Lanchinho

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Uma vez eu conheci um ex-blogueiro, que me disse que comeu muita mulher por causa do blog – o que logo de início de conversa me deixou bem complexada, porque nunca tive um encontro amoroso por causa do blog. Ele já não escrevia há anos e, com alguma resistência, me mandou o link. Foi interessante, porque também me vi com vontade de procurá-lo, marcar um encontro, ver no que ia dar. Só que o que ia dar, no caso dele, era sempre transformar a moça em lanchinho. Ninguém, nunca, há anos, era mais do que lanchinho. Pude ver o contraste e imaginei a frustração de algumas daquelas mulheres. O blog mostrava um homem muito amoroso. Havia textos emocionantes sobre os pais, proximidade e orgulho dos filhos, como foi levar a primeira filha para o altar. O que a gente queria, quando lia os textos, não era exatamente dar pra ele – o bom seria fazer parte daquela vida, daquela família, de todo aquele amor. Que ele também lesse nos meus gestos coisas que ninguém nota, que sentisse saudades. Mas só com o convívio a gente descobria que o amor descrito no blog era apenas e tão somente para aqueles familiares, ele não deixava entrar mais ninguém. Mulher, só lanchinho. Convicto, feliz, sexo sem vínculo. Por isso que a gente diz, e repete, e tenta de novo, precisa ser relembrado: escrita é sempre mentirosa, mesmo quando a pessoa fala a verdade.

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Todo mundo não existe

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Aprendi isso em terapia: todo mundo não existe. A não ser que você tenha tido um vídeo íntimo vazado e esteja sofrendo de bullying em cadeia nacional, não existe o “todo mundo” que pensa ou sente algo a teu respeito. Os funcionários da padaria, o pessoal do ponto de ônibus, o motorista do carro ao lado, ou seja, pra maioria da população você nem ao menos existe. Aí você diminui para as poucas pessoas com quem convive, elimina as que não estão envolvidas na situação, coloca também aquelas que te amam e estão do seu lado, corta de um lado e corta de outro e acaba descobrindo que o tal “todo mundo” se reduz a um círculo muito pequeno de pessoas, às vezes nem isso. Pode ser que seja apenas uma pessoa e ela seja tão poderosa que o seu juízo pese mais do que “todo mundo”. Um conselho fácil de dar e às vezes difícil de aplicar: não dê poder a quem te fere.

O brilho secreto

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Quando aquele cara que eu considerava meio louco – e não no bom sentido – me falou com muita seriedade que disseram que ele tinha um tipo de mediunidade especial, que ele não é qualquer um, não pude deixar de sorrir por dentro. Acho que todo mundo já ouviu, de alguma fonte fidedigna, que somos especiais. Não digo aquele amplo, no sentido que todo mundo é filho de Deus, e sim um “VOCÊ, apenas você é assim”. Num caso muito angustiante que eu conheço, Ela desde sempre foi criada numa redoma, com mimos fora da  sua realidade e que claramente terminariam no início da vida adulta. Todo mundo tentou fazer alguma coisa, alertaram e ofereceram caminhos, mas ela nunca aceitou. Minha teoria é que, no fundo, Ela achou que seria salva – tudo aquilo era ela, lhe pertencia por direito, jamais lhe seria tirado. De uma maneira ou de outra, daria certo. Quem sabe um dia, andando por aí, ela conhecesse um homem rico e… Acho que é a união da crença do brilho secreto com a cultura do casamento que que torna as mulheres tão vulneráveis aos cafas: quando um homem no primeiro encontro já declara amor eterno, um lado diz que é impossível, rápido demais – mas o outro lado pensa: “quem disse que não é possível? Não é possível para os outros. Ele está dizendo isso porque me olhou por dentro, como ninguém nunca olhou, e o que tem lá é único e especial mesmo”. No início do documentário sobre Vivien Mayer, surge a pergunta: por que uma fotógrafa tão talentosa não correu atrás e não mostrou seu trabalho ao mundo? Eu acho que justamente por se saber tão boa é que ela não correu tanto atrás. O trabalho dela falaria por si. Eu tive essa ilusão quando esculpia. Todo mundo crê no brilho secreto, uns mais, outros menos – e talvez seja melhor fazer parte do time do menos, porque eles ficam inseguros e se mexem. Senão, ficamos na esperança de que um dia seremos descobertos e essa outra alma sensível vai nos tirar daqui – através de casamento, emprego ou galeria -, no meio desse lugar medíocre onde estamos por puro acidente.

Platônico, viu!?

Eu me refiro a ele como “minha paixão platônica” porque realmente não sei o nome do Fulano. E chamar de paixão é claro que é um exagero. Eu acho ele bonito, e tem alguma coisa no olhar dele que me faz ter vontade de conhecê-lo. A vida fica mais divertida quando criamos novelinhas, quando um lugar não é apenas um lugar que vamos por obrigação, e sim onde acontece alguma coisa. Ele é isso, minha novelinha. Penso se vou vê-lo, reparo onde ele está, o que está fazendo. Eu me pergunto, através dos poucos ou quase nada de dados que tenho, se ele gosta de rock, de carros, se trabalha na área médica.
Eis que fiz essa brincadeirinha de sempre, de buscá-lo com o olhar quando cheguei e tal. Estou conversando com uma amiga, e nos poucos segundos que nossas existências se cruzam ele fez algo que nem entendi direito, porque vi de rabo de olho. Ele veio na minha direção mais do que o necessário, digamos assim. Eu gelei. Acho que movi as engrenagens e essa não era minha intenção.
Não quero conhecer minha paixão platônica. Não quero descobrir que ele joga a culpa de tudo no PT, é torcedor fanático ou que tem filhos. Ô Fulano, ponha-se no seu lugar!

Apaixonada

Foi assim: um dia a gente veio andando juntos da igreja até o meu prédio. Estava frio e ele me ofereceu o casaco dele! Ele foi muito gentil, foi uma noite muito especial. Depois ficamos uns minutos conversando na frente da portaria. Eu devolvi o casaco dele e depois disso nos vimos algumas vezes na igreja; nos cumprimentavamos, conversavamos em meio a outras pessoas. Nós trocamos alguns e-mails e é aí que eu acho que estraguei tudo. Eu mandei uma notícia pra ele de um casal de velhinhos que* … e ele me respondeu dizendo que não concordava. Eu respondi dizendo que achava certo; foi uma pequena discussão virtual. Desde então nós só nos vimos de longe algumas vezes, ele viajou, eu fiquei um tempo sem ir na igreja… Eu sempre mando e-mail de mensagens e não sei se ele lê, ele nunca me manda nada. Daquela conversa do casaco até hoje já se passou quase um ano. Não sei se eu ainda tenho chances, se ele já me esqueceu… Estou pensando em ligar pro celular dele. Vou arranjar um pretexto, falar de uma oportunidade profissional. Quero ver qual vai ser a reação dele ao ouvir meu nome.

Às vezes a verdade é tão óbvia que é rude dizê-la.

*não lembro dessa parte da história

Arrumar a casa

Quando a gente está para se mudar, tem a ilusão de que a compra das coisas para casa será programada. Que a cada mês colocará os móveis, de acordo com a prioridade. Que comtempo e bom gosto terá, em pouco tempo, a casa dos sonhos. Doce, muito doce ilusão.

Moro aqui há 3 anos. E continuo acampada. Meus livros estão dentro de caixas. Minha roupa de cama dentro de caixas. Tudo bem, caixas de plástico transparente, mas ainda assim caixas. Cada vez que tenho vontade de ler algum livro da minha biblioteca, penso muuuuuitas vezes! Isso sem falar nas roupas em araras, dos móveis (mofantes e mau projetados) que herdamos dos meus sogros, das coisas que não tem lugares certos e ficam empilhadas no chão.

Prometi a mim mesma melhorar um pouco essa situação agora nas férias. Já pintei umas paredinhas. Vamos ver o que é possível fazer com sérias restrições orçamentárias!