulheres no sentido biológico, temos que ser tão apagadas no nosso dia a dia? Nem todos quando montados ficam bonitos, mas todas amam o glamour. Já nós, mulheres, estamos sempre tão preocupadas com a perfeição que nem curtimos o que temos. Fiquei realmente com vontade de ter uma consultoria de estilo Drag. Minha amiga Flávia, maravilhosa que só ela, gostava de ir pra Parada Gay montada e ser confundida com travesti. Agora sim eu entendi! Coincidência ou não, ela e o seu marido saem por aí em estilo retrô e cheios de tatuagem, e nunca passam despercebidos. Como diria Ongina, uma das Drags mais marcantes da primeira temporada: celebre sua vida!

Teje presa, Dúnia!

Donos de cães são meio como aqueles pais que acham suas crias lindas quando mal educadas, sem limites e barulhentas, mesmo em locais públicos. Antes de ter a Dúnia, praticamente se poderia dizer que eu tinha medo de cachorro. Só conseguia conviver com os pequenos e olhe lá. Com ela, em pouco tempo estava achando muito lindo que ela quisesse pular em qualquer desconhecido na rua, porque, afinal, ela é maravilhosa, e quem não acharia maravilhoso ganhar carinho dela. Hoje adquiri de novo a noção das coisas e jamais obrigo as pessoas a entrarem aqui com a Dúnia solta. A não ser que seja um daqueles que amam cachorros, e que chegam aqui doidos pra fazer amizade com ela. Pra esses é até meio frustrante, porque a Dúnia não dá muita bola nem pra mim, que dirá pra estranhos.
Eu tenho um grau considerável de autoridade sobre ela, que além de tudo foi adestrada. Prendê-la era muito mais chato antes, e quando alguém vinha na minha casa, eu mandava ela ir pra casinha até a pessoa entrar. Só que eu via que a visita não acreditava muito, e ver aquele cachorro de pé dentro da casinha, com a língua de fora e cara feliz, fazia com que todos entrassem correndo. Eu sei (vide foto) o quanto aquele cachorro preto de porte médio pode parecer psicótico sorrindo com a língua de fora, então agora prendo de uma vez. Com a idade* a bicha acalmou e não vê problema nenhum em esperar na corrente. Mesmo porque ela sempre ganha ossinho nessas ocasiões.
Os prestadores de serviço que vem aqui pra casa ficam muito felizes com a minha atitude. Pelo que tenho ouvido, esse meu comportamento de prender o cachorro é meio raro. Aí começam as histórias. O último que veio aqui me garantiu que não tinha medo de cachorro, apesar de ter ficado preocupado se ela ainda estava presa quando a gente saiu. Ele me contou que levou 16 pontos da coxa, porque o dono garantiu que o cachorro não mordia, ele entrou, o cachorro correu atrás dele, ele correu e passou por uma ponta numa grande e se cortou. O que instalou minha cortina, que era terceirizado de uma grande loja, me contou de uma vez que foi fazer uma instalação numa casa que tinha um desses cachorros pequenos e chatos. A dona não quis prender e ele passou com as cortinas nos braços, e o cachorro latindo e correndo em volta dele. Até que o pestinha acertou com os dentes no calcanhar dele, que sangrou por dentro do sapato. Ele entrou na casa, entregou as cortinas e disse que a dona deveria entrar em contato com a loja, porque ele se recusava a trabalhar ali. Eu, que detesto ter que esperar entregas, achei um bom castigo.
Além de ser fácil prender o cachorro um pouco, nunca entendi a lógica de tratar mal quem vai te prestar um serviço. Esnobar, deixar sem toalha no banheiro, tirar vantagem do que puder. Se não for pelo respeito por um outro ser humano trabalhando, que se trate bem por interesse próprio.  Se você está sendo sacana, é óbvio que em alguma coisa ele vai querer ser sacana também. Nem que seja no suco cuspido que você nem sabe que bebeu.

