Cântigo Negro

Não vou repetir minhas hesitações em gravar minha voz.

Quando escrevi o último post, estava muito triste. Aí o Alessandro colocou o Cântico Negro no twitter. Fiquei tocada e percebi alguns aspectos diferentes da questão. Como diz a expressão muito batida, foi a coisa certa na hora certa. Foi por isso que eu gravei, apesar… é a única voz que tenho, fazer o quê.

http://www.gengibre.com.br/templates/cherryplus/flash/gengibre_fp.swf

Anúncios

Técnica simples e eficaz para desentupir uma privada

Anos atrás o Alessandro fez um post meio de gozação sobre como desentupir uma privada. No meu comentário, expliquei em poucas linhas como faziamos na minha casa. Qual não foi minha supresa em ver que semanas, meses e anos depois, as pessoas apareciam lá pra comentar o que eu tinha descrito. Foram inúmeros casos de vidas modificadas pelo Método, famílias inteiras que salvaram seus banheiros graças à mim. Nada mais justo do que compartilhar com meus leitores essa alegria. O Método foi passado pelo meu pai, que por sua vez o aprendeu numa república de estudantes. São décadas de eficácia comprovada.

 

Antes de mais nada, quero avisar que O Método não deve ser usado em todo tipo de entupimento. Privadas entupidas por objetos estranhos – fraldas, camisinhas, absorventes, sachês de privada, coração, etc – devem recorrer a ajuda profissional. Fazer coisas que não dissolvem descerem pelo encanamento é muito mais caro e fedorento que uma privada entupida. Usem O Método apenas em cocôs maus e persistentes.

Você precisará de:

  • 1 privada entupida com tampa
  • 1 maço de jornal
  • 1 pessoa adulta
  • coragem

Modo de proceder:

1. Levante a tampa e o assento da privada;

2. Forre a privada com o jornal. Forme uma tampa grossa que cubra toda abertura.

3. Abaixe o assento e a tampa.

4. Ajoelhe-se sobre a tampa, de frente para a parede. Não se apoie em nada, o objetivo é fazer peso.

5. Aperte a descarga corajosamente até o fim. Faça isso duas ou três vezes. Você ficará com medo da merda começar a escorrer pelo banheiro, mas faça o que estou dizendo.

Graças ao jornal e ao peso, um vácuo é criado dentro da privada. A pressão empurrará a água (e o que está dentro dela) para baixo.

6. Levante-se e verifique o milagre. Dificilmente você precisará repetir o processo.

O Tchans

Tinha um cara no meu prédio que era bonito, na mesma faixa etária que eu, formado, simpático e todas as qualidades que se pode esperar de um homem. Em resumo, era um bom partido. Saímos juntos algumas vezes e eu até ficamos a sós, no quarto dele e a casa vazia. E não aconteceu nada. Quando estavamos próximos e surgia a oportunidade de fazer alguma coisa, nenhum dos dois tomava iniciativa. Acredito que com ele acontecia a mesma coisa que comigo: ele calculava que eu seria uma pessoa legal pra namorar. Mas era uma coisa racional, uma escolha consciente. Nós dois juntos não tinha tchans.

 

O tchans é assim: pode rejeitar a pessoa que tem todas as características que você escolheria. Ele não pode ser invocado, ele simplesmente acontece. Não é como cantada de novela, que sempre dá certo quando o outro é rico e bonito. Pode ser com a pessoa errada, pode ser com alguém que não corresponda em nada ao tipo que nos atrai. Algumas vezes ele é tão instantâneo, que só mais tarde a gente descobre se existe algo em comum além do próprio tchans. Dizem que nunca acontece sozinho e parece que algumas pessoas têm mais propensão a causar tchans do que outras. Não tenho certeza, não sei. Há mais coisas entre o céu, a terra e o tchans do que sonha nossa vã filosofia…

Batata italiana

No início do casamento, nós quase nunca comíamos em casa. Voltando de carro e cansados, era quase inevitável jantar no shopping que tem a caminho de casa. No início, tudo era bom naquela praça de alimentação. Depois, já haviamos repetido essas primeiras opções e procurávamos novos sabores. Foi por isso que ao invés de comer as mesmas batatas recheadas de sempre, resolvemos experimentar a Batata Italiana, que nada mais era do que batata com alho frito. Como é sacanagem só um dos dois ficar com bafo, cada um pediu uma batata para si.

