Curitiba de loucos

Comprovando o que eu disse no post anterior, Curitiba é realmente uma cidade de loucos. Hoje saiu uma notícia no jornal de uma moradora de rua que tem por hábito tomar banho nua num dos principais chararizes da cidade. Ao reporter ela disse que vai ao chafariz quando fica com vontade de fazer sexo, já que seu companheiro morreu há alguns anos. Tem um amigo meu que já viu, eu nunca. Ainda.

A seguir, uma pequena listinha de outros loucos famosos da cidade:

Oil Man – o mais famoso de todos. Biólogo, com seus 40 e poucos anos, que tem a Oil Band, foi candidato a vereador e já apareceu no Jô. Ele passeia da bicicleta pela cidade, mesmo nos dias frias, só de cueca cor da pele e com o corpo besuntado de óleo.

Inri Cristo – nosso Cristo local tem apóstolos e apóstolas, igreja, site, livros e adora aparecer na TV. Antes ele andava pela XV; agora, só é representando por membros da igreja. E para freqüentar a igreja, tem que comprar no mínimo 1 livro dele.

Mulher com roupa reciclada – não sei se é só papel ou ela é louca. O fato é que anda com roupa feita de embalagens PET.

Outro maluco com reciclagem – ele até tem uma barraquinha na feira de domingo e participa do Atelier Aberto (feira restrita de artistas-artesãos). Faz umas miniaturas esquisitas pra caramba e se você comete o erro de perguntar sobre aquilo, ele não pára de contar histórias malucas. E ainda quer que você compre uma depois.

Sujeito que mata o gato imaginário – ele usa um apito e finge que maltrata um gato preso numa caixa de papelão. Sempre tem algum trouxa que cai e começa a reclamar.

Maluco que grita – de vez em quando, esse cara cisma com alguma frase, algo do tipo E eles pensam que enganam! e grita isso em altos brados, por toda a XV.

Loiro de cabelo chanel – esse daí é onipresente. Já o vi na XV, comendo nos Krishna, na feira de domingo. Seja lá onde ele for, começa a dançar no meio da rua, falar com as pessoas, fazer propaganda de algo perto dele, como se fosse funcionário. Quando comemos juntos nos Hare Krishna, ele me mostrou um anel e disse que era de Tutankamon.

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Rochas e folhas

Existem pessoas de trajetórias retilíneas e impermeáveis. São como rochas montanhosas e firmes. Alguns que nascem que algum dom ou que em algum ponto escolhem – o quê e como não importam, e sim o que elas fazem com isso. Uma vez feita a escolha, elas seguem em frente sem se desviar. Toda oportunidade é uma oportunidade que as levam para a sua meta. Essas pessoas nasceram para os grandes ou especializados cargos. Suas carreiras são sólidas, sua forma de investimento é a poupança e sua palavra é a coerência.

Outras pessoas são como folhas ao vento. Seu corpo é como uma esponja que absorve tudo ao redor. Cada passo da trajetória é uma história nova. Algo que nasce como hobby pode se revelar essencial ou o trabalho do futuro. Todo planejamento que essas pessoas fazem é em vão – seja porque o destino as desviou, ou porque as coisas que aconteceram até lá, fizeram com que o propósito inicial tivesse perdido a graça. Elas não tem carreiras, ou as abandonam. Seus investimentos são sempre refeitos e a inconstância é a sua pegada.

Como não poderia deixar de ser, os dois lados se olham com inveja nos momentos de crise. As rochas sonham com aventuras, com realidades diferentes, com mundos a serem explorados. Lamentam pelas coisas que apareceram na sua frente e nem viram por nunca olharem para os lados. As pessoas que olham mais são sempre mais interessantes. As folhas, por outro lado, sonham em ver o resultado das suas ações. Elas se cansam de recomeçar, duvidam do que fizeram. Perguntam se não deviam ter parado nesse ou naquele ponto, e sofrem com isso. Entre uma mudança e outra, sentem o desespero e o vazio dos que não tem o que cultivar. Todo o brilho e interesse que sua biografia lhe dá, deleita muito mais aos outros do que a si mesma.

