Um sonho bastante vívido

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Tive esse sonho há dez anos. Sei bem porque na época eu estava fazendo balé e a cena teria acontecido bem na rua da escola. É uma rua perigosa no centro da cidade, com bares e prostitutas. No sonho ela estava vazia, como se o dia estivesse nascendo. Estou perto da escola e na outra ponta da rua, andando em minha direção, vejo um homem de terno branco e chapéu. Ele vem com um passo suave e ele é muito elegante e bonito. Só que quando o olho dentro dos seus olhos negros, o que chama a minha atenção é a tristeza profunda que há dentro deles. Era uma tristeza tão grande que me atravessa e não consigo imaginar em que dor é capaz de machucar tanto. Ele continua andando e, à medida que se aproxima, percebo que sua pele é muito fina, tão fina que na verdade é transparente. Mais de perto, ele é apenas uma esqueleto com o paletó flutuando. Ele vai chegando tão perto de mim que seu rosto cola no meu, e quando vai me atravessar eu sinto uma mão na minha coxa. Era a do meu marido, dormindo ao meu lado, e acordo num susto.

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Dois flagras sobre dois

O tubo que fica na favela é um verdadeiro point. Não apenas pelo bar que abriu bem na frente há pouco tempo. Mesmo sem o bar, as pessoas costumam se reunir lá em grupos e ficar conversando. Geralmente com cerveja, às vezes uma moça ou outra, e sempre com o cobrador . Naquela noite tudo estava em silêncio e vazio, então não pude deixar de procurar as pessoas com o olhar, de dentro do ônibus. Aí eu vi que haviam apenas duas pessoas por ali, quase em frente ao tubo: o cobrador e uma moça. Eles estavam em silêncio. Ela tinha o cabelo longo e claro, que descia em poucos cachos bem desenhados nas pontas. Estava usando um vestido curto, de alcinha, que valorizava seu colo grande, ficava bem solto por cima da barriga e deixava as pernas finas à mostra. Nos pés, um saltinho. No rosto, uma maquiagem suave e um batom rosa que deixavam seu rosto ainda mais juvenil. O cobrador, de uniforme, a observava de perfil. Ele já tinha mais de quarenta e uma barriguinha. Naquela altura já estava claro para mim que o tubo estava vazio para eles. Ela olhava para o horizonte, impaciente, batendo os pés. Aquele silêncio, aquele impasse, aquele biquinho – será que ele disse algo de errado, será que ignorava que ela estava lá, toda arrumada, só para ele? Meu ônibus se afastou e tive que quase me pendurar na janela para ver: sem dizer nada, o cobrador a enlaçou e eles se beijaram.

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Era estranho. Estar ali, na casa dele. Se fosse há poucas semanas, era um lugar que ela podia ir entrando, tirando o sapato, a roupa. Uma conversa impensada, uma crise de ciúmes incontrolável e tudo havia acabado de maneira… estranha. Acabou porque ela teve ciúmes e teoricamente não teria, porque o acordo que ela tinha proposto não previa ciúmes, muito pelo contrário, mas com o tempo a coisa mudou pra ela, que se apaixonou, e o namoro virou realmente um namoro, por mais que eles não tivessem re-conversado, porque ela achou que não precisava, não estava óbvio? Não, não estava. Então era estranho – ela no apartamento dele, conversando sobre o mesmo livro que começaram quando namoravam, tão íntimos e ao mesmo tempo não mais. Ela com vontade de pedir para voltar ao que era antes, mas ela já pediu e seria tão constrangedor levar outro não. Horas de conversa inocente, ele sem dar a menor abertura, ela com cada vez menos coragem e vontade. Aí, no meio de uma conversa na cozinha, ele abre a geladeira e lhe estende uma couve. “Pega, comprei pra você”. Semanas depois do fim do namoro e ele havia lembrado dela na feira. Na feira de sábado, que ele ia sozinho, e comprava coisas para os dois. Uma couve orgânica a mais na geladeira dele, esperando e certa do próximo encontro. Ela não resistiu e lhe abraçou, e pediu de novo. E ele novamente disse não.