Quando as batatas chegaram, quase não acreditamos. Não um toque de alho, para dar um gostinho – havia uma montanha de alho em cada batata. Não faço idéia de quantas cabeças foram guilhotinadas para gerar uma monstruosidade daquelas. O pior não é isso: não sei se por falta de inteligência ou excesso de mesquinharia, nós dois encaramos do jeito que veio. Ao invés de jogar o excesso de lado, comemos a batata inteira e quase todo o recheio. Depois, culpados e amaldiçoados, fomos para casa.

Sorte nossa que tudo aconteceu numa sexta-feira. Minha primeira reação ao chegar em casa foi escovar os dentes e passar enxaguante bucal. Claro que não adiantou. O Luiz foi ao banheiro e voltou dizendo “Até o meu peido está cheirando alho”, coisa que eu atribuí ao humor escatológico dele. Aí eu fui pro banheiro; não apenas o peido cheirava alho como também ardia ao sair. Era como um toque de Midas bizarro: tudo que nosso corpo produzia ou tocava virara alho. Permanecer num ambiente o deixava com cheiro de macarrão alho e óleo sem massa. O quarto cheirava como uma cozinha. Era como se tivessemos fritado alho por todos os cômodos.

Envergonhados como se fossemos temperos ambulantes, nos trancamos em casa o final de semana inteiro, até passar.

Numa sala de espera

Eu e o Luiz fomos ajudar meu irmão na papelada pro novo apartamento dele. Fomos parar no meio da tarde num orgão público. Havia uma mocinha, que encaminhava os pedidos comuns à uma máquina com senha. Quando pegamos nossa senha, ela estava algumas dezenas adiante do último número chamado. Desanimamos, tivemos vontade de ir embora, e por fim ficamos.

Enquanto esperava no sofá, eu assistia um pequeno drama. Na mesa, com a mocinha, tinha um office-boy cheio de papéis. Alguma complicação; ele mostrava os papéis, argumentava, ligava para a chefe, chamaram outro para ajudar, etc. Enquanto isso, as pessoas não paravam de surgir e o atendimento era lento. Mas do mesmo modo que muitos pegavam a senha, muitos decidiam ir embora e procurar atendimento em outras filiais. Nossa senha estava menos distante do que pareceu no começo, só não sabiamos o quanto.

Quando estavámos a menos de uma dezena de sermos chamados, foi anunciado o número que que estava com o office boy. Não sei se foi porque eu estava sentada na ponta ou se tenho cara de simpática, ele me disse: “Aquele número que estão anunciando é o meu, você quer ficar com ele?”. Agradeci muito e lá foi o Luiz ser atendido.

Pra retribuir a gentileza, eu elevei a voz e me dirigi às outras pessoas que estavam na espera, oferecendo minha senha a eles. As reações foram surreais:

As pessoas da sala viraram seus rostos e dirigiram seus olhares para mim, com uma mistura de indiferença e desprezo. O simples fato de falar alto e me dirigir a estranhos fez com que instintivamente elas me desprezassem, antes mesmo de processar a informação. Eu estava tentando fazer um favor àquelas pessoas e elas passaram longos segundos me olhando, superiores, como quem diz “quem é a louca?”. Primeiro eu fiquei sem graça, depois arrependida e por fim com vontade de xingar as mães de todo mundo. Até que um senhor (provalmente um não-curitibano) ficou feliz e pegou a minha senha.

Nesses momentos, desconfio que os curitibanos sejam mais do que antipáticos – eles são doentes.
PS: Por saber com que brios estou mexendo, antecipo-me aos futuros protestos e coloco aqui seu Direito de Resposta Curitibano. Percebam a complexidade da argumentação:

Se não gosta da nossa cidade, vá embora sua [insira aqui o palavrão de preferência]!

Ridículo

Eu não apenas detesto a palavra ridículo, como o uso dela atrai minha antipatia imediata. Deve ser a palavra mais detestável da língua portuguesa. Quando ela é utilizada, é como se um alarme soasse. Não consigo pensar numa ocasião em que ela não seja preconceituosa; ela é um julgamento, uma desvalorização, uma tentativa de uniformidade através do escárnio.

Falar que alguém se veste de maneira ridícula ou se portou de maneira ridícula, é na verdade dizer que ela não está fazendo do modo como eu faria. Se eu não gosto de oncinha, vou dizer que uma de roupa de oncinha está ridícula. Se eu acho que depois de certa idade a mulher não deve mostrar o corpo ou se portar de maneira sensual, vou chamar de ridícula a velhinha decotada dançando. Se eu nunca bebo e nem me descontrolo, vou chamar de ridículo aquele que faz algum tipo de escândalo. Se eu não tenho coragem de sair com um homem mais novo, vou chamar de ridícula a mulher do lado de um garotão.

Eu não me imagino velhinha, decotada, de oncinha, bêbada, falando alto ou saindo com garotões. Mas dou o direito das velhinhas e etc. fazerem tudo o que eu não faria, pelo simples motivo de que a vida é delas. Ser diferente exige coragem e só isso já é muito melhor do que a uniformidade das ruas. Gosto de ver nos fora da casinha um protesto silencioso e personalizado ao estabelecido. Ridículo é nunca merecer ser chamado de ridículo.

Iniciação

Vocês não sabem o quanto eu sofri. Sofri durante, porque namorar um paranóico não é fácil, ainda mais à distância. Eu só usava roupas largas, pra que nenhum outro homem olhasse pra mim; e só olhava para o chão, para mostrar que não estava olhando para nenhum homem. Eu fingia que não notava que ele me perguntava a mesma coisa de várias maneiras, pra ver se eu entrava em contradição; que as ligações em horários e freqüências incertas, eram pra ver se eu estava mesmo em casa. Eu tinha que avisar com antecedência todos os programas, passar um relatório completo do meu cotidiano. Sempre agia como se ele estivesse presente mesmo quando estava sozinha. E apesar de tudo ser tão ruim, eu sofri muito depois. Porque ele foi meu primeiro namorado, porque passamos quase 4 anos juntos e eu achava que seria para sempre. Terminei achando que minha vida amorosa tinha terminado ali, que aos 18 eu já tinha encontrado e perdido o amor da minha vida. Eu me sentia morta, sem perspectivas. Nas duas semanas seguintes, eu só acordava pra comer.

Claro que eu estava errada e muitas paixões vieram depois. Mas aquele sofrimento se tornou uma referência. Quando meus relacionamentos ficavam ruins e eu precisava cortar os laços, pensava: “Já terminei algo muito mais forte e aqui estou. Um dia esse sofrimento vai passar”.

E nunca mais quis homens ciumentos.

As batatas do vencedor

Você já se imaginou numa mesa de bar, desabafando com… Roberto Justus? Nem eu. Imagino que ele começaria a me falar do mercado competitivo no mundo globalizado, queijos mexidos e atitudes empreendedoras. Coisas que eu não gosto nem nos livros de auto-ajuda e não tem nada a ver comigo. De maneira semelhante, não me desperta um pingo de admiração quando sei que alguém se tornou doutor antes dos 30 anos. Pra mim, são pessoas que se agarram a uma linha de pesquisa cômoda, a um professor, e com ela permaneceram até o fim sem pensar se era isso mesmo. Fazendo o caminho graduação-mestrado-doutorado sem pausas, a pessoa não teve tempo de estar nas ruas e ver que questões lhe atingem pessoalmente, que pergunta a realidade lhe faz.

 

Acho que os seres humanos tem um problema sério com o sucesso. Ele é tão bom e prazeiroso, que nossos egos inflam como baiacus. Pessoas que sempre foram vitoriosas, que traçaram grandes objetivos e conseguiram, tendem a ser insuportáveis. Egocêntricas, onipotentes, superficiais, insensíveis. Também acho que todo jovem é um pouco assim, todo universitário é muito assim (principalmente no início do curso). Porque nessa fase a gente teve grandes pseudo-vitórias, não foi realmente colocado à prova. Depois que a gente sai de lá que começa a se conhecer.

 

Só quem perdeu apesar de todo mérito, é obrigado a encarar coisas como sorte, temperamento, trapaças, injustiças, momentos. Há de se perder algumas vezes, não pra matar e transformar a pessoa em Hardy. Só o suficiente pra coloca-lo dentro da raça humana.

A senha

Esta é uma história verídica. Após o expediente, o pessoal de TI de uma grande empresa (que chamaremos de X) começou a fazer manutenção da rede da parte administrativa. Para isso, todos os micros precisavam ser desligados. Entre dez e meia e onze horas da noite, um desses técnicos liga para uma funcionária:

– Alô Fulana, aqui é Fulano, da X. Nós estamos fazendo a manutenção do sistema em todos os computadores da sua área e não consigo desligar o seu micro. Eu preciso que você passe a senha do seu computador.

– Ah, oi Fulano… tudo bem… eu vou aí e digito a senha…

– Não precisa vir até aqui pra digitar a senha. Eu estou na frente do seu computador e posso digitar a senha para você.

– Não, eu vou aí, eu moro perto, me dá meia horinha que eu…

– Fulana, já são quase onze horas da noite, não precisa sair da sua casa correndo e vir até aqui só pra isso. É só me dizer e eu digito a senha. É só isso. Amanhã você coloca outra. Não se preocupe que eu não mexerei em nada, só preciso desligar…

– Não, eu vou aí!

