O ciclista, o dono e a florzinha

flor cabelo

O ciclista pelado: É através do ciclista pelado que eu sei se estou atrasada ou não. No horário ideal, ele está passando na frente da minha casa quando estou saindo. Algumas dessas vezes, eu também estou ciclista. Claro que ele não anda literalmente pelado, não é o Oil Man – pra quem não é daqui, informo que o Oil Man circula pelo centro. O ciclista pelado é um rapaz comum, de barba, na faixa dos seus vinte anos que passa por aqui todos os dias, acredito que a caminho do trabalho. Eu me refiro a ele como pelado porque muitas vezes a temperatura está abaixo dos dez graus, eu mesma pedalando com duas calças, casacos, corta-vento e balaclava, e o sujeito está de bermuda. Pelado.

O dono de pet que odeia falar de cachorro: Antes eu comprava ossinhos pra Dúnia numa loja no centro, mais barata, mas como não passo por ali com frequencia suficiente, tive que me contentar com uma pet um pouco mais cara aqui da região. Circulando por ali, ficam sempre três lindos pastores alemães entediados. Outra coisa muito característica é que sempre tem um problema na conexão, no computador ou sei lá o que, então ele precisa anotar meu cpf na mão. Talvez seja pelo fato de ouvir as mesmas coisas o dia inteiro, mas sempre tentei falar qualquer coisa sobre cachorro -nada sério, papo de balcão- , o cara não apenas me ignorou com só faltou fazer cara de tédio.

A senhora sorridente que gostava de acessórios no meu cabelo: Essa me fez perceber o quanto somos influenciáveis pelos elogios. É a loja onde gosto de comprar a granel. Tinha duas funcionárias, e a mais velha era uma senhora simpática que ficava muito feliz em me ver. Conversávamos sempre. Um dia fui com uma fivela de uma florzinha branca no cabelo e ela ficou encantada, me achou linda. Outro dia também, com uma flor vermelha; na terceira vez não estava usando nada, ela não me elogiou. Quando me dei conta, eu me programava pra sempre colocar um acessório no cabelo quando passava na loja. Um dia fui lá, de flor no cabelo, estava a outra funcionária e duas adolescentes em treinamento. A senhora sorridente se aposentou. Nunca mais passei lá de florzinha.

Os dentes

ouro

Eu estava indo pro salão, cortar o cabelo. Eu me sentei no ônibus, num daqueles bancos duplos, perto da porta. À frente, outros bancos duplos. Uma mulher conversava com as duas outras mulheres que estavam atrás dela. Pra isso, ela se virava constantemente, se sentava quase de lado. Meu olhar foi atraído para ela por uma estranha cintilância no seu sorriso. Os dentes eram de ouro. Eu já havia ouvido falar, havia visto um ou outro dente brilhante, mas jamais vi alguém que tivesse todos os dentes visíveis de cima abaixo dourados. Passei a viagem inteira olhando para ela. Suas roupas eram comuns, mas reparei nos seus braços cheios de pulseiras e tatuagens o desenho de uma roda de carroça, símbolo do povo cigano.

Cheguei no salão, esperei, falei o que queria no cabelo, fomos para o lavatório.

-Hoje eu vi uma mulher com dentes de ouro no ônibus.

-Nossa, que coisa.

-Será que interfere no PH da boca?

-Não deve ser ouro de verdade, apenas revestido.

-Mesmo assim, será que interfere? É um metal.

Pela reação desinteressada à questão do PH, concluí que sou mesmo uma mala que se pergunta coisas que ninguém liga. De qualquer forma, vou perguntar pro meu dentista.

Meu tempo

lavatorio-salao

Eu cheguei um pouco antes do horário e minha cabeleireira estava atendendo uma moça, muito normal. Na despedida ela disse algo como “nossa, obrigada, vou ver sim”. Aí ela veio me chamar, conversamos rapidamente sobre o que eu queria e fomos para o lavatório. Aí, enquanto ela lavava o meu cabelo, a moça voltou com o celular na mão. “Olha aqui as fotos”. Aí ela mostrou que a casa tinha um deck que dava para um lago. Várias fotos. Eu não vi nenhuma, porque estava no lavatório e a mão em cima de mim. A casa era do lado de uma comunidade, uma “seita de yoga”, e a casa pertencia a um dos caras da seita, era onde ele vivia, mas alugava para temporada, para gente de estreita confiança, como ela e o marido com filhos. Olha aqui, que demais. Olha essa vista. Que pechincha. Eu te indico. Ela era realmente bem relacionada, baita férias. O que eu sei é que me vi detestando a mulher. Seita de yoga, pechincha exclusiva? Então descobri que a gente paga, também, pela atenção total do nosso cabeleireiro, que a parte da fofoquinha faz parte do pacote. E que eu me importo.