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Sdds Obama

A sucessão presidencial dos EUA me preocupa. Vocês já pararam pra pensar que o Obama vai embora? Ele vai voltar a ser uma pessoa comum, não vamos mais ter notícias dele, vê-lo sorrir, estar a par do que ele está fazendo – a não ser que façam um Os Obamas (quero!). Sem querer ser pessimista mas já sendo: nunca mais teremos um presidente – nos EUA ou em qualquer país que nos invada culturalmente – tão carismático. Que outro presidente vai treinar fala no espelho, ligar pra mamães ou fazer o bebê parar de chorar? Tudo marketing, você vai dizer, e eu digo que sim, mas podem tentar essa estratégia com outros e não vai tão ser legal. Ou quem mais vai ter uma primeira dama com tanto suingue e que fica enciumada? Conhecem a história da tatuagem da filha deles? Melhor estratégia evah! Obama não proíbe as filhas de fazerem tatuagem, apenas…

– O que eu disse para as meninas foi: “Se vocês, alguma vez, decidirem que vão fazer uma tatuagem, mamãe e eu teremos exatamente a mesma tatuagem, no mesmo lugar. E iremos ao YouTube e a mostraremos como uma tatuagem da família”.

Este vídeo é uma graça. Duvido ser capaz de vê-lo sem sorrir:

Curtas de é sério isso?

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Sim, tudo pretexto pra usar essa foto maravilhosa.

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Fui puxar papo com a mocinha do caixa da padaria. Ela tinha várias tatuagens coloridas num braço e uma Frida em preto e branco no outro. Perguntei se ela ia colorir a Frida também e a mocinha fechou a cara. Conversei com uma amiga e descobri algo importante: jamais pergunte se uma tatuagem preto e branca vai ficar colorida. Aparentemente todo mundo pergunta isso e é um saco. Nem toda tatuagem ficará colorida, óquei?

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Como classificar quando você insiste em marcar um café com uma amiga que diz que te ama, só porque sabe que ela vai ter que inventar uma boa desculpa?

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Dia desses cheguei em casa carregada de compras. Havia um carro quase enfiado na garagem. Fiquei preocupada, achando que era alguma má notícia que teria que ser dada pessoalmente. Cumprimentei a moça no carro, que me virou a cara. “O que você está fazendo estacionada na minha garagem?” “Oh, meu Deus, é sua garagem? É que eu estava esperando meu filho (sair da clínica do vizinho). Quer que eu tire meu carro?”. Deveria ter aproveitado e oferecido um chá.

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Com muito pesar, estou bebendo a última Gengibirra da minha adega. Meu supermercado parou de vendê-la. Não sei o que farei do meu vício. Eu subiria o morro pra comprar Gengibirra. Me sinto uma alcoólatra em pleno anos 20.

Um pequeno dilema moral

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Perdi meu cadeado de segredo na academia. Levei tempo pra perceber, falei com a faxineira quase uma semana depois. “Um de segredo? Achei sim, está no meu armário”. Ela me traz um cinza e o meu era preto. “Fica pra você, está perdido mesmo.” “Ah, nem daria, é um cadeado de segredo”. “O segredo é” e me diz a sequencia de números. Será que fico com o cadeado alheio perdido ou compro outro?

Ela leu a tentação nos meus olhos e prometeu: “Guardarei mais alguns dias. Se ninguém reclamar, é seu”.

