Declarações de afeto

amor

Tenho pudores pra fazer declarações de afeto em público. De um lado, as pessoas soltam “eu te amo” com facilidade, com contatos que tenho tão claro que são circunstanciais que me dá até vergonha. Por outro, tenho alguns amores grandes e importantes e não falo. Minha esperança é que eles sabem, que leem nos meus gestos claríssimos de atenção a sua importância na minha vida. Dizer na cara me constrange, porque qualquer dito profundo e verdadeiro é sempre um momento que impõe silêncio. Pior ainda – seria tão típico! – eu seria capaz de começar a chorar. E falar pro mundo, em posts e comentários, eu acho complicado. É complicado que eu fale de “uma das pessoas que eu mais amo e admiro no mundo” e se eu usar o feminino e você for homem, vai ficar claro que não é você; se eu te falar da pessoa pra você, vai ficar claro que não é você. E saber que existe alguém, que não é você, que eu amo e admiro muito vai doer. Vai sim, nem que seja apenas no orgulho. Nem que você não me ame e admire. Porque é humano, e queremos ser sempre os mais amados e admirados por todos o tempo todo. Quando é o nosso, sabemos que amor é uma fonte que não se esgota, que é possível amar ao mesmo tempo várias pessoas, que o amor de uma nada interfere ou esgota o amor da outra, que é possível até, cafajestamente, amar no sentido apaixonado e sexual várias pessoas ao mesmo tempo, cada uma por seus gestos e qualidades únicos. Mas, quando estamos no outro lado, qualquer amor dado ao outro soa como amor roubado, amor que deveria ser nosso, amor que não existe e deixa uma indiferença fria e vazia. Fora isso, tem os amores que claramente não nos pertencem, e que não nos façam a crueldade de nos jogar na cara – o escritor que viveu no século passado, o crush que voltou com a ex, a professora que nos coloca para dançar no fundo, o amigo que amamos e admiramos e nos não convida para suas festinhas. Não quero ninguém triste no cantinho, que é como me sinto quando vejo essas coisas. Da minha parte, gosto tanto que meus afetos já saíram da esfera de pessoas e animais de estimação e têm se expandido para espíritos, planetas, grãos de café. Vou entender que são todos tímidos, que todos me amam e se declaram na sua atenção e importância pra mim.

Anúncios

Engraçadão

Não rendeu vários posts tal como Newton, mas não faz muito tempo que passei por uma fase João Ubaldo Ribeiro. Nela, li Miséria e grandeza do amor de Benedita. O livro começa com uma longa descrição da ilha de Itaparica. Oras, meu pai atualmente passa mais tempo lá do que em Salvador. Ele arranjou uma casinha numa das micro-cidades da ilha e passa semanas lá, e só volta para Salvador porque tem que resolver a vida. É outra coisa ler um livro que descreve aquilo que você conhece, é outra emoção. Você se vê no lugar, sabe exatamente de que cores e cheiros o lugar é feito. A Suzi, que me emprestou o livro e também é fã do Ubaldo, não sabia o que era um caldo de lambreta, que apenas no livro descobri que tem propriedades afrodisíacas. Ela achou que era como caldo de piranha que comeu no Pantanal – como a piranha tem muita espinha, tem que cozinhar e depois coar. Já eu fui criada comendo lambreta. A lambreta é um marisco cozinhado na água cheia de temperos. Ela deve abrir com o calor, as que não abrem vão fora, nem com alicate daria pra abrir. Lá dentro ela é uma bolinha achatada, cinza e com uma espécie de linguinha de fora. Não é nada bonito. Para servir, as lambretas e o caldo são vertidos numa travessa. Aí você vai conversando, pega uma aqui, outra lá, e no final aquela água salgada que sobra é dá um copo, o tal caldo de lambreta. Confesso que não bebi porque me deu nojinho.

