Pequenos ódios

dogbert karma

Sacos de lixo também precisam ser de qualidade. Já apareceu meu lixo todo esparramado na frente da casa, eu desconfiei que foi alguma forma de protesto de vizinhos, e no fim era apenas saco vagabundo que arrebentava embaixo. Investi em sacos melhores. Mas olha o problema: o caminhão passa sempre na mesma direção, claro. Ele pega o lixo da casa da esquerda, da minha, corre pro caminhão. Com mais frequência do que eu gostaria, o saco da minha vizinha arrebenta e cai lixo dela na frente da minha casa. Dias desses catei, cheia de ódio, um vidrinho minúsculo. Além de tudo não separa o lixo. Pensei em falar com ela, mas é justamente a vizinha maluca. Depois pensei em apenas jogar o lixo na frente da casa dela, o que ainda cogito fazer, aí lembrei de um dia que estava chegando em casa e ela me perguntou se eu vi quem ficou de madrugada perto da lixeira dela, porque a câmera não pega muito bem aquele pedaço. Ou seja, louca do jeito que é deve olhar todo fim de semana o que acontece na frente da casa dela. E até o cachorro dela é louco, é do tipo que passa alguém na frente e ele passa mais de minutos latindo. No fim, recolhi o vidrinho. Sabe o Dogbert, do Dilbert? Tem uma historinha que ele vai se tornando chefe apenas por mandar as pessoas saírem dos seus lugares e ninguém o enfrenta. Funciona mesmo.

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A batalha entre o Bem e o Mal

Quando eu era criança, ficava muito angustiada quando via que o Mal estava sempre tão melhor do que o Bem. Pra começar, o Mal se veste melhor. O Mal tem ternos bem cortados e roupas de bom caimento, enquanto o Bem praticamente usa trapos. O Mal mora nas mansões, dá risadas sonoras, tem empregados, anda de carrão; o bem é órfão, consegue as coisas com dificuldade, luta ao lado de amigos tão ferrados quanto eles. Dá pra dizer que é puro argumento de filme para criar suspense, mas tem uma verdade profunda nisso. Uma das cenas mais clássicas de Star Wars é quando Luke luta com Darth Vader. Ele tinha todos os motivos pra ter ódio de Darth Vader, desde o fato de ser um filho abandonado como todo mal que Darth Vader representava. Mas, à medida que Luke ganhava o duelo, ele também perdia. Tentar matar o pai, mesmo um pai tão ruim, apenas os tornava iguais – pessoas no lado negro da força.

O Mal pode tudo. Por definição, o Bem deve sempre andar na linha difícil da ética e do respeito, senão ele deixa de ser Bem. Então, o Bem sempre se vestirá pior e será pobre, pelo menos enquanto o mundo for desse jeito. Aí cada um coloca a explicação ou o fim da história de acordo com as suas crenças: vai melhorar quando sairmos da Kali Yuga, o Bem vence porque ele está alinhado a Deus; ou não, nada garante o resultado da batalha e pode ser que o Mal ganhe e todos se ferrem mesmo.

É muito fácil se emocionar e cantar Imagine – talvez você diga que eu sou um sonhador, mas eu não sou o único -, é fácil defender a união e o amor universal quando tudo está bem. É muito fácil se dizer cristão e só ir até a página 2, abandonar todos os princípios porque agora está difícil. Está sim, muito difícil, e a impressão que dá é que é cada um por si, basta salvar a própria pele. Imigrantes que têm mais é que voltar pro lugar de onde vieram, minorias que devem se dobrar à maioria, mulheres que merecem ganhar menos, trabalhadores sem décimo terceiro e deficientes sem lei de inclusão? “Tanto faz, não é comigo, não me atinge”. A má notícia é que vai atingir sim. Não queiram ser aquelas pessoas que as equipes de resgate encontraram quando chegaram para salvar os sobreviventes do Titanic, meia dúzia de egoístas em botes vazios no meio de cadáveres flutuantes. A história jamais os perdoou e aposto que nem eles a si mesmos. Não tenha ilusões a respeito de que lado está quem defende violência e morte, mesmo que seja só um pouquinho, mesmo que só com alguns.