Duas vivências que determinaram minha concepção de beleza

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Quando começaram a aparecer shorts nas vitrines de Curitiba, eu jurei que aqui essa moda não pegaria. Quem está ou esteve aqui há pelo menos vinte anos entende o que estou dizendo. O verão nunca ultrapassava os 25º C e nem os panos subiam mais do que um palmo acima do joelho. Esse comprimento, em público, já fazia as mulheres receberem tantos e tão insistentes olhares que era quase como sair nua. Com uma cidade tão fria, nos dois sentidos, é muito fácil manter uma moral muito mais pudica em relação a cobrir os corpos. Me parece que aqui, mais do que em outros lugares, se leva muito mais à sério a imposição de esconder todo corpo que não segue o Padrão Ego. Uso uns sunquinis enormes pra nadar; eu diria que a diferença deles pros maiôs é apenas que mostro umbigo. Mesmo assim, sou a Leila Diniz da minha escola – “você é aquela moça que nada de biquini, né?” Esse meu hábito já me fez passar por alguns episódios desagradáveis: passaram “por acaso” a mão em mim algumas vezes, me comeram com os olhos de maneira bastante ostensiva, fui abordada por homem casado. Pela lógica deles, se eu fosse mulher séria não estava mostrando, né? Outra visão é a de que eu mostro porque “estou podendo”. O que há por detrás da minha atitude – e que ninguém entende – são duas vivências determinantes na minha forma de entender o assunto:

Lembrança 1: Estou cercada de pessoas, praticamente todas mais bronzeadas do que eu. Sou um pontinho branco – ou bastante vermelho, no espaço de algumas horas – no meio da multidão. Homens e mulheres passam por mim com poucos panos coloridos cobrindo seus corpos. Algumas estão na areia, pegando ainda mais sol, o que chega a ser aflitivo; outras estão no mar, jogando frescobol, conversando com amigos ou cuidando dos filhos. Algumas dessas mulheres são mulatas incríveis, com corpos tão lindos e tentadores que nos fazem entender a mística em torno delas. Também com panos poucos coloridos, passa por mim a vovó, que tem o corpo todo marcado pelo tempo. Lá vem correndo a menina barrigudinha, seguida pela sua mãe, que tem o corpo diferente da pré-adolescente, que não se parece nada com a quarentona. Tem mulher de seio pequeno que mal segura o top, mulheres de quadris enormes, mulheres com pelos loiros, mulheres, enfim, variados tipos, idades e histórias de corpos. Todas estão curtindo a sua praia. Todas estão de biquíni.

Lembrança 2: Olho para as pessoas – ao cruzarem comigo na ruas, conversando entre si nos ônibus, dando entrevistas na TV, almoçando em restaurantes por quilo, atendendo o telefone no balcão da loja – e tenho vontade de pedir que posem para mim. De tanto passar o dia inteiro esculpindo e estudando a anatomia humana, as pessoas se tornaram modeláveis para mim e tenho a impressão de que todos têm corpos de barro que podem ser mexidos e acrescentados. Como se apenas um gesto no local e profundidade certos fossem capazes de alterar peles e músculos. Só que os corpos que me chamam atenção não são os que comumente se considera belos, ao contrário: o corpo liso e jovem é sem graça, é uma folha sem linhas. Nos corpos de plástica é pior, pois vejo a ação do bisturi, que não respeita proporções, tira demais e uniformiza.  Os corpos que tenho vontade de eternizar são aqueles que me dão histórias num simples olhar. Vejo nobreza em rostos enrugados, mãos fortes que sustentam o mundo, quadris acolhedores, ingenuidade em lábios repuxados pra cima. Não quero o belo de revista, que se esgota na página seguinte – busco o belo do singular, do conteúdo que transborda, do espírito que marcou a matéria.

Por isso que quando fui convidada a escrever sobre a beleza feminina saiu isso.

Casa nova e Paraísos

Fiz cagada com a mudança de Caminhante Diurno para At., Caminhante. Eu mudei a URL do blog sem saber direito que o Blogger fazia isso, e quando eu vi já não dava para voltar atrás e – o que é pior – um link não dava para ir direito para o outro. Muita gente veio me dizer que o blog saiu dos feeds e não adiantava nada mudar o link, as notificações não chegavam mais. Isso sem dizer nos anos de referências por aí como Caminhante Diurno que eu não tenho como voltar atrás e dizer “ei, sou eu!”. Mas, enfim, acontece, também não era nenhum nome de um milhão de dólares.