Curitibanos

Há um fenômeno muito estranho, tipicamente curitibano, que pode acontecer em todos os lugares e com todas as pessoas. Às vezes de maneira dramática e preconceituosa, outras vezes sem nenhum motivo. Às vezes é uma defesa, noutras um jeito de ser. O ruim é que você nunca pode se defender direito, nunca pode alegar qualquer coisa. Estou falando da impecável educação e frieza com que você é tratado em alguns lugares. Você fala com alguém, e a pessoa te trata com todos os requisitos da educação, mas ao mesmo tempo você sente a pessoa gelada como o iceberg. Terrível.

Com pessoas de sotaques de carioca para cima ou pele escura para cima, isso é bem comum. Mas eu, branquela e adaptada, também passo por essas. Meu exemplo mais recente e chocante é uma professora que dá aula pra mim no mestrado. Ou melhor, ela e o marido, que dão aula para mim em horários diferentes e matérias diferentes, e há poucos dias descobri que são casados. Eles são ótimos professores – entendem do assunto, falam bem, exemplificam de maneira interessante, transmitem bem a matéria. O marido, em especial, é uma pessoal de senso de humor. Ao mesmo tempo, quando fui falar com eles no final da aula, me trataram de uma maneira tão gelada que fica até estranho – como um professor(a), tão cordial com uma turma, pode ser uma pessoa gelada no trato pessoal?

É possível ser engraçado, cordial, boa pessoa e ao mesmo tempo dar a impressão de não ter coração lá dentro? Os curitibanos provam todo dia que sim. Também trabalho com a possibilidade de que ela(e) não vai com a minha cara. De qualquer modo, ela(e) nunca fez qualquer coisa pra eu possa alegar maus tratos ou algo assim. Fica apenas a impressão, uma coisa subjetiva, um mal estar com a idéia de falar com qualquer um dos dois de novo.

Curitiba é mesmo a terra da esquizofrenia.

Ah, como eu queria ser da máfia!

Tem momentos na vida em que me dói o coração não me chamar Corleonne ou alguma coisa assim. Nem preciso falar do glamur, do Al Pacino, dos carros e da mística. Eu só queria ter aquele privilégio mafioso de ser ouvida, bem atendida. Sabe aquela coisa de dizerem – O Fulano está chateado com você! e o sujeito morrer de medo e corrigir sua conduta na hora? Então, era isso que eu queria.

Olha minha situação: a vizinha do sobrado do lado é uma adolescente mimada. Os pais compraram um sobrado igualzinho o meu, só para a filhota estudar em Curitiba. Tem uma amiga dela que divide a casa e uma Dálmata. Além de adorar dublar a Sandy, ela falta muito alto e dá pra notar que não tem um pingo de educação. Quando briga o irmão, o namorado, o colega, os rolos ou amigos, como boa mimada que é, vai pro quarto batendo pé, porta do banheiro, porta do guarda-roupa, brinca com a Dálmata no quarto… isso pra lá de meia noite. Eu, mesmo com um sono de pedra, acordo e não consigo dormir até que ela pare e resolva dormir. Antes do feriado, fiquei com a mão roxa de tanto bater na parede. Ela me acordou depois do feriado e deixei o rádio relógio ligado em protesto. O que aconteceu? Ontem, ela passou algo como das 21:30 às 1:30 fazendo barulho. Trouxe até uma amiga pra ajudar.

E agora? Barulho por barulho, ela o faz naturalmente. Ela é mais jovem, mais estúpida, fala mais alto, é mais mimada e mais mal educada do que eu. Pra fazer um isolamento acústico meia boca sairia por volta de 800 reais. O Luiz se propôs a falar com ela (a sorte é que ele não está aqui. Não teria sofá pros dois) e ameaçar com o tribunal de pequenas causas. Eu já pensei em envenenar a dálmata e montar uma falsa macumba na frente do portão dela. Não farei porque ela tem mais tempo e nível pra esse tipo de coisa. Ser um cidadão pacífico, comum e respeitável nessas horas é uma merda.

As mentiras que os profiles contam

A parte do about me do orkut é a mais complicada. Eu nunca consegui fazer um muito longo, dizendo as coisas que eu gosto, faço, etc. Já pensei em escrever um falando dos meus defeitos e do quanto sou detestável; mas quando leio isso nos outros, não me parece convincente. Esse negócio de falar de si mesmo, na verdade, é falar sobre as auto-ilusões. Esses tempos o meu about me exibia a frase: Gosto mais de esconder do que de mostrar. Com uma frase, escrevi algo profundamente verdadeiro ao meu respeito. Mais do que isso, acho difícil.

