Desculpa, Buda

BUDA (1)

Minha amiga Julie fez uma longa viagem pela Tailândia e outros países orientais e eu acompanhei tudo pelo Instagram. Em um dos seus primeiros passeios pelos dourados templos budistas, ela tirou foto de uma placa com um recado intenso em inglês e tailandês. Não me esqueço da foto de uma cabeça de Buda como base de um abajur. Na placa dizia que é extremamente desrespeitoso ter aquele tipo de objeto. Que se você tiver uma imagem de Buda, é para colocar num altar, com reverência. Buda não é simples estatueta bonitinha, é um símbolo religioso. Eu, ela, outras pessoas que viram a placa, nunca havíamos em Budas decorativos como desrespeito. Imagine o quanto nós não ficaríamos chocados se víssemos, por exemplo, um Cristo crucificado com calço de porta.

Agora meus olhos pousam em qualquer Buda e lembro – e mando uma carinha triste pra Julie. Sempre achei aquelas cabeças de Buda bonitas e não comprei por puro acaso (aka, falta de grana). Sou dessas que não consegue fingir que não viu. Nem comecei, mas Buda decorativo nunca mais.

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Na Tietê

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Eram tempos pré-celular. Minha mãe havia me alertado que em São Paulo era diferente, que por causa das distâncias, um contratempo, uma chuva mais forte, e a programação pode ir toda por água abaixo e a pessoa se atrasa durante horas. Que uma vez ela tinha combinado de encontrar com o irmão dela, na Paulista, e ele atrasou umas duas horas. Ela ficou lá, de pé, olhando os carros que vinham, tentando reconhecê-lo. A culpa não foi dele, foi do trânsito. Quando ele chegou, os dois conversaram normalmente no carro e só quando chegou na casa dele viu que estava com a maquiagem toda escorrida. Então eu deveria ter calma. Quando meus pais se separaram, nas primeiras vezes alguém ia até São Paulo, e depois até Salvador, depois paramos de fazer aquela escala. Há anos eu não ia para São Paulo, era minha primeira vez sozinha. Minha tia, irmã da minha mãe, ia me buscar. Fui instruída a subir a primeira escada rolante à esquerda e procurar um cartaz muito grande que diz Ponto de Encontro. Minha tia sabia quando eu saía de Curitiba, quando chegava e em que ônibus, estava tudo certo, mas São Paulo era imprevisível. O ônibus foi pontual e cheguei no horário que deveria, subi a escada rolante e localizei facilmente o Ponto de Encontro, que aponta para um espaço vazio. Fui me aproximando e constatei o que já dava para perceber de longe: a minha tia não estava lá. Fui para bem embaixo do cartaz, olhei à minha volta e ninguém me procurava. Podia levar horas, como a minha mãe de pé na Paulista. Eu coloquei a minha mala no chão, sentei em cima dela e tirei uma maçã que havia trazido de Curitiba. Comecei a comer enquanto olhava distraidamente o movimento. Nem havia terminado a maçã quando, de longe, vi duas mulheres rindo na minha direção, que depois percebi que eram minha tia e minha prima. Elas me acharam tão relax, tão low profile, tão tão pra uma adolescente sozinha numa cidade estranha. Desejei que elas tivessem razão.

A verdade está lá fora

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Eu achei que com o tempo ia parar, mas continuo ouvindo uma sugestão que para mim não faz o menor sentido: eu deveria largar tudo e ir morar no exterior. Largar tudo. Não tenho nenhum contato ou oportunidade de emprego à minha espera, qualquer vínculo que me puxe para outro país. O que as pessoas esperam é que eu vá, de qualquer jeito, para qualquer lugar, que qualquer país é melhor do que permanecer aqui. Que estar na cidade que eu domino, onde tenho amigos e contatos e a vida toda estabelecida não me serve de nada. Feliz mesmo eu seria em outro país, que subemprego, morar mal e estar cercada por pessoas que falam uma língua que não domino e que não querem saber de mim é muito melhor, apenas por ser estrangeiro. Vê se algum europeu acha que a vida de classe média no país dele não é nada diante da eletrizante experiência de viver mal no Brasil. Eu hein.