Se eu achei tão legal, imagine para alguém que conhece a ilha ainda mais profundamente, que tem seu coração lá. Lembrei do meu pai na hora, que delícia que seria para ele. Quase mandei uma mensagem falando do livro, da ilha, me ofereceria para mostrar o trecho para ele, etc. Só que eu conheço o meu pai. Tentei várias coisas semelhantes ao longo da vida, várias coisas interessantes, várias informações a serem compartilhados, discussões, interesses, pensamentos. E sempre recebi variações da mesma frase de efeito. No caso do livro do Ubaldo seria:

Eu não preciso ler nada sobre a ilha, estou ocupado demais vivendo-a.

Ele acha isso – essa recusa em ver qualquer coisa sob a alegação de estar vivendo – super engraçado.

 

cachorro aham

 

Depois a gente tem um problema constante, eterno e incontornável de falta de intimidade e ele não entende o porquê.

Newton interno

shy batman

Que introvertido não leria isso sem se identificar com Newton?

Collins divulgou alguns trabalhos de Newton para diversos matemáticos, na Escócia, na França, na Itália. Enviou livros a Newton e apresentou-lhe questões: por exemplo, como calcular a taxa de juros de uma anuidade. Newton enviou-lhe uma fórmula para isso, mas insistiu para que o próprio nome não aparecesse caso ela fosse publicada: “Pois não vejo o que possa haver de desejável na estima pública, caso eu a conquiste e mantenha. Talvez isso viesse a aumentar meu número de conhecidos, algo que me empenho em declinar.”

James Gleick/ Isaac Newton: uma biografia, p.80

Acho que o problema é que todos nós que amamos a solidão gostaríamos de ser Newton. Que nossa recusa em aumentar o número de conhecidos, que a vontade de passar mais tempo trancado em si do que no mundo fosse a gestação de algo grandioso. Eu leio sobre o isolamento de Newton e penso que não poderia ser diferente, que a introversão e a genialidade eram uma coisa só. Pena que a relação entre as duas coisas não pode ser invertida… Eu não produzi nada, então as pessoas se veem no direito de me mandar sair da casca. E como posso justificar para elas – e para mim mesma – que não?

Curtas bobinhos

espacateEu e minha eterna vergonha de comprar vaselina. Comprar camisinha seria mais fácil.

.oOo.

Quando descobri que tinha Guerra e Paz na biblioteca em edição de bolso, estavam lá os volumes 1, 3 e 4. Supus que o 2 estava emprestado e peguei o 1. Quando devolvi o 1, o 2 já havia voltado e peguei o 3. Aí não tive mais tempo de ler, devolvi, peguei de novo e finalmente terminei. O 4 não estava lá. Porra, outro leitor do Guerra e Paz, você quebrou a corrente!

.oOo.

O aparelho. As braquetes não são parte da boca. Ela ressecam, grudam na gengiva e machucam. Aí a gente tem que ficar descolando a boca, enchendo de saliva, passando a língua. Ô trem chato.

.oOo.

Toda noite tenho sentido vontade de tomar chá. A mudança é possível, a humanidade tem jeito sim.

.oOo.

Sobre os piores conselhos possíveis: os meus. Meus conselhos sempre se encaminharão para pés quentinhos, contas pagas e coração tranquilo. E, definitivamente, não é isso o que as pessoas buscam.

Newton pega ninguém

godfreykneller-isaacnewton-1689

Um trecho do wikipedia:

Newton, em seus últimos dias, passou por diversos problemas renais que culminaram com sua morte. No lado mais pessoal, existem biógrafos que afirmam que ele teria morrido virgem.

Falando assim até parece Newton chorava escondido de madrugada porque se sentia muito sozinho. Newton encalhado, frustrado, BV (boca virgem). Ah, parem. Assim somos nós, eu e você – quem manda a gente pensar em sexo, por isso que não descobrimos lei nenhuma. Pra mim é claramente incompatível, por pura falta de tempo e energia, que Newton tivesse as mesmas preocupações e frustrações que o homem comum. Sabiam que ele furou o próprio olho num experimento cientifico? Ele queria entender, queria saber se funcionava como uma lente. Claro que ele perdeu a visão daquele olho. Agora me diz se uma pessoa que tão ansiosa pelo funcionamento do olho é capaz de furar o seu próprio é normal, mediana.