o bem e o mal

Um sonho muito simples

una vida chiquitita y normal

Eu estava conversando com um amigo e ele me contou que tinha uma vontade muito grande de andar naqueles carrinhos com motor no supermercado. Aqueles exclusivos para pessoas muito idosas e/ou com problemas de locomoção. Era mais do que uma vontade qualquer, era um sonho. Mas com seus vinte e poucos, alto, forte e super saudável, jamais iriam deixá-lo fazer isso. “Você quer mesmo andar naquele carrinho, muito, é importante pra você?” Sim, ele respondeu. Eu me senti dentro de um livro do Sidney Sheldon. Como a história do carrinho é pequena, vou contar do livro: a personagem era uma mulher ambiciosa e sedutora, e pretendia ajudar um homem a fugir do país. Acho que era judeu, na época da guerra. Mas ela não sabia como fazer. Aí, numa festa, encontrou um escritor e disse que estava escrevendo um livro e empacou, não sabia como salvar o personagem. Ela contou para ele a sua situação como se fosse um livro. O escritor inventou na hora a saída: colocar o judeu no porta-malas enquanto a mocinha fazia um figurão nazista levá-la para um passeio, atravessando a fronteira. Assim ela fez e salvou o judeu.

Voltando ao caso do supermercado. Eu sugeri ao meu amigo chegar no supermercado mancando, dizer pro funcionário que havia acabado de se machucar no caminho e se poderia, se não fosse muito incômodo, fazer suas compras com um daqueles carrinhos elétricos. Deu certo.

Arrelia (também serve Tiririca)

Um autor, claro. Daquele que com a sua aldeia consegue descrever o mundo, um retrato da sua época e atemporal ao mesmo tempo. Se não pudesse ser um grande autor, pelo menos alguém que passa a sua vida cercado de muitos deles, pelo que produziram. Um professor universitário. Um pesquisador. Ou quem sabe um advogado, profissão que também se cerca de livros, linguagem, códigos. Se for para dar as costas para tudo isso, em viagens por lugares exóticos, com línguas que jamais soariam familiares, ser transportado num olhar a outra realidade. Projetar realidades, construções, arquiteturas, influenciar a pessoa sem que ela sinta, com a mágica da combinação de cores e móveis. Desenhar o trivial e transformar em algo novo e surpreendente, um novo jeito de se sentar ou de se vestir. Salvar vidas, o que pode ser tanto num sentido biológico como simbólico, salvar a alma da ignorância ou dos seus próprios medos. Sendo nos sonhos as profissões tão grandes e tão nobres, eu não entendia quando via a entrevistas de palhaços – Arrelia quando eu era criança e o Tiririca quando eu já era maior – que diziam que escolheram ser palhaços porque não conseguiam imaginar algo mais bacana do que viver de fazer as pessoas rirem.

cidades

Sobre a tirinha: Macanudo é uma expressão argentina antiga, algo como “supimpa”. O autor, Liniers, batizou com esse nome apenas para colocar Supimpa no meio do jornal.

Tudo normal

Há décadas, quando eu estudei isso, o Duplo Vínculo estava ligado à antipsiquiatria. Claro, ninguém aqui quer negar que haja um componente biológico, mas a antipsiquiatria tinha no seu âmago uma crítica à psiquiatria tentava ampliar a forma de ver a loucura. Essa teoria nos informa que não se fica louco do nada, que há uma história, que o meio tem seu papel. Nas relações familiares mais próximas de um doente psiquiátrico seria fácil encontrar relações doentias – chamadas de duplo vínculo – onde uma pessoa com grande autoridade sobre o sujeito lhe dá informações conflitantes que destroem seu senso de eu. É o “eu te amo” dito numa realidade cheia de ódio, o discurso da confiança em meio à agressões. Isso é repetido tantas vezes, por um outro tão maior e convicto, que o “louco” fica confuso e paralisado. Ele não consegue responder porque não há resposta coerente possível frente ao incoerente.

