Pequenos momentos de reveião

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O supermercado sempre me dá uns cupons de promoção que eu raramente uso, porque são sempre itens que eu não compro, porque não consumo ou não gosto da marca. Desta vez, tinha finalmente ganhado um que poderia ganhar, porque era só o valor da compra – acima de R$ 120. O problema é que fui me organizando pra não dar as caras em comércio em geral no fim do ano. Comprei antecipadamente remédio pra articulação do cachorro, comprei toda comida que não estragasse, deixei qualquer compra de vestuário e afins pras promoções de janeiro. Deixei o cupom na frente do computador. Fui uma vez no supermercado, pouco antes do natal. Mas era pouca coisa. Aí não deu mais pra segurar e tive que fazer uma compra maior dia 30. Lembrei do cupom quando estava lá. Coloquei as coisas na cestinha o torci mentalmente pra não chegar a R$120, só pra não ficar me xingando. Quase abandonei uns itens, mas aí seria roubar. Foi um suspense no caixa. Não deu 120, chegou perto. Ainda bem.

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Uma amiga me convidou para a virada de ano na casa dela. Nunca gosto de me sentir invadindo as festinhas dos outros, mas nesta eu iria porque conhecia e gostava dos presentes. Ela não apenas convidou, reafirmou que adoraria muito que eu fosse. Eu acreditei duplamente: por ela ter dito e por ter visto que ela me conhece, que sabe que tenho dificuldade em acreditar que importo, e ter feito questão de que eu sentisse que ela me quer bem. Não pude ir mas fiquei tão grata.

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Do porquê não fui e o que fiz: tenho um vizinho que vende fogos. Isso aqui vira uma Copacabana. Pior que eu nem vejo, porque não tenho ângulo aqui de casa. Eu já nem perco mais tempo colocando roupa nova ou tomando banho. Toda mudança de ano aqui é abraçando fortemente uma cadela que normalmente odeia contato físico, mas que fica desesperada sem saber o que fazer de si mesma com o barulho.

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Uma amizade com Marte

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Tudo começou quando Marte entrou em movimento retrógrado, no início do ano. Os astrólogos falando nisso, os grupos de whats falando nisso, explicações físicas e metafísicas. Fiquei sabendo que o planeta no movimento retrógrado – que é uma ilusão dada pelo ponto de vista da terra, porque nenhum planeta anda para trás – fica mais próximo da Terra, então seria mais fácil localizar Marte no céu. Eu o achei bem em cima da minha casa, olhando para cima quando estou na parte dos fundos, uma luz vermelha e imóvel no céu. Nos astrólogos: “Sabe porque está tão seco, sabe porque a agressividade no mundo? Marte”. Eu olhava para o céu todas as noites e pensava: você, hein. Depois me senti mal, ficar acusando uma luz bonita no céu. Conversamos. “E quando você se sentia só e deprimida, quando nada lhe dava prazer e mesmo assim você se levantava da cama e fazia tudo o que precisava ser feito, de onde vinha aquela força?” Aí eu entendi. o poder que a Astrologia descreve quando usa Marte no seu simbolismo.

Oh, rei! Marte excede na crueldade, é cortante como uma lâmina de cimitarra e vem tão furioso com qualquer que venha até ele com arrogância, que ele totalmente destrói a família desta pessoa e a prosperidade. Aqueles que vão até ele regularmente, com humildade, seguindo o ritual apropriado, ele abençoa com ganho de saúde e perda de doenças. O juramento de Marte alivia todas as dificuldades, especialmente essas de doenças, débitos e inimigos.

The Greatness of Saturn, cap.4: Mars

Na mesma época, eu soube que a noção de que a energia de Marte é o sujeito que vai no bar e bate em todo mundo é errada. Esta é uma forma de agressividade insegura, defensiva, como a do cachorro covarde que ataca. Um bom Marte é como pensar num samurai, alguém que tem um grande poder de destruição, tão certeiro que só é usado nos momentos precisos. Marte é força, se a humanidade se perde e não sabe o que fazer com ela, aí já é outra história.