Escrevo isso porque ontem tive a experiência bizarra de ler o profile de uma pessoa que não vejo a muito anos – uma cobra, em resumo. Ler o profile dela e as comunidades foi muito estranho – ela estava lá, mas de uma maneira distorcida. Como explicar?

Ela fala no profile que os amigos são a coisa mais importante da vida – e é verdade, considerando que ela é grudenta. Milhões de comunidades dizendo que odeia ex-namoradas, que ama muito, que é ciumenta – verdade! Ela tinha um ciúme doentio! Eu incomodo muito e tua inveja faz a minha fama? Ela era a maior fofoqueira de todas, a pessoa que falava da vida de todo mundo! Comunidades dizendo que odeia mal-comidas, mulher de boné, psicanálise, quem iskrevi axim, gente burra… tudo combina com as milhões de rejeições gratuitas e agressivas que ela tinha. Só faltou uma comunidade pra dizer que ela odeia a Marisa Monte – tudo porque ela viu uma entrevista em que a Marisa disse ter comprado o vestido que estava usando (era uma festa chique) em um brexó.

Play it again, Sam!

Deve ser a mesma sensação de fazer um show humorístico por todo país – ter que falar a mesma coisa de novo, com a convicção de quem fala pela primeira vez. Tenho que terminar logo a minha dissertação, não agüento mais. Estou sempre falando sobre o mesmo assunto, analisando os mesmos dados. Chega uma hora que você não sabe mais se já falou aquilo ou se falou algo parecido de outro jeito. Ou é apenas porque você já viu 1000 vezes e está careca de saber.

Incoerência ou Eu e minhas nóias

Quinta-feira da semana passada foi o dia pela qual tanto esperava. Um ano pra ser mais precisa. Depois de um ano usando o aparelho móvel todo o tempo, retirando apenas pra comer e escovar os dentes, finalmente ouvi do meu ortodontista que agora devo usá-lo apenas para dormir. Isso, dormir, à noite. Sem mais instruções, sem número mínimo de horas por noite.

Eu já tinha apelidado meu aparelho de Nojentinho. Só quem usou sabe o chato que é, na hora de lanchar, ter que virar ou falar pras pessoas – Só um instante, tenho que tirar meu aparelho móvel! Era essa a minha maior implicância. Quanto a dormir ou esquecer, isso sempre foi muito tranqüilo pra mim. Meus próprios dentes me cobravam, com uma sensação esquisita, quando eu passava algum tempo sem eles.

Alias, esse é o meu problema. Meus dentes reclamam aquela sensação esquisita, e isso me faz colocar o aparelho de novo. Sim, eu que queria tanto me livrar do aparelho móvel, coloco-o espontaneamente ao longo do dia! Não em público, claro. Ele agora parece querer se juntar ao óculos e às havaianas, como parte do ritual de coisas-que-visto-quando-estou-à-vontade-em-casa. Sem dizer que essa coisa de que meus dentes vão se acomodar ainda me dá o maior medo. Como assim, ACOMODAR? Meu dentista diz que ele vai adotar a mordida mais confortável. E se eles ficarem feiamente confortáveis????

Conheci uma menina que dormia com seu móvel há mais de 10 anos, por puro medo dos dentes entortarem. Espero não chegar a tanto.

O pequeno príncipe e eu I

Quando passou o filme O Pequeno Príncipe na TV, eu só passei na sala pra ver algumas cenas. Sei lá, nunca fui muito chegada em TV. Eu era criança, e meu irmão mais velho ficou assistindo. Lembro da rosa, do planeta, do menino loiro procurando ajuda pra voltar para o planetinha. Ele vai falar com uma cobra, que maldosamente diz que pode levá-lo até lá. Depois disso, saí da sala e fui brincar.

Mais tarde, perguntei para o meu irmão se o pequeno príncipe conseguiu voltar. Ele me contou essa versão, na qual acreditei durante muitos anos:

– Ele aceita a proposta da cobra, ela o pica e ele morre.

O pequeno príncipe e eu II

Um dia eu estava na biblioteca olhando uma pilha de livros e vi O pequeno príncipe. Lembrei das palavras de um amigo argentino – alheio ao nosso imaginário a respeito desse assunto – que garantiu que era um livro belíssimo. Peguei. Devolvi. Peguei de novo. Será que levo? Olhei, era fininho. Um clássico da literatura mundial. Tem um filme dele, inclusive. Hesitei. É, vou pegar.

No caminho – nem tão longo assim – até o balcão de empréstimo, comecei a me sentir muito mal. Uma miss, pra ser sincera. Pensei nos muitos livros, profundos e importantes, que já peguei naquela biblioteca ao longo da vida. Pensei na bobagem de me importar com a opinião dos outros. Eu estava levando um clássico da literatura mundial, afinal de contas. Lembrei daquela frase que odeio, e que por acaso é desse livro – És eternamente responsável por quem cativas. Tentei colocar o livro debaixo do braço de tal maneira que a capa não ficasse visível. A fila estava longa e o fato de eu não levar mais nenhum livro iria depor contra a minha pessoa. “Eu sou inteligente, só estou curiosa pra ler o livro, viu!? Um amigo argentino me recomendou!” – tive vontade de gritar para todos. Não, não havia como esconder o livro de maneira digna. Lá estava eu, de maiô cavado, com um número na lapela, dizendo que adorava o Pequeno Príncipe. Por que diabos não tiraram a capa quando arrumaram o livro? (ele tinha sido restaurado)

Sou muito boba por ter devolvido ao lugar onde o encontrei?

Embromation

Desde aquele incidente com o meu orientador, escrevi apenas algumas linhas para o meu trabalho. Antes, depois de passar o dia inteiro em aula e passear com o cachorro, vinha direto para o computador e escrevia. Quando faltava alguma leitura, lia aqui mesmo, pra já completar o trabalho.

Eu já fiz gesso, brinquei com o cachorro, passei pano lá embaixo, arrumei umas roupas espalhadas, me depilei, recarreguei a bateria do celular, acendi incenso, ouvi CD dos Beach Boys, respondi scraps… adivinha o quanto eu escrevi?

Eu sou uma diva!

Neste momento, estou postando maquiadíssima, pois não estou com coragem de tirar a cara mais bonita que já tive em toda a minha vida. Nessas loucuras de amigas, fui parar numa sessão de fotos para fazer poses de Balance e Pilates. Como foi uma sobrinha de uma das fotografadas que arranjou, achei que seria tudo mais amador. Gente, não foi. Fotografo, fundo branco, iluminação, maquiagem profissional, ajustes técnicos. Me senti a própria Bünchen.
Tudo começou com essa coisa de achar as poses da aula lindas. E aquele papo de que um dia tinha que tirar foto, que eternizar, que a Janine que foi bailarina durante tantos anos não tem fotos decentes, e eu que sou escultora… Hoje foi o dia. Se não fosse para fazer entre amigas, ficaria tímida, não teria coragem de mobilizar uma estrutura dessas para satisfazer minha vaidade – todas as fotos são para consumo próprio mesmo. Aff, tenho que reconhecer: satisfazer a vaidade é óóóóóóóóóótemo!

Vida de modelo não deve ser fácil. A maquiagem é pesada, mas lindíssima. Tirei fotos no meu celular agora e tudo saiu milagrosamente lindo. O fundo é um pano, que escorrega, amassa, amarfanha e tem que ser constantemente ajeitado. Some tudo isso com poses complicadas! Na hora de tirar as fotos, é esquisito não saber direito o que se está fazendo. Ergue o braço, vai mais pro lado, faz pescoço de tartaruga, relaxa o rosto. Enquanto isso, todos te olham, te corrigem, comentam sobre mil coisas e a luz vai mudando. Às vezes você tem que ficar parado enquanto puxam a blusa, ajeitam a mecha, arrumam o fundo.

Acho que vou aproveitar uma das milhares do fotos lindas que tirei no celular pro meu avatar do orkut. Pro blog vai só a foto que tirei hoje da Dúnia, feliz porque ia passear. Sim, eu sou má – aqui, nada. Quem manda cometer orkuticídio, cara leitora?