Defeito

Eu estava disposta a crushzar meu crush à distância até a morte, mas minhas amigas não se conformaram e queriam a todo custo me aproximar dele. O plano era mostrar a ele um dos meus textos, ele ia achar o máximo, iria atrás do meu perfil, descobriria que eu sou eu, me adicionaria e então eu poderia falar com ele sem parecer uma desesperada. Aí quiseram deixar o meu Facebook mais interessante, colocar uma foto bonitona. Eu nunca entendi muito a lógica de foto bonitona diante de um homem que já nos viu ou verá, só pra ele pensar que uma boa maquiagem e o ângulo certo são capazes de milagres. Enfim, mas eu sou eu, uma tonta que se conforma em jamais se declarar. Minha amiga veio aqui, me fez colocar uma roupa que mostrava o colo, me mandou segurar livro, jogar a cabeça para trás como se estivesse gargalhando, me postar diante do espelho, olhar pra cima, olhar pra baixo, colocar a mão aqui e ali. Eu estava me sentindo desconfortável, mas eu ficar desconfortável em foto é o meu normal. Depois de várias poses e fotos e nenhuma parecer estar boa, ela me falou que eu sei que ela é super sincera mesmo e sinceramente meus cabelos brancos me deixam com uma baita cara de velha e ela estava tentando disfarçar. Assim que ela falou, vi que ela fez uma cara de quem se arrependeu, provavelmente porque eu fiz uma cara de quem se magoou. Meu cabelo fica realmente estranho, tenho fotos onde ele está totalmente branco e em outras é como se ele fosse castanho. Então, eu entendi que há verdade no que ela disse. Mas ao mesmo tempo, se um dia quiser uma foto bonitona minha, já sei que temos concepções diferentes. Se eu achasse que meu cabelo é algo a se envergonhar, a ser disfarçado e escondido, eu pintaria. É a diferença de quem vai tirar foto de uma mulher gorda e manda ela ficar de lado, de preto e ângulos de cima pra disfarçar ou coloca um biquíni e tira foto na praia. Eu sei que a primeira opção é mais fácil de absorver. Eu tenho uma faixa branca, bem no meio da testa, e eu disfarçava usando sempre franja. Um dia puxei ela para trás na frente dos meus amigos Elson e Flávia e o Elson soltou um “que lindo” muito espontâneo. A Flávia recriou esse efeito com mecha o quanto pode, até detonou o cabelo. Por ironia da natureza, eu e ela temos a mesma idade e a Flávia que quase não tem cabelo branco adoraria ter porque acha a coisa mais linda. Se eu me acho linda? Quando me olho no espelho, me sinto de novo com cabelo cheio de mechas, o que fiz apenas uma vez na vida – poucas semanas depois pintei tudo, parecia cabelo branco… Levei um tempão pra absorver, tenho dias e dias, mas hoje quando me dá na telha prendo a franja para trás, exibo mesmo. Feio ou bonito, é o que me convém hoje. É meio:

ser aceito e popular

Curtas meio fashions

cachorro chique

Eu e a Dúnia chegamos num nível tal de sofisticação que eu coloco uma roupinha mais leve nela quando a tarde cai e troco por outra mais quente quando realmente esfria à noite. Não é gosto não, é cachorro chorão mesmo.

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Eu não apenas vejo Ru Paul´s Drag Race torcendo sempre para as drags mais velhas: eu consigo ver (ou acho que consigo) no que elas conseguem se sair melhor do que as mais novas por uma simples questão de vivência. Em outras palavras: eu sou uma drag velha.

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Estou de cabelo curtinho e é estranho que isso seja novidade para quem está à minha volta. É o corte que usei minha adolescência inteira, parte da faculdade, no início do casamento. Eu me sinto uma versão vintage de mim mesma.

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Num documentário sobre Cauby, descobri Liberace. Já tinha ouvido o nome, mas jamais havia visto. Acreditem, é pra ver.

