Como fazer amigos, etc.

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Quando eu li o clássico livro Como fazer amigos e influenciar pessoas, do Dale Carnegie, eu era uma adolescente que passava o recreio na biblioteca. A bibliotecária que já me considerava uma anormal faz tempo, ficou completamente convencida quando me viu lendo aquilo. Eu realmente só podia ter problemas. Haviam me dito também que a imprensa foi no enterro do autor e que haviam lá meia dúzia de gatos pingados, o que punha em xeque o conteúdo do próprio livro. Eu queria entender que fórmula seria aquela e hoje me surpreendo em lembrar que fiquei surpresa. As regras me espantaram pela sua simplicidade: “a palavra mais bonita do idioma pra uma pessoa é o seu próprio nome”. Ele recomendava lembrar do nome das pessoas, sorrir quando apresentado, recordar o que nos falam, etc. Eram regras que evidenciaram pra mim o quanto no fundo todo mundo é igual na sua carência e desimportância, por isso a vontade de ser confirmado a cada contato. Achei que entendi o porquê dele ter tido poucas pessoas no enterro. O livro me fez concluir que as pessoas eram um tédio – e era por isso que eu passava tanto tempo na biblioteca.

Teoricamente a gente sabe que no fundo todo mundo é a mesma criança que sempre foi, mas também se vê surpreso quando vê congressista se estapeando, modelo verificando celular do namorado, advogados dando gritos e subindo na mesa. Ao mesmo tempo que esse lado infantil e mimado nos faz praticar atos enormes de egoísmo, também me parece que é nele que está a chave do perdão e outras qualidades do coração amolecido. Carnegie recomendaria: reconheça o erro e fale “desculpe”. Eu recebi uma mensagem de um rancor antigo, e como não podia ler na hora vi apenas as primeiras palavras. Elas me deram a entender um mea culpa; fantasiei que a tal pessoa tinha lido as coisas que escrevo e ter me acompanhado a fez rever muitas coisas do passado e concluir que sou legal e que foi um erro blablablá. Já estava toda mudando de ideia e reconhecendo os meus erros também quando finalmente abri a mensagem e era apenas uma corrente de internet. E das chatas. Sabe cachorro que mal recebe carinho e já está oferecendo a barriga pra carinho? Me senti assim, facinha. Que raiva.

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Herança

praiaMeu pai chegava do trabalho e ia como um jato até o quarto, trocava de roupa e ia para a praia, onde andava por quilômetros. Tentei andar com ele uma vez e não consegui, mesmo o trajeto mais curto era muito longo. Agora, aposentado, se propõe a caminhadas longuíssimas onde cruza o centro velho de Salvador a pé. Quando minha mãe dizia “vamos” para um passeio no centro, eu já sabia antecipadamente que andaríamos a tarde inteira, num roteiro que incluía contas, lojas, pesquisa de preço, perder-se e reencontrar-se. Quando subíamos no ônibus, na volta, estávamos tão exaustas que não conseguíamos nem falar. Minha mãe que me contou que o meu pai fez um churrasco com o primeiro pedreiro que mexeu na nossa casa, aquele colocou o fechadura da porta do quartinho dos fundos de cabeça para baixo, o que exigia um certo raciocínio na hora de abrir. Meu pai sempre acaba dando um jeito de inventar umas comidas de graça, atualmente é uma feijoada feita no meio da praça numa das cidades minúsculas da ilha de Itaparica. Todo fim de ano minha mãe me fazia abrir o grande cesto de vime onde ficavam meus brinquedos e separávamos para as crianças carentes. Eu olhava para os brinquedos e avaliava se ainda os usava, se ainda os amava, ou se eles fariam outra criança muito mais feliz. Lembro de um que era uma miniatura muito lindinha de uma casa, e eu quis dar sem dó. Aí quem quis preservar o brinquedo foi ela. Minha mãe sempre foi generosa, até demais, a ponto de nos preocuparmos dela ser explorada. Era alguém lhe contar uma história triste que ela já queria ajudar e dava o que iria lhe fazer falta.

Obrigada.

Nós onze

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Das pessoas que eu conheço, eu sou aquela cuja morte menos impactaria o mundo. Não tenho filhos, marido, namorado, alunos, empregados, nada. Ninguém está sob minha responsabilidade. Eu nem ao menos sou parte importante da rotina de alguém. Mas não se preocupe, isso não é nenhuma carta de despedida.

Eu não sei o que traz vocês aqui. Pra começar, nem sei quantos vocês são. Ao longo dos anos, fui perdendo meu contadores de visitas, e a proporção entre o número de acessos que eles informavam era assim:

Google analytics > Blogger > Facebook > WordPress

Como tenho preferido jogar meus acessos pro WordPress, de acordo com os número que tenho hoje, este blog tem uns dez leitores. Sério. Me parece que tenho um pouco mais do que isso, mas sejamos realistas: o WordPress não está me roubando umas dez mil pessoas. Tem mais gente aí mas não são tantos assim. Outro ponto é que nunca entendo muito a lógica dos posts. Algumas coisas que me deram o maior orgulho de escrever tiveram reações pífias, enquanto outras que fiz meio que só pra constar tocaram pessoas. Então sempre abro o computador sem saber o que me espera.

