Pudor

troche

Não gosto de falar de mim. De vez em quando alguém se propõe a me conhecer, senta numa cadeira na minha frente, olha nos meus olhos e me faz uma pergunta pessoal direta. Não uma brincadeira ou uma opinião, coisa que ofereço com muito prazer, e sim um fato biográfico – o que você faz, em que colégio estudou, qual o seu plano? Invariavelmente fico muito sem graça, respondo com outra pergunta, tento desviar o assunto, dou uma resposta evasiva. Soa estranho eu dizer isso, eu sei. Estou aqui o tempo todo falando eueueu, me expondo e expondo também aqueles que um dia fizeram parte da minha vida. Numa ordem de importância, eu diria que a biografia é muito menos do que o expor, e anterior a isso é o escrever, o comunicar. O que eu tento fazer, na verdade, é usar a minha biografia como meio. Sabe quando você está com quem ama e conversa sobre o tempo, a meia furada, o que o cachorro aprontou, o que pensou enquanto mastigava o pão ou andava até ali e coisas incrivelmente banais, cada vez mais irrelevantes, porque na verdade o importante é estar lá? Estar lá, mostrar que você se importa e manter um vínculo. Falo eueueu porque é o que tenho. Se tivesse acesso a outra biografia para isso, pode ter certeza de que a usaria no lugar da minha.

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