A caixa de tachinhas

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Lu era do RJ e tinha um tio que era piloto de avião comercial. Por causa disso, ele conseguia encaixa-la nos vôos e desde muito nova ela ia a Miami apenas para fazer compras. Ela embarcava, ela ia até as lojas, abastecia o carrinho e voltava, não chegava a fazer turismo ou falar com ninguém. Quando Lu ficou noiva, o seu tio lhe deu a oportunidade de fazer uma dessas viagens para comprar seu enxoval. Ela estava numa das lojas quando uma mulher se aproximou dela falando português. Disse que a observou e que sem dúvida ela tinha contatos e voava para o Brasil sem passar pela alfândega. Lu tentou desconversar. Naquela época, as tachinhas estava muito na moda. Aí a mulher lhe mostrou uma caixa pequena, um quadrado que não chegava a vinte centímetros em cada face e abriu. Lá dentro havia muitas tachinhas. A mulher ofereceu a Lu uma quantia exorbitante para levar uma caixa igual aquela para o Brasil. A quantia pagava tudo o que ela estava gastando no enxoval e sobrava. A moça insistiu, eram apenas tachinhas, e Lu aceitou. Aceitou e ficou tensa. Deu o quarto dela no hotel onde ficaria apenas aquela noite e em poucas horas um negão deixou na portaria uma caixa idêntica àquela que a mulher mostrou na loja, só que totalmente lacrada. Lu olhou a tal da caixa o tempo todo, repetiu para si mesma que eram apenas taxinhas, dormiu mal e acordou doente. Embarcou, chegou no Brasil péssima, quase foi revistada na alfândega quando o seu tio passou lá e disse que ela era de casa, que era a sobrinha dele. Mal saiu de lá e, conforme o combinado, a abordaram no aeroporto, deram a quantia prometida em dinheiro e foram embora. O tio quis matar quando soube.

Louca obsessão

Contém spoilers (é um filme de 90´s, pô!).

Havíamos acordado cedo. Foi um dia inteiro viajando de carro pelas cidades do Recôncavo Baiano, comendo bem, ouvindo Folia de Santo sem parar, passando por altas aventuras como a busca pela casa da Dona Canô. À noite estávamos exaustos e ainda tinha algumas horinhas até o horário de dormir. Ligamos a TV à procura de qualquer coisa razoável para ver e passamos por um filme chamado Louca Obsessão. Regina quis deixar lá, era um filme bom, ela havia visto. “Ainda mais pra você, que escreve. Tem uma cena massa, pena que eu acho que já passou…” Aí ela nos explicou o contexto: um escritor famoso caiu perto da casa de uma enfermeira, que era fã dele. Não encontraram o sujeito e ele era dado como morto. Ele havia escrito uma série com uma personagem que tinha muitos fãs, e no último livro deu um fim nela. Então a tal enfermeira fã cuidou dele e o mantinha em cárcere privado para que ele escrevesse um novo livro que trouxesse a mocinha de volta. Ele não gostou disso, tentava chamar atenção das pessoas naquela casa isolada, fingiu que ainda continuava doente, essas coisas. Até que a louca nota que ele está se recuperando. Não lembro o que acontece, mas sei que ele acorda todo amarrado na cama. “Eu me enganei, ainda não passou”. A cena seguinte se passa quase toda do ponto de vista do escritor, na cama. A louca começa a conversar com ele, diz que ele tem se comportado mal, que ela tem cuidado tão bem dele. Ele reclama, quer ir embora. Enquanto isso, ela se movimenta pelo quarto, claramente se preparando. Ela pega um pedaço de madeira e coloca firmemente entre os tornozelos dele, e continua. Ficamos sem saber pra que serve aquilo – as pernas sustentando uma madeira, os pés soltos no ar.. Até que ela pega um martelo bem pesado, puxa para trás e bate com toda força na lateral do pé. Cena de pé virado e osso partido. Eu e Laécio pulamos no sofá. Regina ri da nossa cara. Fico traumatizada para sempre. Fim.