* escrevi num outro post que ela tinha 8 anos. Erro de cálculo, ela já está com 11!

Fantasia gitana

Não tem aquelas lendas de que a coitada da criança nasceu numa família de classe média e foi roubada por ciganos malvados, que a obrigaram a viver uma vida errante? Pro meu caso instituo a lenda contrária: eu, bebezinha cigana, estava linda na minha barraca e fui roubada por uma família de classe média, que me obrigou a viver entre paredes.

Limites

Eu não sei ser moderninha. Sou muito à favor e consigo entender completamente a reivindicação de sexo livre e sem tabus para as mulheres, é uma luta necessária. Mas eu, falando de uma maneira muito pessoal, não dou conta. Fui programada convencional, sou convencional. Se pudesse me programar, me programaria diferente. Eu tive uma amiga que fez redução de estômago e sua nova magreza fez com que ela tivesse em poucos meses mais parceiros na cama do que eu tive e terei a vida toda. Ela não se conformava, em ter um corpo de redução de estômago (com cicatrizes e estrias) e fazer mais do que eu, que sempre fui magra. Ela me dizia – “se eu tivesse esse teu corpo, você não faz ideia do quanto iria aproveitar”. Mas não “aproveito”. Pra mim afeto e sexo estão tão ligados que me acontecem duas coisas: ou eu olho um homem e acho ele muito bonito e não sinto tesão nenhum, ou gosto de um homem, de estar com ele, de conversar com ele, e fico com tesão. E se formos para a cama, todo esse pacote ficará mais intenso. O que faz com que do zero nunca comece, porque eu nem teria vontade. E uma amizade colorida logo logo me deixaria com vontade de algo sério. Sim, eu sei, é complicado. Eu disse, se pudesse faria diferente. Claro que não sou uma louca que tem que amar pra conseguir ir pra cama, tem que ser pedida em casamento e colocar aliança no dedo pra se soltar. Só não conseguiria ir pra barzinho ou conhecer alguém no Tinder e já ir pra cama com ele.

 

Desculpem o desabafo, e acho até que estou sendo repetitiva nesse assunto. É que tenho assistido o sofrimento de uma amiga e estou triste por ela. Ela tem limites parecidos com os meus e não os respeitou. Se envolveu sozinha, foi fundo, e hoje tentou uma atitude extrema. Sim, essa que você pensou. Não tenho nem o que dizer. Limites, temos que conhecer e respeitar nossos próprios limites.

Batida na parede é quase amor

Tenho a impressão que o computador fica colado na cabeceira do vizinho do lado. À noite ou de manhã cedo, se vou colocar um vídeo, o tempo que leva pro mouse encontrar e abaixar o volume já é suficiente pro vizinho bater na parede. É um verdadeiro diálogo braille que temos. Já chegou ao ponto do cara bater na parede preventivamente, antes de se deitar.

 

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Não sei se meus vizinhos têm noção do quanto essas paredes são finas ou se eles são paranóicos o suficiente para achar que o mundo inteiro faz barulho e eles não. Eu ouço as risadas, ouço as discussões… Sexo nunca, porque eles se odeiam e não devem fazer mais.

 

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Teve uma época que eu me propus a estudar flamenco aqui em casa. Comprei uma madeira pra fazer de tablado, fiz todo isolamento que pude e ensaiava em horários que ninguém mais está dormindo. E ficava meia hora, contado. Começaram a bater na parede e pensei – vão notar que é só meia hora e param. Até que um dia fizeram tanto barulho, durante tanto tempo e com tal intensidade que não dá pra descrever. Era um nível que parecia que estavam jogando os móveis contra parede. Fiquei com medo deles e parei.

 

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Não, eu não sou uma vizinha barulhenta, nem poderia ser. Comigo é só batida na parede. Com os vizinhos do outro lado, eles chamam a polícia.