No salão

cabelo-undercut-masculino

Foi num salão aqui perto de casa. Entrou um homem bem apessoado pra cortar o cabelo e se dirigiu ao único cabeleireiro presente. Primeira vez que vê aquele homem, pra puxar assunto ele resolve abordar algum assunto de homem. O assunto escolhido foi bunda. Comentaram das famosas, as bundas clássicas, as bonitas, a sensação, formatos, etc. Conversa animada, cliente simpático. Depois do gelo já quebrado, o cabeleireiro pergunta qual a profissão do cliente. “O que você acha que eu sou? Nunca vai adivinhar”. Chutou empresário. Era o novo padre da paróquia. Todas as conversas do salão silenciaram na hora.

Deve ter sido o papo mais leve em anos. O padre raramente deve ter a oportunidade de conversar sobre bunda.

Curtas de silly face

silly-face

Uma coisa que me aborrece bastante em usar aparelho é a sensação de que o dente nunca está completamente limpo. E levando em conta que por mais que se escove é possível que ressurjam sujeiras de duas refeições atrás, não é só impressão.

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Como sou atrasada com séries, só descobri agora a Claire Underwood. Antigamente, correria no salão pra cortar o cabelo igual. Hoje já sei que não adianta, eu não ficaria maravilhosa daquele jeito. Outra coisa que eu aprendi é que cabelo curto em loira é outra história.

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Eu pretendia votar Nulo, aí cheguei na frente da cabine e só tinha botão de Branco. Eu jurava que antes tinha um botão Nulo. Ou não tinha?

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Tem aquele cachorro que lembra a Dúnia. A gente passava lá e ele latia. Aí adotaram outro, de uma raça que lembra boxer, mas ele é pequeno. Agora o filhote fica latindo pra gente, enquanto o pseudo-Dúnia olha tudo com cara de egípcia. É muito engraçado.

Curtas da gengibirra

GENGIBIRRA

… que além de ser o melhor refrigerante do mundo, fica (descobri recentemente) maravilhosa com limão. Se tivesse álcool, já teria que começar a comprar os brindes de Missão Resgate da vida (digam que no resto do país também se pede contribuição no ônibus para tirar as pessoas “do mundo das drogas e do crime”) pra saber onde me internar. E se eu fosse famosa, a Cini mandaria fardos mensais de gengibirra aqui pra casa, porque sou a maior divulgadora do produto deles.

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Sempre achei que ter cabelo curto faria com que jamais me confundissem com evangélica. Mas fui. Uma foi sutil: o dono da academia que eu frequentava falava de brincadeira “queima ele, Jesus” e “Jesus, apague a luz”. Eu achava engraçadíssimo e non sense e adotei. Uma amiga próxima, espírita, que me conheceu lá, levou um tempão com medo do que dizia do meu lado. Acho que tinha fama de crente e nem estava sabendo. Não sei até hoje se quem achou que eu era por causa disso tem uma visão estranha de religião ou eu é que sou muito por fora do que os evangélicos falam.

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A outra foi recentemente. Acho que por causa da crise, pipocaram os carros que vendem coisas aqui no bairro. Sempre ignoro o carro com ovos, perco todas as vezes o carro que conserta panelas, enquanto estava na dúvida o das tortas se foi, aí quando passou o dos salgados quase me atirei na frente dele. Tem sem carne? Presunto é carne. Não moça, salame também é carne. Aí ela me perguntou se eu era adventista. Que raiva que me deu, não se fala isso pra uma cliente que acabou de ser frustrada no seu desejo de se encher de fritura.

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Não comentei aqui pra não dar zica, mas tive um semi-entrevero legal com o meu vizinho, por causa de um muro. Gastei com advogado e tudo, foi tenso. Mas, no fim, deu tudo certo. Aí tive que mandar fazer um teto pra cobrir a lage atrás, que estava vazando, e a obra nem começou e o cara se pendura no muro, indignado, achando que eu ia cobrir a área que até alguns meses estava brigando com ele para manter intacta. Depois, ficou um tempão dando pitaco no trabalho do pedreiro. “Teu vizinho é um chato, né?”, ele me disse no final do primeiro dia de obra. Nem me fale, queridão, nem me fale.

Curtas do urso inconformado

urso inconformado

Mania de marcar pra cortar o cabelo cedo. Não quis acordar tão cedo assim e pra chegar lá às 9h, ou eu tomava café correndo ou deixava pra depois. “Tem padaria boa aqui perto?”. Aí minha cabeleireira falou – “Sobe a Blablablá, cruzando a com Blublublu, sabe? Daí volta meia quadra e tem uma ótima”. Adivinha se não fiquei andando feito uma tonta em ruas aleatórias.

