Empatia

Quinta feira, dia 27 de outubro de 2005, 17:45:

– Professora, com relação ao texto do LAQUEUR para o seminário. No programa está marcado da página 15 a 53, mas você deixou no xerox da página 15 a 203. O que devemos apresentar?
– É, eu coloquei mais do que no programa. Como é um texto que tem muitos exemplos, vocês devem apresentar o texto inteiro mesmo. Vai ficar mais interessante.

Não dava nem para discutir. A professora em questão é uma pessoa que dedica, como ela mesma disse, 90% da vida dela à docencia. Diga-se de passagem, os outros 10% são apenas para comer, dormir e ir ao banheiro. Ela não tem filhos, marido, ex-marido, namorado, amante ou mesmo um gato. Ela passou 6 meses na França por causa do doutorado e mal passeou por Paris, porque passava o dia inteiro pesquisando. Quando voltou para o Brasil, terminou sua tese – pioneira na área – com 6 meses de antecedencia. Como dizer para uma pessoa dessas que faz toda diferença ler 100 páginas a mais, mesmo sendo um texto interessante?

Esse é ponto: para ter empatia é preciso ter feito ou sentido a mesma coisa uma vez na vida. Quem sempre foi moral, exemplar, dedicado e puro é incapaz de não condenar que não consegue ser assim. Como uma amiga que tinha se mantido virgem até os 24 (depois perdi noticias, deve ser até hoje) e tinha um indisfarçavel desprezo por quem não conseguia “se controlar”.

Carolas e pessoas sempre certinhas são sempre moralistas. E pessoas totalmente desinteressantes. Daí a minha admiração crescente por quem sai do “normal”. São, quase sempre, pessoas corajosas. E, no mínimo, tem algo a acrescentar na vida dos outros.

Funk na veia!

Contra todas as expectativas, fui ontem no show da Tati Quebra Barraco. Cantei muitas pessoas para assistir o show comigo e ninguém quis. O Luiz deu graças por estar em São Paulo (última noite) e não ser pressionado a me levar. Muita gente achou que era brincadeira quando eu disse que queria ir- como alguém comportada e mestranda como eu poderia querer dançar Dako é bom/ Dako é bom? Talvez por isso consegui que me levasse justamente alguém que não me conhecesse- o Max, meu amigo até então apenas virtual.

Conseguimos entrar lá por 12 h. O funk começou as 2:15 e a Tati às 3h. Cheguei em casa às 5h. As letras são um capítulo a parte, de um vocabulário que…

Você quer ficar sarada? Então desce na piroca!
Você quer ficar sarada? Então sobe na piroca!

E eu descobri o lance do funk. Pelo menos para mim e os presentes, era tudo uma grande brincadeira. Com ingressos a 30 reais, éramos todas falsas cachorras, rebolando como nunca num lugar que não íamos nunca. Algumas adolescentes faziam performances e deixavam os homens babando; nenhuma lésbica, só porque é divertido ver que isso causava nos homens. Ninguém tentou se aproximar de mim por causa do Max, que foi tão cavalheiro comigo como nem meu irmão seria.

Resultado: hoje o dia foi quase perdido. Acordei meio dia, dormi de novo de tarde, aquela sensação de podridão. Mas, foi uma parada sinixtra, me diverti pá caralho! Quem sabe eu baixe algumas musicas dela pelo e-mule?

Fotos e lembranças antigas

Meu irmão me trouxe umas fotos, que ele encontrou no arquivo de fotos antigas da minha madrasta. Estou aqui olhando para o Flock – provável mistura de poodle com cocker, ele era muito mais bonito nas minhas lembraças. Nas minhas fotos com 10 anos, me surpreendo do quanto era magrinha – não se fazem mais crianças magrinhas como antigamente. Meu cabelo lisão com franja, que me rendeu apelidos maldosos na adolescência. A bicicleta com cestinha que eu quebrei no primeiro dia – quem mandou meu pai tentar me dar uma bicicleta com cestinha. Fotos de como era a casa do meu pai com as janelas verdes, como eu lembrava mas não tinha nenhum registro. E a descoberta que o número da casa era 37 1 e não 371.