Assim foi o diálogo. Depois de muita negociação, o técnico finalmente conseguiu convencer a funcionária a dizer de uma vez qual era a sua senha. Só então, ele entendeu o porquê de tanta resistência. A senha era: pauduro.

Não assista, leia!

Transferir um livro para as telas quase sempre desagrada os leitores. Partes inteiras são cortadas, personagens colados, aspectos importantes são minimizados e até mesmo o fim pode ser alterado (vide O Diabo Veste Prada e A Revolução dos Bichos). O única adaptação que não me desagradou foi O Senhor dos Anéis, que no livro contém infindaveis eles andaram, eles acamparam, eles dormiram, eles ficaram cansados. Seguem três coisas que apenas um livro faz por você.

1. Cinema é só visual.

Embora o livro também seja visual no sentido de ser lido (ou auditivo, no caso de audiolivros), a maneira como ele é descrito pode valorizar outros sentidos. Um excelente exemplo disso é o livro O Perfume. O protagonista – Jean-Baptiste Grenouille – percebe o mundo de maneira totalmente olfativa e tem entende coisas que para nós passa pela visão, de maneira olfativa. Por isso, o autor monta um mundo olfativo e as descrições que ele faz simplesmente não cabem em imagens. Como esta, que prende o leitor logo no segundo parágrafo do livro:

Na época em que falamos, reinava nas cidades um fedor dificilmente concebível por nós, hoje. As ruas fediam a merda, os pátios fediam a mijo, as escadarias fediam a madeira podre e bosta de rato; as cozinhas, a couve estragada e gordura de ovelha; sem ventilação, salas fediam a poeira, mofo; os quartos, a lençóis sebosos, a úmidos colchões de pena, impregnados do odor azedo dos penicos. Das chaminés fedia enxofre; dos curtumes, as lixívias corrosivas; dos matadouros, fedia sangue coagulado. Os homens fediam a suor e roupas não lavadas; da boca eles fediam a dentes estragados, dos estômagos fediam a cebola e, nos corpos, quando já não eram bem novos, a queijo velho, a leite azedo e a doenças infecciosas. Fediam os rios, fediam as praças, fediam as igrejas, fedia sob as pontes e dentro dos palácios. Fediam o camponês e o padre, o aprendiz e a mulher do mestre, fedia a nobreza toda, até o rei fedia como um animal de rapina, e a rainha como uma cabra velha, tanto no verão quanto no inverno. Pois à ação desagregadora das bactérias, no século XVIII, não havia sido ainda colocado nenhum limite e, assim, não havia atividade humana, construtiva ou destrutiva, manifestação alguma de vida, a vicejar ou a fenecer, que não fosse acompanhada de fedor.
SÜSKIND, Patrick. O Perfume: a história de um assassino. p. 5- 6
2. No cinema, as coisas são convertidas em ação.
Nos livros, não gostamos dos personagens apenas pelo que eles fazem ou faltam. São as impressões que eles têm ao encontrarem certos desafios, opiniões jamais expressas sobre outras pessoas, descrições de como seu modo de ser se encaixa na realidade. Na maioria das vezes, à medida em que o livro avança, começa um sentimento de familiaridade com os personagens. No cinema, eles são obrigados a transformar essas coisas em cenas, em diálogos estranhos ou aquela famosa voz de fundo. O livro, por excelência, é um lugar de viagens interiores:

Quando isso aconteceu, Orlando deu um suspiro de alívio, acendeu um cigarro e soprou em silêncio um ou dois minutos. Depois, chamou hesitante, como se a pessoa que procurasse pudesse não estar ali: “Orlando?” Pois se há (por acaso) setenta e seis campos diferentes, todos pulsando simultaneamente na cabeça, quantas pessoas diferentes não haverá – valha-nos o céu -, todas morando, num tempo ou noutro, no espírito humano? Alguns dizem que duas mil e cinquenta e duas. Do modo que é a coisa mais natural do mundo uma pessoa chamar, logo que fique sozinha, Orlando? (se esse é seu nome), querendo com isso dizer Vem, vem! Estou mortalmente cansada deste eu. Preciso de outro. Daí as mudanças assombrosas que vemos em nossos amigos. Mas isso também não é muito fácil, pois, embora se possa dizer, como Orlando disse (achando-se no campo e precisando de outro eu) Orlando?, o Orlando que ela necessita não vir; esses eus de que somos todos constituídos, sobrepostos uns aos outros como pratos empilhados na mão do copeiro, têm suas predileções, simpatias, pequenos códigos e direitos próprios, chamem-se como quiserem (e muitas dessas coisas não tem nome), de modo que um só virá se estiver chovendo, outro, se for num quarto com cortinas verdes, outro, se a Sra Jones não estiver lá, outro, se lhe prometermos um copo de vinho – e assim por diante; pois cada pessoa pode multiplicar com sua própria experiência as diferentes condições que impõem os seus diferentes eus – e algumas, de tão ridículas, nem podem ser impressas em letra de fôrma.

