Mundo bizarro

Minha versão no mundo bizarro gosta muito de sapatos. De bico fico e saltos altíssimos, de preferência. Sua longa produção inclui maquiagem impecável, horas no salão, obsessão por espelhos e roupas que mostrem o corpo e a deixem sensual. Basta olhar alguma das suas muitas fotos – auto-fotos, de biquini, com ar blasé, com chapéu, sem chapéu, etc – pra perceber. Porque ela se sente lisonjeada com os olhares masculinos, ao invés de se intimidar ou até mesmo se ofender como eu. Meu eu-bizarro teria uma longa lista de ex ficantes, namorados e cachos porque é capaz de separar sexo e amor. Seu único problema nesse quesito é adorar uma DR…

Ela é uma pessoa muito legal e popular. Gosta de fazer novos amigos, reencontrar os antigos e é bastante ligada na família. Tem coração de mãe e perdoa com facilidade. Como conseqüência, sua agenda é bastante movimentada e ela é figurinha fácil na vida noturna da cidade. Ela adora falar no telefone e é uma excelente companhia pra tomar um chopp. Talvez seja porque ela é uma pessoa muito segura, daquelas que nunca coloca em dúvida o valor que tem para si e para os outros. Acolhedora, gosta de receber os amigos e cozinhar para eles; sempre coisas sofisticadas, daquelas que demoram horas para serem feitas e ficam ruins se certos segredos forem deixados de lado.

No que diz respeito à vida profissional, ela sempre trabalhou. Às vezes em trabalhos mal remunerados, alguns bem entediantes, sempre na sua área. Aguentou chefes chatos, colegas de trabalho invejosos, engoliu muitos sapos, mas sempre teve diante de si um claro objetivo: ser a melhor no que faz. Se o preço a pagar for diminuir o convívio com a família ou ficar sem finais de semana, tudo bem – ela pensa à longo prazo. Porque seu sonho sempre foi ser uma grande… uma grande… Paro por aqui, porque já não sei dizer quem é o bizarro de quem.
Anúncios

Descombinado

Minha mãe passou quase a vida inteira com uma miopia altíssima, dessas que a pessoa não sabe qual dos filhos passou pela sala se não está de óculos. Talvez por isso, lá em casa tinha tudo que ser radicalmente diferente. Minhas calcinhas e as dela nunca podiam ter padronagens parecidas. As toalhas no banheiro eram diferentes nas cores, nos tamanhos e nos modelos.

Só quando me casei que eu me dei conta que o chique é conjuntinho, porque ganhei muitos de presente. Pela primeira vez usei conjuntos de toalha – sutilmente diferentes, bordadas, beges. Toalhas de rosto, de banho, de lavabo e tapetinho de banheiro que formavam uma linda família bege. Se alguém se distraísse ou colocasse no lugar errado, babau – acabava usando o que não devia. A gente tinha que combinar: “a com bordado maior é minha” ou “a masculina é a com folhinha”. Só no dia em que comprei toalhas grandes, fofinhas e carésimas por um bom preço porque elas não faziam conjunto, me bateu a luz. Agora cada coisa é de uma cor. Sai mais barato, fica mais colorido e dá menos trabalho. E é muito mais a minha cara.

Amizade e horas difíceis

Citar o acidente do André trouxe à tona algumas lembranças minhas e de outras pessoas. Dentre tantas coisas que me aconteceram, tantas escolhas que fiz, apenas hoje, sete anos depois, fui entender uma delas.

Eu tinha um grupo de amigas, com ex-colegas de faculdade. Não sei o que significava para elas, mas eu queria acreditar que amizades do estilo Sex and the City eram possíveis: mulheres diferentes, que compartilham suas vidas e se apoiam. Assim como na série, cada uma tinha um papel. Tinhamos a nossa Miranda, e as outras meninas tinham uma coisa casadoira como a Charlotte. Já eu, que nunca quis casar, era mais como a Carrie: a mais intelectual, pobrinha e sempre envolvida em relacionamentos impossíveis.