Lá pra mim é uma coisa muito distante. Eu não apenas esqueço das coisas que vivi lá, assim como esqueço que o lá ainda existe. A mesma casa (com outras janelas), as mesmas pessoas. Que ainda lembram de tudo. Como o meu irmão.

Não sei se são as fotos, a chuva, a falta do Luiz… o fato é que estou melancólica pra caramba.

Ops!

Desde o fim da psico, nunca mais tinha tido a sensação horrível que tive hoje de tarde: de estar lendo um livro e a leitura se tornar insuportável porque ele parece estar falando de você. E eu que pensava que já estava tudo resolvido sobre que sou, minha infância, que fui, como foi…

Me sinto tão só.

Assim como há muitos anos não sentia vontade de recitar este poeminha. Não lembro quem é o autor.

Cantiga
Comigo me desavim
Vejo-em em grande perigo
Não posso fugir de mim
Nem posso viver comigo

Antes que esse mal tivesse
De outra gente fugia
Agora fugiria de mim
Se de mim pudesse

Que cargo espero,
Ou que fim?
Desde cuidado que sigo
Pois trago, a mim comigo
Tamanho imigo de mim?

Solidão

Esse negócio de ter alguém sempre ao lado vicia. O Luiz vai viajar amanhã e vai passar a semana inteira fora. Não gosto nem de pensar. Tem as coisas muito práticas, como: quem vai me acordar de manhã? Quem vai me dar carona? Quem vai me ajudar a dar bronca no cachorro? Quem vai lavar a louça? Minha vida é organizada a dois e agora vou ser como um time com um jogador a menos- vou passar a semana inteira em desvantagem.

Mas não é só isso. Quando ele não está aqui, tenho dificuldade de dormir. Tudo bem, com a crise de sono que tenho sentido nas ultimas semanas pode ser que não sinta tanto! O que sei é que passo muito bem sozinha até mais ao menos às 19 horas. Aí parece que fico na espera de uma pausa que nunca vem. O silêncio continua e sou obrigada a ligar a TV (coisa que nunca faço) só para que a casa não fique tão vazia. Depois vou para a cama e parece que falta alguma coisa. E falta. Às vezes ponho o pijama dele para me sentir mais segura.

De brincadeira, digo que nem o cachorro vai se lembrar dele depois de uma semana. Que não vou suportar ficar tanto tempo sozinha que vou arrumar outro. Ele ri. Tá na cara que não dá. Namorar é bom, mas intimidade é melhor ainda.

É psicológico

Pobre de quem não gosta ou não se dá bem com o orientador. Ele é o que mostra o caminho, que critica, que dá as diretrizes. Tem gente que se enrola, que foge, que atrasa, que desiste do mestrado sem saber que a culpa é dele. Tem orientador que some, que impõe, que nunca lê e até mesmo aqueles que só recebem bem os orientandos jovens do sexo oposto.

Fui parar na mão do meu porque é o único especialista em saúde do departamento. E talvez um dos maiores em saúde no país. Tem gente que o detesta: pelos seus passeios (temerários?) pela psicanálise, por participações arrasadoras em bancas, por ser curto e grosso – “não nunca é bom o suficiente para ele”. Tem também os que o amam, que dizem que ele é gente boa, sincero. O que sei que ele é um dos campeões do departamento em artigos e orientações. Por acaso é que não deve ser.