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Aí, na padaria que eu achei. Pedi um café com leite e um pão com queijo. O menino anotou um valor só, seis e pouco. Demoram pra atender, me trazem um pão quente – “Era frio, mas vá lá, me dá esse troço”. Nada do meu leite com café. Quando já comi metade, chamo a atendente, mostro a ficha: “O rapaz marcou isso aqui e só trouxeram o meu pão. E o leite, tá aqui ou não tá?”. “Ah” – ela diz num tom pouco convincente – “ele só marcou o pão. Deixa que eu te trago o leite e faço outra ficha”. Valor da outra ficha – pão quatro reais e pouco, café dois reais e pouco. Olha, até eu que sou lesa em matemática percebi.

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“Que delícia esse bolo!”, eu elogio. “É muito fácil de fazer, você pega…”- à exceção de uma única amiga, que (talvez por ter mais idade) simplesmente não é capaz de acreditar que alguém não saiba se virar na cozinha, eu já interrompo: “Não adianta me dizer como é que se faz que eu não vou lembrar e nem fazer. Se eu quiser comer de novo, vou ter que passar na tua casa e você fazer pra mim”. E não é que tem gente que faz mesmo?

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Fui contar vantagem da minha bota peludinha e deu no que deu, até hoje não veio a dita cuja. Mas como vou comprar quase com 50% de desconto direto do fabricante (uma vez na vida tô me sentindo bem relacionada?) não dá pra reclamar. Me vejo quase torcendo pra voltar a esfriar absurdamente de novo.

Dentes de leão estão na moda

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Dentes de leão estão na moda, Suzi. Eu não sei como isso soa pra ela, eu não gostei. Gosto muito dos dentes de leão – não precisa pensar muito para associá-los com lúdico, leve e efêmero. Não gosto que nada que eu gosto se torne moda. Quando está no auge da moda é ruim, porque vejo pessoas que ofendem os meus “símbolos” ostentando-os como se nada fossem; quando a moda passa, aí é o efeito contrário, e se torna totalmente out e insuportável que alguém ainda use. Tem coisas que são minhas e não quero que sejam confundidas com moda nenhuma, in ou out. Me agradam os vestidos floridos que remetem aos anos 70, e que combinam tão bem com casacos compridos de lã, meias calças e as botas de cano longo que as curitibanas não abandonam nunca. A lembrança das curitibanas interrompe imediatamente o comercial que passa na minha cabeça, onde estou vestida igual uma hippie, toda produzida pela C&A. Tudo bem, esses florais têm fundo preto e na prática talvez acabasse não usando. Mudo de loja, passeio pelas centenas de opções como se pudesse comprar e até posso, mas não devo. Os imensos manequins parecem tão modernos e elegantes, usando de maneira displicente jeans com quadriculado e lã, e quando olho para as roupas me sinto incapaz de combinar tudo de maneira tão interessante. A jaquetinha jeans que namoro há tempos foi para uma arara “a partir de 39,90”, mas continua 119,90. Quem sabe eu pudesse acrescentar mais cor nas minhas roupas se usasse a camiseta com estampa de baleias, mas nossa, que baleias caras. Não fui pra comprar, mas por onde começaria? Na loja iluminada, o que estou vestindo e o que tenho me parecem subitamente insuficientes. Por isso que estou velha, feia e sem namorado, por isso que nem pra me arrumar pro flamenco eu sirvo. Me irrito comigo mesma, com minhas teimosias, minha inadaptação que só faz crescer, minhas roupas. Para evitar o padrão irresistível de usar sempre a mesma coisa, faço tentativas imaginárias de comprar diferente. Mas aquela saia evasé até o joelho não combinaria com o All Star; eu teria que ter uma bota e não tenho bota. Quer dizer, tenho, mas ela não que me permite andar por aí o tanto que eu ando. Mas e se eu…  namorasse, precisasse de roupa de trabalho, um dia fosse alguém? Aí me canso – me canso de tudo o que poderia ser e não sou, do mundo consumista que se oferece e foge, da brancura e adolescência eterna da loja TwentyOne. Penso com inveja nos monges e góticos por não se atormentarem com o vestir. Ninguém me obrigaria a usar flor à flamenca se eu ainda cortasse o cabelo com máquina 3. Saio do shopping tal como linho no fim do expediente. Que alguém me produzisse, comprasse e me vestisse, porque tudo isso é muito cansativo, fútil e complicado.

Minha foto ga(s)ta

avatar macanudo

Evidentemente, esta não é a foto gata.