Uma dessas amigas era famosa por ser do tipo oral. Se nos pedia pra carregar um pacote enquanto se ajeitava, ela tranqüilamente nos deixava carregar as coisas dela, caso não reclamássemos. Tinha o costume de fazer aparições fulminantes entre seus mil e um compromissos e sempre deixava os trabalhos nas mãos dos outros. Tinha fama de ser arrivista social- o que eu pude comprovar quando comecei a namorar o Luiz e subitamente passei a ser convida pra sair com ela e o noivo, o que nunca tinha acontecido antes. Eu sabia que ela gostava de se aproximar de pessoas importantes, ignorava regras para conseguir o que queria e era insensível às necessidades dos outros. Mas, afinal, ela era do meu grupinho de amigas. E para ser amiga a la Sex and the City, eu era tolerante.

Aí aconteceu aquela coisa toda do acidente do André. Era assim: de manhã, cedo eu e minha mãe íamos até o hospital ter notícias dele. Quando voltavamos, eu atendia telefonemas das 10 às 23 h – isso sem falar da minha tia que estava no Canadá e ligava à cobrar de madrugada. Era raro o telefone passar mais de 30 min em silêncio. Eram ex-colegas da faculdade de jornalismo, atuais colegas da faculdade de biologia, pessoal do estágio, pessoal do CVV (onde ele era voluntário na época), parentes de Curitiba, parentes de São Paulo e parentes de Salvador. Todos exigindo relatórios diários. Mais do que isso: relatórios otimistas diários. Porque numa situação dessas, não tem novidade boa todo dia. Aí as pessoas tentavam arrancar de mim um otimismo e boas notícias que não existiam.

Chegou um ponto em que tudo isso encheu o saco, e pegamos uma secretária eletrônica que nunca tínhamos usado. O Luiz gravou uma mensagem pra gente, onde dizia que estavamos muito cansados e abalados; que a situação seguia estável e que quando tivesse alguma modificação no quadro, entraríamos em contato. Lembro bem que o fim da gravação dizia: por favor, respeite nosso silêncio. Nem todo mundo gostou, mas deu certo com a maioria.

Poucos dias depois, meu celular toca. Eu fui atender correndo, porque era o número que o hospital tinha para alguma emergência. Era aquela amiga, com as perguntas de praxe sobre o estado meu irmão. Aí eu falo:
– Nós colocamos um recado na secretária eletrônica pra filtrar os telefonemas. O telefone tem tocado o dia inteiro e eu estou esgotada.
– É, eu sei, eu ouvi.

Ou seja, ouviu e resolveu ligar para o meu celular para ter informações privilegiadas. Não aceitou não como resposta, achou que ela não era qualquer uma, passou por cima das regras pra conseguir o que queria. Como ela sempre fez. Eu, que conhecia todos os defeitos dela, nunca imaginei que um dia eles se voltariam contra mim. Dei a informação privilegiada que ela queria e nunca voltei ao grupinho.

Ódio amoroso ou Amor odioso

Um médico me contou que existe um tipo de paciente que chega numa consulta e reclama de tudo. Diz que os remédios não foram indicados direito, que o médico não entendeu a queixa, não prestou atenção no que deveria, enfim, reclama de tanta coisa que dá a entender que ele é um péssimo profissional. É uma consulta desconfortável, onde ele se sente julgado e condenado todo o tempo. Quando a criatura vai embora, ele tem certeza de que ela deixará uma reclamação e nunca mais aparecerá.

Mas aparece. Quem sabe, mesmo depois da reclamação. E quando alguém lhe oferece outro médico, ainda é capaz de dizer: “Acha que Fulano vai conseguir se livrar de mim? Pois não vai mesmo, faço questão de me consultar com ele”. Então essa pessoa se torna o aborrecimento semanal ou periódico daquele médico. Como os pacientes mais dedicados, o fulano é capaz de mudar de horário ou esperar durante horas pra se consultar com o seu médico desafeto favorito. E sempre assim, criticando, desvalorizando, achando que está tudo errado.

Eu acredito que o nome disso é amor. Que algumas pessoas são tão patológicas que não conseguem interagir sem ser de forma crítica e desagradável. Claro que elas não reconhecem nem pra si mesmas que o que as motiva é atração, interesse e/ou admiração. Ao elogiar, concordar ou tratar bem, elas se sentem rebaixadas de alguma forma; por isso a necessidade de maltratarem para ficar por cima. Um amor que parece castigo.

Música das antigas

Nossos amiguinhos de Frankfurt já alertavam para a importância da forma com que consumimos a música; que não é a mesma coisa assistir um concerto ou ouvir mp3. E até mesmo que ouvir um concerto hoje não tem o mesmo significado de que quando foi feito. Um dia vi num blog um post que perguntava há quanto tempo as pessoas não ouviam um CD do início ao fim, e me dei conta que minha forma de ouvir música parou no tempo. Mais precisamente nos anos 80.

Juro que não é idealismo. Talvez o idealismo seja apenas na minha recusa em usar fones de ouvido e não gostar de tocar nada no computador. Quando quero ouvir música, vou até a sala de estar e coloco um CD. O detalhe é que o aparelho que tem lá era do Luiz antes de casar. Ele evidentemente não toca mp3, o que me impede de fabricar CDs com mais músicas do que eu consigo lembrar da ordem. Por algum problema técnico misterioso, o controle remoto dele não funciona. Ou seja, ter que me levantar pra mudar de faixa faz com que eu ouça meus CDs inteiros. É como se eu tivesse voltado pra época do vinil. Isso sem falar que o aparelho tem uma cisma com CDs da marca LG. Tenho que rezar quando quero ouvir um; quando acontece, não posso dar pause ou mudar de faixa, com o risco de não tocar mais nada.

Eu me sinto perdida num mundo em que todo mundo me pergunta quais são minhas bandas favoritas e eu nem ouvi falar das que os meus amigos ouvem. Por outro lado, gosto de música clássica e não consigo acompanhar o Milton e os posts do PQP Bach porque consumo música bem devagarinho. Tenho poucos CDs e acabo ouvindo menos ainda. Há um tempão Omara, Bethânia e Omara & Bethania se alternam nos meus ouvidos. Me acostumo com as músicas na ordem certa e a cada época vou gostando de outra faixa, redescobrindo… Ouço música igual uma velha. E gostcho.

Grupos

Eu já trabalhei num atelier público. Cada um pagava uma mensalidade e isso nos dava direito a usar livremente o espaço e solicitar ajuda do professor e dos funcionários. Alguns, como eu, tinham no atelier a sua rotina do ano inteiro. Estávamos sempre com algum novo projeto ou encomendas. Cada um já tinha um cantinho onde colocava suas coisas e os instrumentos preferidos. As pessoas se conheciam de nome e sabiam mais ou menos o estilo de trabalho de cada um – qual o seu canto, que momentos era possível interromper, etc. O lugar era público e era nosso ao mesmo tempo.

Apareciam novos alunos o ano inteiro. No final do ano, sempre chegavam uns alunos de design. Se esse pessoal ficava uma semana era muito. Alguns, porque vinham com um projeto bem definido, e quando terminam esse projeto iam embora. Outros, porque achavam que mereciam mais atenção – nosso professor era um grande escultor de Curitiba, com projetos próprios, e não tinha paciência pra explicar passo a passo a cada um que chegava. O fato é que na maior inocência os novos pegavam os instrumentos que os antigos tinham separadado nos cantinhos, ocupavam espaços destinados a outras atividades e – pior e mais freqüente ainda – sujavam tudo e iam embora sem limpar porque achavam que tinha funcionário pra isso (o que não era verdade). A Beth às vezes já chegava indicando onde é que estava a vassoura… Antes mesmo da gente ter tempo de corrigir, esse pessoal já tinha ido embora.

Imaginem essa situação se repetindo toda semana ou todo mês, e certamente várias vezes num ano. Com desconhecidos mexendo nas suas coisas, sentando na sua cadeira, atrapalhando o seu trabalho. Sem maldade, mas invadindo e interrompendo. Nas primeiras vezes, você tem mais paciência para ajudar, ser legal, explicar o que está acontecendo. Mas em pouco tempo dava pra perceber que era uma guerra perdida, porque a gente não vencia falar com aquelas pessoas – pessoas que iam embora, que não pegavam amor àquele lugar. Chegou uma época que todo mundo estava tão de saco cheio que era francamente rude com os novos. Aí surgiu um terceiro motivo pra ir embora: porque as pessoas do atelier eram muito antipáticas.

Claro que quem chegava lá não tinha noção de tudo isso. Para eles, tudo era novo; era o primeiro trabalho, o lugar que aparecia vago, uma mesa que deixou suja. Pros antigos, era a milionésima vez que tudo aquilo acontecia. Os novos recebiam patadas que na verdade nem eram para eles, era contra todos os que vieram e ainda estavam por vir, contra uma situação. Porque as pessoas são assim, grupos são assim: territorialistas, impacientes por natureza e com tendência a proteger os seus e agredir os de fora. Isso acontece em ateliers, em academias, em locais de trabalho e qualquer lugar onde haja pessoas novas e antigas. Não é justo nem bonito – é humano.

Novatos

Não tem como evitar: quem está há mais tempo na academia acaba ficando com raiva dos novatos. Porque a gente vai lá sempre, pega certos hábitos e conhece as pessoas, nem que seja apenas de vista. Aí chega esse povo, que dá pra reconhecer de longe: com camisetas grandes de algodão – porque disfarçam as gordurinhas e poupa comprar uma roupa pra malhar. Eu já fiz isso, todo mundo já fez isso. E depois abandonou o hábito, porque algodão pesa e fica muito quente. E só colocar uma malha feita pra ginástica que a gente nunca mais quer se exercitar com algodão na vida. Então a gente olha pro povo do algodão e já sabe.

Aí eles chegam pra fazer aula. Não sabem que todo mundo já tem seu lugar fixo e que existe até hierarquia. Neguim se coloca sempre no lugar de alguém, na frente do espelho ou colado com o professor. E não se toca que ter alguém fazendo o exercício todo errado lá na frente acaba atrapalhando para os que estão mais no fundo, que não tem de quem copiar. Na hora de ir pro banheiro, eles ignoram que os armários ficam todos juntinhos e que é preciso estar sempre atento. Dar espaço pra quem está junto, sair do caminho assim que possível. Hoje deu vontade de matar duas novatas que resolveram parar pra conversar bem na porta do meu armário. Com tanto lugar pra parar, tinha que ser ali, me atrapalhando?

“Nem se incomode” – disse uma amiga, quando me queixei – “daqui há pouco esse povo vai todo embora. É só esfriar.” Humpf!

É por isso que você odeia e deixou de ir pra academia? Detesta esse tipo de atitude? Então, antes de jogar pedras, por favor leia outro texto: Grupos.

Ovelha negra

De uns tempos pra cá tenho me sentido fascinada pela figura da ovelha negra. Fui num quiosque que faz camisetas personalizadas e fiz uma com uma grande ovelha negra pra mim. Se fosse de fazer tatuagem, hoje tatuaria uma ovelha negra nas minhas escápulas. Mas eu teria que levar meu próprio desenho, assim como fiz com a camiseta, porque na minha concepção a ovelha negra não tem olhar mau. Ela é tão boa quanto qualquer outra velha, só que é negra.

O Luiz não entende o porquê do meu fascínio e ri quando digo que me identifico, que me sinto uma ovelha negra. Ele não vê como uma pessoa de hábitos tão certinhos como eu pode dizer um absurdo desses. Pense bem: que culpa tem a pobre ovelha se nós atribuímos às cores branco e preto qualidades relativas à pureza e maldade? Ela nasceu tão ovelha quanto as outras, indiferente ao que nos desperta. Se as ovelhas simbolizam a passividade e falta de senso crítico, por que criticamos a que é diferente? Como se deixar de ser igual aos outros fosse necessariamente terrível ou violento, ou seja, Black Sheep. Fazer um filme de terror com uma ovelha é quase como a fronteira final.

Se uma ovelha soubesse dos imaginários a seu respeito, mesmo uma bem retinta, com certeza comeria placidamente sua grama.

Adeus

Fica parecendo que a iniciativa do adeus é de quem foi embora. Nem sempre, porque ir embora é o fim de um processo. Às vezes o outro quer que a gente vá, mas por algum motivo – dinheiro, culhões, imagem – não o faz. Então manda mensagens, manifesta seu desagrado diariamente com picuinhas. O outro tem uma sensação estranha, percebe uma coisa aqui e outra ali. Primeiro, acha que foi um dia ruim, que é uma interpretação maldosa, que foi coincidência. E vai levando, ignorando e relevando muita coisa. Até que um acontecimento sem importância une todas as peças, e a verdade cai no colo como uma fruta podre. Não dá mais pra fugir de uma decisão.

Sim, dá pra ser político à espera de algo melhor. Alguns decidem ficar só pra provar o seu valor, pra reverter o jogo e aí sim ir embora. O que não deixa de ser uma maneira de reconhecer o fim sem dizer adeus. Ficar quando tudo conspira para que você saia, é entrar numa queda de braço sem se divertir. Será que não é mais saudável colocar um The End antes dos silêncios se tornarem mais freqüentes e constrangedores? Melhor partir; antes das relações começarem a azedar, antes dos danos na auto-estima se tornarem irrecuperáveis, verdadeiros traumas. É um direito dos mais sagrados o de dizer adeus, porque não é pra tudo na vida que a gente pode dar as costas.

Adeus, ballet.

Quentinho

Fiz uma viagem de intercâmbio com vinte e um anos. Foi um período curto no tempo e pessoalmente muito marcante. Chegando lá, fui rapidamente integrada ao grupo dos intercambistas, todos latinos. Éramos como uma família, ficavamos juntos o tempo todo. A cidade e os nativos eram apenas cenários para um encontro improvável de brasileiros, argentinos, mexicanos, colombianos, peruanos e chilenos.

Nesse grupo estava um sociólogo chileno que havia se exilado em Paris na época de Pinochet. Ele me contou que se endureceu um pouco para conseguir aguentar o que viveu. Com a idade de quando o conheci, ele se viu com uma pequena mala, sozinho numa cidade que não lhe oferecia luz alguma. Sem família ou amigos, teve que aprender a se virar. Aceitou todo tipo de emprego, aprendeu francês na marra, viveu com pouco, sentiu falta da família. Baseada na experiência dele e no que eu mesma estava vivendo naquele exato momento, lhe perguntei:

– Manuel, na verdade não importa muito onde a gente está, né? Se você tem um trabalho razoável que te permite viver com conforto, e se sente querido pelas pessoas à sua volta, o resto acaba ficando em segundo plano. É isso mesmo?

Sim, era assim mesmo. Ele passou mais de dez anos em Paris. Fez doutorado, casou com uma francesa, teve uma filha. Na prática, ninguém vive em Santiago ou Paris: cada um transita por um número limitado de ruas, encontra sempre a mesma centena de pessoas, freqüenta sempre os mesmos lugares. O importante é conseguir criar um lugar quentinho, se sentir querido dentro do seu pequeno mundo. A diferença entre o exílio e o lar é o aconchego.

Gênia

Essa é uma dessas lembranças muito antigas, cuja data não consigo determinar. Acho que o cenário é um apartamento em Curitiba, então deveria ter uns 5 anos. Não lembro o que foi que eu fiz ou falei que motivou minha mãe a dizer isso. Sei que foi a primeira vez que ouvi algo que me repetiriam por toda a vida, de maneiras diferentes e em diversos tons diferentes:

– Você é muito geniosa!

Foi a primeira vez que ouvi falar aquela palavra e deve ter sido a primeira vez que me davam uma característica particular. Algo meu, algo que não tinha a ver com o fato de ser criança, filha ou estudante. Pelo som, pelo que já sabia do mundo e pelo que eu adivinhei, algo em mim cresceu e se sentiu feliz. Enchi os pulmões de ar, meu queixo subiu um pouco e eu repetia para mim mesma:

– Eu sou uma gênia!

Claro que minha mãe não demorou pra descobrir que, quanto mais eu ouvia ela me chamar de geniosa, mais feliz eu ficava. Então, não tardou de colocar os pingos nos iis e quis me fazer descer do Olimpo onde involuntariamente ela me colocou:

– Quando eu digo que você é geniosa, não estou querendo dizer que você é uma gênia. Geniosa quer dizer teimosa, cabeça-dura. Você é muito teimosa e isso não é um elogio, é uma característica ruim.

Achei aquilo uma ignorância. Como alguém poderia achar que a palavra geniosa não tinha parentesco com a palavra gênia e sim com teima? Era radicalmente diferente. Não começava com a mesma letra, o i ficava no lugar errado. É claro que geniosa não significava aquilo. Por isso, mesmo depois da explicação, eu enchia meu peito de ar, levantava levemente o queixo e pensava:

– Eu sou uma gênia!