Nunca tivemos problemas. Mas confesso que a fama dele me fazia temer uma divergência a qualquer momento. Marcamos finalmente a orientação onde ele leria, na hora, as três entrevistas que realizei. Estaria lá, nua e crua, minha capacidade de extrair, com pertinência e delicadeza, o que precisava dos meus entrevistados. Confesso que entre a pertinência e a delicadeza, sempre acabo optando pela última. Temi que ele criticasse algumas omissões que poderiam ter levantando mais dados. Ou algumas brincadeiras que fiz para tentar descontrair. Ou alguns pontos em que fui muito pessoal com os meus entrevistados.

Acho que ele simpatiza comigo tanto quanto eu com ele. Falei sobre o que eu pensava, minhas novas hipóteses. Minhas dificuldades com a teoria. Fizemos anotações. Ele me emprestou 3 livros e me recomendou outros tantos. Enquanto tudo isso acontecia, ele lia minhas entrevistas. Ele se interessou vivamente pelas histórias tão interessantes e, em certos pontos, tão inesperadas. Disse estar preocupado com as perguntas, porque as respostas não dependem de mim.

Depois de dizer por três vezes que as entrevistas estão muito boas, ele completou:

– Por isso que eu gosto de trabalhar com psicólogos. Por saberem conduzir uma entrevista, irem de acordo com o discurso da pessoa, sem interromper e, ao mesmo tempo, sabendo colocar os pontos.

Não sei se a psicologia tem algo ou não haver com isso*, o que sei é que todo o cansaço que eu estava sentindo nos ultimos dias sumiu e me sinto ótima!

* ok, ok. Detesto admitir, mas aquele curso talvez me servido pra alguma coisa!

Benvindo ao Fantástico Mundo dos Casados

Vou falar uma coisa muito verdadeira: nunca fui tão assediada na minha vida como desde que casei. Como se esse anelzinho dourado na minha mão esquerda tivesse me tornado a mais irresistível das mulheres. Meu cabelo se tornou maravilhoso, minha pele luminosa, meu sorriso mais branco e minha personalidade estonteante. Todas as minhas piadas são engraçadas e até a maneira como tiro a melequinha do olho é sexy.

Eu tenho duas explicações para isso. Primeira: eu estou mais relaxada. Encontro um homem interessante e ele não é mais um namorado um potencial. Não tenho mais que conter algumas coisas, como umas brincadeiras sujas ou uns gestos mais exagerados, com medo do que ele vai pensar de mim. E essa maneira mais espontânea acaba se tornando mais encantora do que a para-impressionar-provável-partido.
{Comentário: se soubesse disso antes, rrrrrr!}

A segunda hipótese é bem menos fofinha. E acredito que abarque 90% dos homens e 100% dos casados (sim, um novo mundo se abre nesse aspecto também): eu não estou disponível e isso é que é o legal. Eles podem exercitar a sua fantasia o quanto quiserem, olharem e até mesmo se aproximarem porque não vai ter riscos. Sabem que sou muito reservada (leia-se: fiel) e que a coisa não vai se concretizar. E quanto a possibilidade mínima de eu corresponder, melhor ainda: não vou grudar. Como mulher casada, tenho muito a perder (muito mais do que um casado) se fizer alguma coisa para tentar ficar com um outro homem. Ou seja, sou a mulher perfeita.

Como diz uma amiga minha:
– Quando eu era casada, um monte de homens me diziam “ah, se você fosse solteira…”. Hoje eu estou solteira, mas e daí? Onde é que eles foram parar?

Revanche orgânica

Por causa do barulho e uma certa tendência à insônia que venho tendo, fui dormir pra valer lá pelas 2 horas de manhã. Acordei às 6:30, horário de sempre, para pegar carona com o Luiz e resolver minhas coisinhas. Cheguei em casa umas 10 horas e tinha a expectativa de fichar o Formas Elementares da Vida Religiosa para a apresentação de hoje no grupo de sociologia da saúde. Vã esperança. Apaguei até às 12:30. Tive que preparar uma sopa de pacote e sair correndo. Mais um matte leão, e assim passei a tarde inteira. Faminta, pedi uma pizza. O sono bateu, tentei resistir, levei o Parceiros do Rio Bonito para ler na cama. Resultado: não li nem a primeira página e dormi das 19 e alguma coisa quase até às 22 h. E continuo com sono.