WOOLF, Virgínia. Orlando. p. 183


3. Cinema mostra a visão do diretor, e não do autor.

Os escritores mais interessantes e geniais tinham uma linguagem própria. A maneira como eles escreviam muitas vezes era mais interessante do que a história em si. Veja o caso de Ulisses, de Joyce, famoso pela maneira revolucionária com que foi escrito. Conhece um autor não se resume a saber o que seus livros dizem; a gente conhece um autor quando reconhece o estilo do seu texto. No cinema, a gente reconhece o diretor. O livro Grande Sertão: Veredas não é um clássico da literatura por causa de Diadorim ou Riobaldo. O interessante do livro é ser escrito assim:

Digo o senhor: como um feitiço? Isso. Feito coisa-feita. Era ele estar perto de mim, e nada me faltava. Era ele fechar a cara e estar tristonho, e eu perdia meu sossego. Era ele estar longe, e eu só nele pensava. E eu mesmo não entendia então o que aquilo era? Sei que sim. Mas não. E eu mesmo entender não queria. Acho que. Aquela meiguice, desigual que ele sabia esconder o mais de sempre. E em mim a vontade de chegar todo próximo, quase uma ânsia de sentir o cheiro do corpo dele, dos braços, que às vezes adivinhei insensatamente – tentação dessa eu espairecia, aí rijo comigo renegava. Muitos momentos. Conforme, por exemplo, quando eu me lembrava daquelas mãos, do jeito como se encostavam no meu rosto, quando ele cortou meu cabelo. Sempre. Do demo: Digo? Com que entendimento eu entendia, com que olhos era que eu olhava?
ROSA, Guimarães. Grande Sertão: Veredas p. 137

Outra

Houve uma época em que eu tentei gostar de futebol. Tentei assistir Copa do Mundo, tentei torcer pelo Brasil. Até decorei o nome de alguns jogadores: Raí, Leonardo, Roberto Carlos, Rivaldo. Tentava ficar triste quando o Brasil perdia a Copa – por causa do jogo e não pelo fim dos feriados. Assim como tentei aprender a distinguir carros. Se existir alguma autonosia – uma falha cerebral que torna a pessoa incapaz de distinguir carros – eu a tenho. Só sei distinguir alguns muito fáceis e antigos, como fusca, kombi, uno, brasília. De resto, é tudo redondinho.

 

Também achei que deveria ser mais equilibrada e pensar com lógica. Que deveria saber fazer contas mentalmente e sem ter que olhar e – pior ainda – tocar meus dedos. E seria bom acompanhar a política ao invés de me sentir angustiada e impotente. Queria ser capaz de discutir o governo, a oposição e o diabo a quatro durante horas, mesmo sabendo que ninguém muda de idéia com isso. Deveria me sentir importante pelos livros eu li, cursos que fiz, família em que nasci e outras coisas que nunca lembro.

 

Melhor ainda se eu parasse com essa mania de cortar o cabelo sempre curto, porque todo mundo sabe que os homens os preferem compridos. Deveria gostar de em ser comida com os olhos por estranhos e usar roupas que favorecessem isso. Quem sabe eu aprenderia a gostar de salto e usar maquiagem de verdade, aquela que inclui a base e a sombra. Maravilhoso mesmo seria se eu aprendesse a ser loira, a beber nem que seja vinho, gostasse de churrasco e fosse mais aberta até o último duplo sentido da expressão.
Até que um dia descobri que ser quem sou é a minha forma mais interessante.

Religar

Uma vez eu estava conversando com um médico. Ele me disse que tinha sido criado numa família católica e até foi coroinha. Mas que os anos passaram, ele amadureceu e se tornou uma pessoa livre de crendices. Ele só tem um sentido de divino; como diria o orkut, um lado espiritual que independe de religiões. Eu levei à sério, até ele completar:

– Mas a igreja têm razão numa coisa: quando diz que apenas o sofrimento purifica.

Violadores de igrejas, destruidores de imagens, fazedores de churrasco em sexta-feira santa… são todos cordeirinhos que fugiram de casa.