Estudei duplo vínculo como antipsiquiatria, mas hoje ele me parece tão mais amplo. Penso que existe em toda relação abusiva. Inclusive, hoje em particular, me parece que é possível fazer duplo vínculo com um país inteiro. Um absurdo maior do que o outro e nossos meios de comunicação e governo insistem que:

não há nada acontecendo

Consulta

dias-tristes

Somos como velhos amigos. Pepe joga os búzios na minha frente e começa a descrever o que me trouxe ali:

-Você anda meio triste, desanimada, se sentindo muito só, sem rumo. Tem sentido falta de muitas coisas. Tudo está em indefinido – a parte amorosa, a profissional… já a dança vai bem.

É, realmente a dança vai bem. Pela primeira vez eu dançarei na frente. E nas duas coreografias.

 

Os deuses estão vendo

em-ordem

Meu ex era plastimodelista e montava modelos de uma escala bastante pequena. No seu imenso capricho, ele pintava detalhes ínfimos que mal se viam na ponta dos dedos, e quando montados num modelo pronto, menos ainda. E quando eu lhe disse que ninguém veria aquilo, ele já tinha uma resposta na ponta da língua: um tal escultor fez estátuas que ficavam no topo de um templo, lá no alto olhando para o púlpito. E para cada uma delas, ele fazia um ser de corpo inteiro, em todas as dimensões. Aí lhe falaram da inutilidade de esculpir aquelas figuras completas – já que estava ficariam no alto e de costas para a parede, não era mais prático fazer apenas a frente, já que o que tinha atrás ninguém veria mesmo? “Os deuses estão vendo”. A Suzi conta uma história que acho deliciosa e sempre quis contar, mas nunca achei as luzes piscantes o suficiente para dar o destaque que ela merece. Seu filho estava no colégio, os amiguinhos todos burlando as regras para conseguir alguma coisa. E ela disse para o seu filho não fazer aquilo, que o que os amiguinhos faziam era errado e que ele deveria fazer direito. “Mas se está todo mundo fazendo errado e só eu vou fazer direito, isso quer dizer que eu vou me dar mal sempre”. Ela teve que concordar que sim, ele faria certo porque era o certo e ele iria se dar mal sempre. Esses dois casos são, para mim, a essência mais pura da ética.

Não colabora

cuando-la-imaginacion-no-colabora

O que me faz postar dia sim dia não é puro TOC. Eu me estabeleci esse desafio há anos e simplesmente não consigo deixar de lado. Depois isso foi virando uma cobrança, que se eu realmente gosto e quero escrever, devo ser capaz disso sempre, mesmo nos dias que estou mais cansada e sem inspiração. Os grandes escritores estavam sempre escrevendo, e até mesmo aqueles que nem eram tão grandes assim. Os autores podem ser divididos – pelamor, só um palpite! – entre os que se envolviam em profissões como as de jornalista, para serem obrigados a escrever sempre e aqueles que vão para profissões pouco exigentes, também para poderem escrever sempre. Então, é até pouco que eu me imponha um dia e um dia não. Por incrível que pareça, os dias mais difíceis não são os cheios de atividades, porque sento aqui e pensei em alguma coisa ou me disseram alguma coisa ao longo do dia. O mais difícil é quando passei já muito tempo na frente do computador, dedicada a um outro projeto de escrita. Só estou com ele e todo meu ser só quer saber dele. É o caso, hoje.

Eu matei barata

Eu matei barata. Não apenas matei, como depois recolhi. Assim como também recolhi vários passarinhos que a Dúnia matou. Tive que contratar pedreiro, paguei, fiquei meses no vermelho. Lidei com problema de vazamento na privada, duas vezes, três vezes, quase tive o banheiro inundado numa –  na outra tive o sangue frio de esperar o fim de semana passar antes de dar um jeito. Percorro a cidade inteira de ônibus, em qualquer horário. Já despistei tarado no terminal. Caí da escada, caí de bike, fiquei encolhida de dor no sofá; passei eu mesma remédio nos roxos, preparei meu chá, esquentei a água da bolsa de água quente. Nas noites desse prolongado inverno, me esquentei apenas com cobertor; já nas noites frescas, dispensei carona e andei por ruas desertas observando o céu apinhado de estrelas. Eu não entendia qual era a relação de ser independente e mais seletivo na hora de querer companhia. Agora eu sei.