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A lista do rancor

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Eu estava no banco detrás. Na frente, um amigo do meu pai, dirigindo, e o meu pai. A viagem era longa e cansativa. Antes, o contexto: esse amigo é muito rico, está aposentado, e gosta de gastar dinheiro com os amigos. Todo ano, no seu aniversário, ele aluga um barcão, cujo tipo não lembro – só sei que cabem umas quatrocentas pessoas e ele não coloca nem metade lá. É um super passeio, ficam o dia inteiro parando em muitas praias, um programão. E restrito: “Se a senhora (falando para mim) quiser ir, está convidada, pois é muito simpática”. Ou seja, o fato de ser filha do meu pai não garantia lugar. Voltando à história: estávamos no carro, viagem cansativa. Eis que esse amigo do meu pai tira do bolso um papel. De onde eu estava, vi três parágrafos que gradualmente diminuíam de tamanho.

Fiz aqui uma lista dos meus convidados do último aniversário. O primeiro parágrafo são as pessoas que foram. O segundo, das que não foram mas que mandaram um abraço, uma felicitação, alguma coisa. E, por último – acrescentou com um olhar e tom de voz que vocês adivinham – aqueles que não fizeram uma coisa nem outra.

Amo gente rancorosa.

Originalidade

Tem uma frase que eu li em algum lugar que me ajuda muito e não sei direito como dizer isso sem querer parecer uma pregadora religiosa. É assim: “Através de você, Deus está vivendo uma experiência que ele nunca viveu antes.” Para mim, essa frase é um apelo máximo à originalidade. Ela me faz pensar o quanto regras de conduta são perigosas e até inválidas, porque o que rege a minha vida pode ser um estrago na vida do outro. Eu ia escrever “o que equilibra a minha vida” mas já está aí, pode ser que tudo o que o outro menos precise seja equilíbrio. Eu penso também numa conhecida minha, que nunca sonhou em viajar, mas colocou o nome num projeto e os frutos dele estão levando-a a viver em outras partes do mundo, de Inglaterra à Nova Zelândia. Eu mal e mal vou até Campo Largo; se fosse tentar ser uma pessoa viajada, teria que fazer imensos esforços. Ou seja, pra ela vem fácil e pra mim seria uma luta, uma tentativa de cópia, a vontade de ter o que não é a minha realidade. Me faz pensar também no escrever, nessa crise imensa que todos que escrevemos temos, ao olhar para o lado e achar tão lindo, genial e disse tudo – e nessa de achar o outro tão maravilhoso, dá a impressão de que tudo está tão dito e muito melhor dito que não tem porque euzinha escrever. E realmente já está dito e não vale a pena, se eu virar uma cópia mal feita de Paulo Coelho ou Borges. Mas valerá a pena, será único e original se eu disser o que apenas eu posso dizer – mesmo sem viagens internacionais.

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A última morada de Dona Canô

Na minha curta estadia no Recôncavo Baiano visitei várias cidades com a Regina e o Laécio. Foi tudo bom: a companhia, as acomodações, Folia de Santo, as comidas, os passeios. Foi tão bom que eles me fizeram cogitar morar na Bahia, coisa que meu pai sempre quis e nunca conseguiu. Numa dessas viagens, passamos por Santo Amaro, cidade de Caetano e Bethânia. Lá almoçamos muito bem enquanto observávamos uma figura misteriosa fumava na porta do estabelecimento, que claramente era importante na cidade. Uns jovens quiseram sentar perto e com um simples gesto de dedos ele os expulsou dali. “Deve ser parente de Caê”. Só de estar em solo sagrado já estávamos assim, íntimos da família de Dona Canô.

Aí fomos para a principal rua da cidade e não foi difícil achar a casa de Dona Canô. Pela foto, dá pra perceber que a cidade é muito limpa e ainda não tinha tirado os enfeites das festas juninas. Nenhuma dessas casas é a casa de Dona Canô, mas era do mesmo estilo. Caso alguém ficasse na dúvida, bem na frente tinha placas, uma falando de Bethânia e outra de Caetano. 

“Essa não é a casa de Dona Canô”, falou Regina, que nessa época nem tinha assumido que é Viciada em Problematizar – “Eu vi uma entrevista recente dela, em casa, e ela está num jardim grande. Essa casa é pequena”. Ficamos com vontade de conferir. A casa estava linda e bem cuidada, e quase fomos entrando, naquele raciocínio de que deve ter se transformado num museu. Só depois percebemos que não era, tinha alguém morando lá. Provavelmente um primo de Caê.

“Eu acho que essa é a casa onde eles passaram a infância. Depois os dois fizeram sucesso, ficaram ricos e compraram outra casa para a mãe, aquela que eu vi na entrevista”. Aí decidimos procurar a outra casa, a boa, a última morada de Dona Canô. Fomos andando pela rua. Em quase todas as casas havia pessoas de idade com cadeiras na varanda tomando uma cervejinha. Abordávamos todas: “Você sabe nos dizer onde fica a última casa de Dona Canô?”. Quase todos nos descreviam aquela casinha que havíamos acabado de ver. Agradecíamos e íamos embora, claramente gente desatualizada. Até que uma senhora, que tomava cerveja sozinha na sua varanda, nos informou: “Vocês querem a última casa da Dona Canô? Eu não sei o número, fica na rua aqui atrás. É só vocês pegarem essa rua e logo vocês vão ver”.

Viramos a esquina e era uma baita subida. Fomos de carro. À medida que subíamos, as casas iam ficando mais feias, uma favela. “Não vai ser difícil achar a casa de Dona Canô porque ela vai ser a mais bonita, vai se destacar no meio dessas casas pobrinhas”. Subimos, subimos, subimos. Perguntamos sobre a casa de Dona Canô e todo mundo nos indicava aquela que havíamos acabado de conhecer. Era subida que não acabava mais e nada de achar uma casa bonita. “Regina, se abraça com uma velhinha dessas e diz que não encontrou com Dona Canô mas conheceu uma amiga de infância dela. Provavelmente é verdade”. Mas ela não quis me ouvir. Até que chegou um ponto que vimos que velhinha nenhuma conseguiria subir tanto, que Caê não faria aquilo com a própria mãe. Desistimos e decidimos conhecer outra cidade.

Na descida, viramos a esquina na rua paralela ao nosso ponto de partida. Olhei à minha direita e “gente, olha lá, foi isso o que a mulher quis nos dizer!”. Logo ali atrás estava a última morada de Dona Canô: o cemitério.

Viajante

Não sei se é a adrenalina da própria caminhada, ou se são os dias agradavelmente quentes, mas às vezes estou por aí com olhos de viajante e tudo me parece fresco e novo. Vegetações misteriosas, calçadas que mudam de cor, fachadas históricas, cenários de fotografia ignorados. Passo na frente de uma casa e alguém tira um chinelo da varanda, ou na mesinha dos fundos se prepara uma comida, e me sinto tão íntima deles que parece que a pessoa vai sorrir e dizer “Venha, entre”. Com a mesma naturalidade eu abrirei o portão e me sentei para ouvir histórias a tarde inteira, com o mesmo comprometimento de quem sabe que nunca mais vai voltar. Outra possibilidade é que na pausa para o lanche ou diante de uma vitrine uma observação seja feita, talvez por mim; isso gerará um sorriso, que gerará uma conversa cada vez melhor e um carinho que se enraíza por todos os lados, até no passado. Outro louco também por aí como se fosse turista, desarmado e de olho na copa das árvores. Porque não é com esse espírito que estamos quando vamos às cidades dos outros, abertos e disponíveis para os milagres?

