Curtas possíveis

Não poderia ter tatuagem nem se quisesse, por ser alérgica, mas isso não me impede de ter tatuagens imaginárias. Uma grande tatuagem, na realidade. Tenho tanto ciúmes dela que nem vou contar como é pra ninguém imitar. Numa das variantes, ela tem uma frase, tirada de uma música francesa. Me disseram que na França ela é bem conhecida, porque Bourvil é como se fosse o Chaplin deles. O verso que eu escolhi diz que “entre escombros, eles dançavam”.

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Por outro lado, fiz uma única tentativa na vida de ler o Diário de Anne Frank e parei nas primeiras páginas. Ela tinha um jogo com as irmãs de imaginar o que fariam se pudesse ir pra qualquer lugar no mundo exterior, naquele instante. A noção de ter que arranjar estratégias para não se abater numa realidade tão pequena foi demais pra mim.

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Por influência do Milton, comecei a ler Karl Ove, um novo autor querido do mundo. O anseio dele se resume a querer “ser uma pessoa decente”. Ele foi descrevendo com tanto brilhantismo as coisas mais prosaicas, que até me animei – também sou prosaica, quem sabe um dia consiga escrever um livro assim. Aí no segundo volume (é uma série que terminou recentemente no sexto), ele faz um troço que, bem, não somos prosaicos do mesmo modo.

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O nível de decepção das pessoas com as pessoas me faz pensar que talvez eu viva há tempos num lugar escuro, porque ninguém me surpreendeu tanto assim.

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O Miguel Araújo lançou essa música agora. Só mesmo alguém longe, em outro país, vivendo uma situação totalmente diversa, pra escrever isto agora. Saudades de comentar amenidades aqui com todo direito e naturalidade. Saudades de ser leve. Saudades de me incomodar com minhas próprias picuinhas.

 

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Guerra ao conhecimento

livro fósforo

Eu estava lendo um grupo no facebook onde quase todo mundo tem pouco escolaridade e escreve errado. Para quem recebeu uma boa alfabetização, ler “licoeso” (lhe conheço), “sintrome tital” (síndrome de Down) ou “conselho do telar” (conselho tutelar) é tão surpreendente que nem se quiséssemos poderíamos inventar essas palavras. Uma vez corrigiram quem escrevia assim, e a resposta foi: lá vem humilhar a gente.

Quando vejo movimentos coletivos, procuro sempre ver quem é a pessoa comum que está recheando as estatísticas. Eu vejo nas pessoas que se sentem humilhadas em terem seu português corrigido aquelas que têm recusado o saber científico, que preferem acreditar nos seus próprios olhos pra dizer coisas como que a terra é plana. Eu penso na pessoa que nunca vai escrever direito porque não teve uma boa escola, e saber se certas palavras são com S ou Z é que muito (apesar da pronúncia) não se escreve “muinto”, é apenas uma questão de ter oportunidade de entrar em contato com a palavra escrita desde cedo, e ela realmente não deveria ser diminuída por isso. Penso nas muitas faxineiras que ouço no ponto de ônibus, espertíssimas, e que são vistas pelos seus patrões como qualquer coisa porque fazem trabalho braçal. Ou nem preciso pensar em exemplos extremos: penso em mim mesma, quando fazia faculdade, e era um nojo na minha pretensão e sapiência. Se eu entrasse em contato com a Eu daquela época, também teria vontade de dar umas bolachadas. Hoje conheço muitos doutores – alguns até com doutorado – e que nem por isso deixam de ser completos idiotas. Alguém tirar de algo externo um motivo pra se achar melhor do que você é muito irritante; não passo isso com relação a escolaridade, passo por ser mulher. Quanto mais fatores que servem de pretexto pros outros te desvalorizarem – escolaridade, sexo, raça, orientação sexual, etc -, pior.

Mas, por mais que eu reconheça que existam motivos pra mágoa, não dá pra apoiar uma cruzada contra escolaridade. Se formos levar essa ideia à sério, se o sujeito aprender as quatro operações e a assinar o nome está tudo bem. Conhecimento de vida e conhecimento escolar não se opõem. Educação e conhecimento – nada disso deveria ser colocado num pedestal. Acho que, na nossa realidade, tudo acaba ficando misturado: elite branca, escolarizada, racismo, pouca mobilidade social, opressão econômica. Aí a mágoa também mistura tudo, e acontece aquela história de jogar o bebê fora com a água do banho. Mas a elite apenas “sequestrou” o conhecimento; em si, o conhecimento é o que temos de mais precioso enquanto humanidade: ele é a capacidade de passar adiante o que aprendemos, mesmo quando não estamos fisicamente presentes. O cara que escreve errado e a faxineira também têm o que dizer, e é justamente a dificuldade de lidar com as normas que os silencia. Conhecimento é instrumental, é poder. Então não, não pode escrever de qualquer jeito e quiser é com S mesmo. Não dá pra ser contra conhecimento, achar que o que eu vejo/sinto vale mais do que o que está nos livros, estudos e satélites; achar que a Bíblia ou qualquer livro sagrado explica o mundo; tirar vaga de universidade e investimento em pesquisa, ignorar os especialistas. Sabe aqueles pais que ganhavam pouco mas faziam questão de colocar os filhos na escola, apesar de todas as dificuldades, pra eles serem alguém na vida? É isso que temos que fazer enquanto país.

Curtas sobre inveja

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Eu tenho o livro da Coleção Plenos Pecados sobre Inveja. Tenho por motivos sentimentais, porque a história em si não me conquistou. Ela mistura dados estatísticos com uma história nada convincente. Nesses dados, eu lembro, fala do quanto a inveja é sempre um sentimento dos outros. Já Elena Ferrante faz quase um tratado sobre inveja e me pergunto se ela tinha consciência disso ao escrever.

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Tem umas santas informais em Curitiba, e um dia passou a história de uma delas, que era uma empregada maltratada pela patroa. A patroa era ruim com ela como madrasta de contos de fadas. E apesar de maltratar a menina de todas as formas, ela ainda lavava roupa cantando, o que enfurecia a patroa. Quando tenta tirar tudo de alguém, tudo o que está a seu alcance, o que o invejoso tenta é tirar a alegria.

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O que me faz voltar a frase mais fabulosa de todas, já falei dela aqui, do Kibe: o que querem é perceber que você sentiu o golpe.

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Obviedade não tão óbvia que me falaram: a inveja nunca é do ter e sim do ser. Realmente. Se fosse assim, só teria gente invejando quem tem Ferrari, não quem anda de ônibus, falando a grosso modo. O invejoso pode dizer para si mesmo que o problema é o emprego, sorte, beleza e etc que ele não tem, mas essa seria a segunda camada. Por ordem: achar que não tem inveja, achar que tem inveja de algo exterior, inveja do ser.

Verdadeiramente de repente

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Posso lhe fazer uma observação? Você sempre usa verdadeira ou verdadeiramente, tanto falando quanto escrevendo. Ou então dizer: de repente. Mas desde quando as pessoas falam verdadeiramente e desde quando as coisas acontecem de repente? Você sabe melhor do que eu que tudo é uma grande confusão, que uma coisa acontece depois de outra e de mais outra. Eu não faço mais nada verdadeiramente, Lenu. E aprendi a prestar atenção às coisas, só os idiotas acreditam que elas acontecem de repente.

Elena Ferrante/ História de quem foge e de quem fica

Às vezes acho Elena Ferrante horrível. Sai voando sobre os fatos, poucas passagens dignas de recitar, irregularidades, uma constrangedora revelação biográfica. E a protagonista me dá nos nervos pela sua insistência obsessiva sobre a amiga de infância. Mas cá estou, largada de todo resto, sufocada e rendida pela série Napolitana.  Ao lado da crocs, é algo que se alguém me mostrasse e perguntasse sobre o potencial, eu diria: esquece, ninguém vai querer perder tempo com isso!

Um problema novo

Fui na biblioteca devolver os últimos livros que peguei e, ao contrário do que faço há anos, quase a vida inteira, não peguei nada novo. Acho que foi só durante a faculdade que deixei de pegar livros na Biblioteca Pública, porque os pegava da biblioteca da universidade. Foi uma sensação de término de relacionamento. Não digo que nunca mais pegarei nada, que me abastecerei para tudo de arquivos mobi, mas sem dúvida nada será como antes. O novo formato combina comigo, que nunca fui de posar na frente de estantes. Fui criada ouvindo a pergunta, antes de querer comprar algum livro: Mas você já verificou se tem na biblioteca? Se a resposta fosse afirmativa, era um desperdício querer comprar. Não tenho big estantes, fotos diante de estantes, check in em sebos e sempre achei – estava redondamente enganada! – que não precisaria de nada disso para as pessoas perceberem que leio muito e mereço crédito. Mas o problema novo não é deixar de ler, e sim ter me dado conta que a minha coleção de marcadores de livros não tem mais razão de ser. Ainda não sei o que farei; como desacumuladora compulsiva, não me agrada deixá-los aqui como lembrança. É provável que me livre de alguns jogando no lixo ou os espalhe pelo mundo, entre pessoas que eu gosto. Quem sabe guarde alguns. Este daqui é um dos meus xodós:

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Chocantes e recentes descobertas

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Kindle: Você teria um minuto para ouvir a palavra de Kindle?
Pra não me estender aqui no óbvio, de dizer de novo que amei e que vantagem incrível é ter vários livros armazenados. Quando lia que ele é gostosinho de pegar, achei que fosse exagero nerd, mas pior que é verdade. Pra quem lê vários livros ao mesmo tempo, é um barato poder estar com todos eles disponíveis ao mesmo tempo, sem ter mais aquela situação de “estou lendo esse porque é o mais leve/o que eu trouxe, mas eu gostaria mesmo de estar com o outro”. MAS, tenho que dizer que fico com receio de ler em público, fico com medo de ser roubada, coisa que com um livro eu sei que jamais aconteceria – já pensou, seria até engraçado, ser roubada porque o ladrão é doido por Hugo Mãe.

Shakespeare: Muito bom esse autor, acho que todo mundo devia ler.
Eu li todas as comédias e nunca consegui passar disso. Eu tinha em casa a coleção completa, que pertenceu ao meu avó, uma tradução em versos de mil novecentos e pouco. Era um trabalho desgastante ler aquilo, tão desgastante que causava pouco prazer. Vi há poucos dias um documentário na Netflix (Now: In the wings on a world stage) sobre uma montagem de Ricardo III feita por Kevin Spacey e fui atrás. Agora estou lendo devagar porque estou achando tudo tão maravilhoso que tenho que parar pra anotar e saborear. Um trecho curtinho que eu apelidei de “humor involuntário em Shakespeare” e só não adoto pra vida porque pessoas não captam ironias:

Quisera eu ser moça do campo antes que grande rainha, assim maltratada, escarnecida e ultrajada. Pequeno contentamento tenho eu em ser Rainha da Inglaterra.

Isabel, ato I, cena III

 

Despacito: Quiero desnudarte a besos despacito…
Esse foi realmente pra fazer tirar o dedo do botão do leitor que havia decidido me seguir quando eu disse que estava lendo Shakespeare. Despacito comentada em todos os lugares e passei incólume por todos os links e programas, até decidir colocar de recomendação (irônica) como “música para fazer yoga” para uma amiga. Como já tinha clicado, fui lá ver o tal clipe… Olha, entendi aquela história de dizer que tem que fazer lobotomia pra tirar certas músicas da cabeça. Qualquer referência a Despacito dispara em mim um gatilho mental de mais de 72h. O ritmo é irresistível pra quem é chegado em mexer a raba e, vamos assumir, que letra…

Curtas gastando dinheiro (ou não)

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Lembro da primeira vez que entrei numa loja Hering, do quanto fiquei indignada com o preço. Nos anos 80, junto com Sulfabril, Hering era sinônimo de roupa básica e barata, camiseta branca.

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Agora as Havaianas estão assim. Ok, os gringos já amam faz tempo, mas precisa um chinelo custar 40 reais? E as últimas que eu comprei soltaram as tiras bem rápido.

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Lembro que uma vez li como eram várias coisas com a idade, e pra lá dos sessenta o jeans era “aqueles com elástico”. Não cheguei em jeans com elástico ainda, mas os de hoje fazem com que eu me sinta uma salsicha amarrada: gordurinhas saltando pra cima, quase gangrenando na panturrilha.

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Mal comprei um Kindle e já necessito como se não conhecesse outra forma de viver.

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… e já tenho mais livros baixados do que consigo ler. Tudo de graça. Eu, que escrevo. Bem…

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Empresa de gás oferece os seguintes brindes a cada pedido: balde, vassoura, prendedor de roupa, rodo, pote com tampa e suporte plástico para botijão. “Que coisa mais estúpida”, pensei assim que vi, “achar que a gente vai pedir gás deles pra ganhar esses brindes baratos”. Hoje: colecionadora de baldes.

Borra que não pode ser extinta

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Foi quando escrevi sobre O Tambor que soube que Günter Grass chocou os fãs ao contar que fez parte da juventude hitlerista. Quando li aquilo, não tinha a menor intenção em me aprofundar no assunto; mas, quanto terminei O Linguado, percebi que não estava preparada para abandoná-lo, com a sua imaginação delirante, escatológica e engajada, e me vi pegando mais dois. A autobiografia me prendeu logo nas primeiras páginas. O mea culpa que ele faz é tão profundo, tão sem escusas, que fico surpresa dele ter “apanhado” por isso. A dureza com que Grass olha pro seu passado, ao se acusar de não fazer perguntas, se negando até a alegar que foi seduzido, me lembrou do livro (que inspirou o filme) O Leitor e alguns documentários que vi sobre a maneira como os alemães lidam com seu passado: o horror pela sua participação, a necessidade de olhar e o problema insolúvel da normalidade. Os mesmos avós e tios amorosos dos doces e natais em família participavam de um sistema que matava.

Eu não consigo culpar Grass com tanta dureza porque também me parece que me calo demais. Não tem Hitler, gueto ou câmara de gás, mas olha o que está acontecendo – esse golpe, essa corrupção, esse imenso absurdo de perda de direitos. Também diremos:

Palavras invocam outras palavras. Dívidas materiais e dividas morais, culpa, dívidas e culpa, Schulden e Schuld. Duas palavras tão próximas uma da outra, tão arraigadas no solo da língua alemã e ainda assim as dívidas – mesmo que seja em parcelas, conforme faziam os clientes de minha mãe que compravam fiado – podem ser amortizadas com tanta facilidade ao passo que a culpa, tanto a culpa demonstrável quanto a oculta, ou mesmo aquela que é apenas presumível, permanece. Ela tiquetaqueia sem parar e mesmo em viagens a nenhures ela já se adianta para ocupar lugar aonde ainda nem chegamos. Ela diz-se ditadinho, não teme repetições de nenhuma ordem, faz-se esquecer, clemente, por algum tempo, e hiberna em sonhos. Permanece na condição de borra, ao fundo da xícara, não pode ser extinta em sua condição de mancha nem lambida até secar sua condição de poça. Ela aprendeu desde cedo a procurar refúgio em uma concha de ouvido quando confessada, a se fingir prescrita ou perdoada há tempo, menor do que pequena, como se fosse um nada, e então volta a se levantar de novo, assim como a cebola diminui, membrana a membrana, inscrita duradouramente nas peles mais jovens: às vezes com letras maiúsculas, outras, na condição de oração subordinada ou de nota de rodapé, de quando em quando perfeitamente legível, em seguida mais uma vez em hieróglifos que, se é que podem ser decifrados, podem sê-lo apenas com muita dificuldade. Para mim vale, legível, a inscrição breve:

Eu me calei.

Günter Grass/ Nas peles da cebola, p.31

O milagre

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Eu me preocupei tanto com o assunto, sofri tanto e finalmente entendi: Wanessa Camargo. Explico: é possível chegar com pistolão, com pompa e circunstância, tudo ajudando. Como foi com a Wanessa Camargo. Como foi com tantos autores que tem por aí, que não citarei pra não ser injusta. Mesmo porque, se eu citar e você souber, é porque não é deles que estou falando. Então, tem o pessoa com tudo, que chega chegando, que tem festa, que tem apoio. Mas esses são os raros. O meu destino sempre foi o do comum. A pessoa que não tem ninguém por detrás, que não tem QI, parente, ajudinha e nem ao menos sorte. Essa pessoa faz o possível, tira do bolso, divulga, faz propaganda, vira a mala sem alça que obriga os amigos a lerem, escreverem, comprarem. Mas tanto o do pistolão e o anônimo vão conseguir chegar apenas a um certo limite. O limite do primeiro é maior, mas também é limite. Depois de lançado e divulgado, de se falar tudo o que se pode falar, de se encher o saco tudo o que é possível encher, tem a parte incontrolável, a que eu chamo de milagre. A parte da pessoa chegar em casa e aquilo fazer diferença pra ela. Eu posso obrigar os amigos a comprarem, o pistolão pode induzir as pessoas a comprarem, mas o leitor silencioso na poltrona é que vai saber se aquilo mexe com ele. É o leitor que, espontaneamente, vai abandonar o livro ou achar que aquilo lhe toca profundamente a alma – e espalhar. Isso não se fabrica e é isso o que tem valor.

Curtas do estado civil

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E quando você acha a pessoa uma linda, bacana, espiritualizada e tals, mas depois de cada encontro tem que se deitar no sofá e dormir umas duas horas?

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Ter vida social tem se tornado ainda mais difícil para mim depois que descobri o Gaspari. O placar deve estar nuns vinte a zero numa relação Ler o Gaspari x Qualquer outro programa fora de casa.

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Novos tipos de declaração de amor: você me interessa mais do que o Gaspari. Você me entretém mais do que o Gaspari. Gosto mais de estar com você do que com o Gaspari.

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Mas nem tudo são flores: desde que comecei a ler sobre a ditadura, tenho pesadelos com ela. Vou nos lugares – uma casa na região do Araguaia, na prédio que nem conheço da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – e encontro as poças de sangue frescas no chão, cadáveres ao lado, procuram por pessoas que eu sei que já estão mortas.

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Meu aparelho de DVD não abria nem com pé de cabra, e como a opção de consertar um aparelho sem uso há anos e que nem existe mais locadora pra isso, me livrei. Coloquei no Lixo Que Não é Lixo e sumiu num instante. Até aí beleza. O problema é que ele abriu um espaço, que completei com livros, aí o lugar onde os livros estavam ficou vazio e…

Curtas do sapo sonolento

sapo sonolento

Vocês não terão a honra de ler livro meu pela Companhia das Letras. Ou, pra ficar mais bonito: a Companhia das Letras não terá a honra de me ter na sua lista de autores.

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Se é que um dia alguma editora séria vai ter. Tá, isso soou pessimista. Por outro lado, achei que iria doer ler uma recusa deles, editora que é meu sonho de consumo, e foi tão normal. Quem sabe eu já espere. Tanta gente recusada, por que comigo seria diferente? Tá, acho que isso soou ainda pior.

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“Hoje em dia as pessoas não interagem mais, ficam com a cara grudada no celular”. Eu acho ótimo, de verdade. Depois de uma vida inteira ouvindo queixas por estar com a cara enfiada no livro, agora todo mundo faz a mesma coisa.

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Você tem um projeto e deixa de lado pra cuidar de pedreiro, você está chateada com a situação política e recebe um whats de um coração partido. O cotidiano é uma âncora, não?

Curtas do bode lendo

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A atual temporada (6º) de Game of Thrones ultrapassou os livros e estou achando ótimo. Eu comecei vendo a série, corri e li tudo, e a partir daí foi aquele inferno: no livro não é assim, não é esse personagem que faz isso, cadê tal cena?

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Não vou soltar spoiler, mas A Morte dessa temporada mostra o quanto vamos nos dessensibilizando. Eu já estava numa atitude de: pode dar bebê pra cachorro, cortar cabeças, esfolar, nada mais me choca. Mano, eu estava errada.

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A biografia do João Goulart escrita por Jorge Ferreira é uma das mais deliciosas que li nos últimos tempos.

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Acho que tudo começou com Chatô. Ele me levou a Samuel Wainer, que me levou à mulher dele, Danuza Leão. Todos os caminhos levavam a Getúlio, mas a escrita de Lira Neto não me envolveu. Suzi fez com que eu também me apaixonasse por Darcy Ribeiro, que fala muito do Jango. Estão na lista: Carlos Lacerda (será possível gostar desse homem?), Leonel Brizola e JK. Em comum: todos se conheceram, influenciaram-se mutuamente e ao Brasil. Estou apaixonada pela geração inteira.

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Todas as minhas leituras agora são prejudicadas pela necessidade de ir no Google Imagens digitar os nomes das pessoas pra ver a cara delas. Quero ver a Neuza, irmã preferida do Jango e que mais tarde se tornou a Sra. Brizola; quero ver a cara de Hugo de Farias, que ameaçou deixar o cargo quando Jango assumiu o Ministério do Trabalho e se tornaria seu braço direito. Ou como é a bunda do gado Jersey, citada por Almeida Reis.

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E você acha que quando é romance as coisas melhoram? Fico querendo quero ver que caras colocaram nas adaptações para o cinema. Numa dessas buscas descobri a loirinha bonitinha do Downton Abbey como Princesa Maria Bolkonskaya, de Guerra e Paz. Fiquei indignada, nada a ver.

Um lugar dentro de si

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Há de se amar a cultura, o conhecimento; geralmente identificamos isso como amar os livros. É que os livros nos permitem tanta coisa, são tão ricos, mas vamos fazer justiça: existem documentários, revistas, teatro, música, HQs, etc. O importante é amar a cultura, a informação, o estudo. Somos todos muito incultos. Somos sim, nós brasileiros, um país que investe tão pouco em educação e tem currículos tão defasados. Nós que temos atrás de nós gerações de incultura, nós que não lemos nem dois livros por ano, nós que não tivemos sociologia e filosofia nas escolas. E recentemente, nós que não precisamos decorar mais nada porque existe o Google. Não vou discutir o quanto saímos perdendo enquanto país porque isso é amplo demais pra este bloguinho. Quero falar da perda pessoal. Eu vejo que quem lê, quem tem amor ao conhecimento tem aonde ir quando tudo lhe falta. Essa pessoa pode estar sem dinheiro, sem amor, sem amigos, sem possibilidades, tudo dentro de si pode parecer escuro e sem perspectiva – mas ela tem interesses e esses interesses podem preenchê-la. Falo de cadeira. Ela pegará um livro do seu autor ou assunto preferido e isso lhe bastará por dias, horas, o tempo que ela quiser. Enquanto isso, o coração descansa e o tempo cura o que precisa ser curado. Ao contrário de tarja preta, não tem contra indicações e torna a pessoa melhor no final do processo. Seu universo se tornará cada vez maior. É uma espécie de poder, é como ter um refúgio dentro de si. Dá uma independência danada. Um bom livro, um lugar confortável, luz e está feito. Para mim, a falta desse lugar é a maior perda de quem não ama o conhecimento.

Com inveja de Simone de Beauvoir

O filme mostra que Sartre se interessou por Simone porque ela estava sempre lendo, estudando, escrevendo. Tanto que a apelidou de “Castor”.

 

Eu sempre sou aquela que defende os não-leitores da detração dos leitores, a que se coloca contra essa maneira de dividir o mundo. Sempre sou contra que coloquem o número de livros como medida de inteligência. Sou a que no meio de uma discussão sobre a incultura nacional, no meio de gente onde citar Machado de Assis é coisa de principiante, fala: “Vocês são uns elitistas. Estão colocando algo que sabem fazer bem como medida de superioridade só porque isso os beneficia”. E cito uma frase do Millôr que diz que jogar xadrez desenvolve muito a inteligência de jogar xadrez. Mas ninguém me leva à sério. Talvez não devam mesmo, não sei.

 

Sempre gostei muito de ler, desde criança. Ao longo da vida, passei por fases em que lia mais ou que lia menos, mas mesmo nas fases de baixa eu sempre li mais do que a média – o que, convenhamos, não é difícil no nosso país. Eu me acostumei, aprendi a não esperar, sei que as pessoas a minha volta não leem. Das descobertas incríveis que faço nas minhas leituras, eu sei que não apenas não terei interlocutores, como nem ao menos posso tentar comentar – é um saco o teatral ar culpado de “ler é tão importante, eu deveria ler mais!”, que logo se transforma num “pobre de mim, não leio porque não tenho tempo pra na-da!“. Não discuto, não tento converter ninguém, cada um sabe de si e deixa pra lá. Só que a ideia de alguém se aproximar de mim – quanto mais romanticamente! – por ser leitora e estudiosa é tão impossível que fiquei triste quando vi o filme. A leitura sempre me tornou intimidante para os outros e pessoalmente solitária.

Mais curtas sobre timidez

A bibliotecária do colégio onde cursei o segundo grau era tudo aquilo que não se espera de uma bibliotecária. Eu gostava de ficar lá durante os recreios, e me deliciava com uns livros de arqueologia que ninguém nunca havia emprestado. Ela achava aquilo o cúmulo, e se eu não me engano chegou a dizer na minha cara que eu precisava de terapia. Onde já se viu, na minha idade, ser tão quieta, ter poucos amigos, passar o tempo todo lendo. Problemática, não precisa nem perguntar. Aí um dia ela me viu com o Como fazer amigos e influenciar as pessoas e isso a convenceu de vez, passei a ser olhada com pena. O livro – ela deve ter concluído – não servia pra nada, porque continuei tão pouco amigável e influente quanto antes. O que eu não poderia explicar era que o que me fascinava no livro é saber que havia regras perfeitamente racionais que geravam atitudes de afeto e acolhimento se aplicadas a quaisquer pessoas. Não soa bem behaviorista? Não era terapia que eu queria, e sim ser terapeuta.
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A atividade consistia em andar pela sala, e ao encontrar uma outra pessoa, num cruzar de olhares, perceber que ela queria interagir com você e fazerem juntas um movimento espontâneo. A banca de três professoras e mais uma pianista nos observavam. Eram três grupos, fui chamada no segundo grupo e estávamos em número ímpar. A música começou a tocar, andamos pela sala, etc. Minha lembrança mais forte daquela atividade foi estar andando sozinha com a banca à minha esquerda e, à minha direita, todos as outras de collant-sapatilha-meiacalça pareciam estar num bacanal, interagindo loucamente sem ter tempo nem de pensar. Eu estava tranquila, pois na minha concepção a atividade previa momentos de simplesmente andar pela sala. Só depois que saiu o resultado  – e eu não passei – que me dei conta de que isso para a banca pode ter parecido falta de iniciativa, dificuldade de relacionamento, sei lá. Eu havia esquecido a hostilidade do mundo para com os tímidos, especialmente na dança.

Corrigindo à exaustão

Eu escrevi um troço aí. Terminei no fim do ano, quase no réveillon. Mandei pra um amigo – que me pediu expressamente para nunca ter seu nome divulgado, com medo de ter que repetir o gesto – que se deu ao trabalho de corrigir com minúcia. Aquela minúcia cruel, de dizer de verdade o que está ruim. Eu entendi o gesto e vi nisso uma prova de confiança e amizade imensas. Uma vez um outro amigo me pediu para ler um texto dele e eu sei o quanto sofri para levantar uma única objeção. Aí, depois do que o meu amigo corrigiu, modifiquei toda estrutura – cortei capítulos inteiros, excluí trechos, remanejei a apresentação dos fatos. Achei que tinha ficado redondinho, pronto para ser publicado e o novo best seller mundial.

 

Obs 1: Vi uma vez um gráfico de expectativas de alunos de pós-graduação. Era mais ao menos assim: começava com o aluno imaginado que vai ganhar o prêmio Nobel, depois ele acha que vai virar livro, que vai virar artigo numa importante revista internacional, depois que vire artigo em algum lugar e no último item se ele conseguir terminar de escrever está bom. Tentar escrever um livro é a mesma coisa.

 

Agora, quase um ano depois, tive a coragem de reler. Para corrigir uma ou outra coisinha, problemas de concordância e uns plurais que eu sabia que haviam escapado. Aí sim, ele estaria pronto para ser publicado. Resultado: estou reescrevendo tudo. Meu sentimento ao reler cada parágrafo é este:

 

Cada trecho é um desgosto, um xingão, uma pergunta de como posso ser tão ruim. Aí saio, inconformada, tomo um ar, me acalmo, releio, fico nervosa de novo. Vou no computador, apago uma frase, levo um tempo e mudo uma palavra, mais um tempo e a frase que está embaixo vai pra cima… Tenho achado tudo muito redundante, chato, quem é que leria uma merda dessas? Devo ter levado um mês para terminar de corrigir o capítulo 1. Inicialmente ele tinha quatro páginas, agora está com três páginas e um parágrafo.

 

Obs 2: Percebam que a cada correção o arquivo fica menor. Escrever Guerra e Paz nem pensar. O Grande Gatsby, um conto borgeano? Acho que no final do processo terei conseguido bolar um tuíte.

 

Como não sei se um dia na vida conseguirei terminar o que estou escrevendo e muito menos publicar, e sei que essas minhas queixas soam abstratas pra quem nunca tentou escrever, decidi colar um trecho de Antes e Depois da correção. Só pra vocês entenderem um pouquinho o que Capote quis dizer quando contou que “um belo dia, comecei a escrever, sem saber que me acorrentara para o resto da vida a um amo nobre mas impiedoso. Deus, quando nos dá um talento, também nos entrega um chicote, a ser usado especialmente na autoflagelação” (Música para Camaleões). Não sei ainda se cheguei na forma definitiva, mas as diferenças falarão por si.

Como era:

O telefonema foi um convite a retomar antigas ambições e a primeira sensação foi de desconforto. Susana estava frustrada, sim, mas estava acostumada. Ela havia criado teorias e defesas que garantiam a tranquilidade do seu dia a dia. Bastava não pedir mais do que já tinha. Retirar essas barreiras para, mais uma vez, ver os seus sonhos não darem em nada seria doloroso. Ela não era mais tão jovem pra fracassar. Ao mesmo tempo. Susana não se sentia  capaz de assumir o seu comodismo a ponto de dizer não a uma chance. Seria embaraçoso demais ter que assumir sua covardia em voz alta. Ela precisaria arranjar uma boa justificativa para Josiane e principalmente para si mesma, para explicar no que um emprego estável num jornal que ninguém lê a impedia de se lançar num novo projeto. O empurrão de César que levou Susana a aceitar, quando se entusiasmou e disse que qualquer oportunidade era melhor que seu emprego atual. Se fosse o caso, ele a sustentaria até achar outro emprego, se o Quatro Um não desse certo.

 

Como ficou:
As grandes mudanças da vida, ao contrário do que aparece nos filmes, nunca chegam acompanhadas de uma luz ou música especial. Susana estava almoçando no shopping com o marido e as conversas e talheres quase não a deixavam ouvir quando Josiane lhe telefonou. Enquanto ouvia falar de oportunidade, emprego, novidade, internet e inovação, a primeira sensação de Susana foi de desconforto. Havia ali um convite para retomar suas antigas ambições, o que evidenciava o quanto ela havia se acostumado ao pouco que tinha. Frustrada sim, mas tranquila – bastava não pedir da vida nada diferente, não querer voar alto demais. Retirar essas barreiras para, mais uma vez, ver os seus sonhos não darem em nada seria doloroso. Ela não era mais uma recém formada, não se sentia mais tão jovem pra fracassar e recomeçar. Quem se entusiasmou e abraçou a ideia logo de cara foi César. O jornal impresso estava acabando, a internet já não era nem mais o futuro e sim o presente, ela cresceria junto com o site. Caso o Quatro Um fracassasse, ele lhe daria suporte financeiro. Aquela oportunidade era mesmo um presente, ele tinha razão. O comodismo e os receios de Susana era tão injustificáveis que ela não teve coragem nem de colocá-los em voz alta.

Li em algum lugar que um livro nunca fica pronto, e sim que o escritor cansa de corrigir. Também faz sentido. Para publicar este post, corrigi o trecho corrigido mais três vezes.