Então deixa eu avisar agora, com mais antecedência: em breve, estaremos de casa nova. Estou fazendo um site novo no WordPress. Tá ficando legal. Estou na dúvida sobre comprar domínio e outros detalhes que me fazem não querer colocar o link ainda. Acho que vocês me matam se eu mudar de Blogger pra WordPress e de WordPress pra .com em tão pouco tempo, né? Então, coming soon. Estejam avisados.

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Hoje é aniversário dela, da amada Fal. E hoje vi também este vídeo do projeto novo dela, o Paraísos de Papel. Sei lá, a gente vai envelhecendo e ficando besta. Chorei vendo o vídeo e pensando nas citações que elas não falaram mas que talvez adivinhe, no amor, no diabo, nas horas contínuas de leitura quando adolescente, na solidão acompanhada que é ler… Mas não quero ser repetitiva e nem estragar o vídeo. Clica aí.

Uma teoria sobre simpatia

Eu estava lendo sobre a Monica Iozzi, sua versatilidade e simpatia. Aí quando a reportagem cita que ela já foi até vendedora de cachorro quente, uma coisa me pareceu explicar a outra. Tenho uma teoria sobre ser simpático – eu acho que ser simpático muitas vezes tem a ver com necessidade.

 

(“Ah, mas se fosse assim…” Digam que vocês já superaram essa fase, de achar que ser crítico é implicar com cada texto porque ele não cobre a realidade inteira ou não é tão infalível quanto a Lei da Gravidade. Superaram, né? Então seguimos)

 

Durante um ano, fiz aula de natação numa das escolas mais caras de Curitiba. Vocês imaginam que seja possível frequentar um lugar com uma proposta descontraída por um ano inteiro, várias vezes por semana, sempre no mesmo horário e não conhecer as pessoas? Foi o que aconteceu. Eu entrava muda e saía calada. Era muito estranho. Os papos não aconteciam, nada ia adiante, difícil explicar. Foi o vestiário mais silencioso que já vi na vida. Um dia eu percebi que a melhor explicação não era o fato de serem esnobes, ou de estarem com pressa, era simplesmente porque elas não sabiam falar com estranhos. Não tinham jogo de cintura, não sabiam quebrar o gelo. Comecei a pensar que aquelas pessoas eram tão ricas que elas simplesmente não foram treinadas a lidar com o outro. Por quê? Porque não precisavam. Quando pequenas, iam de carro até seus colégios particulares; adultas, vão de carro aos seus compromissos (estou fazendo referência a este texto). Quando não semelhante, o outro geralmente é um subalterno. E subalterno serve. Quem serve precisa tomar pra si a gentileza e a simpatia. Caso essas pessoas não sejam muito bem tratadas, elas podem simplesmente gastar seu dinheiro em outro lugar.

 

Eu estou do lado dos que servem, dos que precisam da gentileza e da boa vontade de estranhos. Não é o meu dinheiro que fala por mim. Se eu maltratar o cobrador do tubo onde pego ônibus todo dia, nós dois (principalmente eu) teremos um problema. A nossa distância social não é tão grande; ele não pode mudar de tubo ou eu de trajeto apenas porque nossos santos não batem. Pra tudo na vida: menos dinheiro significa menos opções. Então, para o bem dele e meu, é melhor quebrar o gelo, dar bom dia, comentar do futebol, enfim, que sejamos simpáticos.

Inteligência culinária

Hoje todos reconhecem, nem que seja um reconhecimento bem marromeno, que existem diversos tipos de inteligência. Antes, inteligentes eram apenas os CDFs chatos que entendiam o que o resto da sala não entendia, ou seja, coisas que envolvem números. Hoje sabemos que o esportista, aquele cara que vinha todo suado depois do recreio porque não perdia uma chance de ficar perto de uma bola, que só fazia sucesso na educação física e com as meninas, também é inteligente. Acho até que é a última parte – ir bem com as meninas – que leva as pessoas a terem bastante resistência em reconhecer que exista uma inteligência corporal – “Além de terem corpão e pegarem geral, ainda por cima eu tenho que chamar eles de inteligentes?” Olha. E ainda dizem que Deus é justo.

 

Mas a inteligência que realmente sofre com a falta de reconhecimento é a Culinária. Ela é tão injustiçada que nem ao menos entra na classificação das inteligências. Mas ela existe, tenho certeza que existe. Eu sei que existe porque eu sou totalmente desprovida dela. A capacidade de apreciar e criar sabores exige um tipo de percepção, cálculo, sensibilidade e talento que não é pra qualquer um. A pessoa que não tem essa inteligência pode fazer qualquer tipo de curso, seguir as melhores receitas, ter à mão os ingredientes mais selecionados e não será capaz de fazer mais do que uma comida nhé. Já o inteligente culinariamente é capaz de transformar qualquer feijão no paraíso. É o mesmo feijão, cebola e alho e ao mesmo tempo não é. Olha, admiro tanto, alguém que cozinha bem pra mim é um tipo de Macgiver.

 

Eu fico pasma quando estou comendo e alguém solta um: “Esse prato com um pouco de salsinha e páprika ficaria ainda melhor”. Sério, como é que o mundo não reconhece que isso é um tipo de habilidade. Saber se tem muito ou pouco sal, ok, mas daí propor que a comida ficaria melhor com algo que nem está lá é demais. Tento buscar dentro de mim algum registro disso e nem sei onde está, é como se eu tentasse mover as minhas asas. Gente normal classifica a comida em três grandes grupos: bom, ruim e dá pra comer. Gente normal adora comida de rua. Gente normal só descobre aquele gostinho amargo suspeito depois de dez minutos. Gente normal acha que toda comida amarela tem curry e é indiana. Gente normal quando decide ser inventiva com temperos descobre que alecrim fica horrível no molho sugo e depois fica catando todas as folhinhas porque não vai ter paciência de fazer mais molho. (Não que eu tenha feito isso, claro, foi uma amiga que me contou.)

 

Por isso que eu vivo dizendo que ainda escreverei o livro Culinária for Dummies* porque a parte mais importante – ser uma imbecil na cozinha – eu já tenho. Só eu falarei de igual para igual com o público desprovido de inteligência culinária. Chega dessas receitas de bolo que você vai seguindo e só meio do texto dizem: “coloque a forma num forno pré-aquecido” sem que ninguém tenha avisado antes que tinha que ligar o forno. Ou que supõem que a gente sabe que diabo de medida ou marca de sal é essa chamada “Agosto”. Ou que realmente acreditam que qualquer receita com mais de três ingredientes e duas etapas pode ser rápida e simples. É por isso que eu digo: saber cozinhar é um tipo de inteligência, e das mais importantes. Remunerem bem, valorizem, estimulem a procriação e ofereçam todas as toalhas brancas que pedirem. O mundo precisa deles.
* A série de livros “for Dummies” foi traduzida no português como “para leigos”. Pra mim, perdeu todo sentido.

Do tempo dos comentários

 

No facebook, Fal comenta sobre insensibilidade de comentários na internet. Como não tenho paciência pra ficar pedindo autorização pros outros, vou colocar aqui apenas o que eu disse:

O que mais me chateava quando eu aceitava comentários no blog não era o povo que descia a lenha, e sim os que achavam que estavam concordando comigo por um horror que eu passei muito longe de dizer.

“Você tem toda razão, eu também acho que esses nordestinos são todos uns…” OI?????

Aí a gente vai correndo no texto pra, pelamordedeus, apagar esse momento em que Exu tomou conta do nosso corpo e digitou coisas que nem sabemos. Mas não tá lá. O Exu do Analfabetismo é dele.

Esse feriado longo e divertido chamado carnaval, que para mim não é feriado e nem divertido, já acabou? Porque eu tô doida pro ano começar de vez.

Trouxa

“Como eu era trouxa.” – eu dizia para mim mesma, quando pensava na minha adolescência – “Ficava o tempo todo trancada no quarto, lendo, ouvindo música. Era insegura, tinha mil complexos bobos, me achava feia. Se naquela época eu tivesse a confiança e a cabeça que eu tenho hoje, teria aproveitado, saído, namorado bastante”. Adivinhem, agora, o que esta mulher madura e confiante faz todas as suas noites?

A gente é o que é, não adianta.

Momento girafa

Fui fazer minha documentação ortodôntica. Está praticamente tudo certo e encaminhado para eu voltar a usar aparelho os dentes. Imaginem minha alegria. Dez anos e muitas caretas de dentista depois, vou ao ortodontista e descubro que o “acabamento” do ortodontista anterior foi ruim e tenho que recolocar meus dentes no lugar. Estou passada. O Orto vai analisar os exames antes de ver o que é possível fazer. Ele me disse que não vai ser tão ruim quanto eu estou pensando – minha expressão corporal enquanto falava com ele estava ótima -, que os aparelhos melhoraram muito daquela época pra cá. Se eu já me sentia ridícula e teen na primeira vez que usei aparelho, imaginem agora, quase entrando na casa dos enta. Sem dizer que vai ser ó.te.mo para minha autoconfiança, agora que fico encalhada de vez. Mas o que tem me matado é o lado financeiro mesmo: quanto vai custar isso, que cintos terei que apertar, o quanto meu orçamento aguenta? Então digamos assim: estou 4,5 nos estágios da girafa.

Os sonhos de Deus

Eu tenho cá as minhas crenças, as minhas intuições. Nada pelo qual eu acredite que valha a pena lutar ou dar um nome. A cada passo duvido e tento fazer o que faz com que eu me sinta melhor – e esse melhor num dia pode ser o oposto do que eu fiz no anterior. Acho que se existir um divino, ele tem que, no mínimo, ser melhor do que eu. Então na minha concepção, não há mal nenhum em duvidar o tempo todo ou até mesmo em rir. Cada brincadeira hilária que se faz com a figura de Jesus, compartilho várias e os crentes nunca curtem… É muito ego pequeno e orgulhoso punir quem não concorda ou não entender que o riso é sempre acompanhado de reconhecimento. Se eu que sou eu entendo, porfa com a divindade, tem que ser daí pra cima.Eu não me arriscaria a dizer, como fez o Papa Francisco e como os religiosos (sim, esse é um dos meus preconceitos) fazem o tempo todo, quais os planos de Deus. Existe Deus, ele tem um plano, e esse plano exclui algo que ele mesmo criou? Olha, eu não arriscaria três saltos lógicos tão grandes. Fazer e depois rejeitar, dizer que não é bem assim, também é tão …

Filhos ou órfãos de Deus, não existe homem fora da sociedade e nem vida humana fora da Terra. Eu diria que – feliz ou infelizmente – estamos todos ligados. Então, se eu fosse arriscar alguma regra universal para o que é o Bem, quais são os planos divinos, a minha aposta seria: o que é melhor para o coletivo.

Mais humor, por favor

Uma decepção insuperável que eu tive com o mundo da dança foi perceber que, mesmo lá, as pessoas se levam à sério demais. Pra mim, todo mundo que subia no palco era meio “povo do teatro”, e como povo do teatro – só falta os próprios também não serem assim! – eu entendia que era um pessoal diferente, que via a si mesmo e ao seu corpo como um instrumento de trabalho a ser modelado, superado, um brinquedo. Eu achava que ser capaz de subir num palco de roupa coladinha dava licença pra tudo. Mas não, por incrível que pareça. No balé e no flamenco existem as fórmulas, que embora possam parecer radicais à primeira vista, protegem. É roupa justinha sim, é rebolada sim, mas a pessoa diz pra si mesma que “é assim que essa dança é dançada” e com isso se protege. Aí a quebra que poderia acontecer não acontece – “faço, mas é no contexto, continuo sendo pessoa direita”. Uma pena! Tente propor algo novo, uma fala, uma história, uma teatralização, pra você ver as caras fechadas. “É que isso não é (insira aqui o nome da dança)”. Eta mundão de continuadores. Amamos a inovação sim, desde que aconteça lá longe, de preferência em outra modalidade artística.

 

Fiquei refrescada quando vi isso daqui (presente da Luciana). Pelo pouco que conheço de atletas, pode multiplicar as travas do pessoal de dança por dois.