Para impressionar o meu crush, ganhei uma foto gata. E ao ganhar a foto gata, ouvi que era difícil me fotografar por causa do meu cabelo. Eu já sabia: meus fios brancos ficam muito brancos em fotos. Eles se concentram na parte da frente, na moldura do rosto. Dependendo da luz parece que o meu cabelo está todo branco; e eu fico “parecendo uma velha”.  Eu tinha que impressionar, eu tinha que ficar gata, eu tinha que… Minha filosofia no que diz respeito a conquista sempre foi o que eu escrevia no Caminhante responde questões esdruxulas: “Seja uma pessoa legal para homens, mulheres, cachorros, aliens. O resto vem naturalmente”. A internet é um perigo de se levar à sério, tem gente que não entende nada de nada e se arrisca a dar conselhos sobre o que não conhece. É o meu caso. Não sei se vem conquistar alguém naturalmente. Eu sou uma teimosa que insiste em seguir a vida ao invés de procurar um par. A tentativa de impressionar o crush falhou, e nela eu senti o quanto na verdade eu sou insegura. Olho pra ele debaixo pra cima, penso que é muita areia pro meu caminhãozinho, me recuso a me aproximar. Talvez eu realmente ficasse mais bonita se pintasse o cabelo. Um cabelo liso que eu deixo curto e ainda por cima faço cachinhos, tudo ao contrário. Eu escolhi deixar meu cabelo assim, é mais prático pra mim, eu gosto. Nunca me perguntei qual o efeito dele sobre o sexo oposto. Nem o efeito das minhas piadas, de estar sempre de tênis, de pintar as unhas de cores diferentes, de andar de bike… Meu crush não me adicionou mesmo com foto gata, mesmo disfarçando os brancos. Pena. O cabelo branco, atualmente, faz parte do pacote.

Be more cat

(Adoro este vídeo, Be more dog)

Quando conheci a Claudia e a achei bonita careca, me lembrei de uma coisa que a Tere, que tem gatos, me disse: “Nós deveríamos ser mais gatos. O gato é tão ele, tão irritantemente ele, faz tudo sempre do jeito que ele quer, que a gente acaba se conformando e se adapta a ele”. Eu acho que a beleza também tem disso. De ao invés de aderir correndo a um padrão, teimar um pouco mais. Quando a gente ama alguém, não se pega amando seus cacoetes, suas pintinhas, as rugas dos cantos dos olhos quando sorri? Acho que quando a pessoa teima em ser ela, pode acontecer justamente o mesmo processo dos gatos – o mundo é que se adapta à nossa estética.

 

Ando com os meus cabelos brancos por aí e muita gente acha ele lindo. Vou confessar: eu não acho. Eu tenho aquela auto-imagem de ter o cabelo castanho bem escuro, quase preto, então eu não vejo o meu cabelo como “quase luzes” ou diferente, eu vejo cabelos brancos mesmo. Sempre me estranho nas fotos. Mas mesmo assim eu não pinto. Aceito que agora ele é mais branco e pronto. Meu corpo mudou e o meu cabelo também. Eu envelheci; fora o meu cabelo, acho que a juventude tem até feito uma hora extra em mim, então não vou pedir mais. O tempo, dinheiro e preocupação de pintar o cabelo são investidos em outras coisas. Ou quem sabe eu até pinte, só de que rosa, azul ou outra cor absurda. Tinha vontade de fazer isso aos trinta e me achava muito velha; agora, com quase quarenta, me sinto pronta. Be more cat.

 

Este é Serafa, o mito, um dos gatos da Suzi.

Curtas de meia idade

“O seu cabelo está branco assim ou você faz luzes?”. Bem, pelo menos as pessoas ainda ficam na dúvida.

 

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“As pessoas mais velhas que acham que já sabem tudo, que nem ouvem o que você tem a dizer a elas – entrei naquela fase de achar que não apenas achar elas têm toda razão, como super quero exercer esse direito.

 

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Quando a pessoa te fala de princípios morais, autocríticas gigantescas e boas intenções e você só consegue ver, por detrás de tudo aquilo, que ela ainda não passou por nada.

 

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Quando você passa do estágio do perdão e começa a entender os teus pais de uma maneira profunda. Entendê-los como só um adulto pode entender.

 

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Me pego numa atitude de colecionador, de quem gosta de coisas vintage. Objetos que na época eram tão banais, agora para mim viraram símbolos, ficaram caríssimos. Não pode ser qualquer um, tem que ser aquele, pelo simples motivo de que ele estava lá.