una vida chiquitita y normal

Originalidade

Tem uma frase que eu li em algum lugar que me ajuda muito e não sei direito como dizer isso sem querer parecer uma pregadora religiosa. É assim: “Através de você, Deus está vivendo uma experiência que ele nunca viveu antes.” Para mim, essa frase é um apelo máximo à originalidade. Ela me faz pensar o quanto regras de conduta são perigosas e até inválidas, porque o que rege a minha vida pode ser um estrago na vida do outro. Eu ia escrever “o que equilibra a minha vida” mas já está aí, pode ser que tudo o que o outro menos precise seja equilíbrio. Eu penso também numa conhecida minha, que nunca sonhou em viajar, mas colocou o nome num projeto e os frutos dele estão levando-a a viver em outras partes do mundo, de Inglaterra à Nova Zelândia. Eu mal e mal vou até Campo Largo; se fosse tentar ser uma pessoa viajada, teria que fazer imensos esforços. Ou seja, pra ela vem fácil e pra mim seria uma luta, uma tentativa de cópia, a vontade de ter o que não é a minha realidade. Me faz pensar também no escrever, nessa crise imensa que todos que escrevemos temos, ao olhar para o lado e achar tão lindo, genial e disse tudo – e nessa de achar o outro tão maravilhoso, dá a impressão de que tudo está tão dito e muito melhor dito que não tem porque euzinha escrever. E realmente já está dito e não vale a pena, se eu virar uma cópia mal feita de Paulo Coelho ou Borges. Mas valerá a pena, será único e original se eu disser o que apenas eu posso dizer – mesmo sem viagens internacionais.

otro dia más

Uma irritação anti-clerical

Isaac Newton, no século XVIII, trancado no seu quarto, teve insights transformados em teorias que ainda hoje poucos são capazes de entender. Sobre pretender ter outros insights desse nível, melhor nem falar. Isaac Newton, tão ser humano quanto nós, só que com acesso a menos informação e quem sabe até menos nutrientes. Mas aí se o assunto é Deus, nego não apenas tem certeza da existência, dos objetivos e dos planos, como pode até dizer a preferência Dele com relação ao comprimento das saias.

vida de pecado

Nós onze

como hacemos

Das pessoas que eu conheço, eu sou aquela cuja morte menos impactaria o mundo. Não tenho filhos, marido, namorado, alunos, empregados, nada. Ninguém está sob minha responsabilidade. Eu nem ao menos sou parte importante da rotina de alguém. Mas não se preocupe, isso não é nenhuma carta de despedida.

Eu não sei o que traz vocês aqui. Pra começar, nem sei quantos vocês são. Ao longo dos anos, fui perdendo meu contadores de visitas, e a proporção entre o número de acessos que eles informavam era assim:

Google analytics > Blogger > Facebook > WordPress

Como tenho preferido jogar meus acessos pro WordPress, de acordo com os número que tenho hoje, este blog tem uns dez leitores. Sério. Me parece que tenho um pouco mais do que isso, mas sejamos realistas: o WordPress não está me roubando umas dez mil pessoas. Tem mais gente aí mas não são tantos assim. Outro ponto é que nunca entendo muito a lógica dos posts. Algumas coisas que me deram o maior orgulho de escrever tiveram reações pífias, enquanto outras que fiz meio que só pra constar tocaram pessoas. Então sempre abro o computador sem saber o que me espera.

Eu não sei o que os traz aqui, mas eu sei o que me traz aqui. Pode ser muito lógico para quem está do outro lado, mas não faz muito tempo que me dei conta de que acabei criando uma auto-biografia online. Que a qualquer momento qualquer pessoa tem acesso a anos da minha vida. Esse olhar nem sempre será bondoso, nem sempre colocará as coisas em perspectiva ou vai entender o que eu disse. Basta ter interesse e se dar ao trabalho de ler. Não foi a minha intenção ter uma biografia online, eu jamais teria tido uma ideia tão narcisista, mas aceito. Fico imaginando uma futura sogra, sabe? Minha ex-sogra levou muitos anos pra gostar de mim – ela viu uma moça, indícios de comportamentos, tirou conclusões. Não tinha como ser muito diferente. Quando a gente é jovem, somos muito intenções e possibilidades. São os anos que nos dão trajetória. Então minha futura sogra, depois de me ler, pode gostar ou não de mim, mas jamais poderá alegar ignorância.