Curtas de lama e chuva

Meus amigos deram risada ao me ver nesta foto. Se perguntaram que apagão foi esse, como era possível eu totalmente desprovida de vaidade e num lugar cheio de lama. Eu ri e me senti muito querida de terem notado. E a sujeira estava apenas começando.

 

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Conheci a amiga do Alessandro, Claudia. Quem acompanha o Alessandro sabe que ambos têm uma atitude libertária diante da vida, dos relacionamentos e do sexo. O que eu sabia dela é que era uma mulher careca que não curtia se depilar e tirava fotos em poses dominadoras. Aí a encontrei, em carne e osso, igualzinha às fotos e às descrições. Ela é uma dessas pessoas que parece estar muito confortável dentro da pele. Não, ela não seria mais bonita cabeluda ou depilada, simplesmente porque não seria ela.

 

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Alias, fui convidada pra fazer parte da comunidade que eles pretender ter. Quarto e banheiro privativo, o resto comunal. Mal e mal sei se consigo casar de novo, então acho que não é pra qualquer um ser convidado pra viver junto numa comunidade nascente. Fiquei lisonjeada. E disse não.

 

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Não deu pra encaixar no post anterior: esqueci o repelente e meu pé foi cruelmente atacado por pulgas. Fiquei preocupada com a calça que usei no curso e o que está mesmo quase dando PT (Perda Total) é o meu pé. Pensei em postar uma foto disso também, mas ia ser algo tão aviso em maço de cigarros…

 

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Aconteceu uma coisa chata no curso: um dos locais deu em cima de mim. E em cima de outra, conforme soube na volta. Foi rápido e sutil, com ambas. Ele estava no mesmo quarto que eu, e a partir daquele momento eu fiquei receosa. Dormi mal, então tenho certeza de que nada aconteceu. Não deve ser má pessoa e ele mesmo não deve ter visto nada de errado na sua atitude, muito pelo contrário. Mas o mundo é um lugar tão perigoso para as mulheres e os homens às vezes não se dão conta disso.

Costa Rica

“Eu tive que mandar uma carta pro meu pai, e no envelope escrevi – a cinquenta metros da igreja em direção norte, vira a esquerda para o oeste, casa de portão cinza”. Mais ou menos a mesma coisa para se pegar um ônibus, não tem um ponto. Foi assim que Costa Rica, que até então pra mim era apenas um nome, foi ganhando contorno nas palavras do professor. Tem terremotos? Sim, muitos, e quando ele falou aquilo ficamos com medo. “Mas aí você fica torcendo pra ficar mais forte, porque você é liberado do trabalho e volta mais cedo pra casa”. Talvez por isso não seja um país de grandes avenidas e construções. Mas quem se importa com isso sendo que “a nossa universidade está entre vigésima primeira em qualidade de toda América Latina, o índice educacional é muito alto”. Aí é pra abusar do meu coraçãozinho romântico – características de cidades pequenas e top em educação? “Por isso muitas empresas de tecnologia tem se instalado lá”. E tem o turismo, claro. Praias maravilhosas, de um lado banhadas pelo Pacífico e de outro o mar do Caribe. Vulcões, florestas, animais. E nos mostra perto de qual vulcão ele mora, que praias gosta, quais não gosta, as músicas, como surgiram esses boleros que dançam juntinhos em três. Não deve ser o máximo você poder conhecer todo o seu país? Pra nós é praticamente impossível.

 

Passei boa parte da vida imune ao desejo de sair do Brasil. Acho que a culpa era dos destinos que as pessoas buscam, do que elas queriam. Ir para os Estados Unidos virar faxineira não me atrai, sofrer preconceito na Europa também não. Não os considero tão importantes assim… O sentimento que eu tenho é que estamos aqui, no olho do furacão, e tem muito paraíso perdido por aí. Países pequenos, latinos, lugares de vida boa e tranquila.

Salvador e Salvador

Eu geralmente saio pelos fundos, porque é mais perto. Mas por acaso, naquele dia, saí pela frente. E encontrei um colega de turma, que também nunca encontrei saindo. Chovia muito. Eu estava de guarda-chuva e capa, porque nesses dias não para de chover, mas era daquele tipo de chuva que proteção nenhuma salva. Ele me perguntou se eu queria carona. Falei que não, que pretendia ir a pé. E pretendia mesmo, pelo menos até certo trecho, para comprar umas coisinhas. Ele achou que aquilo era desculpa e insistiu. Acabei aceitando porque até pra mim aquilo soou como desculpa. E também achei meio destino eu sair pelo lado que eu nunca saio e encontrar uma pessoa que eu nunca encontro num dia de muita chuva. Aceitei, e fomos para fora juntos no meu guarda-chuva até o estacionamento. Eu sem fazer a menor ideia de que carro era e onde estava.

Pena que não sei marca de carro pra poder contar aqui. Sei que era um carrão, nos dois sentidos do termo. Preto, alto, espaçoso, todo equipado, daquele tipo que parece abraçar a gente quando entra. Eu já esperava algo assim, já havia visto e ouvido o suficiente para saber que temos alguns degraus de distância na pirâmide social. Começamos a conversar, o assunto recaiu sobre minha viagem, eu disse que meu pai mora sem Salvador e que nunca morri de amores pela cidade. Aí ele me fez entender que já foi, quem sabe mais de uma vez, porque tem uma opinião bem definida sobre lá: que é uma cidade bacana, que tem lugares bonitos, excelentes restaurantes…

Aí bateu aquela certeza da realidade que nos separa. Como se o carro, eu costureira, ele indo para o escritório e muitos outros detalhes já não gritassem a verdade. Verdade esta que é sempre muito mais clara para quem está embaixo do que em cima. Como eu poderia explicar a ele que vamos a cidades diferentes quando visitamos Salvador? Tentei por alto, quando disse que não vou como turista e que o Sul e o Nordeste são culturas diferentes. Ele concordou, claro, mas é que… A Salvador que eu conheço é a do ponto de ônibus, do acarajé baratinho e refrigerante no isopor, ruas estreitas e chinelo de dedo. Deve mesmo ser muito legal essa cidade que ele conhece, a Salvador dos bons restaurantes e serviços, com tinta fresca sobre a maresia e ar condicionado. Como já me disseram (foi em Jaguarari, inclusive), as cidades podem ser melhores ou piores dependendo do nível de vida que você terá nelas. Lá, no centrinho de Itapoã, o restaurante que meu pai frequenta é o Dimenor.

O velho Chico e o psiquismo

Atravessando o rio São Francisco num barquinho igual.
Nunca foi por realmente me ver como paulistana que em qualquer conversa sobre curitibanos chatos eu me safo com um “eu sou paulistana”. Não tenho lembranças de infância lá. Minha mãe saiu grávida de Manaus, ficou em Curitiba durante quase toda a gravidez, e depois meus pais foram pra São Paulo e ficaram tempo o suficiente pra nascer meu outro irmão, um ano mais novo. Não foi um desses nascimentos quando a pessoa está de passagem, mas foi quase. Vim morar em Curitiba aos cinco anos, então realmente sempre me vi como curitibana, por mais que tenha ouvido a vida inteira: Você não é daqui, né? Eu me lembrei disso quando estava em Juazeiro, cidade onde um amigo meu nasceu e foi embora com um ano. “Fotografa o rio pra mim!” e eu nem sabia que rio era, não fazia ideia do quanto o rio São Francisco é lindo. 

Ir pra Salvador sempre mexe muito comigo. Passei grande parte da minha vida odiando a cidade com todas as minhas forças, atribuindo à baianidade toda infelicidade que já senti, renegando qualquer traço, influência e parentesco com aquele lugar. Mas eu chego lá e é aquela festa sensorial: o cheiro do mar, a areia fina no chinelo, o acarajé feito nas ruas, a maresia nas paredes, a sonoridade do sotaque, os rostos. Tudo familiar, tudo sempre esteve ali. Pra renegar é preciso conhecer, é preciso ter experimentado. Então, por mais que eu não tenha gostado, também sou eu. Como eu um dia pude pensar o contrário? Salvador faz parte das minhas lembranças e da minha história, está em mim de alguma maneira. Minhas células reconhecem a cidade e vibram diferente quando coloco os pés ali. E eu não seria quem sou sem ter vivido isso.

Lembrei do meu amigo porque comecei a pensar numa psicologia ambiental, quem sabe ecológica. De que é impossível que todos esses cheiros e sons diferentes das cidades não nos influenciem. Que alguém que lembra dos surubins nadando em volta de si enquanto está no colo da mãe, não pode ter dentro de si a mesma coisa de quem esteve no céu cinza de São Paulo ou comeu pinhões na infância. Que não somos só um pouco dos nossos parentes, mas também somos um pouco da nossa cidade, dos seus mares ou rios ou montanhas ou ventos ou chuvas.

Julho chegou e com ele…

… o frio. A conta de luz. A fatura de um cartão de crédito que eu já cancelei. A necessidade de ligar pra Net e cancelar a HBO.

 

* Eu vi e vivi tantas coisas nessa última viagem que precisarei de alguns anos pra digerir tudo.

 

* Sou do tipo que chega de viagem e desfaz a mala imediatamente. E, ainda assim, estou há dias tentando colocar as coisas no lugar. De onde surgiu tanto papel a ser anotado e arquivado, tanta roupa pra lavar, tanto objeto sem lugares definidos e tanta decisão pra se tomar?

* Sobre o Fulano: não sei.

* Tenho amiga que já trocou muitas vezes de atividade, e depois se culpa por ter trocado. Ela diz que admira minha persistência com o flamenco. Aí eu digo pra ela: é que tem períodos de mais e menos entusiasmo. Períodos que, de certa forma, eu larguei internamente mas continuo indo. Agora, por exemplo.

 

* Escrever é estar sempre em atraso. Eu falando sobre como era engatinhar e a vida no terceiro emprego. A escrita infantil, edípica, fálica e na vida tudo já foi sublimado faz tempo.

 

* Cada vez mais eu me convenço que a gente muda muito pouco, se é que muda. O que a gente aprende é a se administrar.

Passando frio no interior da Bahia

É óbvio que o clima que está fazendo agora em Jaguarari não chega nem perto do outono curitibano. Ao mesmo tempo, tenho sofrido e reclamado do frio todos os dias desde que cheguei, tenho me sentido a pessoa mais friorenta do mundo, muito mais do que os nativos. Lembro das minhas roupas e consigo pensar numas dez opções diferentes do que poderia vestir agora, dentre meus inúmeros casacos. Agora mesmo, poderia estar usando o meu cardigã de poás coloridos, lenço no pescoço e calça cáqui. Ou se quisesse sair mais menina, poderia usar uma botinha, um dos meus vestidos de inverno, meia fio 40, um casaquinho e um cachecol. O que sei é que em circunstâncias normais, com esse clima, jamais escolheria vestir o que tenho vestido nos últimos dias e essa é a raiz dos meus – e de todo mundo – problemas.

 

O São João é uma data importante e tem show todos as noites na praça principal da cidade, que é aqui do lado – e o que não é do lado de tudo quando estamos numa cidade pequena? As rádios falam do “melhor jegue elétrico do Brasil” (não acho que seja propaganda enganosa) não param de repetir os nomes das bandas especialíssimas que vão tocar, um nome melhor que o outro. Tive o prazer de ver “Bonde do Brasil” e “Desejo de menina” (esse nome!). Só que, como lamentou o meu pai, aqui não se toca mais forró pé de serra, não é mais sanfona e tal, assim como a festa em si lembra mais um carnaval do que uma festa junina.  O que toca aqui é o brega, bem do jeitinho que mostrou na televisão: bandas que todo mundo aqui conhece, entopem os shows, com um tremendo visual, um mundo à parte. Vejo tudo de longe, porque perto do palco é aquela loucura. E danço pulandinho no lugar, com os braços cruzados e as pernas juntas, igual faço quando estou num ponto de ônibus gelado à noite.

 

Nessas noites tem feito pelo menos uns 15 graus. As roupas mais pesadas que eu trouxe foram um moletom fino e uma calça jeans. E pra tentar ficar bonitinha pra sair, uso uma sapatilha de plástico, blusa levinha e manguinha de lã. Morro de frio, morro. Aí vou pra festa e as meninas estão de sandália de tiras, shortinho e transparência. Ou, na versão mais quente, sandália de tiras, calça jeans e transparência. Uma curitibana, no mesmo clima e a céu aberto, usaria pelo menos uma meia calça grossa e um casaco. Esse é o problema aqui, eles não colocam roupa. Acho que o que mais resume a situação foi a gente na varanda toda aberta, ventando, sentados em cadeiras de plástico e minha madrasta estava de chinelos, mini saia, blusa de alcinha e para se esquentar colocou uma caxarrel de lã preta. “Ai que frio” ouço e reclamamos o dia inteiro de havaianas e pernas de fora.

Jegue elétrico

Estou numa casa centenária, no interior da Bahia. Ontem fez um frio do caceta e por pouco não joguei minha dignidade pra cima e saí por aí enrolada numa coberta. Onde já se viu, uma pessoa que saiu de Curitiba a quatro graus, com vontade de chorar (tenho desconfiado que sou uma pessoa chorona. Ainda não tenho certeza) de frio, de saudades dos casacos que deixou em Salvador, em São Paulo e no guarda-roupa de casa. Temi pelas minhas próximas noites, de ter que usar o mesmo moletom e calça jeans durante uma semana, mas agora está mais quentinho.

 

Sabiam que aqui as festas juninas são tão ou mais populares que o carnaval, e que as pessoas viajam para o interior e Salvador fica vazia? Tem venda de camiseta e tudo, semelhante aos abadás. Hoje vi as camisetas das pessoas que estavam aguardando o Jegue-elétrico da cidade de Senhor do Bonfim. Sim, Jegue-elétrico – é um jegue puxando um carro de som. A camiseta custa uns 300 reais e de uma festa Esfrega custa uns 700. Outra curiosidade: em certas cidades a festa mais popular não é o São João e sim o São Pedro, dia 29 de junho?
Enfim, são muitas emoções. Estava morrendo de preguiça de viajar, fui pra São Paulo lamentando minha decisão de não pegar um voo direto, porque eu fazia aquele sacrifício todo ao invés de só ir direto pra Salvador. E assim que entrei no ônibus, entendi. Adoro pegar aquele ônibus, adoro ir pra São Paulo, adoro o metrô, adoro os amigos que se dispõem a me ver, adoro até mesmo a correria. Pensei que isso viraria um texto, assim que cheguei escrevi outro texto, liguei o netbook achando que escrevia um texto sobre a música chata que vem da igreja e concorre com o forró da praça… Mas viagens são assim, acabam nos tirando do prumo. Tenho comido “pão pesado” com uma manteiga maravilhosamente gostosa e que não quero nem imaginar o que está fazendo com o meu colesterol. Ao mesmo tempo, poxa, saudades.