 

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Por Deus, como eu sou lenta na hora de digitar uma mensagem no celular. Eu tentei correr atrás, mas a tecnologia cruzou a esquina e eu fiquei presa no sinal.

Curtas feicibuquianos

Com essa de amassar o cabelo pra fazer cachinhos, ele tem ficado todo pra cima e me sinto um pouco este cara. Quem já viu History Channel sabe que ele não é lá muito normal. Como minha amiga Tere disse que eu também não sou…

 

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Se tem uma coisa que eu não entendo é ter coragem pra tatuagem e ser medroso nas roupas. Se a tatuagem é algo temporário – porque, em última instância, somos – a roupa é muito mais!

 

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A Igreja diz: o corpo é uma culpa.
A Ciência diz: o corpo é uma máquina.
A publicidade diz: o corpo é um negócio.
E o corpo diz: eu sou uma festa.
– Eduardo Galeano (1940 – 2015)

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O melhor argumento que eu ouvi até hoje contra o frio foi o do Chicuta: a gente não consegue uma textura decente pra comer a manteiga.

Zapeando

Programas do tipo Master Chef me dão uma fome danada. Mas é uma fome frustrante: fico com vontade de comer camarão ao frufrufru com molho de não-sei-oquê e toque de lululu e só tenho iogurte activia pra me saciar.

Programas de decoração ou mudanças de casa me dão uma certa raiva dos americanos. Depoimentos chorosos do quanto a cozinha ou o banheiro são deprimentes, escuros, mal decorados, pequenos. Aí mostra o dito cujo e é igualzinho, ou até melhor do que os nossos. Casal precisa pra ontem se mudar, porque a casa é minúscula pra família. “A gente tem que pedir licença quando anda pela cozinha” ou “não tem sala de jogos para as crianças” ou “só tem 200m quadrados”. Ah, por favor!

Na oitava temporada do The Big Band Theory, Penny está com um cabelo curtíssimo e fiquei com vontade de cortar igual. O mesmo cabelo que Jennifer Lawrence estava usando. O mesmo corte que fiz no início do ano. Eu não aprendo: sempre adoro cabelo curto em loiras, todos os detalhes aparecem. Em mim, claro, não ficou aquele deslumbre. Estou numa fase que não sei mais o que fica bom em mim em váááários aspectos, o cabelo é um deles. Durante toda minha vida achei que eram os cabelos curtíssimos. Adoraria ter uma consultoria neste momento, tipo Esquadrão da Moda.

Por falar em Esquadrão da Moda: total empatia pelo casos “não sei o que vestir e ficar elegante no meu dia a dia que necessita de roupas práticas” e vontade de não dar roupa nenhuma pros “sou assim, sexymente agressiva e quero que vocês se danem”.

Eu via aquele programa de construir uma casa para os outros, o original que inspirou o Luciano Huck. Era quinta à noite. Eles contavam a história triste de como o fulano ficou sem casa. Lembro bem do caso de uma mulher com seis filhos cujo marido morreu quando quis reformar a casa que compraram e ela estava cheia de fungos. Os fungos o mataram, a casa foi interditada e a família não pode tirar nada de lá de dentro. Pra não parar na rua, foram viver na casa da irmã. Só histórias assim, terríveis. Mostravam a pessoa, a comunidade unida reconstruindo tudo, os detalhes de sonho, a reação… Era tudo tão bacana e bem feito que eu me acabava de chorar. Aí comecei a me sentir meio ridícula de todas às quintas, das 23 às 24h, me acabar de chorar. Parei.

Era

Eu comecei a cortar o cabelo curto na adolescência, mais precisamente no segundo grau. Lembro que na época eu andava com a Débora, que estudava na sala do meu irmão e era a única pessoa que eu conhecia que também lia Agatha Christie. Ela tinha um cabelo longo, liso e claro, que ela sempre alisava  com as unhas longas e faziam um barulho característico. Como mandava a moda curitibana da época, a franja era finalizada com um volumoso topete.

 

Primeiro cortei chanel e pouco tempo depois apareci com ele bem curto. Sem avisar e nem consultar ninguém. Mais: eu gostava de mudar de corte de cabelo no meio da semana. As pessoas me encontravam, ficavam espantadas, comentavam. Minha amiga Débora dizia:

– O cabelo dela ERA lindo!

Não preciso nem explicar que durante todos aqueles anos ela nunca havia dito nada a respeito do meu cabelo.