Ele era humano, então não me arrisco a crer que ele fosse totalmente indiferente. Mas pense comigo, ou como ele: Newton obteve reconhecimento ainda em vida. Tinha prestígio, dinheiro, até que era bonitão, ou seja, devia ser bom partido. Não devia ser lá muito sedutor e bom de papo, mas naquela época isso não era pré-requisito. Claro que arranjaria facilmente uma esposa, bastava se propor. Acho que o problema se apresentou para ele da seguinte forma: se eu arranjar uma mulher, ela vai precisar de atenção. Ao invés de passar doze horas por dia fazendo minhas coisas, terei que dispensar algumas com ela. Terei que jantar na mesa. Terei que reparar no vestido, falar coisas bonitas e  – horror dos horrores – ter vida social. O pobre Newton aflito para calcular a mecânica celeste enquanto segura um canapé e ouve o sogro falar sobre galgos. Eu, que não penso nada importante, fico angustiada só de imaginar. Aí Newton decidiu que não era viável e afastou o pensamento, pronto.

 

Borboletismo

1616180

Adoro ficção científica. Do Star Wars que todo mundo conhece a Asimov, Arthur Clark. Recentemente comecei a assistir Cosmos; minha geração viu o original do Carl Sagan na TV, mas por algum motivo nunca vimos na minha casa. Acho que nunca calhou de mudarmos a TV naquele horário, não sei. Dizem que o original tem uma beleza e carisma diferentes, mas a versão nova também tem sua graça e os efeitos especiais sem dúvida melhoraram muito. Gosto muito das biografias que o programa apresenta, me emociono bestamente. Tinha ouvido falar e tal, mas até assistir os programas eu nunca tinha entendido direito o quão grande foi Isaac Newton. Li uma frase há poucos dias na revista Caras, que dizia algo como “Não podemos desejar aquilo que não conhecemos” e Newton foi aquele que criou do zero os sonhos que os séculos posteriores se dedicariam a desvendar. Voltei a sentir algo muito antigo, um sentimento que criança expressa com um “quero ser cientista”, que nada mais é do que o desejo de olhar para o mundo com tal encantamento que o aparentemente banal gere em mim uma questão sobre o próprio segredo do universo. Newton e outros cientistas fazem com que eu me sinta pequena de um jeito bom. Só vendo Cosmos eu percebi que o que busco na ficção científica é justamente essa pequeneza. Não temos mais, como o próprio programa disse, a visão do céu estrelado. Num mundo onde a imensidão é apenas o que vemos das janelas dos prédios, a ficção científica nos lembra que existem medidas maiores do que qualquer capacidade de olhar. Existe um mundo maior do que nossa vida, nossa família, nossa cultura, nosso país, tudo o que um dia vimos ou provamos. Nossa tão grande Terra é pequena perto dos planetas vizinhos, que não são nada diante do sol, que dentro da Via Láctea… É tão maior do que o maior, chega um momento que você sabe que aquilo se tornou apenas um número porque a mente humana não consegue fazer tal projeção. O que me leva a pensar: será que existe um tipo de Cosmonismo, considerar o próprio universo como um Deus? Pra mim faria sentido. Gosto de relembrar que a humanidade inteira representa alguns segundos nessa grande história da qual a Terra nem é protagonista. Nós que achamos que a borboleta tem uma vida curta somos nada mais do que outro tipo de borboleta. Desse ponto de vista, a vida humana é tão efêmera, tão sem importância. Ao mesmo tempo, ela é feita de desejos e de uma consciência de si tão aguda, de sonhos que se acreditam enormes, de uma vontade de eternidade. Isso me faz olhar para qualquer atrapalho da minha vida e perceber o seu grau de desimportância. Me dá um amor ainda maior por esse pequeno borboletismo – que meu pouco tempo aqui seja o melhor. Quero ser Isaac Newton e

Não sei como o mundo me vê, mas eu me sinto como um garoto brincando na praia, contente em achar aqui e ali, uma pedra mais lisa ou uma concha mais bonita, mas tendo sempre diante de mim, ainda por descobrir, o grande oceano de verdades.

Uns mais iguais

1429297162_shopping-mall2

-… maldita Bolsa Família. Ninguém mais quer trabalhar, pra quê trabalhar? Está muito difícil arranjar funcionário hoje em dia, não compensa mais.

– Eu tenho uma amiga que tem loja em shopping e ela disse que está muito difícil. Você contrata uma pessoa, treina, aí depois de um tempo aparece uma oportunidade em que ela vai ganhar pouca coisa a mais, e ela vai, só pra não ter que trabalhar no fim de semana.

Aí eu não aguentei:

– Eu também trocaria de emprego por um que não precisasse trabalhar nos fins de semana…

– Ahhhhh, mas é diferente! Você é diferente, estamos falando deles.

Em busca do céu

221449_papel-de-parede-arvores-221449_1600x1200

A ansiedade vinha tão forte, de baixo para cima, que parecia um vômito, e ao invés de sair pela garganta se plantava no coração e parecia que a única saída era morrer. Continuar vivendo nos próximos minutos era insuportável, o que dirá uma vida inteira. Porque a não ser que eu tivesse a sorte (!) de sofrer um acidente fatal, pelo menos mais uns quarenta anos mais eu viveria. Qualquer coisa que eu pensasse me parecia angustiante demais. Como ir adiante, como acordar cedo na manhã seguinte, como levantar da cama, como falar com as pessoas, como fazer coisas? Tudo tinha o sabor de cinza, nada era capaz de me dar prazer. Só então eu realmente entendi o que é depressão, crise de pânico, transtornos psiquiátricos. Eu não tomei nenhum remédio, só floral, mas entendo perfeitamente quem toma. Não tomei porque dentro de mim havia a lembrança de quem eu era, e eu sabia que podia voltar a ser aquela pessoa. Mas nem tudo foi coragem o tempo todo. O que me impediu nos momentos de desespero foi saber que tarja preta leva pelo menos uns quinze dias para começar a fazer efeito. “Eu preciso agora, quero parar de sofrer neste minuto, quero uma paulada na cabeça. Daqui há quinze dias já vai ter passado. Lembro especialmente de uma crise que me deu no terminal, voltando da aula de flamenco, tarde da noite. Eu não apenas me sentia sozinha, eu estava sozinha. Naquela hora, mesmo com toda boa vontade, eu não conseguiria um amigo pra me ajudar. “Calma, está tudo bem. Respira”, eu tive que dizer pra mim mesma. Olhei à minha volta, olhei para o céu. “Está tudo calmo. Não importa o que aconteceu antes, não importa o que vai acontecer depois. Você está no terminal, de pé, a noite está agradável”. Naquele período eu percebi que olhava sempre para baixo, ou nem ao menos realmente olhava para o que estava olhando. “Você não tem nenhum problema. Não agora, não neste momento. Você está apenas de pé no terminal. Esquece o resto”. Eu descobri que quando vinham as crises, eu nunca estava onde realmente estava, meus pensamentos estavam em outros lugares. Para estar mais presente, eu passei a me obrigar a olhar para cima. “Olha que vento gostoso, olha como ele balança aquelas folhas”. Simbolicamente é tão simples e eu senti na carne: olhar para baixo e para si, o pequeno, o sem perspectiva; olhar para o horizonte, o longe, amplo e cheio de possibilidades. “Olhe à sua volta. Está tudo bem”. Naquela noite, antes que o ônibus chegasse, eu já havia conseguido me acalmar. Outras crises vieram, em intervalos de tempo cada vez maiores e com cada vez menos força. E como não quero sentir aquilo nunca mais, estou sempre olhando pro céu.

No vuelan

Eu não diria que é uma dor, não uma dor no sentido de dizer Ai, uma pontada ou uma pequena morte. É um incômodo, um não esquecer nunca, uma vontade de arrancar com a mão. Semanas e semanas tendo que fazer a parte chata da vida adulta de ter que ser responsável, reivindicar, correr atrás, tira dinheiro daqui e coloca em acolá. Me vinha à cabeça o dito que a vida adulta vale a pena somente pela permissão que temos de beber álcool e fazer sexo – eu me repetia, então, que diabos estou fazendo, já que não tenho praticado nenhum dos dois. Agora, espero sinceramente, a coisa está se acalmando, e tomara que suma a sensação crescente de que a passagem dos anos é como naqueles filmes que os protagonistas ficam presos entrem paredes que não param de se aproximar. Quase todos os dias me proponho a continuar o Guerra e Paz, mudo de lugar, coloco na bolsa, mas só tenho mesmo levado o livro para fazer turismo. Enquanto isso a amiga ainda vai casar e quer confirmação, as alfaces precisam ser colocadas de molho antes que eu possa comê-las e o mundo insiste em ignorar meus sábios conselhos, que dirá as minhas dores. Mesmo com o incômodo do aparelho, o arrasto fora da cama quando o alarme toca, as disputas insanas entre coxinhas e petralhas, eu quero escrever. Não tenho saco, não tenho inspiração, não tenho tempo, tenho dor e solidão. Tenho dúvidas e lentidão, choro vendo Cosmos e me sinto insuficiente. Mas um dia eu sei que nem vou conseguir lembrar de nada disso que hoje me espreme tanto. Que não vou entender o que havia de tão difícil num conjunto de telefonemas, caras feias e contas que se renovam mês a mês. Eu quero e preciso escrever, nem que seja apenas para justificar todo meu desajuste social. A vida não espera e a gente precisa fazer o nosso com e apesar de tudo.

no vuelan

Uma contribuição

coala espantado

A Rafa estava sem dinheiro na carteira, ninguém precisa ter dinheiro na carteira hoje em dia. Aí se aproximou dela uma moça vestida de roupas laranja, que falou de sua instituição religiosa, aquela história toda. A Rafa ouviu com paciência e aquele coração limpo que apenas quem tem uma boa desculpa na manga é capaz de sentir diante dessas situações. Depois de toda fala, veio o inevitável pedido de contribuição:

-Eu adoraria, mas estou sem dinheiro na carteira – e mostrou a carteira vazia.

-Não tem problema! – a mulher sacou uma maquininha de cartão da pochete.

Rafa fez a mesma cara que o coala e pagou.

.oOo.

Não ia contar essa, porque não é engraçada, mas vai que ajuda outros. Estava em casa e me ligou uma moça muito educada, que me falou da instituição Tal, que trabalha com necessitados, aquela história toda de novo. No final, me pediu se por acaso eu não teria 24 reais para ajudar este mês e com esse dinheiro ajudar a salvar blablablá. Eu lhe disse: “A gente tem que escolher como e quem ajudar e eu concentro as minhas colaborações no Hospital Evangélico”. O que ela fez? Passou a pedir 12 reais, acompanhado da chantagem de “será que vai pesar tanto assim no seu orçamento dispor apenas este mês de 12 reais para ajudar blablablá?”. Acho um absurdo aplicar esse tipo de técnica para fazer com que a pessoa se sinta mal e doar. “Eu já lhe respondi sobre a minha contribuição, não quero insistir nesse assunto e desligarei o telefone agora, ligue para outra pessoa”.

Minha foto ga(s)ta

avatar macanudo

Evidentemente, esta não é a foto gata.

Para impressionar o meu crush, ganhei uma foto gata. E ao ganhar a foto gata, ouvi que era difícil me fotografar por causa do meu cabelo. Eu já sabia: meus fios brancos ficam muito brancos em fotos. Eles se concentram na parte da frente, na moldura do rosto. Dependendo da luz parece que o meu cabelo está todo branco; e eu fico “parecendo uma velha”.  Eu tinha que impressionar, eu tinha que ficar gata, eu tinha que… Minha filosofia no que diz respeito a conquista sempre foi o que eu escrevia no Caminhante responde questões esdruxulas: “Seja uma pessoa legal para homens, mulheres, cachorros, aliens. O resto vem naturalmente”. A internet é um perigo de se levar à sério, tem gente que não entende nada de nada e se arrisca a dar conselhos sobre o que não conhece. É o meu caso. Não sei se vem conquistar alguém naturalmente. Eu sou uma teimosa que insiste em seguir a vida ao invés de procurar um par. A tentativa de impressionar o crush falhou, e nela eu senti o quanto na verdade eu sou insegura. Olho pra ele debaixo pra cima, penso que é muita areia pro meu caminhãozinho, me recuso a me aproximar. Talvez eu realmente ficasse mais bonita se pintasse o cabelo. Um cabelo liso que eu deixo curto e ainda por cima faço cachinhos, tudo ao contrário. Eu escolhi deixar meu cabelo assim, é mais prático pra mim, eu gosto. Nunca me perguntei qual o efeito dele sobre o sexo oposto. Nem o efeito das minhas piadas, de estar sempre de tênis, de pintar as unhas de cores diferentes, de andar de bike… Meu crush não me adicionou mesmo com foto gata, mesmo disfarçando os brancos. Pena. O cabelo branco, atualmente, faz parte do pacote.

Girafa 5

aparelho-ortodontico

A referência à girafa vem daqui.

Está chegando a hora. Em poucos dias falarei com o orto, que me prometeu uma longa conversa sobre as minhas alternativas de retratamento quando eu voltasse. Eu não sinto dor, mas sinto realmente o meu canino direito sendo pressionado para cima e mastigo quase nada desse lado. Não é o mesmo grau de motivação com que coloquei aparelho pela primeira vez – décadas de espera até o tratamento ficar acessível para mim, dentes da frente tortos e encavalados, uma lista de problemas. Meu antigo orto não era bom, mas tenho que reconhecer que trabalhamos. Arranquei dentes, coloquei banda, dormi com aquele “freio de burro”, elásticos de Mun-ra, fiz de tudo. Naquela época me disseram que no começo eu iria estranhar um pouco, mas que depois me acostumaria de um jeito que nem ia querer tirar o aparelho, ia começar a achar bonito. Não sei como é pros outros, mas eu lembro que detestei minha aparência todos os dias durante os três anos que usei aquele troço.

Mas.

Quando realmente penso nisso, tudo me parece uma grande bobagem. O aperto financeiro, o incômodo nos dentes, eu me sentir feia, nada é o fim do mundo. Não é o ideal, não é o que planejei… mas tudo bem. Vou reclamar muito, como é de direito – e vai passar. Seis meses, um ano (quero crer que não vai ser muito mais do que isso), parecem muito quando a gente projeta um futuro e quando olha pro lado já foi. Talvez seja idade, cansaço, um tico de sabedoria, tudo junto. Problema mesmo é não poder colocar. Que venha o aparelho.

Curtas sobre comprar roupas

tc3aanisTenho uma amiga que acha que eu tenho “estilo”, e diz que gostaria que eu a acompanhasse quando ela fosse comprar roupas, para dar minha assessoria. Olha, se eu pudesse, eu não me levaria pra comprar roupas pra mim, quanto mais para os outros.

.oOo.

Já disse que tenho temperamento TOC, então o que ela provavelmente chama de estilo são minhas obsessões – um código inconfesso de implicâncias que inviabilizam certas escolhas. Que o diga o meu ex, que costumava dormir no sofá das lojas quando eu precisava comprar jeans. Eu experimentava todos os modelos da loja  – 30, 40? – pra escolher uma. Isso se gostasse.

.oOo.

Meu problema é que não compro mais ou menos, a roupa precisa me agradar em todos os itens. E com o passar dos anos, a lista só aumenta. Antes, bastava o tamanho estar certo. Agora tem que ter bom caimento, manifestar o meu eu mais interior, combinar como que eu tenho no guarda-roupa, ser atemporal, verde jamais, tem caber no orçamento, ser adequada à minha rotina, ficar bem no meu tipo físico…

.oOo.

Levei muitos anos sem comprar tênis – e praticamente só uso tênis. Antes minha mãe comprava pra mim, o que era fácil porque bastava ela experimentar e comprar um número maior. Depois meu (ex)marido passou a comprar, porque minha capacidade de enxergar a beleza interior de um tênis despencando parece ser infinita. Há pouco decidi me livrar de um que eu amava, uma cópia de All Star de cano alto preto com franjinhas. Enquanto ele furou embaixo, o segredo era não usar nos dias de chuva. Agora começou a descolar da sola. Pena.

.oOo.

Uma regra que procuro seguir, e talvez ela seja a minha única contribuição realmente valiosa em termos de moda: não ter no guarda-roupa peças que te embarassem de alguma forma. Se a roupa não cai lá muito bem, ou é meio breguinha, ou é feia mas tãããão confortável, o melhor é se livrar dela. Senão a gente usa. Comprei impulsivamente uma bolsa feita de calça jeans que está indo pra doação. Alias, já falei que também odeio comprar bolsa?

.oOo.

Adoraria que não apenas comprassem tênis pra mim: meu ideal seria que me vestissem.

Um conselho sobre uma paixão no divã

internapautafilmeprada002

De acordo com ela, o psi se entregou porque numa sessão ela comentou de uma música obscura de uma banda mais obscura ainda, e na sessão seguinte ele citou uma outra música da mesma banda, o que mostrou que ele anotou, pesquisou em casa e também ouviu. Foi a demonstração que faltava para se convencer de que o psi estava interessado nela. O que eu faço, ela me perguntou. Eu tenho uma teoria sobre ser confidente (e, por consequência, conselheira): o bom confidente é aquele que não gosta de ouvir confidências. Nunca pergunto, e depois que sei, nunca me interesso em voltar ao assunto e nem ouvir o final da história. Eu não quero ouvir segredos e os segredos que pulam na minha frente. Mas já que fui colocada nessa posição, tive que perguntar se, caso sim, o que ela sentia por ele. Sua resposta foi um vago “ele é legal, bonitinho, a idade regula”. Meu conselho foi algo que hoje faz com que eu me sinta meio Violet Crawley, mas fez sentido pra ela, que me agradeceu e disse que foi mesmo a melhor escolha. Eu lhe disse: então não vá. Porque um cara legal e bonitinho pra ter um caso você encontra facilmente, já um bom psicólogo…

Cultura

brinquedos_g

Uma criança cercada dos mais variados brinquedos – é assim que eu entendo uma mente culta. Ao invés de ter apenas uma bola e uma boneca, melhor ainda é possuir todos os brinquedos possíveis, com diversas funções, cores, tipos, tamanhos. Para mim a cultura é uma diversão, é como estender a mão e poder pegar um brinquedo diferente para cada coisa, às vezes mais de um, ou fazer com eles as combinações mais inusitadas. Conversar com uma pessoa que não entende os referenciais é sempre triste, é como propor uma brincadeira e o outro não conhecer, não possuir a chave. Há os que gostam disso, porque isso lhes dá a oportunidade de explicar e serem pedantes. Para mim é apenas chato, apenas menos uma pessoa para brincar.  O bom é trocar e perceber quão infinitos os brinquedos são.