Além da minha revanche orgânica tem a revanche da Dúnia, que fez um xixi enorme na sala porque passou a noite toda sem receber atenção.

Mãe de cachorro

Um dia estava no shopping com a minha mãe e ela impulsivamente comprou um poodle toy. O Quincas. Enquanto ela foi em casa buscar o cheque, eu fiquei com ele no colo. Lembro bem que ele era menor do que meu antebraço e dormiu quietinho até ela voltar. Começava ali uma paixão, que me levava a visitar minha mãe todas as semanas para correr com o Quincas por quase 10 quadras.

Eu não queria ter um cachorro meu. A dependência deles com o dono e a sujeira me impediam. Sem falar nessa história de ter que adaptar a rotina a eles. Mas quando a minha mãe se livrou do Quincas, a minha dor foi tão grande que não resisti e adotei a Dunia. Eu chegou aqui em casa quase tão miúda quanto o Quincas. Eu queria um macho, mas ela me conquistou com o olhar carente quando a vi pela primeira vez na pet shop. Ela e os irmãos foram abandonados, não faço idéia de onde vieram; estavam cobertos de cocô, xixi, pulgas, sarna quando os vi.

E ela faz tudo o que eu temia: sujeira, destrói coisas. Agora pegou o exasperante costume de ficar no último degrau da escada esperando que alguém lhe dê atenção. Às vezes dá pra fazer carinho, às vezes não. Às vezes dá e não faço, para que ela entenda que nem sempre estou disponível e que ela deve saber ser feliz apesar disso.

Toda essa história foi para contar que nunca quis e nunca entendi o desejo das pessoas de terem filhos. Assim como nunca quis ter cachorros, nunca quis ter filhos. Meu irmão mais novo tem apenas um ano a menos que eu e nunca ajudei a cuidar nem de sobrinho. Como cachorros, eles são terrivelmente dependentes e fazem uma baita sujeira. E modificam toda a nossa vida.

A Dunia me faz pensar que talvez, assim como cachorros, os filhos criem na gente um amor que nos faça adorar todos esses incômodos. Talvez.

(a foto que está junto do texto é do Quincas)

Stress ocupacional

Meu stress está saindo daquela curva ascendente, quando é compreendido como algo bom, que motiva, dá prazer e aumenta a produtividade. Ele está se tornando patológico.

Minha pele está horrível. Meu intestino não funciona como antes. Estou começando a ter problemas para dormir: demoro mais e fico preocupada, fazendo planos ao invés de relaxar. Meu apetite está desregulado. Meu humor está (mais) instável (do que o normal). Acordo mortalmente cansada. Não consigo mais brincar como antes. Sinto um desespero constante de que não vou conseguir dar conta de realizar minhas tarefas.

Isso não é tudo, e nem o pior. O problema é a constante culpa. Sempre que faço qualquer coisa que não seja ler o milhões de textos ou fazer os milhões de trabalho, sinto culpa. E esse qualquer coisa inclui desde comer longe do computador, a dormir à tarde quando chego em casa e desmaio na cama, ou vir para a internet ou ficar no sofá depois de passar quase 10 horas por dia dedicada ao trabalho. Não tenho cérebro pra mais nada, e ainda sim sinto culpa por não estar me dedicando mais, não estar dando 100%…

Eu mato aqueles que dizem que o stress está na cabeça dos indivíduos. Que é possível controlá-lo fazendo cursos bestas por aí e respirando fundo. Essas coisas de psicólogos*. Quando dizem para eu relaxar, respondo: Tá, e é possível eu relaxar e conseguir fazer tudo o que eu preciso fazer?

* smurf Zangado, meu ídolo, diria:
“Eu odeio psicólogos!”