Estou lendo sobre o Jango e recebendo o material do Murilo Gun e os dois me fizeram constatar o quão pequeno é o meu alcance. É difícil calcular o impacto que a gente tem; na matemática dá pra confrontar centenas ganhando indevidamente os 77 reais do Bolsa Família ao lado de um desvio de verba de milhões. Na vida real, horas de falação podem ser menos importantes do que um único encontro. Quando e como conseguimos realmente dizer algo relevante, deixar alguma marca no coração de alguém?

Eu não sei o que os traz aqui e nem quantos vocês são. Eu também gostaria de fazer bem ao mundo, de ter um grande projeto, de ser uma influenciadora, gente do mesmo naipe do Darcy Ribeiro. Se fosse apontar duas características de um grande projeto (estou sendo o pai da Little Miss Sunshine agora), eu diria que ele tem que envolver muitas pessoas e ser generoso. E taí meu calcanhar de Aquiles, sempre tive problemas com esse lance de muitas pessoas. Muito por timidez natural, um pouco por acreditar que não precisaria delas. Por isso minha programação de aniversário inclui computador e bolsa de água quente nos pés, igual estou agora. Cada um tem suas facilidades e desafios, lidar com pessoas pra mim sempre foi segundo item.

Não serei mãe, por consequência não serei avó. Não serei professora, então não terei alunos. Que não serei presidente não é preciso dizer, mas eu nem ao menos serei celebridade de internet. Somos só eu e vocês, nós onze. Eu não sei o que os traz aqui, sei apenas o que me traz: a necessidade.

Um lugar dentro de si

livros

Há de se amar a cultura, o conhecimento; geralmente identificamos isso como amar os livros. É que os livros nos permitem tanta coisa, são tão ricos, mas vamos fazer justiça: existem documentários, revistas, teatro, música, HQs, etc. O importante é amar a cultura, a informação, o estudo. Somos todos muito incultos. Somos sim, nós brasileiros, um país que investe tão pouco em educação e tem currículos tão defasados. Nós que temos atrás de nós gerações de incultura, nós que não lemos nem dois livros por ano, nós que não tivemos sociologia e filosofia nas escolas. E recentemente, nós que não precisamos decorar mais nada porque existe o Google. Não vou discutir o quanto saímos perdendo enquanto país porque isso é amplo demais pra este bloguinho. Quero falar da perda pessoal. Eu vejo que quem lê, quem tem amor ao conhecimento tem aonde ir quando tudo lhe falta. Essa pessoa pode estar sem dinheiro, sem amor, sem amigos, sem possibilidades, tudo dentro de si pode parecer escuro e sem perspectiva – mas ela tem interesses e esses interesses podem preenchê-la. Falo de cadeira. Ela pegará um livro do seu autor ou assunto preferido e isso lhe bastará por dias, horas, o tempo que ela quiser. Enquanto isso, o coração descansa e o tempo cura o que precisa ser curado. Ao contrário de tarja preta, não tem contra indicações e torna a pessoa melhor no final do processo. Seu universo se tornará cada vez maior. É uma espécie de poder, é como ter um refúgio dentro de si. Dá uma independência danada. Um bom livro, um lugar confortável, luz e está feito. Para mim, a falta desse lugar é a maior perda de quem não ama o conhecimento.