Eu não sei o que os traz aqui, mas eu sei o que me traz aqui. Pode ser muito lógico para quem está do outro lado, mas não faz muito tempo que me dei conta de que acabei criando uma auto-biografia online. Que a qualquer momento qualquer pessoa tem acesso a anos da minha vida. Esse olhar nem sempre será bondoso, nem sempre colocará as coisas em perspectiva ou vai entender o que eu disse. Basta ter interesse e se dar ao trabalho de ler. Não foi a minha intenção ter uma biografia online, eu jamais teria tido uma ideia tão narcisista, mas aceito. Fico imaginando uma futura sogra, sabe? Minha ex-sogra levou muitos anos pra gostar de mim – ela viu uma moça, indícios de comportamentos, tirou conclusões. Não tinha como ser muito diferente. Quando a gente é jovem, somos muito intenções e possibilidades. São os anos que nos dão trajetória. Então minha futura sogra, depois de me ler, pode gostar ou não de mim, mas jamais poderá alegar ignorância.

Estou lendo sobre o Jango e recebendo o material do Murilo Gun e os dois me fizeram constatar o quão pequeno é o meu alcance. É difícil calcular o impacto que a gente tem; na matemática dá pra confrontar centenas ganhando indevidamente os 77 reais do Bolsa Família ao lado de um desvio de verba de milhões. Na vida real, horas de falação podem ser menos importantes do que um único encontro. Quando e como conseguimos realmente dizer algo relevante, deixar alguma marca no coração de alguém?

Eu não sei o que os traz aqui e nem quantos vocês são. Eu também gostaria de fazer bem ao mundo, de ter um grande projeto, de ser uma influenciadora, gente do mesmo naipe do Darcy Ribeiro. Se fosse apontar duas características de um grande projeto (estou sendo o pai da Little Miss Sunshine agora), eu diria que ele tem que envolver muitas pessoas e ser generoso. E taí meu calcanhar de Aquiles, sempre tive problemas com esse lance de muitas pessoas. Muito por timidez natural, um pouco por acreditar que não precisaria delas. Por isso minha programação de aniversário inclui computador e bolsa de água quente nos pés, igual estou agora. Cada um tem suas facilidades e desafios, lidar com pessoas pra mim sempre foi segundo item.

Não serei mãe, por consequência não serei avó. Não serei professora, então não terei alunos. Que não serei presidente não é preciso dizer, mas eu nem ao menos serei celebridade de internet. Somos só eu e vocês, nós onze. Eu não sei o que os traz aqui, sei apenas o que me traz: a necessidade.

O velho Chico e o psiquismo

Atravessando o rio São Francisco num barquinho igual.
Nunca foi por realmente me ver como paulistana que em qualquer conversa sobre curitibanos chatos eu me safo com um “eu sou paulistana”. Não tenho lembranças de infância lá. Minha mãe saiu grávida de Manaus, ficou em Curitiba durante quase toda a gravidez, e depois meus pais foram pra São Paulo e ficaram tempo o suficiente pra nascer meu outro irmão, um ano mais novo. Não foi um desses nascimentos quando a pessoa está de passagem, mas foi quase. Vim morar em Curitiba aos cinco anos, então realmente sempre me vi como curitibana, por mais que tenha ouvido a vida inteira: Você não é daqui, né? Eu me lembrei disso quando estava em Juazeiro, cidade onde um amigo meu nasceu e foi embora com um ano. “Fotografa o rio pra mim!” e eu nem sabia que rio era, não fazia ideia do quanto o rio São Francisco é lindo. 

Ir pra Salvador sempre mexe muito comigo. Passei grande parte da minha vida odiando a cidade com todas as minhas forças, atribuindo à baianidade toda infelicidade que já senti, renegando qualquer traço, influência e parentesco com aquele lugar. Mas eu chego lá e é aquela festa sensorial: o cheiro do mar, a areia fina no chinelo, o acarajé feito nas ruas, a maresia nas paredes, a sonoridade do sotaque, os rostos. Tudo familiar, tudo sempre esteve ali. Pra renegar é preciso conhecer, é preciso ter experimentado. Então, por mais que eu não tenha gostado, também sou eu. Como eu um dia pude pensar o contrário? Salvador faz parte das minhas lembranças e da minha história, está em mim de alguma maneira. Minhas células reconhecem a cidade e vibram diferente quando coloco os pés ali. E eu não seria quem sou sem ter vivido isso.

Lembrei do meu amigo porque comecei a pensar numa psicologia ambiental, quem sabe ecológica. De que é impossível que todos esses cheiros e sons diferentes das cidades não nos influenciem. Que alguém que lembra dos surubins nadando em volta de si enquanto está no colo da mãe, não pode ter dentro de si a mesma coisa de quem esteve no céu cinza de São Paulo ou comeu pinhões na infância. Que não somos só um pouco dos nossos parentes, mas também somos um pouco da nossa cidade, dos seus mares ou rios ou montanhas ou ventos ou chuvas.

Influência

Conheci muitos, geralmente místicos, que se propunham a ser uma influência na vida dos outros. Acho que tinham um certo sucesso com pessoas que gostam de gurus. A mim sei que sua influência foi pouca ou nenhuma. Quando chegavam repetindo as mesmas exortações, mantras e convites à mudança, eu percebia muito claramente que eles não me conheciam. Pra começar, eu sou tão A Louca das Mudanças Profissionais que ninguém me diria para mudar, muito pelo contrário – uma pessoa em sã consciência me diria para criar vergonha na cara e me estabelecer. O fato de me falarem algo que dizem a todos, sem saber até que ponto eu pratico ou gosto desses discursos, me desinteressa na hora. E mesmo àqueles que se interessam, acredito que a influência de mensagens padronizadas seja muito pequena. Achar mensagens bonitas e até soltar uma lágrima por elas é muito fácil; difícil é que não passe disso, que a pessoa realmente consiga fazer algo diferente na sua vida. Para que alguém me influencie, é preciso que saiba o mínimo a meu respeito. Que conheça um pouco da minha história, o que eu busco, que temas me tocam. Eu, como todas as pessoas, tenho um grande sentimento de importância pessoal. Eu não sou mais uma, pelo menos não para mim. Do mesmo jeito que o místico tem algo a me dizer, eu tenho algo a dizer a ele. Eu também vivi, refleti, tirei algumas lições da vida. Eu só me deixo influenciar se o outro se deixar influenciar também. Esse é o problema dos “influenciadores”, eles sempre partem do pressuposto que são a única parte modificadora e sábia da relação.

Poderes

O que não falta na minha família é gente que se acha phoda, e quando meu irmão André sofreu acidente começou o festival de contatos. Começaram a importunar todos os amigos, conhecidos ou ex-colegas que eram sobrinhos ou amantes de alguém, que era médico e que podia fazer alguma coisa pelo meu irmão no hospital. Todo mundo muito importante, só na carteirada. Como resultado, na primeira vez que fiquei frente à frente com o médico do André, o cara me deu bronca e me disse que eu poderia levar meu irmão pra outra UTI se quisesse. Depois dessa bronca recebi muitas outras, dele e dos outros médicos; pedi desculpas tantas vezes por coisas que ignorava que eles acabaram percebendo que eu não estava compactuando com aquilo. Os colegas de faculdade do André também tentaram ajudar, falando com uma colega cujo pai trabalhava no mesmo hospital, acho que na pediatria. Como resultado, esse gentil homem veio com outra médica, me trouxe até o corredor e disse num volume muito alto que ele não tinha nada a ver com outros setores e que não interferiria no trabalho dos seus colegas. E eu mais uma vez fui obrigada a pedir desculpas.

De todas as influências, a única coisa que realmente ajudou foi o apelo que minha mãe fez à moça que cuidava dos internamentos. Pelo nosso plano de saúde, meu irmão tinha direito a um quarto na enfermaria. Nas enfermarias, havia apenas uma poltrona para o acompanhante se sentar. Meu irmão não tinha consciência, não dormia, se debatia e precisava ser contido o tempo todo. Essa mulher ficou sensibilizada e nos colocou num quarto que constava como enfermaria no sistema, mas que na prática tinha apenas um leito e um sofá de três lugares bem confortável.

Missão

Eu convivo com pessoas místicas. Por isso, não é incomum elas me falarem de sua Missão na Terra. A missão de cada um na terra seria aquilo que a alma escolheu fazer aqui antes de reencarnar – o que pressupõe uma série de crenças que não discutirei aqui. Uma dessas pessoas é tão ligada na sua missão de ajudar o próximo, que espalha sábios conselhos a todo instante: na aula, no banheiro, na casinha de sapê. Não existe assunto banal – de cor de esmalte a relacionamentos, ela sempre enfia no assunto algum ensinamento ou aponta algo no seu comportamento (ou no dos outros) que precisa ser modificado. Uma chata, em resumo.

Gente que faz isso é, por um lado, otimista. Eu já não acredito em conselhos, não acredito que alguém vai fazer ou deixar de fazer algo porque eu aconselhei. Por outro lado, quem adota a postura de conselheiro tem uma boa dose de onipotência, por achar que sabe dizer o que os outros precisam ouvir. Uma historinha como ilustração:
Quando eu trabalhava em um atelier público, a rotatividade de pessoas era muito grande. Uma vez apareceu um escultor chamado Hamilton, conversador e muito talentoso. Fez algumas peças bonitas e sumiu em poucos meses. Muitos anos depois, nós nos reencontramos no ônibus e ele se tornou meu único amigo da área. Ele me contou que saiu do atelier porque prestou vestibular pra Belas Artes… e que eu o influenciei pra isso.

– Eu??? Mas eu não lembro de ter dito nada, não te aconselhei pra nada!

– Você nunca me disse nada mesmo. Mas foi o jeito que você me tratava, a sua amabilidade que me ajudou.

Até hoje eu não entendi direito o que eu fiz, mas se ele diz que eu fiz então eu fiz. Eu acredito que a gente influencie os outros; mas a nossa influência é sempre inesperada, inconsciente e totalmente imprevisível.