Eu fiz, então, as pazes com Marte. Toda noite o cumprimentava nos fundos de casa. Às vezes lembrava de algumas coisas e concluía: vivi muito tempo contando apenas e tão somente com ele. Sedução de Vênus, confiança do Sol, sentimentalismo da Lua, prosperidade e sorte de Júpiter? Não, Marte. Quando soube que ele havia saído do seu movimento retrógrado e não seria mais tão visível, fui lá fora lamentar. Eu disse a ele: sentirei saudades.

Marte não está mais tão visível no céu, mas isso é pra vocês. Pra mim ele está sempre lá. Às vezes volto à noite e – como quem está distraído e olha na direção de quem o olha – eu olho pra cima e o vejo, Marte. Há noites em que apenas Marte está visível no céu, só ele na escuridão azul, e horas depois a noite fica inteira encoberta. Foi apenas para Marte demonstrar que me cuida.

O dia que a Milena que ajudou a Maria Angélica

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Eu nunca lembro o nome de ninguém que estudou comigo na infância, mas das envolvidas eu lembro perfeitamente. A minha melhor amiga era a Maria Angélica. Eu lembro que ela tinha sangue português e a sobrancelha bem preta e grossa. Quando aconteceu eu acho que estava mais ou menos na quinta-série. Estávamos numa aula de educação física e os meninos jogavam futebol e nós estávamos esperando ao lado da quadra. Cercando a quadra havia uma tela, e ela estava com um furo bem grande, dava pra passar uma pessoa. Eu fui para perto do furo e fingi me encostar, fiz uma pose falsamente à vontade perto dela, sem colocar o meu peso. Aí a Maria Angélica veio, e sem reparar no buraco foi se apoiar na tela ao meu lado e caiu para trás. A quadra era meio alta e atrás havia grama. Ela caiu, gritou, não chegou a se machucar, mas uma das pontas da tela se prendeu nos fundos da calça do uniforme, e rasgou não apenas os fundos da calça como também a calcinha, cujo tecido branco dava para ver misturado com o verde do uniforme. As crianças se reuniram em torno. A Maria Angélica tentava sair e não conseguia, sentia que algo a prendia e não conseguia ver. Ela falava: “Fernanda, me ajuda, tem alguma coisa me prendendo.” Eu fiquei paralisada: eu me sentia responsável porque ela quis vir do meu lado e achou que eu estava apoiada na tela, mas toda situação dela caída no buraco e a calcinha aparecendo, as crianças rindo, era tudo constrangedor demais. Como fui ler décadas mais tarde, quando estudei estigma social, a pessoa que de alguma forma está desvalorizada socialmente “contamina” quem está do lado dela. Eu queria me afastar da Maria Angélica, não queria aquele ridículo pra mim. Enquanto eu hesitava, surgiu a Milena, que sentava perto de mim na sala, era baixinha e implicante. A Milena pulou por dentro da tela, soltou a calça e a calcinha e ajudou Maria Angélica a sair do buraco, tudo com muita rapidez. Depois eu fui falar com a Milena, elogiei a rapidez dela, e ela nem parou para me ouvir, me jogou na cara o mui amiga que eu era, que estava do lado e não deixei a menina de calça rasgada. Acho que o fato de eu jamais ter me esquecido do episódio diz tudo.

Telefonema

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Foi difícil. Quando a terça-feira passou e ela não me ligou, eu sabia que ela havia morrido. Tenho do lado do computador um calendário onde anoto os compromissos, e quando fui anotar aquele dia, a intuição me disse que iria riscar meu calendário à toa. Eu ouvi e entendi, mas fiz questão de marcar, como se o meu gesto com a caneta fosse mudar a realidade. Esperei ansiosa o dia inteiro, a manhã seguinte. Ela vinha tendo tantos problemas de saúde que era comum não atender o telefone na hora e ligar mais tarde. Mas eu sabia que não era o caso. Entrei em contato com a única pessoa em comum que tínhamos. A amiga em comum ficou de ligar, de ver, de entrar em contato. Mandou um e-mail pra família meio que para constar. Na teoria que ela formulou, nada havia acontecido, foi como umas férias inesperadas, uma manipulação. “Ela vai ligar mais tarde, quando estiver assistindo a novelinha dela”. Fiquei tão irritada com o tom condescendente. Combinamos de passar as novidades uma para a outra, de continuar ligando. Eu não liguei mais, não tinha coragem – me dava arrepios saber que o telefone do outro lado estava tocando para o vazio. Para tentar convencer, dei a cartada final e disse a verdade: ela está morta, há poucos dias ela me ligou avisando que iria morrer, que havia sido avisada num sonho. “Se ela tivesse sonhado isso teria me dito”. A novelinha dela, a manipulação. Se em poucas palavras eu percebi esse tom, o que ela não terá percebido. As pessoas me contam cada coisa, vocês não sabem. Me contam porque sabem que eu não as julgo. Pessoas de família margarina não ouvem confidências sobre problemas familiares, pessoas contra “abortistas” não ouvem confissões sobre fazer um aborto. Ela me contou que iria morrer. Eu me sentei e agi com o máximo de naturalidade que eu pude diante do direito de alguém de finalmente descansar. Abriram o apartamento e encontraram o corpo na sexta-feira.

Favorecimento de favorecidos

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Não posso falar em nome de todas as pós graduações do Brasil e em todas as épocas, mas quando eu estava na vida acadêmica e a pessoa tentava pós, uma das perguntas que a banca fazia era: você precisa de bolsa? A resposta campeã, digamos assim, era dizer que não precisava, embora preferisse ganhar, etc. A papelada das bolsas era tão chata, ia pra Brasília, demorava, então era comum que o aluno recebesse meses depois da aula ter começado, vinha sem reajuste, não era depositada no dia certo, etc. Sem dizer que nunca foi uma grande fortuna. Mas, por outro lado, dar preferência justamente àquele que não precisa de bolsa sempre me pareceu injusto, porque você está favorecendo os mais favorecidos. Na prática, acho que os professores tinham medo de serem abordados por alunos desesperados pelos corredores, com boletos atrasados, sem condições de pegarem transporte ou até mesmo para comprarem comida. E eles saberiam que seria verdade, porque além de tudo a bolsa exige dedicação exclusiva. O professor poderia ficar indignado, com pena, irritado, mas não poderia fazer nada contra a burocracia, por isso a escolha de nem aceitar quem não tem condições. Cada um já tem sua própria vida pra se preocupar.

Hoje me ocorreu que nos relacionamentos interpessoais é a mesma coisa, a mesma “injustiça”. O carente acha que disfarça muito ao contar exatas 48h pra voltar a entrar em contato, não fazer perguntas que pareçam cobranças, aguardar que o outro fale espontaneamente o que ele quer ouvir e todas as atitudes que simulam indiferença. Mas raramente dá certo – pode ser um lampejo de carência de olhar, um tom de voz ansioso, uma insistência. No fim, gostamos dos que já são muito gostados, cheios de amigos e de convites. É mais leve poder esquecer de alguém durante semanas e saber que nesse meio tempo ele viveu plenamente e nem sentiu a ausência, e quando voltar tudo estará bem. Ninguém quer pagar o preço de acolher o faminto por atenção, imaginar que ela estará em casa se corroendo em dúvidas. O melhor candidato a amigo é aquele que até quer a nossa amizade, mas se não puder, tudo bem.

Elogio

ela apareceu e me disse

Eu não tenho certeza de quem foi e como foi, mas na minha lembrança mais próxima foi a Nina, no dia que ela me disse que o meu corte de cabelo na ocasião estava fantástico, que eu ficasse nele, estava linda. Aí eu respirei e ela me impediu, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. Me disse: não faça isso. Agora você vai querer me elogiar, porque eu te elogiei, como retribuição, e esse elogio não vai ter pra mim o peso que teria, porque eu vou achar que você só está falando pra agradecer. Então fique com que eu te disse e pronto.

Sabe que eu finalmente pude repetir o gesto dela e né que é bom mesmo?

Curtas escritos nas estrelas

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Na busca por novos posts no blog, que quase sempre me atormenta quase à meia noite, hora que gosto de postar, comumente quero procurar outros blogs para ver do que eles estão falando e ver se me inspiro. Ultimamente, como era de se esperar, não há um único. Os que continuam vivos postam uma vez por bimestre, sei lá. Só eu continuo aqui. Insanidade, persistência?

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Sei umas coisas de astrologia e sempre usei para consumo próprio. Recentemente, numa conversa em grupo de whatsapp, me vi analisando três mapas. Assim, na brutalidade, olhava e falava o que me dava na telha. Num deles, necessidade de amigos, de contatos, de amor, de dividir, de… e me conscientizei do quanto o meu mapa é solitário. Tem arte, tem literatura, tem até amor universal, mas eu cá e vocês lá.

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O que me remete a amiga que me manda mensagens falando de amizades verdadeiras, duradouras, imagem de amigas bem velhinhas. Tenho vontade de avisar: você realmente não sabe com quem está lidando.

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A cada dia que passo, me pareço cada vez mais com o Touro Ferdinando. Já fui o Sapo Cantor, hoje sou Touro Ferdinando. Pro bem e pro mal, o tempo faz com que o importante se reduza a duas ou três coisinhas.

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Tive um sonho. Nele um ex-crush (uma história que eu me interessei, me aproximei, me encantei, descobri coisas e terminei tudo sozinha) escreveu (era como se fosse numa folha de almaço) que acompanhava vários blogs, cita uma amiga minha que trabalhava com internet e depois coloca um nome que parece Caminhante Diurno. Olho fixamente, a imagem está borrada, eu me esforço, aquela dificuldade dos sonhos. No fim, é um outro nome. Sinto uma dor profunda no coração: meu blog é desconhecido.

A vergonha de Arjuna

O Bhagavad Gita é um pedaço dentro do Mahabharata, que descreve uma batalha entre duas famílias e é uma alegoria do bem contra o mal. Krishna, a encarnação de Deus, estava neutro e deu aos oponentes as opções: eu ou meus homens e poderio bélico? Os justos escolheram Krishna. O Bhagavad Gita é apenas o momento que Arjuna, o guerreiro do lado bom, olha para o outro lado e vê sua família e se pergunta se valeria mesmo a pena enfrentá-los no campo de batalha. Aí Krishna lhe dá uma aula e revela quem Ele é. Um dos momentos mais bonitos é quando Arjuna se emociona ao ver as muitas faces de Deus e lhe pede desculpas pela familiaridade com que o tratava até então, como se fosse um amigo qualquer. E Krishna responde: “deixa de frescura, mano”. Em outras palavras, claro.

Tiro daí duas pequenas conclusões, que nem místicas são. Muita gente pensa: quem me dera estar vivo na época de Jesus, eu me ajoelharia e o seguiria, etc. Ok, Jesus é o exemplo extremo, mas minha teoria é que ao longo da vida passamos por muita gente definitiva. Usei a palavra definitivo pra ser meio neutro, mas você pode chamar de evoluída. Uma pessoa que sem dúvida não estava, na ocasião, com um visível coro de anjos em volta. Quem sabe estivesse de chinelo de dedo, uma havaianas. E você deixou a pessoa passar. Pior, pode ter até tratado mal. Afinal, o reconhecer não cabe a ela. Ou seja, a gente pode ter passado a maior vergonha e nem sabe.

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Colocando-te na posição de amigo, sem sequer conhecer Tuas glórias, dirigi-me a Ti com as seguintes palavras imprudentes: “Ó Krishna”, “ó Yadava”, “ó meu amigo”. Por favor, perdoa tudo o que eu possa ter feito por loucura ou por amor. Quantas vezes Te desonrei, gracejando enquanto nos descontraíamos, deitávamos na mesma cama, sentávamos ou comíamos juntos, às vezes à sós e outras vezes diante de muitos amigos. Ó infalível, por favor, perdoa todas essas minhas ofensas! (Capítulo 11, verso 41-42, versão de Bhaktivedanta Swami Prabhupada)

Não acho difícil entender. Se Arjuna soubesse de quem se tratava, teria se tornado chato, ia perder toda espontaneidade e andar olhando para o chão. Se Nietzsche só acreditaria num deus que soubesse dançar, eu digo que só posso acreditar em um que brinque, que tenha senso de humor. Minha segunda modesta conclusão é: se nem Krishna, que era Deus, gostava de salamaleques…

Você já notou…?

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Nós fomos tomar café, fizemos os nossos pedidos e antes mesmo de nos sentarmos na mesa ela me pediu desculpas, pois teria que buscar alguma coisa no carro. Eu me sentei com o meu café e o meu salgado, as coisas dela ficaram esfriando na mesa. Aí ele se sentou também, veio uma terceira em outra mesa, acabamos os três conversando um pouco. A terceira pessoa foi embora. Minha amiga voltou e olhou para ele. “Você já notou”, ela me perguntou, e estava querendo dizer “que ele fica me olhando” e eu respondi que sim, mas se ela realmente perguntasse eu lhe diria que ele a olha, e para mim, e acredito que para toda e qualquer fêmea que passa perto dele. Mas aparentemente ela julga que ele a olha exclusivamente. Então ela se sentou de uma maneira tão empinada e arrogante como nunca fez, de um jeito que eu jamais a havia visto fazer e nem seríamos amigas se aquilo fosse constante. Por entender que aquilo era para ele, eu me vi ali, muitas vezes também empinada e arrogante, indignada por aquele homem ter a ousadia de se interessar por mim, um desinteressante, sem chances, quem ele pensa que é e que eu sou. Senti vergonha.

A amiga mediana

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Eu sinto falta dela, e talvez não seja de forma elogiosa. Lembro que vi uma  vez uma matéria de uma menina que era consultora oficial de uma grande empresa de brinquedos. O Walt Disney da tal empresa a descobriu por acaso, uma filha da vizinha, e era tiro e queda, que tudo o que ela gostava virava sucesso de vendas e se ela não se entusiasmava o brinquedo não vendia. Essa tal amiga, de quem eu sinto falta, era como essa menina pra mim. Se eu queria saber a opinião do senso comum, a opinião das ruas, o que a maior parte das pessoas julga sobre uma situação, até mesmo se as pessoas consideravam tal assunto relevante, era só perguntar pra ela. Um dos casos impressionantes foi quando ela me disse que viu um prêmio importante, com as pessoas muito chiques, e a Marisa Monte disse que estava usando roupa de brechó – não brechó chique, brecho dérreau. Eu achei aquilo muito legal e ela ficou mortalmente ofendida, nunca mais gostou da Marisa Monte, porque achou um desrespeito com as pessoas que haviam gastado bastante. Eu jamais teria chegado àquela conclusão sozinha. Com ela eu estava sempre a par do que se pensavam das celebridades e do quanto elas são “importantes”, dos sonhos de consumo nas novelas, do peso de certos símbolos de status presentes em e festas, do que se deve ou não fazer nas horas livres. Eu a ouvia com interesse e contava em casa o novo mundo que ela me apresentava, porque ela também me fez ver o quanto eu era esquisita e fora da média. Nunca consegui substituí-la, nunca mais consegui alguém que encarnasse o comum em todos os gestos e opiniões; tenho que ficar imaginando, tenho aqui e ali pessoas que me mostram o que pensam grupos específicos. Acho que a primeira pergunta que eu lhe faria se a reencontrasse é o que ela pensa sobre o Bolsonaro.

Veneno

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O tempo nos faz adquirir umas conclusões internas e algumas são bastante duras. Uma das minhas, e que acaba de obter confirmação, se refere à impossibilidade de uma pessoa mal resolvida com um assunto estar ao lado de uma bem resolvida com aquele mesmo assunto. Ela não vai conseguir se segurar, vai se comparar e vai sentir inveja, é humano. E sentindo inveja, como todo invejoso, revestirá esse sentimento doloroso de várias justificativas e sempre que tratar desse assunto com a pessoa invejada atuará para o mal. Ela pode tentar segurar, mas não tem como ela dizer algo bom se por dentro nela há apenas frustração e tristeza por ter aquilo tão mal resolvido dentro de si, por outro ter o que ela gostaria tanto e não consegue por um motivo qualquer. Essa acusação é muito grave, porque nos faz pensar que a com namorado não pode ficar ao lado da amiga que tenta arranjar um e não consegue, que o rico não pode estar do lado daquele que batalha e não prospera, a bonita ao lado da feia, etc. Que, no mundo ideal, as melhores companhias são as pessoas bem resolvidas, tão felizes quanto você naquilo que você é feliz. Só que o mais grave de todas essas conclusões e acusações é perceber que a invejosa e mal resolvida sou eu.

Me indica

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Tenho uma amiga que às vezes, em conversas sem relação com nada, me diz: me indica um livro. Ou: ah, você ainda não me indicou um livro. Já mandei videos, comentei tudo o que há sob o céu e mandei até uns textos do outro blog, que ela nunca comentou e nem sei se leu. É que de vez em quanto bate aquela culpa por não ler, ou a necessidade de parecer intelectual e eu sou aquela que “vive lendo”. Fico me perguntando qual a melhor metáfora para explicar como é isso – um pintinho no ninho querendo que a mãe lhe traga minhoca, uma pessoa na rede pedindo pra mucamba lhe trazer um suco? O fato é que nunca consegui lhe indicar o tal livro e nem lhe explicar o motivo.

Solitária

Não precisava saber de tudo, como eu sei, pra adivinhar que ela tem passado os dias deprimida. A cara, as roupas, os gestos, o sumiço, tudo denuncia que as últimas semanas não foram fáceis. Há um certo momento que dizemos para nós mesmos que não dá, que é preciso fazer as coisas, então voltamos a fazer as coisas. Mas isso não quer dizer que estamos felizes, é apenas uma desistência da própria vontade de sumir. Era nesse momento que ela estava. Eu tento poupá-la da obrigação de ser gentil comigo e me dar carona e não consigo. Ela é gentil demais para se negar e eu diria até que esse é um dos seus problemas. Eu sei até o que ela acha que não sabe, porque as informações acabam chegando nos meus ouvidos sem que eu mesma busque. Durante todo trajeto, completo os silêncios: falo do meu telhado, das minhas vendas, dos meus projetos, minha da última apresentação… Céus, como as pessoas me suportam? Antigamente quem sabe que lhe dissesse para pararmos em algum lugar e que ela falasse. Mas atualmente, diante das minhas amigas que sofrem por amor, me sinto como ouvi de um estudante de medicina: “Eu detestava plantão de pronto socorro. Chega uma pessoa que sofreu acidente de carro e ela está tão quebrada, mas tão quebrada, que você não sabe o que fazer primeiro. Do dente ao dedinho do pé. Você não sabe que trata da perfuração do pulmão, da fratura exposta no fêmur, da parada cardíaca…”. Eu não sei o que dizer, não sei como reagir diante de minhas amigas com mais de trinta e que nunca namoraram. Não sou dessa geração de amores líquidos, a minha variava menos. Eu poderia arriscar uma lista de “defeitos” que atrapalham a vida amorosa delas mas, ao mesmo tempo, também não acho que quem está namorando seja tão mais perfeito. Sem dizer que eu acho que ninguém ouviria conselhos amorosos de alguém que não tem se mostrado hábil para arranjar alguém. Mas a minha solidão é diferente, ela não me dói. Não sei se por eu ter a segurança de um dia ter sido a escolha de alguém ou se por me ver sozinha há pouco tempo – o que quereria dizer que o desespero não me bateu por pura questão de tempo. Talvez não haja o que dizer. Se estivesse nas minhas mãos, eu lhes jogaria namorados como confetes, até todas ficarem felizes. Ao invés disso, penso em Eleanor Rigby.

O que há de melhor

Para Tere

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Eu queria ter braços gigantescos para te abraçar, e com eles acabar com toda dúvida e tristeza. Que dentro desse abraço você pudesse não pensar, ou que pensando tivesse apenas pensamentos bons. Que a maldade do mundo não te alcançasse e que todos que te olhassem pudessem te ver com os meus olhos, que te querem tão bem.

Curtas de uma sabedoria rasteira

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Vocês não sabem, mas a profissão de vitrinista é muito ruim. Não estou falando da dificuldade de elaborar as vitrines e sim o quanto é chato vestir manequim. Eu faço isso só de vez em quando e como xingo.

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Tem um texto ótimo do filho do Mário Prata, em que ele conta de um papo onde o viúvo lamenta que não tenha fotos da mulher tal como era, que a gente tem mania de tirar fotos quando está bonito na festa e não tira justamente do mais corriqueiro, com o cabelo do dia a dia, no lugar onde sempre vai, com o gesto mais característico. Acho que esse é um dos grandes atrativos das fotos antigas, com filmes.

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Aquela gordura do azulejo do banheiro sai bem fácil com palha de aço.

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Amiga, antes de sair de férias, estava com uma intuição fortíssima de que seria demitida e contou pra mãe. “Filha, se for pra você ser demitida, você vai e pronto”. No fim, foi mesmo, fecharam a filial. Adoro gente quem tem algo prático e simples pra dizer. Olha que o padrão feminino entende que ser amiga é ficar histérica junto.

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Alguns precisam de vídeos de gatinhos para restabelecerem sua fé na humanidade. A minha reage muito bem vendo vídeos com Darcy Ribeiro.

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Foi ele quem me apresentou Marcuse, numa época em que só me mandavam ler sobre sentimentos e subjetividade. Estudante de filosofia, quase certeza de que se chamava Expedito; se não for esse o nome, é um outro nome comprido e fora de moda. Expedito tinha uma origem humilde e foi seminarista. Ele me contou um pouco sobre seleção das diversas ordens, da vida no seminário, a desistência por não suportar pregar uma coisa e viver outra – em português claro, a abstinência sexual simplesmente não acontece. Fora do seminário e precisando se sustentar, Expedito começou a aceitar vários sub-empregos. Num deles foi parar numa empresa de alimentos que se vangloria por ser Saudável. Eles faziam os embutidos. O local de trabalho ficava abaixo do nível da terra, num lugar escuro, com só umas janelinhas distantes lá em cima. Eram horas recheando alimentos silenciosamente. Expedito não achou nada demais no trabalho em si, mas depois de alguns meses ele se viu com dificuldade de lembrar de algumas coisas. Pensava, se esforçava e era como se no lugar da lembrança estivesse um lugar vazio. Ele comentou isso com os colegas e soube que era comum, que todos lá tinham esses brancos de memória. Expedito achou a sua memória um preço alto demais e pediu demissão.