Declarações de afeto

amor

Tenho pudores pra fazer declarações de afeto em público. De um lado, as pessoas soltam “eu te amo” com facilidade, com contatos que tenho tão claro que são circunstanciais que me dá até vergonha. Por outro, tenho alguns amores grandes e importantes e não falo. Minha esperança é que eles sabem, que leem nos meus gestos claríssimos de atenção a sua importância na minha vida. Dizer na cara me constrange, porque qualquer dito profundo e verdadeiro é sempre um momento que impõe silêncio. Pior ainda – seria tão típico! – eu seria capaz de começar a chorar. E falar pro mundo, em posts e comentários, eu acho complicado. É complicado que eu fale de “uma das pessoas que eu mais amo e admiro no mundo” e se eu usar o feminino e você for homem, vai ficar claro que não é você; se eu te falar da pessoa pra você, vai ficar claro que não é você. E saber que existe alguém, que não é você, que eu amo e admiro muito vai doer. Vai sim, nem que seja apenas no orgulho. Nem que você não me ame e admire. Porque é humano, e queremos ser sempre os mais amados e admirados por todos o tempo todo. Quando é o nosso, sabemos que amor é uma fonte que não se esgota, que é possível amar ao mesmo tempo várias pessoas, que o amor de uma nada interfere ou esgota o amor da outra, que é possível até, cafajestamente, amar no sentido apaixonado e sexual várias pessoas ao mesmo tempo, cada uma por seus gestos e qualidades únicos. Mas, quando estamos no outro lado, qualquer amor dado ao outro soa como amor roubado, amor que deveria ser nosso, amor que não existe e deixa uma indiferença fria e vazia. Fora isso, tem os amores que claramente não nos pertencem, e que não nos façam a crueldade de nos jogar na cara – o escritor que viveu no século passado, o crush que voltou com a ex, a professora que nos coloca para dançar no fundo, o amigo que amamos e admiramos e nos não convida para suas festinhas. Não quero ninguém triste no cantinho, que é como me sinto quando vejo essas coisas. Da minha parte, gosto tanto que meus afetos já saíram da esfera de pessoas e animais de estimação e têm se expandido para espíritos, planetas, grãos de café. Vou entender que são todos tímidos, que todos me amam e se declaram na sua atenção e importância pra mim.

No vuelan

Eu não diria que é uma dor, não uma dor no sentido de dizer Ai, uma pontada ou uma pequena morte. É um incômodo, um não esquecer nunca, uma vontade de arrancar com a mão. Semanas e semanas tendo que fazer a parte chata da vida adulta de ter que ser responsável, reivindicar, correr atrás, tira dinheiro daqui e coloca em acolá. Me vinha à cabeça o dito que a vida adulta vale a pena somente pela permissão que temos de beber álcool e fazer sexo – eu me repetia, então, que diabos estou fazendo, já que não tenho praticado nenhum dos dois. Agora, espero sinceramente, a coisa está se acalmando, e tomara que suma a sensação crescente de que a passagem dos anos é como naqueles filmes que os protagonistas ficam presos entrem paredes que não param de se aproximar. Quase todos os dias me proponho a continuar o Guerra e Paz, mudo de lugar, coloco na bolsa, mas só tenho mesmo levado o livro para fazer turismo. Enquanto isso a amiga ainda vai casar e quer confirmação, as alfaces precisam ser colocadas de molho antes que eu possa comê-las e o mundo insiste em ignorar meus sábios conselhos, que dirá as minhas dores. Mesmo com o incômodo do aparelho, o arrasto fora da cama quando o alarme toca, as disputas insanas entre coxinhas e petralhas, eu quero escrever. Não tenho saco, não tenho inspiração, não tenho tempo, tenho dor e solidão. Tenho dúvidas e lentidão, choro vendo Cosmos e me sinto insuficiente. Mas um dia eu sei que nem vou conseguir lembrar de nada disso que hoje me espreme tanto. Que não vou entender o que havia de tão difícil num conjunto de telefonemas, caras feias e contas que se renovam mês a mês. Eu quero e preciso escrever, nem que seja apenas para justificar todo meu desajuste social. A vida não espera e a gente precisa fazer o nosso com e apesar de tudo.

no vuelan

Profecia

“Eu queria falar com você nas minhas últimas horas de solteira!”. Eu estava no atelier e tinha perdido uma ligação do celular e liguei de volta para a minha melhor amiga, que também não atendeu o dela. Aí deixei aquele recado. Isso porque naquela noite eu ia sair de novo com o engenheiro-bom-partido que uma amiga em comum havia me apresentado, e as coisas estava andando rápido e bem. Pelo pouco que ele demorou pra me ligar de volta e marcar outro encontro, que seria aquela noite, eu tinha certeza de que ia rolar. Só que eu não tinha noção do quão poucas horas eu tinha de solteira ou, dito de outra forma, que eu levaria mais de uma década para voltar a ser solteira.

É assim: